quarta-feira, 19 de setembro de 2012

se eu fosse o verão



Se eu fosse o Verão, dava tudo por tudo, nos próximos dias. Decadentes e tristes dias da despedida.Não saía de fininho, rabo entre as pernas, por entre os pingos da chuva como que a esconder-me envergonhado, fustigado,
culpado. Qual burro carregado de pancada…
Não. Mil vezes não. A saída tinha de ser em grande. Não é o sol uma estrela? Pois então? Uma despedida cinco estrelas para ninguém botar defeito.Haviam de se lembrar de mim nos dias que vão chegar, cinzentos nas nuvens, nas folhas caindo de murchas e de desesperança, no vento soprando em desfavor, varrendo as ideias e os propósitos optimistas. Nos corações lamentando, nas mãos desistindo e nos rostos chorando. Assim, mesmo que uma nesga, para agarrar e esfregar na cara dos mais cépticos. Se eu fosse o Verão, este ano, deixava a minha marca. A ferro e fogo. Valia tudo menos tirar olhos. “ Lembram-se do verão quente de 2012? Ah sim, aquele célebre, valente e persistente verão, saindo à rua, gritando em brasa no auge da estação . “ “ Ah, escaldante e recorrente Verão, empunhando as palavras no cúmulo da exaustão. Do trambolhão. “Havia de juntar os indecisos. Casar não, que custa dinheiro e custa mais depois, a desunião. Aproximava os idealistas e sonhadores e no calor dos abraços oferecia-lhes rosas e cravos. Vermelhos…Havia de apoiar os lúcidos e expulsar as ideias loucas que no calor do meio dia tresloucam de sede de poder despir mais que se despirem, mesmo que nos píncaros da temperatura que atinge o rubro neste cantinho pequeno, pouco mais que uma acha. Pouco mais…na fogueira perigosa deste Verão. Ai se eu fosse o Verão, saía, mas saía em grande no tapete vermelho estendido. E nas despedidas abraçava as andorinhas, as gaivotas e os albatrozes. Animava as cozinheiras. Comprava-lhes boiões para as compotas e geleias. Para os dias à lareira.Frutava as uvas e as azeitonas. Avermelhava os diospiros e coroava as romãs. Aquecia o insensível e beijava a viúva triste e conformada. Despenteava o puto e coloria-lhe uma bola. Escaldava as águas salgadas do litoral mais próximo. Alumiava o percurso do descrente e protegia os fracos e destemperados. Amaciava as areias. Derrubava barreiras e abria caminhos. De preferência estendendo passadeiras vermelhas.Depois, acenava com o lenço branco e partia. Ao encontro de outros verões. Quentes e kambas. Onde as mangas estão a amadurecer, as acácias ficam ao rubro e as águas da praia recebem os raios do sol e os corpos bronzeados e ávidos de verão.


2 comentários:

apenas umas letras disse...

olá. aqui não temos chuva há muito tempo. se a chuva chegar primeiro aí, dê um pontapé nela e mande-a para cá se faz o favor. beijos

Maria Clara disse...

Ok. Farei isso. Não sei se tenho um pontpé certeiro mas...