quarta-feira, 31 de outubro de 2012

poupança sim, miséria não!




No poupar é que está o ganho, diz o povo há séculos. De tal forma que passou a ditado. 
E passou a ditado, tenho para mim que, porque o povo tinha mesmo que acreditar nisso. 
Não é fácil uma mãe dividir em três, uma sardinha. Vamos que todos gostam da cabeça? A pobreza de braço dado com a poupança,pode ser igual a uma guerra familiar, desilusões e muitas interjeições. Violações e reclamações.
Também passou a ditado, digo eu, porque o povo era pobre mas digno. E transformou a poupança numa coisa boa para justificar a sua pobreza digna. O pior era aquele que escondia o dinheiro no colchão e nem comia nem dava a comer para ter o prazer de contar as notas da sua poupança. Avarento era o que ele era, mascarado de poupado.
Há também aquele que não come fora de casa, não vai ao cinema, não faz férias na praia, não viaja, não dá presentes a ninguém, não responde ao apelo de um mendigo,não liga o aquecedor ou a ventoinha, quanto a ar condicionado nem pensar, não toma banho com a água quente a correr,não compra livros nem jornais, enfim, um verdadeiro poupado. Conheço uma palavra que rima com poupado que é, castrado.
E aí, vejo-me hoje castradíssima na minha condição de cidadã da classe média baixa, deste país. 
Pensar eu que em 1975 quando aqui cheguei e descobri que a maior parte das cozinhas portuguesas tinham caixas de fósforos com os mesmos dentro, mas já utilizados e não percebi porquê, reagindo naquele jeito único de quem é novo e não pensa, que, esta gente é maluca, nunca tal vi na minha curta e confortável vida de gente nascida e criada numa terra onde era quase tudo à grande e à francesa,e perante a explicação ficava-me a engolir em seco e a confundir miséria com pobreza, poupança com ganância. Depois dei comigo a ver a minha querida mãe acendendo também ela a boca de um bico do fogão com um fósforo já ardido e que reacendia noutra boca onde cozia o feijão, as couves ou o arroz e a aceitar essa poupança como a única saída para escapar à dita miséria.E entendi na perfeição...
Acho bem que se poupe. Um dia destes, quer dizer aí há uns quatro anos, quando uma das minhas crias fez anos, fomos jantar num lugar muito agradável de Alfama, lugar conhecido dos artistas, jornalistas e gente de outras listas da sociedade lisboeta. Até aqui tudo bem. Surpreendente foi comer cascas de batata, fritas e temperadas com ervas.Como entrada. E gostar. Ora toma lá uma passa maria clara que é para aprenderes! Não é que é óptimo? Afinal, não gostamos nós de batatas a murro? Então? E não é que quando descasco batatas ponho as cascas de lado para esse petisco? Só que já ninguém vai em fritos cá em casa e desisto. Como não tenho porcos nem galinhas, as cascas vão para o lixo. Mal feito. Desperdício. Era mais uma refeiçãaoozita.
Hoje, em dia Mundial da poupança, dei comigo a cozer peixe. A retirá-lo da panela da cozedura. Até aqui tudo jóia. Sei que há quem não goste de peixe cozido mas pronto, isso são apenas gostos, sabores, apetites ou desvalorizações. O curioso é que tanto nos martelam o cérebro com a necessidade de poupar, ele é tantas medidas de austeridade, tanta crise, tanto bolso cheio de ar que de repente dei comigo a sentir-me culpada de despejar no ralo, a água onde cozeu o dito peixe que por acaso é pescada e aqui que ninguém nos ouve, detesto. Só vai se for fingida, ou com puré de batata e maionese no forno. A água de cozer pescada, abomino. Hoje chegou-me a culpa de desperdiçar algo que daria um caldo quem sabe saboroso, se acrescentasse uma cenoura,uma cebola, tomate cortado em cubos e até uma massinha e polvilhasse com salsa. Amanhã quem sabe estou já a fazer a dita sopa e a sorvê-la com toda a alegria de ter entrado no espírito da coisa que é - no poupar é que está o ganho. 
Mas sinceramente, olho para a minha vidinha e não vejo onde posso mais poupar. Não vou à esteticista como quase todas as mulheres. Nem ao cabeleireiro senão para cortar o cabelo. Não fui de férias. Ando nos transportes públicos, não compro roupa nem calçado nem acessórios há mais de 300 anos, o meu rico perfume está de restos, se o Natal não me resolver esse problema é um problema que fico com ele mesmo, não dou festas,não bebo álcool, não fumo, não, não, não...tanta negação ao consumismo e ainda assim é o que se vê. Eh pá, apetece-me dizer com alguma rudeza que uma gaja não é de ferro. Caraca! 
Hoje, em dia mundial da poupança, medito e chego à conclusão que já os meus antepassados chegaram há muito tempo, noutro século. Desperdiçar é um acto indigno e criminoso. Acrescento que,dado o contexto actual, punido com uma pena pesadíssima.
Por isso apetece-me ser livre, enquanto posso e tenho voz, de dizer que não é por mim que o barco vai ao fundo mas que me sinto a naufragar, sinto, e isso é também um crime que não cometi e injusto por isso pagá-lo tão pesadamente.
Viva o dia de hoje transformado em todos os dias que virão, mas com um aviso, em jeito de slogan;
Poupança sim, miséria não!


terça-feira, 30 de outubro de 2012

o passado em fotografia




Partilhei esta foto do grupo do Liceu D. Guiomar de Lencastre com autorização de quem a publicou. 
Fiquei super emocionada pois as pessoas da fotografia que eu já não vejo há quase 4 décadas foram-me muito próximas. A mais velha é a querida professora de francês e português, Irene Guerra Marques e a aluna foi minha colega do 1º ano do curso complementar e chama-se Zuleide. 
Desta nunca mais soube nada, já da professora sei de fonte próxima e segura que dá aulas na faculdade em Luanda, julgo que, faculdade de letras. 
Em Agosto de 1975 estive com ela e com as suas filhas em Alfândega da Fé, Trás-os-Montes e depois nunca mais a vi. Sei que é mãe de Ana Clara Guerra Marques, que profissionalmente está ligada à dança contemporânea, em Luanda.
Adorei esta foto. Mexeu com as minhas memórias de aluna do liceu, da adolescência e dessa época áurea, do sonho, da aventura e das incongruências. Enfim, tempo bom e inconsequente. Perfeito! 
Que bom que é o nosso passado materializar-se a fim de nos dizer que não somos apenas números ...

viajar para casa




Mesmo imóvel, caminho ao encontro de mim, 
no sonho que me dá pernas para andar.
E voo na emoção desse sonho, que me dá asas para voar.
Há dias que me vejo para lá do horizonte, da estória e de mim. 
Tocando pequenos céus com a ponta dos dedos.
Despertei do sono há pouco e iniciei já essa caminhada. 
Quero que hoje seja dia. Todos os dias mais um dia...
No poder que o querer me dá, não interessa quando chego mas importa como o faço.
Sempre com paixão, esperança e amor. 
Com os pés bem assentes no chão, sobrevoando a minha alegria de chegar,
um dia, sim um dia, no dia de todos os dias, 
aquele que será o primeiro de todos ainda por viver, eu chego.
E apenas direi, cheguei! 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lembrando



Sou uma criança sem passado nem lembranças quando entro no avião e ele abandona Lisboa a caminho de casa, para o ventre materno.
Há quanto tempo não me sinto criança...

m.c.s.

domingo, 28 de outubro de 2012

Cavaleiro Monge

Parabéns




Gosto de ti
Gosto de gostar assim de ti 
Hoje, gosto mais que sempre 
Porque tocam os sinos 
O mensageiro traz a notícia
E se renovam os votos 
E o destino 
E a esperança
Gosto do nascimento e do renascimento
E do filho de sua mãe
Gosto de ti porque sim, mas porque também...

m.c.s.

Chove nesta rua que não é minha




A minha rua é o melhor destino do mundo.
É o lugar onde Deus me devolve à terra, 
me empresta o sol, 
me enfeita de estrelas, 
me oferece a lua 
e me ilumina o caminho a que chama felicidade.
Chove, nesta rua que não é minha...
Tenho tantas saudades da minha rua!

m.c.s.

sábado, 27 de outubro de 2012

fotografando

foto tukayana.blogspot

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vivam as massas


O mundo é pródigo em ideias. Invenções. Aliciantes. Curiosidades e até ridicularias.
Não sei onde cabe o dia mundial das massas. Mas eles lá sabem. Saberão?
Sei que cabe à minha mesa e na minha bolsa. Na boca e no palato. No prazer e nas caixas registadoras. Em qualquer " ristoranti ". Na mesa dos portugueses,tanto como na dos italianos. Mas não nas contas. Vai escasseando e privando-nos assim de escolhermos uma qualquer pizaria para nos regalarmos com um belo e saboroso prato di pasta. Lá está, pasta. Pressupõe, bem abonada de massa. Nos tempos que correm, direi que, tarde piaste. Está tudo de tanga e não tarda nada a população ficará que nem um esparguete escorrido e al alho que é para nos irmos alimentando que não somos mais que os italianos que adoram esse pitéu.
Mas afinal que dia é hoje?! Diz que é o dia mundial da massa. Ocorre-me coisas boas como massada de marisco, embora haja pouca massa para um prato de custo tão elevado. Depois, penso em todos os restaurantes de pasta onde se come massas de todo o tipo; quentes e frias. Em saladas.No forno; Macarrão, penne, fusilli, tagliatelli. E tantas outras. Há até a aletria que os nortenhos adoram, sobretudo no natal e na páscoa. Eu também, que tenho lá as minhas origens e isso está na massa do sangue. Há também a massapão mas isso são contas de outro rosário e tem a ver com o sul e os doces bem algarvios. E por fim há também uma forma de fazer pão que é amassando a massa, ou rebocando paredes que é fazendo argamassa. 
Da outra massa há muita variedade evidentemente,só que não se passeia pelas nossas contas com a mesma variedade de quem está bem instalado na vida e com os bolsos a deitar fora de tanta massa que conseguem, sabe-se lá como, ou sabe-se lá porquê. 
Ocorre-me  a canção de intervenção tão actual: eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada. Nem sequer uma bolonhesa para nos aconchegar o estômago e a alma.
Enfim, com todo este relambório esqueci-me de dizer que hoje o meu almoço é uma massa negra com salmão fumado. É para celebrar o dia, que eu gosto de celebrações. Quem encostou a barriguinha ao balcão assim como que a dizer que aqui quem é a pessoa da massa, quem é ?! A minha cria que por acaso adora massas. 
Ah, a propósito, levou-me ao Campo Pequeno no domingo, à pizaria Delci. Eu escolhi pasta à Delci. Maravilhosa. Ela, pasta ao pesto. Maravilhosa também. Quanto à massa despendida, enfim, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Pode dizer-se que já comi muito mais caro em Lisboa e não tão bem. O atendimento óptimo e o lugar um must. As pessoas que lá estavam, não se pode dizer que pertencessem às massas, porém tudo gente com alguma massa e querendo comer massa. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

lavando a alma

Nasci e cresci aqui. Este é o meu lugar. O meu chão, o meu céu. Chegaram-me hoje as fotos e eu lavei a alma.

lavando a alma

Avenida Brasil.

lavando a alma

A minha avenida. O meu chão. Vinte anos neste lugar sem querer mudar. Sem que alguma vez imaginasse que um dia sairia daqui para ... quase sempre.

lavando a alma

Aqui está a Padaria Independente e o prédio da pastelaria Gentil. A um minuto do meu kimbo. Ao longe o prédio maior da avenida brasil. Há dois anos estava em construção.

lavando a alma

Aqui neste prédio da esquina, o sô Santos teve a loja. Antes do prédio vivemos aqui dez anos. Neste lugar.

lavando a alma

Esta manhã, em Luanda. Colégio Nossa Senhora de Fátima. Avenida Brasil.
Aqui aprendi o a e i o u. E ensinei também. Que saudades!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

meditando


É quando me sinto só, no meio da multidão, que percebo que não vivo sozinha.
Vivo comigo mesma.
Digo eu...

domingo, 21 de outubro de 2012

não me toques


Não me toques... que me desafinas!
Não, não sou nenhuma viola. Tão pouco um piano.
Na verdade, apesar de gostar e dar música de vez em quando, não sou nenhum instrumento musical, como é óbvio. Nem sequer no aspecto, bem entendido.
Para ser uma viola, precisava ter cordas. Minhas, só da roupa. Ou vocais. E estas nem sempre estão no seu melhor. Há dias em que estão, lá está, desafinadas. Perco os graves e falo fininho que até parece que engoli hélio. O que para além de ridículo é inquietante.Diz que é dos nervos, vai-se lá saber se é verdade...Precisava também ter as curvas da viola. Não, decididamente não sou uma viola, uma guitarra ou qualquer outro instrumento que se assemelhe. Nem sequer sou um instrumento, embora haja quem tenha o atrevimento de achar que pode pôr o pé em ramo verde e tratar-me como uma coisa. 

Por exemplo, um saco de pancada. Se bem que neste caso dou e levo, o que não serei então o verdadeiro saco...de pancada, para não dizer porrada como o povo diz. Lá estou eu a pôr na boca do povo palavras que eu própria digo, mas afinal, não deixo de ter razão pois eu sou povo, faço parte daquele imenso grupo que paga e não bufa, que se movimenta nos lugares comuns e que tem sempre culpa de tudo e de nada, por isso pode pagar e não bufar mas quando dá corda aos atacadores, solta a franga e não há quem o pare , daí chamar as coisas pelos nomes, preto no branco, pegar o touro pelos cornos e dizer saco de porrada em vez de pancada como eu muito educadamente (?) quero aqui deixar escrito porque a bem dizer tenho mil e tal amigos no facebook que não posso ofender, fora aqueles que vêm ler e que são amigos do amigo, embora também saiba que só me lêem aí uns trinta e três, que foi a conta que Deus fez, mas vamos que deixamos de ser uma rede social democrática e somos todos obrigados a ler o que todos os amigos escrevem? Era muito xunga eu insinuar que falta de democracia pode querer dizer porrada. Enfim, isto tinha pano para mangas mas são outros quinhentos que nada tem a ver com instrumentos como a viola. É mais aquela música de serrote.Na verdade, estou toda desafinada, tentando pôr-me a jeito de não ser tocada por ninguém. Nem sequer beliscada mas é preciso jogo de cintura...de vespa, e saber andar por entre os pingos da chuva. 

Será que um bom chapéu resolve? O povo, o tal a que eu também pertenço, que paga e não bufa, ou bufa? Já vi faltar mais,  dir-me-ia agora se me estivesse a ler que chapéus há muitos, sua palerma!

Sei que me faço de lorpa, e muitas vezes sou mesmo uma pateta, tentando sempre aquela vulgaridade giríssima de ser a pateta alegre mas está difícil. Como este país está decadente, os políticos para além de outras coisas feias, estão doentes e o povo está sonâmbulo não há muita margem de manobra para palhaçadas. E depois, também eu estou desasada e chata. E muito repetitiva. Perguntar-me-ão em quê. E eu respondo que a frase que mais uso neste momento é: Não me toques!
Será que estou a retroceder aos anos sessenta ? Quando era uma miúda e ouvia a uma sociedade completamente machista o que achava que era um piropo à mulher, mas no fundo no fundo não era senão um desdenhado insulto às mulheres bonitas que bambaleavam as ancas numa vaidade de parecer sempre pisarem a passerelle mesmo que se passeassem pelos musseques de Luanda: Ai, não me toques, que me desafinas.
Não. Não estou a voltar atrás. Estamos no novo século. Eu é que estou agora na fase do não me toques, por conta deste ombro doente que me desafina toda mesmo quando não me tocam.     

sábado, 20 de outubro de 2012

diário em tempos difíceis


Acordei com a sensação de não ter dormido. Cedo... 
A manhã ainda não visitou a varanda. 
Lá fora, à semelhança de todos os outros dias, nada bule. 
O Jeremias veio à frontaria da casa durante a noite. Acordei ao som de uma gataria desenfreada que me endoidece. Um dia destes acordo a miar. Será por isso que sinto que o sono se escapou sem cumprir a sua função? 
Perguntas e mais perguntas. Algumas respostas. Poucas.
Acordo sem dores. Depois, lentamente elas retornam e mantêm-se por todo o dia enquanto estou acordada. As minhas dores são amigas. Adormecem quando adormeço e deixam-me dormir um pouco. Acordam quando acordo. Se não fosse cá por coisas pensaria que são imaginadas. Mas não. Eu sinto-as fisicamente a cada movimento mais. 
Dou-me conta que todas as noites sonho. Muito. E sonho com pessoas de quem gosto muito. Sonhos que já não tinha há muito tempo.  Nunca com o braço imobilizado. Vêm-me à lembrança depoimentos trágicos de pessoas amputadas. As dores que sentem num membro que já não têm. As dores reflexas. Será?
Tenho sorte. É! Consigo traçar um cenário menos trágico que aquele que me deixaria em estado mais grave. Para ganhar a coragem que vai faltando. E não venham com paninhos quentes. Quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro. E mais, quem quer peixe tem de entrar no mar. Querem ajudar... E eu não sei? Também sei que as palavras têm o peso que têm. As acções pesam muito mais. E eu estou quase parada. E diz que circular é viver. E há quem diga muita coisa. Sem saber. Apenas porque desconfia ou quer agarrar-se a algo mais que esta pasmaceira de vida que a gente vive. Mesmo quando não há doenças nem acidentes interrompendo ciclos. 
Para se perceber o que estou para aqui a dizer, há quem diga que o universo é poderoso e pelos vistos eu sou importante pois que me fez parar. Que provavelmente eu precisava parar; não parei a bem, parei a mal. Uma teoria interessante. Que me faz questionar e perder ou ganhar tempo acreditando que viemos de qualquer lado e temos um percurso a fazer para chegarmos ao nosso destino. Outro alguém me diz que pode ser um teste. A quê? Às minhas capacidades de suportar o sofrimento, a solidão e a dependência? Porque testes, testes, já os fiz quase todos e um ser não vem a este mundo para estar sempre à prova, tem de viver um pouquinho sem que se dê por isso, sem que daí venha mal ao mundo, sem que tenha de provar algo, sem que tenha que pagar para, digo eu que vejo tanta gente viver a sua vidinha normalmente e por vezes, muitas vezes, nem sequer é inteligente, bom cidadão, boa pessoa, generosa, honesta, sensível, trabalhadora e por aí adiante. Teste? À capacidade para a paciência? Para a conformação? Para me colocar no lugar do outro? Pois...sou mestra, melhor, doutorada. Cheguei lá há muito tempo. Aos lugares onde muita gente boa nunca há-de chegar, felizmente para essa gente, que viver uma vida linear nem sempre é mau. Sobretudo quando se passou os 50.  
Curiosamente enquanto escrevo, a manhã vai chegando à janela. O despertador do telemóvel toca. Oito horas. Tão cedo!
Entretanto fiz um intervalo para comer. Sonho com um crunch há muito tempo. Servida pela posta do meio, como diz uma amiga minha. Que coisa chique esta que inventaram e que eu ainda não tive o prazer de fazer. O tal dois em um cheio de estilo onde as pessoas vão para serem vistas, provavelmente mais do que para comer. Eu sou das que adora pequenos almoços de hotéis e por isso sei que vou estar como peixe dentro d'água. E depois, quero ir, mas para saber como é, in loco. Gente minha há-de levar-me um dia destes quando eu estiver capaz. Com os sentidos todos no lugar. Deixei o convite em aberto pois neste momento não me parece chique ir a um crunch de braço ao peito e cheia de pena de mim própria.
Já de almoçar uma pasta num italiano do Campo Pequeno não me neguei e hoje é dia. Enrolar massa com um garfo na mão direita não há-de ser pior que comer sushi com os pauzinhos e no domingo passado consegui-o com um iupiiiiiii de alegria se bem que com a ajuda da primogénita e da caçula,  coitadinhas delas, que tiveram de me servir sempre que quis. 
Hoje já tomei o pequeno almoço. Enquanto comia um croissant simples, daqueles do Pingo Doce e bebia um iogurte líquido de morango, tudo a que posso chegar sem custo e incómodo para terceiros, pensava que é assim que se engorda. Enganar o tempo com o que a gente gosta nem sempre é benéfico se o que a gente gosta entre outras coisas, é comer. Conclusão a que chego, uma fractura nunca é benéfica pois que o Universo não nos quer a enfardar que nem loucos, nem tão pouco a fazer testes aos nossos propósitos de dieta, digo eu, que sou uma pequenina peça deste imenso e intrigante universo.
Olho a televisão que está na SIC mulher. Quando a liguei estava num programa que falava sobre lojas onde nunca entrarei, de Nova Iorque e também de Londres. Confesso que de mim para mim reagi um pouco ressabiada ao que vi e ouvi. Tanto luxo, não é que me ofende? Andamos nós aqui a encanar a perna à rã, diariamente, hoje como carne, amanhã uma sopinha e depois quem sabe um peixe; hoje como uma maçã, amanhã uma pêra e depois quem sabe compro umas uvas; hoje fico em casa, amanhã tenho de comprar um casaco e depois quem sabe, lá terá de ser, um guarda-chuva que pode desatar a chover e a gente em frente ao pequeno ecran ouve contar que por esses países fora há lojas de adereços para animais na base das pérolas, do ouro e diamantes. Eh pá, estão mesmo a pedi-las!!! 
Imagino a Pitanga com um colar de diamantes e nem a reconheço. Deus me livre e guarde, só se já tivesse endoidado de vez. Nem imagino o meu pescoço a diamantes, quanto mais...  
O que vale é que a seguir chega-nos o Dr. Oz, tão simples e comunicativo, no seu sempre bem-vindo programa onde a gente pode não seguir, mas aprende como viver melhor, mais saudável e menos espaçoso, sem que gaste muito dinheiro, que, já se sabe, não tem.
Enfim, o sábado está aí. O sol parece querer dar um ar da sua graça.
Saio do sofá para o banho. Antes olho mais uma vez para a televisão. Diz que a cor da estação para sapatos é beringela. Aka, xiça, penico! Tenho de andar com sapatos que não me façam estatelar no chão de novo. Beringela? Só se for na massa que hei-de almoçar hoje lá para as bandas do convite que me foi feito que eu, claro, aceitei de imediato que farta de casa estou eu. Tanta parança está a dar-me nos nervos e comigo em doida. Não me apetece ler, dormir, ver televisão, pensar, falar, sorrir ou chorar. Quando parar de escrever porque também não me apetece, bati no fundo. Tudo por causa de uma fractura. Homessa!!!
Desistir é tão difícil como resistir mas tem momentos que oscilo entre uma e outra.
Há uma cadeira de rodas onde o meu herói se movimenta e a força da mulher, minha heroína, que a empurra, onde a minha vergonha assenta, quando vejo aquela imagem do burro que empanca, pára num lugar qualquer, e dali ninguém o faz andar mais.
Bom, está na hora de me pôr a mexer daqui para fora senão atraso-me para mais um sábado. 
Um bom dia para todos. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

The xx - Angels

Fazendo justiça


Hoje é o Dia Internacional do Médico.
Não sou médica. Nem sequer fiz faculdade. 
No liceu escolhi a área de ciências com as disciplinas que pertenciam à antiga alínea que me levaria à medicina.
Por razões que não interessam para aqui, fiquei-me pelo caminho. Com pena. Muita pena.
Fui professora um ano, em Luanda. Em Torres Novas enquanto fazia o estágio para oficial de justiça tinha um part-time como assistente de consultório médico que durou o tempo que durou o consultório em Torres Novas. Fiz as férias de uma assistente do mesmo médico no seu consultório de Alcanena e fiz férias da esposa desse médico no colégio pré-infantil que ambos possuíam em Cascais. Por via disso, conheci a vila, conheci pessoas fantásticas e apaixonei-me por essa terra. Este o meu percurso profissional que se foi afastando da medicina, inevitavelmente. 
O médico que me deu a oportunidade de ficar um pouco mais perto do meu sonho? João Frederico Ataíde. Pessoa amiga sempre, que me ajudou quer na qualidade de médico, quer na qualidade de amigo. 
Mas afinal porque razão venho aqui falar de médicos? Todos os dias são dias de qualquer coisa e nem por isso os destaco, mas hoje é um dia especial. Assim o entendo.
Para além de ter tido a aspiração frustrada de ser médica, eles, os médicos, andaram sempre perto de mim, ou eu, na forma de doente ,gravitando à volta deles. Não que o quisesse. Ou queria? O hipocondríaco se calhar é médico-dependente e eu legítima portadora desse palavrão ( acho que passou ao passado ) andei sempre de mãos dadas com essas criaturas fantásticas que considero superiores.
Sim. Superiores. E não adianta falarem-me em quaisquer outras e mui dignas profissões que eu não cedo.
Para mim, são anjos na terra e está tudo dito. 
Se me disserem que há médicos e médicos, pois claro que sim. Que os há. Não é dos outros que falo mas dos que honram a sua profissão e vocação e são assim os salvadores do nosso corpo e também do espírito dando-nos mais qualidade e anos de vida.
Não consegui, não tentei, longe de mim o atrevimento de querer que os meus filhos seguissem essa profissão. São o que sempre quiseram ser. Porém, sim, tenho que o dizer, tinha adorado que um deles quisesse ter sido médico. Dá sempre jeito, estar ali à mão. Mentira. 
É mesmo a profissão que mais me inspira. Que mais respeito e admiro. Quem me conhece sabe que sim.
Mas vou confessar um segredo porque eu até nem gosto de segredos. O médico é também o único profissional de quem eu tenho pavor. Dominar-me totalmente, fazer-me sentir pequenina e frágil, a par com ser mensageiro de más notícias provoca-me essa sensação de menina assustada na sala de aula, vendo a professora agarrar na régua e prometer...
Por isso preciso que o médico seja tu cá tu lá comigo para que esse medo a que chamam respeito mas que reconheço como pavor, se atenue. Se o senhor é sisudo, faço até a tensão da bata branca e aí vai disto, galopando a minha rica tensão até ao 15, 16 de máxima. Raramente tenho tensão alta se o médico for o tal do tu cá tu lá.
Que dizer mais? Se vou a hospitais gosto de ver médicos. Nas suas batas. Com os utensílios do seu trabalho. Como o seu ar respeitável e sábio. Superior. Apetece-me fazer-lhes continências. Vénias. Bater palmas. Sorrir-lhes e agradecer-lhes. 
Se os vejo na televisão fico fascinada pelos depoimentos que dão. Pelos conhecimentos adquiridos. Pela segurança com que o demonstram.
Palavra de médico para mim é lei. Hum! Eu que trabalho na justiça...
Por tudo isto e mais que não me ocorre é que hoje, em Dia Internacional do Médico aqui estou. Dando voz à minha alma. Fazendo justiça à profissão mais linda do mundo.
Quero deixar alguns nomes que foram importantes na minha vida.
Drª Rosinda Guimarães e Dr. Costa e Silva que me salvaram de morte quando com 4 anos tive febre tifóide.
Dr. João Ataíde, que já mencionei. Salvou-me duma mononucleose infecciosa que ia mandando comigo para as alminhas, aos vinte e cinco anos. 
Dr. Carlos Nuno ( zanguei-me com ele há cinco anos e nunca mais foi o " meu " médico mas durante anos a perder de vista, aturou-me muitas madurezas ) ; médico irrepreensível que me falhou enquanto pessoa amiga. No contexto em que foi não podia ter falhado, por isso o corte radical.
Dr. Santiago Quintas ( psiquiatra ). Adormeceu numa consulta, coitado. Pudera! Era verão, depois do almoço, sábado à tarde e eu uma verdadeira sarna. Lol! 
Drª Alzira Amaral, obstetra, angolana, seguiu a minha primeira gravidez.
Drª Helena Lage, obstetra, angolana, seguiu a minha segunda gravidez e ajudou-me a dar à luz o meu príncipe, o que não foi fácil pois a pequeno texugo tinha só 4,900 Kgs.
Foi bom e completamente coincidente estas médicas serem angolanas. Há coisas que a gente não consegue explicar mas que têm mão do destino.
Dr. Pais Bernardino, pediatra, moçambicano e um homem de muita sabedoria. Salvou a minha filha d' um problema grave, quando era bebé.
Depois, destaco os médicos do Hospital Santa Maria onde os meus filhos já foram operados. A equipa do Dr. Lobo Antunes da neurocirurgia e na medicina, o dr. Carlos.
Os médicos do Hospital de Torres Novas e os da urgência de ortopedia do Hospital de Abrantes.
Por fim tiro também o meu chapéu aos médicos meus amigos e os que me estão ligados por laços familiares, sem esquecer aqueles que são meus amigos do facebook.
Muitos parabéns a todos estes e todos os outros médicos, verdadeiros Anjos na Terra que Deus põe no nosso caminho para nos ajudarem, contribuindo para a nossa salvação.
Salve o Dia Internacional do Médico.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

lembrete

Em Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

Assinalando


Hoje é o dia internacional para a erradicação da pobreza.
Lisboa já não esconde os seus pobres.
Nos principais locais da cidade, paredes meias com o turismo, com os serviços, com o lazer, junto a lojas de marcas de luxo, à porta dos ministérios, ali estão os sem abrigo a que todos se acostumaram.
Mas pobres não são apenas esses.
Cruzamo-nos diariamente com a pobreza descarada, com a moderada e com a envergonhada.
Famílias estão a atravessar grandes privações. 
Pais de família estão apreensivos, alguns desesperados. Os velhos, reformados, as crianças e os jovens estão em dificuldades. De mãos e pés atados.
Os braços de trabalho do país não sabem já o que fazer para sobreviverem e darem o sustento e um presente digno à prol a que pertencem e que depende deles.
A par com a carência e a impotência vive a pobreza de espírito, que cresce à medida que o país empobrece.
Está na hora de todos darmos as mãos. 
Hoje é o da outra rua, do outro bairro, o vizinho, amanhã serei eu, tu...
Está na hora de partilharmos o que sabemos, podemos e temos com quem precisa.
Está na hora de todos conhecermos o significado da palavra caridade.
A pobreza é indigna e o ser humano precisa de dignidade para sobreviver, viver e vencer.
Hoje é o dia internacional para a erradicação da pobreza.
Vamos começar já a vestir a pele digna de cidadão que tendo grandes deveres, tem também direitos.
Um povo pobre, é um povo sem liberdade.
Um povo sem liberdade é um povo manipulável e manipulado. Sonâmbulo. Moribundo.
O poder não pode ser o carrasco.
Ainda temos voz. Vamos então dizer Não à morte deste país.
Está na hora de dizermos BASTA!

O meu lamento, ainda...




Este ano de 2012 não fui ser feliz à minha terra.
Não fui resgatar a alma que fica dependurada num imbondeiro qualquer, aguardando que o corpo chegue e sejam enquanto estou, um ser feliz que toca o céu com a palma das mãos.
O subsídio de ferias, ordenado a que tive e tenho direito, por lei, foi-me negado.
Para ser a pessoa mais feliz do mundo, pisando o meu chão, ouvindo o meu povo, falando sotaqueado, sentindo o cheiro da minha terra, ficando no local onde está a minha placenta, concretizando o maior sonho de todo o ano,  qualquer subsídio de férias me chega. 
Tão pouco materialmente, para tanto bem à alma!
Deixei de poder viajar.
Amputaram-me a alegria, o prazer, o estado de graça, o crescimento, o mundo que eu conquisto quando viajo.
Em nome da crise, aceitei. Muito contrariada. Reclamando sempre. Fazendo greves. Integrando manifestações. Mas aceitei.
Eis senão quando, no sofá da sala, na limitação onde me encontro devido a um contratempo acidental, oiço na televisão que para o ano de 2013 as viagens e estadias no estrangeiro, dos membros do governo, serão agravadas em custo  5,3 %. 
Quem suportará? Nós. O povo.
De política percebo pouco. 
Sei que tal como eu que viajo para benefício próprio, todos os que viajam o fazem. Reflecte-se depois no que nos rodeia.
Eles vão lá fora, dizem, procurar soluções para o país. Para o desenvolvimento do país. Apostar nas relações internacionais. Obterem parcerias. Dividendos.
Ate aí, eu percebo. Vão trabalhar e zelar pelo país. E também percebo que os custos dessas viagens nos saiam dos bolsos através de impostos.
O que eu não percebo são os meandros dessas viagens de que se fala descaradamente bem como do dever do povo, cada vez mais pobre, a suportar o agravamento dessas viagens.
Não é justo que eu tenha deixado de viajar por impossibilidade financeira, culpa da situação  e me chamem a pagar as viagens de uma classe política que me tem arruinado  dia a dia um pouco mais a cada dia.
Este país já nada tem de justo e sensato. De democrático.
Conforme decidi não viajar porque não me posso endividar, decidi não ouvir mais notícias sobre o estado da nação e seus carrascos.
O meu coração faz taquicardia há muitos anos. Não me posso enervar, indignar nem revoltar pois que pode o dito pregar-me uma partida.
Para além de que  um dia destes não tenho dinheiro para comprar Inderal. 
Enquanto isso...andam uns e outros pelo estrangeiro fora gastando o meu, o teu, o nosso,( não o deles ), dinheirinho que tanto nos custa a ganhar. 
Onde é que eu, tu, nós, vamos parar?
Será ao estrangeiro?



terça-feira, 16 de outubro de 2012

a rosa


- Tinha um minino p'ra lá, vendendo rosa, aí eu falei p'ra ele que amava rosas.
Ele não falou nada. 
Aí ele pégou uma rosa do minino e mi oféréceu. 
Viu só qui bacana?

Afinal não sou só eu que gosto de rosas.
A moça brasileira da esplanada à beira-rio, também gosta. E fala divertida e derretida,  batendo as pestanas e fazendo covinhas nas maçãs do rosto, ao telemóvel, entregando assim o autor do gesto.
Mas que o gesto valeu, valeu mesmo.
Conclusão a que chego sempre: Não basta gostar, tem de parecer que gosta, também.
A vida nem sempre é fresca e bela como a rosa. Os espinhos magoam. Vamos retirá-los?
Ah, a propósito, gosto de rosas.
E sou como a mulher de César, não basta sê-lo, tem de parecê-lo. 
Amei este telefonema.

sonhar


O mar chega a mim no canto das gaivotas que moram na foz do Tejo.
Sinto-lhe o perfume. O som. 
O seu renovar.
Espreguiçando-se no acordar.
Todas as manhãs há uma gaivota que me vem visitar.
Esvoaça junto à varanda onde me debruço a ver a rua por onde correm rios de águas mansas em dias de tempestade.
Vem do mar a notícia, o sonho, o frio, a chuva e o marulhar.
Traz-me sul, a gaivota que aqui vem poisar.
Agarro a esterança d'um futuro tão certo quanto incerto e empato a fé que me há-de salvar.
Haverá um dia que dançarei sob o olhar doce da gaivota que me vem visitar, sembas presentes no meu presente há tanto sonhado. Há tanto para dançar...
Hoje, o meu despertar tem mais que o sabor do mar, o olhar da gaivota e o voo sem asas deste meu penar.
Hoje, acorda-me o dia, canta-me a vida, ensaia uma dança e espevita-me a vontade de futuro abraçar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Nem sempre o céu é o limite


- Gostas de mim?
- Gosto.
- Gostas quanto?
- Muito.
- Muito quanto?
- Muito.
- Mas muito quanto?
- Para lá de quatro céus.
Fosse eu quem estivesse a ouvir esta bela, pura e eterna, sim eterna, afirmo-o sem risco de errar, declaração de amor, de alma gémea, que aposto vem de outras vidas em conjunto e prosseguirá por quantas vidas forem necessárias e ficaria para lá de quatro céus.
Para além do, amo-te, vulgar, corriqueiro e nem sempre verdadeiro, o máximo que já me foi dito e ainda assim me levou ao céu, foi um, gosto, tanto, tanto, tanto de ti, que acho que te amo. Arrasou-me. Derreteu-me. Transformou-me. Prendeu-me. Comoveu-me. Subi ao primeiro céu. O visível. Não sabia que havia mais...
De vez em quando falo da família.  Do pai e da mãe. Dos irmãos. Mano Zé e a caçula que se chama Ana Paula. 
A minha caçula nasceu quando eu tinha 13 anos. Assumi o papel de mãezinha mais do que de irmã. E amei-a sempre. Num amor maior que o universo. Maior do que todas as eternidades que possam existir.
Cresceu sob o meu olhar. Quis sempre protegê-la mas não consegui. Teve azar. A nossa mãe ficou doente muito cedo, era ela adolescente. E foi filha, foi mãe, foi enfermeira da própria mãe até ao fim e o fim foi muito doloroso.
Depois seguiu-se o pai. E foi tudo igual. Filha, mãe, enfermeira. 
Depois foi viver a vida dela. Casou com o único namorado que teve desde a adolescência. O amor da vida dela. O amor da vida dele.
Estava a viver a sua vida, o seu amor, quando foi surpreendida por uma doença. Crónica. Superou. 
Há cinco anos atrás, no dia de hoje eu não estava de braço ao peito. Estava de coração desfeito com uma separação que ocorrera de forma definitiva no mês anterior e após vinte e sete anos de vida feliz. 
Almoçara e recomeçara o trabalho no tribunal quando o telefone tocou. 
A voz da minha caçula na forma de choro convulsivo fazia-se ouvir.
Retive para sempre a frase: Mana, o Paulo está a morrer.
Até perceber o que achava impossível pela dor que isso me provocava, pela surpresa, pela tragédia, demorou algum tempo.
Segui para o Hospital de Torres Novas. E depois, ambas seguimos para Santa Maria.
O helicóptero do INEM seguiu também levando o Paulo que fora interveniente num brutal acidente que o deixou quase à beira do inferno que estava a ser esta dura realidade.
Foram meses de coma. Foram esperanças mortas pelos próprios médicos de Santa Maria. 
Mandaram-no para o hospital de Torres Novas por não haver nada a fazer. Em coma 4.
A caçula, minha irmã querida, filha, amiga, heroína, nunca desistiu. Dizia-lhe que ele tinha que continuar porque tinham que partir juntos.
Passaram cinco anos. Passou por Leiria, por Gouveia e está em casa há mais de um ano. 
As lesões foram graves. Muito.Lutou sempre. Luta todos os dias. 
A caçula luta ao lado dele. É a sua mulher, amiga, irmã, enfermeira. É tudo para ele. 
O Paulo tem hoje quarenta e quatro anos. É um herói.
A minha caçula e o Paulo são duas estrelas que brilham na terra e que se amam para lá de quatro céus.
Ele faz-lhe declarações de amor de um verdadeiro poeta. Porque um poeta como ele tem o amor na pele, na boca e no coração para toda a eternidade. Para lá de quatro céus.
Sábado, à semelhança de outras vezes, ela perguntou-lhe:
- Gostas de mim?
- Muito, respondeu.
- Muito quanto?
- Não sei.
- Não sabes?
- Não sei...Muito.
- Muito quanto?
- Muito para lá do que não sei.

Esta é uma história de amor, perfeita, de dois seres imperfeitos numa vida fatalmente imperfeita. 
Eu sou especialmente grata por ter estas duas estrelas na minha vida.
Para vocês, meus heróis, força e uma vida longa e cheia de amor, sempre.
Amo-vos para lá de quatro céus e muito para lá do que não sei. 



domingo, 14 de outubro de 2012

Abre os olhos... maria clara


- Deu-te alguma coisa?
E só o facto de poderem pensar que tive ali um episódio qualquer de tontura, sintoma vertiginoso, perda de conhecimento ou pior, um AVC, põe-me a cabeça à roda, a pele fria e o coração aos pulos, numa taquicardia incontrolável.
Isso, salta pocinhas é o que tenho sido a vida toda com excepção para os anos de criação de filhos que tinha de estar atenta e com as cinco oitavas no lugar.
Mas sossego o coração pois sei que não me deu nada, senão pressa e o atrevimento de acreditar que nada de mal acontece quando vou cumprir a minha obrigação de funcionária pública, mais um dia, todos os dias, há tantos anos...
A gente ouve que se paga pela língua. Não quero acreditar que ao longo da infância e da adolescência, sentada no muro de casa, porto de abrigo, porto seguro como mais nenhum, ou empoleirada noutro qualquer lugar da tresloucada e inconsequente idade da fantasia e alegria de viver, quando alguém se espalhava ao comprido, quedando-se à minha frente e eu ria troçando com a situação tantas vezes caricata isso ia para o livro do deve e do haver e eu ia pagá-las todas juntas, ou faseadas. É mais por aí....
Aquele euêeeeeeeeee kiakiakiakia ou uóooooooooo, bem feito! tantas vezes repetido, sádica e espontaneamente arremessado sem dó nem piedade na crueldade que os kanucos todos têm, será que ficou registado no dito cujo livrinho das reclamações que o Mais Poderoso deve ter para se lembrar das patifarias que os simples, limitados e por vezes ruins mortais têm?
Não creio. Não que tenha medo de pagar por todos os meus pecados. Não são assim tantos. 
Afinal será pecado a gente rir? Sempre gostei de rir. Mesmo de mim. Mesmo se é um sorriso amarelo. Vale mais que chorar, não? Chorar tem uma cor amorfa que nos acinzenta ou enlutece. Quase sempre...
Nas vezes que escorreguei e caí, houve algumas que não me aleijei e até foram divertidas e se se riram não os condeno, em nome dessa facilidade que sempre tive para gozar o pagode à conta dos tralhos alheios.
Se queda fizesse parte do curriculum de cada um, o meu era rico e vasto.
A primeira de que tenho memória foi em casa da minha querida Nelas, madrinha do mano Zé que o seria anos mais tarde. Sentada nas escadas da cozinha, fui empurrada pelos pés por uma afilhada dela e rebolei até ao chão batendo com a testa no bico do último degrau. Gritos à minha volta, choro meu, sangue, hospital, agrafos na sobrancelha. O avô Carvalho em fúria, desespero do sô Santos e da dona Celeste, culpa da madrinha Nelas, coitada. Tinha entre 3 a 4 anos. Lembro-me dessa queda como desta última. Como se fosse hoje.
Depois foi um ver se te avias que é uma pressa, e circular é viver, pular, correr e magoar também. Caí correndo atrás dos kanucos da rua, esfolei canelas, cotovelos, dedos dos pés, palmas das mãos. Caí brincando sozinha ou acompanhada. Caia quando montava as cadelas que tinhamos, a fazer de cavalo e elas se escapavam, evidentemente, deixando-me de rabo no chão e chorando que nem uma condenada.
No Colégio, perdi os sentidos. Bati com a cabeça ( nuca ) no chão. Duas meninas, uma de cada lado e eu no meio. Cada uma empurrando-me para a outra. Uma delas saiu do lugar e eu caí para trás. Foi um susto para todos. Bem-feitos!
Cai depois no meu portão da rua Fernando Pessoa empoleirada que estava nele e parti o queixo. Logo de seguida foi o braço, caíndo p'ra cima duma lata de torrar a jinguba.
Caía muitas vezes quando brincava em pares. Um p'ra cada lado, porém presos pelos dedos, rodávamos até à tontura e depois, o espalhanço era inevitável.
Caí do muro comum que separava a minha, da casa da minhas vizinhas, Fatinha, Ana Maria e Hortênsia, e parti um pé. Depois foi a vez da perna. Enfiei-a no caixote do contador da água quando caí do outro muro, abaixo. Nesta fase e também na Fernando Pessoa fui atropelada por um taxista caindo ao chão e apanhando um susto dos diabos.
Depois veio a adolescência e caí muitas vezes. E parti o coração, mas as marcas não são visíveis. Na adolescência as feridas cicatrizam rapidamente quando mergulhamos de cabeça noutra casca da banana para mais um derrapanço. O mundo é um parque infantil e nós queremos é andar no escorrega.
No liceu à saida, naquela espera que os rapazes faziam às meninas do Feminino escorreguei e caí de chapa sentindo um vómito, uma tontura e uma vergonha imensa. Os livros espalhados e as kambas Milú ( Carolina Soares ) e Mena ( Cândida Lima ) gozando com a minha cara. Os rapazes rindo. Eu sacudindo a bata suja; cotovelos e joelhos em sangue e amuada com elas. 
Mais tarde, jogando basquetebol no campo de jogos que dava para a Industrial, caí, torci um pé que ficou num trambolho e andei a caminho do Marçal para ser tratada por uma kota cega, de nome Mingas, salvo erro, que tinha mãos de fada; onde tocava, curava. Mas não fiquei por aqui pois que uma manhã a caminho do liceu com a Arlete Costa, minha colega, fui atropelada pela 2ª vez; há quem diga que atropelei uma lambreta e caí ao chão escavacando-me toda.
Depois fiquei adulta. Conheci uma força da natureza, mergulhei de cabeça e mesmo sem fazer o pino, caí de quatro. Ah pois é! Desta queda não quero falar. Foi a grande queda da minha vida e dela todos os amigos têm memória...ainda hoje. Alguns ajudaram a levantar-me como o fizeram recentemente na catastrófica e infeliz queda, do mesmo tipo, a maior, por não estar nada à espera e já estar fraca das canetas. Não há dúvida de que tenho jeito, ou ponho-me a jeito para a queda...
Como senhora dona já me aconteceram tralhos de toda a espécie. Nas escadas de madeira da casa dos meus pais, em T. Novas, com um pacote de açúcar na mão e umas socas nos pés, uma pressa de fazer um bolo de aniversário para a dona Celeste e zás, aí vai disto. Magoada mas doce pois que o açúcar se espalhou e fiquei em ponto de caramelo.Chorando que nem uma madalena.
Cai com a minha filha ao colo no meio da rua. Num parque infantil com o meu caçula ao colo. No tribunal de torres novas em plena secretaria. E mais um vez os joelhos a sofrerem com o meu descuido ou má qualidade dos sapatos. Sei lá eu!
Já caí nas escadas do tribunal de Alcanena e fiz uma ferida nas costas assustadora. Já caí numa banheira de hotel, no Porto. Na banheira da minha casa. Na minha cozinha do Olival, num fim de ano que até fiz a espargata e temi já não chegar ao ano seguinte. Caí nas escadas rolantes do Oriente com um troley numa mão e a gateira com a Pitanga, noutra.
Caí em Trás-os-Montes, nas escadas sem luz dum restaurante e escavaquei o pulso e mão.  
Caí em frente à Rodoviária de T.Novas e fui socorrida por estudantes. Caí também na rua, na Póvoa de Stº Adrião quando ia às compras e fiquei sem sandálias, sendo que a minha cria teve de comprar-me uns chinelos de borracha para seguir caminho. Caí à saída da antiga casa da minha cria mais velha, ali na Calçada da Pampulha, ficando com o rabo na entrada e as pernas na estrada. Caí a subir estas escadas da casa nova, logo no dia em que vim conhecer a casa.
E por fim, caí na rua em torres novas num tralho que não me fazia falta nenhuma nem para meditar porque não tenho grandes culpas no cartório e não encontro justificação para ajuste de contas pois que há muito deixei de troçar de quem cai porque aprendi a colocar-me no lugar do outro. Aqui estou de braço ao peito, com uma fractura no colo umeral, com dores quase tão grandes como aquelas deixadas pelos espalhanços que atingem o coração.
Já não estou em idade de me atirar para o chão. Nem tão pouco de ser jogada ao chão por forças sabe Deus, quais. 
Já não quero senão sopas e descanso. Mas tão parada como estou agora é uma monotonia que não casa comigo e ter pena de mim própria é um sentimento que não me assiste. 
Serei culpada duma vida inteira me pôr a jeito de ir beijar o chão? É castigo? Ou karma?
Seja  o que for, estou a pagá-las, a amargá-las e a exorcizá-las.
Gosto pouco de conselhos mas tenho mesmo que me dar um, uma vez que tenho queda para a queda:
Abre os olhos...maria clara! 
     

sábado, 13 de outubro de 2012

baloiçando-me na vida


O telefone tocou. Um número fixo começando por 21. Não está gravado e só atendendo sei quem é. São tão poucos os fixos que me ligam!
Por falar em fixo estive toda a manhã no Olival Basto para que o fixo fosse montado mais a net e mais a televisão, naquele pacote que agrada a todos numa troca com outra operadora que me levava os olhos da cara e couro e cabelo, enfim, que me deixava completamente transfigurada quando a conta surgia.
- Qual é o seu nome? perguntou-me o funcionário da PT num português sotaqueado a lembrar a minha querida Arminda, cachupa, cretcheu, mornas, coladeiras e funaná.
- Maria Clara, respondi.
- Roberto Carlos ao seu dispôr, disse sorrindo, mostrando os dentes alvos e certinhos.
- O seu nome é em honra ao cantor? não evitei perguntar.
- É, seguido de gargalhada. Em Cabo Verde gostavam muito de Roberto Carlos e a mãe e a madrinha também.
E mesmo depois do Roberto Carlos ter saído, sem que antes me tivesse contado que tem uma filha adolescente " na Angola " porque a ex é angolana e fugiu levando a filha, que tem casa própria na Amadora e está a pensar ir trabalhar para Angola, deixei-me estar saboreando a minha casa onde já não ia há muito tempo; desde as férias de Setembro.
Aguardava então um pouco para fazer o caminho de volta para Lisboa e enquanto aguardava passeava-me pelo facebook quando o telefone tocou.
- Como é, Maria Clara?
Amiga de infância, daquelas que brincaram connosco de jogar à macaca, minha mãe dá licença, jardim da celeste, atirar farpas feitas de papelinhos e lançadas de elástico do cabelo para os rabos dos que esperavam o machimbombo da Terra Nova ou do Cazenga, mesmo em frente à nossa porta, amiga de cantar as músicas do Roberto Carlos, num que tudo mais vá para o inferno ou o calhambeque, de se mascarar connosco no carnaval, de rezar as orações dos santinhos, de assistir junto à missa das seis nos domingos, em São Paulo, de me levar pela mão para o colégio no meu primeiro dia de aulas, de costurar vestidos de bonecas, de andarmos de baloiço voando alto no alpendre da sua casa debaixo do assanhamento do cão Boby, amiga de fumarmos negritas avulsos na casa de banho do quintal, de enganarmos os baleizeiros com moedas de portugal, de partilhar segredos, de apanhar boleia para irmos para a praia juntas, de inventar batom com nívea e lápis dos olhos, de irmos à drogaria comprar Marlene, perfume avulso, de irmos à matiné do Miramar, amiga de sempre, essa amiga com número de telefone fixo começado por 21 que diz:
- Como é, Maria Clara?
E eu conto como foi e como é.
- Eu já parti este braço.
- Eu lembro-me. Foi no muro. Empoleiraste-te no muro e rodaste agarrada ao ramo da mandioqueira.
- Não, isso foi quando parti a perna. Caí para cima da jante de camião que estava no teu quintal.
- Quando partiste o pé, emenda ela. 
- O braço foi num domingo à tarde. Estava a brincar...e ela interrompe, lembro-me, estávamos a brincar e caíste do muro abaixo para a lata...
- Lembras-te duma torneira que ficava ao pé do muro, que tinha um contador e um caixote por cima? Eu subia por aí e andava em pé em cima do muro...
- Pois, e depois caíste em cima da lata...nós aprontávamos, amiga.
Recuando no tempo até aonde as memórias valem ouro e diamantes, recuando aos meus seis tenros, felizes e saudosos anos, vejo-me empoleirada no muro da frente da casa, não no outro que separava a minha, da casa da minha amiga, não no outro onde à noitinha saída da casa dela amuada, me empoleirei também e ao chamamento da irmã rodei agarrada a um frágil ramo de mandioqueira e caí p'ra cima da jante, ganhando dores, uma ida ao hospital de S. Paulo, ao fundo da avenida e uma bota branca de gesso. Até que era bangosa a bota branca e depois todo o mundo perguntava, o que foi desta vez, Clarita?  
Vejo-me nesse tempo, de traquinices, de maria-rapaz como me chamavam, quase correndo em cima do muro, fazendo equilíbrio, qual ginasta do circo Universal ou Mariano, sorrindo feliz no desafio ao medo. 
Vejo-me desafiando o mundo desde a ponta da loja até à ponta onde começava o passeio da Casa Bastos, junto do portão da minha vizinha. Quaisquer dez metros de glória e de risco que me fortaleciam e faziam livre e feliz. Juntamente com a minha amiga Fatinha. 
No Olival Basto, em dia de montagem do Meo, recuando 52 anos percebo que é uma fortuna o que possuo. As memórias partilhadas com alguém do passado, no presente. A riqueza de uma vida plena de acontecimentos e sentimentos. A cumplicidade da amizade.
Uma fractura no úmero? O que é isso comparado com a herança que trago comigo?
Sorrio feliz e grata...


( homenagem à minha amiga de infância Fátima Matias )



a caixa de bolos


Sempre me encantei por uma caixa de bolos de pastelaria.
Sô Santos fazia questão de vir da baixa sempre acompanhado duma daquelas caixinhas que diziam, pastelaria Royal,atada com um cordelinho, fofinha e saborosa que eu sei lá. Ele era chantily, fios de ovos e outras coberturas de comer e chorar por mais.
Mas não era só quando ia à Baixa. Também era quando alguém de casa adoecia. Eu até gostava de ficar doente para tanto apaparico.
Esse hábito de avós, pais,tios, família portanto, perdeu-se. As pastelarias cada vez são mais e cada um de nós pode dirigir-se ao lugar adequado e comer um bolo.
A Royal, a Detinha , a Gentil já não existem. Sô Santos também não, só na memória e no coração.
Mas existem amigos. Kambas do peito como irmãos. Avilos desse tempo. Do tempo da Royal, Detinha ou Gentil. E eu estou doente. Não é bem assim. Um pouquito incapacitada, é mais verdade.
E hoje recebi a visita da minha kamba de sempre. E do kamba como irmão, também. E recebi uma caixa de bolos.
E voltei atrás no tempo. Ao tempo em que menina recebia caixas de bolos de pastelaria e a amizade de meninas da minha idade. Como a desta que se mantêm até hoje.
Que apesar de estar aqui e acoli, que quer dizer, Angola e Portugal,  há tantos anos,continuamos juntas ou fisicamente, ou virtualmente. Mas juntas. Família. Familha...
N'ga sakidila kamba Carolina Soares.Obrigada, sem lamechices, minha amiga e colega de liceu, confidente, cúmplice, companheira de risadas, no humor e nos momentos maus também. Em suma, minha irmã.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

previsões

Diz a Maya que hoje esta é a carta do Tarot para os nativos do signo Caranguejo.
Dei um gargalhada. 
Como é que alguém " retido " em casa, pode ter O Mundo?
Ó Maya, a menina é uma brincalhona.
Contactos profissionais que podem ser internacionais? Muito frutíferos?
Contactos pessoais importantes, insistindo na internacionalidade?
Tudo isto, de asa quebrada?
Ó Maya, nada melhor para iniciar o dia que uma boa anedota.
Pelo sim pelo não, já " encomendei " um euromilhões. 
Não vá o diabo tecê-las e dar um empurrão.
Por falar em empurrão, queda, ombro, um euromilhões, querida Maya, é que era.
Internacionalizava-me quase logo. Era assim que me dessem alta desta provação que segundo uma amiga como irmã serve para me fortalecer.
Forte, forte é que eu me sentiria se tivesse O Mundo nas mãos e no coração.
Ó Maya, não é preciso ser bruxa, cartomante, taróloga, para saber que a menina é uma brincalhona, com todo o respeito que tenho por signos, cartas e afins.

questões

Ontem.vendo televisão, assisti a uma entrevista de rua a adultos, cujo tema era Deus.
Perguntado sobre quem é Deus, a resposta de um homem, que retive foi:
Deus é um HOMEM GRANDE!

diário


Já toda a gente sabe que eu gosto de ditados. Fazem parte da verdade do povo, da confirmação do cotidiano. Da vida, experienciada e passada de uns para outros, virando sabedoria.
Já toda a gente que priva comigo sabe que gosto pouco de estar fechada. Ficar em casa dias e dias não casa comigo. Não ver gente deprime-me. Não falar nem rir, angustia-me.
Não me mexer engorda-me. Não usar o braço e mão esquerda escraviza-me. Não estar de férias mas não fazer nada inutiliza-me.
Não sei estar de baixa. Instala-se em mim um sentimento de culpa inexplicável. A última vez que aconteceu foi há cinco anos por causa da cervical. Também andei a contas com este braço...   
Por estas e outras, por tudo isto, sentada no sofá da sala, olhando para a televisão, sinto-me no mato sem cachorro. Atada de mãos e pés. À beira do abismo. 
A manhã amanheceu triste e húmida. Chove na travessa, a caminho das escadas que vão ter lá acima, por onde os estrangeiros de máquina ao ombro sobem a fim de conhecerem as vielas, os pátios,  o castelo e a tradição.
Chove que Deus a dá. E abre o sol de seguida, secando tudo. Oiço os sons da rua, do ar e do rio através dos carros, das sirenes, do sino da igreja, dos aviões e das gaivotas que chegam. E eu aqui. Como que fechada a sete chaves. Presa na minha incapacidade física para pôr o pé no chinelo e partir na descoberta da cidade a partir daqui, do coração e do seu pulsar.
Sinto-me a morrer na praia. 
Procuro não ouvir fantasmas. Sei que a cidade antiga deve ter muitos. Mas é de fora que me chegam vozes demoníacas. Não quero ouvir ninguém que me diz que isto pode levar meses. Porque dizem estas coisas? Para prevenir? Diz que homem prevenido vale por dois. E mulher?
Nem quero ser prevenida e valho o que valho. Uma vezes o meu peso em ouro, outro nem um tostão furado.
Porque me dizem coisas que me assustam e provocam dores no estômago?
Porque não oiço que vai correr tudo bem, que não vou precisar de ser operada e que daqui a pouco já estou a chamar ou a dizer adeus com a mão esquerda sem que me lembre que me estendi ao comprido numa ladeira quase enfiando a cabeça debaixo dum automóvel percebendo tudo desde que o pé resvalou até que senti o braço esquerdo perdido por muito tempo numa pancada seca e para lá de dolorosa no asfalto da rua onde todos os dias passo mais do que uma vez ao dia?
Ontem o telefone ainda me animou. Uma amiga de infância. Um amigo do norte do país que também é angolano.Horas. Mensagens agradáveis.
Hoje a manhã começou chovendo. Passou depois a sol. A tarde chegou calmamente. A noite também.
Da varanda disseram-me:
O Rossio está animado. Os putos estão numa algazarra, nas praxes.
Senti-me de novo a morrer na praia.
O mundo lá fora a viver. E eu aqui dentro a embrutecer. Desviando-me de todas as notícias que me causem azia. Procurando programas com que me possa entreter. Ouvindo o doutor Oz falar sobre Alzheimer. Que o caril faz bem, as batatas assadas também e as frutas e legumes coloridos idem. Mas que novidade!
Ficou-me a bater que no Rossio os caloiros estavam a ser praxados. Que havia noite, barulho, putos, Rossio, lá fora.
E fui à rua. E descer a rua, passar na Praça da Figueira, Rua Augusta, voltar ao Rossio e seguir para casa foi subir ao céu. A companhia não podia ser melhor.
Afinal, acabei a noite a ressuscitar e quem diz que sai caro ser feliz não sabe o que diz. Não gastei nada e hoje não podia acabar a noite de melhor forma, Até porque Deus dá o frio  conforme o agasalho. Ou é o contrário? Que estava frio estava mas até foi bom sentir o aconchego do casaco. E da noite.
Ah e a quantidade de polícias que havia na rua? Senti-me para além de tudo, protegida.              
  

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Jeremias & Pitanga Lda


O Jeremias acabou de aparecer à janela. Não o vi, porque apareceu por de trás do cortinado castanho. Mas fez-se anunciar.
Não gosto de ver o Jeremias aparecer nem tão pouco de o saber por perto. A rondar a janela e a porta da varanda.
Mas afinal quem é o Jeremias? Até há duas semanas não sabia da sua existência.
O Jeremias é um gato. Melhor, um gatão. Não tanto por ser grande mas mais por ser lindo. Preto e branco.
Nunca antes soubera que se podiam partilhar gatos. Este tem sido partilhado. Entre uma casa e outra. Uma portinhola e outra. Uma varanda e outra. 
Será que é por estarmos paredes meias com a Mouraria, uma quase aldeia, carregada de simbolismo, tradições e outras satisfações?
Não sei. O que sei é que o Jeremias vem à janela reclamar um espaço que julga ser dele. Que a nova moradora da casa aceitou que continuasse a ser.
Julgo que lhe deu o cheiro a Pitanga e apesar da portinhola de gato trancada, todos os dias volta e espera pacientemente. 
A Pitanga reage. Mal, claro. Não está habituada a gatices. E depois, este gato desencadeou o cio da pobre bichinha. 
Estou no meio do fogo cruzado entre um gato, que se apanha a minha gatinha chama-lhe um figo e a minha querida Pitanga que acho que em nome das leis da natureza se deixaria seduzir facilmente pelo gatão Jeremias. 
E ando eu aqui de braço ao peito fazendo o papel da bruxa má, a empata neste flirt pegado e desejado. Tudo em nome da moral e dos bons costumes.
Ahahah, mentira! Deus me livre gatinhos. Se uma Pitanga já dá que fazer, uma Pitanga mais anexos seria um pesadelo tão grande como estar há uma semana de braço ao peito.
Não é humano tirar crias a uma mãe. Não é possível ter uma mãe fidalga e as suas crias num apartamento, sendo alimentadas a latinhas gourmet.
Parece-me assim que o romance entre o Jeremias e a Pitanga não passará de um namoro virtual, afinal como há muitos por aí entre gatos, ou não.
Que situação!...       

hoje...hoje não!



Queria fazer-te um poema mas hoje apenas sei rimar amor com dor.
Somar anos de perda. Sem beijos, nem abraços. 
Sem ouvir os teus passos.
A tua voz. 
Porque hoje, faz tanto tempo, vi-te partir com as quadras rimadas que declamavas.
Com as desgarradas que tão bem cantavas.
Com a alegria que alimentavas no dia a dia.
Com os gestos de bem querer.
Com os sonhos na terra longe sonhados
Com a vontade que tiveste sempre, de viver.
Vi-te partir sem dares nome ao livro das nossas vidas que um dia eu queria ler.

Hoje queria fazer-te um poema mas há palavras que não sei dizer
Versos difíceis de perceber
Páginas que de tanto te invocar desesperei
Nas saudades que te chorei.
Queria fazer-te um poema, mas hoje, o dia oferece-me folhas de outono vazias da tua presença.
Ideias confusas de compreensão
E tristeza no meu coração
Hoje, pai, não é um bom dia para te fazer um poema
Quem sabe, amanhã?
Hoje...hoje não!

m.c.s.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

agradecer sempre


A diferença entre os 20 anos e os 50 e..... é só esta:
Aos 20 não estava nem aí para as boas pessoas. Acho que nem sequer sabia distinguir as boas, das outras.
Aos 57, faço apelos constantes para que me saiam ao caminho as boas pessoas. 

Das outras, estou eu farta de levar com elas.
Digo eu, que os meus apelos hoje foram ouvidos.
Obrigada Sónia e Nuno; meu Deus como poderei pagar o que me fizeram hoje?! Nunca mais me esquecerei na vida.
Obrigada minha filha Ângela por teres a felicidade de teres amigos verdadeiros e que em nome dessa amizade são tão altruístas para comigo.
Obrigada Luísa Conceição e dr. R.Gil, mil vezes agradecida aos dois.
A amizade dos primeiros ( Sónia e Nuno ) é uma constante e a generosidade idem.
Conhecer os segundos há vários anos e ter privado profissionalmente com o dr. R. Gil, tornou possível levar a bom porto a burocracia a que de uma forma ou de outra qualquer um de nós tem de estar sujeito quando tem azares como o meu ou outros e tem de pôr pés ao caminho e tratar de tudo.
Há boas pessoas e graças a Deus e à minha vivência reconheço-os e saem-me ao caminho.
Costumo sempre dizer aos meus amigos que tenho muito mais a agradecer-lhes que eles a mim pois que tenho precisado e estão sempre lá, já eles felizmente não têm precisado para que eu esteja lá...
Mais uma vez, hoje a amizade esteve presente. Obrigada.
Apetece-me dizer uma frase que me acalma sempre que estou em dificuldade:
Deus está comigo, nada está contra mim.
Beijos nos vossos ♥ ♥

m.c.s.

constatando hoje

Apetecia-me muito vislumbrar o futuro, mas acordei completamente às escuras.
Se não acendo a luz, nem consigo ver o presente. 
Digo eu, estremunhada e aos apalpões, procurando ligar o interruptor.

domingo, 7 de outubro de 2012

é domingo como podia ser 3ª feira


Já não tenho onde cair morta. Primeiro a crise que me atou de pés e mãos e agora esta queda que me atou o braço ao peito.
Digo eu, constatando a deprimente e carente realidade que me remeteu para a minha reduzida importância.

sábado, 6 de outubro de 2012

a Baixa

Sempre quis viver na Baixa. Sentir o coração da cidade E o seu pulsar.
Há no centro das cidades algo de mais autêntico. Antigo. Do passado.
Abri a janela deste duplex moderno, metido num prédio antigo. Debruço-me. Parece que oiço a travessa antiga falando de tempos longínquos. A caminho do fado na Mouraria. Ou guardando a cidade a partir do Castelo. Ou caminhando para os miradouros.
Ouve-se a língua do povo falando com a criança, com o cão ou com o velho; ouve-se a voz do turista falando francês, espanhol, inglês.
Ouve-se o sino da igreja  a cada quarto de hora. E as gaivotas que vêm do rio. Ouvem-se também  as sirenes das ambulâncias.
Ouve-se uma bola batida por um puto, contra a parede do prédio em frente. Do interior duma casa ouve-se Quim Barreiros.
Apago a luz do candeeiro. O sol surge de mansinho a enfeitar a manhã.
Os vizinhos do lado acordaram. Abriram a varanda ao Jeremias, o gato partilhado entre eles e o antigo morador da casa. Julgava que podia entrar pelo portinhola da porta da varanda. Indignou-se. Reclamou na língua felina de gato assanhado. A Pitanga mandou um salto e atiçou-se a ele e a nós. Do lado de cá, claro. Um vidro a separá-los.
Ouve-se um avião passar mesmo por cima de nós. Aqui já o trem de aterragem se soltou. Quem vai lá dentro pode ver as casas, a roupa estendida, até o Jeremias malhado de preto e branco.
O Rossio e a Praça da Figueira. O Chiado, o Cais do Sodré, os Restauradores, a avenida da Liberdade, tudo a 2, 5 minutos daqui.
Sempre tive o desejo de viver na Baixa.
Por acidente vim cá parar. Por acidente, vou cá continuar.
Não vejo a hora de poder descer as escadas sem medos e sem dores e ir beber um chá e comer um pão por deus à Padaria Portuguesa, na Rua do Ouro. Ou subir à Mouraria e avistar a cidade. Ou entrar no castelo para recolher umas imagens de luz.
Afinal, não tive sempre o desejo de viver na baixa pombalina?