domingo, 26 de fevereiro de 2012

hoje foi assim


Sento-me no banco que escolhi. Não no escolhido pelo computador. Aliás, este andou para me pregar uma partida e uma maior ainda ao funcionário da bilheteira onde apareci um pouco esbaforida, pedindo bilhete para Lisboa, de ida e volta. Não sei se trocámos as voltas ao computador se foi ele que quis pôr à prova os nosso nervos. Na verdade já tinha dado como perdida a viagem no autocarro das 10,30. A meio caminho desacelerei porque devagar se vai ao longe e eu já estou velha para pressas, outro havia para as 10,45, por isso e porque afinal não ia a fugir à polícia nem ao encontro do príncipe encantado, o meu encontro era com uma princesa que espera se não esperar eu, desisti sendo que não gosto da palavra desistir mas às vezes desistir significa viver algo que não viveria se o não fizesse. Falei com os meus botões que não havia crise, fraca já eu sou muita vez, e  não vou agora, vou depois, tudo na paz que conflitos eu tenho de sobra, para levianamente criar outro. Era o que mais faltava. Dei-me ao luxo de ver a montra da loja do chinês que estava coloridíssima, nos manequins deprimentes porém exibindo os seus melhores trajes  de azul elétrico, verde bandeira, rosa choque, a laranja forte, as cores da moda para esta estação que se aproxima dando berrida a este inverno desnaturado que mais parece quis tirar lugar à estação das andorinhas e das flores. Talvez estranhem esta minha confissão, por parar, senhores, parar em frente a uma montra de chineses. E não é que até entro? Eu não sou dissimulada. Conheço muito boa gente que não só entra como compra paletes de roupa que mistura com outra de lojas consideradas de marca e finge que nem sabe o que são chineses. Nunca viram, nunca compraram, têm raiva a quem comprou. Ainda não foi desta que entrei para ver se por lá haveria algo que me agradasse. Não, porque agora até nestas lojas os preços aumentaram num upa upa que a minha conta anda no prejuízo a que a votaram que nem sei se é legal mas que me roubam a cada mês roubam.Estava eu a dizer que dada como perdida a dita viagem das 10,30 pude passear-me qual turista folgada até à garagem dos autocarros. Lá chegada, numa tranquilidade de sábado de manhã, beijada pelo sol e afagada pelo perfume das flores que timidamente despontam, verifiquei não ter partido ainda o autocarro das 10,30  o qual desprezei antes, a meio caminho da chegada, recusando-me a arfar que nem uma louca num caminho que sei fazer de olhos fechados mas os meus pés se recusam a atropelar-se, dentro duns sapatinhos de salto alto; eu e os sapatos, os saltos e eu, mais os tralhos que não me apetece dar, porque doi para xuxu.
- Ó! Não evitei exclamar apressando o passo não fosse morrer na praia. 
O motorista, meu velho conhecido destas andanças, ao ver-me chegar apressada, sorriu.
- Ainda posso comprar o bilhete? 
- Claro, disse, dirigindo-se comigo ao interior das instalações. 
E foi assim que depois de muita insistência do senhor da bilheteira, lá sairam os meus bilhetes e  me vi sentada, na direita do autocarro, numa escolha que só se não puder é que não faço. 
Como as coisas são. Para além de canhota, a direita dos nossos Primeiros (?) não é comigo. Nem nunca será. Não me chamo Zita. Mas nas viagens é. De automóvel, comboio, barco ou avião sempre escolho esse lado da paisagem, do mar, da asa.
Deve ser de tantos anos me sentar à direita, não de Deus Pai, mas de um marido por mim endeusado. 
Reminiscências do passado que não me incomodam o presente e que se não perder no futuro, não faz mossa. Haja viagens. Na direita ou na esquerda. De costas ou de barriga. No autocarro das 10,30 ou d'outra hora qualquer. Sempre olhando para cima e sentindo que Deus me conduz desde a partida até à chegada.
Hoje foi assim uma das minhas viagens.

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