
domingo, 16 de outubro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
como um copo d'água
foto tukayana.blogspt
Isto é um pão rústico. Feito aqui pela je. O primeiríssimo de muitos que quero fazer e comer, já que tenho uma máquina há quase 3 anos e só hoje me deu para isto. As dificuldades a darem-nos idéias.
Bem sei que ficou feinho. Acho que falhou aqui qualquer coisa.
Não lhe dei muita atenção. Fui até jantar ali ao dobrar da esquina com uma companhia elegante, educada, gentil, charmosa e envolvente. Uma das minhas companhias preferidas, para não dizer a preferidissíma. Porque há mais. Poucas mais, mas há.
Quando voltei para casa, sim, porque hoje é sábado e estou no Ribatejo, este pãozinho já estava pronto. Simples não é?
Obrigada mano Zé pelas dicas. Não se parece nada com os teus pães mas foi o que consegui fazer. Eu?! A máquina...a bem dizer.
Obrigada meninos que me oferereceram a dita máquina um natal destes, daqueles em que ainda se dava e recebia presentes. Eu que achei um desperdício gastar dinheiro numa máquina destas para uma criatura sozinha. Afinal a maquineta vai ser necessária. E esta falta de jeito pode e deve mudar. A necessidade aguça o engenho. Ora bem...
Um dia destes apresento aqui um pão very very nice.
Como se diz na minha terra, bué kuioso.
Um dia destes, ainda serei uma perfeita padeira, fazendo pão como quem bebe um copo d'água e quem sabe me torno numa profissional da restauração. Não era mal pensado.
Bem sei que ficou feinho. Acho que falhou aqui qualquer coisa.
Não lhe dei muita atenção. Fui até jantar ali ao dobrar da esquina com uma companhia elegante, educada, gentil, charmosa e envolvente. Uma das minhas companhias preferidas, para não dizer a preferidissíma. Porque há mais. Poucas mais, mas há.
Quando voltei para casa, sim, porque hoje é sábado e estou no Ribatejo, este pãozinho já estava pronto. Simples não é?
Obrigada mano Zé pelas dicas. Não se parece nada com os teus pães mas foi o que consegui fazer. Eu?! A máquina...a bem dizer.
Obrigada meninos que me oferereceram a dita máquina um natal destes, daqueles em que ainda se dava e recebia presentes. Eu que achei um desperdício gastar dinheiro numa máquina destas para uma criatura sozinha. Afinal a maquineta vai ser necessária. E esta falta de jeito pode e deve mudar. A necessidade aguça o engenho. Ora bem...
Um dia destes apresento aqui um pão very very nice.
Como se diz na minha terra, bué kuioso.
Um dia destes, ainda serei uma perfeita padeira, fazendo pão como quem bebe um copo d'água e quem sabe me torno numa profissional da restauração. Não era mal pensado.
desabafando num nada p'ra fazer
foto tukayana.blogspot
Como se de uma arca de Noé se tratasse, senhores, vamos cavar daqui p'ra fora? Levo a minha Pitanga.
O buraco cada vez é maior e nós vamos afogar-nos não tarda nada. Quem souber nadar que fique na praia e se tiver moeda para a troca, compre uma boia para se precaver. É que as marés vivas fazem vítimas.
Como se de uma arca de Noé se tratasse, senhores, vamos cavar daqui p'ra fora? Levo a minha Pitanga.
O buraco cada vez é maior e nós vamos afogar-nos não tarda nada. Quem souber nadar que fique na praia e se tiver moeda para a troca, compre uma boia para se precaver. É que as marés vivas fazem vítimas.
aconteceu ao almoço
foto tukayana.blogspot
Não sei se conhecem o restaurante pizzeria Casanova, ali no Cais da Pedra, em frente ao rio e a Santa Apolónia.
De vez em quando sou convidada para uma pasta ou uma pizza e vou com agrado. Sempre com agrado até à 1ª garfada de pizza. Já comida a entrada que é sempre a mesma (escolho eu ), queijo de búfalo (a)com pão torrado, um tomatinho cherry e umas folhas de rúcula, tudo regado com azeite, chega a pizza ou a massa. Não sei porquê, mas acho que escolho sempre a pizza errada. Não sei se tenho de deixar de comer pizza e passo às pastas. São boas. E o chá, também.
O lugar, é da moda e por isso filas enormes aos fins de semana. No interior do restaurante mesas corridas, a lembrar cantinas italianas. Na esplanada em frente ao rio não é melhor. Quer dizer, é bem pior. Mesas para quatro e bancos para dois. De madeira.
Os empregados são simpáticos, não sei se porque vou acompanhada quase sempre de uma menina giríssima se porque é apanágio da casa, tanta simpatia.
Sábado, chegada a nossa vez e sem figuras públicas das revistas, dos jornais e das televisões, à vista, ( o que é de admirar, porque é um restaurante sempre pejado dessas espécimes ) apenas a minha companhia que porque faz o " olho na rua " da timeout por vezes acham que a conhecem, e olham, olham, a querer perceber se já foram entrevistados numa de, bora lá então, ou à séria, para o jornal onde trabalha ou para a revista onde também trabalha, mas como estava a dizer, chegada a nossa vez e porque podemos escolher ficar na esplanada e esperamos sempre mais, mas esperamos porque preferimos, indicaram-nos a mesa vaga. Quando nos preparávamos para sentar ouvi o empregado dizer a alguém atrás de nós: Naquela mesa para onde vão estas senhoras.
Má volta - pensei, quando vi um casal com ar de quem se está a conhecer para mais tarde, quem sabe desconversar. Ele muito penteadinho, detesto homens muito penteadinhos, o clássico executivo que não se desfardou no fim de semana e ela, muito assumida, roupa a fazer pandã com todo o resto, dando-se a ares que não combinam comigo nem com o ambiente que pretende ser descontraído apesar de discreto. O protótipo da mulher que vai a uma entrevista para agarrar o emprego dê lá por onde der.
Só me preocupou não combinar comigo porque íamos levar com as criaturas enquanto púnhamos a conversa em dia e saboreávamos o nosso belo e aromático repasto. Ali mesmo a respirarem quase para cima de nós.
Sentaram-se. Ele no meu banco e ela no banco da minha companhia. O meu saco estava encostado à minha coxa, ao meu lado. O penteadinho, a seguir.
Sabem quando nada acontece, mas sabemos que vai acontecer algo que não é bom? Acontecia-me isso quando em Luanda no ano de 75, depois de confrontos armados entre os dois movimentos rivais, MPLA e FNLA se calavam as armas. Horas depois batia-me um medo profundo daquele silêncio sepulcral. Era certo e sabido que dali a horas, as tracejantes cruzavam os céus, as rajadas, os roquets, as granadas se ouviam fazendo eco aos nossos medos que não se atenuavam apesar de partilhados.
Mal comparando, a minha refeição estava ameaçada por via daquelas criaturas que parecia exalarem algo parecido com má educação e petulância, apesar dos silêncios. Que se quebraram quando na mesa ao lado as pessoas se levantaram e de imediato de mudaram. Por pouco tempo pois o empregado veio dizer-lhes algo que os fez voltarem à nossa mesa. E foi aqui que a coisa se deu.
A senhoreca ( mulher de idade indefinida, talvez 30, 35, 40 ) que mudara de lugar com o penteadinho, pretendeu sentar-se ao meu lado e pede-me, agarrando no banco, que me levantasse. Julguei que não conseguia sentar-se devido ao espaço entre o banco e a mesa. E levantei-me. Eis senão quando a cara senhora metida a espertalhuca, sem que eu esperasse e sem nada me dizer mais, puxa o banco para ela, sentando-se. Não sei se estão a ver...
Uma mesa retangular e dois bancos corridos. Quando um banco é puxado para uma ponta as duas pessoas vão atrás e o resultado é que uma delas deixa de estar sentada em frente à pessoa com quem almoça e passa a fazer parte de um trio que não deseja.
O que aconteceu a seguir não foi muito educado nem bonito. Eu não perdi as estribeiras, mas faltou pouco. Pois que a criatura achava que a minha mala a incomodava. O parceiro estivera sentado ao meu lado e não tugira nem mugira. Interpelado respondeu que estava mal sentado mas não dissera nada, para não criar desconforto. Como eles são quando querem levar uma gaja para a cama através duma pizza e de um café...
Como teve resposta e foi muito mal educado, a minha cria interveio e a seguir não deu para continuar com conversês com gente deste tipo que se referiu a mim como colega da cria. A sua colega...apeteceu-me dizer como uma colega minha diz, que...colegas são as putas, mas era muito mau, sobretudo porque a cria não me perdoaria que me passasse uma coisinha má pela cabeça. Calamo-nos sem que antes lhe dissesse com um gesto de mão que não queria mais conversa e deixamo-lo a falar sozinho. Não foi agradável. Mas almoçamos na boa. Nada estraga a minha refeição se estou com uma cria a quem olho de frente enquanto fala e lhe digo:
Estás tão bonita, minha filha. E ela sorri, habituada que está a ouvir isto.
As criaturas só voltaram a falar depois de roerem ferro como os cães raivosos, para falarem das pizzas que comiam, a dela tinha um óptimo aspecto, dizendo ele que eram melhores que as dos restaurantes de Itália que conhecia. O típico tipo de gente armalhona. E mais tarde quando pediu uma lambreta ao empregado. Este ficou a olhar p'ra ele de sobrolho franzido ao que ele passou a explicar de uma forma que me envergonhou e não era nada comigo: Em Coimbra chama-se lambreta aqui não sei como se chama à cerveja...a criatura queria um copo de cerveja, grande ou pequeno não reparei mas o que queria era armar-se ao pingarelho. Itália, Coimbra, Lisboa...ok, comhecia três cidades europeias.
Gente nova com bom ar embora gosto duvidoso, com comportamentos vergonhosos. É o que temos. E por vezes levamos com eles quando comemos junto ao rio, numa esplanada duma pizzeria da moda.
Não sendo má língua, apeteceu-me dizer: Os pacóvios desceram ao povoado!
De vez em quando sou convidada para uma pasta ou uma pizza e vou com agrado. Sempre com agrado até à 1ª garfada de pizza. Já comida a entrada que é sempre a mesma (escolho eu ), queijo de búfalo (a)com pão torrado, um tomatinho cherry e umas folhas de rúcula, tudo regado com azeite, chega a pizza ou a massa. Não sei porquê, mas acho que escolho sempre a pizza errada. Não sei se tenho de deixar de comer pizza e passo às pastas. São boas. E o chá, também.
O lugar, é da moda e por isso filas enormes aos fins de semana. No interior do restaurante mesas corridas, a lembrar cantinas italianas. Na esplanada em frente ao rio não é melhor. Quer dizer, é bem pior. Mesas para quatro e bancos para dois. De madeira.
Os empregados são simpáticos, não sei se porque vou acompanhada quase sempre de uma menina giríssima se porque é apanágio da casa, tanta simpatia.
Sábado, chegada a nossa vez e sem figuras públicas das revistas, dos jornais e das televisões, à vista, ( o que é de admirar, porque é um restaurante sempre pejado dessas espécimes ) apenas a minha companhia que porque faz o " olho na rua " da timeout por vezes acham que a conhecem, e olham, olham, a querer perceber se já foram entrevistados numa de, bora lá então, ou à séria, para o jornal onde trabalha ou para a revista onde também trabalha, mas como estava a dizer, chegada a nossa vez e porque podemos escolher ficar na esplanada e esperamos sempre mais, mas esperamos porque preferimos, indicaram-nos a mesa vaga. Quando nos preparávamos para sentar ouvi o empregado dizer a alguém atrás de nós: Naquela mesa para onde vão estas senhoras.
Má volta - pensei, quando vi um casal com ar de quem se está a conhecer para mais tarde, quem sabe desconversar. Ele muito penteadinho, detesto homens muito penteadinhos, o clássico executivo que não se desfardou no fim de semana e ela, muito assumida, roupa a fazer pandã com todo o resto, dando-se a ares que não combinam comigo nem com o ambiente que pretende ser descontraído apesar de discreto. O protótipo da mulher que vai a uma entrevista para agarrar o emprego dê lá por onde der.
Só me preocupou não combinar comigo porque íamos levar com as criaturas enquanto púnhamos a conversa em dia e saboreávamos o nosso belo e aromático repasto. Ali mesmo a respirarem quase para cima de nós.
Sentaram-se. Ele no meu banco e ela no banco da minha companhia. O meu saco estava encostado à minha coxa, ao meu lado. O penteadinho, a seguir.
Sabem quando nada acontece, mas sabemos que vai acontecer algo que não é bom? Acontecia-me isso quando em Luanda no ano de 75, depois de confrontos armados entre os dois movimentos rivais, MPLA e FNLA se calavam as armas. Horas depois batia-me um medo profundo daquele silêncio sepulcral. Era certo e sabido que dali a horas, as tracejantes cruzavam os céus, as rajadas, os roquets, as granadas se ouviam fazendo eco aos nossos medos que não se atenuavam apesar de partilhados.
Mal comparando, a minha refeição estava ameaçada por via daquelas criaturas que parecia exalarem algo parecido com má educação e petulância, apesar dos silêncios. Que se quebraram quando na mesa ao lado as pessoas se levantaram e de imediato de mudaram. Por pouco tempo pois o empregado veio dizer-lhes algo que os fez voltarem à nossa mesa. E foi aqui que a coisa se deu.
A senhoreca ( mulher de idade indefinida, talvez 30, 35, 40 ) que mudara de lugar com o penteadinho, pretendeu sentar-se ao meu lado e pede-me, agarrando no banco, que me levantasse. Julguei que não conseguia sentar-se devido ao espaço entre o banco e a mesa. E levantei-me. Eis senão quando a cara senhora metida a espertalhuca, sem que eu esperasse e sem nada me dizer mais, puxa o banco para ela, sentando-se. Não sei se estão a ver...
Uma mesa retangular e dois bancos corridos. Quando um banco é puxado para uma ponta as duas pessoas vão atrás e o resultado é que uma delas deixa de estar sentada em frente à pessoa com quem almoça e passa a fazer parte de um trio que não deseja.
O que aconteceu a seguir não foi muito educado nem bonito. Eu não perdi as estribeiras, mas faltou pouco. Pois que a criatura achava que a minha mala a incomodava. O parceiro estivera sentado ao meu lado e não tugira nem mugira. Interpelado respondeu que estava mal sentado mas não dissera nada, para não criar desconforto. Como eles são quando querem levar uma gaja para a cama através duma pizza e de um café...
Como teve resposta e foi muito mal educado, a minha cria interveio e a seguir não deu para continuar com conversês com gente deste tipo que se referiu a mim como colega da cria. A sua colega...apeteceu-me dizer como uma colega minha diz, que...colegas são as putas, mas era muito mau, sobretudo porque a cria não me perdoaria que me passasse uma coisinha má pela cabeça. Calamo-nos sem que antes lhe dissesse com um gesto de mão que não queria mais conversa e deixamo-lo a falar sozinho. Não foi agradável. Mas almoçamos na boa. Nada estraga a minha refeição se estou com uma cria a quem olho de frente enquanto fala e lhe digo:
Estás tão bonita, minha filha. E ela sorri, habituada que está a ouvir isto.
As criaturas só voltaram a falar depois de roerem ferro como os cães raivosos, para falarem das pizzas que comiam, a dela tinha um óptimo aspecto, dizendo ele que eram melhores que as dos restaurantes de Itália que conhecia. O típico tipo de gente armalhona. E mais tarde quando pediu uma lambreta ao empregado. Este ficou a olhar p'ra ele de sobrolho franzido ao que ele passou a explicar de uma forma que me envergonhou e não era nada comigo: Em Coimbra chama-se lambreta aqui não sei como se chama à cerveja...a criatura queria um copo de cerveja, grande ou pequeno não reparei mas o que queria era armar-se ao pingarelho. Itália, Coimbra, Lisboa...ok, comhecia três cidades europeias.
Gente nova com bom ar embora gosto duvidoso, com comportamentos vergonhosos. É o que temos. E por vezes levamos com eles quando comemos junto ao rio, numa esplanada duma pizzeria da moda.
Não sendo má língua, apeteceu-me dizer: Os pacóvios desceram ao povoado!
assino por baixo
ser do Benfica, hoje
O futebol é um doce remédio.Anestesiante. Calmante.
Um intervalo necessário na vida séria que levamos.
Um escape.
Um prazer.
Uma alegria.
Quando a nossa equipa ganha, realizamos uma vitória.
Um passo certo. Uma baliza ganha. Um caminho em frente.
Nunca joguei futebol. Mas já joguei muito à bola. E até comi relva.
E ganhei sempre que o Benfica ganhou.
Isto é ser de um clube. Pertencer-lhe de alma e coração.
Há poucas certezas que tenho na vida que nunca se alterarão.
Ser do Benfica é a minha certeza de hoje.
A minha equipa ganhou ao Portimonense ontem e eu sorri.
Não porque o Portimonense perdeu mas porque o Benfica ganhou.
Ser benfiquista para mim é ser assim.
Parabéns pela vitória, clube que o meu pai me ensinou a amar e a respeitar.
Quem me faz sorrir tem a minha gratidão.
vencer a vida a passo de caracol
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
divagações IX

Cheguei à paragem do autocarro a tempo e horas de espreguiçar a minha insónia e relaxar. Esperando e observando. Um aparato policial como já não via há muito acontecia mesmo à frente do meu nariz. Um dia destes vou fazer medições, comparações, nas minhas feições a ver se tenho ascendência judia. Nunca se sabe...
Os polícias aos pares, regulavam o trânsito, pondo a boca no trombone, melhor dizendo, no apito que aqui vai disto, que somos a força...policial.
Começou a guerra? pensei interrogando o meu espírito angustiado com as notícias.
Guerra? Que guerra que carapuça! Que a enfie a quem servir. O povo é sereno e conformado.
Um mar de gente em frente à escola de polícia. E os instruendos na sua farda de trabalho azul caqui, marchando.
Um dois, um dois, marchando, marchando, a caminho de um emprego na função pública. Polícias.
Marchando felizes. Vitoriosos. Uáaaau! Iuuuuupi. Punho fechado socando o ar deste outono desgovernado e brincalhão, fingindo de verão escaldante. Chegou o dia. Do juramento de bandeira.
Bandeira? Que bandeira? Ia jurar que vi a bandeira alemã esvoaçando. E o Ribatejo dando lugar a um Alentejo árido e desértico, onde a incidência de suicídios é assustadora.
Eles marchando.
Nós marchando, marchando, marchando, um dois, um dois, direita volver, cabeças baixas, mãos crispadas, olhos baços, ombros caídos, pensamentos negros, sonhos mortos.
Bonecos. Manipulados. Marionetas. Tresloucados. A caminho de um qualquer campo de concentração.
Olhei em frente erguendo o rosto, empinando o nariz num derradeiro gesto de revolta e inconformação. Eles, os instruendos, marchando, marchando, os outros, os polícias a quem vão tirar dois ordenados e mais umas quantas regalias e outros direitos, orientando a marcha, perdão, o trânsito, apito ( não sei se era dourado ) na boca, mãos nas luvas brancas...
Como que num flash veio-me à memória uma professora primária do fim dos anos 70, inconformada, com sangue na guelra e Trás-os-Montes no coração, a quem chamavam a professora vermelha. Minha prima. Ainda hoje gosta de lembrar esse tempo. Sente orgulho. A professora vermelha da terra vermelha...
E como os pensamentos são como as cerejas que por sinal também são vermelhas, lembrei-me do poeta. Num tempo tão agreste, a poesia pode ser uma arma. E ajudar. " Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar..." já dizia o poeta angolano, António Cardoso. E como até sou do Benfica embora já não vá em futebois e não tendo medo nem preconceito, só cá por causa de coisas logo ao serão após as notícias do telejornal, vou procurar na minha estante o livro de poemas deste homem a quem tiro o meu chapéu, pois sabia o que dizia quando dizia que " se choramos, aceitamos, é preciso não aceitar..."
Os polícias aos pares, regulavam o trânsito, pondo a boca no trombone, melhor dizendo, no apito que aqui vai disto, que somos a força...policial.
Começou a guerra? pensei interrogando o meu espírito angustiado com as notícias.
Guerra? Que guerra que carapuça! Que a enfie a quem servir. O povo é sereno e conformado.
Um mar de gente em frente à escola de polícia. E os instruendos na sua farda de trabalho azul caqui, marchando.
Um dois, um dois, marchando, marchando, a caminho de um emprego na função pública. Polícias.
Marchando felizes. Vitoriosos. Uáaaau! Iuuuuupi. Punho fechado socando o ar deste outono desgovernado e brincalhão, fingindo de verão escaldante. Chegou o dia. Do juramento de bandeira.
Bandeira? Que bandeira? Ia jurar que vi a bandeira alemã esvoaçando. E o Ribatejo dando lugar a um Alentejo árido e desértico, onde a incidência de suicídios é assustadora.
Eles marchando.
Nós marchando, marchando, marchando, um dois, um dois, direita volver, cabeças baixas, mãos crispadas, olhos baços, ombros caídos, pensamentos negros, sonhos mortos.
Bonecos. Manipulados. Marionetas. Tresloucados. A caminho de um qualquer campo de concentração.
Olhei em frente erguendo o rosto, empinando o nariz num derradeiro gesto de revolta e inconformação. Eles, os instruendos, marchando, marchando, os outros, os polícias a quem vão tirar dois ordenados e mais umas quantas regalias e outros direitos, orientando a marcha, perdão, o trânsito, apito ( não sei se era dourado ) na boca, mãos nas luvas brancas...
Como que num flash veio-me à memória uma professora primária do fim dos anos 70, inconformada, com sangue na guelra e Trás-os-Montes no coração, a quem chamavam a professora vermelha. Minha prima. Ainda hoje gosta de lembrar esse tempo. Sente orgulho. A professora vermelha da terra vermelha...
E como os pensamentos são como as cerejas que por sinal também são vermelhas, lembrei-me do poeta. Num tempo tão agreste, a poesia pode ser uma arma. E ajudar. " Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar..." já dizia o poeta angolano, António Cardoso. E como até sou do Benfica embora já não vá em futebois e não tendo medo nem preconceito, só cá por causa de coisas logo ao serão após as notícias do telejornal, vou procurar na minha estante o livro de poemas deste homem a quem tiro o meu chapéu, pois sabia o que dizia quando dizia que " se choramos, aceitamos, é preciso não aceitar..."
medidas XXL versus Anoréticos
Coca-cola
Bilhetes de cinema
Leite de chocolate
e Outros...
a levarem com 23% de IVA.
Medidas XXL com o fim de fazerem de nós anoréticos.
Hoje já disse as asneiras todas que aprendi na escola deste portugal moribundo. Fiquei a olhar o buraco que cavaram e esqueci as palavras.
Não vejo um, vejo reticências de covas e mais covas. A perder de vista.
Estou cansada de ver tanto sacana!
ESTAMOS FEITOS!
Bilhetes de cinema
Leite de chocolate
e Outros...
a levarem com 23% de IVA.
Medidas XXL com o fim de fazerem de nós anoréticos.
Hoje já disse as asneiras todas que aprendi na escola deste portugal moribundo. Fiquei a olhar o buraco que cavaram e esqueci as palavras.
Não vejo um, vejo reticências de covas e mais covas. A perder de vista.
Estou cansada de ver tanto sacana!
ESTAMOS FEITOS!
sacanagem
Estava sentada no sofá da minha sala quando ouvi, que para 2012 e 2013 os funcionários públicos que ganhem mais de 1.000€ perderão os subsídios de férias e de Natal. Estou entre esses.Não fumo desde 1985. Chegava a fumar 2 maços por dia. Quando a minha mãe faleceu, naquela noite, a velá-la, senti uma necessidade dolorosa de voltar a fumar. Mas resisti. A custo.
Ao perceber que estes sujeitos querem cavar a minha sepultura, ocorreu-me fumar um cigarro. Voltei a ter a velha necessidade.
Eu sei que o cigarro mata. Mas o que é que estas pessoas nos estão a fazer?
O cigarro mata mas antes, dá prazer.
Juro que nunca pensei nesta minha já longa e lixada vida, desejar voltar a fumar.
F...-se! P.q.p, esta merda toda. Que putice! Tiram-nos tudo. Até a alma...
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
mimos docinhos e saborosos
Chegaram as broas dos Santos.
O tempo é de verão, a hora está quase a mudar, na avenida os castanheiros perderam as folhas, às 18 horas fazia 34 graus em torres novas, todo o mundo pragueja contra o calor, que já é demais, que não se aguenta, onde é que já se viu, bolas, xiça, porra p'ra tanto calor, daqui a pouco é natal e andamos de chinelos e de calções...
O ser humano é mesmo assim, insatisfeito. Por mim este tempo podia durar o ano todo a ver se eu me ralava!
Mas anunciando o outono na teoria, chegaram as broas dos Santos e eu lembrei-me do sô Santos chegando da baixa com uma caixinha de bolos da Royal.
E como tendemos a imitar os actos de quem faz o que gostamos, eu gosto de aparecer em casa com uma caixa de bolos. De broas ou merendeiras, dos Santos. Dos Santos porquê? Porque dia 1 de Novembro é dia de todos os Santos e é costume nesta região os miúdos irem ao bolinho de porta em porta. No fundo uma tradição como o halloween nos states.
Mas eu gosto de comprar caixas de bolos por dá cá aquele bolo. Pastéis de nata se vou a Belém. Cavacas se vou às Caldas. Dom Rodrigos ou tartes de alfarroba se vou ao Algarve. Trouxas d'ovos se vou a Aveiro, pão de ló se vou a Alfeizerão, queijadas de requeijão se vou a Portalegre, arrepiados e celestes se vou a Santarém, pastéis de feijão se vou a Torres Vedras...e bem, nunca mais parava de comprar caixas de bolos. Aprendi com o sô Santos a mimar as crias.
Hoje é dia de mimar.
amigo
melhora rápido, meu amor
Diz a caçula que ontem o escorpião estava protegido. Se não estivesse, o que teria acontecido? Não quero nem pensar. Dá-me um meeeeeeedo, que me põe as pernas fracas e o coração a fazer taquicardia.
Sabes que continuo com o coração apertadinho? Pois...
Desde que nasceste que nunca mais relaxei completamente. Hoje trocava contigo na boa, sem sequer pestanejar.
Quero muito poder estar contigo, naqueles dias que estamos a almoçar e olho para ti e te digo:
Estás tão bonita minha filha!
E tu sorris como quem diz - mães! O que se há-de fazer!
Melhora rápido, meu amor, porque eu não sei o que fazer com este aperto no coração.
Um abraço maior do que o Universo.
Sabes que continuo com o coração apertadinho? Pois...
Desde que nasceste que nunca mais relaxei completamente. Hoje trocava contigo na boa, sem sequer pestanejar.
Quero muito poder estar contigo, naqueles dias que estamos a almoçar e olho para ti e te digo:
Estás tão bonita minha filha!
E tu sorris como quem diz - mães! O que se há-de fazer!
Melhora rápido, meu amor, porque eu não sei o que fazer com este aperto no coração.
Um abraço maior do que o Universo.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
hoje
Só me ocorre dizer
Gosto tanto, tanto de ti, que te amo mais que a mim, meu anjo.
Gosto tanto, tanto de ti, que te amo mais que a mim, meu anjo.
e tenho o coração tão apertadinho, hoje...
Andre Mingas - O que eu quero
à memória deste angolano que partiu num até sempre para todo o sempre.
divagações VIII
Nunca te pedi nada. Confirmas? Claro que sim.
Nada. Mesmo. Nada que não pudesses dar.
Lembro-me que apenas quis que não me deixasses com as palavras. Suspensas...
Aquelas que te eram dedicadas. Construídas, elaboradas, prontas para tas oferecer.
Partiste sem as levares. Tinhas as mãos ocupadas. E o coração...trancado a sete chaves.
Fechaste a porta, bateste com ela e sem olhares para trás silenciaste-me as palavras, para sempre.
E eu, fiquei de mãos cheias e coração vazio, letra a letra, enlaçadas, sem saber o que fazer-lhes.
Não me fazem falta. Não eram minhas. Estavam-te destinadas...
Perdi a melodia que as acompanhava e deixei de cantar só p'ra te achar na pauta dum trompete que sonhei que te ouvi, um dia.
De vez em quando faço fé na nota musical que me embalou e me levou dançando até aos mares do sul.
Quando isso acontece agarro as palavras que eram tuas e ensaio a canção, tocando-as de esperança e fé. E por segundos, de loucura, acho que te toco...
Nada. Mesmo. Nada que não pudesses dar.
Lembro-me que apenas quis que não me deixasses com as palavras. Suspensas...
Aquelas que te eram dedicadas. Construídas, elaboradas, prontas para tas oferecer.
Partiste sem as levares. Tinhas as mãos ocupadas. E o coração...trancado a sete chaves.
Fechaste a porta, bateste com ela e sem olhares para trás silenciaste-me as palavras, para sempre.
E eu, fiquei de mãos cheias e coração vazio, letra a letra, enlaçadas, sem saber o que fazer-lhes.
Não me fazem falta. Não eram minhas. Estavam-te destinadas...
Perdi a melodia que as acompanhava e deixei de cantar só p'ra te achar na pauta dum trompete que sonhei que te ouvi, um dia.
De vez em quando faço fé na nota musical que me embalou e me levou dançando até aos mares do sul.
Quando isso acontece agarro as palavras que eram tuas e ensaio a canção, tocando-as de esperança e fé. E por segundos, de loucura, acho que te toco...
terça-feira, 11 de outubro de 2011
já chegaram as romãs
foto tukayana.blogspot
Já chegaram as romãs.
Gosto do sofá. Noites de frio. Manta a aconchegar. Televisão.
Chá de gengibre e limão. Velas acesas e cheirosas.
E...romãs. Bago a bago.
Paciência. Prazer. Sabor. Tranquilidade. Lar.
Já chegaram as romãs mas o outono verdadeiro não. A apelar à ternura do tempo frio. De serões fofinhos, embrulhados em malhas e lã. A apelar às romãs...
Será que neste tempo tão quente já é hora de comer romãs?
Depois direi.
Gosto do sofá. Noites de frio. Manta a aconchegar. Televisão.
Chá de gengibre e limão. Velas acesas e cheirosas.
E...romãs. Bago a bago.
Paciência. Prazer. Sabor. Tranquilidade. Lar.
Já chegaram as romãs mas o outono verdadeiro não. A apelar à ternura do tempo frio. De serões fofinhos, embrulhados em malhas e lã. A apelar às romãs...
Será que neste tempo tão quente já é hora de comer romãs?
Depois direi.
à beira de um ataque de pânico
foto tukayana.blogspot
Parece uma querida e doce gatinha não é? Não é.
Pois, desenganem-se, que eu este fim de semana desenganei-me tristemente. Porque esta pachorrenta(?) gata que está ao meu colo, sim porque esta coisa azul, sou eu já em trajes menores, no fim de semana, mais precisamente no sábado, virou uma fera. Literalmente.
Estou traumatizada. Juro-vos. E ela também.
Nunca mais vai a Santa Cruz, à veterinária. Mordeu-lhe. A Pitanga à senhora, claro! Mas também...quem a mandou preparar a vacina mesmo nos bigodes da assustada bichinha?
O que me custa mais na vida é assistir, perceber, adivinhar, desconfiar o sofrimento das minhas pessoas. Prefiro ser eu a passar por isso porque acredito que nunca sofro tanto. Ou que tenho mais capacidade para ser saco de pancada, se calhar é por aí. O certo é que ver sofrer quem amo é sofrimento a dobrar. Mas não sabia, ninguém me tinha dito, apenas desconfiava ao de leve, que se pode sofrer muito por uma Pitanga ao ponto de causar dor física e prostração, lágrimas e tristeza.
É verdade, pessoas. Eu e a Pitanga, no sábado ao fim da tarde passámos o diabo ou o diabo passou por nós e causou mossa. Não vou contar mais nada, até porque gosto tanto dela que seria uma grande traição, e já tudo passou, mas a minha Pitanga não vai viajar nos próximos tempos. Torres Novas é a terra dela e já diz Mia Couto - " quem saiu do seu lugar, nunca a si mesmo regressa ".
A M.Machado e a Helena ( minhas amigas ) viram a Pitanga sempre em situações de grande medo, pânico total, melhor dizendo, e estão convencidas que a minha gatinha é tudo menos um doce.
Lamento amigas, o sufoco por que passaram. Estivemos as quatro, nós e ela, à beira de um ataque de nervos.
O meu agradecimento sincero a ti Manuela que estando doente fizeste tudo o que foi possível, e a ti Helena, a minha profunda gratidão por teres tido sangue frio para ajudares a resolver um problema que não saberia resolver sozinha. Beijos no coração, a ambas.
Se a vissem agora não acreditariam que é a mesma Pitanga. Aquela de que eu tanto falo. :))
Pois, desenganem-se, que eu este fim de semana desenganei-me tristemente. Porque esta pachorrenta(?) gata que está ao meu colo, sim porque esta coisa azul, sou eu já em trajes menores, no fim de semana, mais precisamente no sábado, virou uma fera. Literalmente.
Estou traumatizada. Juro-vos. E ela também.
Nunca mais vai a Santa Cruz, à veterinária. Mordeu-lhe. A Pitanga à senhora, claro! Mas também...quem a mandou preparar a vacina mesmo nos bigodes da assustada bichinha?
O que me custa mais na vida é assistir, perceber, adivinhar, desconfiar o sofrimento das minhas pessoas. Prefiro ser eu a passar por isso porque acredito que nunca sofro tanto. Ou que tenho mais capacidade para ser saco de pancada, se calhar é por aí. O certo é que ver sofrer quem amo é sofrimento a dobrar. Mas não sabia, ninguém me tinha dito, apenas desconfiava ao de leve, que se pode sofrer muito por uma Pitanga ao ponto de causar dor física e prostração, lágrimas e tristeza.
É verdade, pessoas. Eu e a Pitanga, no sábado ao fim da tarde passámos o diabo ou o diabo passou por nós e causou mossa. Não vou contar mais nada, até porque gosto tanto dela que seria uma grande traição, e já tudo passou, mas a minha Pitanga não vai viajar nos próximos tempos. Torres Novas é a terra dela e já diz Mia Couto - " quem saiu do seu lugar, nunca a si mesmo regressa ".
A M.Machado e a Helena ( minhas amigas ) viram a Pitanga sempre em situações de grande medo, pânico total, melhor dizendo, e estão convencidas que a minha gatinha é tudo menos um doce.
Lamento amigas, o sufoco por que passaram. Estivemos as quatro, nós e ela, à beira de um ataque de nervos.
O meu agradecimento sincero a ti Manuela que estando doente fizeste tudo o que foi possível, e a ti Helena, a minha profunda gratidão por teres tido sangue frio para ajudares a resolver um problema que não saberia resolver sozinha. Beijos no coração, a ambas.
Se a vissem agora não acreditariam que é a mesma Pitanga. Aquela de que eu tanto falo. :))
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
uma questão de amor
Enternece-me um filho ao colo do pai.Se calhar sou eu que sou à moda antiga. Ou não...
Gosto de ver o menino de seu pai. Ao colo.
Ambos iguais. Ambos amor. Ambos ternura e laços.
Como as alianças que se entrelaçam uma na outra.
Eu tenho dessas. Em ouro. Não são duas. São três.
Uso-as na mão direita. Há muitos anos.
Interrogo-me vezes sem conta, numa incredulidade de pele, de boca, visceral, porque os filhos adultos não são postos no colo. Porquê?
Porque é que amanhã, esse tesouro hoje pequeno e vulnerável, se transforma num fardo pesado que já não cabe no colo paternal?!
Apostava a minha vida, como o sô Santos hoje, me daria um colo daqueles que não há outro igual e me beijaria a tristeza deste dia, dando a sua vida para que eu sorrisse.
num até sempre
DEZ DE OUTUBRO
Há dias que não deviam existir no calendário. Nem na minha memória. Este é um deles.
Há memórias que nunca me deixam. Permanecendo num até sempre...
domingo, 9 de outubro de 2011
aspiração/presunção
Um dia, quero e vou aprender a escrever.
Encontro uma caneta sábia, sensível, um caderno inspirador...
Numa mente disponível e num coração aprendiz, há-de nascer um desejo ambicioso. Um lugar para começar...
Junto as letras. Formo ditongos.
Preparo as palavras. Acentuo-as. Anasalo-as. Dou-lhes côr, música e movimento. Crio espaços, pinto linhas.
Desenho minúsculas. Exagero nas graves e inovo nas esdrúxulas.
Não quero só monossílabos por isso uso a gramática.
Sorrio nas interrogações e relaxo nas reticências. Experimento os pontos e as vírgulas e os dois num. Inovo noutros dois pontos e admiro-me nas exclamações.
De vez em quando páro nos pontos parágrafos. Ressalvo as dúvidas e escolho momentos para os parênteses e aspas.
Deixo o sonho tomar forma, embarco na viagem e não entrego os pontos, nos finais.
Serei como peixe dentro d'água, múcua no imbondeiro, welwitschia no deserto, andorinha na primavera, cretcheu do caboverdiano, índio da Amazónia, onda beijando a praia, negro em África, albatroz nos mares do sul, neve no Alasca.
Serei eu na avenida brasil... prosa e verso.
Nesse dia vou acreditar que já sei escrever.
Depois...depois, escreverei o que tu mereces ler...
Encontro uma caneta sábia, sensível, um caderno inspirador...
Numa mente disponível e num coração aprendiz, há-de nascer um desejo ambicioso. Um lugar para começar...
Junto as letras. Formo ditongos.
Preparo as palavras. Acentuo-as. Anasalo-as. Dou-lhes côr, música e movimento. Crio espaços, pinto linhas.
Desenho minúsculas. Exagero nas graves e inovo nas esdrúxulas.
Não quero só monossílabos por isso uso a gramática.
Sorrio nas interrogações e relaxo nas reticências. Experimento os pontos e as vírgulas e os dois num. Inovo noutros dois pontos e admiro-me nas exclamações.
De vez em quando páro nos pontos parágrafos. Ressalvo as dúvidas e escolho momentos para os parênteses e aspas.
Deixo o sonho tomar forma, embarco na viagem e não entrego os pontos, nos finais.
Serei como peixe dentro d'água, múcua no imbondeiro, welwitschia no deserto, andorinha na primavera, cretcheu do caboverdiano, índio da Amazónia, onda beijando a praia, negro em África, albatroz nos mares do sul, neve no Alasca.
Serei eu na avenida brasil... prosa e verso.
Nesse dia vou acreditar que já sei escrever.
Depois...depois, escreverei o que tu mereces ler...
sábado, 8 de outubro de 2011
cantada
Debrucei-me à janela da frente, do taxi. No Oriente.Transportava apenas a carteira e um saco pequeno. Ah! E a Pitanga. Estava a esquecer-me do motivo que hoje em dia me faz andar de taxi. Apenas e só quando chego ou parto de comboio com a Pitanga às costas. Tive de vir a Lisboa este fim de semana. Isto vai de mal a pior. Se algum dia eu pensei que me sentiria na obrigação de vir passar um fim de semana a Lisboa...Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Isto é sol de pouca dura como o verão que já devia pôr-se a milhas e ainda por cá anda. Daqui por 3 semanas já eu quero é ver chegar a 6ª feira para me pôr a mexer do Ribatejo. Agora não. Agora a minha casa é um lar agradável, luzes indirectas, aromas vários, o fogão trabalhando, frigorífico cheio, refeições na sala, o trio perfeito, a certeza de que sou feliz com o que tenho.
Mas dizia eu que me debrucei à janela do taxi primeiro da fila a perguntar se podia entrar. Um homem grisalho de expressão indefinida acenou afirmativamente. Boa noite, para o Olival Basto, por favor.
- Sim senhora. A senhora gosta de futebol? Se não gosta vai ter de ouvir na mesma, peço desculpa.
- Se o senhor o diz...quem sou eu? Apenas uma cliente.
- Eu baixo o rádio para não a incomodar. É que está a jogar a Selecção. Com a Islândia. Nas Antas.
Olhou-me através do espelho retrovisor alongando o bigode grisalho num sorriso que não quis analisar. Não estava para ali virada. Estava com dor de cabeça e enjoada, provocados talvez, pela viagem de comboio que contrariamente ao que acontece sempre que viajo de dia, tem este desfecho desagradável, à noite. Talvez por não ver a paisagem. Que sei eu?!
E ainda tinha de levar com um taxista metido a besta!!! Há sextas-feiras assim.
- Quer ir por Lisboa ou tem algum percurso especial?
- Se não se importa, por Lisboa. Segunda circular.
- Muito bem. A senhora manda.
- Engana-se. Ou quer enganar-me. Aqui não mando nada.
- As senhoras mandam sempre. A minha ex mulher é que mandava lá em casa.
E pronto. A partir desta frase a criatura resolveu cantar-me a canção do bandido. Não foi desagradável. Nem muito inconveniente. A viagem não foi mais longa nem mais curta. Passou-se. Quando dei por isso estava na calçada de carriche. O homem fez perguntas. Falou dele. Se calhar mentiras. Até me disse que era caranguejo e por isso muito caseiro. E fora chefe de vendas numa multinacional e nunca levantara a voz a nenhum subordinado. E voltou à ex. E no fim da viagem, e porque desejo sempre bom fim de semana às criaturas, disse-me: - Não se esqueça do gato.
- Claro que não.
- Só lhe digo isso porque era um motivo para voltar a vê-la. Sabe que tem uns olhos muito bonitos?
O que é que se faz a uma cantada dum taxista quando é ele que vai a conduzir e estamos confinados a um espaço que lhe pertence?
Levei na desportiva. Afinal, uma cantada à 6ª feira à noite quando se tem uma dor de cabeça dos diabos ou é um pesadelo ou pode aliviar a tensão da semana, da viagem e do motivo que me fez vir a Lisboa.
E faz-me perguntar: Então ainda não prescrevi?
- Quando vi a senhora aproximar-se do carro já eu estava a olhar para si e olhe que há muitas clientes que nem p'ra elas olho...( foi assim que terminou a minha viagem )
Ora toma lá uma passa!
na vez de...
Eles não inventam nada. Repetem o que aprenderam. O que ouvem em casa.E não filtram. E até gostam de escandalizar adultos.
Deve haver um tipo de adulto, dentro do preconceito que também têm, que os faz desbocarem-se. Por isso o palavreado que vai sempre no autocarro das 8,20 conduzido pelo sr. margarido.
Já por duas vezes, nas últimas semanas, fui de companhia no autocarro. Aquela companhia que dá para toda a gente perceber que é mesmo minha gente.
A primeira vez disseram tantos disparates que sendo a minha companhia tão jovem, tal como eu, achou um perfeito disparate tanto disparate. A segunda vez já quase não se deu por eles. Devem ter percebido que ali ninguém fará uma escandaleira tão grande quanto a deles.
Sexta-feira dei-me conta que a palavra do dia, tal como nos pratos do dia dos restaurantes, ( mais baratos ) foi, Fosca-se. A cada frase, a cada fala, a cada minuto. Fosca-se!!!
Eh pá, não. Isso é que não. Substituir a própria da asneira por coisa nenhuma é que não. Fosca-se? Que é isso, meus? Palavra dissimulada essa e tão ou mais ordinária que aquela que toda a gente sabe que está proibida nos bem educados. Quem foi que disse que fosca-se não é horrível? É tão feio ou mais, tão ordinário ou mais que a velha e proibida asneira. Eu não lhes vou dizer nada, claro, mas se dissesse diria que voltem à forma primitiva. Pode não ser educado mas pelo menos não é cínico. E ainda são muito novinhos para já o serem. Têm tempo quando crescerem e passarem a dourar as pílulas desta vida do catano...
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Como é que fica?
Sou uma criatura tão cheia de sorte, que até chateia. E doi.Entreguei um saco com umas calças de ganga ( as que mais gostava ) a outra criatura, para que a irmã ( costureira ) lhes pusesse um fecho.
E o que foi que aconteceu?
O normal seria que as calças voltassem às minhas mãos, ou melhor ao meu corpo, pernas e afins, arranjadas como novas.
Mas não. Nada disso. Olha eu a ter a vida facilitada, vê se pode?!...
Então querem mesmo saber o que foi que aconteceu? Rou-ba-ram o saco ( eu acredito que sim ). No supermercado. Uma distracção foi a morte do artista.
E agora como é que fica? Fico. Sem calças, claro. Vou fazer mais o quê então?
Mas também fico com uma pergunta. O país já só tem disto? Dos que roubam e dos que são roubados? Quer-me parecer que sim. E é pena, porque eu não sou das que roubam mas também não quero ser roubada. E esta parte conheço de ginjeira. Tenho passado a vida, a ver o que me pertence, na mão do alheio.
No meu caso, a frase de que a partir do momento em que se nasce é sempre a perder, aplica-se assim como dois mais dois serem quatro.
Aka! Xiça, penico, chapéu de coco.
três foi a conta que Deus fez
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
divagações VII
Assim que a noite cai, cai a máscara.
Apanha-a. E arruma-a. Precisas dela todos os dias. Cuida-a, então. Não vá cair o queixo, crescer o nariz e regressar o monstro que se esconde nas horas do diabo.
Ergue-se a barreira. Cai o propósito e leva consigo a vontade de permanecer neste lugar. Aqui não se passa nada. A noite adormece de pasmo. Dizes tu.
Muda isso. Abre a gaveta e procura uma memória mascarada de cacimbo. Cheirando a flor de acácia. E sabendo a gajaja madura.
Estende a manta se fôr preciso. Compra foguetes.
Não me digas que já não há uns trocados na algibeira para comprares alegria! Aiuê! O mundo está-se acabando...
Chega-te à varanda. Faz saltar a lembrança. Aquela, do sonho que dura três dias. Breve mas intenso. Dançado.
Gingado na anca; e no pé descalço, a passada...
O que vês? Um carnaval de côr e som.
Desfilando na avenida, pinóquios, cães vadios, peixeiras, prostitutas, proxenetas, fadas, princesas, quitandeiras, travestis, falidos, carcereiros, novos-ricos, palhaços, polícias e ladrões. Políticos.
Política....
Da varanda do lado, serpentinas às cores caem também, ao acaso. Não fossem leves e garridas e poderiam cair como bombas.
Compraste os foguetes? Avisei-te. Diz que ajuda à festa. Todos os autarcas os compram para os dias Dê. Eles lá sabem. Ainda hoje me perguntei quem são os idiotas que votam apenas por causa de meia dúzia de foguetes. Caem como tordos. Desmascarados. Deixam-se comprar por um tostão furado. Vendem-se ao desbarato nesse foguetório feroz.
Cai a noite e cai a máscara. Ajeita-a. Há-de fazer-te falta para os dias que aí vêm. Aqueles mais cacimbados. Mudando a hora, as quedas serão constantes. No gelo.
E as quedas de tensão, então? O frio desgovernado que adivinho neste Outono em Portugal, será o culpado desse estender ao comprido.
Cai a noite, eu a tombar de cansaço e de tédio. E tu em queda livre para a tristeza.
E todos com queda para a angústia. Mergulhando de cabeça na desgraça. Caindo de quatro na miséria. Nem um carnavalzinho num recanto da memória a lembrar que esta vida são três dias e um e meio já está passado, que foi uma pressa que lhe deu.
E que tristezas não pagam dívidas e podem e devem esconder-se por de trás de uma bela e dissimulada máscara.
Apanha-a. E arruma-a. Precisas dela todos os dias. Cuida-a, então. Não vá cair o queixo, crescer o nariz e regressar o monstro que se esconde nas horas do diabo.
Ergue-se a barreira. Cai o propósito e leva consigo a vontade de permanecer neste lugar. Aqui não se passa nada. A noite adormece de pasmo. Dizes tu.
Muda isso. Abre a gaveta e procura uma memória mascarada de cacimbo. Cheirando a flor de acácia. E sabendo a gajaja madura.
Estende a manta se fôr preciso. Compra foguetes.
Não me digas que já não há uns trocados na algibeira para comprares alegria! Aiuê! O mundo está-se acabando...
Chega-te à varanda. Faz saltar a lembrança. Aquela, do sonho que dura três dias. Breve mas intenso. Dançado.
Gingado na anca; e no pé descalço, a passada...
O que vês? Um carnaval de côr e som.
Desfilando na avenida, pinóquios, cães vadios, peixeiras, prostitutas, proxenetas, fadas, princesas, quitandeiras, travestis, falidos, carcereiros, novos-ricos, palhaços, polícias e ladrões. Políticos.
Política....
Da varanda do lado, serpentinas às cores caem também, ao acaso. Não fossem leves e garridas e poderiam cair como bombas.
Compraste os foguetes? Avisei-te. Diz que ajuda à festa. Todos os autarcas os compram para os dias Dê. Eles lá sabem. Ainda hoje me perguntei quem são os idiotas que votam apenas por causa de meia dúzia de foguetes. Caem como tordos. Desmascarados. Deixam-se comprar por um tostão furado. Vendem-se ao desbarato nesse foguetório feroz.
Cai a noite e cai a máscara. Ajeita-a. Há-de fazer-te falta para os dias que aí vêm. Aqueles mais cacimbados. Mudando a hora, as quedas serão constantes. No gelo.
E as quedas de tensão, então? O frio desgovernado que adivinho neste Outono em Portugal, será o culpado desse estender ao comprido.
Cai a noite, eu a tombar de cansaço e de tédio. E tu em queda livre para a tristeza.
E todos com queda para a angústia. Mergulhando de cabeça na desgraça. Caindo de quatro na miséria. Nem um carnavalzinho num recanto da memória a lembrar que esta vida são três dias e um e meio já está passado, que foi uma pressa que lhe deu.
E que tristezas não pagam dívidas e podem e devem esconder-se por de trás de uma bela e dissimulada máscara.
enquanto o pau vai e vem...

Há semanas felizes!
Que coisa boa, ainda agora ter ( re) começado a semana e amanhã já ser sexta-feira.
Semana sim, semana não, isso é que era.
O sonho de qualquer funcionário público ( o meu era ) atrofiado na subtracção do seu salário, enquanto ouve de cabeça perdida, criaturas como A. J. Jardim e seus muchachos.
E o povo, Jesus, o povo! Que ninguém lhes disse que cegaram.
Só cá por causa de coisas, não vou tão depressa à Madeira. Nem com pontes nem sem dinheiro.
Mas semanas com feriado à 4ª feira são semanas abençoadas cá no continente e eu gosto.
Bato na madeira para que não nos tirem os feriaditos que aproveito sempre. Nem que seja para estar no dolce fare niente.
Que coisa boa, ainda agora ter ( re) começado a semana e amanhã já ser sexta-feira.
Semana sim, semana não, isso é que era.
O sonho de qualquer funcionário público ( o meu era ) atrofiado na subtracção do seu salário, enquanto ouve de cabeça perdida, criaturas como A. J. Jardim e seus muchachos.
E o povo, Jesus, o povo! Que ninguém lhes disse que cegaram.
Só cá por causa de coisas, não vou tão depressa à Madeira. Nem com pontes nem sem dinheiro.
Mas semanas com feriado à 4ª feira são semanas abençoadas cá no continente e eu gosto.
Bato na madeira para que não nos tirem os feriaditos que aproveito sempre. Nem que seja para estar no dolce fare niente.
E enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
No social

Desci a ladeira a caminho da feira. Ouvi: Ó Claaara!
Olhei. A princípio não conheci. De calções, t-shirt branca e ténis. Acabara de poisar a bicicleta e sentara-se no muro junto ao parque de estacionamento.
- Atão? Que tal va'isse?
Conheci a voz e o sotaque alentejano. De Niza. E a figura. Durante anos e anos passei mais horas com esta personagem do que com a minha família.
Já não o via há alguns anos.
- Tá bom? Então está a descansar?
- Já não sou capaz de subir a ladeira. Vai à mão até casa.
O que ia à mão era a bicicleta, a grande e velha amiga deste homem que conheço há 36 anos sempre pedalando.
Durante anos a sua figura foi estranha. De fato completo e pedalando pela cidade. Ou indo para o trabalho. Os tempos mudaram e ele mudou. De roupa e de resistência. São os sinais do tempo.
Cheguei à feira. Já não via tanta gente conhecida há muito tempo. Daquelas pessoas que a gente gosta de saber que ainda por cá andam. Daquelas que nos esquecemos que existem. Daquelas que preferimos nem saber que existem. E começaram os cumprimentos...Olá tá boa? Os meninos estão bons? O marido? Há muito tempo que não o vejo...eu sorrio, encolho ombros, respondo aqui e acoli e sigo. A pessoa que vendia os bilhetes ( 1 euro ) conheço-a de sempre. O porteiro que me cortou o dito bilhete foi meu vizinho da frente mas já não é. À mulher, vi-a lá dentro com a filha que está uma senhorinha. Os miúdos crescem tanto!
O Raul lá estava, como sempre. Há pessoas que a gente sabe que encontrará sempre no mesmo lugar, o mesmo sorriso rasgado, dizendo sempre as mesmas palavras, um cansaço, mas que se não estivesse sentir-lhes-ia a falta. Não parei na sua banca de frutos secos premiados ao longo dos anos de feira. Para não o deixar sem jeito. Ele fica. O Raul é a criatura, que em miúdo, ouvia no rádio a pilhas, o, " quando o telefone toca " mesmo em frente à minha casa no centro da então vila e que adolescente foi trabalhar para a mercearia de onde gastei anos a fio.
A Augusta também estava num espaço, vendendo bolas de carne. Falei-lhe para lhe perguntar pelas broas que sempre vendeu. - É no outro pavilhão, Clara. Está lá a minha filha. Então está tudo bem? Os meninos? e o Z...? - Estão todos bem, respondi. E bazei dali p'ra fora. Que missão a minha! Que sina! Querem endoidecer-me?
De companhia, vi os Camponeses de Riachos dançarem, a Teresa Tapadas cantar-lhes e a Telma, que já não via há muito tempo dançando como sempre. Lindamente. O mestre no fim dedicou a última dança do grupo folclórico aos bailarinos que com eles estavam a trabalhar e anunciou que o espetáculo seria dia 22 em Torres Novas. Gostei. Muito. Conheço o mestre há mais de 300 anos. De muitos espetáculos e feiras. Conheço os dançarinos. E as músicas. O fandango. Alguns partiram, outros cresceram. E conheço os ditos bailarinos a que ele se referia. Bem. Muito bem.
Tenho andado muito afastada do social e da cultura da cidade. Acho que não me tem feito falta, mas agora que penso nisso, gostei de ir à feira. Com quem fui e estive. Um orgulho. Um privilégio. No fim, o grupo com quem tive o prazer de petiscar e conversar, sentou-se para o efeito numa das tasquinhas do recinto. E eu senti-me a fazer as honras da casa. Que ironia!
Rematei com uma broinha ( merendeira ) do canto da filha da Augusta. E depois vim p'ra casa.
A subir a lareira onde horas atrás encontrei o meu ex-colega de trabalho, estava o ex-vizinho de todas as manhãs.
- Olá vizinha, está tudo bem? Boa noite e até amanhã. Ignorando a minha companhia.
- Olá, até amanhã.
Um feriado com vários ex. Será que toda a gente tem ex às mãos cheias, como eu? Deixem p'ra lá.
Chego a casa. À porta, a Pitanga, que me espera pacientemente. Dentro, um calor insuportável. Estou em casa.
O dia hoje foi como ao domingo. Mas muito diferente. Estou de companhia. A melhor de todas. Quer dizer, há outra que é tal e qual como esta. A melhor.
Tem sido tão bom estar de companhia...
Olhei. A princípio não conheci. De calções, t-shirt branca e ténis. Acabara de poisar a bicicleta e sentara-se no muro junto ao parque de estacionamento.
- Atão? Que tal va'isse?
Conheci a voz e o sotaque alentejano. De Niza. E a figura. Durante anos e anos passei mais horas com esta personagem do que com a minha família.
Já não o via há alguns anos.
- Tá bom? Então está a descansar?
- Já não sou capaz de subir a ladeira. Vai à mão até casa.
O que ia à mão era a bicicleta, a grande e velha amiga deste homem que conheço há 36 anos sempre pedalando.
Durante anos a sua figura foi estranha. De fato completo e pedalando pela cidade. Ou indo para o trabalho. Os tempos mudaram e ele mudou. De roupa e de resistência. São os sinais do tempo.
Cheguei à feira. Já não via tanta gente conhecida há muito tempo. Daquelas pessoas que a gente gosta de saber que ainda por cá andam. Daquelas que nos esquecemos que existem. Daquelas que preferimos nem saber que existem. E começaram os cumprimentos...Olá tá boa? Os meninos estão bons? O marido? Há muito tempo que não o vejo...eu sorrio, encolho ombros, respondo aqui e acoli e sigo. A pessoa que vendia os bilhetes ( 1 euro ) conheço-a de sempre. O porteiro que me cortou o dito bilhete foi meu vizinho da frente mas já não é. À mulher, vi-a lá dentro com a filha que está uma senhorinha. Os miúdos crescem tanto!
O Raul lá estava, como sempre. Há pessoas que a gente sabe que encontrará sempre no mesmo lugar, o mesmo sorriso rasgado, dizendo sempre as mesmas palavras, um cansaço, mas que se não estivesse sentir-lhes-ia a falta. Não parei na sua banca de frutos secos premiados ao longo dos anos de feira. Para não o deixar sem jeito. Ele fica. O Raul é a criatura, que em miúdo, ouvia no rádio a pilhas, o, " quando o telefone toca " mesmo em frente à minha casa no centro da então vila e que adolescente foi trabalhar para a mercearia de onde gastei anos a fio.
A Augusta também estava num espaço, vendendo bolas de carne. Falei-lhe para lhe perguntar pelas broas que sempre vendeu. - É no outro pavilhão, Clara. Está lá a minha filha. Então está tudo bem? Os meninos? e o Z...? - Estão todos bem, respondi. E bazei dali p'ra fora. Que missão a minha! Que sina! Querem endoidecer-me?
De companhia, vi os Camponeses de Riachos dançarem, a Teresa Tapadas cantar-lhes e a Telma, que já não via há muito tempo dançando como sempre. Lindamente. O mestre no fim dedicou a última dança do grupo folclórico aos bailarinos que com eles estavam a trabalhar e anunciou que o espetáculo seria dia 22 em Torres Novas. Gostei. Muito. Conheço o mestre há mais de 300 anos. De muitos espetáculos e feiras. Conheço os dançarinos. E as músicas. O fandango. Alguns partiram, outros cresceram. E conheço os ditos bailarinos a que ele se referia. Bem. Muito bem.
Tenho andado muito afastada do social e da cultura da cidade. Acho que não me tem feito falta, mas agora que penso nisso, gostei de ir à feira. Com quem fui e estive. Um orgulho. Um privilégio. No fim, o grupo com quem tive o prazer de petiscar e conversar, sentou-se para o efeito numa das tasquinhas do recinto. E eu senti-me a fazer as honras da casa. Que ironia!
Rematei com uma broinha ( merendeira ) do canto da filha da Augusta. E depois vim p'ra casa.
A subir a lareira onde horas atrás encontrei o meu ex-colega de trabalho, estava o ex-vizinho de todas as manhãs.
- Olá vizinha, está tudo bem? Boa noite e até amanhã. Ignorando a minha companhia.
- Olá, até amanhã.
Um feriado com vários ex. Será que toda a gente tem ex às mãos cheias, como eu? Deixem p'ra lá.
Chego a casa. À porta, a Pitanga, que me espera pacientemente. Dentro, um calor insuportável. Estou em casa.
O dia hoje foi como ao domingo. Mas muito diferente. Estou de companhia. A melhor de todas. Quer dizer, há outra que é tal e qual como esta. A melhor.
Tem sido tão bom estar de companhia...
vais ficar bem
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
divagações VI

Faço o saco. Pouca coisa. Vou p'ra perto. Pouca-terra, pouca-terra...
A escova dos dentes e pouco mais. Esqueci os chinelos. Acontece. Sempre. Não dá muito jeito dormir fora e andar descalça depois. O chão alheio é sempre mais frio que o nosso.
E andar de saltos a matraquear a tijoleira, é uma violência.
Pedindo, ganho uns chinelos. Mas não dá muito jeito pedir. P'ra não maçar.
Não sou conservadora e, ou, esquisita. Gosto de dormir fora. Ouvir o respirar das casas. A linguagem das paredes. Os quadros, as fotografias que se riem p'ra nós. E nós a rirmos p'ra elas. Aqueles rostos que conhecemos e que nem sempre estão felizes. E aqueles que só não partiram dos nossos corações. E os outros. Aqueles que nunca chegaram a entrar. Que não conhecemos.
E há os cheiros. Cada casa, o seu. Esta cheira bem. Insensos. Velas perfumadas. A limpo. A tranquilidade e harmonia. Equilíbrio. Lar. Como a casa da mãe. Que não é. Mas podia ser...
Já fiz o saco d'outras vezes. Por motivos vários. Nunca o que me trouxe agora. Talvez por isso me pareça a primeira.
Imaginem que nunca acordara com o comboio. Pouca-terra, pouca- terra...kuricuteeeela. Ocorre-me o Duo Ouro Negro. Ocorre-me sempre que vejo e oiço comboios. A primeira vez que neles andei, foi na chegada a Portugal, vinda de Luanda. Vinte anitos ingénuos e muito observadores. Esta estação que dista de mim hoje, talvez uns 500 metros, marcou-me p'ra sempre, nesse dia de estreia. Em Portugal e nos comboios. Na vida adulta, sim porque depois disso nunca mais fui a mesma. Se até ali nem sequer sabia o que era um comboio, depois, vi-os passar que se fez uma pressa, partir e chegar a tudo o que é estações e apeadeiros. Tantos que é seguramente o meio de transporte que mais gosto. Naquela de que, se não os vences, junta-te a eles.
Mas sendo esta uma estação sem importância, que serve generosamente um trio do Ribatejo bastante conhecido, Riachos, Golegã e Torres Novas, porque foi, A estação? Só porque o destino me estava a preparar para dali a mês e meio me mudar d' armas e bagagens para a região sem que soubesse ler nem escrever na cartilha da lezíria, cavalos, touros, toureiros e afins. É que indo eu p'ra Trás-os-Montes e mal imaginando que esta seria a estação onde apanharia ou perderia o trem da minha vida, a divina providência me pôs à fala com uma criatura que por outro acaso do destino, não só vivia aqui como conhecia uns tios ( meus ) que viviam na vila e que foram a porta de entrada para a minha saída.
Porque raio me lembrei da história duma refugiada, vulgo, retornada, em terras do Ribatejo, rolando nos carris do presente, a insistir na viagem do passado, numa, pouca-terra, monótona e a vapor? Porquê? Porque voltei aos comboios, à estação. Às viagens. Ao som do kuricuteeeela. Que por sua vez me faz lembrar alguém que foi importante nesta vida sem grande importância e que deu uns toques na bola numa equipa do sul de Angola a quem chamavam kuricutelas. E foram até campeões. Há pessoas que depois perdem o posto. Descem de divisão. Mas antes, já nos marcaram a ferro e fogo e uma simples palavra, zás, aí estão: hello! já acordaste desse dormir fora de portas? Pouca-terra, pouca-terra, kuricuteeeeeela!
Acordo depois de uma noite rápida. Eram três da manhã e eu no andar de cima finalmente. Foi um conversê danado ao serão. À meia-noite bocejava vencida. Eu que viera p'ra fazer companhia! P'ra dar apoio. Depois, o sono curioso como eu, percorreu as paredes reconhecendo rostos, modas, momentos, penteados e sorrisos e deixou-me, satisfeito. Satisfeita.
Fiquei à conversa com Luanda. Online. Até cair nos braços de Morfeu.
Acordei ao som do kuricuteeeeeeela! Foi a primeira vez.
Diz o lugar comum que p'ra tudo há uma primeira. Será?
Não vim ver os comboios e nunca tinha acordado ao som dos carris. Não tenho dúvidas nenhumas. Ainda hei-de fazer um interRail.
A escova dos dentes e pouco mais. Esqueci os chinelos. Acontece. Sempre. Não dá muito jeito dormir fora e andar descalça depois. O chão alheio é sempre mais frio que o nosso.
E andar de saltos a matraquear a tijoleira, é uma violência.
Pedindo, ganho uns chinelos. Mas não dá muito jeito pedir. P'ra não maçar.
Não sou conservadora e, ou, esquisita. Gosto de dormir fora. Ouvir o respirar das casas. A linguagem das paredes. Os quadros, as fotografias que se riem p'ra nós. E nós a rirmos p'ra elas. Aqueles rostos que conhecemos e que nem sempre estão felizes. E aqueles que só não partiram dos nossos corações. E os outros. Aqueles que nunca chegaram a entrar. Que não conhecemos.
E há os cheiros. Cada casa, o seu. Esta cheira bem. Insensos. Velas perfumadas. A limpo. A tranquilidade e harmonia. Equilíbrio. Lar. Como a casa da mãe. Que não é. Mas podia ser...
Já fiz o saco d'outras vezes. Por motivos vários. Nunca o que me trouxe agora. Talvez por isso me pareça a primeira.
Imaginem que nunca acordara com o comboio. Pouca-terra, pouca- terra...kuricuteeeela. Ocorre-me o Duo Ouro Negro. Ocorre-me sempre que vejo e oiço comboios. A primeira vez que neles andei, foi na chegada a Portugal, vinda de Luanda. Vinte anitos ingénuos e muito observadores. Esta estação que dista de mim hoje, talvez uns 500 metros, marcou-me p'ra sempre, nesse dia de estreia. Em Portugal e nos comboios. Na vida adulta, sim porque depois disso nunca mais fui a mesma. Se até ali nem sequer sabia o que era um comboio, depois, vi-os passar que se fez uma pressa, partir e chegar a tudo o que é estações e apeadeiros. Tantos que é seguramente o meio de transporte que mais gosto. Naquela de que, se não os vences, junta-te a eles.
Mas sendo esta uma estação sem importância, que serve generosamente um trio do Ribatejo bastante conhecido, Riachos, Golegã e Torres Novas, porque foi, A estação? Só porque o destino me estava a preparar para dali a mês e meio me mudar d' armas e bagagens para a região sem que soubesse ler nem escrever na cartilha da lezíria, cavalos, touros, toureiros e afins. É que indo eu p'ra Trás-os-Montes e mal imaginando que esta seria a estação onde apanharia ou perderia o trem da minha vida, a divina providência me pôs à fala com uma criatura que por outro acaso do destino, não só vivia aqui como conhecia uns tios ( meus ) que viviam na vila e que foram a porta de entrada para a minha saída.
Porque raio me lembrei da história duma refugiada, vulgo, retornada, em terras do Ribatejo, rolando nos carris do presente, a insistir na viagem do passado, numa, pouca-terra, monótona e a vapor? Porquê? Porque voltei aos comboios, à estação. Às viagens. Ao som do kuricuteeeela. Que por sua vez me faz lembrar alguém que foi importante nesta vida sem grande importância e que deu uns toques na bola numa equipa do sul de Angola a quem chamavam kuricutelas. E foram até campeões. Há pessoas que depois perdem o posto. Descem de divisão. Mas antes, já nos marcaram a ferro e fogo e uma simples palavra, zás, aí estão: hello! já acordaste desse dormir fora de portas? Pouca-terra, pouca-terra, kuricuteeeeeela!
Acordo depois de uma noite rápida. Eram três da manhã e eu no andar de cima finalmente. Foi um conversê danado ao serão. À meia-noite bocejava vencida. Eu que viera p'ra fazer companhia! P'ra dar apoio. Depois, o sono curioso como eu, percorreu as paredes reconhecendo rostos, modas, momentos, penteados e sorrisos e deixou-me, satisfeito. Satisfeita.
Fiquei à conversa com Luanda. Online. Até cair nos braços de Morfeu.
Acordei ao som do kuricuteeeeeeela! Foi a primeira vez.
Diz o lugar comum que p'ra tudo há uma primeira. Será?
Não vim ver os comboios e nunca tinha acordado ao som dos carris. Não tenho dúvidas nenhumas. Ainda hei-de fazer um interRail.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
venha daí

Começa hoje a XXVI Feira Nacional dos Frutos Secos de Torres Novas e prolongar-se-à até ao próximo dia 9 de Outubro, em Torres Novas, Capital dos Frutos Secos.
Este ano será a XX Feira Internacional e a IX Feira do Figo Preto de Torres Novas.
Venha visitar a Feira. Venha à cidade do Almonda. A feira regressou ao centro da cidade. É agora muito mais fácil o acesso. E a feira tem os melhores frutos secos e passados da região.
Este ano será a XX Feira Internacional e a IX Feira do Figo Preto de Torres Novas.
Venha visitar a Feira. Venha à cidade do Almonda. A feira regressou ao centro da cidade. É agora muito mais fácil o acesso. E a feira tem os melhores frutos secos e passados da região.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
um homem chamado Ulisses

Conheço um homem que se chama Ulisses.
Vem da terra onde, si ca tem tchuba morrê di sede, si tchuba bem, morrê fogado.
Não fala. Nem ouve.
Escreve.
Quando me vê diz-me adeus com a mão. E sorri. Os olhos iluminam-se.
Tem uma luz que transmite uma boa onda.
De quando em quando aparece-me à frente. Exibe um papel com o pedido.
Eu cumpro.
Comunica na perfeição.
Depois desaparece por três meses. Esqueço-me dele até que volta de novo.
Gosto de o ver. Faz-me acreditar que não é preciso muito para se ser um mito.
E que por vezes vale mais um olhar iluminado que mil palavras.
E que o silêncio é de ouro.
Vem da terra onde, si ca tem tchuba morrê di sede, si tchuba bem, morrê fogado.
Não fala. Nem ouve.
Escreve.
Quando me vê diz-me adeus com a mão. E sorri. Os olhos iluminam-se.
Tem uma luz que transmite uma boa onda.
De quando em quando aparece-me à frente. Exibe um papel com o pedido.
Eu cumpro.
Comunica na perfeição.
Depois desaparece por três meses. Esqueço-me dele até que volta de novo.
Gosto de o ver. Faz-me acreditar que não é preciso muito para se ser um mito.
E que por vezes vale mais um olhar iluminado que mil palavras.
E que o silêncio é de ouro.
humor...negro.
divagações V
Por mais voltas que a vida dê, por mais voltas que eu dê à vida, não há volta a dar.A minha natureza é feliz e dá-me verdadeira felicidade a alegria feliz e verdadeira da Natureza.
E o resto...são cantigas. Que por acaso também gosto.
E palavras leva-as o vento que é um ar que se lhe dá.
E vozes de burro não chegam aos céus.
era bom mas acabou-se...
domingo, 2 de outubro de 2011
sem fretes!
Vocês não fazem fretes. Parte da responsabilidade é minha.Ensinei-vos que eles, os fretes nunca são bem pagos. Podem causar equívocos. E não nos são favoráveis. Nem a quem os recebe.
Por isso sei que a minha lasanha de vegetais estava mesmo óptima.
Melhor do que as dos restaurantes? perguntei.
- Muito melhor, responderam em uníssono.
Não babei. Mas fiquei contente de terem gostado tanto.
O meu sonho de ser cozinheira a querer ter pernas para andar e asas para voar...
- Quem me dera reformar-me e arranjar um sócio com dinheiro para abrir um restaurante num bairro típico de Lisboa.
- Olha, o R...... andava com ideias. E tem bué dinheiro p'ra isso.
- Gostava tanto!
E gostava mesmo. Um qualquer boteco como diria o avô Santos, com poucas mesas, e com actividades culturais de quando em quando. Um lugar onde as pessoas gostassem de comer bem e ficassem até quererem. Incluindo vocês.
As ideias eu até tenho, clientes acho que também, nome para o dito boteco já tem barbas, o dinheiro é que não. E como sem ovos não se fazem omeletas fico-me com a consolação de ter o prazer de cozinhar para vocês e ouvir elogios sinceros. Porque não fazem fretes e a responsabilidade disso é também um pouco minha.
Obrigada meus anjos.
sábado, 1 de outubro de 2011
música

Do silêncio chega o som
Cresce correndo veloz
Melodia, acordes e voz
O dom...
Ressuscitam os tambores
No compasso
Sem pauta
Nem claves de sol
Ritmo pulsa no sangue
Freneticamente
Coração sente
A alma dança
No toque batucado
Na sanzala...
Dedos dedilham
O homem cria
Hinos de alegria
A música nasce
Deus sorri.
m.c.s. ( Dia Mundial da música )
Cresce correndo veloz
Melodia, acordes e voz
O dom...
Ressuscitam os tambores
No compasso
Sem pauta
Nem claves de sol
Ritmo pulsa no sangue
Freneticamente
Coração sente
A alma dança
No toque batucado
Na sanzala...
Dedos dedilham
O homem cria
Hinos de alegria
A música nasce
Deus sorri.
m.c.s. ( Dia Mundial da música )
divagações IV
A Rita disse: Se quiser ovos caseiros aos sábados é só encomendar e amanhã vem buscá-los. Entusiasmei-me. Logo me apeteceu um ovo estrelado em azeite. Salivei à lembrança dos ovos da d. Celeste, ao pequeno almoço. Naquele tempo, o matabicho era uma coisa do além. Ovos estrelados, fiambre, queijo, doce de tomate, doce de mamão, goiabada, café com leite, omeleta de chouriço, mamão, pão, bolo mármore. Era no tempo em que havia mais olhos e... mais barriga.De vez em quando, muito de vez em quando, estrelo um ovo, dos caseiros. Em azeite. Porque será que não me sabem aos ovos do galinheiro da d. Celeste? Comidos às 7 da manhã, sol alto e roupa branca no coradouro. A Lucrécia preparando o feijão d'óleo de palma e a esteira à minha espera. P'ra lhe fazer companhia, a comer. O amolador de tesouras anunciando-se e a quitandeira parando à entrada do portão. Na quinda, maracujás e fruta pinhas.
Salivo um pouco mais nas memórias.
A Rita disse: Se quiser ovos caseiros...
Em memória das memórias desse tempo que não viverei nunca mais, pedi uma dúzia d'ovos, na mercearia de bairro, à Ritinha, que vai estudar de novo, para um emprego melhor. Assim como o da irmã, assistente de bordo..." veja lá qu'ela tá há quatro meses fora, entre Paris e Madagáscar. Vive nos hotéis. Vida boa! Quem me dera. É raro cá vir e quando vem ver a família nem sai de casa. Isto não lhe diz nada. Como aos seus meninos. Raramente vêm não é? Que é que eles cá vêm fazer se você lá vai?! A Ritinha... empregada da mercearia de bairro que vende produtos caseiros; ovos, tremoços, broas dos Santos, geleia de marmelo, diospiros, bolos de Cabeça.
Podia ser a loja do Sô Santos. Naquele tempo da goiabada vendida à fatia. Da massambala nos cartuchos de papel pardo. Do feijão macunde. Do leite Moça e dos frascos de Energetic. Dos cigarros negritas, sem filtro e adocicados. No tempo do carvão ao quilo, do azeite doce avulso e do vinho abafado ao copo. Do peixe espada frito no óleo de palma e da jinguba e castanha de cajú assadas, p'ra comer com pão. Da carne de porco salgada e do toucinho cortado a pedido.
Sábado no Ribatejo.
Outono que nem lembra cacimbo mas chamou as lembranças de além mar, de bairro, de pai e de candengue que nem sequer desconfiava que tinha a felicidade nas mãos e as ocupava a procurar lenha para se queimar entre uma brincadeira e outra, nas casas dos vizinhos de bairro, ou nos quintais onde havia maçãs da índia .
A Rita assentou no bloco: dona Clara. Clara quê? perguntou. Santos, disse-lhe. E prosseguiu...d. clara santos, uma dúzia de ovos.
Gostei do apontamento. A lembrar os livros onde o pai assentava fiado o que compravam e muitas vezes não pagavam.
No centro deste país à beira mar plantado as grandes superfícies são a mais. E mercearias de bairro são de menos. E Ritas, já não se apanham. Esta também se escapará quando fôr estudar como a irmã o fez, e imitando-a, se puser ao fresco, voando mais longe e mais além.
Voltar às origens está na ordem do dia. Às lembranças não é difícil voltar. E afinal, uma dúzia de ovos caseiros custa 1,50€.
Atravessamos momentos difícies. Aplaudo a convivência de bairro. Nasci e cresci na Vila Alice e tenho desse tempo as memórias mais ricas e belas.
Sou de opinião de que não devemos ligar às bocas de trazer por casa e em vez disso, apoiar os produtos nacionais, adquirindo-os. Todos ganhamos com isso. Bora lá então. É que também não temos outra saída...
Se fechar os olhos por um instante, parece que vejo o sô Santos a sorrir, concordando comigo.
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