À minha frente, uma tiazorra, de cabelos aloirados e madeixas,( próprio de morenas, que não percebo para que querem elas ser loiras, mas também não tenho de perceber . Cá para mim, são a fingir, de plástico, mas isso é lá com elas ). A tia loirona estava companhada de uma rica filha, miniatura da mãe, mas uma promessa de que seria como sua mãe, num futuro próximo. Caso para dizer tal mãe, tal filha. E estavam enfadadas. Com a menina da caixa e com a cliente, atendida por esta. Por esperarem. Eu não. Estava com todo o tempo do mundo. Já jantara e em baixo como ando, sem pachorra para dar ao chinelo pelas lojas, ou ir ao cinema, apenas queria pagar e de seguida ir para casa, mas num tempo relaxado. Nada de sangrias desatadas que a minha energia está pelas ruas da amargura.
A menina da caixa mantinha o sorriso e a energia. Positiva.
Tia e rica filha finalmente foram atendidas. E não reclamaram, como o fizeram de boca pequena na fila, onde esperaram.
A menina continuava sorrindo pacientemente. Sem ser de plástico. Sorria com os olhos negros e brilhantes.
Chegou a minha vez.
O boa noite papagueado, de sempre, diferente no tom de voz e no olhar. E no sorriso extra.
Foi passando cada artigo até chegar às romãs.
-Não pesou as romãs. Não posso passá-las.
- Aaaaaah! Esqueci-me. E agora? Quero mesmo levá-las.
- Quer lá ir pesá-las?
Mas antes que eu respondesse, continuou:
- Eu peço a um colega que o faça. Não se preocupe.
Olhei-a bem como olhos de olhar e ver tudo claramente visto.
Um porte altivo, olhos bonitos, nariz de judia, lábios finos e pele muito escura, quase negra.
Um rapariga muito interessante. Com uma voz lindíssima, e uma dicção perfeita.
Que estaria a fazer no Continente uma rapariga que parecia perfeita para dar a voz numa qualquer Rádio ou Televisão?
De palavra fácil e sorriso aberto fomos falando até que viessem buscar o artigo para a sua pesagem.
Nadir é o seu nome. Faz desporto. Atletismo. Vai fazer a travessia da ponte Vasco da Gama. A meia maratona de Portugal que terá lugar domingo, 26 de Setembro.
Trabalha no hipermercado só aos fins de semana e acha que também por isso, às 11 da noite ainda mantem tanta energia. Gosta do que faz e tenta chegar ao emprego muito bem disposta ( disse ela ). Está efectiva.
Desconhecia que efectivavam funcionários que apenas trabalham 3 dias por semana. 18 horas. Cada pessoa escolhe as horas que quer fazer e o vínculo não depende disso.
Para além de ser atleta e trabalhar no Continente ainda trabalha num Call Center. Rádio Comercial. Tinha que bater a bota com a perdigota.
A Nadir é portuguesa. Os pais são guineenses. As suas raízes passam por Cabo Verde, S. Tomé, Guiné Conacri e Açores. Esta mistura deu uma menina lindíssima, de uma beleza rara, de tez acastanhada como os são tomenses e feições muito europeias. Dona de uma voz belíssima e de uma simpatia e educação irrepreensíveis.
A Nadir complementa todo este encanto físico com uma atitude muito profissional. E com uma simpatia genuína. A comunicadora nata.
Despedi-me dela dando-lhe os parabéns. Não é fácil encontrar profissionais tão completos nas caixas dos hipermercados. Seres tão iluminados.
Hoje eu precisava de alguém assim para me salvar o dia.
Chegou-me a Nadir e fez-me acreditar que há sempre alguém que nos olha nos olhos e nos vê. E merece ser vista.
Vou torcer por ela na Meia Maratona de Portugal.







