Saí do hipermercado. Chovia. Bastante. Deitando por terra o desejo de descer o viaduto a pé, direita a casa. Atravessei o parque de estacionamento, para a paragem do TUT. Apenas uma mulher aguardava.
Os passageiros dos transportes urbanos costumam ser velhos, a cheirarem a mofo e a nafetalina, mulheres viúvas e pouco mais. Cumprimentei a rapariga que esperava e ocupava o banco com os seus sacos do Modelo. Apressou-se a retirar os sacos.
- Quer sentar-se?
- Não, não, disse poisando os meus. Deixe ficar. Vou esperar em pé. E sorri-lhe.
Depois perguntei-lhe se esperava o TUT e se o autocarro parava perto do Ciclo Preparatório. Dali a instantes estávamos a conversar.
Quer dizer, ela falava e eu ouvia. E assim fiquei a saber que fôra minha vizinha, do último bloco, que o marido fôra a Angola, que o sogro vive em Luanda, que torres novas é demasiado pequena para ela, que não tem filhos, por opção, que está desempregada, que não tem carta de condução, que tem 38 anos, que vive na Silvã, que tem um familiar que foi para Angola e arranjou uma catorzinha mas que vem a portugal e finge que tem o casamento perfeito, que veio de Lisboa pequena e que não se identifica com esta terra. Que acha estas pessoas invejosas. Tudo isto sem que eu perguntasse coisa alguma.
Foi muita informação para quem como eu, hoje, tem uma dôr de cabeça do caraças, dores no corpo e na garganta e o que mais queria ali enquanto esperava o autocarro, era chegar a casa para se pôr a jeito de a qualquer momento mergulhar no vale dos lençóis.
Acabei por achar simpática a abordagem da minha parceira de viagem. Afinal, há pessoas com vidas curiosas. Há pessoas que pensam como eu apesar de aqui viverem. Isso fez-me sentir menos culpada.
Não soube o nome da mulher de 38 anos, bonita, morena de longos cabelos pretos, educada, delicada, ar sereno e simpático que me ajudou a passar o tempo enquanto esperava o autocarro e que permitiu que nem me apercebesse da viagem.
Há fins de tarde assim, apesar de chuvosos e frios, melancólicos e invernosos, se encontramos alguém que como nós, vive sozinha e se faz transportar nos transportes públicos e gosta ou precisa de falar. A quem damos alguma atenção. Sem qualquer intenção...