sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Pensa bem" [C4 Pedro / Ary] [letra]

Elas, algumas deixaram de ser matumbas!!! Antes tarde que nunca.

esperando IV

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

advinhação





Todos os seres têm intuição? E essa, é um luxo? Incomoda? Atrapalha? É uma mais valia?
Eu sou muito intuitiva. Tenho até um amigo que me chama kimbanda. Outro, feiticeira. Mas este último é a querer flertar comigo e eu respondo que não prevejo boas abertas nos próximos séculos, fazendo jus à advinhação com que Deus Nosso Senhor me contemplou.
Uma coisa eu sei. Como que num pressentimento, como que num aviso, como que por acaso ou porque de facto é para ser assim, sei lá, é que raramente me surpreendo com acontecimentos à minha volta. Com as minhas pessoas, comigo. Não que não sou capaz de me surpreender, mas porque num momento qualquer, num minuto, num segundo ou no tal milésimo desse segundo, alguém se instalou na minha memória e deixou algo como que uma antevisão. Não estou a brincar convosco. Estou muito a sério. Para mim, todas as probabilidades existem, tudo é possível, e talvez seja por aí.
Houve porém na minha vida três acontecimentos desvastadores, sim, todos eles foram como que um terramoto que me subterrou e me deixou destruída, sendo que foi preciso muito tempo para juntar os cacos todos, todos não, fora os que se perderam pelo caminho, tal a surpresa e incredulidade. A morte do meu pai. Toda a gente via que ele estava a morrer, menos eu. O meu casamento, ninguém via que seria possível terminar, nem eu. O acidente do Paulo. Jamais intuí uma desgraça tão grande e que nos deixou tristes para sempre.
E isto tudo... porquê que estou aqui a escanqueirar ( esta palavra não existe mas eu gosto dela ) a minha vidinha? Primeiro porque não me importo e depois porque li algo sobre o presidente da câmara do burgo onde vivo, pessoa já anteriormente conhecida por muitos e por mim e quando muito timidamente apareceu com a proposta de um programa na rádio local, onde era director de programação e locutor nas horas vagas e algumas pouco vagas, alguém, em quem eu confiava mais do que em mim, vai-se lá saber porquê, preveni a criatura de que esta pessoinha ainda ia ser presidente da câmara do burgo.
Na batatinha! Anos mais tarde, alguns bons anos, as minhas palavras não cairam em saco roto. Há mais de 300 anos que lá está.
Há também em mim uma intuição forte, tão forte que se fez certeza de que um dia vou viver em Angola. E há algo de que tive sempre a certeza, assim como se tivessem escrito para mim, que tem mesmo de acontecer, e que parecia impossível, no entanto...hoje já acho que, essa leitura foi com as letras todas e pode acontecer, não vou dizer o que é, mas um dia quem sabe, revelarei. Quando acontecer.
Por fim acho que um dia me sairá o euromilhões. A sério. Acho mesmo. O sô Santos também achava e deu no que deu. Carrego portanto a intuição dele, mais a minha, que um dia a coisa dá-se. Acreditem, se isso acontecer eu...ia dizer que conto, mas como posso contar? Não posso. Posso sim que eu posso tudo, era o que mais faltava. Vocês saberão porque não gosto de segredos e ia ser muito difícil aguentar essa bomba na minha mão. Já basta o que basta!

esperando III

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Marcelo Camelo - Ô ô (novo CD "Toque dela")

jantar da quarta-feira



Eu e uma certa dama atiramo-nos a pão de alho e queijo e a uma bela pizza como esta. Depois, profiteroles.
É que hoje é quarta-feira. E há coisas que giram, giram e nunca mudam.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

arrumando a vaidade

Nos lares deste país, se calhar do mundo, instituiu-se que uma vez no ano, preferencialmente no verão, se fazem limpezas grandes. E lá andam as senhoras e as empregadas de espanador, aspirador, esfregona e pá, subindo e descendo escadotes e algumas até de pincel na mão, para a mudança da cor das suas paredes. De uma parede, como está na moda. Arrastam-se móveis, lavam-se paredes, cortinados, almofadas, edredons, limpam-se as pratas, abrilhantam-se as madeiras. É uma roda-viva que dá trabalho mas que realiza as donas de casa e enche de orgulho os seus maridos, pois que casaram bem, com senhoras prendadíssimas.
Como já perceberam, eu não entro nestes esquemas de maneira nenhuma. Vou limpando como posso, apetece e sou capaz. E cá me governo. Ninguém me apanha de trincha na mão e muito menos subindo escadotes.
Mas, organizar sapatos e carteiras, aqui está uma tarefa que me dá água pela barba. Tenho panca por calçado e sacos, para além dos perfumes. Mais do que por roupa. Houve um tempo que tinha uma carteira. Depois duas. Uma de verão e outra de inverno. Depois melhorei e passei a ter uma preta, outra castanha ou beje, e outra branca. Com os sapatos era igual. Uns pretos e um castanhos e umas sandálias para o verão. Mas se querem saber, era infeliz. Sonhava com a troca diária de sapatinhos, combinar malas com os ditos e trocar conforme a roupa. O meu namoro preferido era às montras das sapatarias e lojas de malas. Ah se me saisse o totobola! Ah se me saisse o totoloto! E não saíu.
Hoje, não mudo de mala nem de sapatos diariamente e podia. Chego a andar com o mesmo saco uma semana só para não despejar a tralha que lá tenho dentro.
Chegou também para mim, a altura da limpeza das malas e sapatos. Estes organizei-os por caixas no início da primavera. Quanto às malas é mais complicado. Não tenho lugar para tanta mala. E vou espalhando-as pela casa, pelas caixas que se escondem debaixo das camas. Penduradas aqui e acoli.
Se gasto muito dinheiro? Não! Mas não gasto mesmo. Tenho fama que adoro malas não é? E então oferecem-me. Só neste aniversário, recebi duas. No Natal, outras duas, assim no espaço de 8 meses, adquiri 4 malas e não paguei nenhuma. E pelo meio, comprei nos saldos de inverno outra e agora nos de verão ainda outra. Só este anos 2011 já cá cantam 6 malas. Exagero? Ridículo? Eu sei, eu sei. Sinto-me até um pouco mal. Pareço uma nova-rica. Quem me dera. Nova, velha, rica era o que me interessava, mas não. Não gasto mais do que 30, 40 euros numa mala e eee...evito comprar malas com certas pessoas por perto que me dizem: está mesmo a fazer-te falta mais uma malinha...ou ainda outra, quantas malas tens? e eu não sei responder. Eu sei lá! Só sei que é imoral. Uma escandaleira. Elas são de pele, de cabedal, de plástico, de pano, de ganga, de camurça, pretas, brancas, bejes, azuis, castanhas, cinzentas, vermelhas, amarelas, tigresas, prateadas, douradas, laranjas, grenás, às flores, às riscas, com letras, lisas, de duas cores, alças de correntes, de osso, de madeira, de traçar, pochetes, sacos enormes, malões, carteiras de duas alças, quadradas, retangulares, abauladas, muitas, muitas, muitas.
Quando a caçula estava na Alemanha a viver comprava-me às meias dúzias e mandava e trazia e eu adorava. Ainda hoje mas dá. As crias também e algumas amigas idem.
E agora, não sei o que fazer a tanta mala que fui adquirindo ao longo dos anos e que mais de metade não uso. Até me esqueço que as tenho. A mala mais antiga que possuo tem 30 anos e a mais recente tem menos de 15 dias.
De forma que ando em arrumações mas não consigo arrumar nada.
Quem me ajuda? Eu dou malas a quem as quiser. Já tenho dado muitas. Novas. Há pouco tempo alguém me ofereceu uma que foi direitinha para as mãos de outro alguém que não tem dinheiro para o essencial quanto mais para malas. Na verdade, não gostei dela mas quem com ela ficou adorou. E estamos nisto. Sou uma ilha rodeada de malas por todo o lado.

aconteceu


- Quero renovar a carta de caçador.
- O bilhete de identidade?
- Carta de cidadão.
- Então e há muitos coelhos?
- Jesus, carago, se há. O mato está cheio deles. Mas eu não gosto de coelhos.
- Ai é?
- Ganhei nojo deles. Estão cheios de moléstia. Essa malta, come tudo. Eu não. Antes quero pardais de trigo. São do melhor, para o petisco.
- Pardais? - completamente incrédula.
- Pardais sim. Lá do meu quintal. Tenho lá uma rede. Apanho aos duzentos. É cá um petisco!
O estômago, sensível, embrulhou-se-me todo, recordando Carlos do Carmo, parecem bandos de pardais à solta, os putos, os putos... e imagino já 200 putos apanhados numa rede para serem fritos.
Já pouca carne como, coelho, nem manso nem bravo, nem a saber a carqueja, nem a saber a farinha, aves pequeninas, nunca.
- Há quem dê carqueja aos coelhos de casa para saberem a coelho bravo. Eu não gosto. Dou-os todos.
- Então mas se não gosta, porque é que os caça?
- Por causa dos tordos. E para me distrair e dar uns tirinhos. Olhe, andei há tempos a trabalhar numa obra do cemitério e havia lá muitos pardais de trigo, verdilhões e pintassilgos. Com uma luz e um bocado de enxofre, íamos lá à noite. Era só apanhá-los.
No cemitério, à noite. Sinistro.
Devo ter feito uma careta tão enojada que o homem riu-se e disse a seguir:
- Já de enguias, também não gosto delas. Parecem cobras.
- Também é pescador?
- Sou, faço tudo para estar entretido. Vou muito para o Tejo. Ali para a ponte da Chamusca, para a Barquinha, Castelo do Bode e também vou para o mar.
E lá foi a rir-se divertidíssimo com a minha repugnância e espanto por tão violenta forma de se divertir.

desejo

- Havia de ser já noite escura.
-Para quê?
- Para estar em casa.

São 8,17 horas. Acabo de entrar no autocarro. Perplexa, olhei para trás. A Rosa e a senhora do Entroncamento que tem um filho no algarve e o marido na Escócia. Para ela o dia devia passar a noite escura e ser para já. O que quer ela afinal? Suspender a vida, ou estar no casulo? Esquecida,ou esquecendo?
Fui sentar-me no lugar vago, junto à porta, onde posso tocar à campainha sem que me levante. Perturbador este estado de alma. Negro, diria. Reflectindo, fui de pensamento em pensamento sem chegar a coisa nenhuma.
Que sei eu? Há dias assim. O marido na Escócia, o filho de férias no Algarve e ela em casa com o Tejo, o rafeiro que lhe apareceu no quintal ainda cachorro e nunca foi reclamado.
" Havia de ser já noite escura! Para estar em casa "...
Olho-me. À procura de cumplicidade. Não encontro nada senão uma manhã radiosa. Para respirar o dia todo. Não gosto de noites escuras. Só se levar comigo o sol para me iluminar a noite.
A senhora do Entroncamento, que tem o marido na Escócia, o filho no Algrave e o cão adoptado, saberá que se leva o sol para dentro de casa? Talvez saiba. Por isso o desejo. Os gatos são todos pardos, à noite. Mas ela tem um cão. Não se aplica a teoria de que não gosta de iguais. E é na diferença que está a diferença.
O dia está lindo.
Tenho tanto que fazer! Tanto para escrever, tanto para ouvir e dizer...
Agarro o dia. Como sempre. Quer dizer, tirando as 6ªs, os sábados e os domingos. Nesses dias, não agarro, tomo de assalto, trepo por ele acima, atiro-me de cabeça, obscenamente.
Havia de ser já noite escura? Para ir para casa? Não tenho um marido na Escócia, nem filho no algarve, nem um cão chamado Tejo. Se levo o sol para iluminar a minha noite?
Quando não há luar...

esperando II



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Deixa Quieto "Gabriel o Pensador" Leon

não gosto de silêncio

Porque gosto eu de terras grandes? Avenidas barulhentas e muito trânsito? Pessoas passando? Carros businando? Acho que é porque parece não vai haver nunca um fim, no mundo.
Neste fim de mundo louco e desgovernado que é uma cidade que perdeu o silêncio e o tino.
Quem gosta do silêncio? Eu não. Não gosto de ouvir o silêncio batucando na minha cabeça, acelerando o meu coração numa taquicardia que aprendi a controlar mas que se o silêncio é de ouro até o metal parece gritar nos meus ouvidos que estou morta e o coração pula fora.
Na vida, vivi sempre em frente à vida. De frente para escolas. De frente para hotéis. De frente para igrejas. Para padarias. Bombas de gasolina. De frente para campos de jogos. Janelas abertas. Luzes acesas. De frente para avenidas. Ruas principais. Onde passam bombeiros, bêbados, malucos, polícias perseguindo ladrões, guarda-noturnos, carros de lixo, carros do fumo. Carros.
Quem gosta de uma casa quieta? Como se tivesse partido e não deixasse endereço?
Dou à chave. Porta-chaves barulhento. A Pitanga aparece apressada, pronta para afiar as unhas no tapete da entrada. Mia. Mando-a para dentro. Poiso a carteira na mesa da cozinha. Falo com ela. Porque comeu tudo. Porque não gostou da comida. Porque deitou uma caixa ao chão. Porque enrolou os tapetes. Puxo os estores. Abro a torneira da água fria. Corre a água. Ligo a máquina. Começa a lavar. Espirro e tusso de seguida. Vou à casa de banho, puxo o autocolismo. Cai a escova do cabelo. Tomo banho. Ligo o secador. Seco a cabeça. Toca o telefone. Dou uma gargalhada. Batem à porta. A vizinha ralha com o filho mais novo. No 2º direito tocam guitarra eléctrica. Alguém estende roupa. Corre a corda. Entro na sala. Ligo a ventoinha. E a televisão. Chamo a Pitanga. Ligo o skipe. Falo para longe.
Não gostaria de viver no silêncio.
E não sei viver numa terra agonizante. No meio do nada.
Gosto de tudo o que grita por vida. Para ficar com a certeza de que nada termina.
Será por isso que gosto de agitação, terras grandes, estradas barulhentas, pessoas apressadas? Não o sei. Mas sei que gosto. O que eu não gosto é de silêncio.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

homenageando Zeca

Passaram 82 anos do seu nascimento.

raízes

Bô?! Que mai fai?!
Tradução: Então?! Que mais faz?

Não. Não enlouquei. E estamos a falar de alguém português, que vive em Portugal e que ensinou muita criancinha, ( hoje doutores de curso tirado nos bancos da faculdade ), a escrever, a falar e a conjugar os verbos em português.
Quem é? Alguém de quem gosto muito. Chama-se Leonor. Filha da tia Margarida, irmã do sô Santos. Neta como eu, da avó Clara. Vive em Trás-os-Montes, na bonita cidade de Chaves. A última vez que fui vê-la a Chaves, tinha saído de um coma profundo, após um acidente violentíssimo. A minha família tem destinos escritos nas estradas mortíferas deste país. Mas já estivemos juntas depois, no funeral do tio Acácio, perto de Vila Flor, há cerca de 5 anos. A primeira vez que a vi? No dia 1 de Agosto de 1975. Acabada de chegar de Luanda. E foi amor para sempre. Já era um pouco. Desde a adolescência que escrevíamos cartas uma à outra. Eu nunca precisei de conhecer pessoas fisicamente, para as amar. Tretas? Tanga? História da carochinha? É porque não me conhecem. Apetece-me dizer que sou idiota a esse ponto. Mas não sou, não. Raramente me engano se invisto numa relação puramente virtual. Com a tia-avó Olívia foi assim, e quando finalmente a conheci, gostei tanto dela como se tivesse vivido junto de mim a vida toda. Afinal, o que me encanta mais nas pessoas? A voz. E não é voz bonita ( também ). Não me apetece estar com muitas explicações, até porque acho, e peço que me perdoem, que não me compreenderiam. É mesmo verdade que o que conta é o que a gente é e não o que a gente tem. E a voz, é. E as palavras, são. E a intenção, é. E o coração, é. E assim, neste ser abelhuda, travando conhecimento com uns e outros, a Leonor passou a ser a minha prima querida que só conhecia de fotografia. Mas conhecia os gostos, os sonhos, os amores e desamores, a letra, a Voz. A única coisinha que me animava ao chegar à Gouveia era saber que não me ia sentir tão só, na enorme solidão que era deixar Angola para trás. E foi perfeita a empatia que houve entre nós. Pessoas tão diferentes. Nessa época, ela estava de férias, porque tinha acabado o curso em Bragança, onde vivera, e depressa fomos as duas para Bragança, e bem, foi um intervalo na minha triste realidade, de tanta rambóia. Tinha muitos amigos como ela. E eu precisava de tudo o que me entusiasmasse. Divertimo-nos, muito. Divertimo-nos muito, mesmo depois de casar, com um angolano, e quando já tinha filhos ( 3 ) pequenos, e eu ia de férias para sua casa. Eu não imaginava que em Trás-os-montes, num fim do mundo onde judas teve sarampo e perdeu as botas, houvesse gente como a Leonor e os seus amigos. Quem vivia em Angola, julgava ( digo eu )que este portugal era um atraso de vida e as suas pessoas eram umas atrasadas e ignorantes. Como me senti ridícula e culpada por pensar assim!
De vez em quando e durante todos estes anos ( 36 ) temos falado ao telefone. E todos os anos me diz que vá para cima, nas férias. Restaurou a casa onde nasceu e passa nela, temporadas. " Olha que não ficas na aldeia encafuada. Vamos a Alfândega, ( Alfândega da Fé ), a Vila Flor, à Senhora da Assunção, vamos por aí... todos os dias saímos ", diz-me ela, para me convencer a ir. Como se uma vez decidida, a boa-vai-ela fosse mais importante que estar com ela, e sentir-me em casa, no sítio onde estão as minhas raízes.
Tenho pensado na Leonor nos últimos tempos. Ainda no domingo falei dela a propósito da Galiza, onde vai com muita frequência. E porque é um ser fascinante, que me faz falta e que gosta de mim. Mulher de tiradas inteligentes, ditados populares, emitações de sotaques, conhecimento perfeito do ridículo, amor à família, desprezo por etiquetas e regras, corajosa, forte que nem uma rocha, sentido de justiça profundo, convicções fortes, contadora de histórias fantásticas; pormenores de uma personalidade encantadora, que me encantam. É uma mulher inteligente, prática e bem humorada, e para ela, as coisas têm o valor que têm. Nem mais acima, nem mais abaixo.
Ontem, exactamente 36 anos passados, do dia em que a conheci, olho no olho, abraço com abraço, tocou o telemóvel. - Leonor - E atendi.
" Ao menos uma semana. E depois vais à tua vidinha. Agora ainda não estou lá, mas quando entrares de férias estarei. ". A princípio pensei que é muito longe para me meter em aventuras... Nem sei qual o melhor transporte até Alfândega. Depois pensei na Pitanga. A quem entrego a Pitanga?
Depois, senti o cheiro das estevas logo ao entrar à escola, a dobrar a curva, no início da aldeia. E as gargalhadas da Leonor.
Bô, que mai fai? E começou a crescer uma vontade. Como posso eu ter saudade de um mês vivido ali, no cú de Judas, chorando todos os dias enquanto ouvia Bonga em altos berros para silenciar os meus soluços, e a única estrada que queria percorrer era o caminho que me levasse dali para fora, para onde estivesse mais perto de Luanda?! São as raízes - disse-me a Leonor. Quanto mais velha fico melhor me sinto na aldeia. São as pedras. Os cheiros. As cores. - e eu ouvia-a e confirmava. Quem saiu do seu lugar, nunca a si mesmo regressa, diria Mia Couto.
Mas...e eu? Eu não pertenço aqui. Há dias que nem sei se pertenço a lugar algum. Crio raízes em qualquer kimbo que me abrace. Eu abraço os lugares onde tenho raízes e ainda assim, parto em viagem...
Fiquei com um sorriso palerma, daqueles que faço se me inicio num sonho bom, daqueles que dá uma preguiça doce.
Não quero perder o perfume das estevas. Não quero perder os pirilampos e os grilos. Nem as amoras silvestres na beira dos caminhos. Nem os figos lampos. Nem a ilusão de ver surgir os lobos que desciam ao povoado, famintos. Nem o pôr do sol nos montes que a minha vista alcança. Nem os rebanhos recolherem ao fim da tarde. Nem o queijo de cabra e ovelha. Nem o sino da capela que fica junto do cruzeiro, dando as horas. Nem a água fresca da fonte a caminho das Fontainhas. Nem o primeiro raio de sol da manhã. Nem os homens antigos tirando o chapéu à nossa passagem. Nem as histórias, que lhe foram passadas, muitas, dos nossos antepassados, e que encontram eco na minha memória subconsciente.
Não quero perder o reencontro com a Leonor no lugar onde nos pertencemos antes de nascermos, nos laços de sangue.
E vou. Um dia destes, eu vou.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Maria Gadu - Tudo Diferente (com letra)

esperando

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começa agosto

Começa a semana. Começa Agosto.
Não é simpático, o oitavo mês do calendário. Nunca me perdi na procura de explicações. Não gosto do nome, e não é por rimar com desgosto. É que nem sendo o mês das férias me anima a boa-vontade.
Na cidade o dia amanheceu frio, cinzento e chuvoso. A cidade anda à procura de si e não se encontra. Partiu em busca de dias mais felizes. A crise não a impediu de bater com a porta e viajar para a beira-mar, para o aeroporto, ou para a serra.
São horas de bater com a minha porta também. Esqueci-me do relógio, presente do F....., que me deixou feliz e surpreendida. Não pelo presente, porque o F....., dá-me sempre presentes de aniversário que gosto muito, não é por aí. Há uns relógios que têm duas braceletes, uma com o relógio propriamente dito e a outra, com a função apenas de enfeitar o pulso. E o meu é desses. Mas esqueci-me dele e já bati com a porta. E são 8,03 horas. Apresso-me. Desço a rua e o rapaz que espera a carrinha do CRIT, não está. É uma das várias bússulas até chegar ao meu destino. Quando estou pertíssimo da E.P.P, passa o TUT. No caminho encontro o ex vizinho que agitado me cumprimenta em tom ameaçador - Olá vizinha, tá boa? e eu francamente apresso-me a responder-lhe não vá ele estar descompensado e atravessar a rua para me espetar algum sopapo. Às vezes o tom demasiado zangado, o ar demasiado agressivo faz-me imaginar um cenário de forte agressividade. Porém, dizem que é pacífico e eu afinal nem tenho razão de queixa. Conheço-o há muitos anos e assisti à sua degradação. Mas sempre foi correcto comigo.
Até chegar à garagem ainda me cruzo com mais quatro pessoas. Todos homens. A cidade hoje é mais masculina que sempre. O meu sapateiro, homem com ar rude, baixinho, e dentro de um fato de macaco azul, com o avental sujo de cola e graxa, levanta a mão, acenando-me. Bom dia senhora. E faz-me uma vénia tal que quase se some na sua pequenez. Junto à marisqueira está um anão que é já costume andar por ali. Ri-se e eu faço de conta que não percebo. Fico desconfortável no meu metro e setenta e três. Por muito que tente não ser preconceituosa...não sei lidar com anões. Deus que me perdoe e guarde, mas para quê mentir? Não sei o tamanho das suas almas e penso sempre que hão-de ser pessoas em permanente conflito interior. E gente assim é imprevisível. E eu vou na minha vidinha para o meu trabalhinho, a lutar com o tempo o que já me dá dor de cabeça que chega...
Evito voltar a ver as horas no telemóvel porque é uma perda de tempo, porque me julgo atrasada. Quando estou a chegar, vejo virem na minha direcção os dois sub-chefes da EPP. E percebo que afinal estou dentro da hora. Só quando assim é, me cruzo com eles, acabadinhos de sair do autocarro. Assim que entrei na garagem vi a trupe do costume à espera, mais alguns que de mochila se preparavam para rumar até à Nazaré. Hoje não é o melhor dia para irem a banhos de mar e sol. Mas que tenho eu a ver com isso?

Aproximo-me e cumprimento-os. A Rosa e o Júlio regressaram de férias. Este conta que no sábado foi à prova da ementa para o casamento da filha. Sete pratos. Quatro de carne e três de peixe. Que brutidade, apeteceu-me comentar, mas não. Tudo o que possam ouvir-me passará a ser contra mim e eu já tenho tanta gente desertinha ...tanta, tanta, não. Mas alguns que conto pelos dedos. O Júlio tem uma filha casadoira. Ainda há quem tenha filhas casadoiras, de papel passado, casa comprada, mobílias, enxoval, cerimónia religiosa, flor de laranjeira e grinalda, grande festa com muitos convidados e sete pratos. Quatro de carne e três de peixe.
Finalmente, o autocarro chega. O motorista já aprendeu que vou para alcanena e que preciso assinar o bilhete. Empresta-me a caneta. O meu lugar junto à porta está ocupado por dois veraneantes da Nazaré, que depositaram a geleira térmica no lugar das malas e se apressaram a entrar no autocarro para a escolha do lugar. Está certo. Eu faria o mesmo. É duro viajar num autocarro do século passado, por mais de uma hora, curvas e curvas e aldeias e mais aldeias e paragens e travagens e cheiros e música de rádios locais berrando aos nervos e resistência de cada um.
Agarro no caderno, procuro a caneta no fundo do saco novo que a Paula me ofereceu, encontro-a e começo a escrever este texto. À minha volta pode trovejar, chover a potes que depois de ter os fones, fico no meu mundo. Até chegar ao destino.

é só a amália?!

Gosto muito de você, leãozinho...

Não cuspas para o ar que te pode cair em cima, num rugido muito envergonhado. Como um Sonho. Ou será antes, um pesadelo?
Quem será o clube que se segue?
Nunca digas desta água não beberei.
Afinal só o Benfica é que era? Duma coisa tenho a certeza, a águia Vitória, ou Glória? foi pioneira nesta coisa do mundo animal.

de braço dado com o fim de semana

foto tukayana.blogspotEu tenho uma família linda.
Este fim de semana foi demais. Bom que eu sei lá!
Obrigada mano Zé, Lurdes, Paulo e Paula. Vocês foram o máximo. O passeio então...adorei!
Mano Zé e Lurdes, o bacalhau com batatas a murro de chorar por mais. O queijo delicioso. O melão da horta, jesus maria!!! A cerveja desceu-me às pernas e senti-a nas veias mas pronto, uma vez não são vezes; o passeio a pé resolveu essa limitação e até a banda a tocar lá para as bandas da paróquia de s. pedro, as modinhas antiquérrimas como eu, mais que eu, foi tolerada.
Caçula, a tua pasta com camarão, estava óptima. O bolo de chocolate um must e as framboesas para lá de boas. As entradas mesmo à medida, da nossa fome e vontade de comer. A camisola de oferta, na batatinha.
Paulo, a tua boa disposição, valeu, o teu sorriso divertido a cada coisa que me ouvias, reconhecendo a velha Clara com fama que vem de longe e que tu conhecias, foram beijos no meu coração.
Cria, minha princesa, que acabadinha de chegar de férias vieste a nós tão bem disposta... Conversadora, de histórias novas e bronzeada, descansada, linda que eu sei lá, como foi bom estarmos todos juntos neste ambiente familiar...
Andei de braço dado com o fim de semana. Em família.
Há fins de semana felizes. Este foi um deles.
Obrigada meus anjos.
Ah, escolhi esta foto, minha caçula, porque ninguém sabe que és tu. ( lol), mas um dia destes, à má-fila aqui postarei a da praia. Ela marca um fim de semana gostoso ( o outro, em Peniche ).
O cenário foi outro, as pessoas as mesmas. Em vez da princesa, o príncipe. Bem sei que não há bela sem senão, mas um dia destes, faremos uma festa de família em que não faltará ninguém.

da outra margem

fotos tukayana.blogspot.

O Arrepiado.