quinta-feira, 30 de outubro de 2014

hoje

Amanheci anoitecendo na queda das horas, 
no leito acordada
no silêncio sem fim...
Por entre melodias inventadas
Ergui os sonhos da madrugada 
Que jaziam em mim
E despi-me dos medos
Intimidades, segredos, das horas tardias
Anoitecendo-os
E adormecendo-os assim...
Porque hoje, a noite, foi de viagem
Pendurada na lua
Porque hoje o sol me deu a coragem
De dançar na rua
Coberta com um manto
A dança d'um ventre parindo em despranto 
Estrelas cadentes
Esperanças, sementes
Auroras sem dor
Porque hoje a vontade amanheceu reinando
Espreguiçando o amor

m.c.s.

mote

Exalo perfumes vários, na manhã que amanheceu de véspera
São contos, conquistas, sentidos... 
Encontros, trocas e laços, que ato, desato e sorrio
Na gratidão deste acordar
Goiabas amarelas, doces 
Pedaços duma lembrança 
Que toco com o meu olhar
Ávido, saudoso e traquina
Quintais guardando segredos, memórias de encantar
Passos que quis seguros, na solidão do bocejar
Suspendo noites frias, outonos tristes e vazios, 
Máscaras das cores sombrias
Paletas de sonhos às cores, que se perderam no ar
E histórias de desencantar
Exalo o perfume doce, duma terra que se faz presente 
Pela boca do meu paladar
Pelo cheiro antigo, rendeiro 
Pelo coração teimoso e ávido 
Pelo desejo sorrateiro
Do espírito a divagar
Exalo perfumes vários, na manhã que amanheceu de véspera
E me despertou o despertar...

m.c.s.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

almoço d' hoje

Muzonguê. Faltou amandioca.

sugestão de almoço

Bife de peru grelhado com cenouras, couve portuguesa e batata doce, cozidas

migas com costeletas de carneiro


Para as migas: Azeite, alhos picados e folha de louro. Num tacho estes ingredientes vão ao lume. adicionar a seguir as couves( grelos, ou caldo verde, conforme o ue gostarem ) cozidas e cortadas, o feijão manteiga e a broa esfarelada. Mexer tudo e deixar cozinhar um pouco até à consistência de migas.
Facultativo ( caldo de carne, pedaços de bacon aquando dos alhos, a estrugirem e deixá-los ficarem no cozinhado )
Para as costeletas: sal, alho e limão. Grelhar em azeite.

em chez moi - salada fresca

Tiras de manga; alface; tomate; delícias do mar; sementes de abóbora; bagas de goji, queijo fresco. Molho de queijo e iogurte.

no Kook do Chiado Lisboa e Luanda



Baixa de Luanda


a nova Marginal - Luanda




na praia de Sangano


terça-feira, 21 de outubro de 2014

porque hoje é hoje

Hoje é o dia de ficar em casa. E não fui eu que o escolhi. Escolheu quem pode. Quem instituiu o dia de hoje para que o metropolitano parasse.
Nada contra, tudo a favor, note-se. Nem sequer quero ir por aí. Aliás não posso ir por aí porque não tenho metro para decidir aonde quero ir. 
Hoje é dia de criar alternativas a esta limitação. 
A menos que arrisque ir para a paragem do autocarro a vê-los passar, porque em dias assim eles vão carregados e quando param para que entremos ( que grande sorte ) demoram eternidades até aos lugares de cada um. Sei disso porque já embarquei nessa aventura e enquanto me não esquecer, fico no lugar que estou. Do aborrecimento mas conformada. 
A menos que perca o amor a uns euros valentes e chame um taxi. Que me leve a um destino amigo. E traga de volta.
A menos que vá a pé para Odivelas e me ponha às voltinhas. 
Ou apanhe o " Voltinhas " e vá para o Centro comercial Strada. 
Ou apanhe o autocarro e vá ao Ikea. Não. Muito obrigada. O sol merece mais de mim.
Ou que me ponha à boleia. Isso não me parece possível porque nem uso mini-saias nem tenho pernas de fazer parar o trânsito, que hoje é mais intenso. 
Ou que.....enfim! Abstenho-me de falar nos amigos com carro. Não estão para aqui virados, claro. Cada um na sua vidinha, virados para os seus umbigos, para outros mais tentadores e para os seus automóveis. Era o que mais faltava, passearem uma amiga apeada! Uma alma livre, frustrada, uma fotógrafa fracassada ( pelo amor da santa, não me estranhem porque não estou a fazer-me ao piso )
Porque hoje é hoje, é dia de ficar em casa. Ponto.
Ou...reticências.  

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

o Outono na província

Assim que as férias e Agosto chegavam ao fim e Setembro nascia nostalgicamente no calendário, com dias mais pequenos e noites a pedirem mantas enroladas nas pernas, chá e séries até o sono chegar, as feiras anuais faziam-se presentes no pavilhão montado para o efeito. 
Eram os objectivos a renovarem-se para que a depressão não se anunciasse e idas ao médico, anti-depressivos e outras mazelas se rejeitassem, alma triste com o fim do verão.
Logo no início do mês abria-se ao público a feira das empresas e dos serviços. Ostensiva e animada. Gravatas, saltos altos, tapetes vermelhos e brindes, demonstrações, vendas e ilusões. Conversa daqui, beijo dacoli, abraços e palmadinhas nas costas. Aos mais raros na presença.
Logo a seguir, era a feira dos frutos secos. Repetia-se o ritual. A procissão às bancas de figos, nozes, amêndoas, amendoins, tâmaras, avelãs, pinhões, passas de uva e amêndoas do brasil. Aos bolos feitos com essas frutas. E outros. Ao artesanato e às barraca de pão com chouriço da Antónia, a ex do Pipas, " cliente " do tribunal. 
Enquanto se comiam os frutos da feira os dias arrefeciam, as chuvas surgiam e o tempo passava mais veloz do que era suposto. Os cobertores mudavam-se dos armários para as camas, o calçado de inverno saía das caixas, os casacos arejavam-se e comiam-se dióspiros e bagas de romã ao serão. Da cesta das lãs surgia aos poucos um cachecol. A hora mudava. E mal escurecesse, já das chaminés, o fumo e cheiro a lenha a lembrar Outono, das castanhas e da água pé. Das broas dos Santos.
Novembro vinha pela mão do feriado de todos os Santos, o dia do bolinho. A pequenada, numa velha e inquebrável tradição, juntava-se e de saco na mão tocava a todas as campainhas que encontrava pedindo o pão por Deus. Depois eram os aniversários de família. Muitos. Parecia que todas tinham escolhido o mês de Fevereiro para engravidarem, só para darem à luz em Novembro. Primeiro o aniversário da primogénita. As prendas. A festa. A família reunida. Os amigos. Depois o mano Zé, a seguir a mãe e no dia seguinte o caçula. Assim passava Novembro entre presentes, bolos, parabéns e a aproximação ao Natal. 
Assim passava o Outono. Naquele lugar. 
A vida na província, ( província ? ) pode ser maravilhosa. Cidade pequena. Com o suficiente para a gente se governar. 
Estádio de futebol. Pavilhões de desportos. Piscinas. Biblioteca. Cine-teatro, bombeiros. escolas secundárias, escola superior. Hospital, hipermercados, ginásios, esplanadas, restaurantes, discotecas e bares, centro comercial, fábricas, igrejas, ruínas romanas, grutas, bancos, lojas, mercado, hotéis, rio, castelo, andares, vivendas, condomínios fechados, jardins. Serra. Cidade bonita e aberta. À auto-estrada, para norte e para sul. Uma hora da capital. Isto para quem conduz a cem à hora. Para os ases do volante, quarenta e cinco minutos chegavam. Ali ao dobrar da esquina... 
E há quem a dobre. Eu dobrei, mudando-me de armas e bagagens, ficando paredes meias com a cidade grande. Mas quando chega o Outono apetecem-me merendeiras, morcelas de arroz com grelos, a sirene dos bombeiros dando o meio-dia de domingo, caminhada, descer o viaduto e andar no TUT desde o hipermercado até casa. Sentir o perfume da alfazema, o frio na pele e olhar a serra d'Aire quebrada pela muralha do castelo, comprar a fruta na loja da Rita, conversar com a Lurdes, mãe do Vasco e do Alfredo, sobre a nossa terra, passar a ponte e olhar as quedas d' água do Almonda perto da cadeia.
Afinal ter saudade de quase quatro décadas é ter a certeza de que não passei por acaso tantos outonos na província mesmo tendo estando quase sempre com um pé em Lisboa e outro em Luanda.
Um dia destes vou matar as saudades...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

a flor da pitangueira



pai

Se o céu abriga os bons
Onde estarão os melhores? 
Onde estás tu, estrela do meu firmamento?
Estás na minha memória, narrador da minha história e dos passos que aprendi. 
Estás no coração que ensinaste a amar, a perdoar e respeitar.
Estás nos olhos, nas mãos, na esperança que faz parte de mim.
Estás na avenida, anos por ti palmilhada, amada.
Estás nas quadras rimadas, nos fados chorados, nas terras para trás dos montes, além rio, além pontes.
Nas estevas e nos andores. Nas preces e nas promessas.
Estás nos amores que semeaste quando andaste por aqui.
Afinal ainda não foi hoje que partiste.
Porque estás no presente, dia, hoje, sempre...

m.c.s. ( à memória de sô Santos 10/10 )

bater asas e não voar...

Sou como aquela ave de cativeiro. Que tem asas mas não foge.
Quando o meu coração está preso só tenho olhos para a gaiola.
Digo eu, ensaiado um voo doméstico...

m.c.s.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

o medo

Na noite que o medo abraça,
na esperança de a conquistar
Vejo as lágrimas que chorei,
sonhos que embalei
serem levados para o mar
As lágrimas se vão misturar
ao sal tão precioso
que há-de temperar
o manjar mais saboroso
Os sonhos serão levados 
pela espuma branca da onda 
pela vela a velejar 
e pela corrente dos rios 
que os hão-de salvar 
Rápidos no seu desaguar...
Na noite que o medo abraça 
para se sentir corajoso
Não há nem frio nem sorte, 
nem mantas para me agasalhar
Há desejo de o vencer 
Salvando lágrimas e sonhos
Mergulhados no mar...
Na noite que o medo abraça
Há mistérios a desvendar
Debaixo do negro véu
que a noite não quer guardar
Há a bravura do medo
O mocho surdo e quedo
Há um amanhecer conquistado
Para voltar a sonhar...

m.c.s.

ah pois é!


verdadeira solidão

A solidão maior acontece quando percebes que nem o teu eco te escuta.
Nem a tua sombra te olha.
Nem a tua pele te veste...

m.c.s.

da realidade ao sonho

Há sonhos tão antigos quanto eu. Por sonhar...
Marcas do tempo de quem muito viveu no coração de quem quer sonhar. 
Como rugas que não acautelei nem quis maquilhar.
Livres desejos de quem muito sonha e tem noites para do tempo se evadir e se inspirar. 
Há sonhos que esperam a vez para a história começar. 
Não se impõem nem desistem. Não se perdem na bruma da espuma nem navegam ao deus dará das conclusões. 
Não são sinaleiros nem policiam a minha vontade de me entregar.
Sabem qual é o seu lugar. Na esquina da vida, na arte da escrita, na noite tão longa, no despertar da manhã. No respirar. 
E não se anunciam. Nem arrepiam caminho. Seguros. Antigos. Ali estão, vendedores de sonhos. Só tenho de acreditar.
Há sonhos que vivê-los é mais do que sonhar. É desafiar. A natureza das minhas convicções. Dos meus pesadelos. Da minha vontade de os matar.
Um dia queria agarrar nesses sonhos tão velhos quanto eu e sonhá-los sem rede nem peneira. Sem culpa nem desculpa. Sem intenção de me magoar.
Aquele sonho de final feliz. Que me viesse, das insónias, salvar...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

na rota do albatroz



Um dia tive um sonho. Romântico. Breve. Belo.
Como um voo de albatroz.


Ainda hoje, na dúvida, me pergunto se o sonhei ou se foi o sonho que quis habitar a minha fragilidade de mulher de asa quebrada.
Temporariamente. Fugazmente. Como motivação. Talvez no limite ilimitado do conhecimento, para minha salvação. Para os sonhos não sucumbirem em mim. E os voos não terminarem.
Foi um sonho lindo. Por capítulos. De um livro, que um dia hei-de escrever. Logo que o saiba fazer e me garantam esse saber. Essa isenção. Esse distanciamento de autor. Essa memória do segundo certo, da vírgula justa, da interrogação oportuna, do ponto final. 
Há sonhos com honras de passerelle. Tapete vermelho. Flutes e brindes com champanhe francês.
Há sonhos que têm o perfume de flores de frangipani. o sabor do pão com doce de tomate, a visão do carro da tifa por ruas da minha cidade. 
Há sonhos que têm trompetes e palcos, camarotes e melodias celestiais. Anjos, potes de mel e comboios de beijos. Anseios, paixão, dependência e alma. Gémea. 
Há sonhos que têm as paisagens ilimitadas dos trópicos e o voo gigante dos albatrozes perseguindo os barcos no alto mar.
Há sonhos assim, especiais.
Nunca soube sonhar um sonho assim porque não tive nunca uma alma gémea. Mas mesmo cega, ignorante e adormecida, quis sonhar um sonho maior. 
You anda I...Tu e eu...apaixonados. 
Acordei. Do sonho ficou-me o coração batendo acelerado como o da criança assustada. As palavras que nunca ninguém me tinha dirigido. A declaração d' um quase amor, quase paixão, quase verdade...
Do sonho ficou-me a capacidade para sonhar para sempre.
Do sonho ficou-me a canção. You anda I...

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Michael Bublé - You And I


só porque me lembrei de almas gémeas que não foram mas podiam ter sido. Albatrozes, carro da tifa, pão com doce de tomate e flores de frangipani.