quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

caldinhos de galinha

Há dias que a gente salta a manhã e quando acorda diz naturalmente - boa tarde mundo - espreguiçando músculos, tendões, nervos, preguiça e vontade de despertar. Energicamente.
Não interessa se a manhã passou e não me bafejou com a sua frescura. 
Assim como assim não me parece que tenha perdido muito e o que ganhei numa noite em claro foi cansaço para me deitar na manhã fria e monótona deste lugar. E dormir frente a uma janela que acorda com os primeiros sons da madrugada, sem que isso perturbe o sono habituada que fui a viver perto de lugares onde a vida acontece. 
Incomoda-me bem mais o silêncio que o som dos dias e assim, hoje foi dia de levantar-me com a tarde.
O que fazer? O que comer? O que esperar?
Depois d' um batido para aconchegar o corpo e o espírito, é hora de pensar no almoço. Desengane-se quem pensa que os que vivem sozinhos não cozinham. Claro que sim.  Sobretudo se já são reformados. Essa é uma experiência que ainda não tem um ano, mas que não incomoda nem exige demais de mim e da vontade de estar na divisão da casa que me é mais grata. 
Cozinhar é um prazer diário. A minha terapia também. Cozinhar bem é a minha satisfação. 
E porque me apetece uma canja,  ( há anos que não faço canja ) o organismo lá sabe, foi atar e pôr ao fumeiro que se fez uma pressa. 
Enquanto a preparava pensei no Vítor.Não, não se ponham a adivinhar. Não o conhecem. 
Eu? Mal. Afinal quem conhecemos bem? Eu? Ninguém...
Pensei no Vítor porque está aqui à mão de semear, entrar e pedir um frango. 
- Minha senhora, partido em dois? 
- Sim, corte-o ao meio e depois aos bocados. Separe-o para duas vezes.
O Vítor do talho faz lembrar o Simpson dos desenhos animados. Uma personagem. 
Gigante,largo, impecavelmente fardado não faltando o avental branco.  
Sempre corado. Bem disposto. No seu vozeirão. Muitas mesuras, simpatias e sorrisos fáceis, palavra na ponta da língua, o que vai ser senhora dona...? e a gente nunca sabe se ele sabe o nosso nome ou faz isso com todas, até que há um momento em que o atira como quem não quer a coisa. 
- E o que vai ser mais senhora dona Clara, e eu suspiro aliviada porque odeio ser apenas um número. No mais das vezes, um zero à esquerda, talvez por ser canhota, talvez por outros motivos mais políticos e sociais. 
- Está bem assim minha senhora? 
- Não, não percebeu. Queria que partisse aos bocados.
- Aos bocados? Julguei que queria o frango para canja.
Na verdade eu ainda não sabia se ia fazer canja. Na verdade, fiquei preocupada por estar na fase de já só precisar de caldos de galinha. Na verdade, não era suposto estar na cara. Na minha cara. 
Afinal, não é que hoje fiz mesmo uma canja? Com hortelã e tudo. E soube-me pela vida.
Como é que ele adivinhou? Notar-se-á muito? 
Não quero nem saber porque caldinhos de galinha cada um toma os que quer. Desde que os pague...

saudades


Como não hei-de dizer aos quatro ventos e espalhar pelo mundo fora que a minha terra é o melhor lugar do universo, se depois de três décadas de ausência, foi ali, ao regressar,  o momento em que cheguei mais perto de Deus
Digo eu, numa saudade celestial, desses dias em que toquei o céu com a palma das mãos.
m.c.s.

reconhecimento

Conhecer os cantos da casa é um privilégio do dono da casa.
E que facilita a vida entre quatro paredes. Nossas...
Digo eu, que nem sempre sei a quantas ando, onde é a minha casa, qual o meu verdadeiro chão.


m.c.s.

incompreensão

No dia que o poeta for compreendido, nada mais haverá a dizer.
Fecham-se cadernos. Descansa-se a inspiração.
Acabam-se as rimas e os versos de ilusão.
De amor e paixão.
Porque o mundo será um poema.
Digo eu, preocupada com a poesia.

m.c.s.

impossibilidades

Deixo cair os braços para amores impossíveis.
Deixo cair os braços porque o impossível não se abraça.

Digo eu, a pensar no idiota que diz que o impossível acontece.

m.c.s.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

amanhecer

Acordo a tempo de me despertar
Manhãs claras
Nascidas da madrugada
Lugares do mundo 
Intimidade de mim
De ti, dos outros, 
E mais aqueles que adormeceram
Sem vontade de amanhecer
Sorrisos e gestos de paz
Acordo a tempo de me renovar
Hora certa, mais certa não há
Onde o sol me brilha por dentro
A pele amanhece grata e pura
E a mente, leve e segura
Acordo sem faltas nem sinos
Nem culpas
Remorsos
Desatinos...
Sinais que o tempo não espera
Não pára
Não devolve 
Nem recua
Acordo desejos de me amanhecer
Nas horas que o dia dá 
Nas linhas, palma da mão
Batidas do coração...
Abraça-me a saudade do tempo
Esse velho e sábio tempo que se perdeu 
Não existiu
Ou não sonhei
Adormecida no sonho que partiu
Que hoje me amanheceu
Acordo abraçada assim
Acordo desperta em mim

m.c.s.

era uma vez...uma história de Natal, precisa-se

Se eu fosse contadora de histórias recuava no tempo. Animadamente. Àquele tempo longínquo. Que se escondeu na memória, numa recusa de se findar. 
Àquele tempo tão longe que em dias do presente me assaltam dúvidas à lembrança real já tão rebuscada.
Àquele tempo tão bom que tem o tamanho da minha saudade. E voltaria assim, com muita imaginação e uma boa dose de boa vontade, a esse tempo feliz da infância. 
Ao Natal da minha casa, da minha rua, da minha terra. 
Não sou contadora de histórias. Não sei se tive o meu tempo nesse tempo longínquo. Não sei já se fui feliz, como fantasio nos tempos de hoje. 
Não sei se o Pai Natal existe. Mas queria a sua presença. Com todas as forças do meu ser sonhador. Neste agora de vazios.
Longe de casa. Longe da minha rua e da minha terra. Perto do desencanto e da frustração. Da saturação.
Os anos magoam. O tempo devora. As histórias choram saudades.
O presente é duro. 
As faltas são muitas. As montras ofendem. As famílias separam-se. Guerras, apoiam-se. Os jovens partem. Os velhos estão sós. 
A saúde adoece. A educação perde-se. A justiça é injusta. A humilhação violenta. O desamor mata. A fome incrimina. As esperanças morrem todos os dias. 
O Natal é uma fraude. O Pai Natal não existe. 
E eu, não sou uma contadora de histórias. 
Só que fosse uma aprendiz, sem responsabilidade nem perfeccionismo e atrever-me-ia a contar uma história de Natal, com final feliz. Como as dos livros de contadores de histórias de finais felizes. 
Nem que para isso banisse ( colocando-os nos calaboiços ) os vilões das histórias, que impedem os ouvintes ( desencantados ), de histórias de encantar, de viver uma feliz história de Natal. Justa, farta e merecida.

angústia

O Natal morreu-me nas mãos...

Os sinos deixaram de tocar 
E a meia-noite não chegou
Nem a missa do galo 
Nem os reis magos
Os presentes ficaram na lembrança e o musgo secou
Oiço ao longe os cânticos, quebrando os meus silêncios 
Afastando-se...
Não brilham estrelas no céu
O pastor perdeu-se na escuridão
O Pai Natal adormeceu na neve, minha solidão
O espírito natalício gelou 
E até o menino que era para nascer, abortou.

O Natal morreu-me nas mãos...

m.c.s.

os ses da vida

Se eu soubesse fazer um poema, 
daqueles que dizem que o amor me quer e eu quero o amor, 
daqueles que inventam borboletas, albatrozes e mares do sul, 
daqueles que não precisam cartas, recados, declarações, palavras, tempo, 
abraços e beijos, 
daqueles que não têm promessas, nem coração às avessas, partidos, colados, arrependidos, 
daqueles que a gente sabe quando é hora de amar, 
daqueles de juras para sempre, eternas, mesmo se por apenas uns versos, uma rima, 
hoje, domingo, soalheiro e abençoado,
hoje seria o tal dia, o escolhido, para te dizer num repente antes que se faça tarde, o poema rasgado e o dia amaldiçoado, que gosto de ti.
Quando me ensinares, se me ensinares, a inventar o poema , será hora de o declamar e nesse momento, o certo é sermos o amor. Do poeta...

domingo, 15 de dezembro de 2013

sinais dos tempos

O mundo vai civilizando-se. 
Cada vez mais, há divórcios. Pelos motivos mais variados. Pelos velhos motivos. Por não haver motivos.
Há porém uma nova atitude de quase todos os ex. ( odeio esta designação, mas fazer o quê? até eu que a odeio, a uso )
Em vida mantêm a devida distância. A necessária para que sejam civilizados. 
Ocorre-me até uma frase que no Ribatejo se usa muito e se calhar em todo o lado, que descreve um pouco essa forma de sentir que está no espírito de quase todos os ex: " Xó, xó melga, desinfecta a zona ". Cada um na sua, não vá o diabo tecê-las. 
Se se encontram, por via de circunstâncias, como, acontecimentos que envolvam filhos, há uma educação que se promove e faz questão, um engolir de sapos indigestos, nada que uns sais de fruto não resolvam, para que conste e fique bem, não vão os constrangimentos atrapalhar ou prejudicar. 
E à força do fazer de conta, do hábito, torna-se fácil esse relacionamento ocasional e civilizado. 
O mundo vai civilizando-se. E espero que seja para a vida. 
Mesmo que, no mais das vezes, cinicamente. Lavar roupa suja é para os electrodomésticos adequados. E não há necessidade de despertar falecidas questões.
E por falar em mortos e enterrados, termino com a situação fúnebre com que todos terminam. 
Não que seja uma coruja, ou carpideira, mas porque sim, já vai acontecendo o(a) defunto(a) ser acompanhado(a) à última morada pelos ex. e pelos actuais. 
Ainda é um prato cheio para os vivos que acompanham o morto mas tornou-se oportuno celebrar, perdão, chorar o seu ex vivo in loco, ao lado do (a) actual viúvo (a ).
Pode ser por educação, cinismo ou até para terem a certeza de que a dita criatura perdeu o pio de vez, mas que é muito civilizado, é.
É o que vale!

que dia!

Numa cidade a rebentar pelas costuras nesta sexta-feira treze, a duas semanas do Natal, centros comerciais à pinha, metros lotados, sacos aos montes, chapéus de chuva, correrias, centro da cidade molhado, iluminado, em festa, buzinadelas, castanhas assadas, Jovens vendendo droga numa mão e óculos de sol noutra, trânsito, muito trânsito, grupos cantando nas estações de comboio, metro, na rua, cânticos de natal, a palavra que me ocorre é SOCORROOOOOOOOOOOOOOOO! Tirem-me daqui. 
Depois de quase uma volta ao bilhar grande, de taxi, finalmente este pára em Santa Apolónia. Deixo a caçula no comboio das 18,46 horas e desço as escadas rolantes que me levam ao metro. Espero breves instantes. Ele chega. A estação é terminal. A carruagem onde entro está vazia. Sento-me numa ponta. Estico as pernas até ao banco da frente. Fecho os olhos e respiro fundo. Giro o pescoço para a esquerda e depois para a direita. Por fim, para cima e para baixo. Olho em frente. Ninguém.
Há uma sensação agradável e doce na solidão da carruagem. No silêncio. Em mim.
Finalmente o dia descomplica-se. Por breves minutos. O tempo de uma estação a outra. Mas vale a pena.
Ainda me falta muito para chegar a casa. Mas este tempo só meu, valeu para recuperar a paciência que terei até lá chegar, que é como quem diz, a espera do 36 no Rossio e a respectiva viagem até à rua de Angola. 
Percebo depois que não tenho tido muita paciência para as pessoas e situações. E ainda não melhorei. 
No autocarro, vai uma criatura transtornada, à minha frente. Homem de mais de sessenta anos, olhos esbugalhados, testa enrugada, voz desagradável. Insulta os fiscais. Insulta os " pançudos " das carris. 
Por isso é que não querem a privatização da empresa. Vinham todos para a rua. Perdiam os tachos, diz ele.
Olho-o mas ele desvia o olhar. Não quer ninguém a perturbar-lhe o raciocínio. A impedi-lo de dizer aquelas barbaridades. Meia dúzia de verdades, pensa ele. 
Ao meu lado, uma mulher negra. Que ri para a amiga que vai no banco de trás. Olha-me de lado. O homem da frente continua no seu relambório um pouco desarticulado, ofensivo e mal educado. Vão todos para o c.......a mim ninguém me manda calar. Tenho razão, há-de nascer o primeiro que me cale.
O fiscal que vai ao pé do motorista e que já passara com a máquina em tudo quanto era bilhete dos passageiros, franze a testa, sobe uma das sobrancelhas e com ar ameaçador dirige-se-lhe, tocando-o no ombro:
- Ó amigo, se diz mais alguma asneira vai para a rua. O meu amigo não viaja sozinho.
- Não sou seu amigo, f......! Não me volta a tocar. Já é a segunda vez. Estão a ver? Estão a ver? Os da carris são todos uns f.d.p.. Gorilas. Olhem para eles. Autênticos gorilas. E aponta para mais dois fiscais que se apeiam na paragem seguinte. No Saldanha. 
Nisto o telemóvel da minha companheira do lado, toca. 
- Ainda vou demorar. Hoje vim na camioneta. Porquê? Apeteceu-me. Estava na porta, quando ele me apanhou. Parou, eu subi. 
Estou mesmo aqui bem sentada a descansar. Já não estava mais com vontade de descer, apanhar metro, outra vez no Marquês até no senhor Roubado, para apanhar camioneta de novo. 
Deu uma gargalhada e continuou. 
O louco da frente calou-se. Para voltar à fala, quase murmúrio, asneiras umas a seguir às outras. Dá um pontapé num dos meus sacos que vai perto dos pés dele. Desculpe senhora. Não tem importância, disse-lhe. 
- Fingida maria clara, disse eu para a criatura de mim que vai morta de cansaço e exausta de aturar gente. A tua vontade era atirares-lhe com uma coisa qualquer às trombas. Uma coisa daquelas bem pesada. A ver se se portava com decência. A ver se se calava de vez e parava aquele murmúrio carregado de palavrões cabeludos.
No Lumiar pede licença para passar e sai. 
Dali à rua de Angola é um instantinho. 
Saio do autocarro. Já não chove. A noite menos fria, está mais húmida.
O pedinte que tem os cabelos parece um ninho de cegonhas lá está sentado no banco de madeira, em frente à marisqueira. Apesar da hora a rua esta concorrida. À medida que o tempo vai passando e eu aqui diariamente, menos receio tenho, mais segura me sinto. Deve ser de me começar a sentir em casa.
O Fernando do supermercado está a arrumar a fruta, que, em caixotes está o dia inteiro no passeio. Pergunto se ainda posso entrar. A Marta logo me diz que, sim, claro dona Clara. Desta vez não me chama Olívia. Nem sei como. 
Num instante as minhas compras atingem a quantia exigida para usar o multibanco. 
Ainda bem que estão abertos apesar de ter passado da hora deles. Amanhã madrugo para fazer quatro dúzias de pastéis. A pedido. As compras ficam feitas e já posso madrugar despreocupadamente. 
Abro a porta da rua. Subo as escadas. No segundo andar oiço miar.
Ocorre-me que há uma certa gata que desde ontem iniciou um cio assustador. Será que vou dormir esta noite? É que a noite passada, essa gata deu-me água pela barba. Só a mim...
Abro a porta de casa e ela não está logo ali. Percebo que está deitada no móvel onde deixo as chaves quando não ficam na porta. Olha-me em desespero. Faço-lhe uma festa. Poiso os sacos. 
Toca o telefone. Atendo.
Que dia!

À memória de Nelson Mandela

Felizmente, finalmente o corpo de Nelson Mandela vai repousar para sempre. 
Este arrastar das cerimónias é uma tortura para quem é próximo. E próximos somos todos os que admiramos a figura de Nelson Mandela.
A única homenagem que me ocorre neste momento, enquanto vejo a reportagem em directo da TVI 24, de Qunu, terra do Pai da Nação sul africana, não tem palavras minhas, mas de Paulo Salvador, o repórter da estação televisiva e muito nosso conhecido e estimado angolano do Lubango, que disse tudo o que há para dizer.
" Nelson Mandela é o homem que qualquer um de nós, qualquer homem, queria ser "
Eu, humildemente me curvo perante este Guerreiro de Luz e me despeço com um obrigada e até sempre.
Descansa em paz Madiba.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estátua de D. José I - Praça do Comércio





ai que nervos!

Finalmente em casa. 
Fecho a porta à chave. Largo o saco e a carteira.
Atiro com as botas, com o cachecol e o casaco. Descalça, vou à cozinha beber água.
Que securas! Horas e horas rodando, enganando-me, voltando atrás, perguntando. Aborrecendo-me com a menina da caixa central. 
Por causa da incompetência da outra. A da caixa normal. 
Cheia de fome. Empurrando o carrinho com três módulos, de um móvel. Pesando horrores. 
Encalorada. Farta. Derrotada. Irritada. Ai que nervos!
Não desisti mas esteve por uma unha negra. Estava já a mandar tudo para as urtigas quando vi um funcionário. 
- Pode ajudar-me? 
- Boa tarde. Diga lá.
- Preciso de chegar ao corredor nº 2, secção 11, a esta referência. 
- O que é que não encontra?
- Tudo. Se não me ajudar, desisto da compra. 
- Mas eu ajudo-a. Vou lá com a senhora.
E foi. E colocou os módulos no carrinho. E lá fui eu empurrando, batendo em tudo o que me aparecia à frente. Do tipo, robô. 
Se desmanchasse o personagem, parava, sentava-me em cima dos módulos, batia com os pés no chão violentamente, desatava aos gritos e a puxar os cabelos, histericamente.
Raios partam isto, maria clara, estou eu agora a pensar. 
Um pouco mais calma. Já capaz de recapitular a tarde que vivi. Sentada no meu sofá preferido. Respirando fundo. Enrolada na manta. Sozinha com Dona Pitanga. Que está empoleirada nas minhas pernas. 
Raios partam isto, digo eu tão baixinho que nem me escuto, porque se oiço a minha voz, sou acometida duma vergonha gigantesca. É que apregoo liberdade e vai-se a ver...
Dou a mão à palmatória. É que...
Nem sei como hei-de dizer isto. É difícil. Engolir o orgulho e dizer que um homem faz muita falta.
Os músculos do homem. 
A força do homem. 
A vaidade do homem. 
A frase preferida do homem. Quero, posso mando. 
Hoje eu deixava. Que quisesse. Que pudesse. Que mandasse.
Que usasse os músculos e a força e carregasse os módulos. A vaidade de o conseguir.
E mais, porque não é tudo. Que me fizesse poupar 68 euros.
Sim, porque tive de pagar 29 euros pelo transporte e 39 pela montagem do dito móvel.
Decididamente um homem faz falta. Ou quem se faça passar por ele. 
Porque eu, bem, eu não tenho nem músculos, nem força, nem vaidade. Tão pouco sou do tipo, quero, posso e mando. Não sou motorista. E também não faço biscates.
Sei lá eu o que é uma chave de fendas, uma porca ou um martelo de orelhas. Tenho ideia do que é um parafuso porque não sou doida. 
Finalmente estou em casa. Não desisti. Não gritei histericamente e também não rezei pais nossos tortos, nem chorei baba e ranho por me ter faltado um homem. Esta tarde.
E assim como assim, foi melhor assim. Para evitar uns quantos nervos, uns metros de esforço empurrando o maldito móvel e poupar 68 euros, a festa ficava-me demasiado cara. 
Há gostos que não valem os desgostos. 
E depois, está tudo resolvido. Móvel comprado. Transporte e montagem paga. Agora é só esperar que um ou mais homens me entrem casa dentro, montem o dito e mo deixem no lugar que eu escolher. Porque da minha porta para dentro, eu sou o homem da casa. E quero, posso e mando. Às vezes...

sábado, 7 de dezembro de 2013

um simples conselho

Que nunca o que não tenho e seja posse de outro, faça de mim um invejoso.
A felicidade alheia nunca poderá ser motivo de infelicidade minha, sob pena de não conseguir alcançar esse tal sucesso, essa tal dádiva, essa tal posse das coisas que me fazem falta. 
Digo eu, nesta manhã de sábado solarengo, em que me sinto grata pela vida, porém preocupada com o que vejo à minha volta. 
E já agora, apesar de não me pedirem conselhos, eu dou, porque ando cá há muitos anos e gente feliz, precisa-se. 
Nunca pense que ela, a felicidade, lhe cai dos céus, pelos seus belos olhos. Trabalhe para isso. Construa a sua própria felicidade. É possível. Sou eu que lhe digo.
Ah! A do outro pode não ser a sua medida. 
BOM DIA! FELIZ SÁBADO!

vidas por um fio

foto tukayana.blogspot
A UCI de Santa Marta é uma barra pesada. 
Principalmente para quem está lá ligado a máquinas e tubos. Com a vida por um fio.
Mas para quem está deste lado da porta, também não é fácil.
Nunca tinha entrado neste hospital. 
Não precisei de lá ir. Fui acompanhar uma amiga, mas deu para perceber a energia que existe naqueles corredores, no elevador, nas paredes, nos bancos e sofás de espera.
Espera-se muito. Espera-se pouco...infelizmente. 
A vida presa por arames ali dentro, pessoas fazendo do coração um coração de ferro, cá deste lado.
Nunca tinha estado no hospital Santa Marta. Nem na UCI. 
Apenas no Maria Pia, em Luanda, quando me ia encontrar com a minha amiga Julieta, que era enfermeira nessa unidade hospitalar.
E no Hospital Santa Maria em Outubro/Novembro de 2007, pelas piores razões possíveis.
Sei que devemos conhecer a parte boa e também a má que a vida tem. 
Para, nem que seja, reflectirmos. 
Hoje a única coisa que sou capaz de pensar é no ditado que diz, antes cadeia que hospital.
E ainda que, a UCI de Santa Marta é uma barra pesada.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

a Notícia

A notícia chegou aos media. A Portugal. Ao facebook.
Onde eu aliviava o cansaço do dia. De mais um dia. Na banalidade de uma vida insignificante.
Uma amiga, Ana Lúcia Amaral, deixa a notícia. Eu leio e fico em choque.
Procuro a notícia na televisão. E encontro-a na SIC Notícias. 
Mário Crespo, está visivelmente emocionado. A voz do jornalista revela a emoção que tenho a certeza foi o lugar comum dos homens, num mundo que conquistou, que mereceu, que enriqueceu este homem excepcional cujo coração deixara de bater e a mente parara. 
Um nó se forma na minha garganta. Na minha alma.
Saber desaparecida fisicamente uma figura rara e universal reduz qualquer ser normal a uma pequenez tão insignificante que é legítimo perguntarmos o que fazemos neste mundo, o que queremos dele, o que o mundo espera de nós.
Qual a semelhança com seres superiores e de rara grandeza como Nelson Mandela.
E não há comparação possível com uma Humanidade cheia de pequenas vitórias, umas quantas bandeiras de paz, sorrisos fotográficos, apertos de mão entre governantes, negros e brancos unindo-se no quotidiano, ou repartindo a vida e gerando filhos, defensores de igualdade social, poemas de justiça, cânticos de amor e paz. 
Nada feito se compara à grandeza deste homem. 
Completamente triste na certeza do lugar vazio que homens comuns não poderão preencher, profundamente assustada com os destinos de África e do Mundo, deixo as minhas simples palavras de agradecimento a esse gigante ser humano.
Ser raro é uma raridade. Ter a certeza que há um ser raro, é acreditar que o mundo não se perde. E o impossível não existe.
Muito obrigada Madila por provocares em mim o desejo de ser uma pessoa generosa, simples, pura. 
Descansa em paz Guerreiro de Luz.

P.S. Deixo aqui alguns comentários de amigos,( Mário Paiva, João Pessoa e Carlos Nando Marques na minha publicação de ontem do facebook sobre o desaparecimento de Nelson Mandela, por me merecerem destaque. Obrigada pelos comentários.

MARIO PAIVA - …ninguém é eterno, a vida é um ciclo fechado pela morte, mas há os que jamais deixarão a lembrança, tanto dos seus contemporâneos como dos vindouros… e cito Brecht…

“Há homens que lutam um dia, e são bons; 
Há outros que lutam um ano, e são melhores; 
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; 
Porém h
á os que lutam toda a vida 
Estes são os imprescindíveis”

…estes, a história, memória da Humanidade, jamais deixará morrer.
Obrigado, Mandela, por este bocadinho e… até já!

JOÃO PESSOA - MADIBA, OBRIGADO!!!!
«««««««««««««««««««
Nelson Mandela, morreu
e eu,
Curvo-me perante a sua Grandeza!!!

CARLOS NANDO MARQUES - "Nelson Mandela é um Cristo gentil, o mais sorridente dos redentores."


a caminho da praça da Independência - Luanda


As torres de Luanda




Baía de Luanda


Edifício da Alfândega


Estrada de Catete ( ali perto de mim )


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

até sempre Madila!

Morreu Nelson Mandela!
Estou em modo de choque.
África está de luto. O mundo está de luto.
Perdemos um ser superior da Humanidade.
Paz à sua alma.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013