terça-feira, 18 de dezembro de 2012

tenham um bom dia


Acordei com uma dor imensa no meu braço. Já fraturaram um ombro? É isso. Passados dois meses ainda doi que nem um condenado. Ainda me limita como uma velhinha cheia de reumático.
Abri um olho. Espreitei a janela. Noite ainda.
Senti um peso na cintura. Apesar da hora percebi o que me pesava. Quem me pesava. Não. Nada disso. Apenas uma gata. Nunca acordaram com um/a gato/a em cima? Pois, então não têm gatos, porque gato que é gato adora atracar-se aos seus donos e deixar-se ficar.
A Pitanga adora mais do que qualquer outro, eu acho. Ela quer colo, quer estar ao meu lado, na minha cabeça, nos meus pés, quer estar em todo lado assim se fazendo tão presente que até chateia.
Numa madrugada de sábado me interrogo se já não estou a chegar naquela idade que nem os meus vizinhos do Olival Basto, que a partir das seis da manhã ligam o rádio e ficam ouvindo música na cama, suponho, porque não devem precisar de dormir mais. Há 10 anos que é assim.
Levanto-me. A Pitanga olha-me, como sempre. Tiro os óculos da gaveta da mesinha de cabeceira. Porquê dentro da gaveta? Não, não sou algarvia que tem gavetas em tudo quanto é sítio para esconder a comida e outras coisas dos que batem na sua porta ( algarvios que me desculpem, se é o que dizem é muito, se é o que eu vi não é nada mas serve para a piada ). 
Na verdade o que acontece aqui em casa é que Dona Pitanga acha-se muito. E por se achar demais se me apanha os óculos, quere-os. Não para ver melhor porque acho tem olhos de lince, mas para brincar, e tomba-os, e óculos senhores, custam-nos os olhos da cara, agora é que é mesmo para rir, mas se ela mos parte choro que nem uma madalena arrependida de ter gata, de ser pitosga e de ter nascido pobre que tem que fazer muitas contas de cabeça para mudar de lentes.
Óculos postos, vejo as horas. Escandalosamente cedo. Estou louca? Ainda não são seis. Estou pior que os velhos do Olival. Será porque durmo sozinha? perdão, com uma gata? Será...
O psicólogo mandava-me tratar disso, mas eu não quero nada com essa raça. Existem alguns na família e santos da casa não fazem milagres.
Levanto-me. Dona Pitanga segue à minha frente. De vez em quando olha para trás. Para controlar a minha marcha, não vá eu desviar-me para  a casa de banho. Tem razão. Faço-lhe essa finta que me diverte sempre. O que vale é que nunca acordo com o amoque. Para quê? Vocês acordam mal dispostos? Não vale a pena. Temos tempo de nos deixarmos manipular pelas agruras do dia. Conheço uma criatura, assim chegada, que na primeira hora, ninguém lhe fale que é capaz de matar. P'ra quê esse mau feitio? Ganha-se rugas e isso não dá com nada. Até porque o creme para as atenuar, disfarçar ou com elas conviver duma forma elegante, altiva ou distante, custa-nos os olhos da cara, como aos óculos. 
Na casa de banho arranjo meia dúzia dessas rugas de expressão quando percebo que se não me chove em casa, jorra-me água do chão. Depois de perceber de onde nasce tanta água maldigo a minha triste sina. Inevitavelmente penso no pilim que me cai na conta a cada fim do mês. Pouco. Para tanta despesa. Mais os extras que ao invès de serem por exemplo uma ida ao cinema, uma ida ao teatro, ao sushi, ou mesmo ao bilhar grande, porque não? se transforma no pesadelo de chamar um canalizador. 
Eh pá, é quando chego a esta parte que não evito pensar que sou uma masoquista. Gosto de sofrer é o que eu acho. Então a teoria de que quando a gente tem um amigo, namorado, companheiro, marido, amante, sei lá, um qualquer coisa para todo o serviço mais o de canalizador, trolha, pedreiro, jardineiro, electricista, motorista, enfermeiro, homem estátua, não o devia dispensar ou ser dispensada, sem exigir um curso intensivo dessas valências todas que a gente não liga quando eles nos infectam a zona mas que damos o braço a torcer, eu dou, quando na despensa ficou a ferramenta mas a criatura não está à mão de semear nem nós queremos no mais das vezes mas que fazia falta para estes servicinhos fazia pois que não tinha lata para cobrar em nome de tempos bons?! Essa teoria, voltando a ela porque disso se tratava deita por terra a ideia de que, ah pois não preciso de ninguém, que o dinheiro paga tudo. Mentira. Quando a crise aperta é preciso lutar com todas as armas. E em tempo de guerra não se limpam as ditas, é ou não é? 
Bem, não estou para aqui a dizer que chamava cá a casa o ex-canalizador de serviço 27 anos, nada disso, mas cada vez que tenho uma avaria, cobro mais essa. Não ter recebido umas aulas de bricolage. Faziam-me falta agora. Acho que é de propósito que eles não nos ensinam essas coisas quando estão. Primeiro porque querem ser os maiores da cantareira e sempre solicitados e depois para a eventualidade de se porem a milhas, serem para  sempre imprescindíveis. Sim porque é isso que acham. E depois, valorizados. E por fim, recordados. Uma ova! Apenas são falados, e diz o povo que pessoa falada é pessoa mal afamada.
Vou buscar a esfregona. Limpo tudinho. Enquanto limpo não evito pensar, para que uma mulher está guardada. Apre, xiça, penico! A inevitável esfregona! Raça de sorte a nossa. Olho a água e ganho uma preocupação mais. Atiro-a para trás das costas. Hei-de resolvê-la. O que quero mesmo neste momento, é beber um copo d' água, e voltar para a cama depois de pôr comida na Pitanga que anda muito solidária na crise que vamos sofrendo cá por casa. Então não é que tive uma converseta de pé de orelha com ela e penso eu de que, desta feita entendeu tudo na perfeição e até aceitou? É que latas gourmet de camarão e salmão a 99 cêntimos são para fidalgas e aqui somos as duas da plebe. Contrariadas, mas somos.
Depois dessa tarefa volto para a cama. Sinto-me cansada. Com o sono interrompido. É sábado, caraças! Apesar de estar pendente d'um telefonema para quem sabe, ir para Lisboa, ir dar um abraço, dois ou três, a gente minha, apesar de estar a afiar o dente para uma ida ao sushi, cujo vício é dum prazer tão bom que me faz dizer sempre, que se lixe o resto, eu gosto e pronto! Apesar de estar já meio desperta, ainda quero sentir o calor dos lençõis e do ededron. O prazer de me saber pronta para o lazer livre da escalada do viaduto à chuva a caminho do dever que me dá o bem-bom ao fim do mês, apesar de tudo, enfio-me na cama. Bem no centro, pois que finalmente recuperei a posse duma cama inteirinha para mim, sem traumas.
É. Eu devo ser meio esquisita. Ou não. Nunca falo com pessoas sobre estes assuntos por isso não sei se há o sindrome da cama vazia como o da casa, do ninho, do lar vazio. Na verdade uma criatura passa meia vida dormindo acompanhada. Do lado direito da cama e ganha essa posse. 
A posse da metade e usa-a com um orgulho ridículo. O meu lugar da cama. Parece título de livro de cordel. Quando ganha os dois lugares da cama, acha que perdeu. Não aceita. Depois não precisa. Depois ainda, não se habitua. E como a lagartixa que não quer chegar a jacaré, aninha-se ali na sua metade e pensa até que cama de um corpo só, chega bem. 
Nunca! Há um dia qualquer que rebola na cama e se instala bem no meio. E sabem quando percebe o que sente? Quando diz: Finalmente estou inteira. Mereço a cama inteira. 
Vão por mim que é verdade. Digo eu, pois que não sei o que vai nas vossas mentes, nas vossas vontades, nas vossas necessidades. Há uma amiga minha que diz com uma certa piada: Roupa de homem na minha casa, só nos pés da cama... ;)
Bom, com isto tudo, despertei. O dia nasceu. É sábado mas eu de repente fiquei com vontade de escrever. A primeira frase já surgiu. As pontas dos dedos estão em fungas. O meu escape...
Rendo-me. Acordei com uma dor no braço. Não me impede de escrever, graças a Deus e a todos os santinhos. O universo é meu amigo, eu sei. Sou sortuda, pois sou. Mereço? Não sei. Talvez sim, talvez...sim. E para não parecer muito presunçosa, cheia de mim, arrogante e armada em mete nojo, digo politicamente correcta que...todos merecemos.
Tenham um bom dia e que Deus vos acompanhe sempre. Portem-se bem ou mal, conforme se sentirem mais felizes. Mas façam qualquer coisa por vós. Eu vou tentar. Estou a tentar desde que acordei. 

1 comentário:

apenas umas letras disse...

Olá. as melhoras para si. Nunca fracturei nada, felizmente. Usei gesso em pequeno mas foi entorse no braço. tem é de fazer muita fisioterapia. beijos e as melhoras