segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Homenagem

Setembro,10, em Luanda.Uma amiga prometera que me acompanharia ao Cemitério da estrada de Catete, Cemitério Novo, ou seu nome verdadeiro, de Sant'Ana. Cumpriu a promessa.Estava ansiosa por esse reencontro. Queria poder ver-me a caminho do seu lugar de descanso eterno.Queria contemplar de novo o seu rosto bonito protegido pelo vidro transparente que ali dura há 55 anos.Queria sentir que para além do dever que cumpria, não estava sozinha.Ela estivera sempre ali, na minha ausência.Ela estava ali à minha espera. E eu fui finalmente ter com ela.Foi uma grande emoção.Foi um momento único.Eu, a ANA, o guarda ( armado ) que explicou a sua arma, porque assaltavam, violavam e podiam até matar e ainda o motorista da Ana e três rapazes que pacientemente aguardavam à porta por pessoas como nós, para que pudessem ganhar uns kuanzas.Quase se faziam apostas. Que eu não conseguiria dar com o talhão, com a campa, com a minha avó...evidentemente que sim.Que fui lá ter direitinha e assim que olhei para ela, senti-me de novo a sua neta com o seu nome ( Dores )a que acompanhava o meu avô todos os domingos e o ajudava com o regador cinzento regando as flores, os cactos, que ele mantinha ali com tanto carinho. Eu conhecia aquele espaço como as palmas das minhas mãos. Começara muito pequena e apenas deixara de ir quando saí de Luanda em 75. Hoje, dia dos finados, era o dia em que o cemitério recebia mais vivos. Eu, o meu irmão e minha mãe repetimos esse dia durante anos. Os cemitérios nunca me fizeram mal. Nem as campas. A minha avó foi, sempre, nestes 33 anos que me separaram de Luanda uma lembrança doce desse tempo que atravessei em África e prometi que se fosse a Luanda, iria pôr-lhe flores.E fui.

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