terça-feira, 29 de maio de 2012

Sábado estarei lá

A angolanidade que existe no coração de todos os que nasceram e viveram nessa terra longe, a necessidade de mostrarem ao mundo angolano e não só, o quanto amam esse lugar, a ansiedade de voltarem ao passado que na maioria das vezes pode nem ter sido assim tão fantástico quanto o desenham mas porque se perdeu sem que o tivessem repudiado, perdendo-se e com ele os companheiros de vida desse tempo, os amigos, fá-los, faz-nos procurar, sempre procurar, encontros. Podem ser breves. Podem não ser perfeitos, podem não reunir todos os velhos avilos que gostariamos, mas não dizemos não. Não interessa se estamos mais velhos, mais gordos, mais carecas, mais doentes, não interessa o presente. Interessa o que o presente nos dá de novo. 
O presente de nos reunirmos.
A internet é amiga. O facebook é kamba. Devolve-nos a proximidade dum tempo que se não foi perfeito existe na perfeição das nossas memórias. Devolve-nos um tempo que queríamos eterno. Para isso os amigos eternos juntam-se e convivem e brindam e fazem a viagem de volta...à terra e ao bairro.
Sábado estarei na Vila Alice. Com amigos que me viram nascer. Que conheceram os meus pais e tios. Que entraram na minha casa. Que têm uma memória  comum. Que tornam os  entes que já partiram, presentes. 
Com amigos que me viram crescer. Como irmãos. Que me confiaram segredos. Que gargalharam comigo e choraram também. Com amigos a quem amei e que me amaram e me fizeram feliz na adolescência. Quando já era uma mulher desabrochando para a vida e perdendo as primeiras penas nos vôos de pássaro livre que sempre sonhei voar. 
Sábado, estarei  na minha rua. Na minha casa. No meu bairro. Com amigos. Com pessoas que respeito e amo. 
Sábado, as palavras sotacadas serão música. Os sorrisos brilharão nos lábios e nos olhos de cada um e Angola estará nos nossos corações.
A angolanidade faz todo o sentido se estamos juntos. Não se força. Não se mascara, Não se inventa. Sente-se.
Sábado estarei na Vila Alice, deste lado de cá, sentindo com o coração que mora lá desde que nasci.

Pitanguinha, cerejando

Dona Pitanga atacando as minhas cerejas. Oferta de alguém generoso. 

domingo, 27 de maio de 2012

poente

Há na melancolia do poente, um domingo menos.
Voltar a casa devia ser, voltar ao chão. Ao lugar da paz. Ao ninho. 

Aonde a alma abraça a noite cantando  hinos de alegria. E acena à lua, sonhadora.
Onde moro? Onde habita a minha crença? Onde se instalou o espírito inquieto?
Que foi feito da minha esperança?
Perco o norte.  Há muito perdi o sul. 

Não encontro a rosa dos ventos. 
Nem a brisa que me beijaria beijos de união de sol e mar.
Há na melancolia do poente a partida dum pedaço de mim. 

Quebra-se a asa da borboleta. 
Desfolha-se a rosa do jardim.
Desce o gato do telhado.
Há um sonho roubado.
Não sorrio p'ra ninguém e n
inguém sabe de mim.
Há na melancolia do poente um acrescento de fim.

isto digo eu...


Em tempo morto, de viagem, a caminho do Ribatejo, dei comigo a pensar na minha idade e nas suas vantagens e desvantagens. E cheguei a uma estranha e hilariante conclusão. 
Se tivéssemos sete vidas, neste momento eu estaria numa linda idade.

Com mais paciência, tranquilidade, desprendimento e sabedoria para viver as outras seis...

Tiê - Pra Alegrar Meu Dia [Video Clip]

sábado, 26 de maio de 2012

almoço de sábado

foto tukayana.blogspotabado
Grão cozido, delícias do mar, picles, cogumelos, pimento vermelho e courgete salteados. Salsa picada. 

nossa senhora...


Nossa Senhora da Conceição, faça sol chuva não.
Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...
Parece é uma música de embalar. Parece mais que prece, é uma lenga-lenga do povo mais inocente e candengue também. Desse que numa hora a mãe acabou de dar à luz e deixou a fralda pouco tempo atrás, noutra hora já está solto no mundo, pé descalço, por conta própria, brincando de saltar à corda, de jogar às escondidas, de andar de xica,  ou de descansar da brincadeira e ir pankar jinguba com pão quente no patim da casa da vizinha enquanto a mais velha, mãe de todos, minha madrinha, conta estórias da nossa terra e das terras distantes que lhes vimos na aprendizagem das linhas férreas e dos rios, dos montes e serras e nas caixas e latas  que atravessam o mar, para virem na loja do sô Santos, naqueles barcos grandes, que vamos esperar no porto quando vem do puto mais um familiar. Sempre há alguém que chega no Príncipe Perfeito, ou no Niassa que abraça o avô, o pai, a mãe. E traz chouriço, presunto, salpicão, queijo, tudo caseiro.  Às vezes traz também chocolate dos grandes que compra a bordo.
Essa aprendizagem que lhe meti à força na memória como música de tabuada, ensinada pela  menina Piedade, que parece é sargento e nos põe a bater a pala, numa continência que ninguém questiona mais; como é que vão questionar a mais velha? Eu muito menos, apesar de estar sempre a falar e a perguntar coisas. Eu? Não,  que sei das conversas chegadas dela com o meu pai e a minha mãe. Essa aprendizagem que nos faz dizer de cor e salteado, esses rios, essas serras, essas estações de comboio, pouca terra, pouca terra, numa passada que parece é morna de cabo verde... 
Não sei para quê a gente aprende isso tudo. Acho nunca vou andar de comboio mesmo, nem vou conhecer essas serras, esses rios, essas terras. O pai diz que não vamos morar lá nunca. Aqui é a terra dele.  Ainda bem. Não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos. As cores garridas das quitandeiras e  os cheiros. Aiuê o  cheiro da terra molhada, do pão da padaria e de maboque aberto na beira da estrada. Da castanha de caju e bombô a assar. O cheiro da gajaja, da gajajaeira em frente. 
O céu da minha rua é mais azul. As estrelas da minha rua são mais brilhantes. As casas da minha rua parecem a minha casa. Todas elas. As pessoas da minha rua, são o meu povo. Aiuê, aiuê, não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos.
E lhe gosto bué.
Me lembrei que há meninas que eu conheço e sou kamba, que andam de comboio. A Susete todo o dia vem da Boavista até ao porto, na estação do Bungo, pouca terra, pouca terra, curicutelêeeeee.  Depois, apanha o maximbombo para a escola. Esse é outro como o comboio, que não lhe ando. Apesar que eles param mesmo em frente na minha casa ali  ao lado dos Bastos. Tem uma paragem  lá. Em frente da cubata da velha Mariquinhas, que lhe temos medo mas não lhe temos vergonha e lhe chamamos de velha mariquinhas deste lado da rua, e preparamos a fuga se ela corre atrás, e lhe tentamos cegar de lhe pôr a cabeça com calundu, com os espelhos, caté  deve ficar de boca para nuca que nunca viu mesmo essas coisas. Essa velha Mariquinhas parece que não, mas sabe bué, dizem mesmo que foi escrava. Ela se gaba, lá na loja do sô Santos quando vai comprar petróleo para a candeeiro, na hora que fica tudo escuro na cubata, caté se ouvem os grilos a cantar, que mete medo no escuro. Todos os mais velhos lhe respeitam e não desdizem a ideia dela. Menos os meninos que correm a sua atrás lhe gritando de velha Mariquinhas até que ela dá berrida neles. Eu não, porque ela me vai entregar no sô Santos e vou ver o cavalo marinho passar de detrás da porta onde está pendurado para as mãos dele. 
Na paragem do maximbas que fica em frente da casa da Velha Mariquinhas fica toda a hora, mas mais na hora da saída da escola dos miúdos e do trabalho dos mais velhos um mundo de gente  esperando o 16 para esse bairro novo que lhe chamam Terra Nova. E tem também outro mais longe que lhe chamam Cazenga. Nunca que fui lá. Nem de maximbombo, nem a pé, nem de carro. É nos confins da avenida. Nunca que passei do hospital. Nunca que passei dos eucaliptos  que eu avisto daqui, e ficam em frente do hospital de São Paulo onde costumo ir quando espeto prego no pé ou caco de vidro. Ali fica também a casa do cajueiro, onde dizem de boca pequena que  está lá o Simão Toco e se juntam muitos africanos a fazer não sei o quê que eu não percebo nada dessas conversas que falam.  Tenho medo dessas estórias que me contam de simão toco. Dá um frio na espinha porque parece é segredo que nunca que vamos poder contar nos outros e eu não gosto nada de segredos que ficam a me encher a memória e a saltar na ponta da língua mas não posso falar porque juro sangue de cristo que vou morrer com ele, o segredo. 
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não...
Chuva quando cai, até magoa os sonhos dos nenés que brincam na rua em frente da casa. Nos passeios das lojas, no recreio da escola ou no átrio da igreja. Já me apanhou na brincadeira de, minha mãe dá licença quantos passos, a jogar à semalha, ao berlinde, esse então, não acaba com o sonho, destroi sem dó nem piedade os buracos onde caem  as bilhas, aquelas esferas dos rolamentos dos irmãos mais velhos que ficam a inventar corridas de trotinetes para fazerem estilo, nos passeios das lojas, nas descidas, p' ra depois gritarem para as meninas que são campeões e para virarem os mais bangosos lá do bairro.
Chuva quando cai até que é gostosa. Mas depois... olha a surra que sabemos que vão-nos dar...
Primeiro saltamos  de alegria porque é banho de roupa molhada a colar no corpo, e cabelo escorrido. Chapinhar na água, com os pés nus. Depois a terra fica barrenta  parece é de propósito para sujar nossa roupa. Nos molhamos até no tutano. Quando chegamos em casa não vale a pena entrar no pé ante pé que mãe que é mãe já chamou, já procurou, até já xingou e ficou parece é caçadora de animal selvagem, nos esperando. Só o susto quando ela diz: maria claaaaaaaara!
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não! O sol vem mais amarelo depois. Brilhante parece é lua cheia. Seca as poças que nos vão molhar quando carro passa. Mas se for na cacimba, aiuê, a cacimba fica bonita quando chove, parece é mar a chegar na minha rua, até dá vontade de mergulhar nela. Mas eu,  não. Levava uma surra daquelas, se é que sobrevivia. Eu não sei nadar. E dizem que lá tem sereia que canta de madrugada. E fica só a espreitar os que vão de abuso nas águas que lhe pertencem. Ainda me apanhava e me arrastava pelos cabelos naquelas casas todas iguais que lhe chamam de bairro indígena e me punha rabo de peixe. Nossa Senhora da Conceição...
Enquanto salto à corda, com uma menina de cada lado segurando as pontas e estou a ouvir as outras dizerem 56, 57, 58...sinto as gotas da chuva a ferir a pele escura do sol e da praia de domingo lá no Morro dos Veados e me distraio. Não quero perder. Não gosto de sair para baloiçar a corda para a outra saltar. Quero chegar nos 100, 101, 102...Está quase a ser duas horas. O sol está a pique. De vez em quando cai umas gotas d' água parece quer estragar a nossa  brincadeira.  A menina Piedade vai chegar e vamos entrar na sala para aprender mais um rio, uma serra, uma estação. Se cair uma chuvada com trovões e tudo, pode ser vamos embora mais cedo para casa. É só atravessar a rua. No meu quintal, tem um alpendre de zinco. Vou poder brincar e ouvir a chuva cair, lá de baixo. Xéeeeee, eu gosto do barulho da chuva a cair no zinco, parece é música. Vou ficar lá até a dona Celeste me chamar p'ra lanchar pão com doce de mamão que ela mesmo fez e fechou nos frascos vazios, de energetic. Ou ovo estrelado, das galinhas que fingimos, eu e a Fatinha, de nossas alunas, quando estamos a brincar de professora.  Ou pode ser ela assa um chouriço de sangue e me pergunta se quero também. Já estou a sonhar com o lanche.
Nossa Senhora da Conceição,  faça sol, chuva não. Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

recomeçar


Queria recomeçar.Tudo novo. A estrear. Mágico. Perfeito...
Não sei. É uma ideia a formar-se e a ganhar raízes e espaço, no limite que determinei na arrogância de uma solidão que não procurei mas alimentei.
Recomeçar...
Sentada num banco de espera, olho à minha volta. 

Não. Não me parece um dia bom para recomeçar. 
Até porque vejo apenas cimento à minha frente. E poluição. E gente apressada. E impaciente. E mal amada.
Preciso de tempo para recomeçar. Habituar-me à ideia que deixei esquecida num canto qualquer, fechada à chave que joguei fora.
Preciso de tempo e coragem. Tenho de embalar memórias. Fechar mágoas. 

Empacotar  dias e noites frias, escuras e assustadas. 
Atirar para longe os vazios. Fazer cruzes  nas traições. Apagar as tristezas e gritar à apatia. 
Vaiar a conformação e espicaçar a coragem. Matar a indiferença. Enterrar o machado de guerra.
Queria recomeçar mas hoje não me parece estar de feição. 

No dia que eu recomeçar, quero acreditar. Quero saber o hino da alegria entre sinos e guizos. Campos de papoilas. Rios velozes correndo para o mar.
Quero ter o testemunho do mar. 
Hoje nem eu vou na beira-mar, nem o horizonte me vem beijar os pés. As mãos. O coração. 
Lavar a alma.
A onda não me toca ao de leve e a brisa não me conta segredos. 
Não desenho na areia nem danço no movimento dengoso da kianda. Não me deito na duna nem tu és visão. 
Não te vejo nas cartas nem nas linhas da mão. Não és sequer ilusão...
Queria recomeçar. Num dia perfeito. Eu, tu e o mundo, perfeitos. 

Num fim de tarde. Entre risos e trompetes. Perfume de rosas, arco- íris e borboletas. Em festa.
Entre o sol, a lua e o mar...
E a terra a abençoar.

 

estou para aqui...


Estou para aqui num faz de conta que amanhã é sábado.Sem sono ou vontade de deitar o cansaço e dormir.Ao deus dará, esquecida do mundo, esquecendo tudo o que incomoda.
Ainda há coisas que incomodam mas que num jogo de cabra-cega se jogam para trás das costas p'ra não pesarem demais.Estou para aqui à procura de motivo para continuar desperta. Atenta e confiante.  A pensar em ti, em nós, neles, os que estão perdidos, esquecidos do mundo. E de mim. Neles os que de alguma forma fizeram promessas, acenaram num até já que dura uma eternidade que nunca vai transformar-se em presença. Neles que  falharam.  Neles, os que  não prometendo, deixaram sorrisos, como beijos frescos a saber a hortelã pimenta. 
E ensaiaram uma música, soletraram uns versos. Coloriram uma rua. Um rio. Preencheram um deserto. Construiram a ponte. Neles os que se despediram para sempre e deixaram a memória.  Estou para aqui traçando destinos que cabem na minha mão e adoçam a minha alma.

Queria ser um albatroz. Um bonito albatroz. Livre e fiel albatroz. E poisar na esperança duns binóculos no alto mar em busca dos voos rasantes e  dizer que estou para aqui  a olhar futuros de acácias vermelhas, flores de frangipani e sois vermelhos beijando o mar,  sem esquecer passados nas corridas atrás do carro da tifa, pão e doce de tomate, jogos de futebol na terra barrenta e vermelha duma infância que avançava devagar e feliz nos dias calmos duma terra abençoada.Estou para aqui, esperando, sempre esperando. Sempre sonhando.
Sempre vivendo com a mente dividida entre a razão e a leveza do coração  a saltar páginas de  passados e presentes.
Na liberdade do futuro que o sonho dá...
 

Bee Gees - How Can You Mend A Broken Heart (1996)

decoração

foto tukayana.blogspot
Numa ruela de Alfama a decoração sui generis não se estranha. Entranha-se...

ao preço da chuva

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Estas meninas simpáticas chegaram à Venda depois de todos terem escolhido e ocupado os lugares.
Vi-as tão tímidas, descendo as escadas que lhes disse que podiam ficar no centro, junto da Catarina, uma miúda com quem conversei logo no início, a propósito duma t-shirt que ambas tínhamos em comum, cor e tudo.
Montaram a sua banca, melhor dizendo, ocuparam com mantas o terreiro e foi um ver se te avias na pressa de colocarem as suas coisas à vista. Tinham peças lindas. E como estavam mesmo na frente do meu nariz, lá fui eu saber de preços. Prometera a mim própria que só gastaria o dinheiro que conseguisse na minha banca. Ela por ela. E quase cumpri.
Aqui comprei uma mala muito gira por 4 euros. E umas botas a preço igual. E duas pulseiras giríssimas a 1 euro cada. E não comprei mais nada porque estamos em crise e o dinheiro está muito caro. E eu não preciso assim tanto de tralhas e mariquices. E ainda me faltava feirar mais umas horitas. Cheguei ao fim com outro saco por 3,50 euros e uma camisa de seda por 4 euros bem regateadas, claro. 
Uma feirante que por acaso é médica e também vendia as suas coisas, simpaticamente me ofereceu uma colar muito giro depois de ter percebido que apesar de apenas pedir 4 euros por um impermeável comprido, eu jamais entraria num M,  pois era o mesmo que meter o rossio na betesga, sendo que se fosse há 3 anos atrás, sairia desta feira de trocas, carregadinha de roupa linda a preços fantásticos pois nessa altura eu era uma topmodel. Agora tarde piaste...
De qualquer forma, esteve tudo ao preço da chuva o que não deixou de ser irónico pois que esta também se fez sentir entre abertas. E nós fomos escapando por entre os pingos dessa chuva que não nos incomodou assim tanto nem impediu que passássemos um dia supimpa.

terça-feira, 22 de maio de 2012

1ª Venda de garagem - Alfama-te







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meu jantarinho esta noite

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e...já cá estão, as cerejas!

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Ontem estreei-me nas cerejas. Não prestavam. Hoje alguém me disse que numa certa frutaria havia cerejas do Fundão, muito boas. E aí fomos nós às ditas, uma vez mais. Não nos enganaram. Elas são maravilhosas.
Aqui sentada, passo em revista estes últimos dias enquanto saboreio as minhas cerejas. Na verdade, não me apeteceu escrever, não me apetece escrever e não sei quando voltarei a ter vontade de o fazer.
Doi-me a cabeça. Ontem para além de dor sentia um sono louco que me fez mergulhar no vale dos lençóis antes das nove da noite o que foi perturbador, pois não sou muito fã de cama, sobretudo se ainda é dia mas o fim de semana esgotante não perdoou e acordar de madrugada para vir para Torres arrumou comigo na cama, literalmente. Às duas e meia da manhã despertei farta de cama e com a dona Pitanga ao meu lado, instalada a menos de um palmo da minha cara, o que é mais perturbador ainda, dado que pode atacar-me à máfila que eu não estou nem aí. E depois de roubada, trancas à porta.
O fim de semana foi fantástico. Trabalhoso mas muito bom. Foi o bolo de cenoura que fiz para ser vendido à fatia pelos meninos do Alfama-te. Foi preparar a tralha para vender na 1ª venda de garagem. Foi ir cedíssimo para a Sé para depois ser levada para o espaço fantástico onde se realizava o evento. Montar a banca e encarnar o papel. Foi divertido. Mas cansativo. Foi depois o jantar com um grupo fantástico. Todos os elementos tinham estado na Venda de Garagem.
Foi ainda uma ida ao Tejo Bar, onde os Poliban tocavam e cantavam. Mas depois foi dormir a correr para cedíssimo acordar e voltar para Alfama para o almoço de aniversário, surpresa, da Ana Paula, e que eu, a A, a J. e o F., tratamos. Pediram-me que fizesse filetes de pescada. Ok, filetes são filetes. Eu adoro filetes. Mas pediram um pouco mais. Que os passasse por corn-flakes. Que ficavam crocantes. Claro, subentendi. 
Num algures qualquer, porque me perco muito por receitas, revistas e livros de receitas de culinária, já lera e vira algo a propósito. Achei a ideia porreira e depressa o google me deu várias receitas de filetes preparados desse jeito, que, vou-vos contar, os filetes ficam duma forma que receberam os elogios de alguém da família da Ana Paula que me disse: São muito bons. Crocantes, sem estarem secos nem encharcados em óleo. Muito gostosos. Os meus parabéns. E eu sorri cheia de vaidade da receita que nunca tinha feito e que afinal correu bem numa sorte de principiante. Para acompanhamento, uma cama de rúcula e por cima batatinhas novas, cozidas com pele, ovos de codorniz, cozidos e tomate cereja. Por cima disto tudo um molho fabuloso de iogurte e queijo e mais umas mistelas que atrapalhada que estava a fritar os filetes não consegui  guardar a receita que as meninas executavam.
O almoço aconteceu e eu juntei-me aos restantes. A meu lado ficou um homem de nome Daniel Vieira que toca e canta maravilhosamente. E a seguir, o António Macedo que também toca e canta que encanta. Era outra das surpresas para a Ana Paula. Os meninos do Alfama-te não brincam em serviço e só me apeteceu dizer-lhes que também quero uma surpresa (?) destas para o meu aniversário. O bolo é que preferia, em vez de eléctrico ( a Paula é de Lisboa )  o mapa de Angola. Aposto que a menina que os faz e que também estava na venda de garagem saberia fazê-lo na perfeição.
Olhando agora para o fim de semana, na verdade foi muito bom. Kuioso, que quer dizer a mesma coisa.
Escolhi ficar para segunda-feira para curtir um pouco a companhia da minha cria caçula já que estive com a outra todo o fim de semana, nas actividades.
Agora, aqui de pernas estendidas no descansa pés, observo a minha Pitanguinha que morreu de saudades minhas no fim de semana pois que ontem quando cheguei e vim tratar dela a casa, numa ajuda preciosa do mano Zé que me foi buscar e levar, parecia uma maluca. À minha saída saltava como fazem os cães, convencida que a deixava ir comigo. Fez-me sentir culpada do abandono a que a votei. Observo-a e acho que está feliz por me ter com ela. Já não quer colo como ontem. Mas mantêm-se grudada em mim.
Tenho o meu jantarinho para preparar. Antes de chegar a casa entrei em dois supermercados à procura de  espargos. Comi-os preparados pelo Fred e estavam deliciosos. Salteados. Os supermercados desta terra nem têm espargos em frasco. Verdes. Apenas dos brancos. Mas como não desisto, o meu jantar vai ter espargos.
E assim me despeço porque a cozinha me chama. Afinal, não sou eu que digo que em vez de oficial de justiça o que eu queria mesmo era ser cozinheira? Pois então...
 

domingo, 20 de maio de 2012

Vendendo na feira

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Esta foi a 1ª Venda de Garagem do Alfama-te.
Eu estive lá. Vendi e comprei.E até dei.
No fim do dia percebi que vida de feirante é barra pesada. Custa p'ra caraças.
Ele é montar a banca. Etiquetar as peças. Pendurá-las. Ele é esperar que chegue alguém que se interesse pelas nossas coisas e as queira levar.
Ele é dizer o preço à pergunta, quanto custa?! Ele é baixar o preço, coisa difícil quando se pede 50 cêntimo por uma t-shirt ou 1 euro por um CD. A páginas tantas até já lhes dizia que até as dava, pois voltar com sacos para casa não me pareceu nada bem.
O dia esteve farrusco, a chuva deu um ar da sua graça várias vezes. E ele foi, tapar a mercadoria, destapá-la. Comer crepes doces, crepes salgados, sumos de laranja, tarteletes de lima, quiches, coca-cola e enfim não é, a dieta foi-se com os porcos.
Cada vez gosto mais de Alfama Alfamar-me com a gente do Alfama-te é  jogar em casa. As pessoas que se alfamaram sábado, eram giras, modernas, descontraídas. Jovens, quase todas. Até eu me senti uma verdadeira menina. A moça!
O que ganhei com o negócio? Tudo. A venda foi giríssima. Safei-me de algumas peças de vestuário que habitavam gavetas há várias primaveras. E de CDS também. Esses não eram meus porque CDS jamais os venderia. Mais depressa os ofereceria se contribuisse para a felicidade de alguém.
Pude comprar umas cositas a custo tão reduzido que quase é uma escandaleira alguém desfazer-se de coisas tão giras assim como quem não quer a coisa. Já estou como a outra que ao perguntar-me o preço dos Cds e dos livros e ainda dos filmes ficou quase indignada pelo preço irrisório que eu pedia. Apeteceu-me dizer que não os tinha subtraído, ao invés disso disse e foi do coração que o disse que até os dava se ela fizesse muita questão. Desarmei a moça que afinal depois percebi que até é amiga dos Alfama-te e responsável pelo espaço. E com isso levou vários Cds e ainda um para " as esquebra ". 
Ó, que gozo me deu vender 3 Cds e oferecer um. Parecia uma zungueira daquelas que não esperam que a " madrinha " peça as quebras, já estão a dar numa generosidade,  que tem dois vês, um, de vais embora satisfeita mas voltas para comprar mais.
Conheci duas miúdas simpatiquíssimas e conversámos muito tempo. A Liliana e a Catarina. Fiz parceria com a Ana Paula, mãe da Joana e gostei.
Para além de tudo isto estive em frente ao rio Tejo todas aquelas horas.
Esta 1ª Venda de Garagem já lá vai. Gostei muito. Espero voltar.,,

sábado, 19 de maio de 2012

alma feliz



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Solta-se a alma neste lugar
Voa o pensamento
Que poisa no mar
No azul, o tema
A inspiração
No verde a intenção
E na areia os versos
Cantam o poema
Que inspira o meu coração
Solta-se a alma neste lugar
Tal como um petiz
Corre feliz
Ao encontro do mar

m.c.s.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

nau dos corvos






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o mar

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Troquei a espiga por frutos do mar

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quinta-feira, 17 de maio de 2012

vamos matabichar, avô?

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É feriado. Ou domingo. Não sei bem. P'ra mim os dias são todos santos. A avenida é de terra batida. Os cipaios me metem medo. Deve ser de virem em bando, fardados de igual. Como as gaivotas e outros bichos d' asas que passam no céu, parece casamento. Deve ser do  passo ritmado. Parece  estão a marchar lá no quartel. Deve ser d'eu ser tão candengue ali na porta, parece que é no fim do mundo mas afinal até és meu vizinho. Deve ser de estar te chamando e eles não terem conhecimento que sou tua neta querida A única que tens. Vai vir mais mas nem eu nem tu sabemos.
- Avôooooooooo! Avôooooooooo! A mãe mandou-te chamar p'ra vires matabichar. Chamo, com a voz sumida de medo dos cipaios. Mas quem disse eu sou de desistir? A Clarita do sô Santos e dona Celeste?  Essa miúda que sobe na mulembeira através dos seus fios resistentes? Mentira! Essa miúda, não. Não desiste mesmo, quando mete umas coisas na cabeça.
- Avôoooooooo! Avôooooooooooo! continuo a chamar e os cipaios a se aproximarem, me olhando.  Cada vez mais. Já estou a ouvir - toc toc, toc toc, dos pés, parece estão no quartel. Muito direitos, parece engoliram pau da cana doce. Chapéu na cabeça que não sei como é que é o nome dele. Tem dois bicos, um para a frente e outro para trás. Lhe dão ar de comando. Um bando deles. Feito pássaro que voa no céu. Vai ver vão-me agarrar. Fico arrepiada. Até hoje, me arrepio quando tenho medo.
Vai ser o que Deus quiser. E eles também. Tou mesmo ali sozinha, sete horas da manhã, a mãe tá fazer café de cafeteira e leite nido, lá em casa, a cubata, como lhe oiço tratar, só porque não é de tijolo. Será que me vão prender? Não fiz nada de mal. Eu sei o que é xutarem no calaboiço, bandido. Quando apanham ladrão a roubar, depois duma tareia de ficar a deitar sangue, de poça no chão junto da cabeça, lhe atiram água no corpo, na cabeça principalmente, lata grande daquela de ir no chafariz, que vem do puto com chouriços e lhe levam na esquadra. Eu sei porque tenho a mania de escutar as conversas dos mais velhos. Do sô Santos, do avô Carvalho, tio Augusto, primo Fernando e dos outros avilos que vão jogar xinquilho e cartas lá em casa. Até as conversas que a Lucrécia tem quando estamos só na esteira, a comer feijão de óleo de palma, escondida da mãe e ela  diz com o dedo esticado na frente do meu nariz: menina clarita, tua mãe vai-te bater e vai-me ralhar, vais ver só. Não podes comer feijão, olha só quando tiveste tifo e ficaste na cama naquela hora, távamos-te a chorar ias morrer, caté a Diana não ladrava mais e ficava no pé da tua cama te olhando?
É dia santo sim. É dia de irmos passear na carrinha azul. Se calhar vamos buscar a Lisete,  p'ra vir passear também, minha kamba desde que nasci, que mora no largo e é filha da dona Rosa e do maior amigo de todos os verdadeiros, do sô Santos,  sr. Eurico, apaixonado de pombos correio, caté põe aquela anilha bonita, parece gargantilha, no pescoço deles. A Lisete é irmã da Laura e do Kaquito, mais velhos, que conheço bué porque quando vou buscar os ovos na dona Ester, lá no largo e faço buraco no dito e bebo ( que nojo! ) a mãe da minha kamba que apesar de me kuiar bués, me passa raspanete e os seus mais velhos também. 
- Euêeeeee, a dona Celeste vai-te bater, espera só, reforçando no sinal, com a mão aberta. Outras vezes, quando vou  na casa da minha kamba, eles estão todos lá. Ela cozinha caldo, como sempre, ele passa brilhantina nos cabelos, se olha no espelho, ouvem música no rádio velho do sr. Eurico que tem costume  de ouvir essas emissoras que são estrangeiras e não podem ser escutadas, parece é proibido. Diz que lhes levam no xelindró. Só mesmo o pai da minha kamba, meu pai, sô Santos e o avô é que eu sei que escutam toda a hora essas palavras que saiem do rádio que eu ainda não percebi quem é que fala lá dentro. Como é essa coisa que não estou a lhe ver o homem e só estou a escutar as palavras dele?
O avô não ouve. Obrigada. A minha voz não sai da garganta feita voz de gente. Até hoje, fico fraca de voz quando me sobe os calundus na cabeça. Vai ver, é por isso que eu gosto da voz dos outros. Esse medo todo mas escapei de ficar gaga. Deus que me livre, eu gosto tanto de falar, olha só ter de repetir, tomar balanço na idéia p'ra dizer as asneiras que xingo quando me olham a me querer gozar. E quando me chamam daqueles nomes que eu não gosto. Branca de segunda, branca cafusa, pepsi-cola, eu amo pepsi-cola feito vício mesmo. Até hoje gosto de coca-cola, nossa, como gosto, nessa hora ainda não havia. Gostam de me provocar. Gostam de me ver bravar. Até hoje.  Mando cada muxoxo e cada olhar!
E porque o avô não escuta a  minha chamada, espio o quintal, enquanto o grupo de cipaios vai passando nas minhas costas. Retenho a respiração. Parece vou rebentar. Menino Jesus me protege só. E protege.
Olho as mangueiras carregadinhas de mangas. Umas são redondas, cheias de fios. Outras compridas, bem gostosas. Olho a goiabeira. E a pitangueira. Olho o tanque dos peixinhos vermelhos. E os canteiros. Cheios de roseiras que o avô gosta tanto. Tem roseiras aí que são mais velhas que eu. As rosas brancas estão no botão por desabrochar. Das rosas, só não gosto dos picos. Do quintal só não gostei daquele dia, da  moeda de cinco tostões, que engoli perto da figueira e me deram tanta surra nas costas que teve que sair mesmo. Nesse dia queria ir embora do quintal. O avô parece virou cipaio e me gritou e gritou com a moeda e com a mãe e com o pai. A culpa é toda vossa...
Já estou quase para desistir de gritar quando finalmente o avô aparece na varanda. Sorri e vem no portão.
Eu fico parece estou a ver Deus. Como eu gosto deste avô! Até hoje...
-  Vamos matabichar, avô?

Hoje é dia da espiga


  • Este dia (a Ascensão) ocorre cerca de quarenta dias depois da Páscoa,  é sempre a uma quinta-feira.
  • E, também, sempre nessa data, celebra-se o Dia da Espiga ou Quinta-feira da Espiga.
  •  Tradicionalmente, de manhã cedo, rapazes e raparigas vão para o campo apanhar a espiga e outras flores campestres.
    Com elas, formam um ramo com: espigas de trigo, folhagem de oliveira, malmequeres e papoilas. O ramo pode também incluir centeio, cevada, aveia, margaridas, pampilhos, etc.
  • Cada elemento simboliza um desejo:
      - A espiga = que haja pão (isto é, que nunca falte comida, que haja abundância em cada lar)
      - O ramo de folhas de oliveira = que haja paz (lembra-te que a pomba da paz traz no bico um ramo de oliveira) e que nunca falte a luz (divina). (Dantes as pessoas alumiavam-se com lamparinas de azeite, e o azeite faz-se com as azeitonas, que são o fruto da oliveira.)
      Flores (malmequeres, papoilas, etc.) = que haja alegria (simbolizada pela cor das flores - o malmequer ainda «traz» ouro e prata, a papoila «traz» amor e vida e o alecrim «traz» saúde e força)
  •  O ramo é guardado ao longo de um ano, até ao Dia de Espiga do ano seguinte, pendurado algures dentro de casa.
  • Acredita-se que este costume, que surge mais no centro e sul de Portugal, nasceu de um antigo ritual cristão, que era uma bênção aos primeiros frutos.
  • No entanto, por ter tanta ligação com a Natureza,pensa-se que vem bem mais de trás no tempo, talvez de antigas tradições pagãs associadas às festas da deusa Flora que aconteciam por esta altura e às quais se mantém ligada à tradição dos Maios e das Maias.
  • Hoje em dia, nas grandes cidades, as pessoas já não vão colher o Ramo da Espiga (nem há onde...), mas há quem os venda, tendo-os colhido e atado, fazendo negócio com a tradição... E ajudando a preservá-la.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

jantar de quarta-feira

foto tukayana.blogspot.

pela manhã

Acordo na manhã iluminada pelo sol que se empoleira na minha janela.
Temo pela hora. Puxo o relógio, coloco os óculos e vejo a custo. Sete horas. Não tarda vai tocar o despertador do telemóvel. Quando passei a viver sozinha, um dos meus  pânicos, era achar que me atrasaria sempre porque não teria quem me acordasse, quando, afinal, era eu quem acordava primeiro.
Deixo-me ficar uns minutos mais. Tenho a ilusão de ser feriado. Estou adiantada. Amanhã é que será. Quinta-feira da ascensão. O dia de apanhar papoilas, malmequeres selvagens, espigas de trigo, ramo de oliveira, fazer um raminho e guardar na cozinha, despensa, ou onde nos apetecer para que tenhamos fartura (?) o ano inteiro, diz que também, o resto. Havia um simbolismo que se foi perdendo quando se substituiu a ida ao campo merendar, bolas, como é que me saiu esta palavra se eu nem gosto dela? deve ser por estar já envolvida no espírito campestre, bem, mas na verdade é que de ramos de espiga passou-se a roupa na zara, hamburger no MC ou um filme numa das salas de cinema num qualquer centro comercial, de preferência na capital, em Leiria, Coimbra ou para sul..
Bom, tenho de adiar o gozo da cama para amanhã., uma vez que poderei ficar até me apetecer. Sei que é o costume, posso, não quero, não posso, desejo ardentemente. Aqui está o pensamento feliz para quem o escreveu: O fruto proibido é o mais apetecido.
Escolho a roupa. Uma túnica acabada de comprar, salmão. Da moda. Se fosse verde da moda, não era a mesma coisa e certamente não a compraria, porque não gosto de roupa verde. Tenho saco, relógio, colar e até pulseira salmão mas longe de mim enfarpelar-me desse jeito de fazer pendant. Os kanucos dizem que já não se usa. E eu também acho que é um pouco demais tudo a condizer. Nunca percebi essa lógica. Nunca percebi essa limitação de misturar cores. Escolhi então a túnica, calças de ganga, sandálias e carteira castanhas. O colar a fazer pendant com a túnica, presente do F. num aniversário há três anos. O F, tem bom gosto. O ano passado recebi o relógio...salmão. O F. já está nas nossas vidas há muito tempo. Nem dou por isso mas se me ponho a pensar, percebo que já recebemos e demos muitos presentes.
As sandálias têm o salto alto. Gosto do andar que sou obrigada a fazer quando estou em cima de umas andas. É mais cauteloso e elegante. Sinto-me uma senhora. 
Descubro uns rolos de esponja num necessaire que usava nas viagens por uns dias, quando me deslocava de automóvel. Ponho-os no cabelo para provocar ondulação nas pontas. Fica giro. Parece que visitei a cabeleireira. Para quê tudo isto? Parece que estou a abonecar-me com o propósito de agradar a alguém e não. Coisa do ego, auto estima, sei lá. Leio essas coisas e aplico também em mim. Deve ser assim. Também dizem que as mulheres se vestem para as outras mulheres e não para os homens. Percebo isso. Eles despem-nas quando elas estão demasiado bonitas, também dizem. Nem acredito que estou com este discurso preconceituoso. Despem-nas? Mas a mulher precisa lá de fazer o jogo da matadora que vai ser conquistada pelo macho? Despem-nas! Ora essa! Mas as mulheres estão entrevadinhas ou quê? ...
Bem, mas porque há mulheres que se vestem para que as amigas as invejem, outras para que os homens as dispam com os olhos e fiquem a fazer contas de dividir, outras porque são vaidosas, outras ainda porque gostam mesmo delas e gostam de se sentir amadas, admiradas, bonitas, não me perco muito a pensar nos quês e porquês. 
O verão está aí já já, as cores da estação dão vida e beleza a qualquer um, senão, vejamos, quando um homem, alto, pele morena, olhos escuros, sorriso enigmático, sim, esse sorriso que muitas vezes é de gente burra mas que a mulher confunde com mistério,  veste um polo vermelho, rosa velho, branco ou azul bebé qual é a mulher que não olha duas vezes? Eu olho. Sobretudo se tiver voz bonita, mãos bonitas e estiver bem calçado. Pode até não ter cabelo, ter rugas, óculos, pode até ser cambaio, muito magro ou ter uma barriguita, eu olho. Olho se oiço a voz e me cala cá dentro. Olho se dá balanço no pé e o sapato é de bom gosto, não precisa ser de marca cara, precisa só de fazer pé bonito e elegante apesar do 43 ou 44. Olho se tem mãos bonitas. Tenho fetiche por mãos e voz. Olho se tem tudo isso, porque mais que homem, parece um verdadeiro príncipe  e eu sempre gostei de estórias de reis e rainhas e príncipes e princesas, palácios e castelos. 
Enfim, para quem se está a vestir para ir trabalhar estou a elaborar tudo como se fosse para um acto mais interessante e ou importante. Por falar em actos, ainda ontem fiquei chocada quando dei de caras com uma ata a que faltava o cê. Porque raio  estes facilitismos da língua portuguesa que para burro velho que não toma ensino, é tão perturbador?
Saio de casa às 8 e 10, empoleirada nos meus saltos altos. Foram bem caros. Comprei-os na Nazaré numa sapataria perto do Picadeiro. Acho que não vou à Nazaré desde esse dia. Sabe-se lá porquê.
Dou um olhar no espelho. Sorrio-lhe. Quê que se passa comigo hoje? Se continuo assim vão dizer que vi passarinho novo. Irrita-me que me queiram espiar a expressão. Que façam leituras volúveis.
Não levanto o dedo polegar da mão esquerda num, fixe, estás bué...porque eu maria clara das dores já não falo com espelhos. Mas volto a pensar: estou a fazer festas ao ego p'ra quê? No fundo no fundo até desconfio mas não conto. 
E sim, ninguém me gaba nunca. Apenas a minha cria caçula que depois de estar mês e meio sem me pôr a vista em cima senão no skype, me olha e diz - estás mais magra, não estás?  Abençoados batidos e saladas das últimas duas semanas. Abençoado calor e abençoadas caminhadas. É verdade. Porque quando ele diz eu acredito. Também me faz dar meia volta, olha-me de alto a baixo e diz ainda: pareces mais nova. Estás mais nova. Abençoado filho. A única criatura que me olha e diz o que vê e toca o meu coração porque a gente precisa de vez em quando dum abanão. Que diabo, não estou morta e à minha volta todos sabem disso, mas fecham-se em copas. Mesmo quando visto uma túnica salmão, novinha em folha, enrolo as pontas do cabelo, pinto as unhas, calço saltos e sorrio.  Porque será? Acho que sei, mas deixo para lá.
Sinto os sorrisos dançarem na minha expressão. A gargalhadas a tomarem assento nos meus lábios. A boa disposição aparecer e me dar a mão. Estou na rua, a caminho do dia de trabalho. Mais um a somar àqueles que vão fazer a diferença na minha reforma. Amanhã é feriado municipal. Tenho planos. Que a serem concretizados serão fixes. A temperatura sobe nos termómetros. Vai chegar aos 36 graus.
Nasci nos trópicos, como dizem aqui. Estou habituada ao calor. E gosto. Que é diferente de estar como peixinho dentro d'água. É mais, como é bom estar com os pés na água, olhando o mar. A ver vamos...

no fim da tarde...

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Saio de casa apressada. Estou habituada a andar parece que vou a fugir à polícia ou de ladrões, para o caso tanto faz. Marquei, oito horas. Passam uns minutos bons. Apesar de não parecer, stresso com a ideia de que ficam à minha espera. Dar desculpas p'ra quê? Invento, invento e acabo por sair ali mesmo résvés.
Passo junto ao ginásio da Lena C. . Sempre a malharem nas máquinas. No meu tempo a sala das máquinas não era aquela. Suei muito ali. E depois muito banho turco. Com mais duas. Não gostava disso. Gente que mal conhecia, a suar comigo no mesmo cubículo. Conversas de xaxa. Sorrisos de circunstância.
Em frente ao ginásio um carro parado e a Drª S., uma ilustre advogada que por vezes se cruza comigo na casa da justiça, sorri. 
- Olá doutora.Tá boa?
- Boa tarde dona Clara. Por aqui?
- Vou andar. 
- Mas a senhora já anda tanto! Vejo-a todos os dias de manhã a subir...
- O viaduto. Completei.
Tenho o péssimo defeito, sei que deve ser mau para quem está do outro lado, mas repito, tenho o defeito de completar as frases a quem comigo fala. Se gaguejam então falta-me a paciência e mesmo que não seja a palavra que o outro quer dizer, levo-o a dizer a minha palavra. Já me tenho perguntado se é só falta de paciência se é porque quando sou eu a falar, me faltam as palavras certas, nesta dificuldade oral de expressão que sei que tenho, apesar de me dizerem sempre: Ah mas não, não noto nada, e tal e coiso...deve ser a timidez que sempre tive para o discurso, o ouvir-me, o julgar-me, enfim, paranóias.
Sigo sorrindo. A doutora vai tantas vezes ao balcão e nunca me dissera que me via diariamente nesse sacrifício sofrido de subir o viaduto. Já o Luís M., logo pela manhã, parou a sua viatura antes do viaduto  para mais uma boleia até ao colégio Santa Maria, da congregação de são josé de cluny, porque é generoso e deve ter pena de mim, sempre são 600 metros de esforço para o pobre coração que tem dias parece que vai saltar-me pela boca e estatelar-se lá em baixo, na quinta.
Avisto a minha companheira de marcha ao fundo da rua. Cansou-se de esperar e veio ao meu encontro. 
Está calor na cidade. O esforço é maior. Ainda é dia. E há movimento. Gente que passa de carro, gente que passa a pé, de bicicleta e de mota. Há vida na cidade. Decidimos passar em frente à E.P.P. e seguir como quem vai para o E.P.T.N. Por becos e vielas caminhamos no fim da tarde. Apenas uma atleta perfeitamente identificada corre à nossa frente. As luzes vão acendendo à nossa passagem.
Lembro o telefonema que recebi mesmo antes de sair de casa.
- Clarinha minha querida...estás bem? uma voz preocupada
- Estou, porquê? e logo me arrependi da dureza do tom. Não posso tratar mal quem me trata bem. Não posso sacudir pessoas que se dão ao trabalho de me telefonarem. De pensarem em mim. De se preocuparem comigo. Afinal, não é isto que toda a gente gosta? Sentir-se acarinhada?  Porque raio é que eu gostando disso também, falo com duas pedras na mão?   Gosto que me tratem com carinho e que me chamem querida. Nem sempre sou. Clarinha sou desde pequenina para muita gente e também gosto desse miminho. Sou uma mal agradecida é o que é.
- Porque ouvi a notícia da explosão aí na tua terra, disse com intenção de me picar.
- Minha terra, uma ova. Continuei. E pensaste que eu me explodi?
Risos do outro lado. - Não. Tu é que explodias com meia dúzia.
Fui obrigada a rir. 
O meu amigo para além de angolano com sotaque fortíssimo, tem piada, gosta de me telefonar e sei que se preocupa comigo. Afinal eu fizera o mesmo assim que soube da explosão no fogueteiro. Liguei ao mano Zé a saber onde estava. Não é a primeira vez que o tal  armazém faz explodir tudo à sua volta e o estrondo se ouve na cidade. E os bombeiros se fazem também ouvir e assustam quem mora perto.
A volta hoje custou mais. E o calor desajuda. Quando cheguei a casa já era noite. A minha parceira do lado trazia aquele aparelhómetro que diz tudo o que a gente precisa saber para se alegrar.  Então fiquei a saber que andei sete quilómetros mais sessenta e oito metros. Numa hora e tal. Nove de marcha apressada, o que significa que o resto foi a passear. Lembrei-me que apesar de não ver montras de facto a pedalada não foi a correcta para quem precisa de queimar calorias. Só que o coração beneficie com isso já não é mau.
Ao chegar a casa, a Xana, minha vizinha do lado, vem a correr do Café e bem humorada cumprimenta com um efusivo, olá vizinha. Fala para o 3º andar. Olho também p'ra cima para o Black, o gato preto que deve pensar que é trapezista pois que passa os dias de cá para lá no estendal da roupa protegido por uma estrutura metálica. 
- Black vai para dentro. O meu gato dorme ali, vizinha, diz-me ela. 
- E não cai? A minha Pitanga não seria capaz.
- Ele gosta de dormir ali. 
São três andares. Medonhos três andares. Dá-me um arrepio na espinha. Nem quero imaginar a Pitanguinha passeando-se pelo estendal da roupa. Como é que eu viveria sossegada imaginando a bichinha no trapézio, sem rede?
Há gente que vive com o coração tão descansado...
Entro em casa. Dona Pitanga rebola-se na tijoleira despudoradamente. Um dia destes mando a veterinária às urtigas e enfio-lhe a pílula goela abaixo. A pobre bichinha sofre que sofre nesse cio que ainda há poucas semanas acabou e já está de volta. E eu sofro a vê-la desse jeito pouco digno de ser e estar.
O dia está no fim. Mais um, cumprido. 



Obrigada Lurdes e mano Zé

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o meu jantarito

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

as andorinhas tão engraçadas...

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tempo


Desfaço laços
Correntes
Solto âncoras
Afasto as águas
Recolho o sal das lágrimas
Desenho pontes
Atravesso-as...
Caminho na quietude do tempo
Hoje o presente oferece-se
Não oiço os segredos do vento
Nem espero falsas promessas
Não escolho palavras vãs
Nem semeio futuros na noite
Contemplo a estrada
Nas encruzilhadas me persigo
E no eco dos dias por viver
Soltam-se as letras que já sei ler
Este é o meu tempo
Este é o momento de renascer


m.c.s.

preparando o mergulho

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parece verão

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em cascais, sábado

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fim de semana

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 O fim de semana chegou ao fim. Apesar d' amanhã voltar a ser domingo p'ra mim, na verdade, não o é para muitos. Há uns dias no ano que podem ser tirados e que fazem parte dum artigo que a gente usa, assim nos autorizem a usá-lo. Amanhã é dia de artigo. Por vários motivos e mais um. E esse é que me faz ficar por cá e tão bem usufruir dum domingo sem viagem para o ribatejo. A Pitanga preocupa-me e faz sentir-me culpada. O mano Zé tratou dela e bem, tenho a certeza. Já o confirmei pelo telefone. Mas...quando o motivo é o que é, não há opção. Há obrigatoriedade voluntária nesta escolha que não me deixa outra. 
Respirar, respirar, suspirar, suspirar, e tudo estar nos seus lugares, isso é que me faz feliz!
Foi um fim de semana de calor e sol. E peixe grelhado junto ao mar de Cascais. 
Foi uma voltinha pela vila como sempre faço. Umas fotografias e uma viagem de comboio até ao Cais do Sodré que me fez pensar no acidente há poucos dias em Caxias. Esta é a linha em que mais quilómetros faço. Chegada ao términos quis sair e o cartão não me permitia a passagem . Foi preciso pedir a umas meninas que me deixassem passar de boleia. Já mo fizeram e eu permiti. E elas também. Depois fui apanhar o 36, só para não ir de metro como toupeira, pois que o dia estava lindo e apetecia andar nas ruas. Melhor não o tivesse feito. Depois de, ter esperado mais de meia hora pelo desgraçado do autocarro, e ter ouvido xingar o governo, xingar a carris, xingar o parceiro do lado, chorar a criança, rir um maluco, que se metia com quem estava na paragem, menos comigo, não sei se porque estava de saltos e ele ficava minorca ao meu lado, se porque se cansou antes de chegar a mim ou se simplesmente me ignorou, lá chegou o bendito 36 para nos levar. E levou. 1,75.€. E levou, até à praça da Figueira, porque ali, um taxi veio por trás e pum catrapum, pum, pum, que a mim tudo me acontece,  e de repente podiamos ter sido sinistrados. Não fomos, mas fomos pouco bem tratados, pois que tivemos de descer da viatura e o motorista mais do que indicar o procedimento a seguir, grunhiu, tendo-nos valido o facto de todos  estarmos habituados a pessoas que grunhem e a paragem seguinte ser ali logo no Rossio e assim rapidamente nos encontrámos para tentarmos continuar a nossa viagem. 
O calor na baixa estava insuportável. 
Já na viagem de comboio percebi que fazia imenso calor. Mas ali a falta era a falha do ar condicionado. Remeti-me para a crise, achando indecente que os bilhetes sejam cada vez mais caros e  sejamos tratados a pão e água. Quando entrei no autocarro pensei que estava destemperada, até que ouvi as queixas da vizinha da frente, uma mulata guineense, li na mala e outras imbambas que trazia, guiné, e depois comprovei no seu crioulo um pouco mais difícil de entender que o crioulo de caboverdianos, com que ela brindava quem entrava e que conhecia. Quando apanhei o segundo autocarro percebi que nenhum autocarro teria ar condicionado. E percebi também que é difícil fazer Cais do Sodré, Olival Basto, num autocarro apinhado de gente, respirando o mesmo ar quente. Percebi que as escadas rolantes das estações, quer de metro, quer de comboio estão quase todas paradas. As passadeiras também. E as pessoas com deficiência, também, pois não têm forma de se deslocar, com tantas dificuldades. Finalmente constatei que o povo está quilhado. Paga e não bufa, porque quando o faz vêm as forças policiais e leva na tarraqueta. A ver, o Movimentos dos Indignados que gritando na Feira do Livro - Passos, ladrão, o teu lugar é na prisão - de imediato foram empurrados e obrigados ao silêncio. 
Em suma, e porque espero que a população de Lisboa e arredores que paga o seu passe mensal reclame pelo ar condicionado a que estava habituada, continuarei o meu acidentado e cansativo percurso dizendo que cheguei à paragem do 32 às 6 horas e quando entrei em casa eram 8,45. No Olival uma festa de arromba parecia estar para acontecer. Percebi depois, já instalada no sofá da minha sala que o som organizado e bonito que vinha da rua não era senão o da fé.  A procissão das velas, que iniciava na igreja e passava pela minha casa. A emoção tomou conta de mim que eu estou sempre a pôr-me a jeito para uma lágrima sobressalente.
Gosto de acordar no Olival. Sobretudo na primavera e início do verão. A cor e o cheiro deste lugar tem algo que me atiça as emoções e que por sua vez me chegam ao estômago. É lá que eu tenho o primeiro sinal de bem estar. Quando assim é eu sei que estou feliz. O Olival foi uma escolha minha. Não tem piléria nenhuma enquanto terra mas representa a minha libertação e deve ser por aí...
Acordada, fui às compras ao...Pingo Doce.  Claro que eu vou lá. Claro que fica perto de casa e eu gosto. Claro que no dia 1 de Maio não fui, não quis ir e tive raiva a quem foi, não porque me apeteceu ficar raivosa mas porque a ganância foi comprada miseravelmente por quem tem olho clínico e manipulador para a coisa.
Depois da minha ida e volta, foi ver o adeus à Virgem cujas celebrações em Fátima começaram logo pela manhã na TVI e terminaram quando Fátima ficou deserta. 

Foi ainda ler e acabar o livro - O Seminarista, de Ruben Fonseca, um escritor brasileiro que descobri há pouco tempo e que estou a adorar. Foi fazer o bolo de cenoura e amêndoa, o jantar, pôr flores numa jarra e esperar ansiosamente a chegada das duas criaturas que mais amo no mundo sendo que uma delas me fará finalmente e de novo, respirar a dois pulmões por algum tempo mais.  
 Se foi mais um fim de semana? Foi. Mais um. Mas em nada igual aos outros. Nem eu...

bolo de cenoura e amêndoa

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ingredientes: 6 ovos 3 chávenas de açúcar 3 chávenas de farinha 1 chávena de óleo 1 chávena de amêndoa 3 cenouras raspadas cruas 1 colher de sopa de canela 1 colher de chá de fermento
- preparação: Bata os ovos inteiros com o açúcar. Junte a esse preparado, a cenoura, o óleo, a farinha com o fermento e por fim a amêndoa e a canela. Unte uma forma grande (porque o bolo cresce bastante) com margarina e farinha. Leve ao forno. 

domingo, 13 de maio de 2012

Fátima, Procissão do Adeus

hoje, às portas da cidade



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Acordar neste lugar é acordar feliz.
Neste domingo de recomeços, toca-me a cor da manhã.
E os sons duma primavera, galopante, à procura dum verão ansiado. Sempre...
Faz-me falta o mar e este lugar às portas duma cidade que amo muito.
Faz-me falta ser feliz. E aqui encontro esse caminho.
O porto seguro pode não ser o lugar mais recôndito da nossa lembrança. 
Nem aquele onde as correntes não se soltam.
O porto seguro é aonde nos despimos da personagem e nos purificamos. 
É aonde nos vemos no espelho e nos reconhecemos. 
É no nosso chão. Na nossa casa.
Aqui, há um porto seguro que me acolhe. 
Foi minha, a  escolha A decisão. Foi a minha libertação. 
Acordar neste lugar é estar viva para o dia de hoje. 
Respirar...a dois pulmões. E amar sem condição.

belo e doce maio

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Contemplo os verdes do meu olhar
Aroma da natureza a sentir
Papoilas vermelhas a colher
Cerejas a saborear

Malmequer, bem me quer, 
Quem me quer bem  
A desfolhar
E no céu azul feito tecto

Limite da imaginação
Voo nas asas do vento

Deste tempo d' inspiração
Viajo amanhãs
Outras terras, 
Sóis diferentes
Poentes
Viaja o meu coração
Esvoaçam  borboletas
Para lá e para cá
Numa alegre e estudada dança

Poisando no mel das  giestas brancas
Alumiando a visão d'acácias vermelhas
Cor, som e voz da minha infância
Olho o mar sereno da bonança
Alimento e festa, 

Na minha esperança
A sonhar aléns 

Que habitam p'ra lá de cá
E na espuma alva que se levanta
Na onda feliz onde se  balança 

O meu prazer
Tranquilamente me deixo ficar,
Abraçada ao meu viver

Terras, céu e mar
Deste belo e doce Maio
Na minha pele a respirar...


m.c.s.


sábado, 12 de maio de 2012

a doze de maio

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Gosto de procissões. À noite. Comovem-me. Choro. E canto. E oro a Deus e a Nossa Senhora de Fátima.
Desde que saí de Angola que as minhas preces foram sempre no sentido do universo fazer o milagre da paz para o meu povo e para a minha terra. Saúde e vida para as minhas pessoas e para as pessoas que me cruzam a vida. E já acho que peço muito. Vou sendo abençoada. A paz na minha terra é uma realidade e todos os dias agradeço a Deus por isso, bem como a minha e a saúde da minha gente. 
Gosto de procissões e já tenho muitas no curriculum religioso.
O adeus à Virgem sempre me comoveu de chegar às lágrimas. Como todos os adeus. Há neste adeus à Virgem algo triste. Entre o agradecimento e a perda. 
A fé é que nos salva mas temos de nos pôr a jeito. Não foi o que aconteceu hoje. Estou praticamente em frente à igreja desde 2003 e nunca assistira ao que hoje aconteceu. E não fosse estar descalça, de calções e t-shirt cavada e teria descido e tomaria lugar na bonita procissão que aconteceu mesmo em frente ao meu nariz.
Porque será que gosto de prociss
ões? 
Porque gosto de rituais. Porque gosto dos cânticos, Porque gosto de velas. Porque gosto da Nossa Senhora, a Virgem Maria.. Porque gosto de ver pessoas de fé. Porque gosto de manifestações. Porque gosto de gostar.
Hoje, ainda que à janela, pude deixar correr o olhar pelo que acontecia da igreja para fora e gostei  muito de ser surpreendida. Quem sabe para o ano, já estarei a viver definitivamente neste lugar ( espero estar ) e poderei ser informada a tempo e horas, nem que seja pela Marta do supermercado cujas crianças fazem parte dos escuteiros e fazem-se presentes sempre que solicitadas.

sentada na manhã

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Sento-me nesta manhã de sábado que se prevê quente.
Fazer o quê? Olho para o presente e de pernas esticadas no descansa pés, pondo em ordem o que vai ser o meu dia, dependendo de mim, oiço o primeiro ministro dizer que estar desempregado não pode ser um sinal negativo e os meus músculos começam a funcionar já já e o propósito de receber o dia com um sorriso no rosto e de espírito tranquilo é abanado e aquelas palavras impróprias que eu confessava ajoelhada no confessionário do padre Luís não são nada comparadas com as que perdi a vergonha de  dizer por dá cá aquela razão forte. E isto é um pretexto fortíssimo para me bailarem palavrões nos  lábios que apenas se abriram para a Pitanga num hábito de com ela falar num tête à tête, mais precisamente, num, olhos nos olhos porque eu ralho com as suas asneiras e ela olha-me com o olho azulão celeste e não está nem aí para a minha consumição.
Ainda não acabei o rol dos palavrões e foco-me em Pinto da Costa que ridiculamente canta os filhos da nação, dos Quinta do Bill, meus vizinhos de Tomar. Se fosse só um ridículo cantador eu sorriria divertida e não seria por aí que o gato iria às filhós, mas o homem e quem o ouve como se fosse um deus,  papudo e pegajoso, que eu tenho esta mania das minhas vísceras reagirem ao ar, voz e atitude de algumas pessoas e parece que sinto a gordura e por consequência a viscosidade dessas criaturas que nem sonham, claro,  mas repugnam-me, este é o caso, desde sempre, só de olhar, bem mas dizia que este é o protótipo de quem se alegra com a derrota do outro e não com a sua vitória e este discurso complexado e anti-benfiquista completamente fora, para quem é campeão, esta necessidade da piadola porca não contraria o que penso e tal como um f.d.p. ao nosso(?) primeiro já hoje me saiu e não foi da boca para fora, foi mesmo, de coração,  esta coisa apalhaçada que aqui se apresenta aos seus súbditos, sim porque o homem reina há tantos anos que alguns ditadores dos países africanos e não só ficam a quilómetros de distância ao pé deste senhor do norte, volta a fazer-me cair em tentação de fazer falar a parte da minha alma dada aos palavrões, desta vez acompanhada de uma vergonha medonha de pertencer a este povo.
E porque vejo reagir o governo e de seguida o povo, ocorre-me uma pergunta muito feita nos tempos que correm: que povo é este, que não se governa, nem se deixa governar?
Deus que me perdoe mas perante o desaparecimento de pessoas como Bernardo Sassetti não posso deixar de pensar que estamos num país de invejosos e cínicos, que não apoiam quem é notável em vida e se chocam perante a sua morte.
O dia começou acelerado e ainda não saí de casa. Tenho de lhe meter travões e dizer como os nossos emigrantes das décadas de 60 e 70 e que voltaram a estar na moda nos tempos desanimados que vão correndo: doucement, doucement, maria clara. Não te desgastes que o dia é todo teu e tens direito a ele . 
E num egoísmo necessário ao meu equilíbrio, desisto da televisão e de vidas que não são minhas, no que diz respeito ao futebol e vou fazer-me à vida que não será por cá. Espera-me a capital e eu espero dela o melhor, que é como quem diz, uma vida santa e abençoada. Sou filha de Deus, tenho as minhas contas pagas e preciso circular, pois que, circular é viver.
Sendo que é um fim de semana especial estou especialmente bem disposta e nem que a vaca tussa não volto a sentar-me em frente à televisão a ouvir bacoradas que me perturbam a beleza...da alma, claro, porque a outra, já lá vai. E por falar em beleza, tenho prometido um peixinho grelhado junto ao mar.
Peixinho grelhado porque é bom e já lá vai uma semana portando-me bem que eu sei lá e estou a adorar a causa e o efeito. 
Isto não era para contar mas como não gosto de segredos, saiu-me. Nem mesmo mordendo a língua eu aprendo que não devo contar tudo o que me apetece. Lá tenho que tomar banho com um punhado de sal bem grosso, para afastar os maus olhados e a inveja. Diz que é tiro e queda; quedas é o que dou mais e tiros também vou disparando, já os alvos nem sempre são alcançados, mas tanto disparo ao lado que um dia calha. Bom, eu que não sou de intrigas, acho que um banho salgado, mal não me faz e por enquanto o sal está a um preço que vale a pena aplicar em boas causas como o meu bem estar, por isso, não é logo, é já.
Um sábado à vossa medida é o que eu desejo.

A Palavra - Tema Para Sassetti - Da Weasel feat. Bernardo Sassetti

sexta-feira, 11 de maio de 2012

o país empobreceu



Quando alguém que ocupa espaço, parte, é desolador. 
Quando alguém jovem e promissor, parte, é revoltante e triste. 
Quando alguém parte é uma tragédia para a família e para os amigos.
Partiu Bernardo Sassetti. Deixou o país surpreendido. E angustiado. Mais mortal.
Hoje o país empobreceu e a cultura também.  

é preciso não calar





Na calada da noite
Grito dores que não são minhas
Tomo-as a peito, no peito
Mascaro esta  forma de ser
Num pálido sorriso
Que me oferece o teu viver
E os nós dos dedos soando 

Na mesa velha da sala
Gelam gargalhadas  nervosas
E matam caretas de escárnio
Sequiosas...
Na calada da noite
Oiço o bater do medo

Colar-se à tua imagem
E páro angustiada

Na sombra que baixa os braços
Desistindo da viagem
E cerro os punhos doridos
E  transformo os gemidos
Em palavras e abraços 

Na calada da noite
É preciso não calar

É preciso não desanimar...


m.c.s.