domingo, 19 de setembro de 2010

confessando-me

Às vezes esqueço-me de mim.
Quando me lembro demais dos outros, esqueço-me de mim.
Às vezes preciso de me encontrar...
Às vezes fecho a porta, dou à chave e olho para dentro. Por dentro, para fora.
Hesito.
Desço escadas. Desço sempre escadas. Com a sensação que não vou completa.
Que há algo que ficou para trás.
Pode ser telemóvel, os brincos, o perfume, os óculos, o baton, o cartão de livre trânsito...pode ser paciência, tolerância, optimismo, ou vontade de cumprir o dia...
Às vezes esqueço-me de mim, mas não me faço falta porque tenho outros.
Estou desatenta de mim até que acontece algo que me faz dizer: maria clara, encontra o equilíbrio necessário para continuares. Não percebo isto até que chegam a mim os sinais que me dizem que se me esqueço de mim, esqueço o melhor dos outros e o pior também.
Se tenho de enfrentar dias difíceis e baixo os braços, e desanimo, pergunto-me sempre porque me deixei fechada, bati a porta e parti incompleta.
Preciso de mim inteira quando entro pela vida da minha irmã e lhe vejo o cansaço, o olhar triste, a resignação. E olho o meu cunhado que me olha com uma ternura, quase imoral ( porque eu tinha de estar sempre e não estou ).
Esqueço-me de mim, fechada para lá do que as pessoas podem ver. E faz-me falta Aceitar. Pactuar com eles, fingir que não é difícil, rir livremente, espalhando sorrisos cristalinos, como ri a Paula numa triste e doce demência, que me fere a alma.
Queria estar inteira e entrar nessa esquisofrenia e não serem dois, sermos muitos, Acreditando.
Ontem, saí de casa e não tranquei aporta. Esqueci-me e deixei espaços próprios para que a saudade do meu pai fosse uma lembrança do tamanho duma dor que não passa. Passaram tantos anos, mais um, e eu não esqueço que ele foi o melhor pai do mundo. Desejei ser pequenina e estar deitada ao seu lado, no quarto, e suplicar-lhe mais uma vez, a última vez, fazendo beicinho, que me contasse a história do cabritinho. Que tinha muitos filhinhos, que lhe saiam da barriga, que abotoava com botões. Uma história que percebi mais tarde que estava errada. Durante anos não soube que havia género. O meu pai chamava cabritinho à mãe, porque tornava mais bela e fácil a sua narrativa aos meus olhos e imaginação de criança.
Ontem não consegui tomar conta de ninguém. Nem da minha filha que precisava tanto mitigar as mágoas de se ver amiga duma menina de vinte e sete anos que está a braços com um AVC, internada há uns dias. Só ouvi, só fui dizendo que sim com a cabeça, não com o coração, como ela precisava.
Ontem não consegui sequer tomar conta de mim, porque me esqueci de mim, lá dentro, quando fechei a porta em Lisboa.
À noite, como todos os domingos, uma amiga ligou-me. Disse como sempre - Onde está, Coração?
É assim que me trata sempre que fala comigo ao telefone, ou quando chega junto de mim ou se despede. E eu sinto-me um Coração enorme, como aquele que a gente fazia na escola, com o nome dentro e uma seta na direcção de outro coração. Ela afaga-me a alma sempre que chego de Lisboa. Conquista-me todos os domingos um pouco mais e eu sou Gratidão a jorrar de todos os poros.
Que estava à minha espera, que tinha restos para jantarmos. Que o Rafael não queria dormir sem que " a tia clara " chegasse. O beijo e o abraço deste menino que ela adoptou e a quem eu dei o primeiro banho na sua casa e a primeira papa, e os restos que comemos todos os domingos e porque só eu como desses restos ali com eles, fazem da nossa intimidade algo muito fraternal e seguro. O ombro, a mão, a presença, a certeza...
Fui de encontro a esses afectos por estar esgotada de tanto me esquecer de mim. Precisava que ela me dissesse que eu não posso desistir, que eu sou forte, que eu consigo tudo se quiser. Precisava que me dissesse que ela nunca se esquece de mim e que mesmo que eu me esqueça, ela nunca se esquece de me lembrar que eu também tenho esse direito. De falhar, de ser igual a toda a gente...
Ontem, salvou-me a noite, a minha amiga e o meu filho. Este que me ligou perguntando se eu já tinha chegado a Torres Novas, porque não lhe tinha dito nada. Estava tomando conta de mim como faz todos os domingos, longe mas muito perto.
Às vezes esqueço-me de mim...
Quando me lembro demais dos outros, esqueço-me de mim...
Às vezes preciso de me encontrar...

Este texto foi escrito, não no blog porque ainda não existia, e teve endereço, o ano passado dois dias depois de fazer anos que o meu pai partira. Um ano depois, o meu filho voltou a Lisboa, a amiga da minha filha melhorou, a minha amiga não me telefona ao domingo à noite porque a vida dela mudou, porém em nada foi alterada a nossa amizade, o Rafael cresceu, e eu a cada domingo como o domingo que me provocou esta escrita, me sinto a fechar a porta, descer escadas, e a partir com a sensação que não vou completa...as minhas dúvidas, as minhas culpas, as minhas rotinas, os meus sentimentos mantêm-se iguais e passou quase um ano.
Hoje é domingo, mais um domingo que parto incompleta...

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