terça-feira, 2 de agosto de 2011

raízes

Bô?! Que mai fai?!
Tradução: Então?! Que mais faz?

Não. Não enlouquei. E estamos a falar de alguém português, que vive em Portugal e que ensinou muita criancinha, ( hoje doutores de curso tirado nos bancos da faculdade ), a escrever, a falar e a conjugar os verbos em português.
Quem é? Alguém de quem gosto muito. Chama-se Leonor. Filha da tia Margarida, irmã do sô Santos. Neta como eu, da avó Clara. Vive em Trás-os-Montes, na bonita cidade de Chaves. A última vez que fui vê-la a Chaves, tinha saído de um coma profundo, após um acidente violentíssimo. A minha família tem destinos escritos nas estradas mortíferas deste país. Mas já estivemos juntas depois, no funeral do tio Acácio, perto de Vila Flor, há cerca de 5 anos. A primeira vez que a vi? No dia 1 de Agosto de 1975. Acabada de chegar de Luanda. E foi amor para sempre. Já era um pouco. Desde a adolescência que escrevíamos cartas uma à outra. Eu nunca precisei de conhecer pessoas fisicamente, para as amar. Tretas? Tanga? História da carochinha? É porque não me conhecem. Apetece-me dizer que sou idiota a esse ponto. Mas não sou, não. Raramente me engano se invisto numa relação puramente virtual. Com a tia-avó Olívia foi assim, e quando finalmente a conheci, gostei tanto dela como se tivesse vivido junto de mim a vida toda. Afinal, o que me encanta mais nas pessoas? A voz. E não é voz bonita ( também ). Não me apetece estar com muitas explicações, até porque acho, e peço que me perdoem, que não me compreenderiam. É mesmo verdade que o que conta é o que a gente é e não o que a gente tem. E a voz, é. E as palavras, são. E a intenção, é. E o coração, é. E assim, neste ser abelhuda, travando conhecimento com uns e outros, a Leonor passou a ser a minha prima querida que só conhecia de fotografia. Mas conhecia os gostos, os sonhos, os amores e desamores, a letra, a Voz. A única coisinha que me animava ao chegar à Gouveia era saber que não me ia sentir tão só, na enorme solidão que era deixar Angola para trás. E foi perfeita a empatia que houve entre nós. Pessoas tão diferentes. Nessa época, ela estava de férias, porque tinha acabado o curso em Bragança, onde vivera, e depressa fomos as duas para Bragança, e bem, foi um intervalo na minha triste realidade, de tanta rambóia. Tinha muitos amigos como ela. E eu precisava de tudo o que me entusiasmasse. Divertimo-nos, muito. Divertimo-nos muito, mesmo depois de casar, com um angolano, e quando já tinha filhos ( 3 ) pequenos, e eu ia de férias para sua casa. Eu não imaginava que em Trás-os-montes, num fim do mundo onde judas teve sarampo e perdeu as botas, houvesse gente como a Leonor e os seus amigos. Quem vivia em Angola, julgava ( digo eu )que este portugal era um atraso de vida e as suas pessoas eram umas atrasadas e ignorantes. Como me senti ridícula e culpada por pensar assim!
De vez em quando e durante todos estes anos ( 36 ) temos falado ao telefone. E todos os anos me diz que vá para cima, nas férias. Restaurou a casa onde nasceu e passa nela, temporadas. " Olha que não ficas na aldeia encafuada. Vamos a Alfândega, ( Alfândega da Fé ), a Vila Flor, à Senhora da Assunção, vamos por aí... todos os dias saímos ", diz-me ela, para me convencer a ir. Como se uma vez decidida, a boa-vai-ela fosse mais importante que estar com ela, e sentir-me em casa, no sítio onde estão as minhas raízes.
Tenho pensado na Leonor nos últimos tempos. Ainda no domingo falei dela a propósito da Galiza, onde vai com muita frequência. E porque é um ser fascinante, que me faz falta e que gosta de mim. Mulher de tiradas inteligentes, ditados populares, emitações de sotaques, conhecimento perfeito do ridículo, amor à família, desprezo por etiquetas e regras, corajosa, forte que nem uma rocha, sentido de justiça profundo, convicções fortes, contadora de histórias fantásticas; pormenores de uma personalidade encantadora, que me encantam. É uma mulher inteligente, prática e bem humorada, e para ela, as coisas têm o valor que têm. Nem mais acima, nem mais abaixo.
Ontem, exactamente 36 anos passados, do dia em que a conheci, olho no olho, abraço com abraço, tocou o telemóvel. - Leonor - E atendi.
" Ao menos uma semana. E depois vais à tua vidinha. Agora ainda não estou lá, mas quando entrares de férias estarei. ". A princípio pensei que é muito longe para me meter em aventuras... Nem sei qual o melhor transporte até Alfândega. Depois pensei na Pitanga. A quem entrego a Pitanga?
Depois, senti o cheiro das estevas logo ao entrar à escola, a dobrar a curva, no início da aldeia. E as gargalhadas da Leonor.
Bô, que mai fai? E começou a crescer uma vontade. Como posso eu ter saudade de um mês vivido ali, no cú de Judas, chorando todos os dias enquanto ouvia Bonga em altos berros para silenciar os meus soluços, e a única estrada que queria percorrer era o caminho que me levasse dali para fora, para onde estivesse mais perto de Luanda?! São as raízes - disse-me a Leonor. Quanto mais velha fico melhor me sinto na aldeia. São as pedras. Os cheiros. As cores. - e eu ouvia-a e confirmava. Quem saiu do seu lugar, nunca a si mesmo regressa, diria Mia Couto.
Mas...e eu? Eu não pertenço aqui. Há dias que nem sei se pertenço a lugar algum. Crio raízes em qualquer kimbo que me abrace. Eu abraço os lugares onde tenho raízes e ainda assim, parto em viagem...
Fiquei com um sorriso palerma, daqueles que faço se me inicio num sonho bom, daqueles que dá uma preguiça doce.
Não quero perder o perfume das estevas. Não quero perder os pirilampos e os grilos. Nem as amoras silvestres na beira dos caminhos. Nem os figos lampos. Nem a ilusão de ver surgir os lobos que desciam ao povoado, famintos. Nem o pôr do sol nos montes que a minha vista alcança. Nem os rebanhos recolherem ao fim da tarde. Nem o queijo de cabra e ovelha. Nem o sino da capela que fica junto do cruzeiro, dando as horas. Nem a água fresca da fonte a caminho das Fontainhas. Nem o primeiro raio de sol da manhã. Nem os homens antigos tirando o chapéu à nossa passagem. Nem as histórias, que lhe foram passadas, muitas, dos nossos antepassados, e que encontram eco na minha memória subconsciente.
Não quero perder o reencontro com a Leonor no lugar onde nos pertencemos antes de nascermos, nos laços de sangue.
E vou. Um dia destes, eu vou.

2 comentários:

maria disse...

Amiga
Vai, vai.É o conselho que te dou.
Vai ser feliz porque a vida só se vive uma vez.

constancia disse...

Vai sim Clarinha. Tenho a certeza que vai valer a pena ...
Trás-os-Montes tem um encanto único, até para mim que sou alentejana de nascimento e angolana de coração.
Adorei este texto, que memória fabulosa tu tens...
Beijinhos