quinta-feira, 23 de outubro de 2014
terça-feira, 21 de outubro de 2014
porque hoje é hoje
Hoje é o dia de ficar em casa. E não fui eu que o escolhi. Escolheu quem pode. Quem instituiu o dia de hoje para que o metropolitano parasse.
Nada contra, tudo a favor, note-se. Nem sequer quero ir por aí. Aliás não posso ir por aí porque não tenho metro para decidir aonde quero ir.
Hoje é dia de criar alternativas a esta limitação.
A menos que arrisque ir para a paragem do autocarro a vê-los passar, porque em dias assim eles vão carregados e quando param para que entremos ( que grande sorte ) demoram eternidades até aos lugares de cada um. Sei disso porque já embarquei nessa aventura e enquanto me não esquecer, fico no lugar que estou. Do aborrecimento mas conformada.
A menos que perca o amor a uns euros valentes e chame um taxi. Que me leve a um destino amigo. E traga de volta.
A menos que vá a pé para Odivelas e me ponha às voltinhas.
Ou apanhe o " Voltinhas " e vá para o Centro comercial Strada.
Ou apanhe o autocarro e vá ao Ikea. Não. Muito obrigada. O sol merece mais de mim.
Ou que me ponha à boleia. Isso não me parece possível porque nem uso mini-saias nem tenho pernas de fazer parar o trânsito, que hoje é mais intenso.
Ou que.....enfim! Abstenho-me de falar nos amigos com carro. Não estão para aqui virados, claro. Cada um na sua vidinha, virados para os seus umbigos, para outros mais tentadores e para os seus automóveis. Era o que mais faltava, passearem uma amiga apeada! Uma alma livre, frustrada, uma fotógrafa fracassada ( pelo amor da santa, não me estranhem porque não estou a fazer-me ao piso )
Porque hoje é hoje, é dia de ficar em casa. Ponto.
Ou...reticências.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
o Outono na província
Assim que as férias e Agosto chegavam ao fim e Setembro nascia nostalgicamente no calendário, com dias mais pequenos e noites a pedirem mantas enroladas nas pernas, chá e séries até o sono chegar, as feiras anuais faziam-se presentes no pavilhão montado para o efeito.
Eram os objectivos a renovarem-se para que a depressão não se anunciasse e idas ao médico, anti-depressivos e outras mazelas se rejeitassem, alma triste com o fim do verão.
Logo no início do mês abria-se ao público a feira das empresas e dos serviços. Ostensiva e animada. Gravatas, saltos altos, tapetes vermelhos e brindes, demonstrações, vendas e ilusões. Conversa daqui, beijo dacoli, abraços e palmadinhas nas costas. Aos mais raros na presença.
Logo a seguir, era a feira dos frutos secos. Repetia-se o ritual. A procissão às bancas de figos, nozes, amêndoas, amendoins, tâmaras, avelãs, pinhões, passas de uva e amêndoas do brasil. Aos bolos feitos com essas frutas. E outros. Ao artesanato e às barraca de pão com chouriço da Antónia, a ex do Pipas, " cliente " do tribunal.
Enquanto se comiam os frutos da feira os dias arrefeciam, as chuvas surgiam e o tempo passava mais veloz do que era suposto. Os cobertores mudavam-se dos armários para as camas, o calçado de inverno saía das caixas, os casacos arejavam-se e comiam-se dióspiros e bagas de romã ao serão. Da cesta das lãs surgia aos poucos um cachecol. A hora mudava. E mal escurecesse, já das chaminés, o fumo e cheiro a lenha a lembrar Outono, das castanhas e da água pé. Das broas dos Santos.
Novembro vinha pela mão do feriado de todos os Santos, o dia do bolinho. A pequenada, numa velha e inquebrável tradição, juntava-se e de saco na mão tocava a todas as campainhas que encontrava pedindo o pão por Deus. Depois eram os aniversários de família. Muitos. Parecia que todas tinham escolhido o mês de Fevereiro para engravidarem, só para darem à luz em Novembro. Primeiro o aniversário da primogénita. As prendas. A festa. A família reunida. Os amigos. Depois o mano Zé, a seguir a mãe e no dia seguinte o caçula. Assim passava Novembro entre presentes, bolos, parabéns e a aproximação ao Natal.
Assim passava o Outono. Naquele lugar.
A vida na província, ( província ? ) pode ser maravilhosa. Cidade pequena. Com o suficiente para a gente se governar.
Estádio de futebol. Pavilhões de desportos. Piscinas. Biblioteca. Cine-teatro, bombeiros. escolas secundárias, escola superior. Hospital, hipermercados, ginásios, esplanadas, restaurantes, discotecas e bares, centro comercial, fábricas, igrejas, ruínas romanas, grutas, bancos, lojas, mercado, hotéis, rio, castelo, andares, vivendas, condomínios fechados, jardins. Serra. Cidade bonita e aberta. À auto-estrada, para norte e para sul. Uma hora da capital. Isto para quem conduz a cem à hora. Para os ases do volante, quarenta e cinco minutos chegavam. Ali ao dobrar da esquina...
E há quem a dobre. Eu dobrei, mudando-me de armas e bagagens, ficando paredes meias com a cidade grande. Mas quando chega o Outono apetecem-me merendeiras, morcelas de arroz com grelos, a sirene dos bombeiros dando o meio-dia de domingo, caminhada, descer o viaduto e andar no TUT desde o hipermercado até casa. Sentir o perfume da alfazema, o frio na pele e olhar a serra d'Aire quebrada pela muralha do castelo, comprar a fruta na loja da Rita, conversar com a Lurdes, mãe do Vasco e do Alfredo, sobre a nossa terra, passar a ponte e olhar as quedas d' água do Almonda perto da cadeia.
Afinal ter saudade de quase quatro décadas é ter a certeza de que não passei por acaso tantos outonos na província mesmo tendo estando quase sempre com um pé em Lisboa e outro em Luanda.
Um dia destes vou matar as saudades...
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
pai
Se o céu abriga os bons
Onde estarão os melhores?
Onde estás tu, estrela do meu firmamento?
Estás na minha memória, narrador da minha história e dos passos que aprendi.
Estás no coração que ensinaste a amar, a perdoar e respeitar.
Estás nos olhos, nas mãos, na esperança que faz parte de mim.
Estás na avenida, anos por ti palmilhada, amada.
Estás nas quadras rimadas, nos fados chorados, nas terras para trás dos montes, além rio, além pontes.
Nas estevas e nos andores. Nas preces e nas promessas.
Estás nos amores que semeaste quando andaste por aqui.
Afinal ainda não foi hoje que partiste.
Porque estás no presente, dia, hoje, sempre...
m.c.s. ( à memória de sô Santos 10/10 )
Onde estarão os melhores?
Onde estás tu, estrela do meu firmamento?
Estás na minha memória, narrador da minha história e dos passos que aprendi.
Estás no coração que ensinaste a amar, a perdoar e respeitar.
Estás nos olhos, nas mãos, na esperança que faz parte de mim.
Estás na avenida, anos por ti palmilhada, amada.
Estás nas quadras rimadas, nos fados chorados, nas terras para trás dos montes, além rio, além pontes.
Nas estevas e nos andores. Nas preces e nas promessas.
Estás nos amores que semeaste quando andaste por aqui.
Afinal ainda não foi hoje que partiste.
Porque estás no presente, dia, hoje, sempre...
m.c.s. ( à memória de sô Santos 10/10 )
bater asas e não voar...
Sou como aquela ave de cativeiro. Que tem asas mas não foge.
Quando o meu coração está preso só tenho olhos para a gaiola.
Digo eu, ensaiado um voo doméstico...
m.c.s.
Quando o meu coração está preso só tenho olhos para a gaiola.
Digo eu, ensaiado um voo doméstico...
m.c.s.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
o medo
Na noite que o medo abraça,
na esperança de a conquistar
Vejo as lágrimas que chorei,
sonhos que embalei
serem levados para o mar
As lágrimas se vão misturar
ao sal tão precioso
que há-de temperar
o manjar mais saboroso
Os sonhos serão levados
pela espuma branca da onda
pela vela a velejar
e pela corrente dos rios
que os hão-de salvar
Rápidos no seu desaguar...
Na noite que o medo abraça
para se sentir corajoso
Não há nem frio nem sorte,
nem mantas para me agasalhar
Há desejo de o vencer
Salvando lágrimas e sonhos
Mergulhados no mar...
Na noite que o medo abraça
Há mistérios a desvendar
Debaixo do negro véu
que a noite não quer guardar
Há a bravura do medo
O mocho surdo e quedo
Há um amanhecer conquistado
Para voltar a sonhar...
m.c.s.
na esperança de a conquistar
Vejo as lágrimas que chorei,
sonhos que embalei
serem levados para o mar
As lágrimas se vão misturar
ao sal tão precioso
que há-de temperar
o manjar mais saboroso
Os sonhos serão levados
pela espuma branca da onda
pela vela a velejar
e pela corrente dos rios
que os hão-de salvar
Rápidos no seu desaguar...
Na noite que o medo abraça
para se sentir corajoso
Não há nem frio nem sorte,
nem mantas para me agasalhar
Há desejo de o vencer
Salvando lágrimas e sonhos
Mergulhados no mar...
Na noite que o medo abraça
Há mistérios a desvendar
Debaixo do negro véu
que a noite não quer guardar
Há a bravura do medo
O mocho surdo e quedo
Há um amanhecer conquistado
Para voltar a sonhar...
m.c.s.
verdadeira solidão
A solidão maior acontece quando percebes que nem o teu eco te escuta.
Nem a tua sombra te olha.
Nem a tua pele te veste...
m.c.s.
Nem a tua sombra te olha.
Nem a tua pele te veste...
m.c.s.
da realidade ao sonho
Há sonhos tão antigos quanto eu. Por sonhar...
Marcas do tempo de quem muito viveu no coração de quem quer sonhar.
Como rugas que não acautelei nem quis maquilhar.
Livres desejos de quem muito sonha e tem noites para do tempo se evadir e se inspirar.
Há sonhos que esperam a vez para a história começar.
Não se impõem nem desistem. Não se perdem na bruma da espuma nem navegam ao deus dará das conclusões.
Não são sinaleiros nem policiam a minha vontade de me entregar.
Sabem qual é o seu lugar. Na esquina da vida, na arte da escrita, na noite tão longa, no despertar da manhã. No respirar.
E não se anunciam. Nem arrepiam caminho. Seguros. Antigos. Ali estão, vendedores de sonhos. Só tenho de acreditar.
Há sonhos que vivê-los é mais do que sonhar. É desafiar. A natureza das minhas convicções. Dos meus pesadelos. Da minha vontade de os matar.
Um dia queria agarrar nesses sonhos tão velhos quanto eu e sonhá-los sem rede nem peneira. Sem culpa nem desculpa. Sem intenção de me magoar.
Aquele sonho de final feliz. Que me viesse, das insónias, salvar...
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
na rota do albatroz
Como um voo de albatroz.
Ainda hoje, na dúvida, me pergunto se o sonhei ou se foi o sonho que quis habitar a minha fragilidade de mulher de asa quebrada.
Temporariamente. Fugazmente. Como motivação. Talvez no limite ilimitado do conhecimento, para minha salvação. Para os sonhos não sucumbirem em mim. E os voos não terminarem.
Foi um sonho lindo. Por capítulos. De um livro, que um dia hei-de escrever. Logo que o saiba fazer e me garantam esse saber. Essa isenção. Esse distanciamento de autor. Essa memória do segundo certo, da vírgula justa, da interrogação oportuna, do ponto final.
Há sonhos com honras de passerelle. Tapete vermelho. Flutes e brindes com champanhe francês.
Há sonhos que têm o perfume de flores de frangipani. o sabor do pão com doce de tomate, a visão do carro da tifa por ruas da minha cidade.
Há sonhos que têm trompetes e palcos, camarotes e melodias celestiais. Anjos, potes de mel e comboios de beijos. Anseios, paixão, dependência e alma. Gémea.
Há sonhos que têm as paisagens ilimitadas dos trópicos e o voo gigante dos albatrozes perseguindo os barcos no alto mar.
Há sonhos assim, especiais.
Nunca soube sonhar um sonho assim porque não tive nunca uma alma gémea. Mas mesmo cega, ignorante e adormecida, quis sonhar um sonho maior.
You anda I...Tu e eu...apaixonados.
Acordei. Do sonho ficou-me o coração batendo acelerado como o da criança assustada. As palavras que nunca ninguém me tinha dirigido. A declaração d' um quase amor, quase paixão, quase verdade...
Do sonho ficou-me a capacidade para sonhar para sempre.
Do sonho ficou-me a canção. You anda I...
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Michael Bublé - You And I
só porque me lembrei de almas gémeas que não foram mas podiam ter sido. Albatrozes, carro da tifa, pão com doce de tomate e flores de frangipani.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
amanhecendo
Amanheci abrindo os olhos assim como quem levanta as persianas daquela janela virada para os amanheceres de todos os outonos brigões. Ora com pedaços de chuva, granizo de empedrado transparente e violento, ora com vendavais vingativos, ora com sóis agressivamente quentes na urgência de mostrarem serviço.
Não sei dessas quezílias temporais nem quero adiantar-me. Os meus olhos abertos na mansidão dum domingo que promete, fixa os cantos do quarto, visíveis daqui. O meu horizonte está nessa limitação branca, nas barreiras. Sem fita métrica nem escadote não arrisco medir o ponto que vai d' um princípio ( aquele que olhei primeiro ) a um fim. Palmo a palmo percorro a parede, fazendo contas de cabeça. Um quarto é um quarto. Nos fundos da casa, num apartamento, numa moradia, num hotel ou num barco.
Um quarto é a nossa intimidade. Alma nua. Instinto, repouso e sobrevivência. Um quarto não é apenas o lugar aonde a gente dorme. É o nosso porto. Luta de (des)poderes. Alcova de anseios e clímax de sucessos. Libertinagem. Leitura. Dos nossos eus. Um quarto é um espelho. Imagens, quadros, filmes, tudo sem filtros.
Um quarto é o hoje puxando o cordel da memória, dando guita às lembranças, chamando espíritos de luz, espantalhando fantasmas como quem entreabre portadas viradas para o passado, que de tanto ter passado parece foi noutra encarnação, que me deixam espreitar. Pelo buraco da fechadura.
Embrulhada que estou nos lençóis brancos ( cada vez mais gosto de lençóis brancos como os do enxoval da minha mãe ), sentindo-lhes o cheiro a lavado ( parece de sabão azul e branco ) viro-me para o lado do coração. E as minhas forças da natureza maiores em dia de santo descanso de todas as angústias e medos parece me arrancam do fundo de mim e me gritam vitórias. E me incentivam a continuar neste trilho. E me dizem que não estou só na curva do caminho, naquele canto do quarto. Na limitação dos limites. Neste outono urgente em se outonar.
Amanheci assim, passeando-me preguiçosamente pelas margens de amores tão grandes como os rios maiores do mundo, que estão certos de ir abraçar o mar e levam muitos beijos para o adoçar. E enquanto vão e não vão, beijam também os barqueiros no seu navegar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
condição
Para lá de que céus
De que nuvens
De que asas, te transporto no meu peito?!...
Para lá de quantas vozes
Quantos sonhos
Quantas preces, te guardo e protejo
De todos os males profundos?!...
Para lá de muitos mundos
Do meu amor
Da saudade
Minha dor...
Vais no rumo certo
Em busca da tua verdade
Estrada que se abre ao caminho
Estrela que te há-de guiar
Presente abrindo futuros
E eu aqui a sorrir-te
Com vontade de chorar...
Para lá do universo
De mim e de todas as urgências
Das palavras em prosa e verso
o que eu quero é ver-te feliz
Meu eterno petiz
Nos bastidores do silêncio
No desejo de voar
No abraço do meu colo
Ou num palco a dançar
m.c.s.
De que nuvens
De que asas, te transporto no meu peito?!...
Para lá de quantas vozes
Quantos sonhos
Quantas preces, te guardo e protejo
De todos os males profundos?!...
Para lá de muitos mundos
Do meu amor
Da saudade
Minha dor...
Vais no rumo certo
Em busca da tua verdade
Estrada que se abre ao caminho
Estrela que te há-de guiar
Presente abrindo futuros
E eu aqui a sorrir-te
Com vontade de chorar...
Para lá do universo
De mim e de todas as urgências
Das palavras em prosa e verso
o que eu quero é ver-te feliz
Meu eterno petiz
Nos bastidores do silêncio
No desejo de voar
No abraço do meu colo
Ou num palco a dançar
m.c.s.
a propósito do Dartagnan
O homem que não conhece o Dartagnan mas conhece a equipa do Benfica cada vez melhor, nomeadamente o Talisca.
Hoje começou de fato e gravata. Acabou em mangas de camisa. Arregaçadas.
Começou no rectângulo que lhe é destinado e acabou a prevaricar vezes sem conta. Como sempre, aliás.
JJ no seu melhor...
m.c.s.
ah pois é!
Ah pois é!
Diz que " há vidas mais baratas, mas..." diz também que " não prestam..."
Não fui eu que disse, mas digo que o dinheiro pode não dar felicidade mas que ajuda, isso ajuda e de que maneira. Como não?
Ver chover mais duma hora sentada numa poltrona deste lugar, sendo servida pela posta do meio, é maravilhoso. Bem diferente da tragédia que é estar esperando a chuva passar numa paragem de autocarro depois de ter ficado um pinto. Com a roupa cheia de lama, dos banhos das poças provocados por condutores estúpidos. A roupa molhada, colada ao corpo, partidas as varetas do chapéu de chuva comprado nos chineses, os sapatos estragados, a mala molhada até ao forro, o rimel escorrendo cara abaixo misturando-se com a água e as lágrimas que escorrem até à alma ferida e desconsolada por não ter dinheiro para o taxi. Sujeita a uma pneumonia.
Sei que nem oito nem oitenta, mas...todos merecemos uma poltrona forrada a veludo e a posta do meio, não?
Ah porque torna e porque deixa...eu cá, mereço.
A vida é rica e bela. A gente é que está ganhando miseravelmente! P' ra eles. Alguns dos que frequentam este lugar e nunca ficam na paragem do autocarro num dia de chuva.
m.c.s.
entre lembranças e paladares
O Chico Careca, viveu nos nossos anexos, anos a fio. Tinha um bigodinho, entradas profundas na cabeça, cabelo ralo, seco de músculos e gordura, poucos sorrisos e piores falas. Vestia sempre camisa branca e calças escuras. Tocava acordeão.
Não comia connosco à mesa nem era a Lucrécia que lavava a sua parca roupa. Lavava-a ele. E cozinhava num fogão a petróleo na varanda, junto ao quarto.
Durante o dia esquecia-me dele. Acho que dormia toda a manhã. Não admirava. Era guarda-noturno. Ao fim da tarde, quando a Emissora Católica dava o terço, ouvia-o. Depois, preparava o jantar e comia-o em cima duma secretária rústica, de madeira maciça. O prato era de alumínio branco às flores com caneca igual.
Permitia a minha presença e a do mano Zé na varanda e até deixava que ficássemos na soleira da porta, quando acabado o jantar, agarrava no acordeão para tocar as músicas da Maria Albertina. Atitude que contrariava o que sô Santos e o Rocha Maneta diziam dele, o Chico Careca é ruim como as cobras.
Havia anoiteceres de distracção, sabe-se lá porquê e com quem, atrasando-se para a janta. Nessas alturas convidava-nos a comer com ele. O mano Zé nunca quis e eu também não. Sentia nojo do vinho a boiar na sopa de feijão entulhada de massa, cenoura, nabo e por vezes pão aos bocados, numa mistura asquerosa para as minhas entranhas. Quanto ao segundo, peixe, ou bacalhau cozido com batatas, hortaliça, feijão verde, ou, de vez em quando atum de conserva com batatas, cenouras, ovo e cebola. Tudo regado a muito azeite e algum vinagre. Comidas que abominava. Nunca o vi comer um bife com batatas fritas e ovo estrelado, como eu gostava.
Acordei enjoada. Abri uma das gavetas dos congelados. Nada me agradou.
Tenho andado a chá de bolbo, torradas com compota, fruta cozida e pouco mais. Abri o armário da mercearia e tinha uma lata de atum a sorrir-me.
Eureka! Terá dito a minha memória fotográfica. Contudo não me senti repugnada. Tacho ao lume, para cozer uma batata, uma cenoura, uma cebola e um ovo. Era mesmo isto que me apetecia. Comida simples. Como simples sou eu e são as minhas vivências, apesar de alguns desvios mais ostentosos acompanhando os tempos.
Fiz o prato. Temperei-o. E espreitei o Chico Careca à secretária de madeira com o meu prato pronto a ser degustado.
Passou mais de meio século desde então. O que terá acontecido ao homem que todos diziam ser um osso duro de roer, ruim como as cobras?
Nas idas para a praia, ao passarmos na Samba o pai apontava uma cubata junto d' um imbondeiro, pertinho do morro e dizia, o Chico Careca vive além. Dizem que se amigou com uma quitandeira.
Sentei-me. Entre lembranças, paladares e o presente. Almocei. E soube-me pela vida.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
por amor
Já fui ao céu e voltei
Nas asas d' um albatroz
Despi-me de trapos ricos
Organza, seda pura
Vesti a pele dos anjos,
Acetinada, nua...
E cantei e bailei
Ao som da melodia
Trompetes, harpas,
Vozes santas
Ternura...
Oásis de festa
Alegria...
Não fosse estar no céu
Estaria numa orgia
E o olhar sábio dum deus
A abençoar, eu teria...
Já fui ao céu e voltei
No sonho de me perder
Mas não vi nada de meu
Nem morada, poiso certo
Deste sentir meio ateu
Que me há-de converter...
Já fui ao céu e voltei
Nas asas d' um albatroz
Que encontrei
Para voltar a viver...
Que me prendeu e soltou
E livremente o sonhei
A lembrar-me de quem sou
Já fui ao céu e voltei
Já morri e ressuscitei...
m.c.s.
Nas asas d' um albatroz
Despi-me de trapos ricos
Organza, seda pura
Vesti a pele dos anjos,
Acetinada, nua...
E cantei e bailei
Ao som da melodia
Trompetes, harpas,
Vozes santas
Ternura...
Oásis de festa
Alegria...
Não fosse estar no céu
Estaria numa orgia
E o olhar sábio dum deus
A abençoar, eu teria...
Já fui ao céu e voltei
No sonho de me perder
Mas não vi nada de meu
Nem morada, poiso certo
Deste sentir meio ateu
Que me há-de converter...
Já fui ao céu e voltei
Nas asas d' um albatroz
Que encontrei
Para voltar a viver...
Que me prendeu e soltou
E livremente o sonhei
A lembrar-me de quem sou
Já fui ao céu e voltei
Já morri e ressuscitei...
m.c.s.
a propósito de meet
Encontro é o acto de ir em direcção a outro, ou outros. O contrário de ir em direcção a..., é, ir Contra.
Logo, aquilo a que chamam MEET está errado, porque não se trata de um encontro mas de um desencontro feito de violência com agressões que podem ser graves e até fatais.
Sabemos que há bairros problemáticos. Crianças crescem à rédea solta.
Desintegradas, marginalizadas, carenciadas. De tudo, até de afecto.
E sabemos que a injustiça social cresce à medida que a crise aumenta e que os governantes nos crucificam.
Uns mais que outros estão nesse barco que flutua mas que pode ir ao fundo a qualquer momento.
A moda dos encontros entre jovens chegou a Lisboa. Diz que para se conhecerem e deixarem assim de ser virtuais, as amizades conseguidas nas redes sociais. Parece-me bem. Porque não?
Há no país, empresas bem sucedidas que promovem actividades, um dia de semana, no ano, para os seus empregados se aproximarem e se conhecerem melhor e assim se entrosarem no sistema. Já trabalhei para um encontro desses, organizado pelo Alfama-te, um peddy paper divertido e também ele, à semelhança da empresa, bem sucedido.
Há de vez em quando, encontro de motards, de religiosos, de antigos combatentes, de antigos estudantes, de emigrantes, antigos companheiros de tropa, de antigos moradores numa região, ( acontece muito connosco, os que deixaram Angola aquando da independência do país ou ainda antes ). Por norma todos esses encontros visam o prazer da comunhão. E têm o objectivo de avivar memórias, partilhar experiências, sorrir, gargalhar, brindar à vida, serem felizes. Há rituais semelhantes em todos eles. A comida, a bebida, a dança e a música. As longas conversas. As histórias. Os beijos e abraços.
Nestes encontros há pessoas de todas as nacionalidades, crenças, dos dois géneros, de várias idades, de todos os estratos sociais, de cor de pele e etnias diferentes.
Nunca ouvi que se envolvessem em escaramuças e se agredissem com armas brancas ou arma de fogo.
Então pergunto, porque razão estes grupos de jovens vindos quase todos de bairros suburbanos e problemáticos de Lisboa, promovem nas redes sociais o tal MEET se acabam-no, envolvendo-se em pancadaria, perturbando a liberdade de cada um, instalando o medo e mesmo o pânico em colegas, amigos e cidadãos que não fazem parte desse encontro, desafiam as autoridades e fazem vítimas entre estes ?
Será que estes encontros não são senão tentativas de destabilizar a sociedade lisboeta, o cidadão anónimo que quer fazer a sua vidinha em segurança? Será que não pretendem ajustar contas, dar azo à agressividade que têm dentro de si, vingarem-se em público mas cobardemente a coberto de um colectivo que tem muita gente boa?
Tenho p'ra mim que isto que está a ter proporções que é urgente analisar e anular é um derradeiro propósito de tomar pela força um poderzinho que se sustenta no terror. Quando jovens de quinze, dezoito anos se armam para um encontro de semelhantes é preciso actuar de forma firme e dura. Sob pena de gente adulta morrer de medo de se cruzar com gente pequena que anda louca, à solta pela cidade.
Não quero deixar de ir à Expo, ao Vasco da Gama, ao concerto de Anselmo Ralph, à Póvoa de Santo Adrião ( hoje havia um meet marcado nessa localidade aqui muito perto de mim ) ao Cais do Sodré, ou a Carcavelos porque um grupo de miúdos mijões, alguns problemáticos ( coitadinhos ) resolve que é quem mais ordena.
Hoje ouvi um psicólogo falar sobre o assunto e concordo plenamente com ele. É preciso ser-se duro com estas iniciativas que põem em causa a segurança e a liberdade de todos.
Claro que tudo isto digo eu, que não gosto de julgar ninguém, mas também tenho direito à minha liberdade, que dizem que começa quando a dos outros acaba.
( Ontem 26.08.2014 )
por mim e pelo amor
Passavam uns minutos das oito quando cheguei à rua.
O ar fresco da manhã transportou-me para o Ribatejo e para o tempo da sirene da fábrica dos tecidos, que tocava pelas oito horas, alertando-me para a hora de sair de casa. Num vai-te embora mês de Agosto, beber o batido. Bater a porta. E num ver se te avias, toca a andar a subir seiscentos metros de viaduto a caminho da minha boleia para o trabalho, na vila vizinha.
A rua está limpa, o ar húmido e há ausência de pessoas a caminho do emprego. Leva-me a pensar que está muita gente de férias ainda.
O metro chegou um minuto depois de mim. Ainda assim a esta hora, a estação está cheia. Uns com a lancheira outros com o jornal, outros com chapéus de sol e sacos de praia e outros ainda carregando o corpo e a alma que ainda dorme a esta hora da manhã, a saber pela quantidade de pessoas que vai de olhos fechados, apenas os abrindo quando o metro chega à sua estação. Ou quem sabe os fechará para não aturar o vizinho da frente, que é um cusco, um atrevido, um mal educado, espaçoso, ou mal cheiroso. Um chato.
Chego ao Campo Grande em doze minutos. Espero mais quatro. Entro de novo e sento-me onde tenho lugar. Há vários, vazios. Na verdade confirma-se. Está tudo a banhos. Mais doze minutos e saio na estação do Rossio, saída da Praça da Figueira. Volto atrás para jogar no euromilhões. Mostro o último boletim. Tenho prémio. Oito euros e quarenta. Já o anterior tinha seis euros e tal. Não há duas sem três, dizem. Acredito. Um dia sai. De novo as lembranças do passado a bailarem-me à frente do presente. Sô Santos também acreditava. E jogava. E esperava. Um dia, sim, um dia sairia...
Atravesso a praça. Dois sem abrigo dormem ainda, deitados nos respiradores do metro. Os taxistas mais adiante, em círculo, conversam animadamente. O 15 pára para levar os turistas até Belém. Turistas e não só. Já o tenho apanhado.
Finalmente estou na rua. Agora é subi-la. Um cansaço. Fico com os bofes na boca mas não desisto. Disseram-me, ah porque podias vir amanhã fazer panquecas para o nosso pequeno almoço. Daquelas. De farinha de centeio. E eu aqui estou. Cinco minutos depois da hora combinada.
Toco três vezes. Toco sempre essas três vezes desde que somos família. Como um código. Descobri que usado por muitos filhos e muitos pais. Não faz mal. É o hábito. Não vou mudar.
Subo as escadas. De madeira antiga. Vem-me à memória a casa primeira aonde vivi, na rua dos Albardeiros, na então vila de Torres Novas, hoje cidade. Do Almonda. Vem-me à memória o pai, a mãe, a loja. As escadas onde caí num dia 26 tal como hoje, que faz 26 anos que Carlos Paião partiu, mas de Novembro, aniversário da mãe. E o açúcar, para o bolo que lhe ia fazer, espalhado. E eu a desmaiar. E a mãe assustada. Foi só um susto, mas nunca mais esqueci. A queda, a casa, as escadas, a mãe...
Subo degrau a degrau, que rangem debaixo dos meus pés. É um prédio de 1800 e tal disse-me o dono da casa num dia de aniversário de alguém. A porta abre-se. O sono espreita. Abro as janelas de par em par. O sol entra banhando de luz a sala que se espreguiça. Do prédio da frente uma voz ecoa num fado gemido, daqueles fados da desgraçadinha que não supunha, mesmo num bairro típico, fazer-se ouvir a esta hora da manhã.
O amolador de tesouras ouve-se também. Não o vejo nem à sua bicicleta. Sim, fazem-se sempre transportar numa bicicleta. Mais uma vez dou um pulo ao passado remoto, quando o mano Zé fugia a sete pés do som do instrumento do amolador de tesouras. Diz que quando aparece muda o tempo. Já mudou, dado que choveu durante a noite e no norte Deus a dá.
Começo a preparar a massa para as panquecas. Farinha de centeio, ovos, leite, raspa de limão e manteiga derretida. Não ponho nem açúcar nem sal.Tudo na liquidificadora.
Na mesa o doce de morango, a manteiga de amendoim, o mel, queijo, chá e pão de sementes.
Estão óptimas, disse. Olhei-a. E sorri. É disto que eu gosto...
Por isso venho lá do diabo mais velho, logo de manhãnzinha, para partilhar momentos. Em família. E um pequeno almoço com panquecas de farinha de centeio, quentinhas.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
o nome do blogue
Não é meu, o barquinho.
Mas tem o nome deste blog e descobri-o na marina de Cascais. E não pude deixar de fotografar. Pois claro.
domingo, 24 de agosto de 2014
é o eterno amor
É chegada a hora das verdades esquecidas. Escondidas, ignoradas.
É chegada a hora de contemplar o tempo que passou depressa e se apressa hoje a deixar-me assim...
De coração gelado, apertado. E mãos frias e vazias.
É chegada a hora do abraço, da prece e da entrega na mão de Deus.
Mais uma vez é chegado o dia de dizer adeus, cá estarei para o que der e vier e para o regresso brevemente, também.
E entre a hora que chegou e a que há-de chegar é o meu sentir de sempre, sempre presente, para te ver partir e p'ra te ver voltar.
É chegada a hora, de novo, te ver voar.
É o amor mais antigo. Incondicional.
Neste eterno jeito de te amar.
m.c.s.
não me dêem nadas
Não quero ouro nem prata
Nem qualquer jóia da coroa
Não quero estrelas nem luas,
O sol do meio dia
Nem do barco, a sua proa
Não quero futuros
Promessas
Nem piscar d' olhos
Ou gestos similares
Tão pouco palavras bonitas
Nas vozes caladas, em espera
Ou mãos que não sabem tocar
Lábios que não querem beijar
Nem sorrir
Ao dia, a acontecer
Não quero portas abertas
Reposteiros decadentes
Flores pintadas
Por corações amputados
Vaidosos e dementes
Não quero padrões, ordem, coragem
Para a ausência de presença
De vida, por viver
Não quero provas,
Apagões, sombras, desculpas,
Contas de somar
Não quero arrecadar
Futilidades,
Sótãos
Cromos de colecções
Ou lágrimas de crocodilo
O que eu quero é poesia
Nua, crua e honesta
Útil, solidária, humana
Sem rima rica nem pudor
Onde vença a magia
De cada um ser o autor
Não me dêem nadas...
m.c.s.
domingo, 17 de agosto de 2014
pequenos, grandes sois
Há sois escondendo-se na luz da lua, que banhou o sono, de quem deita os cansaços d' um dia de verão, mais um, que não aqueceu os sonhos.
Tão pouco os esqueceu ou os desenrolou.
Suspendeu-os. No novelo por bordar, linhas que hão-de alindar, dias de inverno, parados. Desgastados e gelados.
Lenço para limpar saudades. Verdades mais que mentiras.
Tristes histórias vividas. Desertos por desbravar. Difíceis. Areia monótona e fina. Igual.
Lágrimas. Vazios.
Há sois que ainda não nasceram e já eu os pressinto. No calor que adivinho na pele. No arrepio nas entranhas, no sinal vindo dos céus.
Aroma de rosas brancas, sem espinhos nem arrogância. Ou altivez.
Chuva de estrelas cadentes...
Há sois escondendo-se em mim, habitando a minha alma em busca. Num crescendo.
Há no sol pai, mãe, tudo, uma gestação latente para o meu mundo pequeno, grande, tudo, não terminar.
Neste verão e depois. Quando a chuva-tempestade se anunciar.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
eu sou e sempre gostei de ser...
Diz que somos 10% da população mundial.
E olhamos o mundo duma forma diferente.
Diz que já fomos considerados anormais e descriminados.
Considerados feiticeiros, ou frágeis. Que somos mais chegados ao grupo dos disléxicos.
E que somos no grupo dos sobre-dotados, predominantes.
Pensamos mais rápido.
E se há artistas, criativos e gente de sucesso no mundo, estamos lá em maior quantidade.
Diz que 40% dos ratos, gatos e camundongos também são como nós. Albert Einstein, Benjamin Franklin, e Alexandre o Grande também eram. E um dos quatro da Apollo também.
O Presidente Obama idem.
Mas também célebres como O Estrangulador de Boston, Jack o Estripador, e Osama Bin Laden o eram, mas…
Uma pesquisa norte-americana indicou que há mais chance de gente como nós serem génios. 20% das pessoas que compõem o MENSA (maior, mais antiga e mais famosa sociedade que reúne pessoas com altos QIs), fazem parte do grupo.
Outro estudo também descobriu que formados no ensino superior são em média 26% mais ricos do que os outros.
Quem somos? Somos os canhotos.
Na minha família somos três gerações diferentes. Sou eu, o meu filho caçula, David e o meu sobrinho-neto, Isaac.
E gosto. Muito. No maior orgulho. Pertenço a um grupo minoritário e discriminado. Mas não faz mal. Sempre gostei de ser diferente.
Cadeiras de braço sempre foram uma complicação. Abre-latas, colher de bebé, coser com agulha, cortar com tesoura, fazer tricot , garfo de sobremesa e tantas outras pequenas grandes actividades que nos oferecem dificuldades que os destros nem sonham, mas são todas vencidas, porque ninguém disse que viver era fácil. E dado que o mundo em geral é destro tudo foi feito para facilitar o grupo maioritário, como o aperto de mão, por exemplo.
Apesar de ser avessa a dias mundiais disto e daquilo, ser canhoto é ser diferente e isso nunca vai ser mudado, a menos que as mulheres comecem todas a parir seres canhotos e o mundo passe a ser equilibrado e em consequência deixe de haver necessidade deste dia assinalado mundialmente como o Dia Mundial do Canhoto. Até lá, nessa improbabilidade, comemoro o meu dia, porque faço parte desse mundo de gente que usa a parte direita do cérebro e assim a ordem dada é para tudo fazer com a mão esquerda.
Parabéns a nós. Canhotos do mundo.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
domingo, 3 de agosto de 2014
a Voz
A voz tem poder. Em mim. Comunicar é tão importante como respirar.
Com arte e beleza não é uma necessidade, é um prazer.
Por isso me rodeei sempre de gente que fala com talento. E a quem Deus deu o dom da comunicação e o timbre bonito, que me encanta.
Gostar de alguém é admirar. Pela voz também. Sobretudo pela voz se aproximam, me aproximo de pessoas.
Uma noite destas, estando a jantar num restaurante da cidade, ouvi uma voz que se destacava de outras. Conhecida. Marcante.
Olhei. Era um homem. Que não conhecia. Voltei a ouvi-la. À voz.
Algo me dizia que o homem eu não conhecia, mas a voz, sim. Voltei a olhar. E as suas feições não me eram estranhas. Um rosto de homem maduro. Feições grosseiras. Que se amenizam quando fala. Que o tornam interessante. Mas de onde é que eu conheço o dono desta voz fantástica que já se cruzou com a minha?
E foi uma inquietação. Pensei no Olival Basto. Não, ali nada é tão interessante. E se houvesse uma voz destas eu lembrar-me-ia com certeza. Percorri os meus lugares de visita, frequência em Lisboa e também não.
Gente de Angola...passei tudo a pente fino. E negativo. Aquela voz, naquele corpo, não cabia em nenhum dos angolanos que conheço.
Fui para Torres Novas. São muitos anos nesta localidade e muitas vozes me ficaram retidas. Gente que canta, que declama, que faz rádio, da política, do tribunal, advogados, juízes, arguidos, um sem número de vozes e rostos a desfilarem. E não.
Nada é pior do que sabermos que conhecemos algo e faltar-nos a lembrança que nos dá a chave do enigma.
A voz calou-se. O homem levantou-se com a sua família. Várias mulheres de idades diferentes. E crianças. Olhei-as também para tentar encontrar a ponta do nó. Não o desfiz. Nem quando ele me olhou. Será que me reconheceu também? Julgo que sim.
- De onde é que o conheço? Apeteceu-me perguntar, pois estava a tomar proporções assustadoras esta minha incapacidade para o reconhecimento e isso leva-me a outros detalhes preocupantes como sejam o do senhor alzheimer poder instalar-se.
Não perguntei. Faltava-me tentar Alcanena, local onde trabalhei mais de uma década. Com contacto com o público. Num quase tu cá tu lá com algumas pessoas que precisavam dos serviços. Mas este não era um " cliente " como chamávamos a quem nos caía na sopa a toda a hora pelos piores motivos, pois que o cliente do tribunal não é senão o tipo que não se tira de lá porque anda a contas com a justiça. Eu tinha a certeza que não. Aos " crónicos " nós não conhecemos pela voz, conhecemos pelo instinto. De sobrevivência.
Foi já em casa que de repente se deu o clique. E lembrei. Um economista duma empresa da região, que ali foi tirar registos criminais. E ficou à conversa comigo, pelas duas vezes que lá se dirigiu.
Reposto o reconhecimento, a voz vestiu o corpo e partiu. À sua vida. E eu deixei-a ir. Que gostar de vozes não me escraviza. Harmoniza-me.
Olhe, senhor economista, desculpe se não o reconheci. A sua voz não deixou. Ganhou proporções de estrela. Mas, uma vez que também tenho uma estrelinha que me protege e ajuda, aqui está. Cheguei lá, para meu sossego. E seu. Não fosse eu persegui-lo.
Com arte e beleza não é uma necessidade, é um prazer.
Por isso me rodeei sempre de gente que fala com talento. E a quem Deus deu o dom da comunicação e o timbre bonito, que me encanta.
Gostar de alguém é admirar. Pela voz também. Sobretudo pela voz se aproximam, me aproximo de pessoas.
Uma noite destas, estando a jantar num restaurante da cidade, ouvi uma voz que se destacava de outras. Conhecida. Marcante.
Olhei. Era um homem. Que não conhecia. Voltei a ouvi-la. À voz.
Algo me dizia que o homem eu não conhecia, mas a voz, sim. Voltei a olhar. E as suas feições não me eram estranhas. Um rosto de homem maduro. Feições grosseiras. Que se amenizam quando fala. Que o tornam interessante. Mas de onde é que eu conheço o dono desta voz fantástica que já se cruzou com a minha?
E foi uma inquietação. Pensei no Olival Basto. Não, ali nada é tão interessante. E se houvesse uma voz destas eu lembrar-me-ia com certeza. Percorri os meus lugares de visita, frequência em Lisboa e também não.
Gente de Angola...passei tudo a pente fino. E negativo. Aquela voz, naquele corpo, não cabia em nenhum dos angolanos que conheço.
Fui para Torres Novas. São muitos anos nesta localidade e muitas vozes me ficaram retidas. Gente que canta, que declama, que faz rádio, da política, do tribunal, advogados, juízes, arguidos, um sem número de vozes e rostos a desfilarem. E não.
Nada é pior do que sabermos que conhecemos algo e faltar-nos a lembrança que nos dá a chave do enigma.
A voz calou-se. O homem levantou-se com a sua família. Várias mulheres de idades diferentes. E crianças. Olhei-as também para tentar encontrar a ponta do nó. Não o desfiz. Nem quando ele me olhou. Será que me reconheceu também? Julgo que sim.
- De onde é que o conheço? Apeteceu-me perguntar, pois estava a tomar proporções assustadoras esta minha incapacidade para o reconhecimento e isso leva-me a outros detalhes preocupantes como sejam o do senhor alzheimer poder instalar-se.
Não perguntei. Faltava-me tentar Alcanena, local onde trabalhei mais de uma década. Com contacto com o público. Num quase tu cá tu lá com algumas pessoas que precisavam dos serviços. Mas este não era um " cliente " como chamávamos a quem nos caía na sopa a toda a hora pelos piores motivos, pois que o cliente do tribunal não é senão o tipo que não se tira de lá porque anda a contas com a justiça. Eu tinha a certeza que não. Aos " crónicos " nós não conhecemos pela voz, conhecemos pelo instinto. De sobrevivência.
Foi já em casa que de repente se deu o clique. E lembrei. Um economista duma empresa da região, que ali foi tirar registos criminais. E ficou à conversa comigo, pelas duas vezes que lá se dirigiu.
Reposto o reconhecimento, a voz vestiu o corpo e partiu. À sua vida. E eu deixei-a ir. Que gostar de vozes não me escraviza. Harmoniza-me.
Olhe, senhor economista, desculpe se não o reconheci. A sua voz não deixou. Ganhou proporções de estrela. Mas, uma vez que também tenho uma estrelinha que me protege e ajuda, aqui está. Cheguei lá, para meu sossego. E seu. Não fosse eu persegui-lo.
aqui mora Deus
Aqui na Barra do Dande, parece o mundo se esqueceu desse lugar e o lugar se esqueceu do mundo num acordo que esse último agradece.
Aqui por estas paragens o dia tem sempre cara de domingo. Ou dia santo.
Parece o tempo parou e a gente passa para outra dimensão. Parece há uma oração no ar. E uma luz no alto para nos guiar. E abençoar.
Aqui o rio dá-se encontro com o mar, o sol reina, calor e cor, acolchoando as águas, de prata. A roupa cora no estendal de capim, que nasce da terra vermelha e seca, cacussos grelham no carvão, os kanucos tramam esquemas, os barcos ficam na beira do rio, uns, carcaças antigas, outros esperam segunda-feira, cães latem, o kota passeia a catorzinha e as galinhas do mato correm livres.
As cadeiras espera condição, nas esplanadas, se ocupam dos forasteiros, os grupos de populares na sombra das árvores perto da água, gargalham, as máquinas disparam fotografias, barbeiros cortam cabelos, os jipes levantam poeira.
Aqui o silêncio faz eco, a paisagem se agiganta, a garganta dá um nó, a pele se arrepia, os olhos ajudam a emoção, as lágrimas se escapam e choram sem pudor nem rigor.
Aqui parece Deus chegou. E se instalou. E nos vem receber. E nos abre os braços num abraço maior, muito maior que o universo.
Aqui se ouve a voz de Deus, se sente a sua presença e é obrigatório respirar profundamente. Olhar o horizonte, atravessar a ponte e sorrir. Mandar parar o tempo. E ser feliz.
Aqui por estas paragens o dia tem sempre cara de domingo. Ou dia santo.
Parece o tempo parou e a gente passa para outra dimensão. Parece há uma oração no ar. E uma luz no alto para nos guiar. E abençoar.
Aqui o rio dá-se encontro com o mar, o sol reina, calor e cor, acolchoando as águas, de prata. A roupa cora no estendal de capim, que nasce da terra vermelha e seca, cacussos grelham no carvão, os kanucos tramam esquemas, os barcos ficam na beira do rio, uns, carcaças antigas, outros esperam segunda-feira, cães latem, o kota passeia a catorzinha e as galinhas do mato correm livres.
As cadeiras espera condição, nas esplanadas, se ocupam dos forasteiros, os grupos de populares na sombra das árvores perto da água, gargalham, as máquinas disparam fotografias, barbeiros cortam cabelos, os jipes levantam poeira.
Aqui o silêncio faz eco, a paisagem se agiganta, a garganta dá um nó, a pele se arrepia, os olhos ajudam a emoção, as lágrimas se escapam e choram sem pudor nem rigor.
Aqui parece Deus chegou. E se instalou. E nos vem receber. E nos abre os braços num abraço maior, muito maior que o universo.
Aqui se ouve a voz de Deus, se sente a sua presença e é obrigatório respirar profundamente. Olhar o horizonte, atravessar a ponte e sorrir. Mandar parar o tempo. E ser feliz.
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