segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Não é insulto, é recado



Para me, vos, situar, digo que já estamos no terceiro dia de Dezembro ( natal à porta, miséria à janela ) e é segunda-feira. 
Em Lisboa está um frio de rachar. O sol entra pela janela da sala. Parece um paradoxo, mas não, é mesmo assim. A Natureza dá-nos o que é natural. 
Estamos num Outono difícil sobretudo porque me parece que este ano, Deus que dá o frio 
conforme o agasalho, podia dar um jeitinho mais e forçar os comerciantes, ou o contrário, estes meterem a cunha a Deus para apressar o tempo e feirarem em saldos loucos para que os 
pobrezinhos que somos quase todos pudéssemos comprar uns casaquinhos, umas ceroulas, um 
gorro ou um cachecol em conta, para nos protegermos destes tempos agrestes. É aqui que penso que uma desgraça nunca vem só...
Acordo tarde. Curiosamente acordo depois das oito ( muito tarde, lolol ). Tarde, sim. Bués. 
Dado que em dois meses de boa vida ( há quem ache isso, há até quem ache que foi um estágio 
para a reforma) acordei sempre de madrugada e com uma dor no meu braço esquerdo que não me deixava usufruir da posição fetal de que tanto gosto, do calorzinho dos lençóis térmicos e 
do edredon de penas. Com muita pena minha. Bem sei que para os que lêem é assim mais ou 
menos um, penas que não se vêm não se sentem. Pois. Só mesmo quem está no convento é que 
sabe o que lá vai dentro. E eu nesta situação meio trágica de estar um pouco incapacitada em modo de braço ao peito, o meu rico bracinho esquerdo que no caso é o direito, por ser canhota, tenho a consciência que ajoelhei, espalhei-me ao comprido e tive de rezar uns quantos pais- nossos, vossos, deles, tortos, umas quantas avé-marias e muita paciência de jó para não me sentir a mais infeliz das criaturas ao cimo da terra. Desta terra que me acolhe mas não é minha. É deles. Nunca comprei nenhum pedaço ou lote e se o tivesse comprado não me aguentava à bronca com tanto imposto. É deles sim. Deste país que está de pantanas mas sorridente, que diz que somos ( ? ) um povo alegre e hospitaleiro.
Sorrio para a minha imagem. Já que faço parte desse povo meio pateta-alegre. Só para confirmar. A minha figura desgrenhada no corte de cabelo que fiz há uns dias, aparece-me ridiculamente cómica. Para não parecer trágica. Como o país que temos. 
E dou comigo a falar para o espelho:
Maria clara, estás linda, estás! Já te faltou mais para seres aquilo que toda a vida temeste. Uma velha pataroca,desgrenhada e pobre. Indigente. E até doente.
Acordei com uma dor nas costas que me impede de andar com normalidade. Sei que pode passar ao longo do dia. São os músculos, é da hérnia, do frio, do sedentarismo, sei lá bem eu! Nesta coisa de ser polícia de mim própria, verdadeira militante, não confundir com narcisista, conheço cada pedaço de mim como ninguém e já senti isto tantas vezes que sei que um ou mais voltaren, relmus ou outro qualquer, adia a questão ( somos pródigos nisso ) ou resolve-a. Quando não a resolve, uma corridinha ( com os pés bem assentes no chão ) ao senhor doutor e o assunto fica resolvido em três tempos com uns tostões na farmácia que também precisam de ganhar o seu pão de cada dia, umas injecções dadas pela senhora enfermeira que anda à lamira de mais uns euros nos bolsos, que isto está mesmo mau, ainda há quem não acredite e se ria por cima da carne seca, mas que um dia destes estamos a comer o pão que o diabo amassou, ah isso estamos. Já vi menos jeitos. Esse pão amassado pelo diabo, rijo que nem cornos, capaz de ser atirado aos ditos dos que nos puseram neste estado. E será uma verdadeira foguetagem esse tiro ao alvo de pão rijo que nem cornos pois os responsáveis são mais que as mães. 
Sento-me no sofá para aliviar as dores nas cruzes e este stress de segunda-feira, vésperas da minha rentré no mercado do trabalho ( ai jesus que lá vou eu ) e ligo a televisão. 
Eh pá, se queria aliviar-me escolhi mal. É que não há canal nenhum de notícias que não fale mais do mesmo. E o mesmo é duma sacanagem tão grande que antes que me dê o tangolamango, mudo de canal. Mas como não sou de modas, destilo o meu veneno porque preciso purificar-me. 
E como uma velha desgrenhada, pobre, doente e pataroca ao ver uma certa criatura arrogante ( rato matreiro ) que ostenta sempre o mesmo sorrisinho cínico naqueles lábios finos de pessoa mesquinha que nos tem atormentado a vida e provocado uma azia ( ele é que come o queijo e nós é que aziamos ) e uns nervos que nos há-de mandar para o beiral ou para o jardim das tabletas, falo alto. E falo sozinha.
Dona Pitanga olha para mim incrédula mas não recuo.
Falo alto, repito. Falo sozinha e descarrego o meu mau feitio, as minhas frustrações e impotência na minha rica televisão, na esperança louca que lá na terra longe onde a criatura foi botar charme, me oiça. E desmonte a personagem. Não desmonta. Nem há milagre que o faça. 
Tão pouco há uma ratoeira que o apanhe. Os apanhe...
- Vai à tuge, meu! Que já não te posso ouvir. 
E mudo de canal muito mais aliviada



2 comentários:

apenas umas letras disse...

Olá. as melhoras para si e um abraço. beijos

Maria Clara disse...

obrigada,Nuno. Bom fim de semana.