quarta-feira, 11 de junho de 2014

um dia com intenção

A minha vida é uma estrada semeada de flores. A chuva vai regando-as. Viçosas se vão mantendo. Algumas são hoje regadas pelas
lágrimas da saudade. Não florescem menos mas têm a candura, o romantismo, a  cor bela da memória, da paz e da eternidade. São
as estevas e as camélias que me enfeitam a vida e me amparam no caminho.
Esta estrada semeada de flores que a chuva e as lágrimas da sobrevivência e da saudade vão regando...
Alimentar a memória é manter viva a minha origem. Perfumá-la. Engrandecê-la.
Hoje não é um dia qualquer. É um dia com intenção. Que foi de festa e conclusão. Do amor.
As minhas flores, em união. Entrelaçando as suas vidas. Jurado que foi amor e lealdade, fidelidade, num todo para sempre até que a morte os separasse.
E cumpriram. E não foi difícil. Porque se amaram e respeitaram muito.
Não nasci dessa união abençoada por Deus e registada pelos homens em papel legal. Fui concebida antes. Quando o amor foi mais forte e se materializou na sua verdadeira essência física. Nasci quando tinha de nascer. Pouco depois da data da celebração.
E à ideia de ser fruto d' um amor sem rede, sem barreira nem preconceito, sem medo, sorrio ainda hoje, neste dia em que faz cinquenta e nove anos que os meus pais  foram à missão de S. Paulo pedir a bênção de Deus e a provação dos homens para viverem na paz santa, o seu amor e união.
A minha estrada pode secar. As flores podem abandoná-la. Mas estevas e camélias sempre acompanharão a minha jornada. Regá-las-ei para todo o sempre. Mesmo que não chova nunca mais.
Hei-de mantê-las vivas com as lágrimas da minha saudade.
Salvé dias como este. Abençoados. que me abençoaram...

de repente

De repente, olho o azul do livro já lido e sinto uma saudade dorida, do azul do mar no fim de tarde quente. Do linguarejar das gaivotas perseguindo a velha traineira, das casuarinas da lIha e da lua conversando com o farol.
De repente a dor indefinida deste sentir que fecho a cadeado e me perco da chave, cresce, agigantando-se e envolve-me como se eu fosse a própria dor do mundo. E faz-se presente nesta ausência de tudo o que me memoriza os afectos. Os odores e as cores.
De repente, o metro é um insuportável momento de ócio e impaciência. Um lugar vazio de futuros, de fé e de esperança.
Olham-me. Vejo-os e nada me dizem nos silêncios do cansaço que desenha bocas cerradas, olhares vagos e ombros descaídos.
De repente volta-se contra mim, a solidão geográfica em que me viajo.
Um nada feito de intervalos, de alguns, muitos meios-tempos.
Foi a manhã que não amanheceu sorrindo nem o olho me piscou cúmplice. Foi o caminho solitário de decidir. O encontro. O almoço oferecido. A troca de palavras como beijos, de sorrisos como chuva. Amenizando...
Foi a cabeça doendo, mil miligramas de qualquer coisa. Para males que nem sempre têm remédio. Nem abrem espaço a milagres.
Foi a tarde passando entre roupas e Santos, manjericos e exageros.
E é o metro. A viagem. O sonho de abrir uma porta fechada. Mas não. Ninguém sonha impossíveis e as portas são invisíveis neste fim de tarde que eu queria coroar de borboletas. Daquelas da minha saudade. Daquelas que desenhavam voos alegres e felizes. Sem memória nem saudade.
De repente, olho o azul do livro já lido e fico perto do céu. E longe de tudo o que acinzenta o meu olhar.

sonhos meus

É na noite que me calo
E escuto o silêncio chegar
devagar...
É na noite que me dispo
Do que outros me vestiram
Abandono o que não é meu
E deixo-me ir devagarinho
Abraçada a morfeu...
É na noite que os sonhos
Fogem da minha mão
Esgueiram-se por entre o tempo
Ganham outra dimensão
E é na noite, que, liberta
Minha alma viajante
Veste a pele de aventureira
Livre, mulher, amante
E foge de mim matreira
P'ra viver os sonhos meus
P'ra entrar nos sonhos teus.


m.c.s.

na Feira do Livro



O talento é discreto e humilde.
Tem o olhar sereno, a voz doce e a cor da paz.
E a energia dos bem-aventurados.
O talento, este, é da minha terra.
Neto d' um homem do Namibe.
E chama-se Ondjaki.
Ganhei o dia, hoje, na Feira do Livro.
Que privilégio ouvir este escritor!
Que alegria adquirir mais um livro dele...

reflectindo

Nem sempre o que procuro encontro. Nem sempre o que encontro, procuro.
É o destino a brincar aos encontros e desencontros.
Sou eu que não me acomodo nem desisto...


m.c.s.

ser ou não ser

O que é, não ser português?
É ser o que sou. Não tenho a pátria. Nem a bandeira. Nem a terra.
Não tenho a pertença.
Não tenho plurais. Não conjugo verbos na primeira pessoa do plural.
Nós, não existe na minha linguagem de cidadã com bilhete de identidade português.
As Nossas praias. A Nossa selecção. O Nosso país. O Nosso hino. Os Nossos rios. O Nosso povo. As Nossas tradições. A Nossa tropa. Os Nossos artistas. O Nosso clima. A Nossa música. Os Nossos poetas. Os Nossos políticos. A Nossa crise.
O orgulho português que atinge os portugueses, esse não o tenho. Simplesmente o digo. Sem qualquer intenção ou arrogância.
Não o tenho e ponto.
Nascer no continente africano mudou o meu destino. Bem sei que aquele pedaço de terra catorze vezes e meia maior que Portugal, o seu país colonizador, era isso mesmo, um pedaço de terra, colonizada, que alguns, muitos, teimavam em dizer que era Portugal.
Sensitiva que sou, desde muito nova, tudo me dizia, até o medo estampado em cada português nessa terra, que aquilo não era portugal. E apesar de pais portugueses, cedo percebi a que país pertencia. A que país queria pertencer. A que pedaço de terra eu iria sempre chamar minha. Minha pátria. Minha bandeira. Minha terra. Minha gente. Minha pertença.
Junto de qualquer ser na minha condição, naturalmente, inconscientemente, alegremente, o meu bilhete de identidade , o outro, aquele de que me orgulho com toda a posse de ser, toma forma dentro da minha memória e a conjugação dos verbos na primeira pessoa do plural acontece naturalmente, sem que tenha de pensar ou escolher palavras. Sentir-me culpada ou usurpadora.
Como diria o poeta, Ser ou não ser, eis a questão. Que há muito não existe. Mas existiu quando não percebia aonde pertencia legalmente. Nasci portuguesa. Porque Angola era Portugal. A minha terra tornou-se independente. Passei a ser angolana. Mas não deixei de ser portuguesa, porque a isso tive direito. Legal. Porém o fado não é coisa minha. Nem o folclore. Nem o norte ou o sul. Nem os sotaques. Nem os costumes e hábitos. Nem a mentalidade. Nem a personalidade. Nem as dores.
Nós os angolanos, muitos, somos também portugueses. Alguns, muitos, a viverem em Portugal, outros tantos a viverem em Angola e noutros pontos do mundo.
Nós, os angolanos, somos filhos de pais angolanos, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, são tomenses, brasileiros, moçambicanos, sul africanos e de tantas outras origens. Que vivem ou não na terra dos seus progenitores.
Nós os angolanos, podemos ter a influência do povo português, porém temos algo próprio, a alma secular e mágica de África.
Transmitida e absorvida até por aqueles que não nasceram lá.
Não ser português é ser o que sou. Com a dualidade. A génese foi um pormenor. Físico. A alma, essa é angolana.
E hoje, é Dia de Portugal.
Com todo o respeito digo que a escolha foi acertada. Por o ser no dia em que o poeta morreu. Luís de Camões. Um poeta português. Um poeta do mundo.
E digo também que gosto de Portugal. Geograficamente. E também porque os meus pais o eram e os meus filhos, o são. Portugueses. E ainda porque foi o país que me acolheu e de certa forma me protegeu. E por fim porque aqui vivo. Aqui também é a minha casa. E porque sou grata.
Parabéns Portugal!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

nostalgia ( Deep Purple - Soldier of Fortune )




Há momentos da vida, remetidos para o quarto escuro, fechados a sete chaves. A serem tratados como mortos. Esqueletos. Fantasmas. Apenas.
Eu sou feita de tempo. Carrego malas, sacos, baús, trouxas, imbambas, pedaços de histórias, vivências. Não posso fazer a cruz por cima, usar o mata-borrão e apagar-me para sempre. Mas tento.
Sou feita de passado. Carrego os momentos únicos. Felizes. As esperanças e sonhos. Ilusões. As descobertas. Os amores. As paixões.
Carrego os desamores. As derrotas. Humilhações. Traições e desenlaces. Perdas...
Há momentos da vida para lembrar sem mágoa nem arrependimento.
E há aqueles que são para esquecer porque doem quando ressuscitam a um qualquer estímulo mesmo que inofensivo. 
Sou feita de nostalgia. Do que fui e já não sou. Do que não fui capaz de ser e ter. Do que se extinguiu. 
Sou feita de energia e tudo tem o seu tempo.
Há três décadas atrás apaixonei-me. Por Soldier of Fortune, dos Deep Purple. E passou a ser a música da minha vida. 
Foi no tempo feito de melodias, poemas, aroma de rosas, estrelas no céu brilhando, pirilampos e luares de Agosto. 
E enamoramento. Entre promessas, juras, abraços e beijos, gira-discos, cassetes e LPs.
Porque era a música da minha vida, abri o salão, dançando-a, vestida de noiva, feliz e acabada de jurar amor para sempre, lealdade e fidelidade até que a morte me separasse. Do amor.
Como tudo o que acaba, esqueci a música, o nome dela e quem a cantava. Ao longo dos últimos anos, tentei. Lembrar-me. Numa tentativa frustrada de a recuperar, recuperando assim parte da minha vida. Em vão.
Como se nunca a tivesse cantado. Como se nunca a tivesse dançado. Como se nunca tivesse amado.
Passaram trinta e quatro anos desde aquela vez, a última de que me lembro, no dia do meu casamento. 
Hoje encontrei-a. Como que por magia, feitiço ou karma. Como se encontra qualquer coisa. Por acaso, coincidência ou porque tinha de ser.
Que importa?! 
Não se perdeu de mim, nem eu, dela. 
Uma miscelânea de sensações se apoderam de mim.
Há momentos da vida em que nos visita a nostalgia, de braço dado com a sensibilidade e dá-se o reencontro com as nossas fragilidades. Ao som de Soldier of Fortune, dos Deep Purple.

retrato

A minha casa é o lugar onde me dispo de tudo o que não me faz falta e sou feliz na minha pele.

m.c.s.


estamos no tempo dos jacarandás


Já floriram os jacarandás...
Emprestando à cidade, cor e perfume sem fim,
Tapetes lilazes de flores tão belas
Dignas de qualquer jardim
E das mais ricas telas
Inspiro o aroma e me remoço, 
cansada 
deste tempo agreste, chuva e granizo
Geada
E me rendo à beleza do milagre da natureza

Já floriram os jacarandás...
Enfeitando alamedas e parques, 
calçadas, vielas, avenidas, 
Enfeitando Lisboa
Desde a Mouraria
Até Alfama e Madragoa
Espalhando frescura e alegria

Já floriram os jacarandás...
Raiz, rebento, pétala-flor, do jardim
Já floriram os jacarandás
E floriram também dentro de mim.

m.c.s.

bem-querer


Eu não quero ser forte e esconder a tristeza
Não quero ser livre e não ter mil saídas
Não quero estar presa numa fortaleza 
Não quero um abraço no meio da ausência 
Nem mascarar um sorriso que engane a presença
Eu quero chorar quando a dor me sufoca 
Gritar solidão enfurecida
E recuperar minha alma perdida
Caminhar segura, uma estrada qualquer
E abraçar o mundo para o que der e vier... 
E sorrir, gargalhar, das minhas derrotas 
Até ao passado, até à memória 
Até à infância
Eu quero rir-me da minha história
E mais que tudo, sentir-me criança
Não quero segurar, fintar a rotina
E o mundo, no meu pior
Não quero ser forte nem ter razão
O que eu quero afinal, é ser feliz 
Velha ou petiz
Mas morrer de amor
A cada pulsar do coração. 


m.c.s.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

a propósito das crianças

" Adoro crianças "! é a frase que mais oiço por aí, hoje. E ouvi ontem e anteontem. Tenho a certeza de que até ao fim dos meus dias a ouvirei repetidamente.
Pois eu não. E cheguei a sentir-me má pessoa quando me interrogava porque não adorava eu crianças. Por vezes ainda tenho algumas recaídas e penso confusa, porque é que eu não digo que adoro crianças?
Não digo porque na verdade não adoro nada que seja gente.
Será o defeito, meu? Pois não sei nem quero saber. Sei que não tenho de adorar crianças para perceber o que representam as mesmas. Para saber que fui criança, os meus filhos, sobrinhos, irmãos, primos e os meus amigos, os tais da infância, também.
E isso é suficiente para se perceber que não tenho nada contra a infância, por conseguinte contra as criancinhas que eu e aqueles que amo, fomos. E porque sou eu que o penso e digo, também não tenho nada contra as criancinhas de todo o mundo.
Seres que estão no início da sua existência, inofensivos, dependentes, diamantes em bruto, que é preciso amar, (não é nada difícil ), cuidar, ensinar e respeitar.
Paro aqui, porque eu não adoro crianças, mas amo-as. Cada uma que se cruza no meu caminho. E cuido e ensino e respeito.
Às da rua, aquelas que vão ao colo dos pais, pela mão duma avó, ou de mão dada com os coleguinhas da escola, em fila, de bata do colégio e guiadas pela educadora, acho-lhes piada, são uma ternurinha, cada uma mais linda que a outra. Apetece dar um colo, fazer uma festa ou contar uma história.
E às outras, aquelas que fazem birras, esperneiam, batem nos adultos, fazem finca-pé, sei bem o que lhes fazia.
E há as outras. Aquelas que são abusadas. Pelos familiares, por estranhos, pelos governos, por tudo e todos.
E ainda as outras. As que existem, sabemos todos que existem mas nem a estatística acerta o passo ao compasso. As esquecidas por mim, pelo mundo e também por aqueles que dizem de boca cheia que adoram crianças. As que morrem de fome. Que não chegam a ser adultos, como eu.
Por todas essas tenho uma grande compaixão. Mas sei que não sou eu que posso fazer alguma coisa por elas. Tentar, é um caminho. Embora solitário. E denunciar outro.
Existem leis para protegerem os direitos dos cidadãos. Existem instituições. E existem os voluntários. E gente que adora os seres em crescimento.
E não vale a pena tapar o sol com a peneira. Apesar de tudo isso, morrem crianças exploradas, espancadas, violentadas, à fome .
Todo e qualquer ser que seja desrespeitado e vitimizado me provoca sentimentos profundamente primários. Por isso, à minha frente ninguém maltrata uma criança que eu não permito. Nem fica com fome.
Por isso digo presente às solicitações de organizações de apoio. Por isso vou fazendo o que posso.
Se faço tudo o que devia? Não. Disso tenho consciência. E isso belisca muito mais o meu egoísmo que saber que não " adoro " crianças.
É que elas para mim não são um objecto de decoração. O um boneco de corda. Nem a minha animação. Ou compensação. Ou o preenchimento de vazio. Ou pretexto para felicidade. Apesar de serem lindas, bem dispostas e puras. Elas são a vida em crescimento, que eu não tenho de adorar, como adoro malas, sapatos, perfumes, rosas ou chocolate. Mas que eu devo respeitar.
E porque o mundo não respeita as crianças é que hoje, dia 1 de Junho é o dia internacional da criança. Para que cada um de nós medite. Para que os direitos da criança sejam mais uma vez gritados. Exigidos. Para que se chegue aos governos dos países que claramente tratam as crianças como coisas. Para que se faça um intervalo. Hipócrita. Mas um intervalo.
Todos os dias deviam ser dia da criança. Ou vou mais longe, não devia haver dia da criança. É que eu não adoro crianças mas sei que as crianças são o melhor que o mundo tem, pois se não existirem ele extingue-se e nem que fosse só por isso deviam ser tratadas com todo o amor, carinho e cuidado que as coisas preciosas o são. Mas por todos e não só pelas suas famílias.
Ser criança é uma passagem na vida de um ser, um trampolim, uma ponte. Uma árvore em crescimento. Ajudem-na. Criem-lhe condições. Reguem-na. E protejam-na. E já agora, deixem-se de merdas, porque adorar só não chega. Ou melhor, não é nada. É preciso muito mais. Tudo. Como sei? Fui mãe há 31 e 28 anos respectivamente e sei o longo e doloroso caminho que percorremos, eu e eles para que o resultado desse no que deu. Seres adultos, de qualidade quanto baste.

sábado, 31 de maio de 2014

a primeira vez na espiga


Eu era uma miúda. Perdida numa vila pacata do Ribatejo. Com poucas tradições. E mais preconceitos. Uma sociedade desconfiada e pouco hospitaleira, mesmo se os residentes não o reconheçam. Ainda hoje.
Eu era uma miúda. Acabada de chegar dum lugar com muitas tradições e menos preconceitos. Ingénua, sofrida e sonhadora...
Disseram-me que era feriado municipal. E era costume irem para o campo apanhar a espiga. Não fazia a menor ideia do que isso era e do que representava. Convidaram-me a ir. Que íamos em grupo. E que o farnel, merenda ou o que quiserem chamar, tudo nomes estranhos no meu dicionário, seria por conta de alguém. Não minha.
Na época não sabia fazer farnéis. O mais próximo que estava de algo parecido, eram sandes, um bolo ou outro e rissóis de camarão que a dona Arminda me ensinara, numa paciência de Jó digna de apreço.
E assim, sem saber ler nem escrever, cozinhar ou colher ramos de espiga, fosse lá o que isso fosse, vejo-me a caminho duma quinta não muito longe do centro da vila, mas já fora dos seus limites. Era a quinta do Visconde. Que abria os seus portões à população naquele dia de feriado.
Nunca entrara numa quinta. E mal sabia eu que mais tarde, não muitos anos depois era um entrar por sair na quinta do Marquês, a caminho do Carreiro da Areia, para notificar a dona, que era uma senhora inglesa, viúva do inventor da penicilina e que curiosamente o seu novo marido era tão simpático que percorria comigo as imediações do palácio explicando-me cada pormenor da arquitectura, azulejos, árvores e flores como um verdadeiro anfitrião. Como se eu fosse ali a convite e para o lazer. E gostava tanto da minha princesinha que ao ver-me de barrigão na segunda gravidez se insinuou para padrinho da minha cria se
acaso fosse outra menina, adiantando o nome de Cecília como escolhido. E eu já se vê, sim sim, compadre, é que está-se mesmo a ver que filho meu vai ter como padrinho uma exigente criatura de nome Ramada Curto, actual marido da senhora inglesa que andava em litígio com os empregados e tinha processos de trabalho uns atrás dos outros e se recusava ir à casa da justiça, fazendo-me gastar dinheiro em gasolina e pior do que isso dispunha do meu tempo fora do horário do trabalho como se fosse sua empregada.
De forma que em dia de espiga, a minha primeira espiga, a minha frequência a quintas, quintinhas e até quintais da região, era nenhuma.
Mas gostei. Não me deslumbrei porque nunca fico como um burro a olhar para um palácio. Não tenho feitio para animal de quatro patas com palas nos olhos e apesar de ser uma miúda, vinha de longe e até cá chegar fui vendo alguma coisa digna de espanto.
Uma quinta é uma quinta. E estas quintas eram verdadeiros palacetes cheios de rocócós, não tivessem elas pertencido a condes e viscondes e marqueses também. Com capela, piscina, adega, lagar, pérgolas, alpendres, varandas e varandins, pátios, cocheiras. Um sem fim de divisões, uma área imensa, um mundo, outra dimensão. Outras vidas...
Alguém levou mantas que se estenderam no chão , junto ao rio que confronta com a quinta. Apareceram os acepipes à altura de viscondes, condes e condessas. Quem comigo ia, conhecia outras pessoas que estendiam as mantas aqui e acolá. Cumprimentavam-se. Eu não conhecia ninguém . Vivia na vila desde Setembro. Estávamos no mês de Maio. As poucas pessoas que conhecia não eram com certeza habituês de apanha da espiga e tão pouco de estenderem a manta e comerem pasteis de bacalhau num convívio salutar com as formigas, moscas e abelhas que por ali se passeavam.
Depois do almoço notou-se um frenesim anormal. Chegara a altura do conjunto musical tocar e cantar para assim quem quisesse, dar ao pé.
Já algumas vezes tinha visto alguns dos elementos do grupo, no Viela, café da vila frequentado por muita gente da minha idade. Dizia-se que se fumava umas ganzas e que o sr. Mário, dono do café fazia de conta. Apesar de ter chegado há pouco tempo da terra da liamba não reconhecia o cheiro. Havia quem dissesse que o café empestava a erva. Eu nunca dei por tal. O espaço que até era grande, ficava à cunha sem um lugar vago para nos sentarmos. Passava boa música. Estávamos na época dos Pink Floyd. E em coro, cantava-se com a alegria dos vinte anos. Afinal o conceito do café Viela, do sr. Mário era o de pub a atirar para karaoke.
Eram os primeiros rostos conhecidos que ali encontrava. Gostei de os ouvir. Estava habituada a ouvir os Cunhas, meus vizinhos, os Gansos, os Jovens, os Black Stars e outros e em nada estes lhes ficavam atrás.
Vieram pedir-me para dançar. Recusei. Nunca gostei que desconhecidos me tocassem nem mesma a dançar. Esta coisa da pele tem que se lhe diga e não passou, como passaram os anos de vida.
Dizer que foi um dia perfeito não pude dizê-lo. Ou inesquecível. Mas foi para sempre recordado. Pela surpresa. Pela tradição.
Pelo convívio simples. E mais, por motivos, que não sei explicar. E além disso levei um raminho da espiga para casa pela primeira vez, iniciando a tradição.
Já apanhei muitas espigas. Algumas no campo. Outras sabe Deus aonde.
A cada ano me enterneço quando o dia chega. Por este feriado no Ribatejo. E me ter sido dada a oportunidade de fazer o que me apetecesse. Até de comprar o ramo da espiga à porta d' um qualquer centro comercial de Lisboa, Cascais ou junto ao palácio da Vila, em Sintra.
( quinta-feira passada foi dia de espiga )

reconhecendo

A minha casa é o lugar onde me dispo do que não me faz falta e sou feliz na minha pele.

m.c.s.

terça-feira, 27 de maio de 2014

na dúvida, sonhar

A dúvida nasce, cresce e desperta-me.
Instala-se. Belisca-me. Provoca-me.
Serei chuva? Serei vento? Serei chuva e vento?
Serei sol? Sol e brisa?
Serei sol e chuva e vento?
Ou serei simplesmente sol e cor, sol e brilho, sol e amor?
Eu em tempo de bonança,
Uma esperança ao raiar do dia.
Faça chuva ou faça sol. Sopre a brisa ou se altere, em ventania.
Que importa o tempo se o momento é de sábia calma,
Aprendizagem de conforto para a alma?
Que importa se o céu se acinzenta, se a voz do firmamento troveja e as nuvens desatam a chorar, se o momento é de cor, sabor e alegria, e eu sei que estou perto de aprender a amar?
A dúvida nasce, cresce e domina-me.
A dúvida anima-me. Ensina-me...
Porque não quero perder o desejo de sonhar.

m.c.s.

constatando

Quanto maior é o nosso mundo mais uma ervilha ele se parece.
Digo eu...

m.c.s.

memória

A memória é como um ouriço. Hibernando. Poupando energia.
Entorpece-se silenciosamente imóvel e adormece num sono profundo.
Quando o sol vem, desperta, espreguiça-se e renova-se. E ganha proporções de um elefante.
Digo eu...

m.c.s.

casamento perfeito


fotos.tukayana.blogspot
Um casamento perfeito entre o estilo e voz de Áurea e Boss A.C..
Um concerto maravilhoso. No primeiro dia do festival Rock in Rio.

o cabeça de cartaz


foto tukayana.blogspot
O concerto de Robbie Williams foi maravilhoso. Cantou e encantou. Interagiu com o público duma forma muito intensa, mas simples, num inglês fácil e vernáculo, em momentos de descontracção.
Durou uma hora e cada pessoa ali no recinto pôde
lembrar as suas músicas preferidas, cantá-las e dançá-las.
Eu gostei muito.

a cantora furacão

foto tukayana.blogspot
Gostei. Gostei que fizesse alusão a Angola.
Em vários momentos do concerto.
Gostei do jeito selvagem. Do jeito romântico. Do jeito coquete e matador. Do jeito profissional. Do talento. Da voz. Da simpatia. Da alegria.
Da generosidade.
Gostei que dissesse em jeito de despedida " Deus abençoe essa terra " num olhar sobre Lisboa que me emocionou.
Há quem diga, há sempre quem diga mais do que deve, que está sempre a fazer concertos por terras portuguesas, a marcar presença nos festivais e tal e coiso, que essa repetição até já chateia.
A quem? Porquê? Eu amei. E se não tivesse dado o concerto ontem e mais uma vez, eu não a teria visto pela primeira vez.
Venham mais, pois o sucesso e o talento não têm nem cor, nem estilo, nem nacionalidade nem enfado.

tomando assento

Desde que se sai de casa até que se retorna, dez horas depois, muito se faz, em dia de festival de música na capital. O grande Rock in Rio que comemora este ano o quinto, tendo-se iniciado há dez anos em Lisboa, no Parque da Bela Vista.
Sou apaixonada pelo festival, pelo espaço e pela energia que ali se sente.
E por isso vou. A cada dois anos que acontece.
Desde que se sai de casa até que se retorna muita coisa acontece que mexe com a gente. Comigo. Andar e sentar são duas delas.
Há um momento em que é preciso parar de girar.
O piso está húmido, a erva pequena.
É preciso sentar. Um saco plástico é rasgado para assim me proteger do chão molhado.
Há uma sandes de carne assada e um pacote de bolachas torradas na mochila.
Há conversa para pôr em dia com a minha companhia.
Há que esperar pelos principais concertos que se realizam ali no palco Mundo.
Aqui, num momento de descanso. Que durou algumas horas.
Quando me levantei tinha a sensação que o corpo não me pertencia e que tinha que atarraxar as pernas para assim poder andar, a caminho da casa de banho, que tinha filas de meter medo ao susto.
O concerto de R.W. foi visto de pé, dando ao pé. E nunca mais me sentei até entrar no carro  que me levou a casa, dez horas depois de ter chegado ao recinto do festival.
Se gosto? Claro. Entre o pára e o arranca que é como quem diz, senta e levanta, há intervalos sempre agradáveis e facilmente vividos que fazem desta ida ao parque da Bela Vista um acontecimento feliz que me acrescenta e enriquece, apesar da humidade nos ossos, do frio no corpo e das filas para a casa de banho.
Aqui marco encontro para daqui a dois anos. Dessa vez, a ver se não me esqueço duma esteirazita para tomar assento com mais conforto e d' um casaco mais quentinho para me aquecer. Ah e já agora, dumas luvas para não ficar com as mãos roxas de frio.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

domingo, 18 de maio de 2014

um homem de verdade

Ele foi um homem de Luanda. Da Vila Alice. Da avenida Brasil, quando esta se chamava Rua do Saber Andar. No tempo em que o asfalto parava em frente às bombas da gasolina Mobil e os candeeiros também.
Construiu ali uma casa, de costas para o largo Camilo Pessanha, de frente para a Caop, bairro que ajudou a construir também.
Vizinho do bar do Miguel e da padaria Independente na esquerda. De sô Santos na direita.
Preparou caminho para a mulher, Rosalina das Dores e para a filha de ambos e assim que pôde, elas chegaram também à cidade, saídas duma aldeia de Tondela.
Foram ali felizes até que uma doença prolongada e fatal lhe levou a mulher, ficando a braços com a sua única filha, uma menina ainda.
Ele foi um homem íntegro. Respeitado. Inspirava respeito a todos que com ele conviviam. A todos os que ainda hoje o recordam.
Quando era preciso punha tudo em sentido embora já não fosse militar há muitos anos.
Homem alto, bem constituído, bonito, cabelo farto, olhar penetrante e brincalhão, sorriso malandro, bailando-lhe a cada olhar poisado nos olhos de outros; muitos silêncios, poucas palavras, escolha certa no tom, bem humorado, piada inteligente, decisões justas, de uma só palavra. Dono do seu nariz, fazia o que a razão e o coração lhe mandavam.
Não dizia palavrões, ( gostava de dizer mataco e aka ) não bebia, não fumava. Apenas cerveja preta. Apenas um cigarro ou outro que não terminava, deitando fora o fumo todo que até parecia um sapo a fumar, coisa própria de quem não quer vício, não gosta de tabaco, não se vai perder de amores nunca por cigarros nem vai manchar os dedos de nicotina.
Era um homem de madrugar e deitar cedo. De muito trabalhar. De poupar. Amigo do seu amigo, amigo de ajudar. Amigo de dar. Um homem generoso.
Gostava de ler o jornal. De fazer piqueniques com a família.
Gostava da Académica de Viseu, de Coimbra e do Belenenses.
Gostava de tiro aos pratos.
Gostava de árvores de frutos e de rosas. Plantou-as no seu quintal.
Mangueiras, romãzeiras, pitangueiras, goiabeiras, árvore de sape-sape e de fruta-pinha. Até ananases e morangos, nos canteiros. E uma figueira da metrópole.
Roseiras. Muitas, Rosas brancas, encarnadas, cor de rosa, cor de chá, amarelas. Cravos e cravinhos, também. Regava-as com um amor profundo e a vontade de ver florir tudo o que plantava.
Ah, e tinha um cágado, enorme. Que se deslocava algumas vezes lentamente e permanecia imóvel outras tantas, que por vezes parecia que morrera.
Tinha uma carrinha azul. E levava quem precisasse, quem lhe pedia, quem gostava, a passear. Os sábados eram sagrados. E os domingos também.
Entre visitar a campa da mulher no cemitério de Sant'ana, na estrada de Catete, regar as flores à volta da campa com o regador, ir buscar a correspondência à caixa postal nos correios da baixa, aos passeios à Xicala, às salinas, lá para as bandas da Corimba, o clube dos Caçadores, ao Cazumbi, no Miramar, o fim de semana passava.
Depois, foi um homem de Angola. Deixou Luanda para trabalhar no Locala. Onde construiu a ponte. E seguiu por aí fora.
Foi um homem do Namibe, na época Moçâmedes. Na construção de fábricas e armazéns de peixe. Bairros de pescadores. E por fim foi um homem de Tombua, na época, Porto Alexandre. Um homem do deserto.
Ao longo dos anos foi um homem amado. Foi um homem que amou.
Construiu uma nova vida, nova família, com mulher e filhos, ali a sul. E manteve a sua família antiga, em Luanda.
Foi um homem em fuga, sobrevivente, corajoso e vencedor mesmo quando se sentiu vencido.
Chegou ao Algarve numa traineira com a mulher e filhos. Sem recursos, nem casa, trabalho, ou perspectivas.
Levantou a cabeça, pegou nas bikuatas, aceitou o convite da sua irmã Olívia para voltar para a sua terra, para a casa dos pais de ambos, pertença dessa irmã, numa aldeia junto ao Caramulo. E foi.
Foi um homem que lutou. Levantou os braços, esfriou a cabeça e recomeçou.
Foi um homem de verdade. Honesto, puro, admirável.
Foi um homem que eu amei. Tudo o que se pode amar, com o coração de menina e de mulher. Tudo o que se pode admirar. Tudo o que se pode idolatrar.
Este homem foi o meu avô. De seu nome, António Rodrigues Carvalho.
Hoje, ( 17 de Maio ) faria mais de cem anos. Cento e três. Diz a minha tia Manuela. Com a certeza de filha caçula.
Ainda hoje se fala dele, com respeito, admiração e saudade, nas rodas de amigos de infância, nos encontros de afectos. E isso enche-me de amor e orgulho.

P.S. Amar-te-ei por toda a eternidade, avô Carvalho.
Foste a pessoa menos imperfeita que se cruzou no meu imperfeito caminho. Por isso, o meu ídolo.

a infância

- Posso tirar-vos uma foto?
- Porquê? perguntou um deles.
- Porque estão giros, todos verdinhos.
- Tire e ponha no facebook que somos todos lindos.
- Ok, vou pôr.
São jogadores de futebol, que jogam no rinque, em frente à minha casa. Não preciso dela sair para os ver. Basta-me ir à janela.
Desta vez encontrámo-nos na rua. Aguardavam sabe-se lá o quê, todos juntos e bem dispostos. Quando os abordei troçavam duma mulher que passara por eles e por mim com um ar alucinado. Fizeram-me lembrar eu e as minhas amigas de infância, noutro tempo, noutra terra.
O mesmo jeito, o mesmo riso de troça, a mesma troca de olhares, a mesma alegria...
A infância.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

voltar

foto tukayana.blogspot 
Quem diz que não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes, não conhece o lugar. Tréguas, merecimento e lucidez.
Não quer provar o doce da saudade, na ausência física.
Nem saldar contas. Com a vida, consigo e com os lugares de desânimo, inquietude e angústia.
Não percebeu a dimensão do coração nem sabe da renovação e perdão.
Voltar ao lugar onde a alma encontrou espaço de liberdade, paz e prazer é nos darmos a possibilidade de recriarmos a história com livre arbítrio.
É abrir novos canais. De percurso.
É colocarmo-nos no centro. Conhecendo o diâmetro.
Aqui fui feliz e sei. Aqui sou feliz e sinto. Aqui serei sempre feliz, porque este lugar me pertence, conquistou-me, conhece-me e eu conheço-o. Porque este lugar sou eu. Aqui não me escondo, não fujo, não me angustio nem me amedronto.
Habituei-me a agradecer a Deus todas as coisas boas que a vida me dá.
À custa de perceber que nem sempre o que a vida nos traz  é o que desejamos. Mas se o faz, é uma bênção, que não devemos tratar com arrogância. Como se a vida nos estivesse sempre a dever.
Quem diz que não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes, não sabe que a felicidade está dentro da gente e voltamos a nós todas as vezes que precisarmos para assim sermos mais felizes nos lugares que elegemos.

o povo saíu à rua

Estamos no mês de Maria. O dia 13 está próximo. O Olival Basto tem uma igreja, pertinho. Serve mesmo para referência para quem quer chegar até mim, porém apenas ali entrei uma única vez para deixar roupas.
Pela manhã, a Marta do supermercado disse-me:
- hoje há procissão, dona Clara. Não me trocou o nome nem nada, como é costume, mas não sei onde foi tirar essa de que eu vou nas procissões. Já lá vai tempo.
De qualquer forma registei.
Há uma hora, ouvi os cânticos e uma voz no megafone. O carro da polícia a fechar a rua ao trânsito, com o pirilampo a girar iluminou a noite e chegou até mim a sua luz .
E pronto. Tive de ir espreitar. A tempo de ver a procissão com a Nossa Senhora de Fátima a sair da igreja e a passar à minha porta.
Eu posso não ir em procissões mas que me comovo com os cânticos cantados em coro, com a imagem da Virgem Maria, com as velas nas mãos dos devotos, lá isso dou sei lá o quê e mais três tostões para deitar uma lagrimazita. Por conta da igreja, da emoção e de tudo o que aqui vai reprimido. Já a Pitanga ficou irada com o som desconhecido vindo da rua e desatou numa miadeira que parecia enlouquecida.
Depois duma hora mais coisa menos coisa a procissão regressou à igreja.
Ouviu-se alguém que suponho ser o pároco dar vivas a Nossa Senhora. E depois o adeus à Virgem como acontece em Fátima com lenços e tudo. E este cântico de despedida arrumou comigo. Arruma sempre e já se sabe, pareço uma torneira pingando.
Dizer adeus custa mesmo muito. Digo eu que estou sempre a despedir-me. E quando se está em Maio, mês de Maria, na ante-véspera do aniversário da aparição de nossa Senhora na Cova da Iria e se é devoto da Virgem Maria, a pessoa emociona-se. Aos lenços acenando, despedindo-se, às vozes que cantam ó Fátima adeus, Virgem Mãe adeus...
O povo saiu à rua, mas hoje foi para reafirmar a sua fé. Alimentá-la. Alimentar-se dela.
Eu assisti de poleiro, quer dizer, à janela.
.


em férias - Lago da quinta do Lago








fotos.tukayana.blogspot

domingo, 11 de maio de 2014

sobre mim

Se alguém te disser quem eu sou, sorri e duvida. De mim nada sabem.
Eu estou escondida no eu mais subconsciente que existe de mim. Entre esta e outras que me habitam, me espevitam, me protegem, me dominam, me acordam, me ressuscitam.
Digo eu com dificuldade em me descobrir e analisar. Em me conhecer...


m.c.s.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

férias







fotos tukayana.blogspot

uma varanda virada para o mar


fotos tukayana.blogspot

viagem (Abril 2014 )

Estou de partida. Não interessa para onde vou.
Partir é mudar. Sair. Procurar. Quiçá, encontrar...
Sigo o trilho, tomo o rumo e desbravo caminhos. Vejo a estrada.
Vou para algures. Recanto de mim, longe. Cada vez mais longe de ti. E eu sei.
Se me vou encontrar, só no regresso o saberei.
Apenas vou. Achar aquela que deixei entre memórias e estórias. Entre paredes e atalhos. Entre estrelas e a lua. Cheia.
Nos livros que desfolhei, nas fotos que tirei. Nos copos onde bebi, nos lençois onde me deitei, cansaço, dor e sono.
Na serra onde descansei o olhar... Perdido. Desejoso de  encontrar a tela de verde, terra e ar. Pintada pelos poetas que habitam aquelas paragens. Que sabem de romarias, alegrias e viagens. E me saúdam à chegada. Com poemas que não escrevi mas sei. De cor. Porque falam de dor e fracassos. Do que perdi e amei. Também do que deixei.
No mar que me solta no horizonte, minha ponte, depois da serra, do rio, do monte.
Ali onde a vida para, a onda clama, e eu me entrego ao prazer da alma mais do que do corpo. Mergulhando, águas mansas, prazer vadio,loucas esperanças. 
Estou de partida, saída, ou apenas no intervalo. Decidida.