terça-feira, 1 de julho de 2014

a perda maior


Há nos anseios mais profundos duma mulher, o desejo de florir. A necessidade de amar incondicionalmente.
Há no dia em que a primeira falta acontece a alegria desmedida de gerar um ser. O poder do milagre. E toca a barriga que ainda não cresceu. E desenha uma figurinha, botãozinho de rosa. Ela que já é uma flor. Pronta. E inicia o processo do amor. Esse que não há igual. Nem maior. Nem comparável.
E o corpo arredonda-se. E os enjoos acontecem. O sono multiplica-se. A vontade de o ver. E de o ter. De o sentir. De o mimar. De o proteger.
E ele nasce. E tudo acontece como deve acontecer. Não há uma predisposição trabalhada para amar. Há sim uma involuntária capacidade para perceber que o centro do mundo deixou de ser ela, mulher, para ser esse rebento que " lhe pertence ". Sangue do seu sangue. Amor da sua vida, para sempre. E inicia assim o processo de ser mãe.
Trata do filho sem que alguém a ensine. O instinto é superior. E amamenta. E vela o seu sono. E levanta-se de noite vezes sem conta a ver se respira. Aconchega-lhe as roupinhas. Contempla-o. Comove-se. Ama-o nessa linguagem muda do olhar, do cheirar, do tocar.
Um filho perde-se e recupera-se a cada centímetro de crescimento. Num dia é um bebé, noutro é um rapazinho, uma menina de caracóis, Num dia diz mamã, noutro já pede papa. Num dia deita a cabeça no ombro dela, noutro já o leva pela mão, para a escola. Num dia é um menino, noutro já é um rapazote. Uma miúda.
E quando se dá por isso, o ser, que esteve ligado à mulher pelo cordão umbilical, corta-o. E vai à sua vida. Voando com asas de voar e voltar.
E o amor de mãe chora por dentro e sorri por fora e diz: vai. Com a certeza de que volta no intervalo. Sempre...
É desses intervalos que uma mãe vive. É isso que lhe dá alento. Coragem. Futuro. Motivo.
Uma mãe não mais tem um sono descansado desde que o seu filho nasce. Mas nunca mais deixa de sonhar. Venturas, para a sua cria.
Uma mãe é corajosa mesmo que morra de medo. E incentiva.
Uma mãe é o abrigo do seu filho e acolhe-o de braços abertos e coração maior. Quando e sempre que ele volta.
Uma mãe está preparada para tudo. Porque tudo aprende. Tudo ensina. Tudo deseja para o amor da sua vida. E quando à noite se deita a sua prece vai para Deus, rogando que proteja com o Seu infinito poder, o amor maior da sua vida. E lhe dê vida.
Uma mãe dá a sua vida pelo filho. Morre por ele. E não está preparada para o ver partir para sempre. Porque a natureza não devia falhar.
Uma mãe deve partir primeiro. Por tudo e também porque fica destroçada para sempre. Vencida. Perdida. Impedida de sonhar. De projectar. De sentir, ver, abraçar, esperar. Os intervalos.
Qual a maior angústia, o maior pesadelo de uma mãe? Não partir antes do seu filho.
Uma mãe só é mãe se houver um ser que a faça sentir assim.
Se um filho morre, a mãe morre com ele.

m.c.s.

P.S. Ontem, domingo, viajava no comboio para Lisboa, depois d' um fim de semana fantástico a norte, quando a notícia de que Judite de Sousa perdera o seu único filho, André, me deixou sem ar. Sem chão. Com a alma dorida. À ideia do sofrimento desta mulher da televisão, que todos conhecemos.
Nenhuma mãe merece ver o seu filho partir para a eternidade. Não há lugar em nós, mães para apaziguar essa dor. Digo eu, apenas por instinto.
Paz à sua alma, filho de sua mãe. E que Deus proteja esta mãe.

terça-feira, 24 de junho de 2014

conversa de ...( tuge )



Sem rede. Nem papel.
Ou chão...
Sem apoio, WC,
ou penico à mão.
Subitamente,
sem sinal nem previsão
Uma incontrolável dor de barriga
E o ser mais controlado, betinho,
Rico, ou vaidosão, vira apenas um cagão.


m.c.s.

P.S. Inspirada, sabe-se lá em quê, em quem...

domingo, 22 de junho de 2014

a propósito de patriotismo

foto tukayana.blogspot

Assim estão as ruas do Olival Basto.
Bandeiras portuguesas ao vento...
O patriotismo exibido sem vergonha.
Não quero ser ovelha ranhosa mas se calhar não ter vergonha de ser-se português e pegar-se o touro pelos cornos devia ser a atitude. Não hoje. Sempre.
Mas está tudo preso a um jogo que Portugal tem de ganhar.
Mas estão todos ansiosos pelo hino para se emocionarem.
E vibrarem num jogo que é mata-mata como dizia Scolari.
Já Paulo Bento diz que é um jogo para homens. Ahn?
Sorri , ao ouvi-lo. E não pude evitar uns pensamentos travessos.
Acho que ele não percebeu no imediato, se bem que depois deu a volta à conversa. Será que de repente os jogadores da selecção foram meninas indefesas perante os terríveis alemães? Ronaldo uma cachopa?
Meninas ou homens, ou seja lá o que Paulo Bento lhes quis chamar, metendo os pés pelas mãos, eu também estou pronta para ver o jogo. E desejosa que a selecção portuguesa ganhe. Mostrando que um dia é da caça outro do caçador.
Não tenho uma bandeira portuguesa à janela. Eu não embandeiro em arco. E não me parece que a vitória de Portugal mude alguma coisa na minha vida. Sei bem o que mudava e não tem a ver com esta bandeira, mas isso são outros quinhentos. Porém às 11 horas da noite mudarei de canal para assistir a mais um jogo do Mundial, que não sendo por acaso, mas marcado, é entre a selecção portuguesa e a dos EUA. E eu também sou portuguesa.
Não me interessa quem é o melhor. Que ganhe Portugal. Mas se não o conseguir, gente, não é a morte do artista.
A morte do artista é tudo o que vai acontecendo de ruim, neste Portugal derrotado, todos os dias...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

as ditas ( bolas de berlim )


" Aqui estão elas,
As bolinhas de berlim
São fofinhas e amarelas
Eu tenho uma só p' ra ti..." diz ela, correndo a praia de saco na mão, pé descalço, a areia a escaldar, bem disposta e exibindo as bolas de berlim amarelas, já fofas não sei porque não as apalpei pois não as comi, porque sou gulosa mas não sou louca e uma pessoa tem andado mal das entranhas e tudo e tudo e elas não matam mas moem.
A minha amiga Olívia chamou-a e eu disse-lhe, não me digas que vais comer uma bola de berlim à minha frente e eu vou ficar a olhar? e ela até estava capaz de desistir, mas eu encorajei-a. Afinal sou sensata ou sou um rato?

Bolas há muitas. E eu não tenho outra igual a mim.
Não conhecia a vendedora nem o seu pregão, puro marketing mas achei piada e francamente, gostei do seu ar bem disposto.
Ainda há gente que quer e gosta de trabalhar. Aqui está algo que eu era capaz de fazer na boa e ao mesmo tempo curava-me desta gula de bolas de berlim da praia. Do Tamariz.
Já aí vem uma?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

aquele abraço

Há neste mundo de Deus alguém que guarda no peito a sabedoria do afecto.
Para a oferecer, enlaçar e como ninguém mais, a abraçar. E ma ofertar.
Como se sempre fosse pouco. Nunca possa ficar perto nem vá viver amanhã. Como se fosse o último dos seus actos.
Como se a alegria de me ter igual, se misturasse com o medo de se perder de mim.
Como se celebrasse o mais valioso de todos os seus desejos.
Que se agiganta e me prende e nesse enlace se une a terra e o céu, a noite e o dia.
A lua e o sol, mais a água e o fogo. Numa roda-viva.
E todos os elementos fossem pouco para esse gesto supremo de amor que nunca morre.
Que a cada abraço explode.
Reconhecem-se os corações unidos e o mundo silencia-se e suspende-se.
E o seu abraço, condão que me faz especial e única, dura um minuto ou dois, não mais, mas é um para todo o sempre, que nem sempre é logo, a fazer-se tarde. Nem sempre certeza. E nunca foi nunca.
Há neste mundo de Deus alguém que o Criador colocou no meu caminho para me abraçar de quando em vez, como se fosse um menino.
Como se fosse o protector, Como se fosse um eterno amor. E desse amor vivesse.
E nesse abraço se mistura a pele, o corpo e a mente. E as nossas almas pungentes.
Entre a dor e o prazer, o carinho e as eternidades que nos dividem e afastam, há um novelo de sentimentos que nos envolve e se agiganta. Insolúvel. Uma energia sempre latente, em espera, que o tempo não apagou.
É um abraço com tudo o que o nada nos dá e deixa existir. E o mundo pára. E nos contempla a sorrir.
Abraço-ternura, coragem, força, silêncio, saudade.
Abraço-memória, palavras, beijos. Bondade.
Abraço-sorriso no olhar. Abraço bom de dar.
Abraço maior do que o amor que se faz. Abraço-perfeito.
Abraço único. Sempre diferente, sempre igual.
Abraço-chegada, despedida, até qualquer dia.
Abraço em perda, abraço-alegria.
Aquele abraço maior do que o mundo. Maior do que o universo.
Maior de qualquer eternidade que possa acontecer.
De bem querer de quem se quer bem, para além da vida que nos separou, para além de tudo o que nos roubou. Para além do que restou.
Aquele abraço refém no coração e também na memória, até outra vez, que pode ser amanhã, daqui a uns meses, anos, décadas, ou quem sabe quando. Até fazermos de novo história.
Deus é quem sabe e vai-nos pondo no caminho e vamo-nos perdendo e encontrando entre abraços.
Podia dizer que era de filho, mas não.
Podia dizer que era de pai mas também não. Nem de avô, irmão, sobrinho ou tio. Nem de genro. Tão pouco de marido, amante ou namorado.
Podia dizer um nome. Não é preciso. Não vale a pena. É de alguém especial que se cruzou na minha sina e me ficou.
E a cada abraço acontecendo, vejo o universo nos unindo para esse gesto de amor, de quem partiu, mas a cada abraço voltou.
Que saudade tenho eu, hoje, desse gesto. Do calor, do amor que cabe nesse abraço, eterno laço que me enlaçou.

a memória de um sonho

Que adiantam  as águas a navegar,
se não és porto seguro onde possa ancorar?
Que adianta a bóia de salvação se não me vais acompanhar?
Que adianta seres chão, tecto e pão se eu não te vou habitar?
De que forma me faço presente se és passado sem futuro,
num tempo sem tempo para te alcançar?
Sou o que sobra d' um mundo que pus no teu olhar.
Sou uma réstia de nada, de tudo e do que não sei calcular.
Sou a promessa d' um amor que nunca irá terminar.
Um pequeno sopro de vida, uma cruz erguida, um rio que não secou
Sou uma bala perdida, uma alma sofrida, na noite, que te sonhou
Sou uma rosa colhida, uma luz teimosa, chama milagrosa
Que o universo não apagou
Aquela, aquela chama que quis a mais bela
e que sendo apenas ela, sempre te iluminou...

m.c.s.

um dia com intenção

A minha vida é uma estrada semeada de flores. A chuva vai regando-as. Viçosas se vão mantendo. Algumas são hoje regadas pelas
lágrimas da saudade. Não florescem menos mas têm a candura, o romantismo, a  cor bela da memória, da paz e da eternidade. São
as estevas e as camélias que me enfeitam a vida e me amparam no caminho.
Esta estrada semeada de flores que a chuva e as lágrimas da sobrevivência e da saudade vão regando...
Alimentar a memória é manter viva a minha origem. Perfumá-la. Engrandecê-la.
Hoje não é um dia qualquer. É um dia com intenção. Que foi de festa e conclusão. Do amor.
As minhas flores, em união. Entrelaçando as suas vidas. Jurado que foi amor e lealdade, fidelidade, num todo para sempre até que a morte os separasse.
E cumpriram. E não foi difícil. Porque se amaram e respeitaram muito.
Não nasci dessa união abençoada por Deus e registada pelos homens em papel legal. Fui concebida antes. Quando o amor foi mais forte e se materializou na sua verdadeira essência física. Nasci quando tinha de nascer. Pouco depois da data da celebração.
E à ideia de ser fruto d' um amor sem rede, sem barreira nem preconceito, sem medo, sorrio ainda hoje, neste dia em que faz cinquenta e nove anos que os meus pais  foram à missão de S. Paulo pedir a bênção de Deus e a provação dos homens para viverem na paz santa, o seu amor e união.
A minha estrada pode secar. As flores podem abandoná-la. Mas estevas e camélias sempre acompanharão a minha jornada. Regá-las-ei para todo o sempre. Mesmo que não chova nunca mais.
Hei-de mantê-las vivas com as lágrimas da minha saudade.
Salvé dias como este. Abençoados. que me abençoaram...

de repente

De repente, olho o azul do livro já lido e sinto uma saudade dorida, do azul do mar no fim de tarde quente. Do linguarejar das gaivotas perseguindo a velha traineira, das casuarinas da lIha e da lua conversando com o farol.
De repente a dor indefinida deste sentir que fecho a cadeado e me perco da chave, cresce, agigantando-se e envolve-me como se eu fosse a própria dor do mundo. E faz-se presente nesta ausência de tudo o que me memoriza os afectos. Os odores e as cores.
De repente, o metro é um insuportável momento de ócio e impaciência. Um lugar vazio de futuros, de fé e de esperança.
Olham-me. Vejo-os e nada me dizem nos silêncios do cansaço que desenha bocas cerradas, olhares vagos e ombros descaídos.
De repente volta-se contra mim, a solidão geográfica em que me viajo.
Um nada feito de intervalos, de alguns, muitos meios-tempos.
Foi a manhã que não amanheceu sorrindo nem o olho me piscou cúmplice. Foi o caminho solitário de decidir. O encontro. O almoço oferecido. A troca de palavras como beijos, de sorrisos como chuva. Amenizando...
Foi a cabeça doendo, mil miligramas de qualquer coisa. Para males que nem sempre têm remédio. Nem abrem espaço a milagres.
Foi a tarde passando entre roupas e Santos, manjericos e exageros.
E é o metro. A viagem. O sonho de abrir uma porta fechada. Mas não. Ninguém sonha impossíveis e as portas são invisíveis neste fim de tarde que eu queria coroar de borboletas. Daquelas da minha saudade. Daquelas que desenhavam voos alegres e felizes. Sem memória nem saudade.
De repente, olho o azul do livro já lido e fico perto do céu. E longe de tudo o que acinzenta o meu olhar.

sonhos meus

É na noite que me calo
E escuto o silêncio chegar
devagar...
É na noite que me dispo
Do que outros me vestiram
Abandono o que não é meu
E deixo-me ir devagarinho
Abraçada a morfeu...
É na noite que os sonhos
Fogem da minha mão
Esgueiram-se por entre o tempo
Ganham outra dimensão
E é na noite, que, liberta
Minha alma viajante
Veste a pele de aventureira
Livre, mulher, amante
E foge de mim matreira
P'ra viver os sonhos meus
P'ra entrar nos sonhos teus.


m.c.s.

na Feira do Livro



O talento é discreto e humilde.
Tem o olhar sereno, a voz doce e a cor da paz.
E a energia dos bem-aventurados.
O talento, este, é da minha terra.
Neto d' um homem do Namibe.
E chama-se Ondjaki.
Ganhei o dia, hoje, na Feira do Livro.
Que privilégio ouvir este escritor!
Que alegria adquirir mais um livro dele...

reflectindo

Nem sempre o que procuro encontro. Nem sempre o que encontro, procuro.
É o destino a brincar aos encontros e desencontros.
Sou eu que não me acomodo nem desisto...


m.c.s.

ser ou não ser

O que é, não ser português?
É ser o que sou. Não tenho a pátria. Nem a bandeira. Nem a terra.
Não tenho a pertença.
Não tenho plurais. Não conjugo verbos na primeira pessoa do plural.
Nós, não existe na minha linguagem de cidadã com bilhete de identidade português.
As Nossas praias. A Nossa selecção. O Nosso país. O Nosso hino. Os Nossos rios. O Nosso povo. As Nossas tradições. A Nossa tropa. Os Nossos artistas. O Nosso clima. A Nossa música. Os Nossos poetas. Os Nossos políticos. A Nossa crise.
O orgulho português que atinge os portugueses, esse não o tenho. Simplesmente o digo. Sem qualquer intenção ou arrogância.
Não o tenho e ponto.
Nascer no continente africano mudou o meu destino. Bem sei que aquele pedaço de terra catorze vezes e meia maior que Portugal, o seu país colonizador, era isso mesmo, um pedaço de terra, colonizada, que alguns, muitos, teimavam em dizer que era Portugal.
Sensitiva que sou, desde muito nova, tudo me dizia, até o medo estampado em cada português nessa terra, que aquilo não era portugal. E apesar de pais portugueses, cedo percebi a que país pertencia. A que país queria pertencer. A que pedaço de terra eu iria sempre chamar minha. Minha pátria. Minha bandeira. Minha terra. Minha gente. Minha pertença.
Junto de qualquer ser na minha condição, naturalmente, inconscientemente, alegremente, o meu bilhete de identidade , o outro, aquele de que me orgulho com toda a posse de ser, toma forma dentro da minha memória e a conjugação dos verbos na primeira pessoa do plural acontece naturalmente, sem que tenha de pensar ou escolher palavras. Sentir-me culpada ou usurpadora.
Como diria o poeta, Ser ou não ser, eis a questão. Que há muito não existe. Mas existiu quando não percebia aonde pertencia legalmente. Nasci portuguesa. Porque Angola era Portugal. A minha terra tornou-se independente. Passei a ser angolana. Mas não deixei de ser portuguesa, porque a isso tive direito. Legal. Porém o fado não é coisa minha. Nem o folclore. Nem o norte ou o sul. Nem os sotaques. Nem os costumes e hábitos. Nem a mentalidade. Nem a personalidade. Nem as dores.
Nós os angolanos, muitos, somos também portugueses. Alguns, muitos, a viverem em Portugal, outros tantos a viverem em Angola e noutros pontos do mundo.
Nós, os angolanos, somos filhos de pais angolanos, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, são tomenses, brasileiros, moçambicanos, sul africanos e de tantas outras origens. Que vivem ou não na terra dos seus progenitores.
Nós os angolanos, podemos ter a influência do povo português, porém temos algo próprio, a alma secular e mágica de África.
Transmitida e absorvida até por aqueles que não nasceram lá.
Não ser português é ser o que sou. Com a dualidade. A génese foi um pormenor. Físico. A alma, essa é angolana.
E hoje, é Dia de Portugal.
Com todo o respeito digo que a escolha foi acertada. Por o ser no dia em que o poeta morreu. Luís de Camões. Um poeta português. Um poeta do mundo.
E digo também que gosto de Portugal. Geograficamente. E também porque os meus pais o eram e os meus filhos, o são. Portugueses. E ainda porque foi o país que me acolheu e de certa forma me protegeu. E por fim porque aqui vivo. Aqui também é a minha casa. E porque sou grata.
Parabéns Portugal!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

nostalgia ( Deep Purple - Soldier of Fortune )




Há momentos da vida, remetidos para o quarto escuro, fechados a sete chaves. A serem tratados como mortos. Esqueletos. Fantasmas. Apenas.
Eu sou feita de tempo. Carrego malas, sacos, baús, trouxas, imbambas, pedaços de histórias, vivências. Não posso fazer a cruz por cima, usar o mata-borrão e apagar-me para sempre. Mas tento.
Sou feita de passado. Carrego os momentos únicos. Felizes. As esperanças e sonhos. Ilusões. As descobertas. Os amores. As paixões.
Carrego os desamores. As derrotas. Humilhações. Traições e desenlaces. Perdas...
Há momentos da vida para lembrar sem mágoa nem arrependimento.
E há aqueles que são para esquecer porque doem quando ressuscitam a um qualquer estímulo mesmo que inofensivo. 
Sou feita de nostalgia. Do que fui e já não sou. Do que não fui capaz de ser e ter. Do que se extinguiu. 
Sou feita de energia e tudo tem o seu tempo.
Há três décadas atrás apaixonei-me. Por Soldier of Fortune, dos Deep Purple. E passou a ser a música da minha vida. 
Foi no tempo feito de melodias, poemas, aroma de rosas, estrelas no céu brilhando, pirilampos e luares de Agosto. 
E enamoramento. Entre promessas, juras, abraços e beijos, gira-discos, cassetes e LPs.
Porque era a música da minha vida, abri o salão, dançando-a, vestida de noiva, feliz e acabada de jurar amor para sempre, lealdade e fidelidade até que a morte me separasse. Do amor.
Como tudo o que acaba, esqueci a música, o nome dela e quem a cantava. Ao longo dos últimos anos, tentei. Lembrar-me. Numa tentativa frustrada de a recuperar, recuperando assim parte da minha vida. Em vão.
Como se nunca a tivesse cantado. Como se nunca a tivesse dançado. Como se nunca tivesse amado.
Passaram trinta e quatro anos desde aquela vez, a última de que me lembro, no dia do meu casamento. 
Hoje encontrei-a. Como que por magia, feitiço ou karma. Como se encontra qualquer coisa. Por acaso, coincidência ou porque tinha de ser.
Que importa?! 
Não se perdeu de mim, nem eu, dela. 
Uma miscelânea de sensações se apoderam de mim.
Há momentos da vida em que nos visita a nostalgia, de braço dado com a sensibilidade e dá-se o reencontro com as nossas fragilidades. Ao som de Soldier of Fortune, dos Deep Purple.

retrato

A minha casa é o lugar onde me dispo de tudo o que não me faz falta e sou feliz na minha pele.

m.c.s.


estamos no tempo dos jacarandás


Já floriram os jacarandás...
Emprestando à cidade, cor e perfume sem fim,
Tapetes lilazes de flores tão belas
Dignas de qualquer jardim
E das mais ricas telas
Inspiro o aroma e me remoço, 
cansada 
deste tempo agreste, chuva e granizo
Geada
E me rendo à beleza do milagre da natureza

Já floriram os jacarandás...
Enfeitando alamedas e parques, 
calçadas, vielas, avenidas, 
Enfeitando Lisboa
Desde a Mouraria
Até Alfama e Madragoa
Espalhando frescura e alegria

Já floriram os jacarandás...
Raiz, rebento, pétala-flor, do jardim
Já floriram os jacarandás
E floriram também dentro de mim.

m.c.s.

bem-querer


Eu não quero ser forte e esconder a tristeza
Não quero ser livre e não ter mil saídas
Não quero estar presa numa fortaleza 
Não quero um abraço no meio da ausência 
Nem mascarar um sorriso que engane a presença
Eu quero chorar quando a dor me sufoca 
Gritar solidão enfurecida
E recuperar minha alma perdida
Caminhar segura, uma estrada qualquer
E abraçar o mundo para o que der e vier... 
E sorrir, gargalhar, das minhas derrotas 
Até ao passado, até à memória 
Até à infância
Eu quero rir-me da minha história
E mais que tudo, sentir-me criança
Não quero segurar, fintar a rotina
E o mundo, no meu pior
Não quero ser forte nem ter razão
O que eu quero afinal, é ser feliz 
Velha ou petiz
Mas morrer de amor
A cada pulsar do coração. 


m.c.s.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

a propósito das crianças

" Adoro crianças "! é a frase que mais oiço por aí, hoje. E ouvi ontem e anteontem. Tenho a certeza de que até ao fim dos meus dias a ouvirei repetidamente.
Pois eu não. E cheguei a sentir-me má pessoa quando me interrogava porque não adorava eu crianças. Por vezes ainda tenho algumas recaídas e penso confusa, porque é que eu não digo que adoro crianças?
Não digo porque na verdade não adoro nada que seja gente.
Será o defeito, meu? Pois não sei nem quero saber. Sei que não tenho de adorar crianças para perceber o que representam as mesmas. Para saber que fui criança, os meus filhos, sobrinhos, irmãos, primos e os meus amigos, os tais da infância, também.
E isso é suficiente para se perceber que não tenho nada contra a infância, por conseguinte contra as criancinhas que eu e aqueles que amo, fomos. E porque sou eu que o penso e digo, também não tenho nada contra as criancinhas de todo o mundo.
Seres que estão no início da sua existência, inofensivos, dependentes, diamantes em bruto, que é preciso amar, (não é nada difícil ), cuidar, ensinar e respeitar.
Paro aqui, porque eu não adoro crianças, mas amo-as. Cada uma que se cruza no meu caminho. E cuido e ensino e respeito.
Às da rua, aquelas que vão ao colo dos pais, pela mão duma avó, ou de mão dada com os coleguinhas da escola, em fila, de bata do colégio e guiadas pela educadora, acho-lhes piada, são uma ternurinha, cada uma mais linda que a outra. Apetece dar um colo, fazer uma festa ou contar uma história.
E às outras, aquelas que fazem birras, esperneiam, batem nos adultos, fazem finca-pé, sei bem o que lhes fazia.
E há as outras. Aquelas que são abusadas. Pelos familiares, por estranhos, pelos governos, por tudo e todos.
E ainda as outras. As que existem, sabemos todos que existem mas nem a estatística acerta o passo ao compasso. As esquecidas por mim, pelo mundo e também por aqueles que dizem de boca cheia que adoram crianças. As que morrem de fome. Que não chegam a ser adultos, como eu.
Por todas essas tenho uma grande compaixão. Mas sei que não sou eu que posso fazer alguma coisa por elas. Tentar, é um caminho. Embora solitário. E denunciar outro.
Existem leis para protegerem os direitos dos cidadãos. Existem instituições. E existem os voluntários. E gente que adora os seres em crescimento.
E não vale a pena tapar o sol com a peneira. Apesar de tudo isso, morrem crianças exploradas, espancadas, violentadas, à fome .
Todo e qualquer ser que seja desrespeitado e vitimizado me provoca sentimentos profundamente primários. Por isso, à minha frente ninguém maltrata uma criança que eu não permito. Nem fica com fome.
Por isso digo presente às solicitações de organizações de apoio. Por isso vou fazendo o que posso.
Se faço tudo o que devia? Não. Disso tenho consciência. E isso belisca muito mais o meu egoísmo que saber que não " adoro " crianças.
É que elas para mim não são um objecto de decoração. O um boneco de corda. Nem a minha animação. Ou compensação. Ou o preenchimento de vazio. Ou pretexto para felicidade. Apesar de serem lindas, bem dispostas e puras. Elas são a vida em crescimento, que eu não tenho de adorar, como adoro malas, sapatos, perfumes, rosas ou chocolate. Mas que eu devo respeitar.
E porque o mundo não respeita as crianças é que hoje, dia 1 de Junho é o dia internacional da criança. Para que cada um de nós medite. Para que os direitos da criança sejam mais uma vez gritados. Exigidos. Para que se chegue aos governos dos países que claramente tratam as crianças como coisas. Para que se faça um intervalo. Hipócrita. Mas um intervalo.
Todos os dias deviam ser dia da criança. Ou vou mais longe, não devia haver dia da criança. É que eu não adoro crianças mas sei que as crianças são o melhor que o mundo tem, pois se não existirem ele extingue-se e nem que fosse só por isso deviam ser tratadas com todo o amor, carinho e cuidado que as coisas preciosas o são. Mas por todos e não só pelas suas famílias.
Ser criança é uma passagem na vida de um ser, um trampolim, uma ponte. Uma árvore em crescimento. Ajudem-na. Criem-lhe condições. Reguem-na. E protejam-na. E já agora, deixem-se de merdas, porque adorar só não chega. Ou melhor, não é nada. É preciso muito mais. Tudo. Como sei? Fui mãe há 31 e 28 anos respectivamente e sei o longo e doloroso caminho que percorremos, eu e eles para que o resultado desse no que deu. Seres adultos, de qualidade quanto baste.

sábado, 31 de maio de 2014

a primeira vez na espiga


Eu era uma miúda. Perdida numa vila pacata do Ribatejo. Com poucas tradições. E mais preconceitos. Uma sociedade desconfiada e pouco hospitaleira, mesmo se os residentes não o reconheçam. Ainda hoje.
Eu era uma miúda. Acabada de chegar dum lugar com muitas tradições e menos preconceitos. Ingénua, sofrida e sonhadora...
Disseram-me que era feriado municipal. E era costume irem para o campo apanhar a espiga. Não fazia a menor ideia do que isso era e do que representava. Convidaram-me a ir. Que íamos em grupo. E que o farnel, merenda ou o que quiserem chamar, tudo nomes estranhos no meu dicionário, seria por conta de alguém. Não minha.
Na época não sabia fazer farnéis. O mais próximo que estava de algo parecido, eram sandes, um bolo ou outro e rissóis de camarão que a dona Arminda me ensinara, numa paciência de Jó digna de apreço.
E assim, sem saber ler nem escrever, cozinhar ou colher ramos de espiga, fosse lá o que isso fosse, vejo-me a caminho duma quinta não muito longe do centro da vila, mas já fora dos seus limites. Era a quinta do Visconde. Que abria os seus portões à população naquele dia de feriado.
Nunca entrara numa quinta. E mal sabia eu que mais tarde, não muitos anos depois era um entrar por sair na quinta do Marquês, a caminho do Carreiro da Areia, para notificar a dona, que era uma senhora inglesa, viúva do inventor da penicilina e que curiosamente o seu novo marido era tão simpático que percorria comigo as imediações do palácio explicando-me cada pormenor da arquitectura, azulejos, árvores e flores como um verdadeiro anfitrião. Como se eu fosse ali a convite e para o lazer. E gostava tanto da minha princesinha que ao ver-me de barrigão na segunda gravidez se insinuou para padrinho da minha cria se
acaso fosse outra menina, adiantando o nome de Cecília como escolhido. E eu já se vê, sim sim, compadre, é que está-se mesmo a ver que filho meu vai ter como padrinho uma exigente criatura de nome Ramada Curto, actual marido da senhora inglesa que andava em litígio com os empregados e tinha processos de trabalho uns atrás dos outros e se recusava ir à casa da justiça, fazendo-me gastar dinheiro em gasolina e pior do que isso dispunha do meu tempo fora do horário do trabalho como se fosse sua empregada.
De forma que em dia de espiga, a minha primeira espiga, a minha frequência a quintas, quintinhas e até quintais da região, era nenhuma.
Mas gostei. Não me deslumbrei porque nunca fico como um burro a olhar para um palácio. Não tenho feitio para animal de quatro patas com palas nos olhos e apesar de ser uma miúda, vinha de longe e até cá chegar fui vendo alguma coisa digna de espanto.
Uma quinta é uma quinta. E estas quintas eram verdadeiros palacetes cheios de rocócós, não tivessem elas pertencido a condes e viscondes e marqueses também. Com capela, piscina, adega, lagar, pérgolas, alpendres, varandas e varandins, pátios, cocheiras. Um sem fim de divisões, uma área imensa, um mundo, outra dimensão. Outras vidas...
Alguém levou mantas que se estenderam no chão , junto ao rio que confronta com a quinta. Apareceram os acepipes à altura de viscondes, condes e condessas. Quem comigo ia, conhecia outras pessoas que estendiam as mantas aqui e acolá. Cumprimentavam-se. Eu não conhecia ninguém . Vivia na vila desde Setembro. Estávamos no mês de Maio. As poucas pessoas que conhecia não eram com certeza habituês de apanha da espiga e tão pouco de estenderem a manta e comerem pasteis de bacalhau num convívio salutar com as formigas, moscas e abelhas que por ali se passeavam.
Depois do almoço notou-se um frenesim anormal. Chegara a altura do conjunto musical tocar e cantar para assim quem quisesse, dar ao pé.
Já algumas vezes tinha visto alguns dos elementos do grupo, no Viela, café da vila frequentado por muita gente da minha idade. Dizia-se que se fumava umas ganzas e que o sr. Mário, dono do café fazia de conta. Apesar de ter chegado há pouco tempo da terra da liamba não reconhecia o cheiro. Havia quem dissesse que o café empestava a erva. Eu nunca dei por tal. O espaço que até era grande, ficava à cunha sem um lugar vago para nos sentarmos. Passava boa música. Estávamos na época dos Pink Floyd. E em coro, cantava-se com a alegria dos vinte anos. Afinal o conceito do café Viela, do sr. Mário era o de pub a atirar para karaoke.
Eram os primeiros rostos conhecidos que ali encontrava. Gostei de os ouvir. Estava habituada a ouvir os Cunhas, meus vizinhos, os Gansos, os Jovens, os Black Stars e outros e em nada estes lhes ficavam atrás.
Vieram pedir-me para dançar. Recusei. Nunca gostei que desconhecidos me tocassem nem mesma a dançar. Esta coisa da pele tem que se lhe diga e não passou, como passaram os anos de vida.
Dizer que foi um dia perfeito não pude dizê-lo. Ou inesquecível. Mas foi para sempre recordado. Pela surpresa. Pela tradição.
Pelo convívio simples. E mais, por motivos, que não sei explicar. E além disso levei um raminho da espiga para casa pela primeira vez, iniciando a tradição.
Já apanhei muitas espigas. Algumas no campo. Outras sabe Deus aonde.
A cada ano me enterneço quando o dia chega. Por este feriado no Ribatejo. E me ter sido dada a oportunidade de fazer o que me apetecesse. Até de comprar o ramo da espiga à porta d' um qualquer centro comercial de Lisboa, Cascais ou junto ao palácio da Vila, em Sintra.
( quinta-feira passada foi dia de espiga )