terça-feira, 17 de abril de 2012

vizinhança


Trrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Trrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiim!

Levanto-me do sofá e vou espreitar. Minutos antes ouvi os índios baterem a porta da frente e descerem a correr escada abaixo.
Ou eu vejo mal ou o óculo da porta está meio baço. Percebo que é mulher e ruiva. Gorda e de óculos. 
Desconfio desta figura e decido abrir a porta. -Olá, queres pagar o condomínio? -Claro. A Pitanga vem também e despachada já está a cheirar-lhe os pés. Apeteceu-me dizer-lhe: Que nojo Pitanga!Em vez disso fui buscar a carteira. Não tinha troco. Desceu dois andares e voltou de seguida com a nota de 5 euros. Queria conversa. E começou: Já viste isto? Como é que uma porta destas cai sozinha? - franzi a testa.
- Caíu sozinha? Não  pode ser. Uma das portas do contador da minha vizinha do lado.
- Diz que sim. Dão cabo de tudo. E as vezes que a luz das escadas fica acesa a noite toda? Ainda ontem fui apagá-la à uma e meia da manhã. Pois claro, pensei eu. Como é que alguém está à coca do que se passa no prédio a uma hora tardia? Ela e a vizinha do rés-do-chão. Já é sina as  vizinhas do rés-do-chão serem cuscas. E continuou - Os miúdos são o que são.  E a mãe é bruta e não lhe digo mais nada, que é mal educada. A  mãe em questão, é a minha vizinha que se mete comigo a propósito das compras e me trata por vizinha quando me encontra na loja da Rita ou nas imediações. Que já fez festas à Pitanga e me cumprimenta sempre que me vê. E ri-se. E até já me pediu um pau de canela para fazer arroz doce. É bruta e pode ser mal educada? Podemos todos. 
- O marido não, diz. O marido é pacato e educado. Já estava cá a faltar. As cuscas têm sempre simpatia pelos homens da casa. Só não têm pelos delas que os põem nas ruas da amargura. 
- Eu quase não conheço o marido, disse eu. Mal o vejo. 

- Olha, estava cheia de medo dos meus vizinhos da frente. Dos que pudessem vir para cá. Sabes que a casa já foi alugada... Não. Não sabia. Deixei-a falar. 
- Tinha medo que viessem para aí, ciganos. Jesus Maria! É que eu já estou como a minha cria. Como é que ela me foi dizer uma coisa destas?! A mim? Fiz esforço para ficar calada e consegui. Deixei-a continuar - Mas não, felismente. Voltei a respirar fundo para não disparar a matar.
Ela prosseguiu.  É um viúvo. Entra e sai e não faz barulho nenhum. Nem se ouve. 
- Mas vive sozinho? perguntei. - Não, vive com um filho. É o Sr. Francisco. Deves conhecer.  Deves conhecer...esta mulher pensa que eu dou fé como ela nas pessoas que moram nos prédios ao lado, na frente, atrás. Na cidade inteira, só porque sim.
Prossegue  -  Morava ali no prédio da pizzaria. Ainda não te cruzaste com ele de manhã? 
Ao invés de lhe dizer: Vai-te catar, minha. Se estivesses a vergar a mola como eu nem sequer tinhas tempo p'ra te catares quanto mais para fazeres a radiografia a  quem mexe. Mas fiquei-me  pela resposta mais ou menos correcta.- Não. De manhã saio a correr. Ah, e a porta está sempre aberta de par em par, disse. Já que o marido é o administrador do condomínio que não se fique só pela cusquice e providencie para que a porta se mantenha fechada, mas a criatura o que queria era dar recados e continuou:- Pois, pois. Olha, de manhã eu oiço é a tua varinha mágica. Todas as manhãs. Eh paaaaaaaaaaá! Eureka! Bingo! Finalmente fez-se luz. A mulher chegou lá, onde queria. Tanto rodeio mas conseguiu. Ri-me.
- A minha varinha? Como?
- Sim. A varinha. Eu achava estranho  que fizesses sopa todas as manhãs. Só para ti...A Augusta a essa hora  já não está, mas só podias ser tu.Eh paaaaaaaaaaá! Um  caso de polícia. Quem faz sopa às 8 da manhã? Eis a pergunta. - Mas olha que a vizinha do rés-do-chão achava que era eu que me punha a fazer sopa logo ao acordar. - Não faço sopa a essa hora. Queres saber o que é? E os olhinhos dela sorriam expectantes. Há gente muito pequenina e esta só não parecia uma formiga porque estas são um exemplo. Bicho que respeito e nunca mato e animalzinho que alguém que amo muito, mais admira. E disse que todos os dias faço um batido e uso sim a varinha mágica. E não lhe disse que temos pena mas não vou deixar de o fazer porque as madames às oito da manhã não querem ouvir a varinha mágica.  Pois temos mesmo pena mas se se apagam luzes à uma meia da  noite era o que me faltava que não pudesse tomar o pequeno almoço que me apetece. 
Ontem, passei mal. Quando assim é assusto-me porque estou sozinha. A precisar de repente, tocarei à campainha  da mãe dos índios ou da Augusta. Esta nem me ocorre. Porque será? Porque a ignoro. Esqueço-me dela até que ela me lembra da sua existência porque está sempre à janela ou me toca à porta agora que é mulher do administrador do condomínio. 
Vizinha querida, que conheço há 3 décadas e da qual nunca consegui ser amiga, percebe-se bem porquê, tens de gramar a minha vizinha do lado e aos seus insubordinados filhotes.
E a mim e à minha varinha. Até que me reforme ou enjoe os batidos.

1 comentário:

apenas umas letras disse...

olá. ricas vizinhas que tem...cuscas. beijos