quinta-feira, 12 de abril de 2012

dia não...

foto tukayana.blogspot

O dia nasceu, acinzentou, nublou e esfriou até aos ossos. Até à alma. Nesta metade da semana que corre veloz, começou a manhã a caminho do viaduto, surpreendida que fui pela boleia do Luís M. que levava a filha para a escola e pára e pergunta: Queres boleia? - Claro que sim, respondo. E atravesso a rua. E lá vamos nós. 
E o dia passa depressa que o trabalho é mais que muito que a Mena está a banhos por terras de Cabo Verde, quem sabe comendo cachupa rica, que eu hoje até cachupa pobre comia, pois que resolvi portar-me bem e lembrando velhos tempos em que cozinhava sem que alguém mo ordenasse, fiz uma posta de maruca cozida  e grelos que a Lurdes colheu lá na horta no domingo e decidi iniciar a dieta que tantas vezes começo e outras tantas acabo. Sei que a maior parte das pessoas odeia peixe cozido. Eu não. E depois, é p'ra fazer dieta é p'ra comer peixe, quanto mais melhor. Afinal eu até o prefiro, à carne.
As cinco chegaram.  E chegou uma nostalgia, uma tristeza, um desalento que só eu sei. Alguém me disse: pode ser quebranto. Mau olhado. Ri-me, muito a contra-gosto. Nem rir me apetecia. Lembrei-me duma certa pessoa, por sinal, chegada, que até já me tentou ensinar a rezar o quebranto mas que eu não aprendi porém com pena minha. Sei que se gasta azeite e este está pelas horas da morte, mas o quebranto também pode matar e há que cortá-lo com uma faca em cruz nos gestos, por cima  dum prato com água e gotas de azeite que não sei por que artes de magia, feitiçaria, ou do diabo se mistura na água se estivermos com o dito mal. Posso dizer que estou quase sempre que mo tenta tirar essa pessoa que me abstenho de dizer quem é, também sei, só sei, ser discreta e guardar segredo. Mas se não o tenho ela diz-me que a má disposição, o sono, a dor de cabeça, o desânimo, tudo isso é doença e não quebranto.
Cheguei à cidade do Almonda e fui ao hipermercado à procura de comida para a Pitanga. Uma vez  por semana vou às compras ao hipermercado. Atrás da comida da Pitanga vão dois ou três sacos de compras que pesam e atrapalham e me fazem apanhar o TUT. Tenho espírito de rica e carteira de pobre. Atravesso a rua para a paragem a pensar nisso. Tão fácil seria se não me revoltasse. Nem me entristecesse. Nem desanimasse. Houve um segundo, se calhar um pouco mais que desistir se tornou num pensamento.
Desistir? Como é que isso se faz? Acho que ninguém me ensinou a fazê-lo.
Sentei-me no banco da paragem assim que a senhora que lá estava retirou as compras. Ainda não tinha arrumado as minhas aos meus pés quando apareceu outra senhora e uma miúda. reconheci-a. Vitória Maria.Uma veterana da rádio local. Dos primórdios. Mais veterano que ela só o pai das crias, que foi o fundador ainda a rádio era pirata, mas esse não é para aqui chamado. A Vitória Maria sentou-se no meio de nós, e sem me fazer quaisquer perguntas, graças a Deus, porque hoje não é o melhor dia,  colocou a neta no colo, uma matulona de pelo menos 9 anos e baloiçou-a, baloiçando-nos até eu ficar enjoada. A sorte foi que o TUT chegou para me levar dali para fora. O percurso não é longo e permite olhar a cidade ao fim da tarde. Quando desce para o centro é possível ver o castelo que hoje tem mais bandeiras que ontem. Não há dúvida que os preparativos para a feira medieval vão de vento em popa. Chegando ao centro olho a Império e a Abidis outrora cheias de gente nova e velha e hoje encerradas. A Império tem um papel na porta dizendo: Música africana, sábado. Ah, música africana...imagino! Passo a loja do "queque ", o Museu, que mais parece uma loja de chineses ou de indianos tão desarrumada e cheia que está. No largo da Botica tenho uma surpresa. A Lena, sobrinha do velho Torres, o gigante e craque do  Benfica, que metia os golos de cabeça. Há quanto tempo não a via... O cabelo todo branco, mais gorda e de tenis  calçados. Essa é a surpresa das surpresas pois que a Helena T. sempre calçou saltos e sempre se pavaneou no seu andar bamboleante. O tempo passou também p'ra ela e para a Laura do quiosque. Lembro-me da Laura em 75. Uma jovem " matadora " que fazia furor entre a população masculina torrejana.  Madrinha duma pessoa que gosto muito. Tia do alcaide. E por falar no alcaide, este ano paga-se para entrarmos na feira. Não me parece mal. Por todo o lado é assim e a câmara não tem de ficar no prejuízo.
Até casa não vi mais ninguém das minhas relações nem tive pena.
O que eu queria era chegar a casa e fingir que hoje desisto do mundo e ele desiste de mim. E nesta melancolia que se abateu sobre mim ficar-me queda e muda até que me passe.
Quando estava praticamente em casa, olhei a janela da vizinha do rés-do-chão do prédio mesmo ao lado do meu e qual foi a minha surpresa quando " apanhei " a minha vizinha do primeiro andar a esfumaçar. Conheço-a desde sempre e ao marido idem. Nunca a vira fumar. A avaliar pelo marido  que tem, não fuma com " permissão " . E está à janela da casa da irmã e ficou com cara de tacho quando percebeu que eu a vira. E eu não tenho nada com isso...
Cheguei finalmente a casa. Como ia carregada demorei a abrir a porta e percebi assim todos os barulhos que vinham de dentro e que tinham como protagonista Dona Pitanga que ao ouvir a chave na porta corre para a mesma feita louca. Entrei e fechei a porta à chave. Hoje não há hipótese nenhuma. Não vou, não quero, sair. Encerro por hoje a tasca, como dizia o sô santos.
Há dias asssim.   

2 comentários:

apenas umas letras disse...

Esse Viaduto e o autocarro, fariam um bom livro de memórias :) e sempre actualizado de dia para dia..qualquer dia escreve um livro, sobre essas estórias e outras. espero que tudo esteja bem consigo. beijos

Maria Clara disse...

Obrigada Nuno.
Tudo de bom. :)