quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Perturbação

Ainda nao estou com as cinco oitavas no lugar.
Esta noite, cheguei a casa e só pensava em mergulhar no vale dos lençois.
Liguei o computador antes. Fiz mal. Devia ter ido logo para a cama, descansar o corpo e o espírito.
Adormeci com o computador ao colo.
Quando acordei, e sobressaltada, nao sabia onde estava. Julgava que estava em Luanda, mas olhei para a televisão e reconheci um canal português.
Por segundos, fiquei aturdida e assustada.
Lembrei-me dos tempos em que andava no liceu; vinha das aulas, almoçava e adormecia a seguir, vestida ainda com a bata branca do Liceu Femimino. Quando acordava, gritava assustada que estava a faltar às aulas.
Perdia o Norte.
A minha mãe acalmava-me.
Já nao perco tantas vezes o Norte.
A idade e as agruras fazem-nos crescer.
Aprender...a viver as coisas como elas são.
Ontem, estava muito vulnerável. Triste, cansada e só.
Perdi o Norte...
Estava só.A minha mãe não estava.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Regresso

Já cheguei a Portugal.
Já estou na minha casa.
E tenho muito frio.Deixei temperaturas de 32 graus e encontrei temperaturas negativas.
E tenho muito sono, porque estou há dois dias sem dormir.
E estou muito triste...
E estou cheia de saudades do que deixei para trás.
Foi Luanda que ficou e fui eu que cheguei aqui.
Era inevitável este desfecho e eu, tinha disso conhecimento, mas custa demais, deixar o sítio onde nós sabemos que somos mais felizes.
O lugar que os nossos olhos contemplam.
Os amigos como irmãos...que não falham, que estão sempre presentes.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Partida para Portugal

Este eh o dia da minha viagem.
Ainda nao fiz a mala. Tenho tempo. Daqui a pouco, porque vai amanhecer e eu aqui sem dormir, portanto, daqui a pouco, vou fazer umas compritas que guardei para o fim e vou fotografar algo que me falta fotografar para ter todas as fotos que desejava.
Vou ah praia e vou comer choupas ( cacussos grandes ) com feijao de oleo de palma, batata doce e mandioca cozidas e vou aconchegar o estomago, com coca-cola, da nacional.
Se ainda tiver estomago para uma mousse de maracujah, comerei a sobremesa tambem.
E depois...entrarei na fase da meditacao. Nao sei em queh, mas que medito, medito...
Esperam-me momentos de grande introspeccao. Sete horas interminaveis.A Susete estarah lah para o que der e vier. Para passar comigo algum tempo, sobretudo porque o voo sendo todo de noite, sera a dormir. Eu nao durmo em avioes. Ou durmo pouco.
Logo mais, vou-me embora.E como diz a minha filha, logo logo, estarei de volta...

Ilha do Cabo

Hoje passei o dia na Ilha do Cabo.
Fez-me lembrar outros tempos, outras gentes.
O tempo em que ia para a praia ah boleia, a partir da marginal.Ou aos domingos com a familia, ou nas ferias de Marso, com os meus amigos.O tempo em que recebi aulas de natacao, que nunca aprendi grande coisa...ali na praia do Dongo.
Hoje passei o dia na praia. Num lugar, o Bordao, onde se come razoavelmente, e onde existem algumas mordomias.Onde os brancos sao em maioria, mas numa percentagem assustadora. Como as praias do tempo colonial. Mas tambem ha muitas mulheres que o ano passado nao vira.
A diferenca eh nas miudas com as criancihnas ao colo. As criancas mestissas, graciosas e bonitinhas.
Conheci algumas pessoas que vivem cah e ali estavam a curtir o dia de praia.
A agua do mar estava com uma temperartura igual ah do Algarve, quando la vou, que nunca apanho " sopa ", soh em Monte Gordo.Mas esta nao estava como em Monte Gordo.
Os meus amigos dizem que nao eh normal mas que tem acontecido nos ultimos 2 anos, a agua estar mais fria que antigamente.
O corropio de gente a vender artigos variadissimos eh uma coisa de outro mundo. Na praia vendem tudo.Ate azeitonas verdes. Fruta, doces...comi banana assada com jinguba e doces de coco.Comi choco frito e quitetas.E bebi cerveja e panacheh.
Vi o por do sol, o ultimo que passo aqui este ano. Um por do sol maravilhoso que ha muito tempo nao via igual.E ainda fui molhar os pes ja era noite.
Gosto de estar na praia, na areia ate ao fim, como costumo dizer, ate a praia fechar.
Hoje, porque eh um dia especial, o ultimo, fiquei ate encerrar. E foi muito bom.
Foi o domingo perfeito. Perdi o meu telemovel de Portugal. Apanhei um susto medonho.
Voltei la, e encontrei-o. Passados cerca de 15 minutos.
Sou uma pessoa de sorte, mesmo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Novo Estadio

Em Camama, na regiao do Zango, a uns quilometros de Luanda, ergueram o novo estadio de futebol, o Estadio 11 de Novembro.
Este estadio vai servir o CAN 2010. CAN significa, Campeonato Africano das Nacoes e vai realizar-se em Angola a partir de 10 de Janeiro proximo.
Luanda prepara-se para receber este campeonato e o que ele representa.
Este estadio eh muito moderno, visivelmente bonito e servirah concerteza a populacao e o pais.

Muxima - O Mito

Muxima quer dizer Coracao.
Em Angola, Muxima eh uma palavra magica, sagrada.
A Nossa Senhora da Muxima eh soberana.
Fazem-se horas e horas de viagem atraves do rio Kuanza para pedir ah Muxima, ou para agradecer as grassas que ela concede.
Hoje ja se vai por terra, uma via rapida feita por portugueses e no seu final, ainda 20 quilometros de picada.
Ir a Sant'Ana ou ir ah Nossa Senhora da Muxima, sao viagens de felicidade, misticas.
Precisei ter 54 anos para finalmente ir ah Muxima.
A Igreja eh bonita, pintada, limpa e cuidada.
O tempo parou ali. Voltamos atras e eh tudo igual.
Os lugares de culto dao-nos essa paz propria de quem pode recuar no tempo e embrenhar-se num passado que nos torna seres puros, inocentes.
Encontrei essa inocencia ontem em mi e nas pessoas que ali se encontravam.
Humildes, expostas, receptivas.
Ontem fui ah Muxima, pela mao dos meus amigos. Fizemos juntos esta viagem. Mais uma.
A Nossa Senhora recebeu-nos ao fim de 54 anos da nossa existencia.
Cada vez mais sou filha de Angola e cada vez mais sinto este paiis a minha Patria.
" Ai ueh Muximeeeeh, me protege mamaueeeeeh "
Tambem eu, fasso esse pedido e acredito que vou ser atendida.
Ja bebi agua do Bengo, ja fui a Sant'Ana e ah Muxima...eu sou filha de Angola, uma mwangoleeeh...

Nao vou sozinha

Este Deus que eu amo e que me pega ao colo...

O ano passado, uma amiga daquelas que ja nao existem, a minha amiga Milu, acabada de chegar de Lisboa, num voo de 7 horas, encontrou-se no aeroporto comigo e com as pessoas que estavam comigo ( noos estavamos a espera que ela chegasse de Lisboa ) e literalmente " agarrou " em mim e levou-me pelo interior do aeroporto, tornando menos dolorosa a minha partida.
Fardada neste uniforme alegre e bonito que elas, as assistentes de bordo, teem, foi passando comigo todas as etapas fisicas da minha saida.Foi passando comigo os momentos de pressao, de angustia e de dor, de partir de novo de Luanda.
Preencheu o vazio que eu sentia naquele momento. Impediu a Solidao do vazio.
Esperou comigo na sala de embarque e foi comigo no autocarro. Entrou no aviao pela escada da tripulacao, mas reuniu-se a mim no interior do aviao. Procurou-me o lugar. Levou-me a uma colega para que esta me conhecesse e deu-me um copo de agua para que eu tomasse um " amiguito " que me tornasse mais facil esse caminho de regresso ah minha rotina em Portugal.
Sentou-me no meu lugar e depois deste carinho todo, desta dedicacao e proteccao, e porque era preciso sair do aviao, finalmente me deu um abraco e deixou-me no meu momento de solidao necessaria.

Desta vez, a Susete vai levar-me para Lisboa.
Soube da escala e vai " voar " amanha, Luanda/Lisboa.
Nao serah um voo normal, para mim. A Susete vai estar lah. O tempo todo, as sete horas.
Eu sei que ela estarah comigo nesta viagem triste de regresso e ja me sinto menos soh.
A Susete eh a minha amiga de Liceu. Fomos colegas desde sempre e amigas do peito.
Encontramo-nos em Lisboa e nao soh. Neste tempo de afastamento de Luanda, ja festejei o aniversario dela, dia de Sant'Ana,nas Caldas da Rainha, improvisando um bolo de aniversario ( um gelado Vianneta ) e soprando as velas, mesmo assim.Ja passeamos por S.Martinho do Porto...e ja estivemos vezes sem conta no hotel onde fica, em Lisboa,e na minha casa tambem.
A Susete disputava o Quadro de Honra, como eu. Era melhor a Matematica. Eu, a Historia. Eramos igualmente boas a Portugues, Geografia, Ingles.Eramos pessimas a Desenho e as professoras faziam o favor de nos dar 12 para que o Quadro de Honra nao fosse beliscado. Depois a Filosofia, a OPAN safavamo-nos muito bem...No ultimo ano do Liceu foi para o Liceu Salvador Correia e fiquei mais soh.Sem a minha cumplice. A colega amiga, bem disposta que quando ria com vontade, as lagrimas saltavam de imediato. E que nos intervalos corria para o refeitorio e para a cantina para que eu comesse o mil folhas ( russo ), a torta, ou o rissol de camarao e ficava na fila na minha vez, se eu nao me despachavaeu eu fazia o mesmo por ela.
A Milu estava em Letras e noos as duas em Ciencias.Queriamos ser medicas...elas sao assistentes de bordo e eu oficial de justica...
Eu a e Milu, encontravamo-nos nos intervalos, iamos juntas para casa, viamo-nos nos fins de semana, mas faltava a Susete.
A Susete nunca faltou afinal.
Elas as duas continuam colegas e amigas tambem, entre si.
O ano passado ambas decidiram, porque seria muito bom para mim, oferecerem-me a viagem do meu Sonho Maior. Decidiram realizar o meu SONHO.
E eu vim a Luanda ao fim de 33 anos de ausencia, pela mao destas meninas de oiro que eu tenho como amigas.
E cah, fizeram de tudo para que eu fosse muito, muito feliz, de novo, na nossa terra.
Quando eu conto que tive este presente de amigas de infancia, que nao privam diariamente comigo ha 34 anos, ninguem percebe isso.
O milagre de Deus. A generosidade, o altruismo, a Amizade, aplicados em mim.
Amanhah, mais uma vez, Deus me acena com a sua mao infinita, invisivel e sempre presente, colocando a Susete no meu voo.
Como disse a Milu: Amiga, vais " levar " a Clara.
Eu digo: Amiga, vais " levar-me " para Lisboa.
E digo mais, que estou muito de bem com Deus.
Que Deus eh meu amigo e me deu as melhores amigas do Mundo.

A minha viagem

Vou ser a viajante de novo.
Amanha.
Nao quero pensar nisso. Que me vou embora...
Hah certezas que tenho hoje, que nao fora ter vindo este ano, sentir, e seriam grandes suspeitas, mas nao, certezas.
Hoje, tenho a certeza absoluta que este eh o meu lugar e que preciso de estar aqui.
Ser como aqueles que sabem desta verdade mas vivem cah.
Poder dizer: " Estou cansada disto. Falas assim porque nao vives cah ".
Isto eh o discurso de quem olha a cidade e nao contempla. Ela estah ca, todos os dias. Nao foge. " Levam com ela ".
Eu queria poder estar cah e nao precisar de contemplar. Eu queria permanecer, ficar...
Da minha janela contemplo a minha cidade. Vejo a terra e o mar.E a Ilha. E o Mussulo.
E os predios que se erguem. E os velhinhos. As casas baixas, do tempo colonial.
Olho o ceu, carregado, porque esteve quase sempre cheio de nuvens brancas e cinzentas, ameacando chover num temporal de me aliviar a pressao que eh, ter os dias contados para ser feliz aqui.
Hoje eh domingo e a cidade estah calma. Como que a dizer-me que tambem sabe ser serena e apaziguadora dos espiritos inquietos como o meu.
Olho a cidade, com os olhos da contemplacao e sentindo antecipadamente a saudade.
Foi uma bencao estar ca e participar.
Foi um privilegio viver tudo o que vivi.
Eh uma alegria perceber que nao sou um numero, mesmo.
E que a minha vida paralelamente ou encontando-se com pessoas que aqui ficaram, quando iniciei a minha viagem, a outra vida que tenho vivido, nao foi vivida em vao.
E que as memorias sao um bem precioso, para que nos sintamos ricos, importantes, amados.
O que Deus me deu,quando pensei que me estava tirando, foi tao maior que eu, apesar de estar ja a sofrer de saudade, de dor de ir embora, sinto que ele me tem abencoado.
Mimado, protegido e dado a possibilidade de nao ser um ser em crescimento apenas.
Ele deu-me a possibilidade de SENTIR que cresco com amor.
Vou partir com o coracao cheio. Levo na bagagem tudo o que preciso para ser melhor.
Levo as memorias, os amigos, o povo, o passado e o presente.
Levo Luanda e o seu mar, a terra, o luar...
Levo um pais inteiro.
Levo Africa...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Despedida de mae

Ontem ah noite fui despedir-me da D.Arminda. A minha velha e doce mae de Angola.
Estava bonita, cheirosa, com uma luz no olhar e uma docura na voz como que a dizer-me que estah tudo bem, que vai ficar tudo bem.
Fez aqueles rissois de camarao, que eu gostava muito.E bolo de chocolate.
Trouxe coca-cola. E insistia para que comesse. E o meu dia tinha sido muito sofrido. Muito intenso, e eu nao tinha fome. Mas comi porque ela preparara o jantar com todo o amor que soh ela sabe dar.
E disse-me que via a telenovela da SIC, e de facto passava na televisao na altura e ela estava a assitir enquanto conversavamos. A da Helena. Aquela negra bonita que se apaixonou por um homem maduro.E tocou a musica deles, que ouvi pela primeira vez em plena novela.E lembrei-me do meu MP3, onde oisso esta cancao. E de repente, estou ali com a minha querida amiga que foi sempre minha confidente.E apeteceu-me deitar a cabessa no seu colo e abrir o meu corassao. E contar, contar, desde que saii de Luanda em 75 ateh ontem. E rir e chorar e ouvir os seus conselhos amigos, como se de uma mae se tratasse.
Mas, numa atitude postissa, de mulher segura e corajosa, preferi nao a atormentar, que ela ja tem que chegue.
Mas houve pormenores do nosso serao, que me enterneceram, tal como com a D.Aida.
Clara, ainda usa muito perfume?
Muito como?
Se usa sempre?
Sorri. Era a minha vaidade, o meu luxo, como o baton. A minha imagem de marca, direi eu.
Entao nao? Agora que estou a ficar kota, eh pior, nao pode falhar.
O filho Mario, que revi ontem ao fim de 34 anos e que estava super feliz, riu-se comentando que eu estava tal e qual.
Eh ela, mae, essa Clara...estah igual, nao mudou.
Nao sei porque oisso isto constantemente. Ou sei?
Eu ja me esqueci de como era. Eu mudei. Mas para estas pessoas, nao. Os meus afectos permanecem.
Logo, eu ainda sou a outra, do tempo colonial, apesar de ter partido para o pais dos brancos, e viver na Europa. E a grande inquietacao destas pessoas eh esta. Se eu ja nao sou a mesma.
Mas voltando ao perfume...
Lembra-se disso, dos perfumes?
Claro que sim, como ia esquecer? A Clara usava Madame Rochas.
Eh preciso um coracao grande, enorme, e resistente para aguentar isto tudo num soh dia.
E eu percebo que tenho a doenca do tripulante. CARENCIAS.
Carencia destas pessoas mimando-me, dando-me conta do meu passado, daquilo que faz de mim o que sou e como sou para as minhas pessoa hoje.
Esta mulher ha uns anos, muitos, no tempo em que em Angola todos passavam mal e os recursos eram escassos, mandou-me uma encomenda, pela minha amiga, dois frscos de perfume La Coste. E eu tambem nunca mais me esqueci.
Ontem falei nisso e ela nao se lembrava...
Ja estou com saudades deste carinho, desta dedicacao, destas memorias que me fazem nao me esquecer de mim, e ainda nao fui embora!

Que delicia!

Ontem fui visitar a mae da minha querida Mena Lima, ali na esquina da Fernando Pessoa com a Eugenio de Castro.
A D.Aida, tem 80 anos. Continua bonita e simpatica.
A minha amiga: Comadre, nao conhece?
A cara nao eh estranha.Eh a Isabel? Que estah para lah? Acenando com a mao o para lah, que percebi ser, em Portugal.
Comadre, Isabel nao.Olha bem, daqui do fundo da rua, da avenida...
A Clara.
Ah, pois ehs.Tens a altura do teu pai.
Eu emocionada, porque quem se lembra do meu pai, transforma-se em deus para mim, disse beijando-a:
Que bom que se lembra do meu pai.
Entao, o teu pai tinha a loja na avenida Brasil.
E a seguir disparou: Ainda ehs sonambula?
Nao! Nao! Nao estava a acreditar. Que delicia, mae da Mena Lima...que delicia D.Aida!
A Milu ficou completamente abismada de surpresa. Nem ela que ja dormiu comigo milhentas vezes, se lembrava que eu era sonambula.
E a D.Aida prosseguiu: Uma vez nao atravessaste a avenida, de noite e o teu pai nao te encontrou quando foi fechar o portao?
Eh Eh Eh...nao acredito...
Isso,D.Aida, acabe com o resto. Faca-me ter ja um enfarte...

Eu fui embora ha 34 anos. Angola tornou-se independente, mas as memorias e os afetos nao foram destruidos. O meu pai e a minha mae ficaram para sempre na memoria das pessoas, estou sempre a constactar isso e eu...bem, eu que me esquesso que fui sonambula e ahs vezes ainda tenho restos disso...eu fiquei com o coracao aflito de emocao.

A Mena Lima vive em Samora Correia. Estamos juntas de vez em quando, e quando assim eh, eh como se fossemos outra vez colegas de Liceu e eu a fosse buscar a casa e entrasse enquanto ela almoca e visse chegar o pai para o almoco e visse os irmaos, o Quim o Cito ja prontos para sairem...
A Mena Lima quando vem a Luanda fala de mim e ate lhe disse que estava separada. Que estava sozinha. A mae para confirmar o raciocinio e a memoria, perguntou-me se tinha ficado viuva...
A D.Aida sabia quem eu era e isso deixou-me em estado de grassa, ali na esquina contraria ah minha, ao fundo da rua, de onde eu conseguia ver a minha casa. O predio da loja, na Avenida Brasil.

Constatando

Em frente ao cemiterio do Alto das Cruzes, vendendo flores numa das barracas ali, para o efeito:
Antrega ao domicilio

Num concurso de televisao, o apresentador iniciara o ditado:
Em casa de ferreiro...
E o concorrente termina: Espeto-lhe o pau.

Sempre que alguem estah doente, diz: Tenho sintomas.

Se se quer dizer que a pessoa eh antipatica, eh chamada de Cinica.

Ver televisao, diz-se: Assistir televisao.

Quando se quer dizer que se vai descer ( escadas por exemplo, ou de elevador )diz-se:
Tou a vir.

Numa entrevista em directo,diz o locutor:
Ehs directa.
Resposta imediata: Direita eu? Mosso, tenho curvas, olha lah.

Quando se quer dizer que a Maria deu ah luz diz-se: Maria nasceu um bebeh.

Quando alguem estah com diarreia: Fulano estah a diarrear.

Dentro do aviao, por uma profissional recem chegada e nova:
Chefe, estou com doenca de tripulante.
Que eh isso?
Entao? A doenca que os tripulantes teem.
Tenho carencias.
( os tripulantes viajam muito em servisso e ficam longe dos seus entes queridos, logo poderao sofrer de carencias afectivas )

Quando existe um problema: Vamo fazer mais como entao?
Eh o problema que tamos com ele.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Zimbo

Eh um canal de televisao.
Zimbo...
Ao fim de tantos dias, estou a ver pela primeira vez este canal.
Porque o Dinho, irmao da Milu trabalha como comentador de desporto e queriamos, eu, queria ver.
Mas neste horario esta a dar um programa de entretenimento.
Uma crianca com cerca de 10 anos foi cantar.
Eh o verdadeiro artista. Fato branco, completo, oculos de sol e muito assumido falando de diversos assuntos relacionados com a profissao.
O nome artistico deste pequeno artista - Kome e Nao Borra.

Doces de coco

Sosseguem meninos.
Nao me esqueci de voces.
Ja os consegui comprar na rua, ali na Vila Alice, a olhar a Rua Fernando Pessoa,que estah tao bonita...ali na Eugenio de Castro. Na rua da Mena Lima. Na rua onde passei mais de milhoes de vezes, a peh, de carro. Ali, onde a Vila Alice tinha o corassao.
Varias quitandeirs, vendendo, mangas, mamao, maracujahs. Tirei algumas fotografias, apenas ahs bacias, mas ouvi logo, os bafos delas sem qualquer constrangimento.
Ta tirar fotografia soh e nao compra, nao pode ser.
Disse-lhes chamando-as de queridas, que ia comprar. Acalmaram de imediato. Eu sei que elas ficam muito desconfortaveis com as maquinas fotograficas e quem esta mal sou eu. Nao tenho que dar uma de turista...
Mas no final das contas, vi uma miuda com os doces de coco e ginguba, num tabuleiro, ah cabessa, e fiquei histerica.
Por isso ja cah cantam 20 doces, de coco e de jinguba, estes sao muito poucos porque ela nao tinha mais.
Disse que - Nao estao a sair.
Perguntei-lhe pela esquebra. Disse: Pode tirar tia, 2.
Foram os que comi, ali mesmo, na rua, como no antigamente, olhando a Rua Fernando Pessoa, vendo o predio da loja do meu pai, lah ao fundo e tendo uma lagrima no canto do olho, como o Bonga canta saudosamente.
Este ano levo doces de coco e...soh.
Nao ha prendas para ninguem.
Ja nao eh a primeira vez e o tempo esta a ficar curto para o que ha para fazer.

Portaria II

Ao entrar no predio, deparei-me na entrada, em cima da secretaaria, com uma Arvore de Natal, bem decorada, com luzinhas a catrapiscarem. Ao lado uma caixa decorada, com uma ranhura.
Percebi-vos, guardas do predio. Srs. Guardas, que afinal, percebi que sao trehs. Aquele que sei, de conhecer mesmo, eh o Zacarias. Depois ha o Nelson e o Adao.
A arvore pertence-lhes e a gratificacao vai ser dividida por tres.
Ao passarmos pelo Zacarias, que estah quase sempre fora do predio, rossando o rabo pelas paredes, numa indolencia propria de quem faz pouco e tem pouco que fazer, jogando conversa fora, com os outros guardas e serventes das redondezas, por norma, cumprimentamos sempre. Ele resmunga qualquer coisa incompreensivel.
Hoje, mais uma vez cumprimentei-o e a minha amiga tambem.
Boa tarde.
E ele: Obrigado sim.
A kota brava,como eles lhe chamam riu-se e perguntou-me se tinha atentado na resposta.
Sorri com alguma, toda a condescendencia e disse que ouvira.
Ela disse-e que sempre, mas sempre, agradece, em jeito de cumprimento.
Serah que eh subserviencia ou apenas ignorancia?
Nao sei, mas que eh educado eh, pois responde sempre. O que diz nao eh importante...
Antes de ir embora, tenho que deixar uns kuanzas na caixa que se ri para noos e parece estar a agradecer-nos jah antecipadamente como o Zacarias.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cais de Quatro

Um dia destes, jantei no Cais de Quatro.
Eh um sitio muito agradavel. Na Ilha, num espasso magnifico, pela localizacao.
Tem uma esplanada enorme e moderna e os empregados andam numa roda viva para corresponderem ahs expectativas que o restaurante pretende para os seus clientes.
A lista eh vasta e muito variada e as caipirinhas...Jesus, as caipirinhas sao optimas. De maracujah e bastante cachassa...
Claro que soh bebi uma, porque ficaria a falar mais ainda, e quando me levantasse faria mah figura e nao podia.
Fui convidada por um familiar de primos que eu adoro e que me apresenta as pessoas como prima. Um rapaz encantador e muito parecido com um dos meus primos que adoro, com o pai dele e com o avoh e que apareceu nas nossas vidas, porque ja estah na minha tambem e chamando-me Clarinha o que me conquistou completamente, como dizia, apareceu a reivindicar um lasso familiar que de facto existe e que apenas ha pouco tempo soube ter.
A sua mulher e uma das filhas, a que conheci, sao um doce e adorei jantar com eles e estar naquela esplanada olhando Luanda exibicionista e coquete, em noite de lua cheia, sobre a baiia.
Os predios da Marginal estao todos iluminados durante a noite e o espetaculo, eh simplesmente lindo. Uma cidade moderna e maravilhosa, vista dali.
Os clientes do Cais de Quatro sao na maioria estrangeiros, portugueses e outros.
Fica-se com a sensacao de que estamos numa qualquer esplanada nas docas,junto ao Tejo, no Estoril ou em Cascais, junto ao mar, o que nao sei se eh bom, porque estamos em Africa e ali tenta-se fugir um pouco a essa condissao.
Mas que se estah bem estah e nao vou esquecer este jantar, esta noite e o que senti vendo a minha cidade no seu melhor.

Portaria

O predio onde a minha amiga vive, esta muito bem cuidado.
Tem uma secretahria no haal de entrada, para que o porteiro ali permanessa.
Ele, um individuo, novo, alto e seco, usando uma farda da cor da sarja ( beje) anda dentro e fora, por ter um cubiculo que dah para o exterior, com televisao, onde se juntam varios guardas dali da zona.
Assim, guardam este predio e conhecem todas as pessoas que aqui vivem e quem aqui vem com frequencia, o que eh uma vantagem e um descanso para mim.Os elevadores funcionam, sempre, ha um gerador e nunca falta a luz aqui, o que eh um luxo, um privilegio.A agua tambem esta protegida porque teem bomba, para todo o predio.
A minha amiga eh conhecida como a kota brava que ameaca furar os pneus quando poem os automoveis no espaco reservado para ela o qual paga religiosamente ao dono do predio, o Sr. A. Carvalho, que conheci o ano passado, muito de fugida.
Nessa altura andava encantado por uma gatuna e preocupado com um filho que afinal nao era dele mas sim do gostoso, ele que era o gastoso.
Este homem, eh angolano branco e divide-se entre Luanda e Portugal, onde tem a familia, mulher e filhos. Ja tem idade para ter juizo, pois tem mais de 60 anos, mas segundo as historias que se contam, ha-de voltar a ser apanhado nas teias dessas meninas dengosas e interesseiras.
Subimos no elevador juntos, os tres. Eu, a Milu e ele.
A minha amiga perguntou-lhe:
Como eh Sr. Carvalho, estah tudo bem?
Tudo, respondeu num sotaque exagerado de branco de muceque. Como diz a minha amiga, Mano Carvalho, de uma familia inteira, quando se juntam com as miudas negras e passam a ser tratados assim por todos os que sao familiares dela.
Como estava intrigado com a minha presenssa e a Milu nao se descaiia, perguntou: Eh sua irmah?
Respondi: Quase.
E em unissono, respondemos: Irmah espiritual.
Estah ca de ferias ou vive ca?
A minha amiga respondeu.
E ele acrescentou: Ve-se.
Fiquei piurssa com este homem que ja achava baboso pela historia contada pelos meus amigos.
Tive que saber porque se notava que nao vivia em Luanda.
Esclareceu que eu nao tinha sotaque, dizendo-nos que quando vai a Lisboa as pessoas percebem que ele estah em Africa.
Uma conversa de xaxa que foi preciso vir uma pessoa da mesma condicao que eu, da mesma cor de pele para que eu voltasse a lembrar-me que ha uma especie de pessoas em Angola que eu abomino e este A. Carvalho, que por acaso, soh mesmo por acaso tem o nome do meu avoh, eh uma delas.

Mangas

Ha dias que andamos atras de quitandeiras de mangas.
Ha por toda a cidade, nos lugares errados.
Ou nao temos dinheiro, ou passam longe de noos.
Queremos lambuzar-nos em mangas, comendo-as com todo o prazer que a manga comida ah mao dah. Com roupa velha, escorrendo o seu sumo pelos brassos, como na epoca em que eramos pequenas.
Hoje foi caso para dizer - Eh hoje, eh hoje!
Uma quitandeira novinha, gravida, exibindo a sua gravidez com graciosidade, de mini saia vermelha, blusa de alsinhas branca, rodilha colorida na cabessa, apareceu-nos ah porta do predio.
A minha amiga disse-lhe: A esta hora ( eram 18 horas ) ja estas a saldar...
Ela nao contestou, apenas sorriu e olhou para mim, bem dentro dos meus olhos, sempre sorrindo.
Poisou a bacia que trazia 9 mangas grandes, as ultimas.
A minha amiga perguntou-lhe quanto custavam.
Respondeu prontamente: Cinco, 500 paus.
Entao, mas se eu quiser todas quanto eh?
Pareceu-me que ela estava por tudo.
Respondeu: As nove, 800. Estou mesmo a saldar.
Vieram as mangas, sem hesitassoes.
Hoje nao acaba o dia sem que que a sala de visitas, passe a ser a cozinha e noos nos lambuzemos nestas mangas belissimas, que depois das chuvas, ficam muito mais doces e gostosas.

Pedra em vez de Diamante

Feita a TAC, a doente quis saber o que tinha.
O medico, um cubano de cerca de 30 anos, simpatico e solicito, disse ah doente:
Eh pa que pedrita...
Doutor, devia ser um diamante, um diamante eh que era. Disse a doente.
Ele: Se fosse um diamante, operava, e dividiamos, metade para ti, metade para mim.

Luanda, uma ervilha!

Ontem acordei com uma ideia a crescer-me na imaginacao, um prazer a invadir-me o corpo, um poema a saltar-me dos dedos.

Hoje acordei com uma obrigacao e uma ansiedade, no meu coracao.
A minha visita ao cemiterio de Sant'Ana, na Estrada de Catete.
Antes, atravessei a avenida onde estou e fui ao outro lado, aos escritorios da TAAG, para confirmar o meu regresso. Sao procedimentos que somos obrigados a fazer sempre.
Ha filas enormes, mas eu passei por entre os pingos da chuva, gracas a uma amiga e colega da minha amiga. Ainda assim, esperei cerca de 45 minutos. Aqui eh devagar, devagarinho, como o alentejano, por isso quem programa o dia, nao consegue cumprir porque o tempo que perde altera compromissos, afazeres e ate prazeres.
Depois la fui, eu e o Sr.Tiago, o meu amigo, motorista, a caminho de Sant'Ana.
De manhah, nao ha qualquer perigo, pois o cemiterio tem sempre gente, porque os funerais se realizam so e sempre na parte da manhah e porque as pessoas que visitam os seus mortos escolhem este horario.
Entrar ali, provoca-me alguma, muita, nostalgia do meu avo, da minha infancia e adolescencia, da minha vivencia em Luanda como natural e residente. Da minha mae.
Gerir estes sentimentos nem sempre eh facil. Ou por outra, nunca eh facil.
Ah entrada, um mar de gente. Algumas bancas vendendo flores naturais e coroas artificiais. Dirigi-me a uma delas e comprei um ramo de margaridas, brancas, e amarelas tambem. 500 kuanzas. Nao sei se fui papada ou se eh o preco real. Pagaria o que me pedissem.
Quando ja estavamos no interior do cemiterio e ja perto da capela, que sempre me encantou pelas cores que tem e por estar no centro e ter um espaco ah frente muito cuidado, passamos a ser seguidos por dois rapazes. Avisei o Tiago que andasse mais devagar para perceber se estava certa e nos seguiam. Este disse-me que nao faziam mal, que estava muita gente a circular por ali.
Observei que o cemiterio estava muito mais limpo e cuidado e tinha os seus arruamentos alterados. As ruas que dividem os talhoes tinham sido feitas de novo e ja se parecia com o cemiterio que eu tratava por tu desde que me lembro de existir.
O Tiago informou que foram os chineses que fizeram as obras. Alias, os chineses estao em todo o lado, de picareta na mao, o que eh impressionante.
Localizei o portao para poder chegar ah minha avo. Mas assaltou-me um medo, um panico que me doeu a alma. Nao localizava a campa e julguei que a tivessem levantado. Os tais rapazes aproximaram-se e um disse-me:
Senhora, a tia nao anda a procura da campa da tua avo?
Olhei-o incredula.
O ano passado esteve mesmo comigo aqui, ate que lhe trouxemos mesmo neste lugar desde a porta, com o guarda.
Senti-me de novo calma e rejubilei.
Como eh que aquelas almas se lembram de mim, decorridos que foram 15 meses?
Este paiis eh mesmo outro mundo, outra terra, outra gente.
Bem sei que eles estao ali todos os dias para arranjarem uns trocados em troca de uns servicos, como sendo, limpar as campas, ajeitar as flores, caiar se for caso disso. Mas lembrarem-se que fui ah procura da campa da minha avo, transcende-me, completamente.
Afinal, a memoria nao eh curta. As pessoas nao sao numeros. Ainda que me tivessem atribuido o numero 10 porque duas vezes fui ali num dia 10, juntaram-lhe um factor importante, o sentimento. A minha avo, o motivo da minha ida ali onde eles funcionam.
Calma, pude perceber que ainda me faltava uma rua e consegui chegar ao meu destino.
Ali estava ela na fotografia de ha 55 anos.
Emociono-me sempre. Muito...
Eles foram a procura duma pa e duma vassoura para tirarem a terra vermelha que tinha por cima e garantirem uns kuanzas. Fui avisando que so tinha 500 paus.Disseram que estava bem. Limparam tudo. Depositei as flores. Orei. Senti-me em paz. Ficaria ali o resto do dia, a fazer-lhe companhia. A falar com ela. A desejar que me desse um sinal.
Acho que deu ja o ano passado, quando me fez ir a ela a 10 de Setembro.
Voltei para casa em paz.
Ate ao ano que vem, Rosalina das Dores Pais, que nasceste num dia 26, de Julho ( dia de Sant'Ana ) e faleceste num dia 26, de Janeiro.
Ele ha coicidencias...

Machismo Africano

Existe. Machismo em Angola.
Tanto machismo que torna as mulheres, seres superiores, porque estas, estas evoluiram e apesar de algumas sofrerem com o complexo masculino, outras, a maioria, de hoje, luta pela igualdade de direitos e deveres, logicamente. Pela sua independencia, pelo seu lugar ao sol.
Os homens angolanos a viverem em Angola, ainda sao como aqueles de ha 30 anos. Sedutores mas levianos, machoes, e com complexos de superioridade, ditadores, voluveis e alguns pateticos, pelo acomular das outras caracteristicas.
Os homens de Angola, ainda bebem muito alcool, ainda saem muito, sozinhos, mesmo quando teem familia, ainda se divertem com outras pessoas e apenas, mesmo com a familia em casa,ainda teem muitas aventuras, e amantes, ainda se intitulam os chefes de familia, os encarregados de educacao dos filhos.
Os homens de Angola hoje, ainda sao muito vaidosos e egoistas, castradores e manipuladores. Ainda sofrem de excesso de auto estima.
Nao sou eu que o digo.
Sao as maes, as mulheres, as amigas. Sao eles com esta conduta ridicula, ofensiva, este reinado fora de moda e mesquinho.
Isto tem de mudar. As mulheres, que sao os seres que os pariram, que sao irmas, namoradas, mulheres, amantes, amigas, filhas, teem que ser tratadas como seres iguais, com as mesmas necessidades, com as mesmas obrigacoes e direitos, com as mesmas capacidades, com as mesmas oportunidades.
Tenho para mim, que eles no fundo, sabem, que as mulheres sao superiores e andam a lutar ha seculos e seculos para que essa condicao da mulher nao seja valorizada por algum iluminado, que acabarah com o reinado masculino para sempre.
O saco eh grande e nele cabem todos os homens angolanos e que vivem em Angola com esta forma distorcida de estar e ser, claro que existem homens nesta terra, que sao apenas Pessoas, no genero masculino.

Mas nem tudo eh tao mau nos homens angolanos e por isso vou frisar que tenho sido muito bem tratada pelos seres deste genero.Maculino, maxistas e machoes, ou nao.
Para mim sao perfeitamente asexuados e por isso o meu olhar eh de observadora.
Mas observando e sendo ateh parte, percebi existir uma realidade que me encanta.
Os homens aqui, convidam as mulheres e oferecem o jantar, e pagam a despesa. E abrem a porta do carro para a mulher entrar e deixam-na passar ah frente deles, no elevador e nao soh.
E muito importante, dao os seus lugares em qualquer lado, reparticao publica,servicos quaisquer.
E eh optimo se a mulher estah cansada, ter sempre um cavalheiro que lhe cede o sofa, a cadeira, o banco ou o muro,a lata, a pedra mesmo.
Em suma, nao eh preciso ser-se refinado, ter formacao academica, estar a querer engatar uma mulher, ser-se homosexual, ser-se velho, para se ser um cavalheiro.
Nesta terra, eles sao muito maxistas e machoes, mas tambem sabem ser muito cavalheiros e isso encanta qualquer mulher.

Dia Dez

Hoje eh dia 10.
A minha cunhada faz hoje anos.
O meu pai partiu num dia 10, mas de Outubro.
A minha filha nasceu a 10, de Novembro.
Uma grande amiga de infancia, a Nela nasceu a 10 de Janeiro.
A minha colega Luisa tambem nasceu a 10 de Janeiro.
O marido da minha amiga Arminda, nasceu a 10 de Julho.
O meu querido primo Paulo nasceu a 10 de Setembro.
O meu casamento terminou definitivamente a 10 de Setembro.
O ano passado visitei a campa da minha avo, no cemiterio de Sant'Ana, a 10 de Setembro.
Hoje dia 10, voltei ao cemiterio para visitar a campa da minha avo.
Nenhuma destas datas eh destacada dos outros dias, voluntariamente, por mim.
Aconteceram na minha vida e depois de analisar, percebi as supostas coincidencias. Ou os supostos sinais.
Serah caso para me assustar? Ou pelo contrario, deverei ficar feliz com datas coicindentes com acontecimentos tao contraditorios?!
Ate este momento nao pensei muito nisto, apenas no 10 de Setembro, porque se torna um pouco assustador tanta coincidencia, mas deveria adoptar este numero como o meu numero, nao? Para a lotaria, para a vida. Deveria se calhar ficar mais atenta e quando me aparecer a hipotese do 10, dar isso como sinal e tentar perceber porque me aparece desta forma. Provavelmente acontece o mesmo com outros numeros.
Eu tenho outro numero ainda, que eh o 29, mas do dia 10 eh que estou a tratar agora.
Eu nao acredito em bruxas mas que as ha, ha...

Algumas vezes, o Amor

Ahs vezes, algumas vezes, o Amor
Chega de surpresa num mail.
Diferente, surpreendente, irreal...
E eh Perfeito, Sublime...
E eh como olhares-te ao espelho.
Iguais. Almas gemeas...

Parabens e Felicidades

Que tenhas um dia feliz.
E de folga.
E possas rumar a Coimbra para festejares a Vida e fazeres a comemorassao junto dos teus principes.
Bato-te palmas antecipadas e desejo que te sintas bem disposta, ja recomposta daquela gripe medonha que tinhas quando parti.
Aguarda-me que logo, logo estarei aii, que isto passa depressa, o que eh bom tem sempre um fim, mas o que vale eh que tambem nao ha mal que nao acabe, entao, estamos nessa, vivendo cada dia, como se fosse o unico.
Vive tu, este teu dia,o melhor que sabes e podes, junto dos teus tres homens.
Ahn...felizarda! Umas com tantos e outras sem unzinho, que seja.
Felicidades Linda.
E que eu possa estar por perto, neste Mundo espreitando essa felicidade e desejando que seja eterna.
Saude.
Tem um bom dia.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Vendedores Ambulantes

Andando pela cidade, percebe-se a abundante azafama dos vendedores ambulantes.
Atravessam-se ah frente dos automoveis, param nos passeios e montam as bancas com os artigos mais surpreendentes.
Homens e mulheres partilhando o mesmo sentimento, o mesmo espirito comerciante que foram obrigados a sentir e que adoptaram mais tarde por forsa das circunstancias.
Hoje estava a sair Uvas. E nas maos delas e deles cachos de uvas pretas, de bagos enormes e a parecer-me bem.
Juntam-se mais de 10 mulheres, as quitandeiras, com bacias de fruta diversa, de meter cobissa a qualquer um e conversam altissimo abrindo vogais nas palavras que utilizam. Juntam-se os rapazes pondo charriots no meio da passagem e pendurando neles, roupa de criansa, homem e mulher.Sapatos e chinelos tambem se veem ah cabessa das quitandeiras, nas bacias enormes de plastico.
Depois quem quiser um ferro electrico, uma carpete para a sala, cortinados, cintos, malas de senhora, bijouteria, panelas e tachos, arvores de natal ja enfeitadas,loussas, pacotes de leite, encontra a cada esquina da cidade. Haja dinheiro para comprar.
Dizem as pessoas que aqui ficaram que os congoleses eh que implantaram esta nova forma de comercio.
O certo eh que hoje ate chineses vendem, distribuem panfletos, e misturam-se com os angolanos neste comercio anarca e ilegal.

Hipermercado Jumbo

Hoje visitei e fiz compras no Jumbo velhinho, da minha cidade.
O ano que passou nao fui ver este espasso nem achei muito importante, perto de outras opcoes para mim imprescindiveis.
Hoje fomos ahs compras. Mas ele hah coisas do diabo...
A minha amiga diz que lhe acontecem situacoes que soh comigo cah lhe sucedem.Se nao, passarei a contar mais adiante.
Mas, entrei no Jumbo e senti uma nostalgica sensacao do passado a regressar em forsa.Lembro-me da construcao deste hipermercado que se passara a chamar - Pao de Acucar - Jumbo, com o desenho do elefante e tudo.E lojas pequeninas ah volta, incluindo uma perfumaria, claro, nao eh? E eu que nao comprasse perfume numa loja do Jumbo...
Foi uma festa do inicio dos anos 70, julgo. Era um local de consumismo de primeira categoria e toda a Luanda ali se dirigia para ver e comprar.
Eu, claro que tambem. E ia muitas vezes, ao sabado ah tarde, com esta minha amiga, onde estou a passar as ferias, a Milu.Era o nosso passeio dos sabados, bem divertidos e proveitosos porque nos divertiamos muito e eu comprava roupa gira, que ja era vaidosa, blusas de algodao de alsinhas, outras sem costas e com cores bonitas e bem berrantes, comme il faut.
Hoje, passados 30 e muitos anos voltamos a divertir-nos e de que maneira.Demos voltas e mais voltas pelo espasso, obervando, comentando, criticando e gozando com alguns artigos, nao fossemos noos quem somos. Mas compramos pouco,muito pouco mesmo, e porqueh?
Porque a minha amiga se esqueceu da carteira e nao tinha um kuanza no bolso e nenhum cartao tambem. Eu fui a salvadora da patria, eu, a ex estrangeira, a que anda com os kuanzas contados, com dificuldades no cambio. Eu que ia comprar as minhas coisas para levar para Portugal. Fuba, farinha fina, feijao macunde ( que ja nao via ha mais de 300 anos )kifufutila, doces de jinguba, banana seca, peh de moleque...
Consultada a minha carteira, apenas 3.000 kuanzas e uns trocados em notas velhissimas.Eh claro que tive que me chegar ah frente. E amanha volto para comprar os meus kitutes.
Tambem tinha euros. A minha amiga disse estar fora de questao fazer o cambio dos euros la na rua onde estao as mulheres, ah lamira, atentas e insistentes.
Eu ando sempre com pouco dinheiro porque posso ser roubada e por isso fizemos o papel das pobrezinhas, das criaturas de pele clara, que para honrarem a cor deveriam ter mais dinheiro que os restantes ( ? )e que chegadas ah caixa rindo desalmadamente, fomos pondo de lado alguns artigos para nao ser ultrapassado o valor que tinha na carteira.
O pao ficou todo, estava quentinho e tinhamos uma trassa que nem raciocinavamos direito e mais umas coisitas e pronto, a Milu disse-me - Alto, nao pode passar mais nada.
E ainda agora nos estamos a rir do papelao que fizemos.
A mim nunca tal me aconteceu e a ela nunca passou pela cabessa viver uma situacao destas na terra dos kuanzas.
A minha amiga Milu, estah constantemente ao telefone, falando com uns e outros, colegas, familia, amigos, esta terra eh assim, ateh eu ja estou para o mesmo, e bem, a todos conta esta historia macaca e caricata.
Mas resta-me acrescentar que o Jumbo estah bem de saude e recomenda-se. Todos os artigos que existem nos hipermercados em Portugal, eu vi ali, mais os africanos.
E tive a sensacao ao contrario, da que costumamos ter quando visitamos um lugar, um espasso, da nossa infancia e depois voltamos em adultos, que eh achar que o espasso era maior do que na realidade eh. Eu entrei no Jumbo e perdi a nocao do seu espasso. Encontrei um espasso muito maior do que me lembrava. Na epoca era o unico hipermercado de todo o Portugal e ja foi construido a contar com o futuro, pois tem o tamanho dos Hipermercados normais de Portugal.Nos anos 70 demos um passo ah frente.
Depois recuamos, hoje espero que estejamos a voltar a andar no sentido do futuro, com passos seguros e para a frente.
Amanhah volto ahs compras, sozinha. O Tiago levar-me-a. E levo comigo kuanzas, porque sozinha nao acharei a menor grassa se me faltar o dinheiro. Deus que me livre!...

Subordinada

Uma conversa entre a patroa e a empregada.

Dona X, venho mesmo me justificar.
( Trazendo de brassado 3 toalhas de banho, duas cor de laranja e uma bordeaux ).
A patroa habituada, perguntou: O que aconteceu ahs toalhas? Manchaste-as? Lavaste com agua quente?
Nao senhora, mas a tinta passou, mesmo.

A patroa olhou para mim resignada. Estah habituada ah mudansa de cor dos seus atoalhados. Fazer o queh? Perguntou.
Vale um encolher de ombros, resignado.

Nova designacao

O que antes se dizia P.D.I., agora eh D.N.E.
Ou seja Data de Nascimento Expirada.

Parabens meu Heroi

Parabens a voceh
nesta data querida
muitas felicidades
muitos anos de vida
VIVAAAAAAAAAAAAAAAA!

Que tenhas um dia feliz, alegre e em paz.
Que a tua saude melhore.
Que te mantenhas corajoso, persistente, animado, para venceres esta etapa.
Vais conseguir meu querido, com a ajuda de todos, e com o amor que te dedicamos.
Com o grande amor da heroina que tens como companheira.
Acredito em milagres. Tu e ela fizeram-no.
E o Amor vence sempre e faz milagres.
Muitos beijos.
Um abraco forte, mas tao forte que sintas de Luanda para aii a vontade que tenho de te ver bem.
Muitos parabens. Salveh o dia de hoje.

A minha Pitanga

Acordei com saudade da minha Pitanguinha.
Serah que ja me esqueceu?
Serah que me vai reconhecer quando eu voltar?
Serah que ja cresceu?
Serah que me vai perdoar?
Acordei com saudade...

Da-me a tua mao

Da-me a tua mao
Vamos juntos ver o mar
Desta baia sonhada
Mil vezes cantada
Fantasiada
Por todos nohs
Da-me a tua mao
Vamos juntos ver a lua
Desavergonhada
Namoradeira
Feiticeira
Beijando o mar
E espelhar-se nas aguas
Cor de prata
Quentes
Magicas
Transparentes
Num abraco profundo
Do tamanho do nosso Mundo
Da-me a tua mao
A nossa cidade
Eu quero namorar
Nesta noite tao bonita
Neste instante
Aqui neste lugar
Da-me a tua mao
Vamos juntos olhar
O passado lah atras
Sente comigo a emocao
Eu sei que es capaz
Da-me a tua mao
Nao eh preciso falar
Vamos sentir o presente
Vive o que a alma sente
Nesta noite de Luanda
Nesta noite de Luar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

No Aeroporto

Hoje tivemos de ir ao aeroporto.
A minha amiga deixou-me ah espera no interior do automovel com ar condicionado bem acomodada. De Tiago como companhia. Tiago eh o motorista, que comigo, conversa. A Milu quando se refere a ele, diz - O amigo da Clara.
Esperei tanto, mas tanto que tive necessidade dum quarto de banho, pois bebo muita agua e o resultado eh obvio.Perguntei ao Tiago se sabia duma casa de banho no interior do edificio. Claro que nao sabia. Soh leva a D.Milu e tras...e espera no estacionamento.
O jardim do aeroporto ja era. O edificio esta com obras, e as chegadas ja se fazem por um edificio moderno, bonito e muito envidrassado. Os parques de estacionamento sao mais que as maes e todos em obras. Este local vai ficar, quando concluido, muito pratico e funcional. Mas o que eu queria era so uma sanita num espasso fechado. Perguntei a um policia e disse-me que me dirigisse ao interior do edificio. Fi-lo e fui barrada por um seguransa que me perguntou onde pensava que ia.
Disse-lhe, usando de toda a manha e algum, pouco charme, que nem sei se percebem, tal a inocencia, que um senhor policia me indicara aquele local e que pedisse ao sr. seguransa ( isto, ja da minha responsabilidade o disse ). Acrescentei que -Se nao puder entrar vou fazer xixi nas cuecas porque estou muito aflita. Riu-se e disse com um ar tolerante abanando a cabessa com comiserasao - Pode entrar entao. La dentro vai encontrar quarto de banho.Eh soh procurar.
Agradeci e bem depressa segui as instrussoes. Num corredor de acesso ah sala de embarque vi aparecerem 4 individuos, 3 deles jovens e um mais velho, fardado, com farda azul, podendo ser seguransa ou policia, nao sei distinguir nem me interessa muito. Olharam para mim assim que me viram e nao tiraram os olhos ateh passaraem por mim.
A surpresa foi que este, o fardado, ao passar riu-se e bateu-me palmas a 1 metro de mim e sorrindo num sorriso pepsodent de dar gosto.Nao fasso anos nem conhesso estas pessoas, nao esperava este gesto que foi inpensado e surpreendente.
Sorri num sorriso de orelha a orelha, ou como se diz aqui, de boca para nuca, tal o gesto ingenuo e infantil. Como me viu rir disse: Ganda pinta. Seguiram e eu segui tambem a rir, de tal forma que cheguei ah casa de banho e ao olhar para o espelho, ainda levava o ar aparvalhado com que ficara.
Consegui o meu objectivo e mais uma vez fui surpreendida por esta terra e estas pessoas.
Quando a Milu chegou ao pe de mim, contei-lhe o sucedido e ela mais uma vez me disse: Maria, GANHASTE, mesmo.
E eh isso, eu acho que estou sempre a ganhar. Serah por ser de visita? Serah que dei sorte? Eles, os meus amigos, dizem que sim. Que tenho tido sorte.
Eu agradesso essa SORTE. Se Deus ma mantiver, serah bom e eu viverei sempre feliz todos estes pormenores da minha estadia por terras da Rainha Njinga.

Gatuna

Sinonimo de gatuna - A M'boa que paia o damo da legitima.
Eh uma garina que normalmente se apresenta jovem, top model, escura, unhas de gata, saltos muito altos, cabelos com extensoes ateh ao rabo, lentes nos olhos, cor de mel,trajadas de jeans pela anca, mostrando o fio dental, de olhar e andar dengosos e provocantes.
Veem dum extracto social baixo, e com deficiente nivel academico.
Andam por toda a cidade. Ah cassa.Conhecendo muito bem os lugares de engate.Os restaurantes sao locais de primeira escolha, mandando aas mesas pelos empregados,o numero do telemovel, quando estao no engate.
O que pretendem?
Hah uns anos atras pretendiam saldo no telemovel e pagamentos nos cabeleireiros.
Foram-se tornando mais exigentes.
E passaram a exigir os tres Vs. Vivenda,Viatura e Viagens. Obtendo os 3 Vs, nao se importavam de ser apenas a segunda na vida deles, os homens. Com a evolussao, passou a existir nas suas vidas dois tipos de homem.
O Gastoso ( que banca os luxos ) e o Gostoso que satisfaz os seus apelos de femea.
Nos tempos que correm, ser Gatuna, significa muito mais do que ateh hoje.
Hoje o que eh que exigem, do gastoso?
Fazem questao de ser as legitimas. Engravidam de imediato, porque eh o garante do sustento, delas e dos filhos.
Fazem questao de apostar na formacao academida e eh ve-las a caminho das faculdades dentro da cidade. Hoje a exigencia vai mais alem e querem viver em condominios privados com piscina.
Exigem ainda ser empresarias. E eles bancam saloes de cabeleireiro e ou boutiques.
Eles sao homens de mais de 40 anos, a maior parte, a partir dos 50. Classe media alta. Generais, e civis, bem posicionados na vida, mulatos ou brancos angolanos e estrangeiros.Os ultimos, nao precisam de mostrar cartoes de credito.
Os homens com mais de 50 anos, exibem estas mulheres como trofeus, a prova provada de que ainda sao muito viris.
Hah aqueles que tendo muito dinheiro, bancam duas, tres mulheres, ao mesmo tempo e com estas carcteristicas e exigencias.
A sociedade assiste e nao tem nada que se meter na vida particular destas pessoas.
Ha somente um pormenor, pequenino, mas um pormenor...
Se estes homens abandonam uma familia, mulher e filhos, para viverem estas mentiras, prejudicando as que eram as suas pessoas.
Decididamente, ser gatuna eh uma condicao triste e obscena e ser homem com compromissos familares, que gasta o patrimonio da sua familia e dispensa o tempo e o carinho a estas mulheres, eh um rato, um ser sem coluna vertebral, e merece ser o GASTOSO.
Quem com ferros mata, com ferros morre.

M'boa quer dzer - jovem, que neste caso eh a gatuna,a bandida
paia - rouba
damo- o homem, que neste caso eh o pagante, o gastoso, o amante - Eu diria antes, o TRISTE, mas isso sou eu a dizer, a achar ...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Hospitais e Clinicas

Hoje tirei o dia para percorrer hospitais e clinicas desta cidade de S.Paulo de Assuncao de Luanda ( do antigamente ).
Os amigos sao para as ocasioes. E a ocasiao hoje foi brava e demorou horas, muitas, a resolver-se.
Acordei, tomei banho ahs pressas,como se diz aqui, e de cabelo molhado e sandalias desapertadas, que as apertava no carro, aii fui eu a caminho do Hospital Universitario, ao fundo da avenida Brasil .
Estava um medico de servico que iria observar a pessoa que ia comigo.
Podia ser apendicite, podia ser colica renal. Noos os medicos feiticeiros e abelhudos, demos palpites. Eu ja vivera, de perto, uma colica renal, nao na minha pele, nos meus orgaos, mas ali muito ah minha beira, e sei quais os sintomas e para alem disso como boa hipocondriaca que fui, conheco os sintomas de uma grande parte das doensas, o que eh um descanso dos diabos, farto-me de gozar com isso, mas pronto, sempre serve para sofrer por antecipacao, o que para os masoquistas eh do melhor. Nao que eu o seja, mas ahs vezes parece que sim.
Chegados ao Hospital, eu fiquei na rua, ah entrada e a doente e um acompanhante entraram para os servicos do medico que a observaria.
Pasados cerca de 30 minutos voltaram com credenciais na mao.
Depois disso, eh que foi...
Uma verdadeira corrida as clinicas privadas desta cidade, como se fosse aos saldos...
Conheci 3 clinicas cah do burgo. E nao tenho opiniao.
Um pormenor que achei muito antigo, muito preconceituoso eh o da farda. Numa das clinicas, as senhoras funcionarias usavam saia azul escura, camiseiro azul claro e na manga, na manga, criaturas de Deus, a bandeira. Como pode? Mas que pode, pode.
Bem, mas a pessoa doente passou pior que eu, porque feita a ecografia, estava diagnosticado o problema.
Ah noite conseguimos todos descansar, aliviar da pressao do dia e a colica amainou com buscopan de 6 em 6 horas.
Felismente que ja passou e o lazer resolverah destruir o pedregulho que estah no rim, mas isso soh em Lisboa.
Esta minha pessoa que hoje sofreu o diabo, quando melhorou, conseguiu ainda assim, contar as peripesias dos utentes e funcionarios.
Quando a doenssa se combate com buscopans e boa disposicao a dor transforma-se numa moinha a que jah nao damos qualquer tipo de valor, de confianssa.
O humor fe-la dizer que eu precisava conhecer a realidade in loco. A realidade da saude em Angola.E por isso a sua colica renal.

Informacao II

Pedindo uma informassao a uma administrativa de uma clinica,no seu local de trabalho.
Por favor, o Doutor Y.......jah chegou?
Ainda nao estou lhi ver.

Informacao

Numa Clinica de Luanda

Dirigindo-se a uma funcionaria da clinica.
Mossa,chegue-se aqui, gostaria de uma informassao.
A dita mossa, olhou-o sem proferir palavra.
Ele prosseguiu. A Lurdes Silva nao estah por aqui?
Lurdes queh? Perguntou ela.
Silva.
A Lurdes foi dispensada, o bebeh dela estava incomodado.
Nao soube se a Lurdes estah graavida e passou mal, por isso nao foi trabalhar, ou se tem uma crianssa que estah doente.
Estar incomodado significa, estar doente, a passar mal.

Urina Tipo II

Numa Clinica de Luanda.

A doente entrega a credencial, onde estah prescrita uma analise ah Urina Tipo II.
O tecnico de saude: Senta aii.
A doente: Sentar? Para queh?
Nao vai fazer analise?
Vou, mas nao eh ao sangue, eh ah urina.
Ahn...Toma entao.
E entrega o recipiente para que a doente vah ah casa de banho, para o xixi.
Depois, quando a doente volta, diz-lhe que estarah pronta dali por vinte minutos.
Passado esse tempo o homem chama a doente:
D.X.......
A doente entra de novo.
O homem diz: A sua analise...tem sangue na urina. Estahs menstruada?
A doente: Eu? Menstruada? Nao, jah nao menstruo hah muito tempo.
O homem: Se soubesse que estava menstruada nao te fazia a analise.

Quotidiano

Em Talatona, na peixaria de um supermercado:

- Minha senhora, queria um pargo.
- Minha amiga nao tem pargo desde aquela hora.
Soh tem sal(o)mao!

Ditado Popular africano

O Caboverdiano canta
O Angolano dansa
E o Mossambicano bate palmas.

Nao vi ninguem bater palmas senao quando a minha amiga soprou as velas.
Fomos todos mossambicanos nesse momento.
Os Angolanos dansaram, mas dansaram ateh de manhah.
E os caboverdianos cantam sempre, que se desunham.

Conclusao a que cheguei - Deve ser verdade, este ditado africano, que me foi passado, ontem, por um grupo de angolanos e caboverdianos.

A Festa

A festa em Talatona foi um sucesso.
Um ambiente agradavel, familiar, caseiro e com muitos afectos ah mistura.
Ontem fui Tia de muita gente, eu que nao sou Tiazorra como as de Cascais.
Ao contrario de lah que eh tudo a fingir, postisso, aqui, as criansas e nao soh, os filhos dos nossos amigos e tambem os netos, tratam-nos com este respeito e carinho, que nos faz ser familia. Que nos dah esse direito e um dever enorme a que nao fugimos.
A noite passou a correr. A musica e a dansa imperaram.A cachupa tambem. E muita mais comida. Um exagero.
Muita bebida. Muito champanhe.
A piscina recebeu muita gente ao longo da noite e ate de manhah.
A minha amiga esteve feliz, era o dia dela.
Eu gostei da festa e das pessoas. Revi gente que jah nao via hah mais de 34 anos.
Conheci pessoas que conhecem pessoas comuns.
Deitamo-nos ahs 7 horas da manhah.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Amor Ahs Vezes

Ahs vezes o Amor fica preocupado.Porque nao consegue comunicar.
E apesar de estar em Luanda, o amor nao esquece.
O mapa pequenino de Portugal, de Tras-os-Montes ao Algarve...
O cantinho de Fransa onde fica Montpellier.
Mas nem sempre se comunica em Angola.
E desde sexta-feira que a Movicel e a Unitel estao com problemas.
Por isso nao vim aqui, porque eu arranjo sempre um jeito de escrever, porque voces, meus filhos, principalmente voces, eu sei que veem ler, mas quero que saibam que nao me esqueci de voces soh porque estou em Luanda.
Agora eh que eh caso para dizer, que quanto mais feliz eu estou em Angola, mais gosto de voces.E voces todos sabem quem sao.
Um abrasso do tamanho do Mundo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Fazer compras

Paramos no supermercado MARTAL.
Ali, junto ah Antonio Barroso.
Existe desde o tempo em que Angola era portuguesa.
Do outro lado da rua, muitas mulheres. Divertidissimas.
Esperando por gente como nohs. Vivem de esquemas.
Barulhentas e sorridentes, correm direitas aos automoveis que estacionam.
Madrinha, me chamo Teteh.
Quer um carro?
Vai sem medo, lhe tomo conta.
A Ana Maria trata-as com distancia.
Nao quer confiansas. Diz que nao pode ser, que sao abusadas. Elas conhecem-na. Elas conhecem os clientes todos do Martal. Cresceram ali, naquela esquina. Nas costas das maes.
Vivem de recados que fazem aos adultos que podem pagar.
Nas maos, massos de notas velhas. As notas menos valiosas.5 kuanzas, 10 kuanzas.
Algumas ainda, vendem lotaria, outras fruta.
Madrinha, olha o milho.
E vemos massarocas enormes e perfiladas em circulo, dentro dos alguidares de plastico, que transportam de brassado ou ah cabessa.
Abrem uma massaroca e mostram o milho, acabado de colher, fresco.
A Ana atira: Nao vou comprar, nao gosto de milho.
Nao evito sorrir para dentro. Como eh que uma filha de caboverdianos, que viveu em Cabo Verde uns anos, nao gosta de milho? E a cachupa leva o queh, Ana?
Mas as miudas nao desarmam. E os maracujahs, tia? olhando para mim.
Os maracujahs eram lindos, parecidos com os do Mercado do Funchal, na Madeira. Amarelos e enormes.
A Ana, que apenas queria comprar mangas porque eu, mais atras, as gabara e falara com entusiasmo delas, disse-lhes que mostrassem as ditas e benditas mangas da epoca, porque jah choveu e jah amadureceram e estao maravilhosas.
Duas bacias apareceram de imediato, vindas do outro lado da rua, da concentrassao de quitandeiras e afins que ali se fazia.
Escolhe, madrinha.
Foram escolhidas mangas grandes e mangas pequenas, que estas ultimas sao bem mais gostosas, daquelas que nos lambuzam a cara e escorre o sumo pelos brassos ateh aos cotovelos.
Mas o habito das quebras eh tal que a minha amiga perguntou pelas quebras. E disse que tinham que dar duas pois levava de umas e de outras. E escolheu.
Minha amiga, duas das esquebra eh muito. E nao deveriam ser grandes, das esquebra sao pequenas.
Bem feita, Ana Maria, muito bem feita.
Quando jah estavamos instaladas, uma, a que nao conseguiu vender os maracujahs, ainda disse: Estou sempre aqui quirida, pode vir...
No rahdio, tocava uma musica em versao moderna, de Rui Mingas, instrumental, e apenas cantada no refrao. Banana podre, nao tem fortuna, frutatah, frutatah...
O Universo eh poderoso e guia-nos os passos e as intensoes.

Amiga de Sempre

A Ana Maria desde que se mudou para Talatona, deixou de andar com motorista.
Anunciou ah familia, que ia dispensar o Matias, que eu conheci o ano passado.
Porque em Luanda Sul o transito nao eh caotico como em Luanda e fica mais livre para os seus afazeres.
Foi fazer exame, de novo. Como se nao tivesse carta desde o tempo colonial.
E passou, claro. E a partir daii, passou a conduzir. E vai para a loucura do transito de Luanda. E tem mau feitio no transito, e refila com todos os que se atravessam no seu caminho, prometendo cabessadas, e xingando a mae de uns e outros e manipula os policias de transito para conseguir passar para ruas proibidas e faz manobras perigosas nas barbas deles, senhores policias. E mesmo quando ninguem a ouve e so a ouvem no interior do carro, ainda assim chama macacos, filhos da mae, filhos da caixa e outros mimos, aos candongueiros que serpenteam ah frente do seu jipe.
Eh bem disposta e nao mudou nada, desde o tempo em que iamos para a praia juntas, la para a Corimba e Morro dos Veados. E tiravamos fotografias em pose de verdadeiras misses, no Autodromo, ao fim da tarde e esfumassavamos ahs escondidas do meu pai, que a minha mae era nossa cumplice.
Nesse tempo estudava e era funcionaria da Fazenda Nacional, e era uma acelera por toda a cidade na sua motorizada moderna e rara nas maos de meninas, quase mulheres. Soh a conhecia a ela, ah irmah e ah minha amiga Nela.
Amanhah faz 55 anos e vai dar um jantar para mais de 50 pessoas, no jardim da sua casa.
A Ana Maria Costa eh uma amiga que sente orgulho quando diz ahs suas pessoas, incluindo ahs empregadas, que somos amigas desde a infancia.
E apresentou-me ah sua netinha, pequenina, de 2 anos, loira e de olhos azuis, americana, de Arizona, dizendo que eu era a Tia Clara, amiga da Mami. E a Jade passou a tarde ao meu colo, passeando connosco, pedindo bolchas, pao quente, que fomos comprar ah padaria, bananas que compramos nas quitandeiras e tratando-me por tia.
Percebem porque eh que Africa eh o grande amor da minha vida?!
Porque deu filhos que nao existem em mais parte nenhuma do planeta.
Ou existem?!...talvez, dei sorte, porque as minhas pessoas de Africa sao todas como a Ana Costa.
Por isso, este continente eh maravilhoso, este paiis nao existe e Luanda eh a cidade mais linda do mundo e vai ainda ficar melhor.

Talatona

Talatona fica nos arredores de Luanda. Em Luanda Sul.
Ha muitos anos atras, Talatona nao existia, nem existiam todos os bairros que se foram erguendo,com a necessidade de viver fora de Luanda, com qualidade de vida. Aqui, so quem pode, vive. E quem pode eh quem tem dinheiro para viver em condominios fechados.
Nao hah transito, eh uma cidade nova,com predios de luxo, hoteis, o centro de Convencoes, com faculdades,escolas, hospitais, Centro Comercial, o Belas Shoping,com supermercados enormes e diversos, todos bons, a praia bem perto e o Mussulo ali a desafiar os seus habitantes, e perto de Viana, a tal cidade satelite dos anos 70 e que vista de longe, parece uma cidade moderna, pejadinha de edificios altos.
Talatona tem essencialmente, vivendas bonitas, coopias perfeitas das casas de Portugal. Com jardins, piscina, e parte comum, para uso do condominio, salas de festas, parque infantil e guardas armados ah porta.
Ahs portas das casas, vemos jipes, automoveis de luxo,familiares, utilitarios...tudo isto por habitassao.
Os empregados, tambem por habitassao, sao em numero exagerado. Empregada diaria e mais velha, empregada adolescente, empregada para engomar, motorista.
A piscina usa-se e abusa-se. De manhah, ah tarde, na torreira do sol, e ah noite que eh muito bom.
No Talatona's Residence vive-se com qualidade.
Tenho uma amiga de hah muitos anos, que nasceu no Sambizanga, como eu, cujo marido, tambem eh nosso conterraneo de S.Paulo de Assunsao, capital de Luanda, vulgo, Sambizanga, e ambos, com a familia, vivem aqui. E sao pessoas normais, como eu, como todos os que me leem.
E eu vou passar o fim de semana com ela e a familia.
E se gosto de mergulhar na simplicidade da cidade e do povo, tambem gosto muito da Ana Maria, a minha amiga, de raizes caboverdianas, que o ano passado me fez o favor de me levar ao Cemiterio Novo, na Estrada de Catete e vive em Talatona.

Atendimento

Numa sala com secretaarias modernas, cadeiras giratorias, computadores novissimos, fomos atendidos de uma forma muito, mas muito, personificada.
Ao meu lado, sentou-se um miudo para tratar do BI.
Antes, ouvi-lhe o nome, pela boca do funcionario que o iria atender.
Joao Luzio Junior.
O rapaz sentou-se a medo, como se fosse sujar a cadeira novissima.
Tas cum medo?
Nao senhor.
Voceh tem 18 anos e ainda nunca tratou do bilhete de identidade?!...
Nao senhor.
Nao pode.Quando eh que esta gente vai aprender?
Um homem ja com filho...
Eu? Nao tenho filho, nao senhor.
Xeh, tem filho sim.
Nao tenho, sou bueh novo.
Umh, voceh estah me intrujar...
O puto olhou para mim, piscou-me o olho, cossou a cabessa e disse:
No bilhete diz que tenho filho?
O funcionario, vitorioso, disse:
Apanhei-te meu. Como eh? Julgas que enganas os mais velhos?...
Garagalhada geral.
O que vale eh que se ganha pouco mas eh uma alegria...

Quitandeira dos Tempos Modernos

A cidade parece uma colmeia.
As quitandeiras...abelhas.
Coloridas, bonitas. Jovens e modernas.
Yah madrinha...ta-se bem...
O saco da castanha de caju assada vale 2000, na minha mao.
Na loja, vao pedir o dobro, estas a pensar o queh? Sao gatunos mesmo...
Compra soh entao, mae.
Eueeh, vou ficar mesmo com tudo, daquela hora. Vai estragar memo...Tia compra la entao...
E noos sabemos que eh uma tanga dos diabos, mas ainda fazemos contas de cabessa... e eu, particularmente eu que estou de passagem, olho-as e compraria o que me oferecessem. Mas nao posso levar. Fiscalizam todos os artigos angolanos, nos servissos de fronteira.
Fico-me na boa intenssao, as tais de que o Inferno estah cheio.
Vou fazer o queeh?
Quando recebo telefonemas e mails desejando que eu me divirta na minha terra, eu sorrio jah divertida.
Eu vim Sentir, mais do que me divertir.
Mas teem razao, as minhas pessoas, quando formulam esses votos.
E divirto-me com os dialogos com estas meninas mulheres, que ja nao sao o que eram. Jah nem apregoam alto os seus produtos. Nao eh preciso. Vendem-se na hora. Ontem uma miuda de talvez 14 anos, trazia travessas de loussa, ah cabessa. Tia, quer travessa?
Enterneci-me. Ia ser porreiro, comprar travessas para levar para Portugal... E outra de seguida, com uma loja ambulante na cabessa, ofereceu-me formas de bolos, tabuleiros de irem ao forno e panelas. Soh se tivesse uma tampa, para a minha panela, eh que eu comprava...e mesmo assim...tinha que fechar bem, como as panelas de pressao, que a quitandeira nao estava a vender, que provavelmente, jah nao se vendem...que sirva ao meu tacho, convenhamos.
Ja me imagino ah chegada a Lisboa de travessas em punho e...com a tampa para meu tacho de brasso dado...ahn, eh que teria sido boa ideia voltar a Luanda...
Outro assunto a abordar, sim e que mete quitandeiras tambem, e homens de cabelos brancos e com familias em Portugal e, criancinhas mestissas, aqui na minha terra.
Para quem tinha medo que Angola ficasse cada vez mais negra, desiludam-se. Os mulatos vao continuar, enquanto houver portugueses, tampas que deixaram os tachos velhos e gastos pelo tempo e pelas canseiras, no puto e que encontraram outros tachos mais novos e disponiveis, em Angola, onde o sol eh mais quente e o apelo mais forte.
Mas, de quitandeiras modernas eh que quero falar.
Sao estes momentos, da execussao do seu trabalho, da forma como o fazem, que me divertem, e eh nas pequenas coisas que eu me lembro de todos os votos que me fizeram e fazem.
Hah momentos impagaveis de hilaarios que sao. O meu povo eh divertido, de piadola baasica mas ingenua e tem a capacidade e a inteligencia de se rir de si proprio.
Na Vila Alice, em frente ao cinema Atlantico e ah Escola Industrial, as quitandeiras nascem como formigas. Pude observa-las enquanto esperava pelo Tiago que fora abastecer de gasolina, o carro, ali em frente ao Liceu Feminino, enquanto eu fui as compras ao supermercado sul africano, que eh um luxo e tem tudo ou melhor que o Continente, ou outros.
Teem entre os 15 anos e os 30.Todas negras. Os cabelos compidos e cheios de trancinhas elaboradas e arrematando com uns elasticos coloridos.Blusas de alsas, de algodao, garridas, claro,em vez dos quimonos.E corsarios. Corsarios de ganga, a substituirem os velhos panos que vinham do Congo. Nos pees, invariavelmente, havaianas. Uma mao, agarrando a mercadoria que estah na cabessa e outra no...telemovel.
Ah pois eh! Nunca viram quitandeiras de telemovel, pois nao? Pois eu estou na posse dessa visao deliciosa, ridicula ( ? ), estranha, divertida, moderna, que eh ve-las aderirem ha modernidade dos tempos. E assisti a uma conversa entre uma menina que vende na rua o seu artigo e sabe-se la quem, mas alguem que do outro lado a diverte e a faz rir e falar alto e bem depressa, o que diga-se de passagem, nao eh dificil, ou seja, que a mantem em contacto com o mundo.Ja quase nao ha quitandeiras como nos velhos tempos, mas estas, as suas sucessoras, sao modernas, competentes, bonitas e divertidas. E eu, divirto-me com elas.

P.S.
Nada do que se possa afirmar eh de facto a verdade absoluta. Neste momento, chega ao oitavo andar da casa onde estou, que a Nica abriu as portas e janelas para a casa respirar, pois a partir do fim da tarde e por causa dos mosquitos e do ar condicionado, tudo tem que estar fechado, mas como estava a dizer, chegou aqui o som dos pregoes das quitandeiras, na rua. Soh me apeteceu ir ah varanda, e acenar-lhes e mandar-lhes beijos. Deus estah atento e eu estava a fugir ah verdade, mas Ele tambem percebeu o meu lamento. Andava um pouco triste, por ainda nao ter ouvido que... eh peixieeeeeeh... eh laranjeeeeeeeeeeh...
Sublime, Guanazambieeh ( Deus )
Tu a sa kidila ( obrigada ).

A Avenida

Pedi ao Tiago que me levasse ah Avenida Basil.
A menos que fosse por aii adiante, bater ah porta da minha casa, percebi o ano passado, que posso ver tudo o que quero em Luanda, mas a casa onde nasci, nao.
E porqueh? Porque da rua jah nao se veh a casa. Construiram casas altas, quase fizeram uma aldeia, naquele espasso vago que existia ateh ah avenida. Apenas vejo as mangueiras que o avoh plantou, que devem estar carregadinhas de mangas, porque eh eepoca delas. As delicias dos candengues da escola 83 que ao passarem, se serviam perante a incredulidade da minha lavadeira Lucrecia, que corria com eles, xingando num kimbundo de trazer por casa, que ateh eu percebia.
Mas, a avenida Brasil, nao eh soh a casa onde nasci, a unica que sobreviveu, porque as outras duas onde crescemos e onde nasceram o meu irmao e a cassula, jah nao existem. Foram deitadas abaixo, ainda na epoca colonial.
Por ser muito mais que casas, eu gosto demais, de percorrer aquele espasso.Estah na minha memoria e eu escrevi com palavras e sentimentos que nunca mais se apagarao em cada pedasso de asfalto, de passeios, de terra ou de pedras,de particula de poh,de arvores, a minha vivencia de vinte anos. Aquela avenida, sabe mais de mim que eu propria e foi a minha confidente, a minha professora, ou apenas a observadora do meu crescimento.
Vi colocarem o asfalto a seguir ah minha casa ( que eu sou do Sambizanga, mas ali onde nasci era a fronteira entre o asfalto e a terra batida ) , segui, como todos os miudos que eu conhecia, sentados pelos muros fora, manobras dos tractores, os trabalhos...e quando passava o carro com o tanque da agua para assentar a poeira da estrada, gritavamos em unissono, porque estavamos muito bem sintonizados, eramos unidos nas brincadeiras - Monangambeeh...tu vais de carro e eu vou a peh!e recebiamos um churrilho de asneiras num kimbundo bem conhecido de todos noos, o tal da Lucrecia...que eu me abstenho de escrever aqui mas que estah cah ateh hoje e muitas vezes quando me sarnam os miolos, mentalmente fasso asneiras com os dedos e repito todas essas asneiras que cedo aprendi com os adultos e com os miudos do bairro Marssal, ali mesmo ah beira de noos.
Vi construirem os predios, melhorarem as casas baixas. Vi o Hospital Universitario erguer-se para orgulho de todos noos e a Cidadela Desportiva, que estah lah ateh hoje, imponente e magestosa...
E durante vinte anos usufruii da liberdade de andar ali como se fosse a minha casa. Era a minha casa.Ali ninguem me faria mal...
Hoje, indo da Alameda D.Joao II ou da Coronel Artur de Paiva e entrando na avenida, a propria, a mais amiga, a mais intima, o que sinto eh involuntario. Eh uma coisa de pele,mais, visceral. Ainda que fosse de olhos vendados, ainda ...Eh inexplicavel e maravilhosa a sensassao de sempre. Que estou a chegar...que nunca parti.Que estao todos ah minha espera, os dali, os de casa.E os predios velhinhos e as arvores que dao aquelas flores cor de rosa e que parecem pinceis da barba e teem um cheiro bom e doce e o ceu daquele espasso, e o vento cheirando a bomboh assado e a castanha de caju, e os maboques, e a cana doce, e o sotaque, e a cor...tudo parece ter permanecido igual, esperando por mim...
Percorrer a minha avenida eh o Ceu e eu sou um Anjo,um anjo papudo, mas um Anjo.
Um dia, um dia eu nao passo lah apenas. Eu vou e fico.
Lembrei-me do Joao que estah no Algarve. E como nao tinha o telemovel onde estah o seu numero, nao pude ligar. Mas mentalmente lhe disse: Advinha onde estou? Estou na Avenida Brasil...e senti-me vingada. No Jogo das emossoes empatamos. Zero a Zero...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Maratona

Atrasei-me. Quem me leh deve pensar que sou uma atrasada, que nao honro compromissos, que nao olho o relogio ou que nunca chego a horas. Nao eh verdade.
Muito de vez em quando, calha.
Combinara com o funcionario do posto de Atendimento dos bilhetes de Identidade, na Ilha, chegar as 8 horas.
Eram 8,20 horas, quando cheguei. O transito hoje esteve infernal e comessou logo de manhah a picar-nos o miolos.
Aproximei-me do mulato do dia anterior, que parecia nao ter saido dali e perguntei-lhe se aguardava na fila.
Minha senhora, vens fazer o queh?
Tratar do BI.
Tem que voltar amanhah.
Porqueh?
Porque jah nao ha fichas.
Como? O seu colega, ontem, disse que viesse a esta hora, que nao havia fila.
Entao vais lah no guicheh falar com ele.
Cheguei ao dito cujo guicheh e nao estava nenhum colega do dia anterior.
Resolvi fazer o que me aconselharam um dia destes. Um pouco de charme. Numa atitude humilde e disponivel para os perceber.
Repeti a ladainha, sorrindo idiotamente.
Vamos abrir uma excepssao, senhora.
Oh, ( nao sei quantos ) vamos abrir uma excepssao para esta senhora.Qual o documento que tem consigo?
Entreguei a certidao.
Chegou o rapaz mulato. O outro entregou-lhe a certidao. Este conferiu, pediu-me 300 kuanzas e eu entreguei 400. Nao vi a cor do troco e nao pude evitar pensar que 100 kuanzas davam para mais cinco micondes, que poderia comprar ah Veronica, ali em S.Paulo.
Nessa altura pensei que quer aqui em casa quer na casa da D.Arminda tinham razao. Queriam para a gasosa.Por isso a excepssao...
Uns minutos depois, o meu processo estava na secretaaria do engrassadinho, do japones.Este, fez chamadas atras de chamadas, soh o meu nome a criatura nao chamava. Estava de olho em mim e eu nele. As tantas disse-me que o meu processo jah estava com o mulato, que se encontrava a fazer outra chamada. Muito chamam por noos,estas criaturas de Deus. A seguir indicou-me o primeiro andar e de repente vi-me a ajudar a menina a preencher o meu processo.Ela limitou-se aos dados que tinha na certidao de baptismo. O que escreveu eh da sua inteira responsabilidade.
Depois fui fazer a fotografia e poor os dedos na maquina.
A fotografia foi um problema que eu resolvi na hora e nao lhes dei hipoteses de recusarem a minha proposta.
Nao se pode tirar fotos com alssas, a ver-se os ombros e o colo.Soh que eu ia para a praia e nao tinha soh alssas, tinha a parte de cima do biquini atado ao pescosso, logo, a ver-se.Olharam para mim e disseram que nao, nadica de nada. Que fosse ah procura de um xaile, uma echarpe, qualquer coisa que tapasse as provocassoes.
Disse que ele podia emprestar-me o casaco que estava nas costas da sua cadeira. A colega do lado, deu uma gargalhada, perante a minha petulaancia e ele olhou-me como se eu fosse o demo.
Aproveitei a gargalhada da colega e adiantei que - no seu casaco eu confio, agora nos xailes la de baixo, nao sei nao...empreste lah que eu ponho so nos ombros.
Rapou do casaco abanando a cabessa e dizendo - estas senhoras sao piores que as mais novas, mesmo...
Respondi que podia ser mae dele.
Funcionou na perfeissao.
Nesta terra, este povo foi educado a estimar os mais velhos e a perdoar-lhes os defeitos. Hoje fui muito bem tratada por todos.
O Edgar diz que ainda vale a pena ser-se branco, porque existe uma diferensa no tratamento. Eu diria que vale a pena ser-se...menos novo.
Depois disto, esperei mais 1 hora. Fui passear ateh ah ponta da Ilha e voltei. Encontrei a minha amiga Arlete, que ainda nao vira e que fora buscar o seu BI, tambem.Foi ela que me disse que o custo do BI era de facto 300 kuanzas.
Estes trabalhadores cada vez sao menos corruptos. Agradou-me perceber que abriram uma excepssao para mim, que me trataram muito bem e o facto de ser branca nao funcionou ao contrario.
Afinal, perde-se uma manhah,uma verdadeira maratona, mas os servissos funcionam, mesmo sem cunhas.
Hoje tive a prova disso.

Chamada

Pela manhah, um funcionario muito bem disposto, do alto do seu poderzinho conferido pelo lugar que ocupa, ali num sitio que, quem tem um olho, eh rei, fazia uma chamada.
Eu ainda nao tinha percebido muito bem qual era o meu papel, mas como estava a ver o papel dos chamandos, ouvia muito bem o dialogo entre utente e funcionario publico, igual em qualquer parte do planeta, concerteza.
Voceh eh japonees? perguntou o funcionario.
Sou sim senhor, respondeu o utente.
Voceh tem aqui tres nomes.
Tenho sim senhor.Entesando-se, como se estivesse na tropa e fosse a qualquer momento fazer continencia.
Japones Catumbula Cuba!
Sim senhor.
Ja foi no Japao?
Nao senhor.
E em Cuba?
Nunca estive, nao senhor.
Voceh nao tem bicos nos olhos, nem fala espanhol.
Nao senhor.
Nunca vi japones negro.
O homem sorriu envergonhado.
A sala hilariante gozava o prato.
O Sr. Japones Catumbula Cuba aguardou que o funcionario lhe desse uma ficha e de seguida abandonou a sala que lhe fora hostil, preferindo esperar na rua.
Eu e o Japones Cubano, cruzamo-nos passadas umas duas horas, quando estavamos ja na reta final.
Apeteceu-me dizer-lhe que burricasse na piadola. Tambem eu durante a vida toda, levei com, a Clarinha e as Pombas e com as Dores, heranssa de duas avos, e pais obsecados com a ideia de agradarem a uns e outros e em mim ninguem pensara.
O que vale eh que Deus dah costas largas a quem tem que carregar com estas cruzes, melhor dizendo, com estes palavroes em que se transformam alguns nomes.

Sambizanga

Julgava que tinha nascido no 126 da avenida Brasil.
Vila Alice, freguesia de S.Paulo.
Porem ninguem me disse que as freguesias acabaram e deram lugar aos postos Admnistrativos.
Hoje, a menina que preencheu os meus papeis, perguntou-me onde nascera.
Respondi que, em S.Paulo.
Olhou-me e disse: D.Clara, a senhora agora eh do Sambizanga.
Olhei-a com estranheza e ela sorriu, percebendo o que me ia na alma.
O Sambizanga era e eh um muceque. E eu podia ter nascido num muceque mas nao nasci.
Nasci na cidade do asfalto. E a D. Apolonia foi a parteira. Da Vila Alice, da Rua da Farmacia Luanda.
Afinal do Sambizanga...

Hoje Nasci de Novo

Hoje nasci de novo...
Hoje sou solteirinha e boa rapariga...uma menina de nome normal, de baptismo.
Na minha terra, no meu paiis.
Hoje eh o dia porque eu espero hah 34 anos.
Foi uma manhah muito cheia, muito emotiva e rica.
Neste momento estou completamente quebrada.Como se tivesse levado uma surra, que nem sei como isso eh, mas, uma surra de mar, por exemplo. Ali, no rebentar das ondas.
Eh assim que estou.
E estou que nem posso. E apetece-me chorar muito, muito...e queria estar no colo da minha mae, porque nasci de novo e sou pequenina.
Na minha posse, o cartao de identidade. REPUBLICA DE ANGOLA. BILHETE DE IDENTIDADE DE CIDADA NACIONAL.Nome completo: Maria Clara das Dores Carvalho dos Santos, filiassao...B.I. n... no canto superior esquerdo o mapa de Angola.
Soh a Angela sabe. Liguei-lhe a dizer. Rebentava se nao dividisse. Dou-me mal com segredos, coisas guardadas no corassao.
Isto que hoje me aconteceu, a realidade que nem acredito, eh como namorar ao luar,comer chocolates, parir filhos, fazer poemas de amor, dar abrassos e beijos, falar com amigos, festejar o Natal, sair a lotaria, beber coca-cola com muitos piquinhos no ceu da boca, tomar banho de imersao, voltar a Luanda, andar ah chuva, ouvir a nossa musica, dansar nas nuvens, beber champanhe, olhar o Tejo, fazer amor...
Arrisco dizer que isto eh isso tudo, por tal estou exausta, a transbordar, por isso me apetece chorar.
Isto eh tocar o ceu...estar perto de Deus e agradecer-Lhe.
Ser angolana como a Nica, ou como o Presidente Eduardo dos Santos. Tal e qual.
Os mesmos deveres, os mesmos direitos, jah posso votar...
Hoje pela primeira vez e com 54 anos, sou angolana de facto, de papel passado, e Angola eh a minha Patria!
Quem comigo priva, sabe que foi sempre assim que me senti, mas...eu sabia que entrava em Angola estrangeira e isso magoava muito, e que nao podia votar e o ano passado assisti as eleissoes aqui em Luanda, e nao tive o dedo sujo de tinta.
Sairei daqui, se acaso conseguir o passaporte a tempo, angolana, cidadah nacional.
Nao eh vaidade, nem sequer orgulho o que sinto.
Queria brincar com isto, mas nao consigo. Eh serio demais e eu queria mesmo agora, neste momento abrassar-vos a todos, os que gostam de mim, de quem eu gosto...
Nao chegaria aqui se nao fossem voces todos. As minhas forsas veem da forsa que cada um me dah. A minha seguransa, vem da vossa presensa, a minha paciencia vem do vosso estimulo e a minha boa vontade e tolerancia vem do exemplo de todos voces e que procuro emitar...Bem hajam.
Hoje nasci de novo e queria o colo da minha mae...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Bilhete de Identidade

Hoje de manhah fui ah Ilha. A Ilha do Cabo.
Comecei cedo na personagem de paparazi, alcunha que ganhei o ano passado.
Felismente que a par com a alcunha ganhei uma alma nova. Logo, o ano passado nasci de novo. Aqui, neste lugar.
Mas, fui ah Ilha, nao por ter nascido ou coisa que me valha mas porque queria tratar do BI.E foi descendo pelo Eixo Viahrio, o tao conhecido por Amarelas,que comecei a fotografar compulsivamente. Primeiro uma acacia, a primeira acacia florida que via,jah que o ano passado era cacimbo e ainda nao tinham flor.Depois quando cheguei ah Igreja da Nazareh, a propria, e depois pela marginal fora. Via a cidade, esta parte da cidade bonita, pela primeira vez, de dia. O tempo estava cinzento, como se fosse cacimbo, ou fosse chover, mas as nuvens fugiram para Norte, para Cacuaco.
Luanda parece a cidade mais trabalhadora, que conhesso. Tudo mexe,mas mexe mesmo e muito. O transito, medonho, eh um indicador de que a terra estah bem acordada.Os vendedores de tudo o que se possa imaginar, sao mais que as maes, pelos passeios e os mais atrevidos, mesmo no meio da rua, entre os carros que passam. Vendedeiras de mangas e bananas aos montes.
Desde S.Paulo ateh ah entrada da Ilha, porque o Arquivo de Identificassao, fica ali perto da Rotunda, aliahs, dali ve-se a Portugalia, que estah logo a seguir ah ponte, bem, dizia que desde S.Paulo e ateh ao destino, demoramos mais de meia hora. Caotico neh ?
O Tiago, este local, sabia onde era. Apesar de nao conhecer bem Luanda, eh malangino e os malanginos sao espertos.
A questao eh que nao hah lugares vagos em lado nenhum e por isso fui sozinha saber o que necessitava para tratar do tal do BI.
Ah entrada, um mar de gente, parecia noutros tempos, ah porta do Dispensario.Um individuo novo, mestisso, em voz alta ia entregando BIs e chamando pelo nome, por ordem inversa, claro. Passei por eles que me olharam, talvez admirados. Nao havia mais nenhum branco naquele espasso, o que a mim nao perturbava nadica de nada. No guicheh tres funcionarios com ar de alentejanos, tal era o descanso...
Fui bem atendida, mesmo muito bem, de tal forma que em casa e na casa da minha amiga Arminda desconfiaram, e teem para eles que foi para a gasosa, isto eh,o funcionario quer uns mil ou dois mil kuanzas pelo atendimento, quando amanhah for, daih a simpatia.
Aqui, ninguem acredita na competencia dos servissos, mas no interesse que se disponibiliza a troco de kuanzas, euros ou dolares.
Disseram-me que nao desse dinheiro algum. Que quando apanham gente de pele clara, acham que eh rica e insinuam-se e fazem crer que eh favor o que nao eh senao uma obrigassao.
Se assim for, nao sei nao, mas eu que nao sou mao de vaca, mas nao sou mesmo, vou ter que pensar bem se vai sair gorjeta.Garantiu-me que se for por volta das 8 horas da manhah, nao enfrento fila e que soh eh preciso a certidao de baptismo. O resto eh com eles.Verificou a certidao e disse que estava tudo em ordem. Sorriu e despediu-se com um ateh amanhah simpatico.
Gostei. Gostei de ver. Gostei que fosse comigo. E amanhah ainda vou ver mais.
Vou ver-me cometer uma ilegalidade sem remorsos ou culpas algumas.
Tenho um dedo que advinha.
Amanhah vos direi.

Observando

Estahs tao parecida com a D.Celeste...
Mais do que o ano passado.
No ano passado disse ah mae: A Clara era tao bonita e agora estah com a cara tao magra...assim estahs melhor. Nao precisas de emagrecer, nao tens cara de ter 54 anos, ninguem diz...ficaste mais parecida com a tua mae.
Mas ainda tens trassos do So Santos.
Lembras-te quando me ensinaste a fazer crocheh? Eu era bem pequenina.E tu, canhota mas conseguiste ensinar-me.E nas ferias os trabalhos da escola, na tua sala...eramos tantos.
A tua mae era tao boazinha. A Paulinha ainda estah aloirada? lembro-me que chuchava na boca com os dois dedos do meio.

Estas e outras observassoes, pela boca da Felismina, desde sempre para mim e para os de casa, Filuh. Que cresceu, eh uma mulher bonita, de 48 anos e tem 5 filhos.
Uma das filhas da minha amiga Arminda, uma Mulher Guerreira, que aos 74 anos, trabalha diariamente como ama, de 38 crianssas, em sua casa. Tem apenas a ajuda da Filuh e da Vania, outra das filhas, a mais nova.

Miconde

Sao doces de rua. Que as quitandeiras vendem. Sao fritos parecidos com a textura das cavacas das Caldas da Rainha. Com o assucar por fora como elas, as cavacas. Teem um feitio diferente. Parecem OOs, encolhidos. As suas pontas a tocarem-se. Sao crocantes e doces e sabem maravilhosamente, e lembram-me a minha infancia e a avenida Brasil, e o ano passado, na Ilha, quando os vi ao longe e os reconheci...
Dentro duma bacia enorme. Perfiladinhos. Chamando por mim, gritando, acenando histericamente...
Hah um ano que nao me punham a vista em cima, nem eu a eles. O apelo foi reciproco. Fomos impelidos uns para os outros.
Bom dia...
Bom dia, respondeu a menina, gorduchinha e bonitinha.
Qual eh o presso dos micondes, apontando para eles.
Vinte.
Vinte cada, estah caro.
Nao posso descer o presso.
Estah a enganar-me. Vale menos, faz dez.
Nao posso mesmo. Dou um para a esquebra,madrinha.Quantos quer?
Arrisquei um numero. Cinco.
Yah, dou um para a esquebra.
Qual eh o seu nome?
Avozinha, disse.
Nao, avozinha...o nome verdadeiro.
Veronica, mas todo o mundo me chama de avozinha ateh que me acostumei, esquesso de Veronica.
Veronica, o tempo estah farrusco, vai chover?
Nao mae, a chuva jah fugiu lah para as banda do Cacuaco.Essa hora tah assim, mas logo mais vai vir o sol.
Olhei-a embevecida.
Dei-lhe 500 kuanzas, ela fez o troco e deu um miconde para as quebras.
Teh logo. Volta sempre aqui, disse-me.
Para queh? para me enganar?
Riu-se do alto da sua juventude de 19 anitos, que eu jah perguntara a idade.
Nao enganei, mae, juro por Deus.
Disse-lhe adeus e fui embora de alma a transbordar.
Em casa, a Nica disse-me que nao fora enganada. Que eh mesmo o presso deles.
Fiquei contente pela Veronica. Eh uma menina honesta.

Dialogo

Disse o velho: Parece que estou a conheceh-lo...nao?
O outro respondeu: talvez sim.
O velho: Mas nao sei de onde...
O outro: Se calhar da prisao, em 77, ou da psiquiatria. Jah sei foi da psiquiatria.
Estivemos lah, juntos em 92.
Depois de ter estado preso, da guerra, toda aquela infelicidade.O poder e a forssa.
Eu tinha sangue na guelra...fiquei perturbado e internaram-me.
O velho: talvez sim...Nao muito convicto.
O outro: Vamos ah raiz das coisas.Ao nosso passado lah mais longinquo. Do Rangel.
Eu sou do Rangel, eh mas eh de lah.
Entao nao eh de S Paulo?disse o velho.
Nao, apesar de S.Paulo ser tao grande.Agora que nao hah Juntas de Frequesia e sim postos administrativos, e isto olhando para mim, a brilhar com a noticia e imaginando que eu nao sabia.
Continuou a falar mais para mim que para o velho.Eu sou do Rangel, mas antigamente, ateh havia um proverbio a explicar a vaidade de ser de S.Paulo. Voceh eh de S.Paulo?Respondi afirmativamente.
Continuou: S.Paulo era a maior freguesia de Luanda e os nascidos aqui tinham muita honra e quando lhes perguntavam: De onde ehs? respondiam: Sou de S.Paulo da Assunssao, da capital de Luanda...
Lindo, simplesmente delicioso o que eu vim aqui ouvir, casualmente.
O velho cossou a cabessa, perguntou ah senhora funcionaria se demorava muito, esta disse que tinha que aguardar pela assinatura do senhor padre.Entao, o velho desistiu de esperar, apesar do dialogo e de ter passado ah frente dos outros mais novos.
Agradeceu, pos o chapeu na cabessa, acenou com a mao, disse-nos adeus a todos. Meus senhores, muito bom dia.
E para o outro: Entao vamo-nos vendo por aih.
O outro: Sim, enquanto for vivo, ando por aih...

Casualmente incasual

Chegamos aos servissos de conservatoria de S.Paulo, a funcionar no edificio de primeiro andar, antigo, no largo entre a missao antiga e a igreja.
No atendimento ao publico estava uma senhora negra, jah com mais de trezentos anos, o que eh bom. Significa eficiencia, sabedoria, paciencia, cumplicidade com o passado e as gentes deste.Nao me enganei.Tive um servisso de luxo. Tive tratamento personificado, de D.Clara para cima, com as desculpas da demora e tudo.Ia soh buscar uma certidao. Demorei mais de meia hora, porque o senhor padre pediu que aguardasse e tal e coiso.Tudo bem, nao se preocupe, tenho tempo, disse eu simpaticamente, perante a simpatia dela.O que nos separava era um guicheh de madeira do tempo colonial, e uma porta em ferro, gradeada e fechada com correntes, nao vah o diabo teceh-las, ali na quinta de Deus.Falamos atraves das grades o que me pareceu insolito, pois a liberdade parece-me que devia estar de brasso dado com os senhores padres e a igreja, mas esta conservatoria eh intocavel, preciosa e uma riqueza. Resistiu a todas as guerras. O seu arquivo eh uma coisa fantastica e tem sido duma importancia fundamental para quem nasceu e foi baptizado hah mais de 40 anos, pelo que percebi.
Enquanto aguardava dei comigo a conversar com um individuo que aguardava tambem.
E sem quees nem porques jah estavamos falando do presente, passado e futuro de Angola.Que coisa boa, esta forma simples e pratica de enganar uma espera forssada...e aprendi com ele, percebi o que o povo deseja, o que o aflige e o que vive.
Concluih que o povo estah cada vez mais doce.
Dizem que eh da guerra. Amaciou-os.Venceu-os pelo cansasso e pela dor.Faz sentido, todo o sentido.
Enquanto ali aguardei, dei-me conta desta dossura, da educassao, da cultura e da simpatia do meu povo.Os velhos, num portugues bem articulado e sem sotaque buscam as palavras do dicionario mais pomposas e fora de moda que haja.Usam chapeu e tiram-no ao chegarem. Sao tratados por pai e cedem-lhes a vez.
Que lissao, meu Deus, que lissao, nao para mim, mas para levar na minha bagagem e atirar para quem nao sabe o que eh Africa...
O meu paihs vai ficar melhor.Ainda vai ser uma grande terra...

S.Paulo

Na Igreja de S.Paulo, depois de varias fotografias no seu interior, uma conversa com uma senhora vestida de panos, como nos velhos tempos, que ali fazia a limpeza da igreja a par com outra mais distante de mim. Percebi que ela jah nao sabia quem era quem, dos santos todos, residentes, no bendito e santo, local de trabalho.
-Bom dia.
-Ah, bom dia mae.Faz favor...
-Diga-me soh onde estah o S.Paulo, eh esse aih, apontando eu, uma imagem perto do altar.
-Nao senhora, mae. Onde mesmo que estah o santo? falando com os seus botoes.
Maria, onde eh que estah o santo S.Paulo?
-Xeh, toda a hora vem limpar e nao sabes? Eh aquele aih...apontando direito ao Sao qualquer coisa.
-Nao eh nada mae, nao eh aquele, vai ler, que costuma dizer por baixo.
Apeteceu-me abrassah-las e dar-lhes milhoes de beijos.Como eu precisava disto...desta simplicidade,desta ingenuidade de crianssas com corpo de adultas.Desta coisa genuina.
Disse: deixem lah, tenho tempo, vou procurar, obrigada, queridas.
Uma delas, a segunda disse-me:Vou mesmo contigo,vamos encontrar, madrinha, vamos entao.
E encontramos.Vi primeiro que ela, mas fiquei calada esperando que ela me indicasse o santo.O S.Paulo, da Igreja de S.Paulo, onde fui baptizada, e os meus irmaos tambem. Eu e ele na missao mais ao lado e a cassula nesta Igreja, que o ano passado visitei no ultimo dia de Luanda e hoje no primeiro...ele hah coisas! E ainda dizem que hah coincidencias...

Primeira Manhah

Sao 7,57 horas.
Para quem aqui viveu, jah eh hora de levantar.
A cidade fervilha hah muito.O som sobe oito andares e chega-me como musica.
Como no poema - Uma cidade cheia de canseiras, qual abelha nas roseiras...
A minha cidade...isto soa-me a HINO DE AMOR...
Estou tao, tao...que dizer? Feliz. Sim, e outros sentimentos que acabada de acordar nem sei exactamente quais.
O Edgar nao estah jah. Soh ah noite chegarah.Estou entregue a mim propria nesta minha terra, destes tempos que conhesso mal.
Assustada? De todo. A oportunidade de olhar isto com um olhar diferente, sem protessao.
O Tiago ( motorista ) chegarah daqui por uma hora. Acho que eh bravio, por isso tenho que me preparar para domar a fera.Sou capaz...
Vou a S.Paulo. Aqui perto de nohs.Buscar a minha certidao, aos padres, que teem um servisso actual e bastante organizado.
Vou entrar na minha igreja de novo. Paulinha querida, vou ver o sitio onde foste batizada.Onde eu me confessava ao padre Luis, por pecar.Ah belos tempos...depois disso eh que foi pecar e nunca mais me confessei a ninguem.Soh a Deus.
Irei tambem tentar tratar do BI de cidadah nacional.Anh...agora eh que sim, vou virar angolana de papel passado...a burocracia eh mais que grande, feroz, e por isso vou confrontar-me com os obstaculos, mas estou preparada.
O telefone tocou. Atendi. Era o Edgar preocupado comigo. Eu tenho amigos de oiro...
Ela,a Miluh, ontem de madrugada em Luanda e manhah avanssada em Pequim, pedia desculpas por estar lah e nao me ter recebido na nossa terra. Deixou tudo escritinho: telemovel, chave da casa, kuanzas, e um bilhetinho de boas vindas.
Sou uma felizarda e isto transforma-me numa pessoa melhor.
Daqui a pouco, a Nica, empregada cah de casa chegarah. Essa ja conhesso. O ano passado tirou comigo uma foto. Eu e ela. Ficou envergonhada e de cara no chao. Vai chegar e perguntar - D. Clara fez boa viagem? Na falta do que dizer e na falta da intimidade que existe. Vem de Viana. Acorda as 4 horas da manhah, para estar aqui as 8 horas. Apanha o candongueiro ateh ao largo 1 de Maio, em frente ao meu liceu e depois outro candongueiro que a traz ateh ao destino.Diz que vem de taxi. Candongueiro - o taxi de Africa. Pequeno autocarro, carrinha azul, que traz mais uma duzia...
Chegou jah...e foi tal e qual. Mas hoje falou um pouco mais. Fiquei contente de a ver.
Fez as honras da casa e eu sinto uma ternura grande por esta mulher que me procurarah agradar enquanto eu estiver cah. Se a Miluh estivesse agora, diria: Maria Clara deixa-te de frescuras...ela estah cah para isso mesmo. Mas eu estou de ferias e neste lugar onde tudo me deixa com o corassao a tranbordar e a Nica eh uma querida.
E eu oisso o som do dia, sinto o cheiro da manhh, que a Nica abriu a porta da varanda, e jah estah calor, o calor abafado desta terra, cheio de humidade. O sol estah escondido, parece cacimbo.
Ontem quando cheguei, estavam 30 graus. Nao me lembrava jah deste calor assim.
Dormi de ar condicionadao ligado e nao dei por nada. Agora eh que vai ser.Enfrentar o tempo que os outros mortais enfrentam.
Vou ficar por aqui, que vou ah luta. Ou seja, vou beber deste prazer de me sentir completa. De estar em casa e estar em paz.
Vou fazer uma surpresa ah minha mae de Africa, a querida Minda.Nao lhe disse que viria. Do alto dos seus 74 anos,terah concerteza arcaboisso para me ver de surpresa.
Eu tenho a mania das surpresas. Adoro sentir o prazer do prazer que provoco nas pessoas, nestas circunstancias.Por isso vou arriscar aparecer assim, tipo, Tcharam...
Gostava de ser mais conhecedora das almas e dos sentimentos, quer dizer, gostava antes, de saber encontrar as palavras certas para dizer-vos o que eu sinto.
Perdoem meus filhos,Paula, Zeh e mais gente que sabe quem sao, mas...neste momento, nao me falta nada. Peso menos que uma pluma, sou um corassao tao grande como grande eh o meu tamanho e paresso uma pateta, sorrindo de mim para mim, num sorriso que queria eterno...SOU FELIZ.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Do outro lado do Tempo

Ja cheguei.
Foi um dia longo.Sofrido e emotivo.
Mais uma vez a minha viagem transportou-me para alem do lugar, para alem de Luanda.
Mas Luanda eh real.Estah ca.E eu tambem.
Estou muito cansada, buerereh...
Mas gosto tanto de voces que tinha que aqui vir.
Tenho jah tantas coisas para contar, mas hoje nao, hoje so o essencial.
Habituem-se a esta escrita estranha de abrir vogais com hhs, mas eh o que se pode arranjar. O computador ca de casa eh americano e nao tem assentos. Americanices.
Encontrei um aeroporto em obras. Mais limpo, mais arejado e moderno. Foi mais facil ser estrangeira ( na minha terra ) desta vez. Com muito civismo e rapidez.
O que me atrasou foi a mala que nao chegava.
Ca fora pressionaram-me para dar 5 euros. Quando devia mostrar o talao de embarque da bagagem. O patricio estava sozinho, ali a dar ordens ah tuga, entao achou que podia tentar a sua sorte, mas danou-se. Em troca de queh? Queria o talao e teve o talao, ponto.Disse que nao tinha dinheiro comigo, sorriu e preparou-se para pedir a
outro, porque eu la fui cantando e rindo.
Ja passei pela Vila Alice, pelo meu Liceu, pelo Maculusso, e finalmente pela ex avenida do Tropico, Luis de Camoes, onde vou permanecer nestes dias que aqui vou ficar.Jah estive num aniversario e pude da janela do aniversariante ver S.Joseh de Cluny, a marginal e a Ilha. E jah vi que a lua se mantem cheia e espelha no mar a sua luz.Jah vi o mar ao longe, enorme.
Estou cansada e vou descansar.
Voces nem imaginam como estou cansadita.Tenho uma directa em cima. Amanha ha mais, prometo.Isto eh, se a net ligar, que isto aqui eh lento.Hoje a luz faltou varias vezes.
Um abraco maior do que o UNIVERSO