quarta-feira, 30 de setembro de 2015

um dia

Sou um barco de papel,
atracado no cais deste desencanto.
Meu. 
E de todos os barcos frágeis e brancos, 
presos nas amarras do desalento.
Um dia, 
solto as velas e vou. 
Enfrentar dragões da história.
Perseguir sonhos,
mil,
que eu própria espalhei ao vento.
Um dia,
o mar será minha morada. 
Estrada,
onde caminharei pelo meu pé,
sem âncoras nem asas.
Nem nada...
Um dia, 
serei feliz.

m.c.s.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

a minha posse

Ganhei-me. 
Quando aos poucos fui perdendo riquezas. 
Vantagens. Beleza. Viagens. Certezas.
Herdei-me.
Quando olhei para o lado e só lá estava eu.
E vi-me. No espelho inimigo. Na sombra. E no perigo.
E li-me. E reconheci-me. No livro. 
Na história que me narrou. E crucificou. 
Naquele testamento, que me contemplou.
E muito doeu. 
Na falta do que me pertenceu.
Sou minha. Muito minha. Sempre minha. 
Porque não pertenço a ninguém. E não mais me dei. 
Sou pertença herdada desde que abandonada à minha sorte fiquei.
Ganhei-me. 
E essa posse foi lavrada e lacrada em real escritura.
Reconhecida que foi a minha desventura. 
Mas... sou minha. No tudo e nada que me herdei. 
Herança que me protege, alimenta e me sustenta com doce e justa bravura. 
Porque me amo e amarei.

m.c.s.

noite de sábado em Cascais

É tão bom!
O mar que nem sempre é azul.
Os sonhos que podem não ser a rosa.
A noite que ainda não está fria.
O encontro com os elementos que não tem dia nem hora.
A amizade, que me traz até aqui. 
A foto que exige nascer. Marcar. Para hoje recordar o ontem.

apátrida

Sem Amor sou um apátrida no sentimento.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

tatuando

Toca-me a maciez do gesto
isolado,
único, 
de raros dias de bonança
Na alma leve
Afagos breves
Tementes e caros
Na mente, a letargia
Na pele, doce acalmia
Acenos 
À despressa da mudança...

Há na fé que vem de ontem 
Um coração antigo, que se aquieta 
Ao toque duma intenção
À memória dessa mão
Quente e macia
Ao sorriso que me ficou
Quando o amor me beijou

Morre-me no peito o verão
Vai-se embora a andorinha
Mas não! 
Não me deixa sozinha...
Porque o gesto me nasceu
E me chamou
A tatuar-me d' emoção
Não! 
O amor não terminou...

m.c.s.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

amar

No beijo que a gente dá; e no apertado abraço, infinito laço - o Amor está lá.
E não importa se se ausentou do nosso presente. 
Se nos beijou e abraçou no passado. 
Importa sim, não pôr um ponto final. 
Não dizer adeus para sempre. Ao amor.
Por isso reticencio os sentimentos, não me apagando de quem amei. 
De quem amo. 
Não me perdendo do amor. Fixando-me no horizonte. 
Porque nos dias que hão-de chegar, vejo espaço real para amar.
O amor conjuga-se em todas as formas verbais. Ele existe verbalizado inequivocamente. 
AMAR... 
Eu amara. 
Eu amava, eu amei. 
Se eu amasse, eu amaria. Eu tinha amado.
Eu amo, eu amarei. 
Quando eu amar. Que eu ame. Amando. 
Por amar eu. Amemos nós. Amado... 
No beijo que a gente dá; e no apertado abraço, infinito laço - o Amor está lá.

m.c.s.

amputação

De que me serve ser endeusada? 
E ser chamada de amor se me amputarem os braços com que hei-de abraçar?
Não quero ser deusa. 
Amor e beleza.
E ficar num pedestal.
Não quero perder a força. E o vazio apertar.
Não quero fazer parte da história.
O que eu quero afinal é que nunca me faltem braços para o amor eu enlaçar...

m.c.s.

intervalando-me


As férias são intervalos da vida. Resgates. De felicidade.
No mais, é a construção dessa felicidade, fundamental, para os restantes dias. 

m.c.s.

pensamentando-me

Para sabermos da Alegria precisamos sentir a Tristeza...
Todas as estações têm o seu encanto, quando o coração se encanta.

m.c.s.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

pedinte...mas pouco

Ontem, já noite, ali para os lados de Entre-Campos, acompanhei uma amiga a uma consulta - é habitual ; curto acompanhar doentes, sei lá, à falta de melhor, sempre vou para o aconchego duma sala de espera, respirar o mesmo ar que os doentes respiram e saber novidades da vida, fora das minhas quatro linhas, porque para lá das paredes do meu kimbo existem vidas e eu sou cusca de vidas alheias, sobretudo se doentes e fragilizadas, a precisarem, a bem dizer - mas como queria contar, estando eu sentada na sala da entrada ( há outra ) onde a assistente de consultório, senhora muito simpática e eficiente, admite doentes, cumprindo na perfeição a sua função, a conversa surge. Acho que ela tem grande simpatia por doentes africanas ( caem lá como tordos ). Até parece ser uma de nós. Porque deixemo-nos de tangas. Não somos melhores. Somos só mais escuras, algumas, de cabelos encarapinhados, com outros hábitos e costumes, quase sempre de taxa arreganhada e jogando problemas p'ra trás das costas conferindo-nos um cunho só mais optimista e colorido. Inconsequente. Não digo que ali no consultório as africanas se riam às gargalhadas, exibam os seus telemóveis topo de gama, as griffes, mandem postas de pescada por tudo e por nada sobre as suas ociosas vidas para impressionarem não só as tugas, mas também as compatriotas menos sortudas, até porque seria desadequado, pois quem tem cu tem medo e perante uma bata branca, os sintomas incomodam e fazem tremer; não digo que ali não entrem apenas as africanas mais normais e parecidas com as europeias. E talvez por isso ache a assistente, uma das nossas. Aculturada. 
E, porque, à minha amiga já a conhece há décadas e a mim desde a reforma, as conversas surgem e sendo como as cerejas fluem e andam de mão em mão. As nossas, claro, porque à hora que lá esperamos já as senhorecas desta ervilha, querem é ver novelas, no sofá da sala, esquecendo doenças que as afligem perante os chefes, durante o dia; e na cama, perante os maridos.
E dumas para outras, a senhora assistente, que até parece uma de nós, acaba naquela troca de trocos, dinheiro mais que trocado, moedas pretas, escárnio e maldizer, a contar que um dia destes, há bem pouco tempo, estando numa esplanada com uma amiga, se lhes abeirou um pedinte. Dos nossos. Aqueles a quem chamamos pobre, sem-abrigo, mendigo, quando não chamamos, drogado, arrumador, larápio ou sarnoso. Que lhes disse ter fome; que queria uma moeda. A assistente da doutora logo lhe deu uma moeda de um euro para as mãos, enquanto a amiga procurou e achou uma moeda de cinquenta cêntimos e algumas moedas pretas de valor inferior, entregando-as. Acto imediato, a criatura, a tal que vai sendo baptizada conforme o cidadão a vê, olha as moedas, escolhe as menos valiosas e atirando-as literalmente à cara da benfeitora diz - P' ra que é que eu quero moedas pretas? Não servem p' ra nada.
E perante a surpresa indignada de todos os presentes, vai embora com o rei na barriga, arrecadando em menos d' um fósforo um euro e mais cinquenta cêntimos, desprezando as restantes. Desprezando as suas benfeitoras. Desprezando-se...
Nem sequer me indignei com a história. Afinal é o que temos. O que a casa gasta. Mas, perante o insólito da cena eu reforcei a minha teoria. Muito minha e quem quiser que a deite fora. 
Só dou esmola aos " nossos " pedintes cegos. Esses pelo menos não vêm a cor da contribuição.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

na Graça - Lisboa


exposição TAP no MUDE






no Cruzes Credo - Na Sé


karma


Nem todos os dias são destino
Nem todos os destinos são fatais
Nem todas as fatalidades permanecem
Nem todas as penas se repetem

Nem sempre a lágrima chora
Nem sempre o sorriso demora
Nem sempre o sol se esconde
Nem sempre o amor mora longe...

Sou o karma deste dia
Querendo a sina mudar
Os dias só serão destino
Se neles me acorrentar

Sou um apelo à memória
À fé e ao que quero ser
Recrio-me a cada história
No sonho de me renascer

m.c.s.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Entre a Mouraria e a Graça


ainda tento

Quando a brisa sopra, vou no embalo. 
E na maré. 
De feição.
Quando a tempestade se impõe, saio da proa e enfrento. 
E porque nem sempre nem nunca, às vezes, marcha-à-ré. 
Mas a vida já não está para recuos. 
Nem se compadece ou faz fretes. 
Por isso eu vou, ao sabor do vento. 
Ainda tento. Ainda tento...
Enquanto recuo ou avanço, ganho estrada. 
Paciência. 
Ganho tempo. 
Sapiência...

m.c.s.

desmaquilhada

Visto-me de amanhãs, se a saudade me acorda nua e desmaquilhada.
De cara lavada.

m.c.s.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

eu

O sorriso de sô Santos. Tal e qual.
Sábado. Almoçando com as duas pessoas mais lindas do universo.

pensamentando-me

Morar na esquina da minha casa, é não desistir de sentar comigo no muro.

m.c.s.

o Amor

A trepadeira conquista. 
Ocupa 
e abraça. 
Permanece...

Assim é o amor a fazer-se forte, desde que nasce. 

Enraíza-se, 
cresce 
e imortaliza-se.

Queria ser uma trepadeira!

m.c.s.