quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

cá por coisas

Insistir na pessoa errada é o mesmo que chover no molhado.
Digo eu, a questionar-me sobre o certo e o errado. A tentar perceber se sou insistente. 
Porque de chuva, gosto.

m.c.s.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

entre gestos (3)

Amanheceste-me...
...e agora é tarde para me anoitecer 
Para te esquecer
Para me perder de ti, sol reinante em mim
Exalto-o, entre-comas, entre-gestos, 
na liberdade que o poema me dá
E recuso a rotação da terra
O dia sideral
Amanheceste-me... 
E eu renasci nesse entre-Tanto
Qual aurora boreal.

m.c.s.

entre gestos (2)

...depois, ah depois...
Tudo mudou. 
A noite cantou hinos de glória.
A lua estremeceu e sorriu.
E as estrelas pararam de cintilar, 
para brilharem no meu olhar.
E tu, 
tu vieste morar nesse luminoso lugar...

m.c.s.

entre gestos

...e então, deste-me a mão. 
Dei-te a mão.
Tocou-me a voz e o calor. 
Uniram-se as linhas, desse destino. 
E foi um minuto. Não mais que alguns segundos...
A mão esquerda abandonei-a no teu ombro. 
Encostei o meu peito ao teu. 
O coração amainou.
E dancei... 
Já não lembrava a união dos pares. 
A melodia de dois corações. Bailando. 
Sentindo. 
Ansiando. 
Harmonizando.
...e então, entreguei-te a minha paz...

m.c.s.

Ana Moura - 'Até ao Verão'

domingo, 18 de janeiro de 2015

dia internacional do riso


No dia em que conseguirmos rir deste jeito, o mundo dos humanos será um lugar mais puro e feliz. 
Há dias em que consigo imitar os animais. E acredito que o mundo vai dar-me essa pureza e felicidade.

sábado, 17 de janeiro de 2015

amor-perfeito

Quando espio o teu rosto, na memória que sustento,
há nesse acto de te olhar, uma alegria infantil
De te de novo tatear...
Como da primeira vez, sinto no peito o prazer de te ver a sorrir, 
qual criança sonhadora, traquina e livre, 
Inconsequente
E sorrio eu também...
Como da primeira vez, sinto o universo soltar-me a mão, 
mergulho no teu olhar, salgado e livre mar,
histórias, lonjuras, aventuras,
e navego assim ao som do teu marulhar...
Quando espio o teu rosto e me quero inspirar, 
dou-te uma cor, e és vermelho, 
uma flor, amor-perfeito,
uma ave, és albatroz 
um beijo serás na boca, 
palavra e és mais do que sabes, do que sei, 
és pensamento, insónia,
a minha tempestade, inquietação, paixão...
És a lágrima e o segredo, 
libertador dos meus medos,
orgasmo da minha alma, 
que me pacifica e acalma
És a minha inspiração...
Quando espio o teu rosto, neste tempo em que te invento, 
és o que eu sentir, o que eu quiser, 
e eu...eu sou simplesmente mulher.

m.c.s.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

como beijos

São beijos as letras que junto. 
A dizerem do gesto, as palavras que eu escrevo. 
São memória. De beijos que te dei.
São a história d' um abraço. Mil abraços que te ansiei. 
E o movimento...
A dança dos corpos em união.
São as horas tardias e a paixão...
São dias e noites assim. Escrevendo dentro de mim.
Lábios, bocas ávidas. Quentes. 
São beijos ardentes, as palavras que te invento. 
Escrevo eu. Escreve o vento.
E a mão dum deus maior, 
Tatuando e perfumando a minha pele de palavras
Feitas de beijos que não apaguei

m.c.s.

das memórias...

A dádiva da riqueza interior, o que alicerça a nossa personalidade, o que nos faz erguer e recomeçar a cada decepção, advém das memórias de momentos felizes.
Quando nas lembranças retemos esses momentos anulando os outros menos bons, estamos na construção do presente e do futuro. Estamos a fim de ser pessoas felizes e resolvidas para todo o sempre. 
Eu estou. Digo eu, a olhar com ternura e saudade para o que já fiz, já fui, já recebi, já realizei, aprendi, vivi, de bom. 
O resto? Não tem lugar de pódio. Só o que me faz bem e provoca saudade, tem.


m.c.s.

uma história de amorzade

- ...e lembras-te quando pedias à tua mãe: Ó mãe dá-me uma coca-cola...dá láaaaaa, vai lá buscar...
Sorrisos meus. Mergulho o olhar nas suas palavras e nas memórias desses tempos distantes em que havia mãe. Havia a terra. 
Havia, nós, crianças brincando todos os dias. Uma com a outra. Como irmãs. Ali na Avenida, ali no Largo, ali na Vila Alice.
- Em que casa foi isso? perguntei eu. 
- Aquela ao pé dos Bastos. 
- Ah, pensei que era na outra. Na cubata, como o meu pai chamava. 
- Ah sim, a das mulembeiras. Sorrisos abertos. A saudade e o amor, no olhar trocado por nós. 
- ...e o Luís, o Armindo, o Américo, o teu irmão, que iam lá para o quintal à ginguba que o empregado assava ...
- Pois, eles saltavam as aduelas e iam buscar também o peixe frito; o Luís é que se lembra que era frito em...
E dissemos ao mesmos tempo, 
óleo de palma. O tempo a voltar... ainda a " cubata " ainda as mulembeiras, ainda o sabor, o cheiro, ainda todos nós, ali. O tio Augusto, o avô Carvalho, a mãe, o pai... 
- ...e lembras-te do Kaquito a pentear-se em frente ao espelho do quintal? Cheio de banga...( gargalhadas ), horas e horas. Era vaidoso, que só ele. E a morimba à entrada.
- Do lado esquerdo ( dissemos outra vez, ao mesmo tempo ), depois o armário e o cadeirão. 
E mergulhámos nas lembranças. Só nossas. Vividas por ambas em tempos tão antigos que facilmente seriam varridos, esquecidos, mas não de nós. Não por nós. 
- E o teu pai com a bomba do flit... e faço o gesto. Gargalhadas de novo.
E os sapatos pretos e brancos, picotados. E os quartos...
- E as balalaicas que ele usava...
- E quando mudaram de casa e ouvíamos a rádio brazaville às escondidas, muito baixinho...
Ouvi de novo o rádio fanhoso, vi de novo o sr. Eurico sentado à mesa. Atento ao que ouvia. Com ar de conspiração. Senti de novo o aroma do peixe cozendo no caldo. Da farinha de musseque misturada com o óleo de palma retirado com todo o cuidado da panela, onde, para além do peixe, coze também a batata doce e a mandioca. 
- E quando ias comigo até à esquina do largo com a Fernando Pessoa, onde moravam aqueles putos muito magros e altos a quem pus a alcunha de sputnik e ficávamos ali a falar, a falar, eh eh, depois eu ia contigo de novo até à casa do Armindo...
- E eu voltava a ir na direcção da tua casa, para te levar...
- Tínhamos assunto, aka!
Gargalhadas misturadas com um sentimento bom de saudade e nós de novo. Juntas. Noutra terra. Noutro país. Noutro século. 
Passado muitas décadas. Nós, outras pessoas. Maduras. Vidas diferentes.
Nós amigas, desde que nasci. Abri os olhos e ela estava lá. Com três anos. Falei as primeiras palavras e ela estava lá. 
Dei as primeiras quedas, chorei as primeiras lágrimas, ela lá. Ouvi as primeiras músicas e ela lá ouvindo-as comigo. 
Cantando juntas, batendo palmas, a caminho do Cazumbi. Na carrinha azul do avô Carvalho. Nos banhos de mar na Chicala. No quintal onde não faltava um pombal, um coradouro de roupa branca, a mãe Rosa lavando-a na celha, um carro antigo que já não andava, o galinheiro e o espelho do Kaquito, pendurado numa trave de madeira.
Nós aqui, lembrando a infância e a adolescência, o Percy Sledge, no my special prayer ou no love me tender e as conversetas sobre todas as inquietações e sonhos sentidos e sonhados,
- Sempre me lembrei de ti muito positiva, divertida, bem disposta, disse-me ela. Positiva eu? era mesmo? Eras pois. Eras assim, como és.
Quando na Antena 1 passaram aqueles programas sobre a descolonização, eu segui-os e ouvi a tua entrevista, num dos programas e reconheci-te pela voz. Olha a minha amiga Clara...gostei tanto de te ouvir...
- Mas a minha voz não mudou desde aqueles tempos de Luanda?
- Não, filha. Tá tal e qual. Na mesma.
A voz dela também. Reconhecia-la entre milhares de vozes.
Passeámos, almoçámos. Ficámos horas conversando. Dos tempos passados. Dos de agora. Como já não fazíamos desde o tempo da Vila Alice. Ela casou cedo. Depois veio para Portugal. Para o Barreiro. Onde se radicou. Voltámos a estar juntas muitos anos depois, na Marinha Grande, num almoço de gente daquele tempo, nossos vizinhos. Depois voltámos a ver-nos em Sintra para o mesmo efeito. E depois estivemos quase uma década sem nos reencontrarmos. O ano passado, no início do verão passei o dia com ela e sua família, no Barreiro, num período de doença minha, uma faringite que me deixou afónica. Pouco pude falar. Voltámos a estar juntas quando o Kaquito, seu irmão, veio dos Estados Unidos para umas curtas férias. Assim os amigos do Largo , o Luís, o Armindo, o Américo e nós, voltámos a juntar-nos. Nesse dia combinámos encontrarmo-nos sem interferência de outros. Só as duas. Como nos velhos tempos. Nós e a nossa amizade. Nós e as nossas memórias. A nossa intimidade. Dando beijos nos corações. Pronunciando palavras como abraços. No colo. Uma da outra. 
Aconteceu. Ontem. E voltei para casa de alma cheia.
Sou uma pessoa tão afortunada! Porque tenho uma amiga tão antiga quanto eu. Porque resgato tudo o que fui, o que vivi, o que fomos, como fomos, a cada encontro. Porque há alguém que gosta de mim quase há seis décadas só porque sim.
E eu pago da mesma moeda. Com o tal amor que nunca morre.

Amo-te o que a amizade que te tenho é capaz, Lisete. Tudo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

fora de questão

Perguntaram-me onde mora o ódio. Não soube responder. Apenas sei que fica no lugar mais longe do amor. 
E eu nunca fiz esse caminho, porque estou sempre perto de amar...

m.c.s.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ocorrência

- Dona Claraaaaaaaaaaaaa! Dona Claraaaaaaaaaaaaaaaa!
Ouvi do fundo da loja. Do balcão dos enchidos e queijos, pão e bolos. 
Era a Marta. 
Aproximei-me dela. Ria bem disposta. Espalhafatosamente. Bolacheirona.
- Está toda contente! Ontem lembrei-me de si. Veja lá. Disse cá p' ra mim, a Dona Clara deve estar nas nuvens.
Fez-se luz em mim. Falava do Benfica. Ela que é do Sporting, mas casada com um benfiquista, o Mário.
Antes de ir para Lisboa, passei na loja. E falámos do jogo. Souberam assim que eu ia à Luz.
- Han?! Isso é que foi. Três han?!
- Foi um grande jogo, Marta. O Benfica podia até ter perdido mas eu vinha de alma cheia na mesma. Jogou-se muito naquele estádio. Foi muito bonito e limpo. Disse eu com um sorriso de orelha a orelha, claro.
O dia está soalheiro. É domingo. O Benfica deu uma alegria aos seus adeptos. A Pitanga já tem o areão. O meu almoço já foi. E eu, que estava para assistir à marcha silenciosa em Paris, depois de ter uma Marta tão espontânea, a dizer que ontem à noite pensou em mim, se bem que apenas por causa do meu clube e da minha alegria pela vitória, ter-me-á imaginado aos pulos numa bancada ( por acaso no sector 5, 3º piso, fila D, nº 6 ) exibindo histericamente o cachecol do glorioso, entrego nas mãos de Deus e vou mas é arejar as ideias, receber os raios solares e sentar-me quem sabe a ver o mar.
A vida corre. Eu hoje até dissertava sobre a gratidão e consequentemente sobre a ingratidão, mas fica para amanhã. Se não for antes. Porque tenho mais que fazer. Vou no trilho certo. Em busca de bem estar, quem sabe um momento de alegria e felicidade. Paz hoje já tenho. Quando estamos nos pensamentos dos outros só porque sim e não porque não, é porque gostam de nós certamente. Isso humaniza-nos e torna-nos mais tranquilos. Receptivos. Gratos. 
Grata sou à Marta e a todos quantos de alguma forma me associam a qualquer coisa boa das suas vidas. É recíproco. Porque tenho para mim que ninguém gosta de quem não gosta da gente. E eu tenho uma memória gigante. 

sábado na Luz Benfica 3, Guimarães 0

Um jogão. 

a minha rua...


a minha cidade é linda! É de bem querer...


rosa de porcelana branca




a propósito de despropósitos

Ó Gustavo Santos, és tão, tão, tão...vá, vou mesmo dizer o que penso porque tenho liberdade de expressão e quero usá-la sem medos, aqui, hoje e agora, pondo-me a jeito (?) ( discutível ), és tão idiota que até me dá pena. 
Ó senhor músculos, olhar caçador, atitude de menos, que pretensão! A de quereres ensinar o padre nosso ao vigário. 
Dando-te a ares de entendido. Dono de verdades.
Apresenta lá o Querido Mudei a Casa, meu, que nem aí te acho a menor graça, o menor talento. 
Tens uma vaidade do tamanho do perigo que os terroristas representam. Gigante. 
Puseram-se a jeito? Limites para o humor? O humor tem de ter comédia? Brincamos aos tontos e às loiras? 
Humor britânico? Humor negro? Han? isso não te diz nada? Humor inteligente, não? Que cutuca? Que espevita? Que faz reagir? Que muda? Que é trabalho ao serviço do mundo? 
Humor tem de ter comédia...para te rires, é, ó palhaço? Vai ao circo ou pede que te façam cócegas.
Ó pá, vai mazé dar banho ao cão.

foto do google

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

vagabundeio-me


Vagabundeio-me pela beira do caminho, destinatária, direita ao destino que hoje não queria marcado.
Passos lentos, mochila às costas. Cachecol enrolado no pescoço, a proteger e a enlaçar. E um lar no olhar. A deixar para trás... 
Uma saudade súbita a juntar às saudades d' outros dias, outros lares, outros anos a findarem e a começarem também.
Só, de novo. Na bagagem sempre mais do que espero, preciso ou peço. 
No peito, rosas e sorrisos. Palavras do coração. Na pele a suavidade das boas intenções. Oferecidas. Na alma, gratidão.
Vagabundeio-me pela estação deserta e fria, chegada sem pressa, sem hora marcada, tanto faz que ganhe ou perca, o comboio que me há-de levar. Carris, vento soprado, da serra. 
Despenteia-me, essa brisa gelada que me regela os ossos e me sussurra coisas que o espírito ainda há pouco tranquilo, já em modo carente, quer ouvir.
Vagabundeio-me em olhares. Por este lugar. Onde jazem pessoas de bem, minha raiz. E vivem outras também, que me escutaram, falaram e amaram. E amam.
Vagabundeio o meu olhar pela linha que me leva onde tenho de ir. Rio abaixo. Tejo desejoso de mar. 
Vagabunda dos sentidos hoje perseguiria a corrente para a fazer parar. 
E ficar-me-ia por aqui, onde é tão fácil ficar, sem a voz do tempo a dizer que é hora de regressar.