sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

é sexta-feira

Finalmente sexta-feira...
Não sei porque passamos uma semana à espera de sexta-feira. Há-as que são um tédio.
Cheguei à santa terrinha à beira-rio plantada, há pouco tempo. Ainda o sol ia alto e o ar cheirava a primavera antecipada. Fui fazer uma visita rapidinha à caçula, que está a trabalhar.
- Queres morangos? Comprei um saco. E bolo de cabeça? disse-me. E percebeu sem que eu gastasse muitas palavras e intenções que hoje a coisa está preta. E de repente um brilhozinho nos olhos e ficàmos a navegar no mesmo barco. E a vida por vezes é sacana, nas horas do diabo. E quem quiser exorcizar as suas frustrações, tristezas, revoltas, cansaço, que faça uma visita à minha caçula. Está ali uma resistente. Uma sobrevivente. Uma heroína.
Hoje, impelida a isso fui dar-lhe dois beijos. Talvez para me sentir mais estúpida e ingrata. Como é que eu me queixo à minha caçula? E recebo sorrisos e um brilhozinho nos olhos. E morangos e bolo de cabeça...
De seguida e para me animar,  fui ao quiosque da Fernanda comprar o euromilhões. Esta assim que me avistou fez-me uma festa de foguetes com canas e tudo, que me fez sorrir. Faz sempre. E eu sorrio sempre. Parece que me está a dar colo. Eu sinto-o como tal, sempre. Hoje mais que sempre.- Dona Clara, está boazinha? Há tanto tempo que não a via. E os meninos estão bons? - a Fernanda sabe que deve perguntar apenas pelos meninos. Eu sei que ela sabe e ela sabe que eu sei. Brinco com ela a propósito do euromilhões. O patrão ri-se também e a arquiteta da câmara idem, numa de pressa de ter o seu carro a estorvar o trânsito. 
Dirijo-me à farmácia. Doi-me a cabeça. Nunca compro aspirina. Não tenho os medicamentos que toda a gente tem em casa. Vai para lá de quatro anos. Os C Gripe, benuron, aspegic, iluvico, renis, pomadas disto e daquilo, água do mar, aspirina. Pois, aspirina. Ando com ideias apertadas e  e que doem. E aspirina pareceu-me bem. Pedi. A menina que julgo ser farmacêutica, pois conheço todos os outros e sei quem é quem, antes de ma ir buscar, perguntou à cautela - De qual? E eu fiquei a olhar p'ra ela com cara de couve. Mas há várias espécies de aspirina? E sou eu uma hipondríaca. Na verdade já não se fazem hipocondríacos como antigamente. Ainda bem, pois já me basta saber os sintomas. Que inferno seria a  minha vida e dos que me rodeiam se eu estivesse para aí virada.
A menina explica que há a aspirina que só serve para as dores de cabeça e para prevenir tromboses. Pois, é mesmo dessa que eu quero. Mas fiquei a pensar nisso. Então fabricam aspirina só para esse efeito? Eles inventam cada uma...afinal o meu amigo que toma aspirina todos os dias tem razão. Ele tem medo de morrer que se péla. E aqui vai disto que é uma pressa, uma aspirina cada dia que passa, não que é pr'ós outros, como se isso fosse assim, digo eu que sou uma leiga, mas não me parece que apenas a aspirina resolva, embora da minha convivência diária, em tempos que já lá vão com o dr. Ataíde me ficasse que a aspirina é o melhor medicamento do mundo e à época, o mais barato. Não hoje, pois o inderal não chega a custar 2 euros. Quem é que é poupadinha até nas doenças? Isso é outra coisa que um dia destes mando para as urtigas. E seja o que este corpinho e cabeça quiserem. Mas diz que é preciso fazer o desmame e  francamente cheira-me a ressaca e não gosto.  
Sigo para casa. No entretanto paro na Ritinha para comprar uns mimos para umas certas pessoinhas que quero abraçar este fim de semana. Não posso com uma gata pelo rabo. Estou cansada, doi-me a cabeça e ainda tenho de esperar que se faça noite para sair às compras ao hipermercado. A cama acena-me e eu quase cedo. Não fosse a minha Pitanguinha não ter que comer e já não saía de casa. 
Hoje estou para lá de Bagdad. Fiquei deprimida quando passei pela mulher do doutor. A senhora professora reformada. Achei-a frágil, velha e triste. Era uma mulher com um porte elegante, bonito e requintado. Superior e altivo. Finíssima. Uma senhora. O doutor deu-lhe cabo da molécula a vida toda. E ela sempre de pé como as árvores. Morrendo aos poucos, mas sempre de pé. Ele, o doutor também está uma sombra do que foi. Cruzei-me com ele há uns dias. Mal conseguia andar direito. O sobretudo coçado, os jornais debaixo do braço, a barba por fazer e saindo dum boteco de baixa categoria. Sempre lhe puxou o pé para o chinelo. Um homem  tão inteligente... Espertíssimo. Defendendo os arguidos com unhas e dentes, fosse num homicídio, num furto ou naqueles processos complicados de droga que há tantos. As suas alegações finais eram de ficar a ouvir e a babar. Um homem cheio de mundo. A libertinagem atirou-o para um isolamento deprimente e quando me cumprimentou - Boa tarde Clara! a voz já não tinha a firmeza, o desassossego, a inquietação e ambição de outros tempos. Sinto pena deste homem inteligente que está envelhecendo sozinho porque escolheu assim e todos o abandonaram e não tem gente da sua forma de estar na vida nem da  sua sapiência. Ao ver a mulher chamando o cão, no jardim da casa deles, doeu-me a alma. Jamais imaginaria que um dia envelhecesse. É que há gente que a gente pensa que nunca se deixa acabar. 
Hoje não estou para amar embora olhasse a lua, que ainda que pequena, está linda. Perguntei ao mano Zé:
- Que lua é aquela? 
- Não sei, não sou deste bairro - rindo a bandeiras despegadas.. 
Pois é, a maka da lua  é antiga. Se é dê de crescente ou se é de minguante. Na escola,  esta dúvida que tem a ver com os hemisférios, sempre me angustiou e também ao mano Zé. Mas já sei que é dê de crescente. O google serve para isso.
Há sextas-feiras complicadas. De sono e tédio. Cansaço, estupidez e tristeza. Amanhã é outro dia. Espero que melhor

3 comentários:

nuno medon disse...
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nuno medon disse...

olá. beijos a as melhoras das dores de cabeça. e trate-me por tu, se faz o favor, ok ? continuação de um bom fim de semana e um bom descanso.

Maria Clara disse...

Bom fim de semana Nuno, para si também.