terça-feira, 17 de julho de 2012

bom dia

As férias fazem milagres.
Há uma frase " brilhante " ( ?) que diz:
-Férias são férias.
E está tudo dito.
Ah, só mais uma coisinha, um dos milagres é que em vez de me darem 50 anos, já me deram 40 e ...9. Um ano a menos nesta fase da vida, oh!...dá-me anos de vida!
Bom dia a todos!
E vivam as férias e o verão. 

a amizade

foto tukayana.blogspot
Quando a Amizade tem praticamente 5 décadas, não há distâncias nem outros condicionalismos que não se vençam.
Ontem o tempo chamou-se ápice, a alegria, chamou-se fantástica, o humor chamou-se brilhante, a gargalhada foi irmã, o nosso encontro foi perfeito. 
Quando três amigas de infância se juntam, o mundo deixa de ter importância. 
O céu pisca o olho, a terra sorri e Deus abençoa. 
Beijos no vosso coração minhas kambas de toda a vida e para sempre ( Mena e Milú ).
Quando nos reformarmos as três, vai ser bué da fixe...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A voz



É quando a noite se cala
E dorme o sono dos justos
Que a voz quente da terra
Me acorda
E me chama
A sonhar passados,
Futuros
Pecados…
Que a voz quente da terra
Inventa
Impõe
Proclama
Leis na madrugada
Que a voz quente da terra
Me envolve
E me oferece
Desejos
Seus medos
Segredos
Que o meu coração aquece
E a alma recebe
Voa e cresce
É quando a noite se cala…

m.c.s.

domingo, 15 de julho de 2012

noite diferente

foto tukayana.blogspot
Subitamente, sem que nada o fizesse adivinhar, chegou-me a possibilidade duma noite diferente.
Na praia, estendida ao sol, de conversa com um dos meus afectos maiores, experimentando a praia de Carcavelos, para a qual tinha muito preconceito, lembrar que há uns anos atrás foi notícia pelas piores razões, um arrastão que apavorou quem por lá estava gozando dumas horas de prazer, sol e mar, descanso, tinha tudo para ali continuar pois que após uns momentos numa esplanada muito zen, com empregados simpáticos e educadíssimos, saladas coloridas e saborosas, sumos naturais de melancia e groselha, estava ali,  saboreando a praia, o ambiente à volta; é preciso gostar disso também,  e nem o vento me incomodava apesar de feroz. Uma mensagem mudou tudo. Aceitei na hora.
Então às oito.
Saí da praia, corri para casa, tomei um banho, sequei o cabelo, comi uma fatia de bolo e chamei um taxi. Rumo à aventura. E ao trabalho. E ao desconhecido mundo de crianças de hoje. Que têm a fasquia muito elevada.
Se foi uma surpresa do outro mundo? Não foi. Foi o universo que fez a S. falar com a I., que por sua vez falou com a A., que por fim me transmitiu  a necessidade da S. E não foi porquê? Porque um dos caminhos para continuar a ser útil e realizar algum capital, pois que grão a grão a galinha enche o papo, é também este. Babysitter, quando os pais quiserem ir jantar com amigos, ao cinema, beber um copo, assistir a um espetáculo ou ir ao Optimus alive. Babysitter de filhos de gente conhecida, amiga, amiga das minhas crias.
Quando toquei a campainha estava controladamente em pânico. O Rafael é a criança com que lido mais intimamente. Bem sei que lhe dei banho, a papa quando chegou a casa dos que são hoje legalmente seus pais e que passaram a sê-lo naquele dia. Bem sei que tive filhos pequenos, sobrinhos, filhos de amigos meus, tudo em crescimento. Mas sei bem que estas três pessoas que ontem precisaram que estivesse por perto, são seres especiais. Sabia que eram especiais. Sabia que eram super inteligentes, educadíssimos, amorosos, sensíveis, cultos, mas, também por isso, porque podia dar-se o caso de não gostarem de mim eu estava para lá de nervosa.
Acho que correu tudo bem. Eles ajudaram muito a isso. Acho que já sei colocar uma fralda descartável de novo. Aquecer um biberão de leite com um pouco de chocolate, vestir um pijama a uma menina de 3 anos, linda que eu sei lá, com uns olhos maravilhosos e uma pele morena linda, deitá-la na sua cama e sair em bicos dos pés. Acho que já sei conversar com dois rapazes espetaculares, aquecer-lhes e preparar-lhes o jantar e a fruta. Fazer-lhes companhia e observá-los. Levá-los à cama, apagar-lhes a luz e desejar-lhes um sono feliz com bons sonhos.
Quando deixei o pedido para a reforma nas mãos duma funcionária da direcção geral do ministério da justiça em dezembro último,  estava serena. Decidira dum momento para o outro mas nem por isso essa possível precipitação me perturbou. Eu " sabia " que estava a fazer a coisa certa. No meu futuro desenhei esta ocupação e outras. E uma forma de continuar activa e suprindo a penalização a que vou ser sujeita. Sei que vai ser complicada essa parte. Mas eu consigo. Como ontem consegui, acho.
Hoje, olhando para a noite de ontem sinto-me tão feliz e grata... precisava voltar a esse universo de novo, mas com a idade e a experiência de vida que tenho. Precisava perceber se posso sonhar a possibilidade de vir a ter essa função de babysitter. Não sou pessoa para dizer que - adoro crianças. Mas fui professora durante um ano, de crianças de 7 anos. E estive 15 dias em Cascais a fazer as férias da directora do colégio, mulher de um amigo meu, quando tinha 25 anos, recebendo dezenas de crianças, às 8 da manhã sozinha pois que as minhas " colegas " entravam às 9. E brincava com elas, dava-lhes de comer, contava histórias, fazíamos desenhos,  punha ordem nos trabalhos, tudo até às 16 horas. E fui mãe de duas criaturas que não nasceram crescidas.
Gosto do universo infantil. E gosto das minhas crianças. Muito. Aquelas que estão próximas de mim. Que interagem comigo. Protejo-as com unhas e dentes. Tornam-me melhor pessoa.
Ontem estes três meninos lindos foram cinco estrelas. Gostei muito de ter passado o serão com eles. Aprendi muito. Com eles e por causa deles. Os pais estão de parabéns e sabem que sim.
Obrigada M.,  M., e ... M. É o que se pode dizer, 3 Ms.
Beijos nos vossos corações. Até um dia destes. 

É domingo


É domingo. Acordei cedo. Será que vai ficar sol o dia inteiro? Aka! Está muito calor. Vou tomar banho d’água fria.  Descobri um sabonete que cheira bem e deixa um perfume kuioso na pele.
Gosto de tomar banho, à noite, no cacimbo. E entrar na cama a cheirar bem. Sim porque agora mesmo que me banhe a toda a hora, estou a limpar-me e já estou com as costas e  a nuca, a escorrer suor dessa humidade do ar. Mas se não fossem os banhos ia ser como? Desde que descobri esse sabonete que ainda é mais kuioso tomar banho, e ficar, ficar no chuveiro a sentir a água a levar a espuma que o sabonete novo faz. O nome dele é Musgo. O papel é verde. É só meu. Ponho na saboneteira, tiro da saboneteira. Arrumo no meu quarto. Não gosto de dividir, nem sabonete, nem desodorizante, nem perfume. O pai usa Lifeboy mas eu não sou fã do sabonete encarnado. Cheira a desinfetante. Também não gosto do perfume da mãe. Bien-être. Todas as mulheres que conheço cheiram a bien-être ou lavanda. Cheira só a lavado e a primavera. Sei lá o que é primavera. Quando andava no colégio tive de adivinhar. Para fazer as redações. Eu era barra nas redações. A que mais gostava era sobre a família, o cão,  a praia, e D. Dinis. Vai-se lá saber porquê.  Tinha-as na ponta da língua. Recebia sempre Muito Bom ou Excelente, a caneta vermelha. As estações do ano também me mereciam uma nota boa. Aprendi que a primavera  é quando acaba o inverno. Diz que chove, faz frio, cai neve, até já vi nos postais de Natal que chegam de Paris, que a tia Olívia manda ao avô e inclui votos para toda a família. Até que deve ser bué da bom. Bué fino, três chique, ir ver a neve à Serra da Estrela e fazer ski como essas senhoras  todas estilosas, a Fatinha diz que são da alta sociedade. Nunca percebi muito bem o que isso é. Sociedade fazia eu quando andava no colégio. Metade do pão com fiambre para mim, metade para a Lourdes e ela ficava com metade de pão com margarina vaqueiro e dava-me a outra metade. Isso sim é que era uma sociedade. A mãe dizia que eu ficava a perder. Se o teu pai sabe, Maria Clara…Também o avô fez uma, mas o sócio enganou-o e desfizeram a dita sociedade, e as casas geminadas que construíram foram divididas; o avô ficou com a dele e o sócio teve que vender a sua. Aqui se calhar o avô ficou a ganhar.  
Mas a Fatinha diz que, por exemplo, a madrinha de casamento do pai sô Santos, a  Mimi Rodrigues, filha do ex-patrão, aquela que usa lenço na cabeça apertado no queixo quando passa na avenida no seu triunph spitfire descapotável, para ir dá aulas de inglês, essa é da alta sociedade. Não sei. O que eu sei é que gostava de viajar para uma terra que tivesse inverno e neve e tudo. Andar de casaco comprido e botas até ao joelho. Aqui ,só a São do Necas caçador é que usa botas, mas é para a banga. Botas brancas. A São é bonita e sabe. E os homens sabem também porque quando ela passa a mexer as ancas na sua bota branca, mexe com todos, até com  as mulheres da idade dela que parecem umas velhas abanam a cabeça e … nome do pai do filho, do espírito santo, olha só p´ra ela, julga que está num cabaré ou quê? E de boca pequena dizem – é uma rosqueira. Eu olho e penso que um dia vou ter umas botas brancas…não sei se vou ser assim como a São, mas um dia, podem-me excomungar que eu não quero saber, já não quero mesmo, quando vão queixar ao pai que tenho as unhas pintadas de cor de rosa, vejam só, cor de rosa ainda se fosse encarnado.
Até que deve ser bué da bom vestir casaco comprido. Dá-nos importância. Então se for como os modelos da Burda, onde a D.  Batista se inspira para fazer os vestidos às clientes! A D. Batista é a modista que ajuda a vestir o mulherio da Vila Alice. Quer dizer, as mulheres e raparigas da Vila Alice que  conheço e que vão à da loja do pai. Aposto que essas modelos do Burda que vestem casacos compridos, usam botas altas e não usam nem Bien-être nem Lavanda. Aposto que usam os perfumes dos frascos de vidro da drogaria do Rabeca ou daquela ao lado da Paladium, nos Combatentes. Onde eu vou com um frasco vazio de…bien-être, lá tem de ser, para encher uma medida ou duas daquele perfume que fica quando nós passamos, como as botas brancas da São ou as suas ancas a mexerem. Gosto de cheirar dentro daqueles frascos enormes, com rolhas de vidro enormes também. Disseram-me que era perfume de velha. Se é de velha, não sei. Cheira bem. Comecei a comprar esses perfumes com as minhas vizinhas. Elas percebem até das marcas. Tem Chanel 1,2,sei lá mais quantos, tem muitos, mas o que eu gosto mesmo é de Marlene. Dá-me uma importância! Lembro-me da madrinha do sô Santos, da D. Zita e da dona Dina, da ex-namorada, ex-mulher do primo Fernando, a Emília, Emilinha para nós, que usava saia travada acima do joelho e tinha umas unhas enormes e vermelhonas e as mulheres da rua diziam que fumava e tudo. Quando eu for da idade dela também quero ser assim. O primo Fernando teve sorte, teve uma namorada bonita e fina. Da alta sociedade. Será? Tenho dúvidas quanto a esse título.
Está calor. É domingo e o pai ontem à tarde disse que íamos passar o dia à praia. A mãe acordou cedo para fazer o arroz de frango que vai embrulhar em jornal para estar quente quando chegarmos. Depois do banho da manhã. Matou um cabrito e foi assá-lo no forno da padaria Independente. Gosto do pormenor dos raminhos de salsa em cima das batatas. E sentir o cheiro do assado. O nosso tabuleiro é o maior. O pai é o único homem que está a tomar conta dos assados. Bom dia sô Santos. O que é que fez hoje? Ah vai para a praia!
 A mãe nunca vai ara a padaria. É flor de estufa. Em casa, fazendo o seu papel. Sô Santos gosta de mandar, de orientar, de decidir e de fazer também. Bom cozinheiro que eu sei lá. Eu não sei senão estrelar ovos e fazer pastelões com salsa e chouriço. A mãe bem que me quer ensinar a fazer sopa. Sopa? Eu nem gosto de sopa, aprender porquê?
Acompanho sempre o pai nas idas à padaria. Gosto do cheiro da farinha e dos assados. Há quem faça bolos secos e ponha no forno da padaria, aproveitando. A pá que leva e trás os tabuleiros é maior que eu. Duas ou três de mim. O padeiro, que usa uma boina na cabeça e um fato de balalaica e calções e calça sandálias de pneu, escorre em suor. Não cheira a catinga. Cheira a farinha.
Estou nervosa. O avô mandou dinheiro no Natal e eu fui à baixa comprar um fato de banho. Quer dizer, um biquini. Todas as minhas colegas do liceu e amigas usam. Está na moda. Experimentei vários do Espelho da Moda; escolhi a cor e o tamanho e paguei com o meu dinheiro. Encarreguei a mãe de lhe dizer que  ia vestir um biquini como as filhas dos amigos dele. Ela disse-me que ele não ia gostar. As filhas dos amigos são as filhas dos amigos e ele não manda nelas. Que pouca vergonha Maria Clara, vais ver que ele vai dizer-te que se o vestes levas com o cavalo marinho. E não há praia para ninguém. Não queres isso pois não? Não, não quero levar com o cavalo marinho, mas se isso fizer com que eu vista o biquini…seja.
O cabrito está pronto. O arroz de frango embrulhado e as postas de bacalhau albardadas. Para que é tanta comida? Eu até comia só batatas fritas com frango e salsichas. Até a câmara d’ar para nadarmos, já está na varanda. As mantas também.
O primo Fernando buzina lá fora. No seu Ford Taunus amarelo e preto. Grande estrilo. Quando vamos os dois passear para a Ilha, as garinas olham e pedem boleia. Depois vêm-me e encolhem os dedos rindo envergonhadas. Eu sou uma espécie de irmã candengue do primo Fernando. Ele deixa-me fumar e até me dá cigarros. E põe o Nelson Ned a tocar , o que é que você vai fazer domingo à tarde O primo Fernando é daqueles que fazem parte do grupo que diz que pegaram em mim ao colo, mas só têm mais 10,.12 anos que eu.
Chegou a hora da mãe dizer ao pai que tenho fato de banho novo. Parece estou a ouvi-la já:
Ó Santos, a mãe nunca tratou o pai pelo nome próprio, também, só o nome que a mãe dele, a avó Clara lhe colocou – Leopoldino. Coitado do pai. Nome feio, é esse! A mãe não deve gostar porque sempre ouvi dizer – Ó Santos…Ó filho… Leopoldino nunca.
Ó Santos, a miúda comprou um fato de banho com o dinheiro que o meu pai lhe deu no Natal e quer vesti-lo hoje.
Parece que a estou a ouvir. Ó Santos…
Então que o vista, respondeu ele. Parece mesmo que o estou a ouvir.
Mas olha que é dos modernos. Daqueles que lhe chamam biquinis.
Pronto. Estava dito. Coitada da mãe…
É domingo. Está calor. Vamos para a praia. Como sempre, o meu fato de banho azul e branco, pareço filha de marujo. Só me falta fazer a continência.
Faço sim, asneiras com os dedos, ensaio desaforos, deito lume pelos olhos, estico o lábio num beiço bué da grande e remeto-me ao silêncio absoluto. Deitei umas lágrimas rosto abaixo, quando o primo Fernando me perguntou: Então, vais estrear o biquini ou não? Nãaaaaaaaaao. Ele ri-se. As amigas dele que vão ter connosco à praia usam biquini bué decotado e atrevido e fumam e tudo.
Queria fuzilar esse sô Santos, bem feito que lhe puseram um nome tão feio, Leopoldino, pzxxx. Um dia vou-me vingar. Juro que quando eu mandar ele vai ter de me gramar de biquini e a fumar. Juro sangue de Cristo!
Agora quero mesmo é chegar à praia. Olhar as ondas.
Atirar-me nelas e ser feliz.

sábado, 14 de julho de 2012

Ilusão


Sonhei-te
Brisa fresca
Ilusão
Mistério
Timbre e voz
Da minha inspiração

Num minuto
Apenas numa partícula de tempo
Foste  caudal
Rio
Viagem
Estação
Céu da minha constelação

Despertei…
Sorrisos
Emoção
Sopro de vida
Inquietação
Mil pensamentos num turbilhão

No intervalo
Vivo-te
Sem culpa
Nem intenção
És um presente
Do meu coração

m.c.s.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

um dia de aulas

“ É meio dia irmãos, hora em que o mensageiro de Deus, São Gabriel anunciou a Maria o maior acontecimento da história, da nossa história divina.
Isto é o limite “. A minha liberdade chega ao fim. O rádio está sintonizado na rádio eclésia, emissora católica de Angola. Apesar de mudar para o rádio clube para  o “ Contacto “ que começa às 16.  Todos os dias à noite ou de manhã o botão roda para a rádio eclésia, essa tal que dá missa todas as noites.  E todos os dias no meio dia é essa lenga-lenga – é meio dia irmãos, blá blá blá…que significa aviso, perigo, meio-dia. Ora de acelerar.
A bata está húmida. É preciso secá-la ao ferro. Se tenho duas batas como é que uma está húmida? Pergunto. Estiveste a fazer o quê que não estendeste a bata a tempo? A Lucrécia faz muxoxos ruidosos  e pragueja impropérios que me arreliam e me fazem responder-lhe. Também…não é difícil.
Ela não se fica. Devolve, a xingar. Cala-te a  boca, tenho idade p’ra ser tua mãe, conheço-te da barriga dela e aponta para a dona Celeste que está mais que habituada às nossas trocas de piropos. Cala-te a  boca menina, olha que largo o ferro e és tu que tens de passar a bata.
Não se justifica. Não se cala e não evita a maka. Foi sempre assim, querida que eu sei lá(?) esta não menos querida Lucrécia, lavadeira da casa, primeiro do avô e depois nossa. Fomos sempre assim, uma com a outra. Hoje, a minha prioridade única é uma das duas batas que tenho, lavada e engomada. Não posso apanhar falta de material. Nos últimos tempos, já não são tão severas mas é bom não facilitar. Ainda me lembro do primeiro dia de aulas e da leitura do regulamento. Era um vómito , se calhar a palavra é demasiado nojenta, era uma séca, está melhor assim,  aquela ladainha que todas conhecíamos desde os 10 anos. Se as aulas eram à tarde, com o calor acabado de chegar  a despachar o cacimbo  e almoço comido às pressas, dava um sono que se transformava num pesadelo. Parece que estou a ver-me, a ver-nos no primeiro dia. E a Julieta a tremer. Não fosse a pele castanha daquilo a que chamam raça, e até virara rosto pálido com tantos interrogatórios sobre a bata. Na verdade era diferente das nossas. Abotoava atrás e tinha cinto. A cor não era branco imaculado e a sarja era mais fina e brilhante. Como é que elas iam deixar passar isso? Não deixaram. Uns dias depois, a Julieta apareceu com uma bata igualzinha à nossa e com o monograma do liceu bordado a linha de cor desse ano. Teve de ser. O rigor era impressionante naquele tempo.  Quantos anos tínhamos mesmo? 13 14, 15? Por aí. Ainda há quatro anos atrás, quando a fui visitar a Geneve, uma noite que ficámos lá em casa a celebrar a  Páscoa degustando um prato suíço de batatas com pele e queijo e fatias de presunto e picles, de nome raclette, a beber um champanhe para lá de bom, inevitavelmente fomos ter a esse tempo do liceu, muito antes de decidir que ia ser enfermeira como a tia, que morreu de tétano.  Mas estava a dizer que elas não facilitam e  mesmo quando a mini-saia chegou,  exigiam o tamanho da bata  abaixo do joelho e ainda que as batas encolhessem num propósito de adolescentes atrevidas, ainda assim, o castrador regulamento e todos os itens se mantinham inalterados.  Agora, na missa pascal até podemos subir as escadas centrais, antes só para as professoras e as contínuas. Parece estou a ver a dona Filipa. A professora Darcília e também a sôtora Lígia e a sôtora Aida de braço dado. Sim, há algumas mudanças.
A Lucrécia continua a engomar, a mãe diz que a vitela com esparguete está pronta e eu  pergunto-me o que deu nas duas para se atrasarem e deixarem-me fula da vida. Não tenho idade para ter nervos mas fiquei assim desde que cismei que tinha tétano como a tia enfermeira da Julieta e que acabava do mesmo jeito que ela, finando-me injustamente na flor da idade, ainda mal desabrochava, e pimba, coitadinha, vai-se, foi-se, ai, cruzes canhoto, porque hei-de lembrar-me que sou hipondríaca? Que palavrão que inventaram para quem é maricas com as doenças. E por falar em flor, vem mesmo a talhe de foice, que foi um maldito espinho duma rosa das roseiras do quintal que o avô deixou em vasos de cimento quando foi para Moçâmedes, o culpado desta situação que só terminará quando eu for bater com os costados no banco do hospital de s. Paulo. A última vez que fui não conseguia respirar. Era sábado e o avô tinha estado cá em casa uns meses por causa dum problema no pulmão, ele nem fumava nem nada, não sei como foi ter uma infeção daquelas que o reteve na Casa de Saúde de Luanda, perto do Miramar e do cemitério Velho, tanto tempo. Chegou a hora de voltar para a vida dele em Porto Alexandre onde estava a viver nesse tempo. E eu que conhecia e amava o avô há tantos anos como esta lavadeira duma figa que se chama Lucrécia, quem é que lhe pôs esse nome que nunca conheci mais criatura nenhuma com essa nome estranho e que  não tem a bata pronta, eu que não via outro sol nem outra lua, chorei tanto, sofri tanto que acabei no banco do hospital com falta de ar num sábado à noite sendo observada por um médico indiano enorme e muito bondoso que era o que era preciso para me acalmar  e perceber que há avôs que tiram o ar todo que os netos precisam para respirar quando partem, mesmo que seja apenas para ali, ao dobrar da esquina na província do Namibe.
Hoje nem tenho tempo para comer pão com molho da carne, como entrada,  como faço sempre que o almoço é esparguete guisado com carne, cenoura e chouriço azucrinando a cabeça da dona Celeste que detesta o fogão e as pressões a que a sujeito quando,  é meio dia, irmãos, a hora em que…
Entro à uma hora. Tenho de atravessar a escola 83. Passar em frente à foto Dora e Escola Industrial. Chamar a Arlete. Depois juntas, subirmos o passeio que pertence ao cinema Império. Cruzamo-nos  com os rapazes da Indústria que roçam o rabo pelas paredes do cinema com os seus Ts em riste como se fosse uma arma de arremesso ou de engate, sei lá . Deixando-os para trás mais os piropos que nem sempre caiem bem porque são uns abusados, passamos pelas casas da Defesa Civil, pelas casas de rés de chão e primeiro andar, pelas árvores e pronto. Estamos na estrada que vai dar à estrade Catete. O trânsito aqui é feroz. Já fui atropelada em frente à escola Industrial. Por uma lambreta. Dá-me vontade de rir. Na hora, chorei.  E assustei a Arlete quando me estatelei no chão. E  o pobre senhor que largou a lambreta para me acudir. Nesse dia já não fui às aulas. Tive que ir a um endireita e tudo, lá para as bandas de s. Paulo, mesmo em frente ao mercado.
Finalmente passamos em frente ao sr. Torrão que impecavelmente fardado de branco a que não falta sequer o chapéu de dois bicos, apregoa os seus baleizões e torrões. É caramelo, torrão de alicante, mete na boca e derrete num instante.  Se ele sonhasse que lhe trocamos o pregão por um igual mas a dar para o ordinário…
Isto tudo demora uns 20 minutos. Quero sempre chegar antes do toque. Para conversar um pouco com a Suzete que vem da Boavista e quando chega, já tem no pêlo quilómetros de comboio até ao Bungo e depois machimbombo até ao liceu.
Finalmente o prato da massa que sorvo aos ais porque me escalda o céu da boca e a língua. Ainda não está apurada. À noite deve saber melhor. Se sobrar.
A Lucrécia põe a bata impecavelmente engomada, numa cadeira, ao meu lado. Essa mulher passa que passa, por isso é que é lavadeira da casa há tantos anos e se dá a ares de patroa que nem a mãe, que lhe obedece cegamente; tem idade para ser tia mais velha da dona Celeste e usa e abusa dessa hipotética probabilidade.
Finalmente dependo de mim. Aí vou eu para mais uma viagem. A pé, para mais um dia de aulas.

fora com a superstição


recordando

A minha kamba Milú fez-me a surpresa de mandar esta foto que eu adorei. O cão é o Kipiri e desapareceu do mundo dos vivos há décadas. Como éramos frescas, alegres e bonitas...

o meu dia e eu


“ Parabéns a você nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida…” é uma canção mágica. Gosto de a cantar. Gosto de a ouvir.
Disseram-me que não me devia centrar assim no meu dia de aniversário. Porquê? Perguntei.
Porque esperas demais do dia. Das pessoas, do que fica por fazer, dizer, viver e são desilusões atrás de desilusões. Faz-te mal.
Cada vez me desiludo menos. Cada vez me iludo menos. A magia que se perde dos outros dias do ano, a quase inexistência de momentos altos de exaltação, alegria, paixão, risco, encanto, surpresa, aprendizagem, beleza, não preciso de a ter num só dia. O que preciso é de ter um dia rico em, consideração, atenção e amor, de quem gosta de mim. É o único dia do ano em que me assumo a pessoa mais importante do mundo, porque não, o melhor?
É o dia em que mais me  sinto sujeito na primeira pessoa. E profundamente agradecida aos meus pais por isso. Por terem sido poderosos na minha vida. E me vergo humildemente às suas memórias. É o dia em que o cordão umbilical toma forma de novo e não só me prende à mãe mas também ao pai.
Não sei se sou egoísta. Às vezes acho que sim, outras tantas acho que não. E outras ainda acho que devia sê-lo. Raramente dou um, Basta! Primeiro estou eu. E com legitimidade também, acho que o deveria fazer. Porque não?
Não sei se sou narcisista. Às vezes, raramente, acho que sou. A maior parte das vezes acho que não. Certezas? Não tenho. Há detalhes da minha vivência e da personalidade que se aproximam muito do que a gente jura que é verdade, tem a certeza de que, mas…
a minha verdade, as minhas certezas podem não encaixar nas verdades e certezas dos outros.
Cada vez sei menos. Cada vez me ponho mais nos bicos dos pés para espreitar os outros. Para os admirar. Para medir distâncias entre o meu saber e o saber alheio. A minha generosidade e a deles. O meu talento e o talento existente e exterior a mim.
Cada vez mais, gosto da normalidade.
Cada vez mais gosto de fazer anos. E de ser eu. E de haver à minha volta gente na segunda pessoa que me respeita. Que dá por mim. Que me estima e mima. Que me cuida.
Que me merece. Que se merece.
Que simplesmente, me olha nos olhos e me permite que as olhe do mesmo jeito honesto de ser.
Ontem, vivi um dia de aniversário muito agradável. Sem grandes pretensões nem futilidades. Com o que tenho. Sem invenções ou ambições. Foi o meu dia. O único que é mesmo meu. Aquele em que nasci, há 57 anos na cidade de S.Paulo de Assunção de Loanda, na freguesia de S. Paulo, hoje Sambizanga, no número 126 da Avenida do Brasil, antiga Rua do Saber Andar.
Faltou-me alguma coisa? Se calhar faltou. Ou não. Isso não tem grande importância se estou feliz. Se tento ser feliz no dia do meu aniversário.
Ontem fui feliz. E não dependeu apenas de mim.
Obrigada. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Aniversário



Pudesse eu, 
Conseguisse eu, 
Oferecesse eu 
Se o milagre se desse
E quereria ter-te aqui, minha mãe
Santa do meu coração…
Voltaria ao teu ventre
E hoje,
Neste tempo presente
Me devolverias ao mundo
Juntas iriamos comemorar
O milagre do amor
Renascendo eu, voltando tu…
Vivendo a alegria, de seres mãe
Pudesse eu,
Conseguisse eu,
Oferecesse eu
E um milhão de vezes voltaria
A nascer de ti, tua filha
E tu serias de novo, minha mãe.

Obrigada mãe, pelos meus 57 anos.

m.c.s.

estou kota

E eu não sei? Já cá cantam 57 longas primaveras, verões, cacimbos e outros que tais.  Ya, estou kota.
Pxxxxxxxxxxxiu! Pouca música que não há quem dance...

parabéns a mim


aniversário


quarta-feira, 11 de julho de 2012

sou o vento

Sou o vento
Que sopra baixinho
À tua janela
Soletro uma letra
Canto carinho
Ensaio uma dança
Dou-me ao tempo

Onde estás que não te encontro?
Não te oiço
Nem te vejo nas linhas do horizonte
Em que te escrevo?
Onde estás que não te sinto
Nem te leio
Nas palavras que inventei
E ficaram por dizer?

Sou o vento
Que devagar,
Devagarinho
Te levou um beijo
E um abraço
Afagos…
Desejos meus

Onde estás que não te encontro?
O que foi que se perdeu?!
Sou o vento…
Onde estás?
Se não te encontro
Dou-me dor ao desalento.

m.c.s.

levo o dia deste jeito

foto tukayana.blogspot
Ontem  fui acompanhar alguém ali no Chiado, que precisava provar uns sumos, que funcionam como desintoxicante, drenagem, limpeza do organismo e supostamente emagrecimento. Ninguém me disse, eu é que deduzi do que vi. Fiquei fã. A menina foi simpática e deu-me a provar o sumo feito na hora. Adorei. Tinha banana, pera, alface,  espinafres e sumo de um limão. Isto aconteceu às 11 horas. Só almocei às 15 no Colombo e porque olhei para um letreiro que dizia –  Bifanas de Vendas Novas. Como vi na televisão os responsáveis deste conceito da restauração falando do seu recente e bem sucedido negócio, como que uma sineta alertando-me para ver para crer, tive de repente, um acesso a dar para o carnívora, o que não tem acontecido ultimamente e aí fui eu atracar-me num menu composto de  sopa de peixe, limonada e uma bifana de lombo de porco ( ótima ) sem  maionese ou mostarda. Nunca gostei de enganar sabores com outros sabores. Diga-se que não me arrependi da escolha.
Depois entrei no Continente e foi a desgraça total. Apesar de me fugir o pé para o chinelo de meter no dedo, pé rapado, e outras misérias de gente pobre com mente rica, fui visitar a secção gourmet. Se pudesse, enchia o cesto com produtos que me fazem salivar, babar como um cão sôfrego, esbugalhar os olhos como qualquer peixe que se preze. Um dia…um dia vou poder comprar isto tudo. Se vou querer é outra questão. Mas um dia…
A ensombrar-me as ideias e a esperança, tenho uma visão fantasmagórica daquele senhor que fala parece padre velhote querendo convencer o inconvencível.  Tiro a franja dos olhos. Sacudo a cabeça. Não quero fantasmas envoltos em lençol negro e caveiras rindo na minha cara. Povoando-me os sonhos e escarniando deles. Um dia…sim! Um dia não vou evitar as lojas gourmet. Nem as outras.
Que diacho! Tenho direito, ou não?
Bem, a minha visita pelo hipermercado que conheço mais que bem dum tempo de lhe assinar o ponto, aos sábados de manhã para fazer as compras para a semana inteira, para aqueles que ficavam em Lisboa, como dizia, a minha visita foi assim num passar a pente fino as prateiras todas. Literalmente. De fio a pavio. Ainda me lembro bem do local onde cada produto se pode achar. E não há dúvida alguma, eu sou filha de merceeiro. Neta e bisneta de negociantes. Gosto de ver os produtos. Ver preços. Perceber as diferenças. Gosto de me passear pelos mercados e supermercados. Depois de ter metido para o cesto um boião de doce de papaia, muito bom, com pedaços do dito e com o sabor aproximável ( não igual ) do doce da madrinha Regina, foi a vez dum saco de “ económicos “. E se ali Angola me despertou o apetite e os sentidos, aqui foi trás-os-montes que me convenceu. Eu amo estes bolos. Porquê? Porque me sabem a Páscoa. A colo de tios, música saindo da violas dos primos, campos e campos, montes e montes, silêncios, origens, sô Santos. Porque me sabem a afectos. Uns e outros.      
Hoje, acordei, convencida que ia tratar do saco para me pôr a milhas,  metro, comboio, praia, com ela. A Marta, do supermercado cá do burgo, disse-me ontem que tinha uma bela informação para me passar, a propósito duma conversa que tivemos sábado. E assim, para a semana poderei ir para a Caparica de autocarro direto do Olival até lá. Claro que não gosto da praia onde o autocarro vai parar, mas há um pequeno comboio que nos deixa onde quisermos. A minha praia é mais lá para os lados da praia da Rainha. Pobre a sonhar…Caparica!  Mas experimentem lá ficar, sem carro, motorista e condições para em 28 minutos se meterem na praia e vão ver como é bom saber dum autocarro que vos leva direto para a praia da caparica . Ah pois é! São as ratoeiras da vida que nos fazem reaprender, apreciar, e agradecer, neste caso, à Marta que me tendo perguntado - porquê que não vai para a Costa? Porquê? Porque é uma canseira lá chegar nos transportes públicos. - Não é nada. Há um autocarro que….vou saber e depois digo-lhe. E zás. Soube e disse. E eu fiquei-lhe grata. Sou pobre mas não mal agradecida.
Claro que acabei por não fazer saco nenhum. E mudando de ideias, percebi que há aqui tanta coisa com que me entreter que me parece que nem ponho os pés na rua, hoje. E vai daí fui para a cozinha fazer o meu pequeno almoço. Macaca de imitação é o que eu sou. Para me aliviar podia dizer que somos todos, mas vou limpar-me com os outros para quê? Aquele sumo d’ontem bateu cá dentro. Mesmo. Se eu olhasse as montras das lojas com olhos de ver, sempre, percebia que aquela ali, tão bazaruka, perfeita lontra, pequena baleia, precisa urgentemente  de sumos e mais sumos. Sopas e mais sopas. Água e mais água, a ver se vaza e volta à primitiva forma quando não havia uma montra que escapasse, nem que fosse para ver se tinha baton nos dentes, se a franja estava no lugar, a ver se estava linda. Linda? Hoje? Tarde piaste. Agora só sonhos. Delírios.
Hoje acordei e mudei os planos. Um suminho de vegetais que é uma pressa.
Abri o frigorífico. Como gosto de ver uma geleira guarnecida. Nem sei como sobrevivo à de torres novas que apenas tem leite, iogurtes, queijo, e…leite, iogurtes, queijo. Pouco mais.
Alface, salsa, banana ( vamos ver se não me faz mal ao estômago ) beterraba ( adoro e como como se fosse maçã ), cenoura, sementes de chia e sumo de limão. Ficou ótimo. Ou sou eu que tenho boa boca. Mas não. Ficou mesmo no ponto.
Estou de férias, não fui à praia. Tenho o sol à minha janela. A Pitanga por aqui. O telefone já tocou. Mensagens já mandei e recebi. A televisão ligada. O livro da Sónia, praticamente no fim. O sumo bebido. E muita coisa para fazer que eu não sou kunanga, mas que gostaria ,gostaria. E depois, é melhor mesmo não sair de casa. Os médicos estão em greve. Notável, do meu ponto de vista. Mas vamos que eu tenho um piripaque na praia? A urgência hoje deve estar a mais de mil, num deus nos acuda, proteja e guarde…

somos mais que muitos

Somos mais que as mães. Parecemos uma praga ( boa ) pelo mundo. 
Damos um pontapé numa pedra e aparece um angolano. 
A toda a hora me acontece.
Na FNAC estive a falar com uma que me reconheceu de outra altura, quando comprei o bilhete para 
o Rock in Rio, depois entrei num taxi. Mudos eu e o taxista. Só o rádio tocava música.
Na calçada de Carriche começou a tocar o" Namoro ". O motorista sobe o som. E começa a cantarolar e a mexer a cabeça. Aí pensei: É mwangolêeeee.
Quando era para parar disse-lhe que queria ficar ali, mas o homem não parava. Repeti, respondeu:
Peço desculpa senhora, mas estava no Loje, na Samba...
- Ai é? Porquê? É angolano.
- Sou sim. A senhora também?
- Também.
Desligou o carro e esteve à conversa comigo sobre Luanda.
Somos mais que muitos. Ainda bem.

encontro


- Clarinha, lembro-me tantas vezes do relógio, ( e faz um gesto com as mãos, onde se adivinha a campânula do relógio )  que o teu avô tinha lá em casa, parece que o estou a ver…- Com a campânula, digo eu completando e sorrindo perfeitamente enlevada com esta lembrança que afinal não é só minha. É uma relíquia haver gente que mantêm na memória, as nossas memórias verdadeiramente sagradas  e que mantemos intocavelmente guardadas. 
Roubaram-no. Em 75.   A Maria João está baralhada. Pudera. Passaram  57 anos desde que o relógio foi oferecido  aos meus pais como prenda de casamento. Na verdade, ela conhece o relógio da casa do avô Carvalho pois foi lá que  a festa de casamento aconteceu e  que eles viveram uns tempos. Foi lá que nasci…
A Maria João é a par com a Lisete a amiga de infância mais antiga. Aquela que estava lá quando nasci.
A Maria João quando era pequena fazia jus ao nome. Maria rapaz, saltava e corria em cima de muros, tinha sempre a mão pronta para distribuir tabefes, fazia trinta por uma linha. Era brava como as piteiras da nossa terra. Está na mesma? Bonita igual.  A mesma expressão, com um acrescento de rugas da vida. Mais serena. É o tempo…
- Estás parecida com a tua mãe. Tal e qual. Disse-me o único amigo do meu pai, amigo do peito, que permanece vivo. Tem 84 anos e foi vizinho e amigo de casa. Da minha casa. Pai da Maria João.  O senhor Belmiro…
- A oficina era pegada com o quintal do teu avô. E eu e a tua mãe conversávamos muito no muro. Eu já era casada e ela era uma menina. A tua avó já tinha morrido e eu via o teu pai entrar e dava-lhe conselhos. Éramos da mesma idade mas eu já tinha a Maria João e o Néné.
O teu avô não queria que ela namorasse com o teu pai. 
Um dia, ela disse-me: Ando agoniada. Não sei o que é que tenho que não me passa. Sorri e disse-lhe, passa, passa, Celeste, ao fim de nove meses. 
- E nasci eu…disse, rendida pela narrativa. Derretida com a paixão duma menina de 18 anos por um homem de 28 ( era por aí, a falta de aprovação do avô a esse namoro ).
Abracei a Arrelésia. Sempre a tratei assim. É o seu nome. Está bonita como sempre. Era uma menina também, quando casou com o Belmiro. Tinha 14 anos. Ele 22. É a mãe da Maria João.
- Clara…, filha, meu amor…
Este é o Néné. Meu companheiro de brincadeiras. Tão kandengue, mas tão kandengue que se perdeu no tempo, nas curvas do tempo a nossa vivência dessas manhãs e tardes longas da infância. Subitamente vi-o gritando em cima do muro ( sempre em cima dos muros, ele, a irmã, a Lisete, eu…) com um pé cheio de sangue. Um caco de garrafa que se espetara no pé descalço ( sempre de pés descalços, desafiando os vidros e pregos que existiam nos terrenos baldios, muitos naquele tempo, a que chamávamos lixeiras, e não nos enganávamos ).  Um corte em semi-círculo. Fundo. Que o fazia gritar de dores e dizer asneiras. Muitas. Todas as que sabia e sabia-as todas. E eu e a Lisete olhando e rindo. E ouvindo cada vez mais xingamentos.  Como a Maria João, o Néné era bravo. E nós gostávamos de o destratar chamando – russo de mau pêlo quer casar não tem cabelo – fugindo de seguida, claro está. Também a Lisete e eu éramos bravias. Angola tem bravos e bravios filhos…
- Ainda te lembras, filha? Eu tenho uma cicatriz até hoje. E sorria para mim com um olhar perfeitamente agradecido de fazer parte das minhas memórias.
Lembro-me de irmos para as mulembeiras do teu quintal apanhar pássaros, que tempos aqueles…O Néné é irmão da Maria João e filho da Arrelésia e do sr. Belmiro. Tenho diante de mim uma família que morou junto da minha família. Visita de casa. De festa de casamento e baptizados. Do dia a dia. Gente que tratava os meus pais por tu. Que comia com eles à mesa. Que ria com eles e entristecia também. Eles, os filhos brincavam comigo. Éramos uma família, desabafa a Maria João. E depois a Arrelésia e o Belmiro e o Néné. Lembras-te? Lembram-se?  Foram as palavras de ordem neste encontro, domingo passado. Não na avenida brasil. Não no Largo Camilo Pessanha. Não num qualquer restaurante de Luanda. Em Lisboa. Com todos os que tinham de estar, para ser perfeito. Ausentes e presentes. Todos se sentaram à mesa. Uma mesa de onze pessoas, porém acompanhados fomos, da mãe, do pai, do avô Carvalho, tio Augusto, tia Fernanda, avó da maria João,  Nelas e sr. Mendes, padrinhos do mano Zé, do Carlos e do Jorge, da Lisete, da Laura, do Quinito, D. Justa. Lilinha, D. Lídia, D. Rosa, Odete, sr. Estevão, os Cunhas, Carlos Alberto, Fernanda Bandeira, e tanto outros. Uns vivos outros não.  
O encontro foi marcado na Expo. O Armindo ligou-me a perguntar se queria que passasse aqui no Olival Basto para me apanhar. Claro. Mora perto. Gosto do Armindo como irmão. Quando me chama filha, sinto-o verdadeiramente família. Como se não fizesse ainda parte da primeira linha à chamada para o juízo final. A proteção de quem tem alguém por de trás, como estão os irmãos mais velhos, os tios, os pais, os primos mais velhos. No caminho, já depois do túnel do Grilo o Luís ligou. Esse é outro igual.  Já estava à espera com o irmão, o bangoso doutros tempos. Namoradas eram mato…atendi eu o telefone do Armindo, a pedido. Num ápice, estávamos a abraçar uns e outros. A reviver tempos idos. A almoçar todos juntos. De novo…
E a páginas tantas soube que o Armindo aprendeu a assar castanha de caju e jinguba com o sô Santos. E a fritarem peixe em óleo de palma, ( Armindo, Américo e Luís ) só não se entenderam quanto ao peixe, se era espada ou carapau ou ambos. Ainda soube  das mulembeiras do meu quintal , afinal três em vez de duas como eu supunha na minha lembrança tão antiga, e que me fez dizer a caminho da Barra do Kuanza ao meu amigo como irmão, Edgar quando da súbita aparição de mulembeiras que já não via há quase 4 décadas que – Eu vivi numa casa que tinha mulembeiras.
As lembranças foram-se desenrolando como se desenrola um rolo de linhas onde o nosso destino já se teceu e cumpriu em parte, a melhor parte da nossa vida.  Contaram que as mulembeiras albergavam pássaros e ele os outros corriam os ditos à pressão d’ar. 
Que o avô Carvalho ouvia a rádio brazzaville, que jogavam  hóquei em campo em frente à minha casa, e tantas outras estórias. Umas  que eu não sabia, outras já não lembrava. Outras ainda que me povoam a memória e que tenho como já disse, como sagradas.  
É nestes encontros sem filtros, medos, preconceitos, vaidades, remorsos, culpas, que percebemos a importância da vida, da lucidez, da sobrevivência. Da amizade. 
É nestes encontros de saudade e muito amor, que Luanda se faz presente duma forma inequivocamente poderosa, marcante, maternal. 
- Já não tenho saudade da Luanda que deixei em 75. Já não tenho contas por ajustar, disse, à perguntas feitas por já ter voltado nos novos tempos. Na Angola independente.
Hoje quando volto a Luanda tenho um prazer imenso de voltar à Luanda que deixei o ano passado. Há uma saudade permanente em mim da terra que eu deixo a cada ano que volto para Portugal depois de lá ter estado. Olharam-me num misto de incredulidade e admiração. 
Como geri eu isso? Naturalmente. Luanda é a minha terra. É tão simples quanto isso. 
O Armindo, o único que voltou depois de 75, em 84, disse:
Avisaram-me que ia sofrer um choque muito forte ( acredito que em 84 fosse complicado ).
Eu ia apreensivo. Mas quando o avião começou a descer sobre Luanda e eu olhei, pensei:
Poh, esta é a minha terra…
A minha alma abraçou a alma do Armindo nesse momento mágico. Aqui está alguém que percebe exactamente o que eu sinto. Sente igual…
Foi assim o meu encontro com o passado mais longínquo junto ao Tejo duma Lisboa que eu amo. Domingo fui mais eu. Domingo consegui tocar os pequenos céus que desenho aqui deste lado da vida e do lugar, com as as palmas da mão. 

 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

voltar



Amanhecer no céu
Acordar no espaço
Olhar o meu chão
Minha terra
E ser pássaro…
Voar, voar
Planar, planar…pousar
Nas asas da imaginação
Soltar a pena
E escrever
“ Voltei “
Com a voz do coração
Tocar o céu
Mil vezes lá chegar
Com a palma da minha mão
Vencer o caminho
Que me separa de ti
Outras mil voltar ao ninho
Que a sonhar é logo ali.

m.c.s.

hoje


Manhã de segunda-feira, feita descanso, tem cheiro a torradas.
Tapioca. Flocos de aveia. Cerejas. Manga, mamão.
Tem sabor a flores, livros,  música, maresia, verão.
Tem gesto de dança, preguiça, cigarra.
Tem cor de acácia,  sábado, poema, paixão.
Tem nome principal - Liberdade.
Tem apelido - Férias.
Tem diminutivo - Prazer.
Tem naturalidade – Mundo.
Tem atitude – Aceitação.
Tem um tempo – Presente.
Tem personagem – Eu.
Tem uma palavra – Obrigada.

domingo, 8 de julho de 2012

encontro de afectos


Os quatro móços da esquerda fazem parte do meu passado mais longínquo.
Os três da esquerda adoram dizer que andaram comigo ao colo. Não sei se é verdade.
Sei sim que quando estou com eles, ( hoje foi dia ), mesmo se falo ao telefone apenas me pegam ao colo, me mimam, me cuidam. 
O 4º elemento de camisa branca, esse brinquei com ele bem candengue. Não nos víamos há para aí...muitas décadas. Desde o século passado. 
Os pais de todos eles eram amigos do peito dos meus kotas. 
Amigos de infância são família. Que a gente não escolhe também. Mas ainda bem que permanecem nas nossas vidas. 
Sinto-me uma privilegiada por poder dizer que nasci com eles, brinquei com eles, cresci com eles. Fazem parte da minha vida, da minha terra, do meu bairro, Vila Alice. Do largo Camilo Pessanha.
Obrigada, Luis da Silva, Américo Silva, Armindo SantosNene Poças Silva
Obrigada Maria João, Sr. Belmiro e D. Arrelésia.
Hoje sinto-me mais feliz e na paz dos anjos porque o nosso encontro foi um verdadeiro encontro de afectos que alimentam a alma e tornam-me melhor pessoa.
O tema foi o passado, com os ausentes e os presentes. A terra, o bairro, a nossa sanzala...
E não há nada mais lindo e prazeroso que angolanos que se gostam juntos numa viagem ao passado.
Kandandus a todos. Adoro-vos.♥♥♥♥♥♥♥

sentada nas féria



Ontem, foi o meu primeiro dia de férias.Não saí de casa. Apeteceu-me ficar por cá a fazer o que me desse na mona. Nada.
Ou um pouco mais que nada. 
Rua, gente, cidade, trânsito, ruído, compras,  não foi, decididamente, o que me atraiu. Praia também não. Há nas férias um tempo diferente. Que não me parece um resto. Um estalar de dedos.  Há um adiamento que me agrada. Amanhã vou. Amanhã vejo isto. Para a semana também é dia. E se for daqui a quinze dias? Não acabo as férias sem fazer. 
Há um mundo recheado de coisas boas para viver, ainda que na maior parte das vezes se acabem sem que se cumpra o  calendário.
É um tempo que me enche as medidas porque depende de mim e quando depende de mim há uma exaltação endeusada que me dá prazer e me torna poderosa. Cresce-me o umbigo para tamanhos que me permitem ver a vida com tons de festa e de esperança.  De liberdade. 
Olho o tempo que tenho para a frente e vejo manhãs de praia, tardes, fins de tarde, e não existe em mim qualquer tipo de ansiedade. Lá irei usufruir dos benefícios ( muitos ) que retiro das minhas idas à praia. 
Não, ao mar. Sim, porque ir ver o mar nada tem que ver com idas para a praia. 
Ir ver o mar é uma necessidade que a alma tem de busca do além. É a busca do encontro comigo. Do encontro com o silêncio. Com a paz e com a verdade. Com a certeza de que valho o que construo. Do encontro com as respostas. Ir ver o mar não é apenas um prazer sensorial. É um acto de Deus fazendo-me feliz.  Um bónus. Um apelo à imaginação. À inspiração. Ir ver o mar é talvez a viagem mais feliz a que me proponho, a conversa mais prazerosa que tenho com o eu mais atrevido, mais livre e mais tolerante também.. Mais obscenamente sonhador.
Quero ir ver o mar.
Mas também quero ir à praia. 
Quero ficar no sofá olhando os tempos, daqui até onde a  minha imaginação me levar. Para a frente ou para trás. Porque eu sou feita do ontem e do hoje. 
Quero encontros. Vou ter encontros de afectos. Já hoje...
Quero dormir. Fazer a sesta. E dieta. 
Quero ler. Tenho vários livros por terminar. Outros para começar.
Quero ir ao cinema. Aprender. Sonhar.
..Quero escrever. Compilar os meus poemas. E os meus textos também.
Quero animação.
E fotografar. E descansar.
Se cumprir este calendário, tenho as contas feitas com as minhas férias e sairei delas melhor após este tempo que não quero de resto, mas vivido na busca de momentos de conforto, prazer e tranquilidade. Introspecção e perdão também. 
Hoje é o 2ª dia de férias. É domingo e não vou de viagem para o Ribatejo.
Hoje não há trevas. Tenho morada certa e estou bem na minha pele. 
Hoje respiro a dois pulmões e a alma ganha voz.
Hoje sinto-me tão bem, tão bem, tão bem, que acho que sou feliz.

sábado, 7 de julho de 2012

férias

O direito à liberdade total...
Finalmente e por uma semanas.
Coisa boa!

MARIA BETHÂNIA - MENSAGEM / TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - Flor...

destino

Começa o dia
E solta segredos
Espalha lembranças
Liberta memórias
Medos
Estórias... empoeiradas
Passadas e recentes
Mal arrumadas
Algumas decadentes
Outras?!...sementes
Crescendo ao acaso
Ao sabor do vento
E do tempo...

Começa o dia
E o sol brilha já
À minha janela
Chamo o presente
E o que'ele me dá
E acordo no dia... 
Liberto-me de mim
E dou-me à manhã
À
 sua magia
E ao meu poema
Em euforia.
Nas estrofes vazias
Me vou inspirar
Nos versos sem tema
Nus de ilusão
Eu irei rimar
E a letras dourados
Nas linhas do caminho
Uma confissão
Acredito no destino
Se der voz à razão...

m.c.s.

fuguei na escola

Nunca " fuguei na escola ". Perdão. Nunca o quê?
Uma vez. Única e inesquecível vez quando tinha 18anos. No ano escolar de 73/74. Como é que eu estava a esquecer-me disso? 
Chegou Abril. Chegou a mudança. O liceu deixou de proibir a saída dos alunos nas borlas. As varandas que davam para o largo da estrada de catete, bombeiros e hospital militar paaram a dar-nos mundo sem quadradinhos e deixavam-nos respirar liberdade. As escadas centrais já não serviam apenas professoras e contínuas. As matinés ao sábado à tarde intensificavam-se permitindo que os rapazes fossem assistir a mais um filme junto das amadas, das futuras ou das ex. ou acompanhar amigas e irmãs, primas e engates. 
Então, se era mais democrático, foi para e por quê que " fuguei na escola "? 
Por causa dele. Sim, ele foi o grande responsável. Ele, o amor que se apoderara de mim e me roubava assim o coração. Ela a paixão cegueta que nem caixa d'óculos, que ainda não era, fazia ver. Mas se fosse só esse açambarcamento do descompassado músculo... 
Pior que isso foi a manipulação da razão, essa maluca que se julga sempre intocável e superior, olhando por cima do ombro e pelo rabo do olho para os pobres apanhados pelo clima da paixão dos verdes anos. A razão que foi apanhada nas curvas dum caminho onde soprava uma brisa fogosa e quente e precisava se refrescar nas águas da praia do Dongo, ali mesmo paredes meias com o Kussunguila, ou quem sabe, se aquecer no sol da tarde longa dum maio ameno já a querer entregar-se ao cacimbo que não tardava nada e ia avançando e tomando posse das areias da praia, das canoas, das gaivotas, dos pescadores, dos coqueiros e palmeiras, do farol, das manhãs e dos crepúsculos. Dos apaixonados...Queria rectificar um pormenor que me atrofia se não o fizer. Se calhar não houve culpado. Culpados. Para ter " fugado na escola " .
Que é que é isso? Depois de ter rugas é que me dá para me isentar de responsabilidades e imputar as mesmas aos outros, mesmo se são o amor e quem o provoca? O sujeito, não sei se estão a ver na gramática. Das aulas de português.
Aqui e agora assumo que não. Não foram culpados Eu fui totalmente culpada nessa estória de me baldar do liceu feminino, ( onde o meu kota pagava as propinas a tempos e horas ), uma tarde inteira de aulas de quarta-feira, que deixou de ser ( feminino ) porque já havia uns meninos meio pálidos, pudera, com tanta garina histérica passando em frente da sala do rés-do-chão no caminho para a cerca para participar nos campeonatos de ringue ou apenas ficar a olhar a sua equipa a ganhar. Tinha um que era loiro e alto e lindo de morrer. Bom como o milho. Eu que nem gostava de loiros, também achava. 
À quarta-feira não havia aulas no primeiro tempo. Na minha turma evidentemente. Do mal o menos. Não perderia tantas aulas como nos restantes dias da semana, inclusive ao sábado se os escolhesse. 
E ai vou eu ter a minha primeira experiência como fugueira. Do liceu até à mutamba, foi um ápice. Outro até à Ilha. À praia. Ficar na praia, biquini roxo, decotado, bronzeador a cheirar a coco e coca-cola, toalha florida estendida, ficar na praia, repito, quando não nos deram férias é estranho e tem sabor a proibido, pecado, contravenção. Sem arrependimentos nem constrangimentos de justificação de faltas, pois com as mudanças também as justificações escapavam à atenção do pai, sim porque a mãe era notificada deste delito e nem por isso o proibia. O amor justifica tudo não é minha querida e saudosa mãe?
Era no tempo do Liceu Feminino. No tempo de mudança. Na década de 70. No outro século....
Era no tempo da paixão e do amor e dos dois...e nunca me arrependi de ter fugado na escola.
Porque raio tenho eu presente esse tempo, esse mar, essa praia, essa areia, fim de tarde, o amor se manifestando sem truques nem cartas fora do baralho, logo hoje?
Estou de férias. O coração desgovernado neste verão agressivo não se deixa impressionar nem castrar pela mente. As memórias, não se deixam filtrar. Nem jogar fora. 
Por falar em jogar, baralhei, parti e acabei a dar cartas num tempo que era de mudança. 
De tal forma que ainda se fazem presentes as lembranças daquela tarde em que " fuguei na escola ".

sexta-feira, 6 de julho de 2012

sempre a desgastar-me




Sento-me no banco da paragem do TUT. Poiso os sacos. Podia ser chamada, a mulher dos sacos. Sempre com eles. Acho já não sei andar sem eles. Habituei-me a transportar uma carga pesada que muitas vezes não é senão um fardo que custa mas do qual não me desembaraço.
Tiro a embalagem das línguas de veado. Eu sei que são crocantes, mas não são línguas de gato. Não gosto de línguas de gato. Para além do resto, lembro-me da minha Pitanga, pobre Pitanguinha que está de novo naqueles dias difíceis e paga maria clara, paga e não bufes. Quem te mandou ter uma gata? Pois é. Bem que me avisaram, mas era ver para crer e eu não sendo teimosa, preciso de passar por elas para aprender com elas.
Abro a embalagem e tiro duas línguas de veado. Levo-as à boca. O banco da paragem de autocarro reconhece-me. Sim, porque eu sou a tal que vai ao Modelo, invariavelmente compra um frasco de sumo natural de cenoura e maçã, fresquíssimo, e vai bebê-lo para a paragem do autocarro. Aos poucos. Não tenho frescuras de senhora, que ah e porque tal e coiso, uma senhora não come na rua. Não, não come...
Uma senhora não pode é ter sede ou fome ou as duas. Nem pode ter impaciência enquanto espera e não pode fingir que não lhe agrada beber um sumo natural e comer umas línguas de veado que apesar de serem fresquíssimas e crocantes, deixam-se comer lindamente, ali mesmo na rua, sentada no banco. Adianto que...o hábito se tornou vício e acabo sempre a comer e a beber ali, como se dum banquete se tratasse. Já me habituei à espera e tenho andado à coca a ver se fixo este estranho horário para não ter de fazer sala com varanda virada para a rua, por onde passam cretinos, imbecis, indiferentes e até conhecidos e amigos, que olham, falam, sorriem e seguem. É que também não ando com a melhor das pachorras e o sol está quente e pronto, estou melhor em casa que num banco da paragem de autocarro.
Ando insuportável eu sei. Nem eu própria me aturo. As férias mesmo aí a fazerem-me caretas. Simpáticas. E eu ingrata nem retribuo. Os nervos em franja porque as tralhas são mais que muitas, a Pitanga que odeia a gateira, o computador que é pesado para transportar, as minhas dores que são umas cabras pegajosas feitas lapas, enfim, nem sei se são desculpas que arranjo para justificar esta angústia que se apoderou de mim nos últimos dias, se sou eu só a armar. Mas porquê? Para quê? Para quem? Para nada. Para ninguém. Eu sou mesmo sozinha. Conto apenas comigo, salvo raras excepções que têm nome e sabem bem quem são que se não me dessem uma mãozinha nem sei o que seria de mim, mas na verdade, tenho mesmo que me virar e não sei porquê que ando enervada por causa da minha deslocação, das férias e do que isso implica. Ou sei? Sei lá...
O TUT que venha que eu estou farta de pensamentos solitários, de perguntas e respostas, truques e apostas. Que quer ganhe quer perca, fico sempre a perder. Quem me manda apostar com a outra de mim? Sempre a desembolsar. Sempre a desgastar-me...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

quase...


Estou para aqui quase deitada no sofá. Quase a dormir. Quase desanimada.
Quase culpada...
Se querem mesmo saber, acho que tenho sido uma traidora. Quase...
Abro o computador, venho ao blog e fecho-o de seguida, vou ao facebook e valia mais estar quieta, vou aos e-mails e não me apetece abri-los. Muito lixo. Muita gente a mandar coisas desinteressantes. Ninguém lhes diz que são actos inúteis. Nem eu. Que não abro, não leio, não respondo. Deixo p'ra depois. Dou um tempo, que já vai em mil e tais e-mails por abrir. A ver se me há-de apetecer. Se não me der a preguiça. Há porém alguns que espero com mal disfarçada ansiedade. Sim porque eu sou inquieta e ansiosa por defeito ou feitio não sei bem. Acho até que sou paranóica, porque há e-mails que nunca chegam e que dava quase tudo para que chegassem. Há e-mails que têm anos de atraso. Outros, semanas, dias, horas. Porém há e-mails que eu nunca queria ter recebido. Que não quero receber e que me perseguem. Depois há os outros. Esses mil e tais, de gente que nem conheço e que ou são desocupados ou paranóicos como eu, mas são ainda atrevidos e inconvenientes e mandam-nos de empreitada e nem sequer percebem que quantos mais, pior.
Hoje até tinha um, duma suposta mulher e por isso o abri, burra como só eu sei ser, aliciando-me duma forma ordinária o que me fez pensar que sou uma otária que ainda acredito no mundo, apesar de estar sempre com um pé à frente e outro atrás. Caio na mesma, esfolo-me toda. Magou-me e entristeço. Dou comigo a pensar, nas caminhadas que faço sozinha, que este mundo está dum jeito que me desilude tanto que até me acho boa pessoa, eu que sou tão carrasca comigo própria.
Estou quase de férias. Quase a fazer anos. Quase reformada...
E que faço eu? Ao invés de me regozijar com estes quases todos, feitos de tudo o que gosto, definho-me numa quarta-feira de verão, sozinha, num sofá duma sala quente duma casa que deixou de ser ninho, lar, família. E quase paz e tranquilidade. É espantoso como recebo sinais. Há poucos dias sonhei com algo que me surpreendeu profundamente ter transportado para o mundo dos sonhos. Quando acordei, percebi de imediato que fazia sentido. E fez. Não vou dizer o que foi, mas o que aconteceu no sonho, aconteceu na realidade. Sinto um arrepio se isso acontece. Não é novo. Nem raro. Acontece muito. Mas sinto sempre um arrepio. Nesse dia, o pai, o meu pai faria anos se estivesse neste mundo. Acho sempre que tem a mão dele. É mais um sinal...
Hoje, cansada, doente, quase doente, pois que arrasto uma dor já há uns dias e pressinto que não me vai abandonar assim com um qualquer banal anti- inflamatório que ainda por cima se põe a desconversar com a minha colite e me atira para a insegurança deprimente da casa de banho, merda para isto, que já vi este filme há uns anos, poucos anos atrás e sofri tanto que ninguém sonha sequer como foi e como é que uma mulher descobre uma cabra duma hérnia na cervical, anda dois meses na toma de medicamentos e mais medicamentos, e Tramal em doses cavalares para suportar as dores, e leva ao mesmo tempo com uma intervenção cirúrgica da filha que fica sem se poder mexer durante mais de um mês, e para completar o ramalhete, descobre que vai dar e levar obviamente um par de patins a uma criatura que nunca a ensinou a patinar e sobrevive a isto. E é nisto tudo que penso a caminho de casa, antes de chegar ao sofá, ao computador e à sensação de estar só e desamparada, ( isto hoje está do pior ), que me interrogo sobre estes " quase " que não me animam, este passado que devia estar trancado a sete chaves para não beliscar sequer o meu dia, como diz a querida Sónia Morais dos Santos, " ressuscitei das cinzas," não devia atiçar o fogo, sob pena de me entristecer, mas a vida não pode ser só cruzes nos dias maus e reticências nos que hão-de vir, há os intervalos que servem para as interrogações e nos trazem os sinais. Quase acredito neles...
Estou para aqui quase a desistir de escrever, do computador e da televisão. Do telefone e do contacto com o mundo. Acho que devia fazer a experiência de não recorrer a estes subterfúgios a ver como seria a minha vida. Como no antigamente. Entregue a mim própria mais que sempre. Sem muletas a aliviar a carga. Apenas o relógio, o telefone e o caminho a percorrer. Já agora um rádio a pilhas. E uma bicicleta. Será que ainda sei pedalar? Faz tanto tempo que a minha vida é outra...
Estou quase a fazer anos. Quase de férias. Quase reformada. E quase angustiada também. Será que estou quase louca para vencer este quases, ou estou só louca varrida?
Procurei-me, falei com a outra de mim, acusei-me, vitimizei-me, esperneei, chorei e gargalhei loucamente e ainda assim não fiquei convencida de que sou culpada deste estado. Alguma vez tinha de ser. No sofá, quase deitada, quase convencida achei um culpado. Permitam-me que faça segredo. Mas até que posso dar uma dica. Sabia que algo estava a acontecer que me incomoda. Recebi o sinal e sem querer, encontrei quem tem culpas, sim.
Noutra reencarnação a ver se não me esqueço de ser Bruxa. Porque nesta, sou...quase.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Palavras e Silêncios (Zeca Baleiro e Fagner)

dá-me luz




Solidão
Que corroi
Domina e doi

E se oferece à oração
No intervalo
A viver
Feito paz
Minha prece
Tua fé
Sonho meu
Espelho mágico
Meu reflexo
Dá-me Luz...

Minha alma
A gargalhar
Minha mão
A tocar
A tua voz
Emoção...
Uma nota musical
Na minha melhor canção
Um sonho voando nos céus
Ao encontro do luar
Um breve e fugaz momento
Não mais que um pedaço de tempo
Para amar...
E somos nós
E estamos sós
Ah ilusão
Tempo teu
Desejo meu
Coração
Guardião
Dá-me Luz...

m.c.s.

domingo, 1 de julho de 2012

Pai


Pai
Não resisti. Estive até esta hora a pensar que ia saltar o teu dia.
Não. Este ano não escrevo, disse para com os meus botões. Não faltam oportunidades de o fazer. Porquê este masoquismo? Esta necessidade de não deixar passar o dia em que nasceste há 87 anos?
Fui até procurar as palavras que te dediquei o ano passado aqui no blog, eu sei que tu deves ter tido dificuldade em saber o que é um blog, eu própria sei desta modernice há tão poucos anos e ainda por cá ando... mas dizia eu que procurei no blog um texto que escrevi o ano passado no dia 1 de Julho e vai daí publiquei-o hoje no facebook. Pois, também não sabes o que é facebook. Ó sô Santos as coisas que tu perdeste...
Acho que ias gostar do facebook como eu gosto. Somos feitos da mesma massa. Gostamos dos afectos. De reencontrar amigos. De recordar Angola e a vida que lá vivemos. Sim, ias gostar do facebook. Ias gostar de saber como tanta gente te recorda. Como têm saudades tuas. Como se lembram de como foste amigo. Como eras honesto, simples, confiado e leal. Amigo.
Decidi escrever hoje só para te dizer isto. Para além do meu pai que amo eternamente, foste amigo de gente que se cruza comigo na vida e  nessa rede social e ainda te recordam nos pormenores mais bonitos de ti. 
É a Ana Maria que ainda há poucos dias quando fez ela também anos, me disse que o leitão que tu fazias era melhor que o da Bairrada. E ainda sabe que hoje é o teu dia. Ah e não é só, ainda sonha de noite, quando dorme, com a mãe. Diz-lhe, porque eu sei que estão juntinhos como sempre, para todo o sempre.
É o Nené, sabes quem é? O filho do Sr. Belmiro e da Arrelésia, que me perguntou: És a Clara, filha do sr. Santos da loja? E acrescentou que tu e o pai dele eram os melhores amigos. Não deu novidade nenhuma. Também eu me lembro desse teu grande amigo que ainda está neste mundo graças a Deus com a sua mulher. 
É o Armindo, que me disse um dia destes que ajudaste o seu pai numa fase menos boa da vida dele, assim, de caras sem pensares duas vezes.
É a Fatinha, que te recorda cantando fado à desgarrada nas noites de fim de semana lá em casa.
É o Luís, que diz que no tempo da casa das mulembas, quando eu ainda nem sequer era nascida, tu fazias o lanche, e que lanche devia ser, porque eu sei como tu gostavas de uma mesa farta,  para os miúdos do Largo Camilo Pessanha que apareciam por lá por casa, quando tu e o pai dele, e outros pais de miúdos do largo jogavam às cartas, ao chinquilho ou simplesmente passavam juntos momentos de descanso e lazer. 




Tudo isto no facebook, pai. Esta rede social dos tempos modernos que nos faz ir mais longe e ter mais mundo, como tu gostavas de ter e  estar mais perto dos afectos e vivê-los mais intensamente. E me faz ter um orgulho profundo de ser tua filha, porque estas pessoas te recordam com saudade e admiração. Respeito e estima.
Parabéns dá-se aos que permanecem fisicamente entre nós, quando comemoram mais um aniversário.
A ti, hoje, neste dia que tantas vezes comemoràmos, porque tu gostavas de uma boa farra com dança e tudo, ah como gostavas de dançar tango comigo, a ti hoje eu digo: 
Muito obrigada pai, por teres sido o melhor pai do mundo e um amigo muito querido para quem contigo privou. És o meu orgulho e ser tua filha faz de mim uma pessoa melhor. 
Daqui de onde estou, para aí onde tu estás o meu abraço maior, aquele que não cabe em todas as eternidades que possam existir. Do tamanho do olhar de Deus.