quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

o encontro

Quando a tua primeira amiga, aquela primeiríssima de todas, a que já estava lá quando ainda estavas agarrada a uma placenta no ventre da tua mãe, aquela que te viu quando nasceste, com olhos de criança de dois anos, te acompanhou ao longo da vida, ontem te liga e simplesmente te pergunta,
- Como é que está a tua agenda para amanhã? Vamos almoçar juntas?
Há alguma possibilidade de dizeres que não? Não. 
Desmarcas tudo o que já tinhas marcado. Se tivesses marcado
Ficas em pulgas para a abraçares. Para receberes o seu olhar. A sua ternura e doçura. Ouvires a voz. A velha voz de candengue. Cristalina e pura. Que nunca muda. 
Para sentires esse amor que nunca morre. Que nunca morrerá. 
Exaltas de alegria. 
Encontrares alguém que gosta de ti, de quem tu gostas desde que nasceste, é voltares ao bairro e aos cheiros. Às cores.. Aos passeios com o avô, ao domingo. Às idas ao Cazumbi. Juntas. Às 
cantigas em coro.
É voltares ao Sô Santos e dona Celeste. À Dona Rosa e Sr. Eurico. Ao Largo Camilo Pessanha. 
É voltares a ouvir Percy Sledge e música de Cabo Verde. Comeres muzonguê feito por ela. Contares segredos com a certeza de que nunca serão revelados.
É voltares ao dia do seu casamento. À festa. Aos tangos dançados no quintal da sua casa. E ela, linda. A tua primeira amiga.
Encontrares alguém de quem tu nunca te esqueces, é para além de tudo estares sem filtros. Sem máscara. Sem pose. Sem reservas nem pé atrás. É como estares contigo. Em eco. Pacificamente. 
Quando o barco que vem do Barreiro, junto à hora do almoço a deixar na estação fluvial do Terreiro do Paço, far-se-à Natal. E tu, eu, serei bem mais feliz e completa. 
Poderei encostar a cabeça no seu ombro. Abraçá-la coração cm coração. Demoradamente. Sentir a sua boa energia. Falar e fazer silêncios. Sem constrangimentos nem julgamentos. 
A minha amiga de sempre. Lizete. Feita presente. De Natal. De todos os dias que quisermos estar juntas. Como irmãs. Nesta amizade que tem 61 anos.
Sou um ser abençoado. Ela um ser especial. Muito especial. Singular e único.

m.c.s. ( escrito antes do Natal )

os amigos

A pessoa gosta de viver. Muito. E bem. E disso tem absoluta consciência. Desde que acorda até que se deita. Nem gosta de dormir senão o necessário à saúde, porque é um perfeito desperdício na vida que tem. Às vezes sonhos. Que não se realizam. Às vezes pesadelos. Que provocam suores. Taquicardia. Medo. Que não controla. Porque dorme.
A pessoa sempre cultivou os afectos. Ao seu jeito. Na família nem sempre é compreendida. Nos amores também. Com os amigos não. Nesse amor que não morre mas pouco cobra há uma sintonia quase que perfeita. Sabe que os amigos só se perpetuam no tempo numa igualdade de doação. Numa aceitação de cedências saudável. Numa triagem de atitudes, relevando ausências e enaltecendo presenças. E sobretudo na lealdade. Na verdade e no carinho. Na independência. 
Um amigo quando está contigo tem de se sentir amado. Especial. Único. Tens de te sentir feliz com a sua presença. Tens de o escutar. De o alegrares. De te colocares no lugar dele quando é necessário. Sem perderes a tua identidade. A tua atitude. O teu ponto de vista. Tens de o olhar de frente. E ver a sua alma. E ler o seu coração. 
Acho que sou boa nisso. Não me ensinaram. Não copiei. Sou. Simplesmente. E hoje mais lúcida que ontem, sei que estou certa. Um amigo é um ser muito importante na minha vida. Às vezes, muitas vezes, quase sempre, enfim, confesso que acho que sempre, essencial. Imprescindível. Insubstituível. Talvez por isso atravessei o Atlântico, sem amigos. Mas eles não se perderam de mim. Não me perdi deles. Nada se findou. Tudo continuou. E hoje com 61 anos sei que a minha fortaleza vem da amizade que cultivei. 
Que cultivo. E sou imensamente grata à vida por ter os amigos que tenho. E ter capacidade, discernimento, sensibilidade e um coração capaz de amar pessoas minhas iguais; e simultaneamente tão diferentes. Com alegria e respeito. 
A Amizade existe. Sim. Eu, os meus amigos, somos prova disso.


m.c.s.

a culpa



Aqui da Europa, deste lugarejo pacato onde como, durmo, rio, choro, me entristeço, me amanheço e me animo, ou me espreguiço, escolho e avanço ou me deixo ficar com a liberdade do ser e estar, aqui onde tenho a raiz que me prende à casa, às pessoas minhas semelhantes, ao país, e asas para poder voar, aqui, onde vivo em paz e me sinto feliz, vejo Aleppo. 
Podia dizer que fanaticamente angustiada, mas mentiria. Podia dizer que nunca me sai do pensamento, mas seria cínica. Podia dizer que vou fazer algo para reverter a situação, mas sei que não o farei, não.
E sinto um vómito. Visceralmente falando. E sinto uma dor corrosiva. E sinto uma impotência devastadora. E sinto que há deuses menores. E desacredito. Na justiça. Na inteligência. Na compaixão. Nos homens. Em mim. Em ti. E no mundo. 
Ali não se fará Natal. Não chegará o velho das barbas brancas. Nem presentes. Ali nem os dias têm o direito de se marcar em cruz no calendário. Concretizados. 
Ali há braços caídos e lágrimas que não se choram. Palavras que não se articulam. E passos que não se dão. 
O futuro não existe e as crianças não se farão velhas. 
Não há poema que vingue. Gesto que ganhe sorrisos. Silêncios onde se tracem sonhos. Caminhos que se abram .Olhos que olhem de frente. 
Não há balada que se dance; nem braços que se aconcheguem em abraços. Pão que dê fartura. Chão onde nasçam flores. Sol que brilhe no céu. 
Em Aleppo, todas as Aleppos, a culpa não morre solteira. Vive nos senhores da guerra. E o mundo cada vez mais feio, triste e injusto. E o mundo cada vez mais perigoso. 

E desumano. Moribundo.


m.c.s. ( escrito antes do Natal )

reflectindo sobre recomeços

Com frequência vou à farmácia que fica aqui ao dobrar de casa. Sou a cliente do Inderal. Quase diariamente vou ao supermercado e por lá me perco entre compras e converseta com a Marta, a mais simpática da loja; seguida do Mário, seu marido, do Fernando, seu irmão e por fim da Cristina, sua cunhada ( a trombuda do boteco ). 
Duas a três vezes por semana vou à churrasqueira do Vítor, que o é mais da empregada Tina, que quer, pode, manda, nele, nos cozinhados e no que vende; e ainda quer mandar em nós. Duas vezes por semana atravesso a rua para ir ao euromilhões, loja onde está a Nela, ex-empregada do supermercado, o seu malandreco e frustrado marido, pois que as suas piadas são secas e desprovidas de habilidade humorística e algum conteúdo, que provoque um esgar que seja; e também do seu irmão, que anda não consegui definir bem, mas que me parece bipolar, porque, ou está de costas ou de barriga. Ou me ignora como se eu fosse um vidro transparente, ou me chama minha querida num tom que também ainda não soube interpretar. 
Na padaria do meu " cubico " entro todas as vezes que quero pão, bolos, queijo fresco ou empadinhas de galinha. Ou seja, mais do que uma vez por semana. Também de quando em vez vou ao mercado, que fica logo depois da Igreja; como também vou ao Chinês, que é uma chinesa simpática e bonita, junto à cabeleireira. Onde lhes faço uma visita quando preciso de cortar o cabelo. Raramente vou ao Mulemba, restaurante da tia Helena e da Mizé que a semana passada sofreram a dura dor da perda da Cláudia, com apenas 36 anos. 
Deste kimbo que dá pelo nome de Olival Basto, do qual falo com alguma intimidade, é quanto sei. Fica tudo na minha rua, à excepção da farmácia, do chinês, da cabeleireira e do Mulemba. Que distam da minha casa no máximo 300 metros ( o Mulemba ).
Depois e por fim tenho a minha amiga Olívia que vive duas ruas acima. A mais próxima de todos os outros pois que à distância de um telefonema, um " Oi " no chat, ou mesmo dum toque de campainha aqui em casa e umas escadas para subir.
Este é o pequeno mundo meu. A poucos passos de mim. De um sorriso. Dois dedos de conversa. 
À volta de mim estão Odivelas e Póvoa de Santo Adrião aonde tenho amigos do peito. De infância. E uns compadres. 
Dou comigo a pensar que estou bem vizinhada. Protegida e apaparicada. Pela minha amiga Olívia que me chega o saco d' água quente, reumon e o compensan quando preciso; que me toma conta da Pitanga se estiver fora, desce p' ra comprar pão quentinho e volta a subir escadas para mo entregar, só porque estou de pijama. Que apesar do seu ar de generala, dona Tina, demonstra ter algum cuidado comigo; que na loja todos são simpáticos e prestáveis, mesmo a Cristina que tem mais dias que acorda com os pés de fora, ou o Fernando não lhos aquece. Na cabeleireira são umas queridas e conversam que se desunham, muitas vezes tecendo elogios ao meu aspecto ( que nem sempre estou a 50% quanto mais a 100).A chinesa da loja, querida é, mesmo naquela sua pronúncia cheia de eles em vez de erres, no seu desejo de me agradar e me levar a comprar. No mercado idem. Na farmácia há duas meninas maravilhosas, uma que sabe o meu nome e o procura ( tenho cartão das farmácias ) para assim ganhar pontos e ficar registado para efeitos do IRS. Me vendeu a vacina da gripe sem receita médica e fala-me sempre que pode sobre Torres Novas, amiga que é duma miúda que conheço, bem como à sua família ( o mundo é uma ervilha ).
Na papelaria é aquela base. O do " querida " que nem sempre está a favor, a Nela que repete o meu nome vezes sem conta numa vontade de ser mais do que educada, próxima; e o seu marido sem piada mas que ainda assim me trata com o devido respeito. No Mulemba, sou recebida como se fosse a Rainha Ginga por aquela família que tem o restaurante nas mãos. 
De forma que fora daqui e apanhando o transporte para casa, faço-o de plena consciência que aqui é o meu kimbo. Aonde me sinto bem. Mimada. Acompanhada. Respeitada. Valorizada. Há ja 41 anos de vida em Portugal e o Olival é a terra aonde meia dúzia de pessoas me abre os braços todos os dias e sempre que preciso. Só porque sim. E por aquilo que sou e represento para elas. Sendo eu. E dando-me o que sei e posso. Tornando este lugar o ideal para viver. Há 3 anos.
Já precisava...

m.c.s.

ser-se

Ser uma boa alma não é amar os nossos próximos. Isso é ser humano. 
Ser boa pessoa é sentir compaixão e respeito pelos distantes. De nós.

m.c.s.

avaliando perdas e ganhos

Quando se perde a confiança no outro, ganha-se anticorpos.
Digo eu, tomando o peso a perdas e ganhos; e negando-me a ser um zero à esquerda, nas contas desta vida de ilusões e desilusões.

m.c.s.

fotografia no Tivoli

No Tivoli - espectáculo de Bonga terça-feira. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

ser

Somos as circunstâncias que atraímos. 
Aquilo em que acreditamos.
O que nos comprometemos.
Também o que nos exigimos. 
As palavras em que nos apoiamos.
E as pessoas que escolhemos.
Somos muitos. Somos todos. 
Se a capacidade para termos não diminuir a capacidade de sermos.


m.c.s.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

não ter o pavio curto

No jogo que a vida insiste em jogar, ficamos ( quase ) sempre a perder. 
Cartas na mesa. Ela baralha, corta e dá. E já começamos em débito. Desde logo, diminuídos. Portanto saímos perdedores. 
Ela? Soma e segue. Predadora. 
Antagónicas posições. 
E porque se instituiu que equipa que ganha não se mexe, ela vai multiplicando vitórias. Nós, derrotas.
Ciclo vicioso - Se não comes, és comido e engolido. Pelo salão de jogos. 
Este casino gigante. Este sistema destruidor.
A solução - Saber jogar com a razão. Mais do que com o coração. Fazer batota. Que é o mesmo que fazer de conta que a vida ganha a melhor. E na volta, um qualquer trunfo guardado, salvo. Na manga. Uma distracção, uma rasteira. Uma revolta. Um Não!
No jogo que a vida insiste em jogar, o que é preciso é estar de olho vivo e pé ligeiro. Para qualquer eventual maratona. E partir sempre vencedor. 
Um dia a sorte muda. 
O que é preciso é estaleca, chama olímpica, para o pódio. E não ter o pavio curto. Para usufruir. Com mérito. Da mudança.

m.c.s.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

paciência

A distância entre o elástico e a fisga é mínima. 
Às vezes o que os separa é só a paciência (elástica ).

m.c.s.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

a voz do coração

As pessoas de fé, as mais espirituais dão conselhos ( há algumas na vida de qualquer um ). E amiúde, dizem,
- Ouve o teu coração.
Eu tento. Coloco-me nas posições mais estranhas que este corpo já não deixa, mas a alma consegue, a ver se sou toda ouvidos.
E fico tão frustrada!
Ou estou surda ou o meu coração perdeu a voz...
m.c.s.

sobre frontalidade

Frontalidade não é excesso de sinceridade; Isso é inconveniência. Maldade.
Frontalidade é antes o uso da verdade sem desvirtuar a intenção. Nem o receptador.

m.c.s.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

o universo dá

Aceito o passado. Como inevitável.
Vivo o presente. Nesta conquista.
Acredito no futuro. Que hei-de abraçar.
Porque sei o que quero, tudo sonho.
Porque mereço, nada peço.
O Universo dá...

m.c.s.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

o último dia da minha individualidade

Hoje é véspera de amanhã. 
E uma mulher que carrega pela primeira vez uma criança no seu ventre, toda uma gestação cumprida com carinho e ansiedade, curiosidade e alegria, quando chega à " véspera de amanhã " é como se fosse um ventre. Uma placenta. É como se fosse tudo isso e o Mundo.
É como chegar ao princípio da sua natureza.
É como se chegasse à Vida. 
É afinal nascer-se Mãe. 
Hoje, véspera de amanhã - há 34 anos - vivi o último dia da minha individualidade. Da minha singularidade.
Depois, nunca mais foi a mesma coisa. Nunca mais fui igual. Nunca mais fui uma só. 
Graças a Deus e ainda bem :)!

m.c.s.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

livre

Livre, é o que ama sem medo, 
vergonha
segredo
futuro 
reflexo
ou intenção,
De, não mais que, amar... 
Livre, é o que ouve vozes duma (in)certa razão,
e não se perturba
no seu caminhar...
E na sua dislexia
Exulta a alegria 
E dá voz ao coração...
Mesmo se é, se for,
linguagem sem tino 
nem nexo
Mesmo se é, se for, amor de perdição...

m.c.s.

amanhecendo-me hoje