Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

ao domingo, minha terra


Ao domingo, minha terra
De saudade mais bonita
Na lembrança de menina
Ao domingo, minha terra
Mais garrida
Mais amada
Mais florida
Ao domingo, minha terra
Um dia qualquer da semana
Quero poder te abraçar
E escrever no teu e meu chão
Juro por  sangue de cristo

Não vou nunca mais te deixar


m.c.s.

vitória


O Denis ganhou o concurso A Voz de Portugal.
Está de parabéns bem como o Xarepa e a Adília.
Torres Novas pode orgulhar-se deste filho da terra. 
Eu votei e gostei muito desta vitória
.  

a rua

foto tukayana.blogspot
Há ruas que abrem caminhos para o reencontro.
Sempre que voei para Luanda, desbravei caminho.
A rua? Foi esta.

hoje foi assim


Sento-me no banco que escolhi. Não no escolhido pelo computador. Aliás, este andou para me pregar uma partida e uma maior ainda ao funcionário da bilheteira onde apareci um pouco esbaforida, pedindo bilhete para Lisboa, de ida e volta. Não sei se trocámos as voltas ao computador se foi ele que quis pôr à prova os nosso nervos. Na verdade já tinha dado como perdida a viagem no autocarro das 10,30. A meio caminho desacelerei porque devagar se vai ao longe e eu já estou velha para pressas, outro havia para as 10,45, por isso e porque afinal não ia a fugir à polícia nem ao encontro do príncipe encantado, o meu encontro era com uma princesa que espera se não esperar eu, desisti sendo que não gosto da palavra desistir mas às vezes desistir significa viver algo que não viveria se o não fizesse. Falei com os meus botões que não havia crise, fraca já eu sou muita vez, e  não vou agora, vou depois, tudo na paz que conflitos eu tenho de sobra, para levianamente criar outro. Era o que mais faltava. Dei-me ao luxo de ver a montra da loja do chinês que estava coloridíssima, nos manequins deprimentes porém exibindo os seus melhores trajes  de azul elétrico, verde bandeira, rosa choque, a laranja forte, as cores da moda para esta estação que se aproxima dando berrida a este inverno desnaturado que mais parece quis tirar lugar à estação das andorinhas e das flores. Talvez estranhem esta minha confissão, por parar, senhores, parar em frente a uma montra de chineses. E não é que até entro? Eu não sou dissimulada. Conheço muito boa gente que não só entra como compra paletes de roupa que mistura com outra de lojas consideradas de marca e finge que nem sabe o que são chineses. Nunca viram, nunca compraram, têm raiva a quem comprou. Ainda não foi desta que entrei para ver se por lá haveria algo que me agradasse. Não, porque agora até nestas lojas os preços aumentaram num upa upa que a minha conta anda no prejuízo a que a votaram que nem sei se é legal mas que me roubam a cada mês roubam.Estava eu a dizer que dada como perdida a dita viagem das 10,30 pude passear-me qual turista folgada até à garagem dos autocarros. Lá chegada, numa tranquilidade de sábado de manhã, beijada pelo sol e afagada pelo perfume das flores que timidamente despontam, verifiquei não ter partido ainda o autocarro das 10,30  o qual desprezei antes, a meio caminho da chegada, recusando-me a arfar que nem uma louca num caminho que sei fazer de olhos fechados mas os meus pés se recusam a atropelar-se, dentro duns sapatinhos de salto alto; eu e os sapatos, os saltos e eu, mais os tralhos que não me apetece dar, porque doi para xuxu.
- Ó! Não evitei exclamar apressando o passo não fosse morrer na praia. 
O motorista, meu velho conhecido destas andanças, ao ver-me chegar apressada, sorriu.
- Ainda posso comprar o bilhete? 
- Claro, disse, dirigindo-se comigo ao interior das instalações. 
E foi assim que depois de muita insistência do senhor da bilheteira, lá sairam os meus bilhetes e  me vi sentada, na direita do autocarro, numa escolha que só se não puder é que não faço. 
Como as coisas são. Para além de canhota, a direita dos nossos Primeiros (?) não é comigo. Nem nunca será. Não me chamo Zita. Mas nas viagens é. De automóvel, comboio, barco ou avião sempre escolho esse lado da paisagem, do mar, da asa.
Deve ser de tantos anos me sentar à direita, não de Deus Pai, mas de um marido por mim endeusado. 
Reminiscências do passado que não me incomodam o presente e que se não perder no futuro, não faz mossa. Haja viagens. Na direita ou na esquerda. De costas ou de barriga. No autocarro das 10,30 ou d'outra hora qualquer. Sempre olhando para cima e sentindo que Deus me conduz desde a partida até à chegada.
Hoje foi assim uma das minhas viagens.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

esperança


foto tukayana.blogspot

Sentei-me no fim de semana. 

O sol lambe-me as feridas antigas e recentes.
O mar segreda-me navegações. 
Vôos de gaivotas, chegada de andorinhas
E vozes de kiandas entoando canções. 
Parece-me ver ao fundo escrito na linha separadora - esperança.
Entre a espuma e os céus.
Entre o ontem e o hoje.
Entre o eu que se envelhece e o outro renovável nos dias.
A cada desencanto, a cada esforço, a cada virar de página.   
Quero navegar neste descanso que a saudade vai intervalar com os afetos. 
Sentei-me no fim de semana. Em frente ao sonho.
Em frente ao mar da minha ilusão.
Não para observar.
Não para me fustigar.
Não para me esquecer de mim.
Sentei-me à espera de ti.
De tudo o que o sábado traz, para ser feliz.
Sentei-me à espera de mim...

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

é sexta-feira

Finalmente sexta-feira...
Não sei porque passamos uma semana à espera de sexta-feira. Há-as que são um tédio.
Cheguei à santa terrinha à beira-rio plantada, há pouco tempo. Ainda o sol ia alto e o ar cheirava a primavera antecipada. Fui fazer uma visita rapidinha à caçula, que está a trabalhar.
- Queres morangos? Comprei um saco. E bolo de cabeça? disse-me. E percebeu sem que eu gastasse muitas palavras e intenções que hoje a coisa está preta. E de repente um brilhozinho nos olhos e ficàmos a navegar no mesmo barco. E a vida por vezes é sacana, nas horas do diabo. E quem quiser exorcizar as suas frustrações, tristezas, revoltas, cansaço, que faça uma visita à minha caçula. Está ali uma resistente. Uma sobrevivente. Uma heroína.
Hoje, impelida a isso fui dar-lhe dois beijos. Talvez para me sentir mais estúpida e ingrata. Como é que eu me queixo à minha caçula? E recebo sorrisos e um brilhozinho nos olhos. E morangos e bolo de cabeça...
De seguida e para me animar,  fui ao quiosque da Fernanda comprar o euromilhões. Esta assim que me avistou fez-me uma festa de foguetes com canas e tudo, que me fez sorrir. Faz sempre. E eu sorrio sempre. Parece que me está a dar colo. Eu sinto-o como tal, sempre. Hoje mais que sempre.- Dona Clara, está boazinha? Há tanto tempo que não a via. E os meninos estão bons? - a Fernanda sabe que deve perguntar apenas pelos meninos. Eu sei que ela sabe e ela sabe que eu sei. Brinco com ela a propósito do euromilhões. O patrão ri-se também e a arquiteta da câmara idem, numa de pressa de ter o seu carro a estorvar o trânsito. 
Dirijo-me à farmácia. Doi-me a cabeça. Nunca compro aspirina. Não tenho os medicamentos que toda a gente tem em casa. Vai para lá de quatro anos. Os C Gripe, benuron, aspegic, iluvico, renis, pomadas disto e daquilo, água do mar, aspirina. Pois, aspirina. Ando com ideias apertadas e  e que doem. E aspirina pareceu-me bem. Pedi. A menina que julgo ser farmacêutica, pois conheço todos os outros e sei quem é quem, antes de ma ir buscar, perguntou à cautela - De qual? E eu fiquei a olhar p'ra ela com cara de couve. Mas há várias espécies de aspirina? E sou eu uma hipondríaca. Na verdade já não se fazem hipocondríacos como antigamente. Ainda bem, pois já me basta saber os sintomas. Que inferno seria a  minha vida e dos que me rodeiam se eu estivesse para aí virada.
A menina explica que há a aspirina que só serve para as dores de cabeça e para prevenir tromboses. Pois, é mesmo dessa que eu quero. Mas fiquei a pensar nisso. Então fabricam aspirina só para esse efeito? Eles inventam cada uma...afinal o meu amigo que toma aspirina todos os dias tem razão. Ele tem medo de morrer que se péla. E aqui vai disto que é uma pressa, uma aspirina cada dia que passa, não que é pr'ós outros, como se isso fosse assim, digo eu que sou uma leiga, mas não me parece que apenas a aspirina resolva, embora da minha convivência diária, em tempos que já lá vão com o dr. Ataíde me ficasse que a aspirina é o melhor medicamento do mundo e à época, o mais barato. Não hoje, pois o inderal não chega a custar 2 euros. Quem é que é poupadinha até nas doenças? Isso é outra coisa que um dia destes mando para as urtigas. E seja o que este corpinho e cabeça quiserem. Mas diz que é preciso fazer o desmame e  francamente cheira-me a ressaca e não gosto.  
Sigo para casa. No entretanto paro na Ritinha para comprar uns mimos para umas certas pessoinhas que quero abraçar este fim de semana. Não posso com uma gata pelo rabo. Estou cansada, doi-me a cabeça e ainda tenho de esperar que se faça noite para sair às compras ao hipermercado. A cama acena-me e eu quase cedo. Não fosse a minha Pitanguinha não ter que comer e já não saía de casa. 
Hoje estou para lá de Bagdad. Fiquei deprimida quando passei pela mulher do doutor. A senhora professora reformada. Achei-a frágil, velha e triste. Era uma mulher com um porte elegante, bonito e requintado. Superior e altivo. Finíssima. Uma senhora. O doutor deu-lhe cabo da molécula a vida toda. E ela sempre de pé como as árvores. Morrendo aos poucos, mas sempre de pé. Ele, o doutor também está uma sombra do que foi. Cruzei-me com ele há uns dias. Mal conseguia andar direito. O sobretudo coçado, os jornais debaixo do braço, a barba por fazer e saindo dum boteco de baixa categoria. Sempre lhe puxou o pé para o chinelo. Um homem  tão inteligente... Espertíssimo. Defendendo os arguidos com unhas e dentes, fosse num homicídio, num furto ou naqueles processos complicados de droga que há tantos. As suas alegações finais eram de ficar a ouvir e a babar. Um homem cheio de mundo. A libertinagem atirou-o para um isolamento deprimente e quando me cumprimentou - Boa tarde Clara! a voz já não tinha a firmeza, o desassossego, a inquietação e ambição de outros tempos. Sinto pena deste homem inteligente que está envelhecendo sozinho porque escolheu assim e todos o abandonaram e não tem gente da sua forma de estar na vida nem da  sua sapiência. Ao ver a mulher chamando o cão, no jardim da casa deles, doeu-me a alma. Jamais imaginaria que um dia envelhecesse. É que há gente que a gente pensa que nunca se deixa acabar. 
Hoje não estou para amar embora olhasse a lua, que ainda que pequena, está linda. Perguntei ao mano Zé:
- Que lua é aquela? 
- Não sei, não sou deste bairro - rindo a bandeiras despegadas.. 
Pois é, a maka da lua  é antiga. Se é dê de crescente ou se é de minguante. Na escola,  esta dúvida que tem a ver com os hemisférios, sempre me angustiou e também ao mano Zé. Mas já sei que é dê de crescente. O google serve para isso.
Há sextas-feiras complicadas. De sono e tédio. Cansaço, estupidez e tristeza. Amanhã é outro dia. Espero que melhor

uma noite pela cidade


Uma noite na cidade percorrendo-a a pé pode ser interessante para estudo sociológico, eu que levo a socióloga ao meu lado. Às 8,45 já estou pronta para a caminhada. Agarro uma maçã, o meu jantar, o almoço foi leitão, mais porco que outra coisa, e nem a pele estaladiça me convenceu, nem aos restantes. Para além dum enjoo pedindo água gaseificada do Lidl, água das pedras cá de casa, ainda me impediu de jantar o que não me parece mal tendo em conta que não me faz falta nenhuma.
Quando descia as escadas os meus vizinhos menores, aqueles três da vida airada, que me  lembram eu e todos os tus do meu bairro, corriam dentro de casa como se não houvesse amanhã, batiam portas num traaaaaz seco e estridente, gargalhavam e gritavam o nome uns dos outros. Danielaaaaaaaa, larga-me. Vou dizer a mãaaaaaaae. 
Não me incomodo com a traquinice deles. Recuo no tempo se os vejo brincando na rua , entre o Café da mãe e a nossa porta. São os únicos putos que brincam na rua,  como se esta fosse  casa. Noite fora.
Que saudades eu sinto da minha cidade, da minha rua, das noites estreladas, de mim...
Enquanto como a maçã, desço as escadas.  Não sou apreciadora. Forço-me a gostar porque dizem, faz bem. Gosto das bravo esmolfe e das verdes. No tempo em que brincava na rua até de noite, comia maçãs que chegavam da África do Sul e o pai vendia lá na loja. Também gostava das maçãs do sul, pequenas e ácidas. No mercado de  Peniche vendem-nas. Chamam-lhe maçãs da praia. Ácidas que até se sente nos ouvidos, no céu da boca, nos pulmões, mas eu gosto. Me sabem às do sul, mais sul que este sul.
Paro em frente à passadeira. A Augusta e o filho atravessam-na sorridentes. O miúdo cresceu tanto que acho quando o vi a última vez não tinha mudado a voz nem tinha buço. A Augusta é fixe. Vizinha discreta mas sempre lá, para o que fôr preciso. Mora por baixo de mim e não dou por ela senão quando grita com os putos. Gosto da Augusta, mais do que do marido, que se se cruza comigo nas escadas, rosna,  de olhos no chão. Não sei como é que a Augusta se perdeu por aquela coisa tão mal acabada, mas cada um é pr'o que nasce.
Finalmente, a minha companheira chega. Para iniciarmos a passeata. Quem nos vir nestas andanças e tiver sentido de humor, o que não é p'ra todos, farta-se de rir à nossa custa. Não admira pois somos as primeiras a divertirmo-nos. Entro no carro. Paramos adiante, junto à casa mortuária que está iluminada, e com alguns vivos. E seguramente, um defunto. Tenho a certeza de que não há um cidadão desta cidade que não olhe a mortuária quando lá há luz e não tenha curiosidade para saber quem partiu. Afixam aqui e acoli e como afinal conhecemos ( quase ) toda a gente vamos espreitar o papel afixado no largo da E.P.P. Por acaso conheço. Duma rua onde conheço quase todos os residentes. Onde vivem duas pessoas  em tempos muito vivaças e agora embora vivas fazem-se de mortas, mas isso são outros quinhentos. 
Hoje trocamos as voltas. Fintamos os caminhos. Seguimos, pondo a conversa em dia. Embora não fosse tarde nem estivesse frio, este povo não sai às ruas. Pergunto-me se estarão como estou eu agora, agarrados ao computador, ao facebook e outros. Decidimos descer a rua do incêndio do fim da tarde na casa colonial lindíssima e abandonada, que fora pertença duns colonos que fizeram fortuna em Angola nos anos 50 e 60. Ainda cheirava a queimado. A sirene dos bombeiros tocou muito tempo e o fumo negro nos ares era assustador. Visto isto, descemos a rua direitas ao centro. Pelo caminho fomos a par e passo com um antigo conhecido. É uma criatura da cidade, conhecida pela sua função e por outros motivos também e que toda a vida conduziu sem carta de condução porque é muito cegueta, e nunca foi multado, apanhado e levado em sumário para responder em tribunal, o que não deixa de ser curioso e estranho. Se sempre foi pitosga, agora está pior. E, ou não me conheceu ou não quis conhecer pois nunca se me dirigiu. Porque seria? Constrangimento? Encolho os ombros. Nunca foi flor do meu jardim, mesmo... 
Passamos a rua das lojas sem que víssemos viv'alma. Chegadas ao carro decidimos por outra  passeata. Pelo centro da cidade. Até ao castelo. Como fiscais. Revistando as mudanças. Que as há. Um dia destes estamos na 3ª feira medieval da cidade. Uns dias de beleza, animação e fantasia. Gosto desse evento. Acho que todos gostamos. Não há como não gostar. As obras do hospital velho também vão adiantadas. O edifício, outrora da Misericórdia é bonito e sem aquele muro enorme a protegê-lo, pode ver-se em todo o seu esplendor. 
A caminho de casa demos conta duma enchente excepcional, na esplanada da avenida, junto ao rio. Apenas o grupo da esquerda desta praça costuma assinar o ponto ali. Quer de inverno quer de verão. O grupo mais credível que conheço. Por razões que considero preciosas. Hoje, juntaram-se outros. Para o Sporting. Futebol e política?! Porque não? 
A minha companheira desta noite deixa-me finalmente em casa. Espera que eu entre como sempre. Gosto que esperem que eu dê à chave. Todos sabem da minha velha dificuldade na abertura. Já fiz de tudo. Fingi que não estou nem aí e  nada. Fui de chave em punho direita à fechadura e nada. Fui nervosa, apreensiva, furiosa ou revoltada com a minha falta de jeito e nada. Por isso agora...seja o que Deus quiser. Hoje Deus quis que a porta estivesse aberta.
Uma noite pela cidade, percorrendo-a a pé e também de automóvel pode ser interessante. Se esta o foi? Ah! Se calhar foi.  Uma certeza eu tenho, interessante ou não tenho que ter muitas noites como esta porque não posso deixar de andar. A pé.  

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Birdy - Shelter [Official Music Video]

os iluminados

foto tukayana.blogspot
Como foi possível?
Foi. Foram os iluminados deste país com poderzinho e muito pouco mundo...
Para que conste, Castelo de Óbidos.

Zeca Afonso - Vejam Bem

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

procuro-te



Procuro-te
Só eu sei porque te procuro...

Sótão empoeirado de memórias
Perfume perdido na gaveta
Carta ainda selada


Beijo sabendo a maresia
Pássaro voando na noite
Música pautada de saudade
Onda batendo na rocha
Chuva tocando a vidraça
Campo de rosas brancas
Estrelas nascendo nos céus

Procuro-te
Abraço que me faz desejar 
O sonho que me faz levitar
E partir
E ficar
A sorrir
Por te encontrar...

m.c.s.

sem palavras


Depois do Acordão do colectivo do processo do Rui Pedro, que terminou com a absolvição do arguido, a irmã de Rui Pedro disse entre outras coisas: 

...NÃO VAMOS PARAR NUNCA... NÓS VAMOS CONSEGUIR, SÃO CATORZE ANOS, ISTO TAMBÉM DÁ UM BOCADINHO DE MÚSCULO, NÓS VAMOS CONSEGUIR!

ganhador. Porque não?!


A caminho de casa, paro numa montra para ver as novidades. Não que queira comprar. Apenas um flirt com o lado de lá. Um bater de pestanas. Avaliação da mercadoria. Apreciação da beleza. Consulta da lista de gente a quem dou prendas de aniversário. Enfim, um namoro que gosto de ter, num tu cá tu lá que estás aí muito bem e se ninguém te quiser pode ser que eu lá vá se sorrires para mim como hoje.
E estava eu nesta coisa agradável de nada ter que fazer antes de ir para casa, senão mais adiante entrar na loja da Ritinha à procura de batata doce assada, queijo Lourenço, de Castelo Branco, pão de sementes e leite de soja, quando oiço a Adília. A mesma de sempre.  
- Parabéns Adília. O  Denis está na final. Sorriu, sem mostrar um pingo de vaidade.
- Pois. Ficaram quatro, qualquer um pode ganhar.
Ficamos um pouco à conversa. Depois seguiu para casa e eu entrei na loja da Ritinha.
As desejadas batatas lá estavam à minha espera. E todo o resto.
Já a caminho de casa voltei a pensar na Adília.  
Na verdade são quatro os miúdos que estão na  final domingo. Só um ganhará.
Eu gostava muito que o Denis ganhasse. Porque o conheço desde menino. Porque foi colega da minha cria. Porque conheço bem os pais. Porque canta e toca muito bem.
Na verdade sou da equipa do Denis. E quero que a minha equipa ganhe. Espero que o Rui Reininho tenha mais sorte que o Jorge Jesus neste último jogo. Acontece aos melhores.
Ao Denis ninguém lhe tirará a popularidade e o reconhecimento de que é um músico em crescimento e que será grande na cena musical.
E porque estamos quase no tempo das cerejas ( já aí vêm? que saudades! ), se ganhasse o concurso, seria a cereja no topo do bolo. Ora bem! Ganhe o Denis! 

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

carnaval ou talvez não


Terça-feira de Carnaval.
O sol já ia alto quando saí de casa. Para trabalhar.
Quando dobrei a esquina da escola percebi que ali era feriado. É sempre feriado neste dia, ali e em todo o lado. Chamem-lhe o que quiserem. Tolerância de ponto, a despachar ano após ano, a sair em Diário da República, ou outra coisa qualquer, mas hoje costuma ser feriado. Não é, mas devia ser como nos outros carnavais. Bem sei que houve um ano de excepção. Apenas um. Roubado que foi pelo outro senhor da mesma cor e do mesmo Carnaval apalhaçado em que nos querem forçar a sambar.
Dobrei a esquina da escola. Dobro sempre a esquina. Hoje em silêncio.
Percorro a cidade a caminho do viaduto, na maior solidão. Como se fosse domingo ( imagino eu, que não me perco por estas bandas ao domingo de manhã ). O viaduto parece-me muito mais íngreme e longo. Estou quase a chegar ao cimo e surpreendo-me com as amendoeiras que floriram em três dias, ou sou eu que não reparo. Pensando bem nem me tinha apercebido que havia ali amendoeiras, agora em flor. O telhado da quinta das Vieiras está branco como a neve, do gelo da noite. Porquê que não neva nesta região? Era muito mais giro. Trazia pessoas. Era tudo diferente. Foi uma festa quando, das três vezes, apenas três, desde que vivo nesta terra, nevou. Nem queria acreditar. Olhei para o outro lado do viaduto e avistei a casa daqueles dois que no sábado encontrei no Lidl. Todos bem dispostos. Mais anafados e velhos. Mas amiguinhos e bem dispostos. E não é que fiquei com cara de tacho? Pois se me juraram a pés juntos que eu vi, que ele tinha dado às da vila diogo com uma colega, o óbvio, o mais óbvio, a que está ali mesmo à mão que nem é preciso procurar muito, e que não acorda desgrenhada, nem põe o avental, nem agarra no aspirador, nem lhe doi a cabeça...
O que são os boatos!
- Estás boa? - Estou, disse eu - Mas estás mesmo boa? perguntava ela. A minha filha disse-nos que te viu hoje logo de manhã, às 9 horas, no Modelo. E a mim só me apetecia perguntar-lhe - E tu? Não devias ter um par de cornos a enfeitar-te a cabeça? Porque raio a tua filha, do nada, te diz que me viu se passaram anos sem que convivêssemos? Isso é que vai aí uma quadrilhice. 
Ah, viu-me com o mano Zé e pensa que estou de namorado novo. Só pode. Não digo nada sobre o assunto. Há-de lá chegar com montes de truques para que eu não perceba. Conheço as peças.  
A casa está na paz de Deus como toda a cidade. Dorme-se. Indiferente à minha presença e ao meu cansaço. Ande eu o que andar chego sempre lá acima a deitar os bofes pela boca. Dois gatos brincam um com o outro indiferentes à minha passagem. Um igualzinho à minha Pitanga, mas mais gordo, o raça da gata come gambas com atum, a sortuda, e ainda assim não engorda. O outro era um amarelo listado giríssimo. Não fosse eu saber por experiência, e tentava ter um gato amarelo para fazer companhia à Pitanga mas ela jamais aceitará. 
Cheguei finalmente ao meu destino. A boleia que me levará para o local de trabalho. Nem um automóvel se cruzou ou  passou por mim. Nem uma pessoa eu vi desde que saí de casa. Apenas na pastelaria algumas pessoas tomando o pequeno almoço, nada mais.
Hoje é terça-feira de Carnaval. Na verdade se não fosse trabalhar nem sei o que faria.Olhem, se calhar eles têm razão. Feriado? Porquê? Costume popular? Quem liga a isso? E depois, quê dele o dinheiro para irmos para a gandaia? Assim como assim, o meu subsídio de refeição está ganho. E amanhã já é quarta-feira. De cinzas...diz que é dia de não comermos carne. E eu que perguntei qual a  sopa que no café do bruno terão amanhã, e feliz da vida, com os olhos a brilhar, excitadíssima com a novidade, a empregada que se tornou simpática desde que servem refeições disse de uma só vez - sopa da pedra.
Estão a ver não estão?  

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

o mar, o sol e a rocha




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ela e o crepúsculo

foto tukayana.blogspot
A caçula a caminho do pôr do sol mais lindo do mundo na falta do pôr do sol mais lindo do meu mundo.

surf na Consolação



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ando por aqui e por aí...


Ando por aqui e por acolá lendo o que uns e outros escrevem, comentam ou postam. Leio os jornais de Angola. Alguns de Portugal. Vejo blogues. Os e-mails. Insisto em querer mandar fotografias à caçula, tiradas no fim de semana que passámos juntas a oeste do país, ali bem juntinho do mar mais lindo desta ervilha, mas não consigo mandar mais do que uma de cada vez o que me dá nos nervos porque esperar não é o meu forte. Sou muito naba nesta coisa dos computadores e tudo o que sei é porque a cusquice me faz  procurar a forma de me despachar nisto para não perder pitada do que me interessa, mas  às vezes dou com os burros na água como foi quando resolvi aceitar o google chrome e fiquei impedida de escrever neste blogue, à hora do almoço,  no trabalho. Morri do meu próprio veneno, que é para aprender a não ser atrevida e abusada.  E ainda quando quis ser como  outros e ter um mural com a tal nova cronologia. Tudo bonitinho e tal e coiso mas cada publicação que faço tem mais olhos que barriga e não há forma de encontrar jeito para as reduzir a fim de caberem no espaço e não ser uma coisa esteticamente aberrante. Se por acaso há aí alguém que se tenha perdido por aqui e leia isto e mais importante que isso, saiba como se faz, explique-me por favor como se eu fosse muito loira.Ando por aqui e por acoli e nem a idade nem a vida me calejou e me tornou indiferente, quanto a umas coisas que acontecem e que me tiram do sério ou me envergonham. Sim porque eu ainda sinto vergonha. Aliás, acho que cada vez mais. Da falta de inteligência. Da falta de senso e de sensibilidade que para aí há.Quem escreve fica sujeito. Põe-se a jeito. Mas...de quê? Pergunto-me, não percebendo porquê que tem de se condicionar a escrita, seja eu a escrever ou outro qualquer, quer dizer, qualquer não, quem sabe o que está a escrever, condicionar a sua inspiração porque há criaturas, quer dizer, só me apetece chamar-lhes idiotas, mas não, é um pouco forte demais, que levam tudo à letra? E pior, acham que pode ser tudo real, pode ser um estado de espírito que se vai prolongar no tempo, podem ser o confidente do autor...Sinto uma certa inquietação, um crescendo de mau feitio e só me apetece mandá-los plantar batatas, pentear macacos, dar uma volta ao bilhar grande ou mesmo verem se eu estou na esquina. De facto quando não coro de vergonha por essas pessoas que nos dizem coisas como, estás em dia não, ou estás muito bem disposta, ou ainda, que foi que aconteceu para falares em fim? e coisas bem piores, como se fossem a nossa pele, o nosso coração ou o nosso computador, cresce em mim não a indiferença,  que é um estado muito confortável, porque encolher os ombros relaxa para lá duma dúzia de músculos, mas eu não sou um ser superior e isso incomoda-me, cresce em mim um nervoso bem miudinho tão miudinho que me seguro, conto até 10 para não me saltarem palavras que essas sim todos perceberiam o seu sentido.Ando por aqui a ler uns e outros e percebo que há gente que quando escreve arrisca dar pérolas a porcos. Pronto. Disse. Está dito. Por mim acho que talvez um dia se acaso tiver pérolas para oferecer,  já esteja nesse estádio superior e encolha os ombros à leviandade de quem lê e comenta como quem bebe um copo d'água. Queira Deus que sim. Que possa ter pérolas para oferecer. E sim, que espiritualmente seja um ser superior. Por enquanto...um simples mortal que tem a mania de se exasperar com o que acontece aos outros mais até do que com o que lhe acontece.

a nova baía de luanda






A nova baía de Luanda.
Obrigada pela partilha G.M.

hoje entristeci


Ao domingo de manhã se o telefone toca, há meia dúzia de pessoas que podem ligar. Não mais.E assusto-me. Assusto-me sempre com o telefone se foge  à rotina das minhas pessoas e não  as reconheço no visor. Foi o telefone que me deu as piores notícias que já recebi.

Hoje o telefone tocou. Era o Luís. O amigo da infância linda passada entre as mulembeiras e o largo Camilo Pessanha da Vila Alice. 
" Estive a falar com o Kaquito " disse. O Kaquito é o Eurico Moreira. Outro amigo da mesma infância. Se à casa dele, Luís,  ia com frequência comprar borrachos para a dona Celeste fazer canja para os doentes lá de casa, era eu miúda de 7, 8 anos e à minha casa ele ia por dá cá aquela palha, comer peixe espada frito em óleo de palma, numa caçumbula à cozinha, ouvir os relatos da bola de domingo, ou fazer recados a mãe, dona Maria, à casa do Kaquito eu ia com tanta insistência que mais parecia que vivia lá mesmo. A irmã mais nova deste, a Lisete, era a minha amiga do peito. Sempre juntas, sempre amigas, unha com carne. Desde candengues tão candengues, que foi assim que comecei a andar e a falar. Foi assim ao longos dos anos. Não a vejo há uns anos, poucos, mas mora no meu coração velho e cansado mas cheio de amor pelos meus amigos.
" Estive a falar com o Kaquito " disse o Luís ao telefone.
O Kaquito hoje faz anos. Antes de adormecer dei os parabéns pelo facebook. Ele está em Filadélfia há uns anos depois de ter vivido no Porto muito tempo. A última vez que o vi foi pouco antes de ir para os E.U.A.
" O motivo pelo qual te ligo é triste " - e eu senti o coração bater forte. " A dona Rosa... "
A dona Rosa, a querida e saudosa dona Rosa é a mãe do Kaquito, da Laura, da Lisete e do Dito.
Comadre e vizinha da tia Fernanda anos a fio, mulher do grande amigo do sô Santos, sr. Eurico, um dos poucos amigos a quem o pai tratava por tu e que todas as tardes depois do trabalho ia para a loja beber cerveja e comer camarão ou jinguba e conversar com o pai. Dona Rosa, amiga da mãe e da tia e de todas as mães e tias do largo Camilo Pessanha. Tinha memórias de mim e do meu mau e desajeitado feitio que nem eu lembrava. A última vez que estivemos juntas, na Marinha Grande, num almoço de todos os antigos residentes do largo, fiquei a saber que atravessava o largo, pequenina que eu sei lá, para ir aos ovos a casa da Dona Ester que vivia numa cubata bem no centro do largo, uma mulata de cabelos encaracolados e brancos da idade e de óculos muito graduados, e trazia, tentava trazer, os ovos para casa mas não chegavam inteiros porque ou os partia ou ( que nojo, rsrsrsrs )os abria com os dedos, fazendo um furo e os bebia.
Aiuê, o que me custa imaginar isto! Mas a dona Rosa, que me chamava de Clarita, rindo em gargalhadas sãs e cristalinas contava, a mim e a quem quisesse ouvir:" Clarita, a mãe mandava-te aos ovos e tu fazias um furo e bebias e eu ralhava contigo mas tu não ligavas ". E se ela o afirmou, apesar de muito me custar, eu acreditei. E num segundo, assim como que num flash consegui imaginar e quase me vi atravessando o largo dengosa e altiva a caminho da cubata da Ester e a dona Rosa junto do coradouro da roupa, uma rede retangular talvez dois metros por três com quatro pés, que dividia com a tia Fernanda que na altura era apenas a menina Fernandinha, Nanda para o tio Augusto, observando a minha atitude.
Naquele tempo, no Largo todos os pais,e todas as mães, todos os irmãos, eram pais, mães e irmãos de todos os candengues que ali viviam e ralhavam e puxavam a colatra atrás para umas bofas se precisássemos (?).
A dona Rosa está nas minhas memórias mais antigas. Desde os 3 anos. Ela está lá como os pais, o avô, os tios e os restantes moradores do largo, frequentadores lá de casa e  íntimos das minhas pessoas.
O Kaquito fez anos. Dei-lhe os parabéns. A dona Rosa partiu. E eu dei-lhe os pêsames a seguir.
Nunca me tinha acontecido isto. Há um constrangimento próprio do contraste destes votos. E há uma tristeza profunda. A Dona Rosa partiu...
O meu passado ficou mais pobre. O meu presente também. Eu morava nas suas memórias e ela levou-as.
A Vila Alice perdeu mais uma residente. Angolana e mãe de angolanos.
Hoje entristeci!