quarta-feira, 2 de maio de 2012

a minha alegre casinha

Chove que Deus a dá. O país queria chuva e ei-la que cai das nuvens e molha tudo. Ensopa as terras, lava as ruas e as árvores, enche as sarjetas e humedece-me a alma.
Lá está a minha alma a precisar do sol e os elementos a contrariá-la. 
Em casa mais um dia, opto por não sair. Sem querer parecer piegas, enfadonha ou velha, parece-me muito bem estar sozinha com a Pitanga que felizmente já sossegou o facho, que nos últimos dias viveu dias maus e pôs em perigo os meus candeeiros, as telas por cima da cabeceira, os livros, tudo onde chegou, sem falar duma peça em cristal que partiu, pois que a bichinha trepa às paredes a cada vez que está em período crítico e eu consumo-me com este estado de situação.
Parece-me bem deixar-me ficar sem rei nem roque. Não quero fazer perguntas. Apenas deixar correr a água debaixo da ponte. Mas estou tentada, a cada atitude que tomo. Porque me sabe bem ficar-me esquecida, isolada e adormecida nesta madorna que é acordar a qualquer hora sem despertador, tomar  banho quando me apetece, comer do mesmo jeito, ler, escrever, rir com as loucuras do Goucha, da Cristina e do Fernando Alvim, falar ao telefone ou fazer a sesta? Isso. Ontem adormeci que nem uma santa após o almoço e que bem me soube esse dormir relaxado...
Paira-me uma pergunta mais, mesmo à frente do meu prazer de estar sozinha. Porque me apetece estar só? Nunca fui disso. Sempre fugi de mim em busca da companhia de outros. Sempre, não. Mas muitas vezes. Que egoísmo é este que não me quero partilhar?  
Prometi-me não fazer perguntas. É mais fácil viver sem elas. A vida dá-nos as respostas. Os sinais. Então o melhor é sossegar eu também o facho. Abrir as guardas e deixar o sol entrar sem culpas.
Durante dois dias não gastei um cêntimo o que é uma bênção já que temos de cortar, de poupar, de mudar.
Mas hoje teve de ser. 
Dei-me conta de que não tinha fósforos e foi a Xana, mãe dos índios daqui do lado que me salvou. Emprestou-me um isqueiro como se fosse o próprio lume, numa alegria fogosa, numa chama no olhar e numa prontidão danada de boa. Ah vizinha, pode ficar com ele, até precisar, ressalvou. Claro que tem o tal v na ponta da chama, nem eu queria que fosse de outro jeito. Então hoje, logo pela manhã, foi tomar banho e pôr o pé na rua a caminho da loja da Rita que numa de surprise, surprise! a senhora a estas horas por aqui? Sim. estou de férias. Ah logo vi. Não é costume.
Enquanto escolhia o que precisava, dando-me ao luxo de comprar uns morangos, todo o resto só o que é necessário, ouvi um homem chamar a Rita à porta.
- Ó Ritinha chega cá. E a Rita foi.
- Estás  a ver aquele senhor ali? 
- Qual? 
- Este pá, que está aqui, todo  f...... 
- Sim. Ele deixou caducar a carta e agora tem de a voltar a tirar. É russo, acrescenta a Rita, o que me espantou de tão bem informada que está, pese embora a escola de condução seja ao lado do supermercado. Será por isso que tem esse conhecimento. 
- Pois é. Mas sabes quem é ele? É o director-geral da orquestra sinfónica da Rússia. Se fosse na terra dele este largo estava cheio de seguranças.
Como chega, o homem vai embora. A Rita entra na loja de novo e sorri encolhendo os ombros. 
Deixei-a pouco depois. Quando chegava à minha casa, o carteiro chega também. Entrega-me três envelopes e segue.
Entrei em casa e lembrei-me que precisava mandar uma mensagem a alguém que amo muito e cujo dia é demais importante na sua vida profissional. Escrevi como sinto. Recebi a resposta com um boneco de sorriso. Tudo está bem quando começa bem. 
Hoje foi a manhã do segundo dia de Maio. A possível. A escolhida. Segue o dia.  Aquele que tenho para viver na minha alegre casinha. 

2 comentários:

apenas umas letras disse...

olá, como está? existem dias em que as mulheres gostam de estar sozinhas. vejo isso, através da minha mãe, que muitas vezes prefere sair sem companhia de ninguém. beijos

Maria Clara disse...

olá Nuno. Isto nada tem que ver com o género. Tem a ver com estados de alma, mas você é muito novo para perceber isso. :)