quarta-feira, 20 de novembro de 2013

pertenço-me, numa pessoa singular

Sou um ser pertencente a mim. Mas precisei de viver muitos anos, provar a terceiros a minha existência, dar-me aos outros e pertencer-lhes numa posse que chamaram deles para me achar só, dividida, anestesiada, perplexa, insegura e sobrevivente. 
Olhar para mim de alto a baixo, tentar perceber o que faria comigo. 
Amar-me. Compreender-me e admirar-me. 
Arrumar-me nas ideias, em casa, no emprego e na vida. Recuperar-me. Ou talvez adaptar-me e adoptar-me. Chamar-me minha. Pertencer-me...
Ainda não tinha nascido, já a mãe reclamava a posse do feto. Quando chorei a primeira vez no golpe de ar cacimbado, primeiro também, o pai e o avô chamaram-me deles. O tio. Os padrinhos. Os amigos da família. A rua, a cidade. 
Fui para a escola e foram as professoras. Os colegas. 
Na catequese, os meninos, os padres e madres.
No bairro, os amigos e vizinhos.
Em casa, os irmãos. Os primos. 
Seguiu-se a adolescência e seguiu a posse. Os namorados dizendo, minha miúda, minha namorada, minha garina. 
No emprego foi, a minha colaboradora, a minha professora, a minha colega.
Mais tarde, a minha subordinada, a minha funcionária.
Como cidadã, fui posse do estado.
Casei e passei a ser; a minha mulher, a minha esposa. Meu amor. Minha querida. És minha. 
Uma posse de macho, de machão, de carinho, de amor, de paixão, De afirmação. 
Fui nora, cunhada, tia. Pertença duma família que não era a minha.
Foram depois os filhos numa posse tão forte quanto legítima, a posse mais difícil de aliviar e rejeitar. 
Quando um filho diz, a minha mãe, ele não nos vê, ele sente-nos nele. E ser deles é inevitável, como natural e óbvio, inexplicável e não precisa de explicação. É visceral. Somos deles e pronto. Somos deles porque sim. E não adianta dizermos que não.
Mas há coisas que se ganham e outras que se perdem. A posse sobre nós também, quando há quem prescinda da posse. Quando somos obrigados a mudar de rumo.
Ou quando damos um, fónix, carago, basta, xiça, penico, cagari cagaró, com mil diabos, todos a mandarem, só eu não mando nada?!
E aí é que são elas. A gente vai abaixo. Quando perde a força, o norte, todas as referências de segurança, porto seguro, o braço direito, o dado como certo.
E deixa a sua cidade, os seus amigos de infância, vizinhos, namorados, emprego.
E depois os pais, avós, tios, partem, os filhos crescem. 
O casamento acaba. O emprego reforma-me. E de repente as posses a que me habituei foram perdendo-se, até que sozinha, sem pontos cardeais, sem correntes, âncoras ou escolha, passei a ser dona de mim própria. Apenas. Porque a posse exercida por mim sobre outros, no reverso da medalha, ao longo dos anos, essa também a perdi. Libertei-a. Libertei-me dela. Ou fui obrigada a isso.
Os meus pais, os meus avós, meus tios, minha família. Os meus vizinhos, meus amigos, meus professores, meus alunos, meus namorados, meus patrões, meus chefes, minha terra, meu país, meu povo, meu continente, meu Deus, minha casa, meu carro, meu marido, meus filhos, meu horário, meus colegas, meu emprego.
Assim, sem posse nem penhora, tive de comer o pão que o diabo amassou e como cão a roer ferro passei as passas do algarve, bati na rocha e lixei-me como o mexilhão. 
Mas, porque não há mal que não acabe, lentamente, passo a passo e a passo certo, tropeção daqui, cabeçada de acolá, tralho acoli, quase sem dar por isso, fui adquirindo, reconstruindo a posse de mim própria. 
Criei uma personalidade, novo bilhete de identidade. Olhar novo, sentir diferente, aptidões, descobertas. 
Pus-me em pose. Tirei-me a fotografia. E fiquei bem no retrato. Emoldurei-o. Olho para ele desde que me levanto até que me deito. Sonho. Sonho-me. Vivo. Em mim. Dona da minha vontade, das minhas fraquezas, dos meus anseios, das minhas possibilidades e limitações.
O que penso deste retrato? Ter a posse de nós é uma responsabilidade imensa. Uma fortuna valiosa. Independência e igualdade de direitos, paga-se caro mas não ficamos a dever nada, aos outros. Por isso hoje sou feliz porque sou dona de mim e pertenço-me por inteiro.
Nunca mais serei dona de alguém porque me nego a isso. Nunca mais alguém terá a minha posse porque não sou um ser menor  sem eira nem beira, sem norte ou vontade. Antes quero chupar limão e bater com a cabeça nas paredes.

m.c.s.

P.S. poderão perguntar, então e a Pitanga? Não me pertence. Cuido dela, trato-a com todo o carinho e dedicação e nunca lhe disse, vem à dona, mas antes, vem à mãe. ( gargalhada ) Quando quiser ir embora, vai. Mas à cautela, nunca lhe abrirei a porta ou janela para que saia. Pensavam que me apanhavam?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

criação

Baixam as luzes. Faz-se silêncio na sala.
Começa a peça.
Quando entras, o mundo pára. 
Na sala atenta, expectante, escura e silenciosa, os meus olhos não são iguais aos outros. E tu, sabes. Sabes-me olhando-te. 
Sei-te de alma e corpo presente no movimento que magicamente crias para o mundo. Para mim.
Há no meu respirar uma vida mais importante que a minha. Pendente. Ansiosa. 
Há no teu respirar uma crença espalhando verdade, quando, ali,no palco que é a tua inspiração te desnudas e me ofereces o mais puro e belo gesto de amor à vida. A tua criação.
Há um arrepio geral. Sinto-o nas cadeiras que estalam, no respirar suspenso, na energia que se espalha.
Há uma emoção que não chega sozinha. 
Só tu existes. Só eu existo. Só a lágrima nos une. 
E o teu olhar em mim e o meu olhar em ti. Voltas a ser o meu feto. Eu a tua placenta. Nós, presos pelo cordão umbilical.
Há uma vénia. Perdes a pose que se agigantou ao longo da peça e ganhas a tua identidade, regressando à alma que cabe no teu corpo bonito. Normal. 
Acendem-se as luzes. Levanto as mãos. Em palmas. Estas mãos que tantas vezes já te aplaudiram. E outras tantas te acariciaram. Te embalaram. Tantas vezes te querem afagar. E aplaudir...
Sorris. E agradeces, as minhas e todas as palmas que ecoam na sala. Humildemente te curvas perante nós.
Humildemente agradeço a tua doação. Que faz de mim um ser igual a ti. Especial.

Kuanza / Malange







por terras de Malange - fotos de Manuela Santana ( minha amiga )








lamento

Nos tempos que correm, em plena europa, capital deste país, ainda há homens a alçar a perna para urinarem na via pública.
Há um fedor, em becos, esquinas, escadas e escadinhas das ruas estreitas da baixa, e por todos os cantos escondidinhos, que enoja de tão nauseabundo. E primário. E obsceno.
E depois queixam-se de ser chamados de cachorros...

m.c.s.

Kuanza/Malange dos tempos de hoje










Kalandula/ Malange






terça-feira, 12 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A poesia

A poesia é a mais habilidosa arte de pedir ao Criador que os sonhos se concretizem.
Falar-Lhe bonito. Ao ouvido. 
Na nossa melhor voz desenhada. A da alma materializada.
De coração nas mãos e memória limpa e pura.
A poesia é também brincar com as palavras, criança crescida, reconhecida, agradecendo Vida. 
Ou ainda, filtrar na peneira, bater na madeira, exorcizar escolhas, banir momentos. Expurgar todos os maus pensamentos. 
A poesia nem sempre é a negação da realidade, mas o desejo que o universo dê crédito à nossa rima. Eternize a verdade dos nossos versos. 
Acredito que as palavras têm a força que lhe quisermos dar e o peso que as forças divinas lhe atribuem. 
Por isso faço da poesia um malabarismo constante em que acredito porque creio no universo. E espero dele o justo retorno.
A poesia é a mais habilidosa arte de contornar efeitos duma prosa dura, dum pessimismo sem versos, duma vida sem rima. 
A poesia está e estará sempre no meu horizonte. Ela é a ponte para a minha elevação. O meu maior voo. A minha inspiração.

Parabéns, minha terra independente


A propósito de comemorações

De repente eram 23 horas em Portugal continental, em Angola meia-noite.
Desconsegui ouvir os foguetes, morteiros, sei lá eu, os festejos, pela data que hoje a minha terra comemora, mas adivinhei-os. E a lágrima, esta bendita lágrima sempre a perseguir-me, soltou-se, rolou e veio rosto abaixo, ganhando a velocidade dos pensamentos.
Os pensamentos são como os sonhos e a gente voa, de sonho em sonho.
E tão de repente como o tempo que chega e nos traz comemorações duma data histórica, lembrei Agostinho Neto. Cuja ideologia eu defendia.
E lembrei aquela época. E assim cheguei à música que tocou tanto nas rádios de Angola e Portugal. Hasta siempre comandante.
E subitamente fui acometida por uma vontade imensa de a ouvir e cantá-la nesta exaltação de ser filha d' um país que tem trinta e oito anos. Acabadinhos de fazer.
De repente lembrei-me de duas pessoas que não conhecem a minha Angola senão do que lhes transmiti desde sempre. Nasceram depois. Num ambiente de paz neste país que foi colonizador, da Europa.
E lembrei-me duma frase que se usa muito no Ribatejo. " Uma fava não pode dar uma ervilha ". A fava sou eu. Aqui a lembrar de Agostinho Neto. Da música proibida à época. Dos poemas. Das esperanças. Da liberdade dos povos. Da justiça. De igualdade.
Não, as minhas crias jamais poderiam ser umas ervilhas.
De repente, tudo faz sentido e saúdo Angola neste dia tão importante para todos os angolanos. Para mim. Para gente como as minhas crias que defendem a liberdade, a igualdade, a independência dos povos.
De repente, é dia de celebração da Independência da minha pátria. E eu a lembrar-me de Hasta siempre Comandante.

parabéns minha filha ( salvé o dia 10 de Novembro )


Falar para ti é fácil. Sou tua mãe. 
Sempre te falei. Também quando falei para as paredes. ( sorriso ). E mesmo quando me calei disse tudo o que precisavas silenciar. O que precisava calar.
Falar de ti, é mais difícil. 
Não que não diga tudo o que me vai na alma. Não que não faça jus à filha que és. Não que esqueça que és a minha cria primeira. A primogénita.
Falar de ti, demora. É elaborar um texto com vários parágrafos. Muitos.
É errar na pontuação, que vais corrigir com certeza.
É não ter muitas interrogações, mas vários pontos de exclamação e algumas reticências.
Falar de ti é antes demais, uma alegria. Vários, muitos lol.
Um discurso de sucesso, porque tu és o sucesso na minha vida. Na tua vida. Na vida de muitos amigos que te rodeiam. Das pessoas que contigo se cruzam.
Vês? Eu começo a falar de ti e parece que me estou a entusiasmar, mas tu sabes que não. 
Falar de ti é falar com os olhos, com a mente e com o coração nas mãos. Com os cinco sentidos. 
É falar de alguém que não quero de novo placenta ligada a mim mas quero-te de braços abertos para a vida e para mim. Para ti...
É orar todas as noites pela tua saúde e felicidade, quando falo de ti a Deus. 
É ler-te a cada semana. Para comentar depois. 
É ver-te cada quinta-feira no pequeno écran para te dizer a seguir o que achei.
É apreciar-te trabalhando em Alfama, por dedicação e prazer.
É almoçar contigo num sítio giro, simples, ou em casa enquanto trocamos palavras. Contamos histórias, planeamos viagens, gargalhamos. Falamos de ti.
Falar de ti, significa que houve um momento mágico na minha vida. Uma hora feliz. Um amor para sempre que nasceu quando te adivinhei em mim. 
Um sentido, para viver neste orgulho de mãe em que me deixas quando te percebo em doses que a olhos estranhos e cépticos são exageradas, para mim são o ser lindo e muito à frente que és, do qual nunca duvido; despreconceituosa, justa, inteligente, honesta, amiga, bem humorada, simples, humilde. Boa pessoa.
Falar de ti é apreciar a clareza das tuas palavras. Reconhecer a ambição de venceres. A capacidade de chefia. A transparência das atitudes. A luta pela tua independência, enquanto pessoa. A luta pelas tuas ideias sociais, pela justiça, pela igualdade de direitos. O teu desprendimento com o dinheiro. A capacidade de viveres com uma, com dez, ou cem notas do banco de Portugal. E seres a mesma de sempre.
Falar de ti é falar de alguém que é e quer ser sempre pessoa melhor.
É confiar em ti e apoiar-te incondicionalmente. É seguir-te de olhos fechados porque me levarás sempre para o melhor de ti.
É desejar que o mundo seja como tu. Que na tua rua, no teu emprego, no lugar onde te sentas, por onde passas, onde fazes férias, as pessoas sejam como tu.
Seria com certeza um mundo mais autêntico onde tu te sentirias sempre em casa.
Falar de ti é falar dos teus amigos. Olhar cada um deles e perceber a pessoa que és, através deles. A amizade escolheu-te porque te é dado escolher cada pessoa como reflexo de ti. Como se te escolhessem para reflexo delas. Conseguem...
Falar de ti é dizer que podes não ser a filha que qualquer mãe quer ter, mas eu não quereria que fosses outra. Mesmo quando achas que és a minha mãe. Mesmo quando acordas e não falas na primeira meia-hora. Mesmo quando me encontras ao fim de dias e te esqueces de me dares um beijo. Mesmo quando me dizes: A sério mãe? Menos.
Mesmo quando defendes os teus pontos de vista como se a razão estivesse toda desse lado. 
Falar de ti e para ti, é dizer-te, obrigada. Por ter a alegria de ser tua mãe.
Gosto tanto tanto tanto de ti, meu amor, minha princesa!
Muitos parabéns. Tem um dia muito feliz. Tem uma longa vida e muita saúde. Sorri sempre como se fosses uma menina e ama todos os dias, com o coração enorme de mulher linda que és. 
Continua defendendo os teus ideais sem esmoreceres e torna este mundo um pouco melhor se fores capaz. Eu sei que és. Aos poucos consegues. Conseguiste-o comigo...
Amo-te. Por isso falar para ti é fácil. Já falar de ti torna-se mais difícil por ser uma emoção e um orgulho.
Falar para ti e de ti é abrir os braços e dar-te um abraço maior do que o universo, do que a eternidade. Para lá de todas as eternidades que possam existir. 
Em todos os dias da nossa vida...

sábado, 9 de novembro de 2013

década de 80

                                         Já fui assim...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

eu

Fui menina inquieta
Nervosa e insegura
Alma ingénua e pura
Amando sem do amor saber
Descobrindo-o timidamente
Suspirando para não perceber
Que tal como nasce, o amor
Pode partir de repente...
Fui mulher-coração
Dona dos meus sentimentos
Amor-furacão
Para sempre
E sofrida...
A momentos 
Mais sofrida que o próprio sofrer
Por não fazer das partidas
Recomeços, 
Novos sinais de vida
Por não saber, o amor entender... 
Do que acabou, fui mistura
Desilusão e amargura
Solidão
Desamor
E na dor, fui saudade...
Mas hoje, olhando a mulher
Que não matei por piedade
Sou a esperança a crescer
No chão da minha verdade.

m.c.s.

concluindo

Há notícias felizes, que valem mais do que todo o dinheiro do mundo.
Digo eu, a sentir-me rica.


m.c.s.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

é p' rá manhã

Amanhã é outro dia.
Vou encontrar-me com o outono, em terras de interior. 
Digo eu a esfregar as mãos de contente. 
Não, não pirei. Não virei o bico ao prego, nem tão pouco acho o Ribatejo o melhor lugar do mundo. Perdoem-me os ribatejanos. 
A natureza é fantástica ali mas as terras não são apenas paisagem. E, cada um com a sua região. Com os seus costumes, com os seus defeitos e qualidades. Com a sua tacanhez. E soberba. Eu nunca menti a respeito.
Mas de facto, a possibilidade primeiro, depois a decisão de lá ir, por fim, o acerto com quem me há-de trazer de volta, deixou-me optimista. Quase aos pulinhos.
É que vocês não sabem, mas tenho andado um pouco deprimida. 
Não, não. Repito que não é o Ribatejo a ausentar-se em mim e eu nele, a provocar esse estado depressivo. Até hoje não, daqui para a frente vai-se lá saber?! Até já vi porcos voarem...
Então, qual o motivo do meu desconforto a misturar-se com um não sei quê de triste e frio?
É simples. O outono está lá arrumado em gavetas. Cabides. Sapateiras. E eu aqui junto da cidade grande, num clima que até há pouco era ameno mas que num repente me lembrou que ainda não me instalei de armas e bagagens neste lugar.
Preciso de casacos. Preciso de cachecóis. Preciso de sapatos fechados. De botas. 
Diz que quem tem duas casas é rica. Mesmo que as duas juntas não valham um cu. Dizem que tem mais emis para pagar. E manias também. Rica não sou nem a caminho disso, manienta, acho que também não. Mas não posso prová-lo. 
Sei que por vezes lá vem uma insinuação, uma provocação, para os mais atrevidos e indelicados, uma acusação, porque ah e tal, nariz empinado, emproada, engoliu um garfo, e tal e coisa. Pudera! Eu vejo o mundo do alto de 1,73, convenhamos. 
Os cães ladram e a caravana passa, o que não vai passar é o frio e a chuva e eu amanhã lá irei encontrar-me com as minhas bikuatas . Fazer imbambas e trazê-las para este kimbo onde passo quase todo o tempo do mundo. No fundo no fundo, vira o disco e toca o mesmo. Posições diferentes mas é mais do mesmo e a isto já estou habituada.
De modos que, amanhã é outro dia. E eu vou pôr-me a caminho para mais uma visita àquele que foi o meu poiso durante trinta e sete anos. 
Há coisas que nunca mudam e quando a gente está amarrada a um lugar, dê as voltas que dê, não consegue soltar amarras e esquecer. Até porque outros valores mais altos se alevantam e desses escuso-me a falar. Só porque sim.

.

falando da história

Há pessoas que me mudaram a história.
Há pessoas que me fizeram mudar de história.
Há aquelas que não fazem parte da minha história porque eu não quis.
E há por último aquelas que largaram a história porque quiseram largá-la. 
Porque partiram...
Há pessoas que me mudaram a história fazendo-me sofrer.
A essas eu não agradeço mas reconheço que sem elas estaria ainda no lugar da conformação e ignorância. Por isso não as subestimo. Nem esqueço.
Às outras, respeito e amo.

acordei na saudade

Tenho saudades...
Tenho saudade de mim, de ti, de nós. Do tempo da nossa união. Na terra onde me escolheste e pariste. Onde vivemos felizes.
Do último mimo da noite e da primeira preocupação da manhã.
Do teu chamamento.
Da tua voz. Das variantes dessa voz que sorria, se emocionava e algumas, poucas vezes, se zangava. E me acariciava e acalmava. 
Do aroma a ovos estrelados em azeite e café de cafeteira. 
Da roupa cheirando a Omo, estendida na corda. 
Da panela do feijão cozendo no fogareiro a carvão. 
E da massa com carne, guisando no fogão. 
Das saudades que sentias da tua terra-mãe.
Tenho saudade do teu cabelo preto e liso que eu penteava. 
Dos teus sapatos de salto e das carteiras que eu experimentava e tu deixavas. 
Das rosas brancas que regavas. E das cristas de galo também.
Do toque das tuas mãos. Das tuas mãos de rainha-mãe.
Da máquina de costura oliva, que pedalavas ao fim da tarde. 
Tenho saudades do teu olhar cor de mel, poisado em mim.
E do meu nome nos teus lábios.
Da tua protecção. Do teu desvelo. Da tua presença.
Do teu amor. Por nós. Por mim. Nunca mais ninguém me amou tanto quanto tu.
Tenho saudades da minha placenta.
Tenho tanta saudade de ti, de nós, eu em ti e tu em mim, minha mãe!


à procura dos pontos cardeais

Vejo-me a sul um pouco desnorteada. 
Perder o norte, procurá-lo sem o achar, é uma viagem à senhora da asneira.
Se ao menos eu encontrasse o caminho...
Estatisticamente o meu lugar é ao centro. 
Na verdade, só estou bem onde não posso estar. 
Na verdade só estou bem onde sonho estar.
Preciso d' um mapa com outros pontos cardeais.
Quem sabe eu me encontro, te encontro, nunca mais nos desencontramos?!
Um dia ainda te vou mostrar a Rosa dos Ventos...

sobre o amor

Amar é uma capacidade.
Sentir o Amor é ter a arte para o converter em algo eterno. E vivê-lo como se fosse acabar.
Digo eu, que sou inábil.

m.c.s.