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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

cumplicidades

Há dias frios de arrepiar. 
Feios de fugir. E tristes de ir às lágrimas. E voltar. 
Para, ainda assim, espreitar o dia, à espera d' um golpe de ar. 
Duma brisa vinda do mar. Duma mão a acenar. 
D' um sol piscando o meu olhar.
Há nos dias frios, feios e tristes, um desejo espiritual de fazer correr o tempo para diante. Correr com ele e deixá-lo ficar para trás. Vencendo-o. 
Há um desejo visceral, um elo, uma tentação ou feitiço, que me empurra para a frente e se devolve a mim todos os dias, sejam frios, feios ou tristes, quentes de escaldar, belos e sorridentes. 
Hoje, vou andando, a passo de caracol, entre o tempo que te sonho e aquele que a alma sente quando se expõe. Ao ritmo de ontem. Nem correndo nem parando. Indo...
Quem sabe amanhã, nos encontramos, num ir e voltar, na hora certa e tempos iguais? Quando a flor florir, a rosa dos ventos for generosa e a primavera desconseguir se esconder nas nuvens que têm pairado no universo, roubando-me o sorriso que te quero oferecer sempre, faça chuva ou faça sol, haverá uma probabilidade única e tentadora dos céus se unirem e nos colocarem no mesmo trilho. Só para nos verem rindo à gargalhada. De nós. 
Passeio-me nessa ideia, na espera desse dia...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

amo-te mar!

foto tukayana.blogspot
Sei que demorei para cá chegar. Nem sei o que me deu. Ou porque não me deu para me contrariar, para me forçar...
Não costumo fazer-me de rogada se quero sentir a maresia, o iodo e o marulhar. 
Movo ar e terra para chegar ao mar. Faço o que for preciso. Para me renascer. Para me enternecer, para me entregar e me revitalizar. 
Porém demorei para cá chegar. Acho desafiei o meu querer. 
Não dei valor para os meus sentires. 
Menosprezei a minha vontade. 
Ri da minha saudade. 
Alterei até o rumo do destino. Fui para norte em vez de rumar a sul.
Diz que há razões que a razão desconhece. Ou será que é o coração? Ou a memória? Ou tão somente a certeza que um dia eu iria e por isso desconsegui me atirar de cabeça, mergulhar na imensidão dessa necessidade tão presente sempre, mesmo se estou rodeada de montes e serras, subúrbios e cidades, apatias e descréditos?!
Isso tudo agora interessa quase nada. Não vou remoer-me de culpas, não vou apresentar desculpas. Nem sequer me sinto arrependida. 
Nada melhor que a gente fingir um pouco de desinteresse. Nada como ir com calma. 
Nada como não irmos com muita sede ao pote. Tudo é preferível a um afogamento. E uma distracção diz que é a morte do artista.
É que eu apesar de tantas vezes quantas vezes desisti, tentei ir. E mergulhar. Em vão. 
Ninguém me ensinou a nadar. E já não sei se me devo atirar de olhos fechados. É que o fundo do mar pode ser lindo de morrer mas o medo de me aleijar é superior. 
Enfim! Neste diz que disse, baralhei-me, parece que levei com um ouriço do mar na cabeça, mesmo antes de lá chegar e à laia de vou ali que se faz tarde, fui ver o mar.
E fiz-lhe uma declaração. Não de papel selado que isso agora rareia, mas usando como garante a minha palavra, que é o que vou tendo. Um pouco mais que as existentes em qualquer dicionário manhoso. 
Não estou arrependida. O mar está lindo. Bangão. Bailarino. Cálido e colorido. Envolvente. Apaixonante. Um charme.
O mar está mesmo como eu lhe tenho sonhado. 
Olha, só um à parte, até porque isso da gente falar com o que não é gente parece coisa de doido e eu nem apanhei sol na moleirinha nem nada, mas parece que não bate a bota com a perdigota, até porque te ofereci resistência, tanto que me deixei ficar por aqui, mas agora que te vejo com olhos de claramente visto, te confesso... Amo-te mar!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

viajar para casa




Mesmo imóvel, caminho ao encontro de mim, 
no sonho que me dá pernas para andar.
E voo na emoção desse sonho, que me dá asas para voar.
Há dias que me vejo para lá do horizonte, da estória e de mim. 
Tocando pequenos céus com a ponta dos dedos.
Despertei do sono há pouco e iniciei já essa caminhada. 
Quero que hoje seja dia. Todos os dias mais um dia...
No poder que o querer me dá, não interessa quando chego mas importa como o faço.
Sempre com paixão, esperança e amor. 
Com os pés bem assentes no chão, sobrevoando a minha alegria de chegar,
um dia, sim um dia, no dia de todos os dias, 
aquele que será o primeiro de todos ainda por viver, eu chego.
E apenas direi, cheguei! 

domingo, 9 de setembro de 2012

do outro lado do dia


Sento-me do outro lado do dia. Só para poder olhar a noite chegando. 
O sol beijando as águas salgadas nesse horizonte que é teu. Mas também o meu.
Que mania esta de tomar posse de tudo o que se vê e não vê...
De tudo o que a alma alcança!
Que mania esta de querer ser adivinha e pôr no universo as palavras que podem ser as certas para que este se deixe encantar e aja de acordo com o que o meu coração, a minha intuição, a minha curiosidade e a minha paixão, tudo junto se misture e possa resultar uma estória  ímpar. Um romance singular. Daqueles que ficam escritos nos céus. 
Neste momento de contemplação, da entrega do astro rei ao mar, algo, que vem das profundezas do oceano,  da eternidade que adivinho nos astros que me brindam e me pôem em êxtase nem que seja num segundo, qualquer coisa me diz, e eu que sou tudo menos desatenta aos sinais, mesmo às reticências, pontos de exclamação ou parágrafos sem ponto final, que esse só se deve pôr quando já nada há mais a esperar de nós, de mim, de ti, do sol, do mar e da vida, leio  nas entrelinhas, das estrelas e dos planetas, do azul e do vermelho do céu, tenho a certeza, que é que queres? as minhas certezas andam entre o sonho que me faz avançar e a vontade de alcançar o sonho, porque eu sou uma sonhadora, uma tola romântica e crédula, porque sei ler mesmo quando soletro ou gaguejo, e ia apostar, mas para ganhar, que um dia, escreve, porque tu sabes escrever, quando menos se esperar, vou estar sentada do outro lado do dia, contigo ao lado, assistindo ao acto maior da natureza.
O universo rendendo-se. Amando para além de si, para além do mundo, do infinito e de todas as eternidades,
  num enlace eterno e repetido a cada dia, não importa o dia, não importa o lugar.
Tenho a certeza, vou assistir ao sonho se tornar realidade do amor vencer em todas as frentes, da paixão se perder e se encontrar e se recriar. 
Sento-me do outro lado do dia. Só para te esperar sentada.
Nem sempre os propósitos são pássaros que andam nos mares e apenas vêm a terra uma vez no ano.
Nem sempre o sul mora longe. 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

estou aqui


De repente, muito de repente, apeteceu-me falar-te.
Bem sei que estou quase afónica. E será que saberei como comunicar? Que palavras te escolher. P'ra dizer. 
Sinto já uma certa vergonha da ideia de me ouvir a falar-te. 
A voz que não tenho vai gaguejar,as palavras que costumo completar frases aos gagos, ou àqueles que têm dificuldade de expressão rápida ( como eu ), num vício feio de, não se faz, mas que na impaciência não aguento e aí vai disto, lá vou eu inoportunamente completar cada frase em dificuldade, de quem me fala, essas palavras não sairão e teimarão em me atraiçoar. 
Pensei bem, sim, porque de vez em quando eu penso em ti, enfim, até corei de vergonha porque, sim, estou a mentir e isso é feio para uma criatura da minha idade que faz tantos apelos à verdade, o que tu me obrigas a fazer, na verdade, penso muitas vezes em ti, o que me dá um prazer imenso que me ocupes os pensamentos. 
Fico sempre sem jeito se penso falar-te. Nem o tempo, nem a vida, nem as mágoas,nem a indiferença, nem a distância, nem o destino, nem tão pouco este encolher de ombros seguido de um, não te rales que eu também não, ajudam ao discurso. 
Os discursos são para os doutores. Tu és? Eu não. 
É que nem da mula russa consigo ser, nesta mania de armar em chica esperta e meter o nariz em todo o lado, dou de frente com o espelho e vejo as minhas limitações. Conheço os meus fracassos. Percebo os meus limites. 
Não há discurso que modifique este jeito de ser. Não gosto da minha voz. Não é bonita. Não é sexy, rouca e grave, como as vozes bonitas de mulher. Nem tenho uma dicção perfeita. Como a das locutoras. Falo alto. Esganiço-me. Há um sotaque qualquer se estou entre amigos da terra ou ao telefone, com amigos da terra, ou outros, um cantar qualquer que não chega a ser música para os teus ouvidos. E depois, quando falo, gargalho muito, E há quem não goste de risinhos e assim... 
Se me fanico, perco os graves. Tens de ver essa voz, maria clara, dizem-me os doutores da mula russa que encontro no meu caminho, que me saem ao caminho. E que parecem urubus sempre prontos para dar pelo mal mas indiferentes ao bem que também tenho como qualquer outro ser vivo. Já viste como falas? Como se a voz se visse. 
Ah como gostava de ter uma voz bonita! Só para te falar. Só para me ouvires.
Tenho a certeza de que se me ouvisses falar com uma voz daquelas que são das mais bonitas, nunca mais querias deixar de me ouvir e eu...bem, eu não estaria a escrever para que me lesses. 
Estaria a dizer poemas. Versos e mais versos daqueles que te dediquei todas as vezes que em ti pensei. E foram muitas. 
E são muitas. E serão muitas, porque eu não sou bruxa mas que as há, há e tudo indica que ainda vou continuar a ouvir falar de ti. Ou melhor, quer oiça quer não, ainda vou pensar-te muitas vezes. Exercitas a minha imaginação. Espevitas a minha inspiração. És a minha reacção e também a acção.     
De repente, muito de repente, quase sem que desse por isso, apeteceu-me falar-te, mas como estou afónica, resolvi escrever.
Só para te dizer, que estou aqui. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

os dias


Há dias estranhos. Como o de hoje. Dias que não passam.
Apesar de tanto se falar do tempo que corre sem parar.
Estranhos porque não cabemos neles.
Há terras onde os dias não passam. Terras nas quais não cabemos.
Dias e terras cheios de nada.
E nós a querermos ser gigantes. E  nós, pobres de nós, pequenas formigas…
Lembro uma pessoa próxima na minha existência profissional que me dizia ser eu e os meus filhos pessoas que não cabiam nesta terra. Que a terra, pequena, para gente como nós, não nos dava o mundo que precisávamos. Na época sentia uma certa vergonha dando crédito a essa presunção. Mas que provocava alguma instabilidade no meu conformismo aparente, provocava, e acabei tomando a única atitude possível para afirmações destas que foi, deixa-me cá perceber porque raio ela diz isto, sendo que não é para me bajular. E de pensamento em pensamento fui percebendo, sobretudo quando me remetia para Luanda, mundo meu já tão intensamente vivido e a viver de novo, sempre que depender de mim. No olhar posto sobre o horizonte infinito vendo-me nele, acreditando que sou capaz e que esse mundo também é para mim, para já não falar das crias. E intrigava-me como se fazia em mim essa leitura de alma curiosa, incoformada, insatisfeita, sôfrega. Como se encontravam as palavras mágicas de ser poucochinho o lugar onde me encontrava, com o que tudo isso implicava para o meu espírito  inquieto, sonhador e ansioso de ser um pouco mais que gente comum. Um pouquinho mais…
O suficiente para não ficar metida entre quatro paredes, entre montes e serras, navegar em rio de águas paradas, andar por caminhos de becos  sem saídas.
Há pensamentos e pretensões que nem ousamos pensar alto com receio de que até os surdos oiçam e nos façam a folha. E nos tirem o retrato, que nunca é o verdadeiro. E nos façam mal, o que em terras pequenas e opressoras significa carimbado para sempre com o sentimento ruim da inveja e da maledicência.
Hoje, o dia não passa. A terra faz-se presente mais que nunca e eu não sei como me sinto. Mas que me sinto, sinto. E não gosto deste sentir que ganha um certo jeito para o abatimento e queda na minha persistência e garra. Na minha gana para vencer.
É nestes dias que me vejo sem chão onde cair morta e desanimo.
Talvez amanhã o dia me acene.
Talvez amanhã haja alguém que me diga de novo que esta terra é pequena para o meu crescimento e que se fico nela rebento-lhe as costuras.
Talvez amanhã, seja diferente.
Talvez eu acredite…

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

o dia de hoje


Hoje é feriado. O último que havemos de comemorar, na boa vida. A igreja abriu mão.
Eu, que por acaso, ou não, tenho um carinho especial por esta data, não gostei dessas mãos largas da igreja, mas quem sou eu? Um número.
Senão vejamos. Bilhete de identidade. Contribuinte. Eleitor. Passaporte. ADSE. E por aí adiante…
O dia, triste, triste que eu sei lá, talvez porque já chora por saber da sua sina para o ano que vem, apresenta-se-me como um intervalo nestes dias de trabalho de Agosto que mais parecem castigo do que dever de trabalhador deste país baralhado, amuado e tramado, p’ra não dizer palavrão,  por uns e outros.
As férias dos outros dizem muito dos outros e de mim. Todos querem estender-se ao comprido e relaxar num qualquer lugar plástico ou não, e de preferência a esticar as vistas para o sonho( por vezes passa a pesadelo, mas isso…logo se vê ) que pode ser, uma caipirinha, já aí vem?, uma água de coco, também não me importava, ou para a boazuda que acabou de passar o bronzeador no corpo, isso já dispenso, não é por nada mas sou heterossexual, só por isso, apesar de estar daqui do sofá a imaginar a dita passando devagar o dito, e o vizinho ali da espreguiçadeira, debaixo dos seus óculos escuros num disfarce que a gente há muito que sabe que não é para resguardar os olhinhos mas para se resguardar duma cotovelada da parceira do lado, então o que vem a ser isto? Pergunta ela despeitada porque quem dera ter aquele corpinho de sereia, essas atrevidas vêm para aqui provocar os homens das outras, vê-se mesmo que é brasileira, ou africana, deviam correr com elas daqui p’ra fora é o que é, e tu seu parvalhão? Ainda olhas? É por essas e por outras que há tantos divórcios. Respeitinho, nem do teu filho tens respeito…Desavergonhadas!
As férias dos outros podem ser piores que as minhas mas se eles estão de férias, estão melhores que eu com certeza e eu fico assim a dar para o arreliado e como cão a roer ferro por não estar no lugar do outro. De forma que um feriado a meio da semana, naquele dia que faz a separação entre a tromba estendida, que nunca mais chega sexta-feira e o sorriso rasgado até às orelhas, já lá vem a sexta, já, já, iêeee, cai que nem ginjas, e é essa fruta boa, que convertida em licor, ainda é melhor e que faz logo lembrar lazer, viagens, férias, com passagem por Óbidos onde se bebe uma ginja de chorar por mais bebida e viagens que nos levam a sítios bestiais, repito, e é essa fruta boa que nos querem tirar. Aliás tiraram-nos já, pois que para o ano diz quem sabe que tarde piaste.
Na verdade é menos uma missa de feriado que têm de rezar os que abriram mão do dia santo.
Não sei, mas se calhar foi isso, afinal p’ra eles são todos, dias santos.
Lá está. A gente só pensa no nosso umbigo. Eu para o ano também não preciso desse feriado que curto himalaias e do qual tenho recordações bué da fixes. Vou reformar-me antes, espero. E vou bazar, bater com a porta, adeus e oxalá, vai ver se estou na esquina que a morte é certa, eu já trabalhei muito e quero os meus feriados de volta. Vai ser o contrário da frase, patrão fora dia santo na loja. Vai ser mais, patrão em casa e dia santo todo o santo dia…
Enquanto isso, olho para o dia de hoje e sinto pena dele. Escolheu chorar em vez de sorrir num sol radioso. Eu, que sou filha de Deus, vou fingir que não estou a ver, vou olhar mesmo por cima da burra, almoçar com a caçula e passar uma tarde bem boa, porque intervalos destes a meio da semana são preciosos e há que aproveitá-los. Não beberei caipirinhas, nem verei matulões passando bronzeador e exibindo músculos criados em ginásios, nem tão pouco o mar, mas uma massa espetacular me espera, o rio Almonda está aí a dizer que também é gente, quer dizer, também é lindo de ser  admirado pela gente e a caçula e o seu príncipe são as melhores companhias que eu podia ter a meio da semana em dia de descanso, no ribatejo.
Um bom dia para todos, de férias ou não. Que o passem como o desejarem. Eu não sou esquisita com a vida dos outros. Só com a minha e às vezes olhe lá…

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

chamaste-me? Eu ouvi...




Chego ao fim do dia e olho para trás. O dia terminou. E então? Eu sei que não vale a pena chorar pelo leite derramado. Eu sou pessoa para nem sequer gostar muito de leite. Sou mais de chás…
Mas este costume de me virar para ver o dia indo embora, me despedir mesmo se o quero ver pelas costas, não perco, ainda que tudo mude.
Mudem-se os tempos, mudem-se as terras, as pessoas, os sentidos e sentimentos. Mudem-se até as vontades, a ver se eu não olho para trás a ver o sol a se pôr e a noite a nascer?
A ver se as vozes que nascem com a noite são mesmo verdade?! Se materializam?!
A ver se a voz que ouvi a me chamar te pertence…
Em pé, que sentada me contorciono e parece que não vejo tão bem. Sentada serve mais para sonhar contigo, em ti, de ti e para ti.
Não fosse a minha cervical andar mal com tanta mudança, andança e desesperança e eu ia parecer que nem aquela artista do circo Mariano que me fazia olhar pasmada de admiração que nem pestanejavam os meus olhos vidrados em tanta beleza, saber e arte.
Que nem tu. É isso. Olho para trás e a tua voz, será que era mesmo a tua voz? Vou admitir que sim, quero admitir que sim, quero muito acreditar, depois de admitir, que sim, que era a tua voz a chamar por mim. Só pode ser. Voz bonita assim quem mais tem?
Chegou o fim do dia e olho para trás. Oiço a voz que parece que é a tua e sorrio. Fazes-me sempre sorrir. Pateticamente bem sei. Mas é um começo. Tudo tem um começo e eu não quero perder o fio à meada porque se eu sorri quando tu me chamaste, supostamente queres fazer-me rir. Não sei. Alguma coisa queres tu de mim…
Ou será que sabes que a minha cervical grita ais de desespero e raiva e quiseste testá-la? Não acredito que seja teste. Até porque nem sempre passo nos testes, nem sempre tenho nota 10. Sou normal e mortal e cometo até a insensatez de sonhar com a tua voz a me chamar.
Sonhei? Olha, já não sei se foi sonho a dormir de olhos mergulhando no sono ou se foi mesmo a olhar o dia finando, a noite chegando e tu me chamando.
O que sei é que te sonho, te oiço e te sorrio, seja na hora da mudança do dia, da noite ou de madrugada. O que sei é que tu mais que miragem, voz de vento soprando ou sinal luminoso, que me mantêm aqui, és  palavra  que te quero ler, escutar e falar e até sorrir. Chamaste-me? Eu ouvi…

segunda-feira, 23 de julho de 2012

quando vou para a gandaia...


Quando vou para a gandaia caminho assim, assim, assim…quando venho da gandaia, já venho assim, assim, assim…cantava gingando o corpo; ancas e bunda, como as moças mais velhas que passavam na frente da casa, a caminho da padaria e obrigatoriamente em frente à loja do sr. Marinho. No muro que dividia a loja da casa dos radiadores, o Júlio sentava-se e passava horas a fio na conversa com o empregado, adolescente como ele. O Júlio era o filho do sr. Marinho, colega de profissão do meu pai. Concorrentes, rivais, se fosse aqui nesta ervilha. Lá não. Chegava para todos. Eu que estava ali com tudo na loja, era cliente do sr. Marinho,da loja do Miguel, da loja do Alípio, da loja do Polícia na esquina com a Senado da Câmara e da loja do Careca, na Vila Alice. Corria-os todos. Cantando esta e outras músicas. Gastando as moedas de cinco tostões, dez angolares e no limite dois e quinhentos.
Estes  dois, Júlio e o ajudante do velho Marinho,  gostavam de implicar comigo e rir do meu jeito um pouco malcriado nas respostas e petulante nos gestos infantis de kanuca do colégio, ali mesmo ao lado dos radiadores e do lado da minha casa também. Todos vizinhos uns dos outros, afinal.
Eu era uma miúda morena, olhos grandes, magricela, pernas que pareciam canivetes, cabelo tipo beatriz costa, para consumição minha… e assunto arrumado, não falamos mais nisso que eu é que mando, dizia o sô santos quando insistia que não queria que  o amigo dele António barbeiro, se ia almoçar connosco ao domingo, me cortasse a franja pelo meio da testa que parecia uma besuga como a Fatinha, a Ana Maria e eu própria chamávamos quando as viamos  chegar das berças, todas branquelas, com as maçãs do rosto vermelhas, roupas de inverno e   sotaque estranho de palavras que não conheciamos. O que me safava era o meu jeito sotaqueado de muangolê, fruto de tudo e também do convívio intenso com  Sebastiana, filha da Alice e sobrinha da lavadeira Lucrécia. Na verdade, era prima, porque a Lucrécia é que era sobrinha da Alice, mas era mais velha e a Sebastina chamava-lhe de tia.
Tinha resposta pronta na ponta da língua e não me custava nada xingar de, filho da caixa, da polícia, vai para a tuge ou pior um pouco, acompanhado de aviões nas duas mãos. Ninguém me metia medo. Só sô Santos quando me arregalava os olhos e crescia p’ra mim na base da ameaça do cinto, parecia o mundo ia terminar ali na ponta do seu cinto. Aí sim, eu ficava pequenininha que nem formiga em dia de descanso. Depois voltava a crescer porque vergonha não tinha nenhuma e ia no meu caminho, pés descalços ou em chinelos de meter no dedo, saia plissada, oferta do tio Augusto, brincar para a frente do colégio e cantar, quando vou para a gandaia caminho assim, assim, assim…numa coreografia de provocar inveja a qualquer uma. E o Júlio ria, ria, no alto dos seus tenros anos de adolescente desengonçado, queixo de rebeca, pele pálida e olhos de gato, calções com suspensórios e sandálias de pneu. Onde vais Clarita? Eu parava de gingar, de cantar, olhava-o e respondia: vou buscar á diána ná pádária, e voltava a cantar toda peneirenta, mexendo e remexendo as ancas, quando vou para a gandaia caminho assim, assim, assim…
Esta estória já contei tantas vezes que parece não há ninguém que não a saiba. O Júlio ficou colado a esta lembrança para sempre, Deus o tenha. Já partiu. Do Satão para a eternidade. Quem me disse foi um ex-namorado, meu, não dele, grande amigo que foi depois, vejam só se eu algum dia ia imaginar, o Júlio, amigo do…ups, não vou dizer o nome porque meio mundo o conhece e ia ficar constrangedor, não p’ra mim, mas, sei lá, as criaturas ao longo da vida vão mudando e vamos que não queria que se soubesse que fui a “ miúda “ dele (? ) quando era unha com carne do Júlio e até foi este que lhe disse que eu era filha do sô Santos da loja, onde é que eu morava e até que me carregou no colo quando eu era candengue. Mania essa de todos os kambas de infância mais velhos, dizerem que me pegaram no colo, só porque me viram fazer aviões com os dedos, xingar aqueles que me provocavam ou cantar e gingar numa coreografia só minha, eu que inventei, quando vou para a gandaia caminho assim, assim, assim…  acho que este gostava de dizer isso no outro, para provocar, assim como os candengues fazem - Uôooooooo, eu  peguei, tu não!
Há uns anos atrás, por acaso, ou não, encontrei uma colega do liceu, a Lourdes Jerónimo, em Fátima. Vejam só! Naquele dia de Setembro em que os Retornados e suas famílias que já nem são, se juntam para lembrar os velhos tempos. A Lourdes que morava na Caop, ali perto do colégio da rua principal que vai para S. Paulo e antes de chegar aos Combatentes, não sei se o nome dele era  Santa Maria Goreti ou Santa Teresinha, havia dois nessa rua, a Lourdes, que foi minha colega no 1º A, acabadas de fazer 10 anos, morava mais perto da avenida brasil que dos Combatentes e nunca soube que era amiga do Júlio e sua família. Vim saber disso ali, naquele domingo de Setembro, quando me disse que estava num grupo de gente conhecida. E eis que de repente, fico na frente do Júlio. Desde 75 que nunca mais o vi. Já tinha mulher e filhos crescidos. Os meus eram pequenos ainda. Afinal não foi por acaso que pegou em mim ao colo. Era mais velho…
Nunca mais fui a esses encontros. Naquele ano aconteceu por acaso. Não era fã. Encontravam-se sempre os mesmos, no mesmo lugar, como guetos criados para se tornarem mais fortes. E o grupo de milhares de pessoas com o mesmo propósito, recordar Angola, matar saudades, reencontrar pessoas, subdividiu-se em células pequenas e fechadas. E eu não gostava de ir. Não pertencia a grupo nenhum. A minha turma estava lá na banda. Os meus amigos ficaram lá. Os que estavam cá também não iam. Mas nesse ano que encontrei a Lourdes e o Júlio, encontrei  o padre Luís, meu confessor, na igreja de s. Paulo, a pessoa que me deu catequese e contou a estória do Pinóquio. E santinhos com a oração respetiva e senti-me abençoada por Deus, tal a alegria. Até me apeteceu cantar, quando vou para a gandaia caminho assim, assim, assim…
Sou pessoa para gostar da gandaia. E a pensar nisto é que hoje senti falta do meu chão, minha avenida, meu porto seguro, minhas pessoas, minha canção…quando vou para a gandaia…caminho assim…assim… assim…
Desse tempo ficou-me a canção e dentro dela, emoções e profundos sentires.
- Onde vais Clarita?
- Vou buscar á Diáana ná pádária …quando vou para a gandaia, caminho assim, assim assim… 

domingo, 15 de julho de 2012

É domingo


É domingo. Acordei cedo. Será que vai ficar sol o dia inteiro? Aka! Está muito calor. Vou tomar banho d’água fria.  Descobri um sabonete que cheira bem e deixa um perfume kuioso na pele.
Gosto de tomar banho, à noite, no cacimbo. E entrar na cama a cheirar bem. Sim porque agora mesmo que me banhe a toda a hora, estou a limpar-me e já estou com as costas e  a nuca, a escorrer suor dessa humidade do ar. Mas se não fossem os banhos ia ser como? Desde que descobri esse sabonete que ainda é mais kuioso tomar banho, e ficar, ficar no chuveiro a sentir a água a levar a espuma que o sabonete novo faz. O nome dele é Musgo. O papel é verde. É só meu. Ponho na saboneteira, tiro da saboneteira. Arrumo no meu quarto. Não gosto de dividir, nem sabonete, nem desodorizante, nem perfume. O pai usa Lifeboy mas eu não sou fã do sabonete encarnado. Cheira a desinfetante. Também não gosto do perfume da mãe. Bien-être. Todas as mulheres que conheço cheiram a bien-être ou lavanda. Cheira só a lavado e a primavera. Sei lá o que é primavera. Quando andava no colégio tive de adivinhar. Para fazer as redações. Eu era barra nas redações. A que mais gostava era sobre a família, o cão,  a praia, e D. Dinis. Vai-se lá saber porquê.  Tinha-as na ponta da língua. Recebia sempre Muito Bom ou Excelente, a caneta vermelha. As estações do ano também me mereciam uma nota boa. Aprendi que a primavera  é quando acaba o inverno. Diz que chove, faz frio, cai neve, até já vi nos postais de Natal que chegam de Paris, que a tia Olívia manda ao avô e inclui votos para toda a família. Até que deve ser bué da bom. Bué fino, três chique, ir ver a neve à Serra da Estrela e fazer ski como essas senhoras  todas estilosas, a Fatinha diz que são da alta sociedade. Nunca percebi muito bem o que isso é. Sociedade fazia eu quando andava no colégio. Metade do pão com fiambre para mim, metade para a Lourdes e ela ficava com metade de pão com margarina vaqueiro e dava-me a outra metade. Isso sim é que era uma sociedade. A mãe dizia que eu ficava a perder. Se o teu pai sabe, Maria Clara…Também o avô fez uma, mas o sócio enganou-o e desfizeram a dita sociedade, e as casas geminadas que construíram foram divididas; o avô ficou com a dele e o sócio teve que vender a sua. Aqui se calhar o avô ficou a ganhar.  
Mas a Fatinha diz que, por exemplo, a madrinha de casamento do pai sô Santos, a  Mimi Rodrigues, filha do ex-patrão, aquela que usa lenço na cabeça apertado no queixo quando passa na avenida no seu triunph spitfire descapotável, para ir dá aulas de inglês, essa é da alta sociedade. Não sei. O que eu sei é que gostava de viajar para uma terra que tivesse inverno e neve e tudo. Andar de casaco comprido e botas até ao joelho. Aqui ,só a São do Necas caçador é que usa botas, mas é para a banga. Botas brancas. A São é bonita e sabe. E os homens sabem também porque quando ela passa a mexer as ancas na sua bota branca, mexe com todos, até com  as mulheres da idade dela que parecem umas velhas abanam a cabeça e … nome do pai do filho, do espírito santo, olha só p´ra ela, julga que está num cabaré ou quê? E de boca pequena dizem – é uma rosqueira. Eu olho e penso que um dia vou ter umas botas brancas…não sei se vou ser assim como a São, mas um dia, podem-me excomungar que eu não quero saber, já não quero mesmo, quando vão queixar ao pai que tenho as unhas pintadas de cor de rosa, vejam só, cor de rosa ainda se fosse encarnado.
Até que deve ser bué da bom vestir casaco comprido. Dá-nos importância. Então se for como os modelos da Burda, onde a D.  Batista se inspira para fazer os vestidos às clientes! A D. Batista é a modista que ajuda a vestir o mulherio da Vila Alice. Quer dizer, as mulheres e raparigas da Vila Alice que  conheço e que vão à da loja do pai. Aposto que essas modelos do Burda que vestem casacos compridos, usam botas altas e não usam nem Bien-être nem Lavanda. Aposto que usam os perfumes dos frascos de vidro da drogaria do Rabeca ou daquela ao lado da Paladium, nos Combatentes. Onde eu vou com um frasco vazio de…bien-être, lá tem de ser, para encher uma medida ou duas daquele perfume que fica quando nós passamos, como as botas brancas da São ou as suas ancas a mexerem. Gosto de cheirar dentro daqueles frascos enormes, com rolhas de vidro enormes também. Disseram-me que era perfume de velha. Se é de velha, não sei. Cheira bem. Comecei a comprar esses perfumes com as minhas vizinhas. Elas percebem até das marcas. Tem Chanel 1,2,sei lá mais quantos, tem muitos, mas o que eu gosto mesmo é de Marlene. Dá-me uma importância! Lembro-me da madrinha do sô Santos, da D. Zita e da dona Dina, da ex-namorada, ex-mulher do primo Fernando, a Emília, Emilinha para nós, que usava saia travada acima do joelho e tinha umas unhas enormes e vermelhonas e as mulheres da rua diziam que fumava e tudo. Quando eu for da idade dela também quero ser assim. O primo Fernando teve sorte, teve uma namorada bonita e fina. Da alta sociedade. Será? Tenho dúvidas quanto a esse título.
Está calor. É domingo e o pai ontem à tarde disse que íamos passar o dia à praia. A mãe acordou cedo para fazer o arroz de frango que vai embrulhar em jornal para estar quente quando chegarmos. Depois do banho da manhã. Matou um cabrito e foi assá-lo no forno da padaria Independente. Gosto do pormenor dos raminhos de salsa em cima das batatas. E sentir o cheiro do assado. O nosso tabuleiro é o maior. O pai é o único homem que está a tomar conta dos assados. Bom dia sô Santos. O que é que fez hoje? Ah vai para a praia!
 A mãe nunca vai ara a padaria. É flor de estufa. Em casa, fazendo o seu papel. Sô Santos gosta de mandar, de orientar, de decidir e de fazer também. Bom cozinheiro que eu sei lá. Eu não sei senão estrelar ovos e fazer pastelões com salsa e chouriço. A mãe bem que me quer ensinar a fazer sopa. Sopa? Eu nem gosto de sopa, aprender porquê?
Acompanho sempre o pai nas idas à padaria. Gosto do cheiro da farinha e dos assados. Há quem faça bolos secos e ponha no forno da padaria, aproveitando. A pá que leva e trás os tabuleiros é maior que eu. Duas ou três de mim. O padeiro, que usa uma boina na cabeça e um fato de balalaica e calções e calça sandálias de pneu, escorre em suor. Não cheira a catinga. Cheira a farinha.
Estou nervosa. O avô mandou dinheiro no Natal e eu fui à baixa comprar um fato de banho. Quer dizer, um biquini. Todas as minhas colegas do liceu e amigas usam. Está na moda. Experimentei vários do Espelho da Moda; escolhi a cor e o tamanho e paguei com o meu dinheiro. Encarreguei a mãe de lhe dizer que  ia vestir um biquini como as filhas dos amigos dele. Ela disse-me que ele não ia gostar. As filhas dos amigos são as filhas dos amigos e ele não manda nelas. Que pouca vergonha Maria Clara, vais ver que ele vai dizer-te que se o vestes levas com o cavalo marinho. E não há praia para ninguém. Não queres isso pois não? Não, não quero levar com o cavalo marinho, mas se isso fizer com que eu vista o biquini…seja.
O cabrito está pronto. O arroz de frango embrulhado e as postas de bacalhau albardadas. Para que é tanta comida? Eu até comia só batatas fritas com frango e salsichas. Até a câmara d’ar para nadarmos, já está na varanda. As mantas também.
O primo Fernando buzina lá fora. No seu Ford Taunus amarelo e preto. Grande estrilo. Quando vamos os dois passear para a Ilha, as garinas olham e pedem boleia. Depois vêm-me e encolhem os dedos rindo envergonhadas. Eu sou uma espécie de irmã candengue do primo Fernando. Ele deixa-me fumar e até me dá cigarros. E põe o Nelson Ned a tocar , o que é que você vai fazer domingo à tarde O primo Fernando é daqueles que fazem parte do grupo que diz que pegaram em mim ao colo, mas só têm mais 10,.12 anos que eu.
Chegou a hora da mãe dizer ao pai que tenho fato de banho novo. Parece estou a ouvi-la já:
Ó Santos, a mãe nunca tratou o pai pelo nome próprio, também, só o nome que a mãe dele, a avó Clara lhe colocou – Leopoldino. Coitado do pai. Nome feio, é esse! A mãe não deve gostar porque sempre ouvi dizer – Ó Santos…Ó filho… Leopoldino nunca.
Ó Santos, a miúda comprou um fato de banho com o dinheiro que o meu pai lhe deu no Natal e quer vesti-lo hoje.
Parece que a estou a ouvir. Ó Santos…
Então que o vista, respondeu ele. Parece mesmo que o estou a ouvir.
Mas olha que é dos modernos. Daqueles que lhe chamam biquinis.
Pronto. Estava dito. Coitada da mãe…
É domingo. Está calor. Vamos para a praia. Como sempre, o meu fato de banho azul e branco, pareço filha de marujo. Só me falta fazer a continência.
Faço sim, asneiras com os dedos, ensaio desaforos, deito lume pelos olhos, estico o lábio num beiço bué da grande e remeto-me ao silêncio absoluto. Deitei umas lágrimas rosto abaixo, quando o primo Fernando me perguntou: Então, vais estrear o biquini ou não? Nãaaaaaaaaao. Ele ri-se. As amigas dele que vão ter connosco à praia usam biquini bué decotado e atrevido e fumam e tudo.
Queria fuzilar esse sô Santos, bem feito que lhe puseram um nome tão feio, Leopoldino, pzxxx. Um dia vou-me vingar. Juro que quando eu mandar ele vai ter de me gramar de biquini e a fumar. Juro sangue de Cristo!
Agora quero mesmo é chegar à praia. Olhar as ondas.
Atirar-me nelas e ser feliz.

sábado, 7 de julho de 2012

fuguei na escola

Nunca " fuguei na escola ". Perdão. Nunca o quê?
Uma vez. Única e inesquecível vez quando tinha 18anos. No ano escolar de 73/74. Como é que eu estava a esquecer-me disso? 
Chegou Abril. Chegou a mudança. O liceu deixou de proibir a saída dos alunos nas borlas. As varandas que davam para o largo da estrada de catete, bombeiros e hospital militar paaram a dar-nos mundo sem quadradinhos e deixavam-nos respirar liberdade. As escadas centrais já não serviam apenas professoras e contínuas. As matinés ao sábado à tarde intensificavam-se permitindo que os rapazes fossem assistir a mais um filme junto das amadas, das futuras ou das ex. ou acompanhar amigas e irmãs, primas e engates. 
Então, se era mais democrático, foi para e por quê que " fuguei na escola "? 
Por causa dele. Sim, ele foi o grande responsável. Ele, o amor que se apoderara de mim e me roubava assim o coração. Ela a paixão cegueta que nem caixa d'óculos, que ainda não era, fazia ver. Mas se fosse só esse açambarcamento do descompassado músculo... 
Pior que isso foi a manipulação da razão, essa maluca que se julga sempre intocável e superior, olhando por cima do ombro e pelo rabo do olho para os pobres apanhados pelo clima da paixão dos verdes anos. A razão que foi apanhada nas curvas dum caminho onde soprava uma brisa fogosa e quente e precisava se refrescar nas águas da praia do Dongo, ali mesmo paredes meias com o Kussunguila, ou quem sabe, se aquecer no sol da tarde longa dum maio ameno já a querer entregar-se ao cacimbo que não tardava nada e ia avançando e tomando posse das areias da praia, das canoas, das gaivotas, dos pescadores, dos coqueiros e palmeiras, do farol, das manhãs e dos crepúsculos. Dos apaixonados...Queria rectificar um pormenor que me atrofia se não o fizer. Se calhar não houve culpado. Culpados. Para ter " fugado na escola " .
Que é que é isso? Depois de ter rugas é que me dá para me isentar de responsabilidades e imputar as mesmas aos outros, mesmo se são o amor e quem o provoca? O sujeito, não sei se estão a ver na gramática. Das aulas de português.
Aqui e agora assumo que não. Não foram culpados Eu fui totalmente culpada nessa estória de me baldar do liceu feminino, ( onde o meu kota pagava as propinas a tempos e horas ), uma tarde inteira de aulas de quarta-feira, que deixou de ser ( feminino ) porque já havia uns meninos meio pálidos, pudera, com tanta garina histérica passando em frente da sala do rés-do-chão no caminho para a cerca para participar nos campeonatos de ringue ou apenas ficar a olhar a sua equipa a ganhar. Tinha um que era loiro e alto e lindo de morrer. Bom como o milho. Eu que nem gostava de loiros, também achava. 
À quarta-feira não havia aulas no primeiro tempo. Na minha turma evidentemente. Do mal o menos. Não perderia tantas aulas como nos restantes dias da semana, inclusive ao sábado se os escolhesse. 
E ai vou eu ter a minha primeira experiência como fugueira. Do liceu até à mutamba, foi um ápice. Outro até à Ilha. À praia. Ficar na praia, biquini roxo, decotado, bronzeador a cheirar a coco e coca-cola, toalha florida estendida, ficar na praia, repito, quando não nos deram férias é estranho e tem sabor a proibido, pecado, contravenção. Sem arrependimentos nem constrangimentos de justificação de faltas, pois com as mudanças também as justificações escapavam à atenção do pai, sim porque a mãe era notificada deste delito e nem por isso o proibia. O amor justifica tudo não é minha querida e saudosa mãe?
Era no tempo do Liceu Feminino. No tempo de mudança. Na década de 70. No outro século....
Era no tempo da paixão e do amor e dos dois...e nunca me arrependi de ter fugado na escola.
Porque raio tenho eu presente esse tempo, esse mar, essa praia, essa areia, fim de tarde, o amor se manifestando sem truques nem cartas fora do baralho, logo hoje?
Estou de férias. O coração desgovernado neste verão agressivo não se deixa impressionar nem castrar pela mente. As memórias, não se deixam filtrar. Nem jogar fora. 
Por falar em jogar, baralhei, parti e acabei a dar cartas num tempo que era de mudança. 
De tal forma que ainda se fazem presentes as lembranças daquela tarde em que " fuguei na escola ".

terça-feira, 12 de junho de 2012

ousadia




Depois de um interregno, onde me perdi na tolice de desejar voltar a ser adolescente, recuperando inesquecíveis e  loucos tempos, me dando ao desfrute de sonhar num coma que parece não ia acordar mais, aqui estou eu ressuscitada, que tal como a paixão que não pode durar uma vida pois é doloroso demais esse estado físico que sufoca a alma e parece a vai engolir, ser adolescente é tarefa quase impossível porque já não caibo na minha pele, nem sei jogar o jogo pois as cartas foram baralhadas, foram partidas e deitadas e eu acordei do sonho mas percebi que não sei jogar. Entro para ganhar e saio no prejuízo de ser derrotada. Sempre...

Que me sobra? As sobras dum tempo farto. De derrotas para avaliar. E contar. E outras cartas para baralhar. Voltar ao jogo do toca e fica, toca e foge, ora agora jogas tu, ora agora jogo eu,  num dueto que apostava, para ganhar, quem sabe?!  seria um dueto imparável e impagável nos tempos presentes, sem passado e sem futuro. Até me vou sentar só para recuperar melhor esta alma que acordou mole e ingénua, igual à outra, pronta para a vida, na suspeita de te saber aí desse lado. Como se não soubesses nada. Como se não percebesses nada. Como se não existíssemos.Quanto tempo já? Não vou quantificar. Porque não quer dizer nada. Tem segundos que valem  uma eternidade e tem eternidades que apagamos num segundo assim como a onda apaga o teu nome que escrevo na praia, numa ousadia que me desconheço e desminto se disserem que tenho. Quanto tempo já? Não interessa. Parece pouco porque é um tempo bom mas ia jurar que é de sempre. E sinto saudades, mesmo quando me faço umas férias que ainda bem passaram depressa porque juro, não sei viver na eternidade, não sei sonhar na eternidade porque já lhe sonhei tudo. Já não sei ficar na eternidade, porque gosto mesmo é de ficar sentada a olhar horizontes onde te desenhas numa beleza que é de dentro. Afinal o que eu gosto mesmo é de sentir este vício de ti. Esta pretensão de escrever para ti. Depois de um interregno, voltei a sentir o perfume das rosas. E voltei a ver o voo rasante do albatroz. E a alegria das borboletas. E o sol brincando com o mar no fim da tarde. E  a cor da paz. 

Voltei às entrelinhas desta vida, presente dos céus.
Voltei a escrever só para ti. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

até Deus quiser...

Ao som de " deus "  - Nothing really ends -  despeço-me. Não podia escolher melhor som para te deixar partir. Para me deixar ficar virando a página. Escrevendo o xis no calendário. Fazendo o luto. De novo. E mais uma vez...
Quando oiço esta melodia transformo-me numa outra pessoa. Muito melhor. Repleta de magia. Como era aquele tempo. Como mágicos eram nós aprendendo o amor. Como mágico era o pôr do sol na contra-costa declarando-se para o Mussulo. Como mágicos eram todos os momentos que vivemos então.

Quando oiço esta melodia, transformo-me naquela menina acabada de despertar. De cabelos longos, pele morena, lábios vermelhos, nariz arrebitado, calças boca de sino e blusa mil flores a condizer. E de cigarro nos dedos. Transformo-me naquela jovem mulher de olhar profundo, tocando tudo o que admirava com o cuidado de quem toca a porcelana. E vê através dela.  Que via a vida como se olha um diamante. Com  respeito, prazer e cobiça. Sonhando com o que estava ali ao dobrar da esquina, à mão de semear. Esperando os sonhos concretizar. Esses sonhos candengues e tão fáceis de atingir...enganada que estava na sua louca inocência de um mundo por descobrir. E nem sempre melhor. Nunca melhor. 
Ao som desta canção de hoje, sim, porque podia escolher outra, aquela que dizia que... às vezes chegam cartas com sabor a lágrimas com sabor amargo, de Júlio Iglésias, ou a Katie Melua em If you were a sailboat... em noite de lua cheia, ao som de " deus " nesta nova melodia é mais fácil despedir-me, porque nunca saberás se choro por mais uma das muitas vezes te perder de vista ou se  emocionada pela voz que canta; ai  a Voz, sempre a Voz, a comandar as minhas prioridades e emoções, a voz sempre a sussurrar-me ao ouvido que é tal como os olhos que nos olham nos olhos, o espelho da alma,. E eu a acreditar nas almas, que por vezes são gémeas, só não se encontram para sempre, apenas numa curva do caminho, numa esquina fugaz, num momento escolhido pelo universo, como que num prémio de consolação de um jogo de azar que jogo com o coração, vai-se lá saber porquê, pois que nunca vi o livro da escrituras de  Deus, aquele onde as linhas da nossa mão foram decalcadas e parece está lá o nosso destino. O destino das nossas almas. Os jogos. As uniões. Os encontros e os fins.
Despeço-me hoje ouvindo esta canção perfeita para este momento solene, que me desperta o espírito, a pele e a mente. Parece que estou só e de novo a jogar com as palavras, dançando-as na frente do meu passado, ecoando no meu presente, contrariando-me os sonhos e desafiando-me as memórias, mas é muito mais que isso. 
Com requinte de malvadez, que nunca soube ter, escolhi o lenço branco da pureza com que aceno àquele tempo  e hoje, neste tempo que já virou passado, digo, basta, te mando beijos e abraços e kandandus do tamanho deste sentir! E te digo adeus como se fosses comprar cigarros ao bar da esquina lá do bairro. 
Adeus que quer dizer até breve, até já ou até qualquer dia com um pouco de sorte e algum querer. Adeus num parece, mas não é. Nunca foi. Aquele adeus de falinhas mansas com que se enganam os tolos e se empatam as vidas.
Despeço-me dizendo então, basta. Adeus. Digo-o p'ra dentro de mim, para as quatro paredes. Para os quatro cantos do mundo. Basta para o mapa que me inquieta. Basta de dias que não vivi. De lágrimas que chorei. Por mim e por ti. 

Hoje é o dia certo para mais uma vez escrever fim, neste intervalo de tempo que tanto pode ser eterno como para sempre. Declaro-me em luto. 
Até quando? Enquanto deus cantar. Até Deus quiser. E eu...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

fazer mais como, então?



Deixei-me ficar por casa em dia de feriado que não será mais comemorado com o descanso a que nos habituamos todos estes anos. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Não me apetece discordar desta decisão, não me apetece falar do estado da nação e das asneiras feitas por uns e por outros no passado e no presente. Estou cansada de os ouvir. Estou cansada de sentir na pele o efeito da crise de um país que afinal não é o meu. Na verdade, nunca foi ainda que o tivesse sido, para todos os efeitos da minha criação. 
Apeteceu-me ficar aqui, isolada de gente física. Apenas o computador, a televisão e a Pitanga. Eu, mais eu e outra vez eu. Confesso que achei a ideia interessante. O dia todo fazendo pouco mais que nada. O dia todo para pôr os dias em ordem. Baralhar e tornar a dar. 
Acontecem coisas na vida que queria perceber. Acontecem-me coisas que queria muito entender. A última semana foi cheia de coisas a acontecerem e não porque eu tivesse feito muito por isso. Pode ter sido de Vénus, que passou perto da terra. Ou não. 
Há portas para fechar. Bater e fechar. Para sempre. Mas para sempre é tanto tempo que me angustia remeter para esse lugar do tempo, sentimentos, emoções, vivências, para assim voltar a nascer. Ou ver brotar de mim outros sentimentos, outras emoções, outras vivências. 
Passo metade da minha vida a fazer perguntas. Outra, a responder a elas. E eis que assim, num estalar de dedos, chega um dia, e não sei perguntar nem sei responder e volto à estaca zero, o que com a minha idade e a minha vida não é de todo bom. Pergunto-me então se preciso reconstruir-me. Se preciso aprender o bê à bá das emoções e das razões e avançar pela vida calmamente. Pergunto-me então porque vivo nesta inquietação de não poder escolher o que é bom para mim. De não me sentir liberta do passado. De não me sentir feliz por ser o que construí. 
Sinto-me numa ponte. Sinto-me muitas vezes na ponte. Dois caminhos. Conhecido ou que adivinho. Já vivido. Escolho o quê? Ficar no presente, no meio da ponte. Se calhar é a única escolha da qual conheço os efeitos. Se calhar mereço estar em cima da ponte...
O almoço de sábado passado, no regresso ao passado e à Vila Alice, é responsável por toda esta inquietação, alguma tristeza e muitas certezas. E duma coisa eu não preciso ter peneiras. Nunca serei indiferente à Vila Alice e ao que ali vivi. 
Ocorre-me uma frase batida - é um problema que tamos com ele mesmo. Fazer mais como, então?

domingo, 27 de maio de 2012

poente

Há na melancolia do poente, um domingo menos.
Voltar a casa devia ser, voltar ao chão. Ao lugar da paz. Ao ninho. 

Aonde a alma abraça a noite cantando  hinos de alegria. E acena à lua, sonhadora.
Onde moro? Onde habita a minha crença? Onde se instalou o espírito inquieto?
Que foi feito da minha esperança?
Perco o norte.  Há muito perdi o sul. 

Não encontro a rosa dos ventos. 
Nem a brisa que me beijaria beijos de união de sol e mar.
Há na melancolia do poente a partida dum pedaço de mim. 

Quebra-se a asa da borboleta. 
Desfolha-se a rosa do jardim.
Desce o gato do telhado.
Há um sonho roubado.
Não sorrio p'ra ninguém e n
inguém sabe de mim.
Há na melancolia do poente um acrescento de fim.

isto digo eu...


Em tempo morto, de viagem, a caminho do Ribatejo, dei comigo a pensar na minha idade e nas suas vantagens e desvantagens. E cheguei a uma estranha e hilariante conclusão. 
Se tivéssemos sete vidas, neste momento eu estaria numa linda idade.

Com mais paciência, tranquilidade, desprendimento e sabedoria para viver as outras seis...

sábado, 26 de maio de 2012

nossa senhora...


Nossa Senhora da Conceição, faça sol chuva não.
Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...
Parece é uma música de embalar. Parece mais que prece, é uma lenga-lenga do povo mais inocente e candengue também. Desse que numa hora a mãe acabou de dar à luz e deixou a fralda pouco tempo atrás, noutra hora já está solto no mundo, pé descalço, por conta própria, brincando de saltar à corda, de jogar às escondidas, de andar de xica,  ou de descansar da brincadeira e ir pankar jinguba com pão quente no patim da casa da vizinha enquanto a mais velha, mãe de todos, minha madrinha, conta estórias da nossa terra e das terras distantes que lhes vimos na aprendizagem das linhas férreas e dos rios, dos montes e serras e nas caixas e latas  que atravessam o mar, para virem na loja do sô Santos, naqueles barcos grandes, que vamos esperar no porto quando vem do puto mais um familiar. Sempre há alguém que chega no Príncipe Perfeito, ou no Niassa que abraça o avô, o pai, a mãe. E traz chouriço, presunto, salpicão, queijo, tudo caseiro.  Às vezes traz também chocolate dos grandes que compra a bordo.
Essa aprendizagem que lhe meti à força na memória como música de tabuada, ensinada pela  menina Piedade, que parece é sargento e nos põe a bater a pala, numa continência que ninguém questiona mais; como é que vão questionar a mais velha? Eu muito menos, apesar de estar sempre a falar e a perguntar coisas. Eu? Não,  que sei das conversas chegadas dela com o meu pai e a minha mãe. Essa aprendizagem que nos faz dizer de cor e salteado, esses rios, essas serras, essas estações de comboio, pouca terra, pouca terra, numa passada que parece é morna de cabo verde... 
Não sei para quê a gente aprende isso tudo. Acho nunca vou andar de comboio mesmo, nem vou conhecer essas serras, esses rios, essas terras. O pai diz que não vamos morar lá nunca. Aqui é a terra dele.  Ainda bem. Não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos. As cores garridas das quitandeiras e  os cheiros. Aiuê o  cheiro da terra molhada, do pão da padaria e de maboque aberto na beira da estrada. Da castanha de caju e bombô a assar. O cheiro da gajaja, da gajajaeira em frente. 
O céu da minha rua é mais azul. As estrelas da minha rua são mais brilhantes. As casas da minha rua parecem a minha casa. Todas elas. As pessoas da minha rua, são o meu povo. Aiuê, aiuê, não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos.
E lhe gosto bué.
Me lembrei que há meninas que eu conheço e sou kamba, que andam de comboio. A Susete todo o dia vem da Boavista até ao porto, na estação do Bungo, pouca terra, pouca terra, curicutelêeeeee.  Depois, apanha o maximbombo para a escola. Esse é outro como o comboio, que não lhe ando. Apesar que eles param mesmo em frente na minha casa ali  ao lado dos Bastos. Tem uma paragem  lá. Em frente da cubata da velha Mariquinhas, que lhe temos medo mas não lhe temos vergonha e lhe chamamos de velha mariquinhas deste lado da rua, e preparamos a fuga se ela corre atrás, e lhe tentamos cegar de lhe pôr a cabeça com calundu, com os espelhos, caté  deve ficar de boca para nuca que nunca viu mesmo essas coisas. Essa velha Mariquinhas parece que não, mas sabe bué, dizem mesmo que foi escrava. Ela se gaba, lá na loja do sô Santos quando vai comprar petróleo para a candeeiro, na hora que fica tudo escuro na cubata, caté se ouvem os grilos a cantar, que mete medo no escuro. Todos os mais velhos lhe respeitam e não desdizem a ideia dela. Menos os meninos que correm a sua atrás lhe gritando de velha Mariquinhas até que ela dá berrida neles. Eu não, porque ela me vai entregar no sô Santos e vou ver o cavalo marinho passar de detrás da porta onde está pendurado para as mãos dele. 
Na paragem do maximbas que fica em frente da casa da Velha Mariquinhas fica toda a hora, mas mais na hora da saída da escola dos miúdos e do trabalho dos mais velhos um mundo de gente  esperando o 16 para esse bairro novo que lhe chamam Terra Nova. E tem também outro mais longe que lhe chamam Cazenga. Nunca que fui lá. Nem de maximbombo, nem a pé, nem de carro. É nos confins da avenida. Nunca que passei do hospital. Nunca que passei dos eucaliptos  que eu avisto daqui, e ficam em frente do hospital de São Paulo onde costumo ir quando espeto prego no pé ou caco de vidro. Ali fica também a casa do cajueiro, onde dizem de boca pequena que  está lá o Simão Toco e se juntam muitos africanos a fazer não sei o quê que eu não percebo nada dessas conversas que falam.  Tenho medo dessas estórias que me contam de simão toco. Dá um frio na espinha porque parece é segredo que nunca que vamos poder contar nos outros e eu não gosto nada de segredos que ficam a me encher a memória e a saltar na ponta da língua mas não posso falar porque juro sangue de cristo que vou morrer com ele, o segredo. 
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não...
Chuva quando cai, até magoa os sonhos dos nenés que brincam na rua em frente da casa. Nos passeios das lojas, no recreio da escola ou no átrio da igreja. Já me apanhou na brincadeira de, minha mãe dá licença quantos passos, a jogar à semalha, ao berlinde, esse então, não acaba com o sonho, destroi sem dó nem piedade os buracos onde caem  as bilhas, aquelas esferas dos rolamentos dos irmãos mais velhos que ficam a inventar corridas de trotinetes para fazerem estilo, nos passeios das lojas, nas descidas, p' ra depois gritarem para as meninas que são campeões e para virarem os mais bangosos lá do bairro.
Chuva quando cai até que é gostosa. Mas depois... olha a surra que sabemos que vão-nos dar...
Primeiro saltamos  de alegria porque é banho de roupa molhada a colar no corpo, e cabelo escorrido. Chapinhar na água, com os pés nus. Depois a terra fica barrenta  parece é de propósito para sujar nossa roupa. Nos molhamos até no tutano. Quando chegamos em casa não vale a pena entrar no pé ante pé que mãe que é mãe já chamou, já procurou, até já xingou e ficou parece é caçadora de animal selvagem, nos esperando. Só o susto quando ela diz: maria claaaaaaaara!
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não! O sol vem mais amarelo depois. Brilhante parece é lua cheia. Seca as poças que nos vão molhar quando carro passa. Mas se for na cacimba, aiuê, a cacimba fica bonita quando chove, parece é mar a chegar na minha rua, até dá vontade de mergulhar nela. Mas eu,  não. Levava uma surra daquelas, se é que sobrevivia. Eu não sei nadar. E dizem que lá tem sereia que canta de madrugada. E fica só a espreitar os que vão de abuso nas águas que lhe pertencem. Ainda me apanhava e me arrastava pelos cabelos naquelas casas todas iguais que lhe chamam de bairro indígena e me punha rabo de peixe. Nossa Senhora da Conceição...
Enquanto salto à corda, com uma menina de cada lado segurando as pontas e estou a ouvir as outras dizerem 56, 57, 58...sinto as gotas da chuva a ferir a pele escura do sol e da praia de domingo lá no Morro dos Veados e me distraio. Não quero perder. Não gosto de sair para baloiçar a corda para a outra saltar. Quero chegar nos 100, 101, 102...Está quase a ser duas horas. O sol está a pique. De vez em quando cai umas gotas d' água parece quer estragar a nossa  brincadeira.  A menina Piedade vai chegar e vamos entrar na sala para aprender mais um rio, uma serra, uma estação. Se cair uma chuvada com trovões e tudo, pode ser vamos embora mais cedo para casa. É só atravessar a rua. No meu quintal, tem um alpendre de zinco. Vou poder brincar e ouvir a chuva cair, lá de baixo. Xéeeeee, eu gosto do barulho da chuva a cair no zinco, parece é música. Vou ficar lá até a dona Celeste me chamar p'ra lanchar pão com doce de mamão que ela mesmo fez e fechou nos frascos vazios, de energetic. Ou ovo estrelado, das galinhas que fingimos, eu e a Fatinha, de nossas alunas, quando estamos a brincar de professora.  Ou pode ser ela assa um chouriço de sangue e me pergunta se quero também. Já estou a sonhar com o lanche.
Nossa Senhora da Conceição,  faça sol, chuva não. Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

recomeçar


Queria recomeçar.Tudo novo. A estrear. Mágico. Perfeito...
Não sei. É uma ideia a formar-se e a ganhar raízes e espaço, no limite que determinei na arrogância de uma solidão que não procurei mas alimentei.
Recomeçar...
Sentada num banco de espera, olho à minha volta. 

Não. Não me parece um dia bom para recomeçar. 
Até porque vejo apenas cimento à minha frente. E poluição. E gente apressada. E impaciente. E mal amada.
Preciso de tempo para recomeçar. Habituar-me à ideia que deixei esquecida num canto qualquer, fechada à chave que joguei fora.
Preciso de tempo e coragem. Tenho de embalar memórias. Fechar mágoas. 

Empacotar  dias e noites frias, escuras e assustadas. 
Atirar para longe os vazios. Fazer cruzes  nas traições. Apagar as tristezas e gritar à apatia. 
Vaiar a conformação e espicaçar a coragem. Matar a indiferença. Enterrar o machado de guerra.
Queria recomeçar mas hoje não me parece estar de feição. 

No dia que eu recomeçar, quero acreditar. Quero saber o hino da alegria entre sinos e guizos. Campos de papoilas. Rios velozes correndo para o mar.
Quero ter o testemunho do mar. 
Hoje nem eu vou na beira-mar, nem o horizonte me vem beijar os pés. As mãos. O coração. 
Lavar a alma.
A onda não me toca ao de leve e a brisa não me conta segredos. 
Não desenho na areia nem danço no movimento dengoso da kianda. Não me deito na duna nem tu és visão. 
Não te vejo nas cartas nem nas linhas da mão. Não és sequer ilusão...
Queria recomeçar. Num dia perfeito. Eu, tu e o mundo, perfeitos. 

Num fim de tarde. Entre risos e trompetes. Perfume de rosas, arco- íris e borboletas. Em festa.
Entre o sol, a lua e o mar...
E a terra a abençoar.

 

estou para aqui...


Estou para aqui num faz de conta que amanhã é sábado.Sem sono ou vontade de deitar o cansaço e dormir.Ao deus dará, esquecida do mundo, esquecendo tudo o que incomoda.
Ainda há coisas que incomodam mas que num jogo de cabra-cega se jogam para trás das costas p'ra não pesarem demais.Estou para aqui à procura de motivo para continuar desperta. Atenta e confiante.  A pensar em ti, em nós, neles, os que estão perdidos, esquecidos do mundo. E de mim. Neles os que de alguma forma fizeram promessas, acenaram num até já que dura uma eternidade que nunca vai transformar-se em presença. Neles que  falharam.  Neles, os que  não prometendo, deixaram sorrisos, como beijos frescos a saber a hortelã pimenta. 
E ensaiaram uma música, soletraram uns versos. Coloriram uma rua. Um rio. Preencheram um deserto. Construiram a ponte. Neles os que se despediram para sempre e deixaram a memória.  Estou para aqui traçando destinos que cabem na minha mão e adoçam a minha alma.

Queria ser um albatroz. Um bonito albatroz. Livre e fiel albatroz. E poisar na esperança duns binóculos no alto mar em busca dos voos rasantes e  dizer que estou para aqui  a olhar futuros de acácias vermelhas, flores de frangipani e sois vermelhos beijando o mar,  sem esquecer passados nas corridas atrás do carro da tifa, pão e doce de tomate, jogos de futebol na terra barrenta e vermelha duma infância que avançava devagar e feliz nos dias calmos duma terra abençoada.Estou para aqui, esperando, sempre esperando. Sempre sonhando.
Sempre vivendo com a mente dividida entre a razão e a leveza do coração  a saltar páginas de  passados e presentes.
Na liberdade do futuro que o sonho dá...
 

domingo, 13 de maio de 2012

hoje, às portas da cidade



foto tukayana.blogspot

Acordar neste lugar é acordar feliz.
Neste domingo de recomeços, toca-me a cor da manhã.
E os sons duma primavera, galopante, à procura dum verão ansiado. Sempre...
Faz-me falta o mar e este lugar às portas duma cidade que amo muito.
Faz-me falta ser feliz. E aqui encontro esse caminho.
O porto seguro pode não ser o lugar mais recôndito da nossa lembrança. 
Nem aquele onde as correntes não se soltam.
O porto seguro é aonde nos despimos da personagem e nos purificamos. 
É aonde nos vemos no espelho e nos reconhecemos. 
É no nosso chão. Na nossa casa.
Aqui, há um porto seguro que me acolhe. 
Foi minha, a  escolha A decisão. Foi a minha libertação. 
Acordar neste lugar é estar viva para o dia de hoje. 
Respirar...a dois pulmões. E amar sem condição.