sexta-feira, 20 de julho de 2018

a minha vizinha cusca

foto do google

A cusca do rés-do-chão surgiu de repente na caixa quando eu estava a pagar. Que queria tratar da saúde aos mosquitos, que assim que abre a porta de casa entram sem pedir licença e que mal ouve um, já passa a noite acordada, enervada com o zumbido, mais ainda com a picadela. E se fosse só um...diz que são às dezenas. O empregado não lhe prestou a mínima atenção, perguntando à colega da caixa seguinte se sempre havia o que a cusca queria. E ela percebeu.
- Olá vizinha. Lá tenho de fazer o truque do limão com os cravinhos da índia ( fui eu que lhe ensinei ). Também lá tem mosquitos em cima? Eu, este ano, são mais que as mães. 
Saí de fininho, deixando-a a falar com o empregado. Quando ia a meio da ponte pressenti-lhe a presença cusca. 
- Já viu vizinha? Nunca têm nada que a gente precisa. Nem as recargas para a mosquitagem. O que vale é que tenho lá limões e vou acabar-lhes com a raça.
Ela não precisa que eu fale. Pergunta, dá as respostas, muda de tema, fala dos netos e da filha, do cão, que está tão coxo quanto ela; e se andam os dois a passear-se na rua é tão hilariante quanto estranho, que é até maldade rir-me mas não consigo evitar . Ela enche a boca com o filho, o seu deus único e perfeito - ' o meu filho disse, sabe e tem, o meu filho deu, o meu filho fez e aconteceu ', este relambório há 14 anos, sendo que o tal não é flor que se cheire, com provas dadas, que se eu estivesse para aí virada tinha muito que dizer sobre o dito, mas filho é filho e cada um com os seus. 
Por falar nisso, a pergunta inevitável com cheiro a cusquice já tardava mas aconteceu - Os seus meninos estão cá? pareceu-me vê-los. O que é que ela não vê? Ah sim, vieram almoçar, disse. Então já não estão fora?! e eu pasmei. A cusca julgava que as crias estavam fora. Tem-lhe escapado muita coisa. Têm escapado ao seu radar. A janela para a rua já não é o que era, a porta de casa já não é toda ouvidos e ela está a perder pontos. Sobram-lhe os mosquitos.
Lidar com vizinhos cuscos é tentar escapar por entre os pingos da chuva, mas quando há temporal o melhor é abrirmos o chapéu de chuva. Foi o que fiz. Antes que vasculhasse a minha rica vidinha. Aonde nem sempre o sol brilha...

m.c.s.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

janelas de Sintra


fotos mcs

sintra




fotos mcs

alegoria

Se eu ainda sonhasse acordada, procurava um lugar em frente ao mar, para te imaginar...
E se ainda tivesse fé, oraria a Deus, aos Anjos e Santos também e sorria na esperança de dias de bonança...
Se eu ainda tivesse força na voz, pediria ao Universo a graça de abraçar esse plano de acreditar - ali em frente ao sol, ao luar, ao oceano...
E se ainda soubesse cantar, escrevia uma balada, poema da minha autoria, para te oferecer na chegada, como prova da minha alegria... 
Morreu-me o sonho de crer no que não vejo, não oiço, não pressinto. 
Não alcanço.
Hoje o tempo dá e tira, leva e traz - bem não faz, e eu que já perdi o voar, espero a noite tombar para disso me esquecer, adormecer e no sono profundo, sonhar...

m.c.s.

quinta da Regaleira







fotos mcs

caminhos de Sintra e da quinta da Regaleira






fotos mcs

terça-feira, 17 de julho de 2018

sexta-feira, 6 de julho de 2018

exploração ou não ...eis a questão...

Vinha eu com fome, músculos doridos da aula de yoga e cansada do autocarro; de conversas de deitar fora, piadas e bocejos, com 4 pratos partidos logo pela manhã e mal sabendo que o 5.º estava para partir mal chegasse a casa, quando em frente à Lusófona entrou uma jovem que se sentou ao meu lado. Pegou no telemóvel e iniciou uma conversa. Ouvi-a dizer que trabalhou no domingo à noite num restaurante do Chiado. A lavar pratos. Coincidência? Prestei atenção pois os pratos estavam na ordem do dia.
Queres só saber quanto é que me pagou? Eu cheguei lá e me apresentei no trabalho como ele tinha falado no Helder. Me mandou p' rá cozinha lavar pratos. E eu burra não lhe perguntei qual o salário. Não tens a mínima ideia, amiga. Toda noite a lavar pratos, saí dali com uma dor de costas... Me pagou bem? Nada. Das 21 às 00,30 me pagou só 30 €. Jantei lá. Mas 30 €? Nunca mais. Tenho o meu emprego. Ele julga o quê? Quando terminei lhe perguntei pelo salário, me deu na mão, contei e 
fiquei só a lhe olhar. Me disse que paga assim para todos. Apeteceu-me lhe atirar o dinheiro nas fuças. Sim, a casa fica cheia o tempo todo. Toda hora se lamentarem mas tem restaurante que tá-se bem. Bué de gente a trabalhar. Estrangeiros. Portugueses? Só duas meninas na sala a servir. Tem indiano ou quê, moldavo, brasileira e eu, angolana. Não sei se ilegais ou quê...
Na paragem seguinte saiu. Eu fiquei a fazer contas. Recebeu mais do que 7.50€ por hora, já que trabalhou 3 horas e meia. As empregadas domésticas por aqui ganham esses 7,50/hora. Uma empregada ocasional, levar para casa 30 € por lavar pratos numa cozinha, com jantar, é exploração? Sei bem que 30 € não pagam um passe mensal, metro/ carris mas ajuda e muito. Digo eu, que se calhar seria um desastre a lavar pratos a avaliar pelos que parti num só dia. Mas quem precisa tem de se fazer à vida. A qualquer preço? Eis a questão...

m.c.s.

foi ontem - 5 de julho - parabéns ao escritor

'' Fazer amor, sim e sempre. Dormir com uma mulher, isso é que nunca. Dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de uma mulher e a sua alma transfere-se de vez. Nunca mais ele encontra as suas interioridades ''.

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra
Mia Couto

O meu contacto com Mia Couto é dos livros. Colecciono-os sagradamente, relíquias, que os considero, já que é um dos meus escritores preferidos. A delícia da sua escrita sabe a africanidade, generosidade, talento, verdade e melaço. Também as metáforas na sua inteligência e profundo conhecimento dos povos e dos sentimentos, abrem-nos caminho para a exploração da nossa própria originalidade, sensibilidade e criatividade, onde a imaginação encontra motivos para ficarmos cativos do que vamos descobrindo em nós, proporcionado pelas palavras que tão bem sabe tecer num manto que borda ao mesmo tempo que nos abraça e comove. Inspira e toca o mais puro que em nós habita.
O meu contacto com Mia Couto é dos livros. E uma única vez, breve, olhos nos olhos, mão na mão e palavra com palavra. Foi na apresentação de um livro. Perguntou-me porque não levara comigo todos os livros dele - que os assinava. Porque lhe disse ter quase todos os livros da sua autoria. Acrescentando sem me envergonhar, numa ousadia sem filtros que a idade me dá, que era um dos meus escritores preferidos.
O meu contacto com Mia Couto é o contacto que todos os que gostam de ler, fazem, por terem quando escolhem como mais respeitável e próximo o seu escritor de eleição. 
Hoje completa 63 anos. Como Caranguejo que é, inspira quem toca. E ele tocou-me desde que o descobri.
Parabéns ao escritor e poeta. E que a inspiração não lhe falte por muitos e longos anos de vida saudável, para ir tocando leitores e convidando-os ao mundo da magia das palavras vivas e sagradas.

m.c.s.

terça-feira, 19 de junho de 2018