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domingo, 15 de setembro de 2013

emoção

foto tukayna.blogspot
Os sinos não tocaram à minha entrada. 
Ninguém para mim olhou. 
A passadeira vermelha se a tinha não dei por ela. 
A luz das velas misturava-se com o tempo chuvoso e tristonho deste verão em despedida.
Acho porém que Alguém me viu, me tocou, e me convidou a entrar e me fez chegar ao altar.
Os cânticos, as vozes em coro, descendo até mim, vindos d' um céu que os homens oferecem para a meditação, também me tocaram. 
A pele se arrepiou e os meus olhos, ai os meus olhos... choraram. Na emoção. 
Na presença de mim, força que cede e se declara vulnerável. E vê ali um colo. E encontra ali refúgio. Abrigo.
Queria acreditar. Queria acreditar na igreja, na mensagem que tenta passar. Não sou capaz. De elevar a alma e entregar-me à causa, cegamente. 
Mais apaziguada seria. 
O que me leva então a me aceitar neste lugar de culto? A paz. A serenidade. 
O alvoroço do meu coração. A meditação. 
O ajuste de contas com a vida e comigo. 
A luz que acendo às velas que coloco. 
Os cânticos. As vozes que se erguem aos céus e tocam o mais fundo de mim e desencadeiam um soluço. Que me despem e vestem e me viram do avesso e me fazem chorar sem filtros, nem silêncios.
Sem culpa nem angústias. 
Num desabafo imenso. Num alívio. 
Num excesso de adrenalina. 
Afinal, uma necessidade.
Sentei-me a olhar as imagens. Em tarde de céu encoberto e alma exposta.
Repleta. Completa. Agradecida.
As lágrimas correram soltas. O soluço, mil soluços, contive-os. Melhor, asfixiei-os. Guardei-os. Para outro tempo, outro lugar, outra estação. 
Os sinos não tocaram à minha entrada, mas ainda ecoam dentro de mim.
Alguém me viu, me tocou e me convidou a orar. E eu orei...

sagres

foto tukayan.blogspot

quarta-feira, 2 de maio de 2012

chá e natas

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A Amélia, a Ana, a Rosário e eu, não quisemos ir à missa, nem tão pouco ficar no centro comercial. Fomos à descoberta de um lugar onde houvesse doces regionais. Depressa nos cansámos e escolhemos beber um chá na esplanada do largo da Sé. Bem no coração da cidade. Três crianças jogavam à bola. Um cão corria atrás delas.
A esplanada vazia e uma jovem bonita, com ar citadino vem ao nosso encontro. As mantinhas de cores bonitas nas costas das cadeiras convidam-nos a sentar. Chá de cidreira e de limão e pasteis de nata mornos, com canela e um bate-papo com a jovem que trabalha ali foi o que aconteceu. As crianças eram crias suas e por isso brincavam livremente na praça em frente sob o olhar atento da mãe.
A jovem diz-nos que a cidade está decadente. Os habitantes procuram cidades como a Covilhã e Aveiro. O hospital não serve os doentes. O comércio é mais caro que nas cidades próximas e até a diversão se procura fora de portas. Os estudantes vão estudar para a Covilhã e o resto está de resto e estava na frente dos nossos olhos. Uma imensa desertificação.
A jovem foi simpática. A Amélia falou-lhe duma miúda da sua aldeia de trás-os-montes que ali vivia e ainda não tinha acabado de falar já estava a dizer-nos: Ela vai ali. E de facto, a jovem em questão passava em frente à esplanada. Foi uma festa em terras da Beira. E uma enorme coincidência dado que a cidade apesar de estar moribunda ainda é a capital de distrito. Mas como se dá um pontapé numa pedra e aparece um transmontano nem sequer foi uma coisa de bradar aos céus. Há coincidências felizes, eu que não acredito em coincidências.

O meu olhar sobre a cidade da Guarda










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terça-feira, 1 de maio de 2012

angústias e desabafos

foto.tukayana.blogspot
Em dia do trabalhador, olhando de quando em vez a televisão, em tarde de ócio, no filme Austrália, que já vi no cinema, um menino diz: Todos estão felizes menos eu. Sou um cabritinho, não pertenço a lado nenhum.
Por vezes, muitas vezes eu sou como o cabritinho que não estou feliz nem pertenço a lado algum.
Nesta viagem organizada por uma torrejana que aqui tem família e amigos, que aqui sempre se sentiu em casa como quase todas as pessoas que viajaram naquele autocarro rumo ao frio do norte e de espanha tive momentos de sentir que não pertenço aqui.
Se mais alguém fez a mesma pergunta: O que estou aqui a fazer? Talvez tenha feito. Sei que não sou a única que sente o desconforto de não pertencer a um grupo que não tem o mesmo modo de vida que eu, nem a idade, nem os sonhos nem as ambições ou mesmo o percurso. 
O grupo funcionou. As pessoas são simpáticas quanto baste, conhecemo-nos todos e o propósito era o mesmo. Os sentimentos que nos movem, as necessidades, o olhar e o coração são diferentes. 
Ao meu lado ouvi várias citações que me fizeram sorrir. Apenas sorrir.
A propósito do estado do país - Os pretos estão a comprar tudo.
Ou - a mãe prefere o paredão da Nazaré à baía de Luanda.
Ouvi muita coisa mas retive estas duas frases. Os pretos estão a comprar tudo, tem um não sei quê de desdém e um cunho racista sem tamanho. Um complexo tramado porque hoje é de inferioridade perante os " pretos " e não de superioridade por serem brancos. Hoje eles compram o que " nós " não conseguimos comprar.
E a outra frase - A mãe prefere o paredão da Nazaré à baía de Luanda - podia ser recorrente para pessoas que não podem ir mais além. Estão verdes não as podemos tragar...
Mas não é. A pessoa em questão podia se calhar ir visitar Luanda. Mas alguém lhe diz: Não vás que não vais gostar. A tua praia da Nazaré é que é.  E ali logo pensei que há quem não deseje um mundo maior para os outros ainda que seja o mundo da sua mãe. Mas há também quem prefira o aconchego do que conhece ao invés de partir para o desconhecido apesar desse ser infinitamente mais belo e mágico.
E faz sentido. Não há baía, não há terra como a minha. Conheço outras, mas a minha alma pára e descansa no meu chão.
Então, seguindo a viagem fui percebendo quão diferentes são as pessoas que se sentam ao nosso lado que comem connosco que nos dão um sorriso ou mesmo que podem dormir na mesma cama que nós. Em excursão rumo ao frio, ou não. 
Volto a olhar o menino do filme. Volto a pensar na minha viagem de grupo. Que voltarei a fazer se me agradar o destino. 
Todos (?) são felizes menos eu (?). Não pertenço a lugar nenhum (?).
Volto à viagem. Oiço dizer: o nosso castelo de Torres Novas, e ele não é o meu castelo. Nunca mais chegamos à nossa terra e ela não é a minha terra. Sou do Outeiro, da Brogueira ou das Tufeiras, de S. Pedro ou da Meia Via. E eu simplesmente não sou. Oiço dizer: Nós e não consigo encaixar-me nesse pronome. 
Vou de viagem. Comigo vão, ou será com eles, eu vou? Vamos, para tornar tudo mais simples, de viagem. Em excursão. Parecem-me todos serenos. Eu também. Mas há um turbilhão de sentimentos, de perguntas e de respostas. Algumas que não me satisfazem.
Penso que é urgente sair por aí em excursão ou não, ao sabor do tempo e das oportunidades e deixar a minha alma viver os momentos sem quês nem porquês. Ela a alma tem poiso certo e seguro. Porto de abrigo. Está lá, onde um dia quero desencarnar. Por enquanto sei que vão todos felizes, menos eu que não pertenço aqui. Pelo menos isso eu sei. Se pertenço lá? Uma pergunta de cada vez. A resposta? Um dia tê-la-ei. E serei para sempre feliz. Em excursão ou não.

Alpedrinha





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A Sé de Castelo Branco


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O Guardião posando para mim

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segunda-feira, 30 de abril de 2012

fim de semana

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Há destinos felizes.
E depois de voltar ao lugar da partida agradeço a Deus por isso.
Não. Não venho mais católica. Nem mais praticante. Nem mais beata.
Venho sim mais contente, mais tolerante. Com mais mundo.
Mas não foi fácil chegar à rodoviária e dar com um bando de gente, que conheço, mas que teve o seu auge nos anos 60. Apenas aí uma dúzia era da minha idade ou um pouco menos.
Quando me convidaram a passar dois dias fora de portas, para visitar aldeias típicas que não conhecia, julgava que eram professores e educadores de infância, que apesar de reformados ainda têm muito chão para chinelar e muito sonho para cumprir, como a Graça.
Mas quem me disse que uma criatura de 89 anos não tem sonhos? E não percorre alguns dos caminhos que eu, a Graça, a Ana, a Amélia, a Eduarda ou o Jorge percorremos com uma perna às costas?
A mulher mais velha deste grupo onde me inseri tem exactamente 89 anos e foi um exemplo. Mas eu, no início da viagem não o sabia. E precipitei-me. Acontece algumas vezes.
Ainda não tínhamos cumprido a primeira parte da viagem, que era a chegada a castelo branco e já eu, falando com os botões, me perguntava enfadada: maria clara, maria clara, o que estás aqui a fazer?! Metes-te em cada uma!
Ao meu lado, a Rosário. Uma mulher mais velha que eu. Conheço-a há muitos anos. Sempre do mesmo jeito. Bonita, discreta. Agradável e terna. Educada e sábia. 
Do outro lado, a Ana e a Amélia. À frente, a Eduarda e a Vina. E à frente delas, a Graça e o Jorge. A ideia de que eram pessoas da minha geração, com os mesmos interesses, confortou-me. A chegada a Castelo Branco, também. Terra agradável com um jardim lindo, o Jardim do Paço.
Não ia a Castelo Branco há alguns anos e foi simpático, como diz a Rosário. Depois rumamos a Alpedrinha, uma localidade igualmente simpática, para visitar o centro histórico. E aí mesmo, seguiu-se o almoço num sítio  tão simpático como a localidade e o centro histórico. A comida era cinco estrelas. A conversa animada e a disposição outra. A melhorar.
Ir para a Guarda entusiasmou-me por ser  uma terra de passagem, onde nunca entrara. Interessou-me visitá-la. Sentir-lhe o pulso. A zona nobre da cidade e o centro histórico. Onde os judeus se instalaram e permaneceram. Gostei muito. Gostei da Sé. Gostei do cafezinho debaixo das arcadas com as mantinhas nas costas das cadeiras da esplanada e da menina simpática que connosco conversou e me serviu, mais à Amélia, Rosário e Ana, chá e pastéis de nata, na falta de doçaria regional que íamos à procura.
O jantar foi no Centro Apostólico que fica isolado e fora da cidade onde pernoitamos. O frio intenso e o desconforto dum espaço que apenas alberga 6 pessoas; 3 freiras velhotas e três empregadas, notou-se na logística dos quartos, na falta de aquecimento nos mesmos, nos corredores e até na luz que por força  de tanto aquecedor ligado muito de repente, bem como a máquina de lavar a loiça,  fez estoirar com o quadro. 
De resto, tudo simpático. Uma lareira numa sala grande aqueceu-nos até à hora de nos deitarmos o que fiz por volta das dez. Nem estava a acreditar que os poemas duma alma de Deus que fora bancário no Totta, e que conheço há mais de 300 anos, na esperança de animar o serão de todos nós, me fez bocejar estúpida e antipaticamente a cada quadra ou o red fish assado no forno, adivinhado pela Amélia, num de caras, parece que era bruxa, que só podia ser red fish, com o puré de batata migada com o grafo, temperado com azeite, ou dos grelos cozidos e da salada por temperar, ou até do pudim flan ou o rosto de algumas reformadas há mais de 500 anos que se riam a bandeiras despregadas com as anedotas do Zé Luís que segundo percebi as repete a cada encontro destes. A criatura em questão, um  reformado bancário do Ultramarino, é minha conhecida há muitos anos, mas d'outros carnavais e a sua mulher não acabou a noite sem que mo lembrasse não fosse eu estar esquecida: Sabe?! o meu marido foi colega do seu sogro, muito ano, no banco. Acenei afirmativamente e ficamos por ali mesmo. Cruzo-me com o casal nas noites que vou andar os 7 kms mas foi no sábado que ela desenterrou o passado que eu tento enterrar e que teima em dar um ar da sua graça a cada encontro assim. Falar de sogros não é boa política. Não p'ra mim que nunca me finjo de morta nem enfio a cabeça na areia cobardemente. Mas pronto, a mulher do Zé Luís nada sabe de nada. A Deodata, professora da minha cria nos primeiros 4 anos escolares também não e abriu a boca espantada e só não lha fechei porque o fez com uma agilidade de estar muito habituada a notícias bombásticas ou em segunda mão fingidas que são a escandalosa surpresa do século. A Deodata sempre me pareceu boa pessoa. Pertence aos escuteiros. Vai à missa. Foi minha colega no ginásio. Tem um casamento que sólido e o mais importante de tudo, sempre admirou profundamente a minha cria. Seguiu-lhe os passos e sempre me abordou quando não o conseguiu acompanhar nas passadas rápidas que o caçula tem dado, a fim de não perder o fio à meada que interiorizou que é da sua lavra. Eu acho bem porque uma professora primária pode ser fundamental na nossa vida. Nesta viagem abordou-me também à semelhança de outras ocasiões: Então o David? Como é que ele está? O que é que está a fazer? Gostava tanto de ver os seus trabalhos...
E lá lhe disse que estava fora. Que iria fazer um trabalho p'ra Guimarães e que o apresentaria brevemente. Que já lá fora com outro projecto. Que felizmente o ano de 2012 tem sido bom e vi o seu rosto desenhar um sorriso sincero e os olhos brilharem num misto de alegria e orgulho como se me dissesse: O meu menino! 

Deu-me o seu contacto para que a informasse do próximo espetáculo em portugal, depois de lhe ter tecido enormes elogios.
A viagem já estava a valer por esta conversa com a Deodata, uma mulher bonita, mais jovem que eu, dois ou três anos, e que foi tocada pela personalidade da minha cria.
É curioso que neste grupo estavam pessoas com quem privei, com quem privo, com quem nunca privei mas conheço de sempre e com quem nunca privarei senão excepcionalmente. Esteve também uma educadora do infantário onde as minhas duas crias andaram desde bebés até aos três anos.  E outras.  Até o motorista, um homem bonito e novo, que já conheço do TUT e  há uns tempos atrás, telefonou ao colega do autocarro para Alcanena para que esperasse por mim pois vinha atrasado e sabia que eu ia para Alcanena, me chamou para que me aquecesse na lareira quando saí da sala de refeições. Está com frio, disse. Vá ali para junto do fogo. E eu fui e sentei-me mesmo junto ao calor da lenha que ardia em noite de primavera como se fosse inverno. 
Quando decidi ir para o meu quarto já não me perguntei o que estava ali a fazer.
Sabia que estava a fazer a coisa certa. Para me sentir bem. E mais uma vez me lembrei da Rosário que adjectiva de simpático tudo o que apesar de não ser uma vida cara pode ser uma vida boa.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

dia não...

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O dia nasceu, acinzentou, nublou e esfriou até aos ossos. Até à alma. Nesta metade da semana que corre veloz, começou a manhã a caminho do viaduto, surpreendida que fui pela boleia do Luís M. que levava a filha para a escola e pára e pergunta: Queres boleia? - Claro que sim, respondo. E atravesso a rua. E lá vamos nós. 
E o dia passa depressa que o trabalho é mais que muito que a Mena está a banhos por terras de Cabo Verde, quem sabe comendo cachupa rica, que eu hoje até cachupa pobre comia, pois que resolvi portar-me bem e lembrando velhos tempos em que cozinhava sem que alguém mo ordenasse, fiz uma posta de maruca cozida  e grelos que a Lurdes colheu lá na horta no domingo e decidi iniciar a dieta que tantas vezes começo e outras tantas acabo. Sei que a maior parte das pessoas odeia peixe cozido. Eu não. E depois, é p'ra fazer dieta é p'ra comer peixe, quanto mais melhor. Afinal eu até o prefiro, à carne.
As cinco chegaram.  E chegou uma nostalgia, uma tristeza, um desalento que só eu sei. Alguém me disse: pode ser quebranto. Mau olhado. Ri-me, muito a contra-gosto. Nem rir me apetecia. Lembrei-me duma certa pessoa, por sinal, chegada, que até já me tentou ensinar a rezar o quebranto mas que eu não aprendi porém com pena minha. Sei que se gasta azeite e este está pelas horas da morte, mas o quebranto também pode matar e há que cortá-lo com uma faca em cruz nos gestos, por cima  dum prato com água e gotas de azeite que não sei por que artes de magia, feitiçaria, ou do diabo se mistura na água se estivermos com o dito mal. Posso dizer que estou quase sempre que mo tenta tirar essa pessoa que me abstenho de dizer quem é, também sei, só sei, ser discreta e guardar segredo. Mas se não o tenho ela diz-me que a má disposição, o sono, a dor de cabeça, o desânimo, tudo isso é doença e não quebranto.
Cheguei à cidade do Almonda e fui ao hipermercado à procura de comida para a Pitanga. Uma vez  por semana vou às compras ao hipermercado. Atrás da comida da Pitanga vão dois ou três sacos de compras que pesam e atrapalham e me fazem apanhar o TUT. Tenho espírito de rica e carteira de pobre. Atravesso a rua para a paragem a pensar nisso. Tão fácil seria se não me revoltasse. Nem me entristecesse. Nem desanimasse. Houve um segundo, se calhar um pouco mais que desistir se tornou num pensamento.
Desistir? Como é que isso se faz? Acho que ninguém me ensinou a fazê-lo.
Sentei-me no banco da paragem assim que a senhora que lá estava retirou as compras. Ainda não tinha arrumado as minhas aos meus pés quando apareceu outra senhora e uma miúda. reconheci-a. Vitória Maria.Uma veterana da rádio local. Dos primórdios. Mais veterano que ela só o pai das crias, que foi o fundador ainda a rádio era pirata, mas esse não é para aqui chamado. A Vitória Maria sentou-se no meio de nós, e sem me fazer quaisquer perguntas, graças a Deus, porque hoje não é o melhor dia,  colocou a neta no colo, uma matulona de pelo menos 9 anos e baloiçou-a, baloiçando-nos até eu ficar enjoada. A sorte foi que o TUT chegou para me levar dali para fora. O percurso não é longo e permite olhar a cidade ao fim da tarde. Quando desce para o centro é possível ver o castelo que hoje tem mais bandeiras que ontem. Não há dúvida que os preparativos para a feira medieval vão de vento em popa. Chegando ao centro olho a Império e a Abidis outrora cheias de gente nova e velha e hoje encerradas. A Império tem um papel na porta dizendo: Música africana, sábado. Ah, música africana...imagino! Passo a loja do "queque ", o Museu, que mais parece uma loja de chineses ou de indianos tão desarrumada e cheia que está. No largo da Botica tenho uma surpresa. A Lena, sobrinha do velho Torres, o gigante e craque do  Benfica, que metia os golos de cabeça. Há quanto tempo não a via... O cabelo todo branco, mais gorda e de tenis  calçados. Essa é a surpresa das surpresas pois que a Helena T. sempre calçou saltos e sempre se pavaneou no seu andar bamboleante. O tempo passou também p'ra ela e para a Laura do quiosque. Lembro-me da Laura em 75. Uma jovem " matadora " que fazia furor entre a população masculina torrejana.  Madrinha duma pessoa que gosto muito. Tia do alcaide. E por falar no alcaide, este ano paga-se para entrarmos na feira. Não me parece mal. Por todo o lado é assim e a câmara não tem de ficar no prejuízo.
Até casa não vi mais ninguém das minhas relações nem tive pena.
O que eu queria era chegar a casa e fingir que hoje desisto do mundo e ele desiste de mim. E nesta melancolia que se abateu sobre mim ficar-me queda e muda até que me passe.
Quando estava praticamente em casa, olhei a janela da vizinha do rés-do-chão do prédio mesmo ao lado do meu e qual foi a minha surpresa quando " apanhei " a minha vizinha do primeiro andar a esfumaçar. Conheço-a desde sempre e ao marido idem. Nunca a vira fumar. A avaliar pelo marido  que tem, não fuma com " permissão " . E está à janela da casa da irmã e ficou com cara de tacho quando percebeu que eu a vira. E eu não tenho nada com isso...
Cheguei finalmente a casa. Como ia carregada demorei a abrir a porta e percebi assim todos os barulhos que vinham de dentro e que tinham como protagonista Dona Pitanga que ao ouvir a chave na porta corre para a mesma feita louca. Entrei e fechei a porta à chave. Hoje não há hipótese nenhuma. Não vou, não quero, sair. Encerro por hoje a tasca, como dizia o sô santos.
Há dias asssim.   

quinta-feira, 5 de abril de 2012

diário de férias



Saio de casa decidida a atravessar a ponte que me levará se eu quiser, para a Póvoa de Stº Adrião à direita e para Odivelas à esquerda. No fundo da ponte, uma travagem é o aviso para estar atenta mesmo se atravesso na passadeira. Olho para o Senhor Roubado e os seus 3 ou 4 prédios, não mais,  foi suficiente para fazer do lugar uma estação de metro. A penúltima da linha amarela. Agora que o custo é o mesmo com certeza a ponte que une as duas estações, em hora de ponta, não congestionará, nem os automóveis no parque se aglomerarão do mesmo jeito. Haverá quem possa sair de casa a pé para o metropolitano na estação de Odivelas. Meço com o olhar métrico que sei ser bastante assertivo, e sei  porque em tempos, quando trabalhava na sala de audiências, nos julgamentos de processos de terras e extremas e marcos e passagens era comum uma testemunha  falar em metros  tomando como comparação o comprimento da sala de audiências e estar completamente fora e eu fazendo o mesmo raciocínio no meu olhar métrico, falhava por pouco. 
Olho a estação de Odivelas e meço as distâncias. Não há dúvida. Está ela por ela, mas gosto bem mais deste percurso. Sempre a direito. Faço a ponte e zás. É um ver se te avias a caminho da estação. Rua larga, movimentada,  passeios largos, sem casas, muito arejamento. Outras pessoas. À noite, menos inseguro.  Ainda não o fiz sozinha mas já o fiz acompanhada. E não estou enganada. 
À porta, um africano com a sua venda de artesanato estendida no chão. Um vendedor ambulante do lado esquerdo vende cintos e malas. Bolsas de mão. O indiano " quê frô " oferece-me uma rosa vermelha que rejeito. A menina do quiosque à coca do que se passa, espreita a rua através das revistas e jornais. Olho-a e ela disfarça. Ou não. Pode ter sido coincidência.
Tiro o bilhete e subo. Que sorte. De novo o metro parado à espera do seu tempo para iniciar a viagem. Linha amarela. Que vai para o Rato. E me há-de deixar no Marquês. Quem gosta de desdenhar os subúrbios diz que a linha amarela é ralé. Como os suburbanos. Eu não acho. Mas eu sou suspeita. Sento-me. O único ocupante de um espaço de dois bancos, virados um para o outro, descruza as pernas quando me sento mas cruza-as de novo quando percebe que não vou sentar-me de frente p'ra ele. Olha-me de alto a baixo. Olho-o no rosto. Desvia o olhar e tranca a expressão. É pessoa de 30 a 35 anos. Coloco os fones e ligo o MP4. Aos poucos vão chegando outras pessoas. Cruzo as pernas para voltar a descruzar de seguida. Uma mulher senta-se em frente a mim. Cabelo encaracolado preto, com as raízes brancas. Só as raízes. Com um ar lavadinho. Tranca a expressão. O metro começa a andar. Depressa vejo o Olival e o Senhor Roubado. Quase dá p'ra ver a minha rua. O prédio azul do Mulemba'Xangola lá está. A Mizé e a tia Helena também lá estarão na sua faina, certamente. Grande piroseira, o único condomínio fechado dessa terra, pintado de azul mar e  céu. Quem teria sido o iluminado? De facto, olhando de longe e d'alto dou razão a umas alminhas que dizem que o Olival não é nada. Quer dizer, nada, nada é exagero, pois é freguesia, mas por pouco tempo mais. Vai na leva como vão as outras. E deve pouco à beleza. Um amontoado de prédios dos anos 60 e 70, perfilados e entre eles ruas paralelas e perpendiculares. Nos passeios, palmeiras, laranjeiras e ameixoeiras, uma igreja, um rinque para desporto e  lojas. Duas agências bancárias. Uma delas foi assaltada e virou notícia porque fez reféns. E tem escola. Nem cemitério tem. Ah pois é. A igreja tem casa mortuária. Eu que o diga que quando assentei arraiais por lá, muito me custava chegar à janela e ver à porta criaturas vestidas de preto, carpindo o seu desgosto ao longo da noite. Mas pior que isso era ver a porta aberta e quase perceber o morto deitado no caixão ali à distância de...quase nada. Agora isso não acontece porque para além de terem sido feitas obras, os vivos não querem velar os seus mortos noite fora e fecham-nos e levam a chave para voltarem depois d'um belo sono.
Estou com os meus pensamentos quando percebo que o homem da frente fala com a parceira do lado. Ela não me parece querer alimentar conversa. Olha-me como que a pedir socorro. Socorro pedia eu se tivesse lata para isso, abalroada que fui por uma mulher gordíssima que abriu asas e poisou o braço direito na minha cintura com alguma predisposição para me expulsar do lugar que paguei e com a sua coxa a tocar a minha num despudor gordurento que me revolve as vísceras. Ainda não chegamos ao Campo Grande e esta mulher é criatura para tomar posse dos dois bancos até ao Marquês sem sequer pestanejar tendo tido em mente que ao carregar o seu cartão não comprara um lugar mas um metropolitano inteiro.
O casal da frente, sim, porque enquanto eu mentalmente tecia estas considerações acerca da gorda do lado, o casal da frente teve tempo para iniciar o que pode ser um franco e alegre flirt a avaliar pela cara dele sorrindo descontraidamente e o derretimento dela. Deixei de lhes prestar atenção, quando no Marquês me levantei ao mesmo tempo que o homem que sem pestanejar abandonou o lugar sem sequer se despedir da rapariga nem tão pouco olhar para trás. Como é que pode? Já esfregava as mãos de contente por estar a assisitir ao início de um romance e eis que subitamente ele estragou tudo. É assim. Quase sempre eles estragam tudo.  Acho que ela pensou a mesma coisa a avaliar pelo rosto de desilusão com que ficou. Deixei-a e saí direita ao elevador. Já não me apetece fazer as escadas e se por enquanto o elevador funciona, porque não? Prático, e rápido depressa me pûs no andar de cima. Ia para o Terreiro do Paço, logo teria que apanhar a linha azul. A passadeira que faz par com outra de sentido contrário está avariada há muitos meses. Acho que vai ficar assim para sempre. As escadas rolantes que descem ao metro, também. 
Imagino um idoso ou  pessoa com deficiência a descer as escadas e indigno-me. Mas tenho de parar com as indignações pois já basta o que basta e que me toca pela porta.
O metro demora a chegar cerca de 2 minutos. Sento-me num lugar completamente vago. À minha frente senta-se um homem cigano, mais velho que eu, pois tem muitas mais manchas na pele do rosto  e muitas mais rugas. Veste a preceito, fato com gravata e exibe um troley. Não tira os olhos de mim e isso aborrece-me. Porque não fixa um ponto no fundo do metro, fingindo estar a observar algo alheio a mim? Assim que a gravação anuncia Terreiro do Paço, levanto-me e encosto-me à entrada, de costas para a criatura. O resto da carruagem vai vazia não fosse uma mulher muito bem vestida, cabelo comprido impecável, lábios pintados de castanho, bonitos, que me olha. Olho os seus olhos e reconheço-a. Clara Pinto Correia. Minha xará. A  professora, bióloga e escritora que também cresceu por terras de Angola, irmã da outra, a Margarida,  que por sua vez é casada com o Luís Represas, que bem, há quem não diga maravilhas da sua, dele, personalidade, mas eu é ver para crer, como São Tomé. Esta mulher de metro, na linha azul a caminho de Santa Apolónia...muito bem. Calha a quase todas. Mas nem todas têm a sua classe. Um pouco mais velha que eu, está giríssima e bem cuidada e se eu fosse um homem baboso diria que ainda rompendo meias solas, ou melhor, as solas todas. De facto a mulher está com tudo.
Se não fosse cá por coisas tinha umas coisitas para lhe dizer. Pois que esta senhora desiludiu-me e muito. Tinha-lhe simpatia e admiração. Comprara até os seus livros e eis senão quando uma escandalosa notícia denunciando  plágio a dois textos da revista New Yorker me deixou incrédula e furiosa. Porque me fizeste tu isso Clarinha? Era praticamente o mesmo que descobrir que Mia Couto não era autor das suas frases, de trechos dos seus belos livros. Menina feia,  como foste capaz de desiludir uma tua fã? Tinha-a ali mesmo à frente do meu nariz  e apeteceu-me deitar-lhe a língua de fora, fazer-lhe asneiras com os dedos num na-na-na-na-nã, toma toma, de vingança, por em tempos ter ficado tão amargurada por sua causa. Ao invés disso, saí direita à Praça do Comércio. Às 2,30 anda por ali muita gente. Muitos turistas. E atravessam para o Cais das Colunas e tiram fotografias e sentam-se nos bancos de pedra...
Olhei para lá. Vi uma mão dizendo adeus. Não há nada a fazer. A nossa gente, é a nossa gente. Estejam onde estiverem damos com eles mesmo que seja como agulha no palheiro. Abri os braços, brincando, como se há muito tempo não nos víssemos. Ainda não tinham passado 24 horas da última vez. Sorri. Diz-me que eu sempre que a vejo sorrio. Faço jus ao mexerico. E acaba aqui a minha viagem. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

o metropolitano

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Tenho de dizer aqui. O metro é deprimente. Basta ser um rastejante que se infiltra e refugia nos buracos húmidos e sem luz da terra, para não dar saúde nenhuma a ninguém, e ainda provocar em nós este instinto ruim e dissimulado de toupeira que surpreendentemente ora está aqui, para logo a seguir estar acolá, e ainda nos intervalos, ser visitado por um instinto predador que nada abona para a elevação espiritual. 
Às 11 da manhã de um dia de semana, o metro começa em Odivelas já meio completo. 
Não é confortável, o metro não pretende ser confortável, isto sou eu a alucinar, dizia que não é confortável haver bancos virados uns para os outros, pois que não havendo paisagem para distrair e disfarçar o tédio, jornal para ler, tudo é custo e a vida não está para gastos, ou companhia para conversar, temos de olhar uns para os outros a menos que fixemos um ponto e não nos afastemos dessa visão distante e ausente, ainda assim, correndo  o risco de estar um engraçadinho lá no final da nossa projecção do olhar que sorri obscenamente convencido que já estamos de quatro.
Para onde vão todas estas pessoas em dia de trabalho numa hora morta como é esta que antecede o almoço? Parece estúpido questionar-me se faço parte dessa gente que consegue sentar-se na estação inicial e que aos poucos vai entrando, no Senhor Roubado, na Quinta das Conchas ou no Lumiar e tomando lugar em pé e quando chega ao Campo Grande já está como sardinha enlatada. Se quero ir para o Cais do Sodré, mudo e conforme o momento, espero ou corro para a linha verde, a terrível linha verde que transporta todo o tipo de gente e mais aquela a que chamo de três ao prato, dado que é longa e vai parar na Alameda, Arroios,  Anjos, Intendente, Martim Moniz e ... enfim, não é o preconceito a falar, é a triste e escandalosa realidade que retrata nos rostos e nas vestes a vida que têm ou não têm e a que sou alheia dado que apesar de ser uma peça do jogo nada faço para que estas pessoas estejam sempre a perder, a cair, a sobreviver, mal,  desonesta e humilhantemente. Agonizantemente...
Olho à volta. É tudo cinzento e triste. Bem sei que esta semana parece que se uniu tudo, os elementos, quero dizer, para me tramar. Se assim foi, não me afecta porque não preciso do sol  do verão, para dar umas voltas, ver o mar, comer sushi, sentar na esplanada, beber uma frise de limão, saborear frutos vermelhos comprados no supermercado, apreciar pão de queijo e gozar a liberdade dos dias servidos de bandeja e que aproveito como criança devorando gelado.
Esta palidez da vida que encontro na velha linha verde, que podia ser a vermelha,  nos rostos fechados e baços, assusta-me e penso na reforma. Não! Mil vezes me nego. Ainda tenho forças para lutar contra essa impotência ou resignação que observo. À minha frente uma mulher feia e apática olha o vizinho do lado que acabou de se sentar. Olho-o também. Parece mais um dos que dorme por cima e por baixo de papelões e da desgraça, doença e indiferença, nas ruas chiques de Lisboa. Desmanchando a personagem, a mulher faz uma careta de enjoo quando o homem coça a cabeça com as unhas; este arranca sabe-se lá o quê do couro cabeludo e parece catar e matar piolhos de seguida. O meu estômago revolve-se. O batido acabado de beber chocalha nas minhas entranhas. Não me basta o velhote a roçar a minha perna com a sua, o cheiro a guardado que exala, a verruga nojenta de grande, e peluda, no nariz, eu que tenho a mania que sou esquisita e abomino estes encostos que não desejo e tenho de levar com a criatura vestida de amarelo que mais parece a Dona Pitanga, ela que me perdoe a comparação, fazendo a sua higiene diária, pois que depressa passa às orelhas, ao nariz e às unhas sem o menor constrangimento e ainda tenho mesmo em frente de mim a feia e baça mulher que no limite vai vomitar-me p'ra cima. 
Apelo à minha boa disposição. Ao encontro que terei dali a uns minutos com o mar e com a minha cria.  Ao dia que escolhemos passar num lugar que ambas amamos. Apelo ao MP4 que me devolve " don't panic " seguido de " save-me "  E estes truques devolvem-me o distanciamento necessário para olhar a mulher que me contempla cúmplice e ter um esgar que pretende ser um meio sorriso, um pálido, descomprometido e insignificante sorriso. Ela não entende. Agarra-se ao meu gesto e encolhendo os ombros, olha de esguelha o parceiro do lado, franze o nariz e tenta sorrir-me mas os seus lábios fazem a careta própria de mulheres que precocemente envelheceram e transformam um gesto espontâneo e simpático numa curva que acaba no queixo e  é desajudada pelo buço que mais parece um código de barras. Sem querer toco os meus lábios com os dedos da mão esquerda. Não. Ainda não estou nessa fase. Não aguentaria ver um código de barras na minha cara nem os meus lábios numa careta involuntária.
A velhice é uma cabra. E burra. E dá coices que nos deprimem. Como o metro.
Felismente, pára no Cais do Sodré. Os meus vizinhos saem. Eu espero calmamente.
Para onde vão todas estas pessoas em dia de trabalho, antes da hora que antecede o almoço?
Lisboa está de férias, tem muitos reformados, muitos desocupados, desempregados e até afortunados. E sobreviventes. Que nem eu.
Carrego o cartão e sigo para Cascais de comboio. Mais uma viagem, mais uma voltinha...

segunda-feira, 19 de março de 2012

a viagem

foto tukayana.blogspot
Depois d' um fim de semana abençoado, aqui estou saindo do Porto, de regresso a casa.
No intercidades, com destino ao Entroncamento, o sol ainda alto, temperatura amena e uma carruagem lotada de gente bonita. No norte há gente linda, ar limpo, moderno e discreto. Este comboio vai carregado de gente dessa, e tenho p'ra mim, assim como quem tem uma teoria, que deve ser para não quebrar a harmonia deste fim de semana mágico e prolongar o estado de graça que afinal, desde sexta-feira, conquistei em Lisboa com o jantar para 21 pessoas que confeccionei, para o Alfama-te.
Onde está a clara insegura e cheia de medo de falhar? Não sei. Sei que me descolo dessa criatura frágil cuja pele vesti uma vida, para me aventurar até onde o impossível me disser que é o limite.
E o espírito aberto, alegre, disponível e convicto continuou o percurso na noite que acabou no espaço da Mira, uma brasileira da Amazónia, simpática e generosa que mais do que explorar o Tejo Bar, recebe quem ali vai com sorrisos e boa disposição, num tu cá tu lá que é mais você, não fosse ela brasileira, do interior dum brasil que nem todos, se calhar, nenhuns, conhecem.
E apesar de dormir, miseráveis quatro horas, à semelhança da noite anterior, o espírito mergulhou no fim de semana num atirar-se de cabeça , num vaipe, num perder a dita cabeça e ala moço que se faz tarde, que nesta fase da vida não dá para adiar p'rá amanhã o que a gente pode fazer hoje, quando é para daí retirar prazer, gandaia, caipirinhas, de nos fazer pensar que já não temos os pés no chão, foi isso que me aconteceu sexta, quando me puseram uma nas mãos que de estômago vazio e cheia de sede, sôfrega bebi e  não fosse apanhar o ar fresco da noite Alfamada da cidade má linda do mundo, tirando a minha Luanda, entre becos e esquinas, escadas de madeira íngremes e um stop maria clara que tens de ter juizinho e ia ver-me a tentar triste e ridiculamente fazer o quatro, prova provada de que o álcool já subiu à cabeça e já desceu às pernas e que tentativas são deprimentes recursos usados pelos bêbados de ocasião, porque os outros não fazem quatros, fazem figuras mais tristes ainda, verdadeiros trinta e uns.
Claro que a Mira se encarregou d'ajudar a que os vapores da lima (?), gelo(?) e cachaça ( yes ) se esfumassem, oferecendo a companhia, a risada e a desvalorização da coisa. Passou rápido porque nem mais uma gota passou na minha garganta,  nessa noite, e até hoje, que eu cá não sou pessoa de copos e canecas. Das últimas só de chá.
O comboio vai parando nas estações e à medida que isso acontece uns e outros vão fechando os olhos e dormitando. Não tenho sono. Ontem à noite, apaguei de cansaço. Inquietantemente.  Assustando a minha companhia de quarto de hotel. É. De vez em quando, se estou de companhia, relaxo e  tenho pesadelos na vigília do sono. E stresso quem está na cama ao lado. Ah pois! Não há peixe p'ra malucos que as minhas companhias não se atiram para a minha cama que aí vai disto, que o respeito é  bonito e eu gosto. Quem me ensinou isso foi a companhia deste fim de semana que nunca pede um quarto com uma só cama. Depois duma vida a dividar cama, passei a dormir sozinha e achava um desperdício tanto espaço. Hoje, ninguém me apanha a dividir cama de bom grado. As pessoas mudam de vontades quando se mudam os tempos.
O casal da frente de vez em quando troca olhares comigo. Não me apetece tirar os fones, largar o computador e entabular conversa. Nem sempre nem nunca. São namorados. E lindos. Parecem manequins. Ela morena, cabelos compridos castanhos e um sinal no rosto, igual ao da catarina furtado. Olhos castanhos  ternos e honestos. Ele loiro, pele branca, enorme e elegante. Gente que me parece bem. Dão as mãos como fazem os namorados. Ao meu lado uma miúda que deve estudar medicina. Falou com duas pessoas ao telefone, sobre as aulas e utilizou palavras como catéter, também em fazer uma óssea, não sei o que isso quer dizer,  e outras que me permitiram perceber estar na área da saúde. Mas um pouco chatinha a miúda, o que provocou algum incómodo na namorada do bonitão que de vez em quando olhava para mim e passou a prestar atenção à minha parceira do lado depois dela dar nas vistas, falando alto ao telefone e abrindo um iogurte grego que comeu.
No corredor, um miúdo, entusiasmava-se com o miar dum gato invisível. Onde é que tá o gato mãe? E espreitava os bancos e os pés dos viajantes. A mãe, mulher magríssima, cabelos compridíssimos, e nariz de papagaio fez-me lembrar a Luísa que se se apaixonava por uma criatura com nariz de papagaio dizia manipuladora: Nariz não marca feição. E eu contrariava-a, lembrando-a da " descansa ó bico ", uma  criatura, aí para a idade da Luísa que trabalhava num local frequentado quase que obrigatoriamente, pela população torrejana. A descansa ó bico ganhou a alcunha porque o nariz marca feição sim, não fosse ter aquele nariz enorme e virando a ponta para baixo até à boca e poderia ser uma mulher diferente. Mais  simpática. Esta mãe era bonita porém um pouco sisuda para quem tem beleza, é nova e tem um filho tão esperto e bonito. Quando  finalmente desci na minha estação, ela e o filho desceram também, atropelando a minha saída. Lá fora um homem aproximou-se deles, deu um beijo a ambos e perguntou à mãe: Então? Não vens bem disposta, não querias vir embora do Porto?
- Dá lá a mão ao teu filho...
. Beeeem! Como estamos...para a próxima ficas lá.
Eu é que me vi nas amarelas para dali sair. Fiquei sem bateria no telemóvel. Recebi uma chamada do mano Zé mas não a tempo de responder. Morreu-me o telemóvel e bloqueei. Saída das saídas? Pedir num dos snack bares em frente à estação que mo deixassem carregar uns minutinhos para me ligar ao mundo que me salvaria de mais um transporte ao serviço do povo, quer dizer, o mano Zé deve achar que está ao serviço do povinho pois é solicitado não só por mim, e mais do que um já é povo. Apesar de ser mulher a criatura que me atendeu, sim, apesar de ser mulher, não se negou ao favor e pude finalmente perceber que tinha, não o mano Zé mas a Joana à minha espera para me levar a casa.
Dou por finda a minha viagem. Foi boa. O fim de semana foi óptimo. O motivo da minha ida para norte foi nobre. Um príncipe reinando num palco e encantando-me como nos contos de fadas que nunca vivi mas mas lhe contei antes dos sonhos das suas noites de criança.

sábado, 17 de março de 2012

Viajando


Há umas duas horas comi uma francesinha, no lugar onde elas melhor sabem. No Porto.
Tenho de dar a mão à palmatória e concordar com alguém que me cruzou a vida num algures não muito lá atrás, que dizia que cada paladar no lugar de origem. Embora tivesse contrariado essa idéia, porque nem todos são privilegiados de forma a viajarem e conquistarem assim o nome de cidadãos do mundo, sei que não há como cacussos no Panguila, sardinhas em Lisboa, alheiras em Mirandela, francesinhas no Porto.
O que será que se come em Guimarães? Não fiz trabalho de casa, porque me trouxe aqui algo que se saboreia com o coração e não com a boca. Mas hei-de averiguar.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

mais uma voltinha, mais uma viagem

- Ó Inês...Inêeeeees...
Silêncio.
- Ó Inês, queres responder ou não?
Silêncio. Risinhos à volta.
- Ó Inês, és capaz de fazer sexo por dinheiro?
- Paaaaaarvo! - diz a Inês.
- Diz lá, és capaz de fazer sexo por dinheiro?
- Vai-te f...., meu.
- Responde Inês.
- Nãaaaaaao pá!
- Ainda bem, porque não tenho dinheiro comigo.
Gargalhada geral.
- És mesmo estúpido - diz a Inês.
Passado um instante, a voz do puto " estúpido ":
- Bruno, sabes o que é uma taxa moderadora?
- Eu não! Só sei o que é uma taxa progressiva.
- Estás em economia, meu, e não sabes?
- A stora não disse.
A Inês entra na conversa e diz:
- Vai ver à net.
- Vou, vou, Só porque este gajo quer...
À sexta-feira, debaixo de um nevoeiro fortíssimo, o autocarro que parara antes da rotunda do mercado, junto à polícia, mesmo em cima da passadeira, para me apanhar pois vinha atrasadíssima e fintei o sr. margarido aparecendo-lhe a arfar, na passadeira, ia deste jeito. Em jeito de fim de semana antecipado.
As catatuas saudaram-me com um sorriso de orelha a orelha dizendo: Estávamos mesmo a falar de si. Já pensávamos que tinha começado o fim de semana mais cedo.
Sentei-me. Tinha o coração a mais de mil. Ando com o coração a mais de mil...
A minha viagem, hoje, pela manhã.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

rio abaixo

foto tukayana.blogspotVou ali e volto já.
Um bom dia de feriado. Hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição e também dia da Justiça.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

alguma vez tem de ser

Ontem fiquei cheia de vontade de conhecer São Petersburgo!

sábado, 3 de dezembro de 2011

para...lisboa...

foto tukayana.blogspotDepois de quase virar uma estátua de gelo ( quem me mandou ir de corpinho bem feito como se fosse um dia frio de verão? ), enquanto esperava 15 longos e gelados minutos, lá chegou o dito cujo comboio, que pára em todas e mais umas quantas, numa pachorrice de me " enervar " o sistema nervoso, como inventou a Cátia da Casa dos Segredos. A Cátia, senhores, a Cátia Ganhou, como diria o mwangolé se fosse também um jogador do concurso.
O comboio parou e eu avancei para ele. Mas há coisas que só faço se não tiver quem faça por mim. Carregar em botões. Campainhas. Não fui talhada para tal. Quando mete mãos a habilidade foge de mim a sete pés. E o instinto não é coisa natural. Toco? Abres? Não abres? Abriu e eu entrei dando de caras com o pica, meu velho conhecido destas andanças das viagens de comboio a partir de Riachos. Umas vezes para Oriente outras para...pois é.
O pânico instalou-se quando quis dizer o nome da estação e não se fazia luz, e assustada fiquei num, por amor da santa, que o pica é que teve de dizer que, senão ia para o Oriente ia para Santa Apolónia, uma vez que eu lhe dissera:
- Era um bilhete para...Lisboa. E aqui já eu tivera uma dolorosa branca que me fez subir um calor à cabeça e um frio que me arrepiou o dedo grande e dormente do pé daquela perna que sofe de " aziática " ( no dicionário da Cátia mas que apenas quer dizer ciática ) duma hérnia antiga na lombar ( que por acaso (?) me tem aborrecido ).
O pica olhava-me num misto d'olhos de carneiro mal morto e sorriso de pavão. Foi constrangedor e mais do que tudo assustador.
Canário! Às 8 e pouco dum sábado solarengo mas frio de regelar os ossos todinhos do corpo, depois de dois dias fechada em casa tendo como companhia o computador, o skype e o facebook, o telefone, a televisão e a preciosa e imprescindível Pitanga, depois de passar os ditos dias lutando para vencer uma kamueca que se me deu de ver tudo à roda ( tipo bêbeda (?), já tive isto ) e sintoma puxando sintoma ( se não me acautelasse ainda estava lá agora, de molho, sentindo-me a mais desgraçadinha das criaturas ), já dava comigo a chorar baba e ranho, depois de jantar no mano Zé um jantarinho de alto risco, apesar das minhas entranhas estarem desgraçadinhas de todo, aqui estou eu meio esclerosada num pânico que nem quando o homem disse - santa apolónia , eu respirei aliviada. Pelo contrário. E apelei aos Coldplay cantando ao meu ouvido don't panic, pois o futuro a Deus pertence.
O Ribatejo fica para trás. Como gosto de ver a lezíria nas minhas costas...que bela que é a lezíria...
E também gosto de ir com o Tejo na minha esquerda. E chegar a Lisboa...
Dou comigo a pensar que sou mortal. E que alguém hipocondríaco uma vez, para sempre hipocondríaco. Não consigo esquecer que me esqueci do nome da estação...
Bem, a minha cabeça também serve pra ir ao cabeleireiro e um dia destes nesta loucura que temo, ainda apareço loira.
Só que continue a saber para que serve o comboio! É que isso de ficar a ver passar os comboios e perder a viagem, dá comigo em doida, mas isso pode acontecer aos melhores, não?
Não?!!!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

montar???

Não era a primeira vez que o puto estava sentado no " meu " lugar. Vi-o indeciso. Se tirava o saco ou não. Os dois de trás estavam também expectantes e com ar divertido. Vinham a conversar. O do meu lugar, virado p'ra trás.
Putos de dez anos a caminho da escola. O autocarro do sr. margarido parando em frente à E.P.P..
Posso sentar-me? E fui avançando. Não teve outro remédio senão agarrar no saco de educação física, ( só pode, pelo volume ), e colocá-lo no colo.
- Porquê? Achas que ela não é gira? disse aos colegas de trás.
- Acho que é. Não vais é conseguir montá-la - disse o outro.
- Achas? Vai uma aposta.
- Eu não acho. Tenho a certeza. É muita areia para a tua camioneta- acrescenta a miúda que estava mesmo por trás de mim.
- Ai é? Apostamos?
- Brother, leva a bicicleta - terminou a miúda, enquanto se levantavam para sair do autocarro que acabara de parar na garagem.
Encolhi-me no lugar, desviei as pernas para o corredor para o puto passar enquanto a irmã e a amiga se aproximavam. A irmã é a Andreia, a adolescente que embirrou com o meu chapéu de chuva no TUT, em dia de chuva, mas que entretanto se aproximou e só não somos muito íntimas porque não é p'ra sermos. Tenha a santa paciência. Ultimamente encontro-os no autocarro do sr. margarido que passa pela casa deles, no Vale. As coisas que eu sei!
E o que não sabia é que este puto de dez anos fala em montar como se...quer dizer, terei eu percebido o que significa montar? Afinal estas criaturinhas em crescimento falaram em camioneta e em bicicleta. Fará sentido?
Tenho p'ra mim que não. Que não vale a pena. Abismar-me. São só putos de dez anitos. Não mais.