sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nadir, a atleta

Cheguei à caixa do hipermercado com algumas compras. Coisa pouca por causa do peso a carregar. Uvas, fiambre de perú, queijo, salmão fumado, pão, leite, iougurtes gregos, croissants de chocolate e romãs.
À minha frente, uma tiazorra, de cabelos aloirados e madeixas,( próprio de morenas, que não percebo para que querem elas ser loiras, mas também não tenho de perceber . Cá para mim, são a fingir, de plástico, mas isso é lá com elas ). A tia loirona estava companhada de uma rica filha, miniatura da mãe, mas uma promessa de que seria como sua mãe, num futuro próximo. Caso para dizer tal mãe, tal filha. E estavam enfadadas. Com a menina da caixa e com a cliente, atendida por esta. Por esperarem. Eu não. Estava com todo o tempo do mundo. Já jantara e em baixo como ando, sem pachorra para dar ao chinelo pelas lojas, ou ir ao cinema, apenas queria pagar e de seguida ir para casa, mas num tempo relaxado. Nada de sangrias desatadas que a minha energia está pelas ruas da amargura.
A menina da caixa mantinha o sorriso e a energia. Positiva.
Tia e rica filha finalmente foram atendidas. E não reclamaram, como o fizeram de boca pequena na fila, onde esperaram.
A menina continuava sorrindo pacientemente. Sem ser de plástico. Sorria com os olhos negros e brilhantes.
Chegou a minha vez.
O boa noite papagueado, de sempre, diferente no tom de voz e no olhar. E no sorriso extra.
Foi passando cada artigo até chegar às romãs.
-Não pesou as romãs. Não posso passá-las.
- Aaaaaah! Esqueci-me. E agora? Quero mesmo levá-las.
- Quer lá ir pesá-las?
Mas antes que eu respondesse, continuou:
- Eu peço a um colega que o faça. Não se preocupe.
Olhei-a bem como olhos de olhar e ver tudo claramente visto.
Um porte altivo, olhos bonitos, nariz de judia, lábios finos e pele muito escura, quase negra.
Um rapariga muito interessante. Com uma voz lindíssima, e uma dicção perfeita.
Que estaria a fazer no Continente uma rapariga que parecia perfeita para dar a voz numa qualquer Rádio ou Televisão?
De palavra fácil e sorriso aberto fomos falando até que viessem buscar o artigo para a sua pesagem.
Nadir é o seu nome. Faz desporto. Atletismo. Vai fazer a travessia da ponte Vasco da Gama. A meia maratona de Portugal que terá lugar domingo, 26 de Setembro.
Trabalha no hipermercado só aos fins de semana e acha que também por isso, às 11 da noite ainda mantem tanta energia. Gosta do que faz e tenta chegar ao emprego muito bem disposta ( disse ela ). Está efectiva.
Desconhecia que efectivavam funcionários que apenas trabalham 3 dias por semana. 18 horas. Cada pessoa escolhe as horas que quer fazer e o vínculo não depende disso.
Para além de ser atleta e trabalhar no Continente ainda trabalha num Call Center. Rádio Comercial. Tinha que bater a bota com a perdigota.
A Nadir é portuguesa. Os pais são guineenses. As suas raízes passam por Cabo Verde, S. Tomé, Guiné Conacri e Açores. Esta mistura deu uma menina lindíssima, de uma beleza rara, de tez acastanhada como os são tomenses e feições muito europeias. Dona de uma voz belíssima e de uma simpatia e educação irrepreensíveis.
A Nadir complementa todo este encanto físico com uma atitude muito profissional. E com uma simpatia genuína. A comunicadora nata.
Despedi-me dela dando-lhe os parabéns. Não é fácil encontrar profissionais tão completos nas caixas dos hipermercados. Seres tão iluminados.
Hoje eu precisava de alguém assim para me salvar o dia.
Chegou-me a Nadir e fez-me acreditar que há sempre alguém que nos olha nos olhos e nos vê. E merece ser vista.
Vou torcer por ela na Meia Maratona de Portugal.

outonamente

Hoje sou Outono.
As horas parecem brincar com a minha paciência.
O sol se escondeu de mim, escurecendo o meu dia.
E tenho frio numa falta de agasalho que sinto sempre.
Cai dos olhos da minha tristeza, uma chuva negra de pena e dor.
Uma semana mais.

Uma semana menos...
Hoje sou Outono.
Se a vida fosse um filme, era agora que o parava num intervalo prolongado.
Para hibernar.
Até que a chuva se tornasse clara e cristalina.
O relógio não marcasse horas.
O sol me iluminasse as noites e o calor me aquecesse num agasalho de alma, nos dias que tenho para viver.
Num para todo o sempre...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fazer sentido

Fazer Sentido

Quero acreditar-te hoje e aqui
Por mim, por ti...
E se soprar por um instante
A brisa de uma lembrança
E o momento me transformar em criança
Quero brincar nos lugares esquecidos
Da antiga infância
E cantar
Uma canção que me embale
O sonho que nos faz gente
Quero olhar-te
Contemplar-te...devagar
Reter-te...
E atravessar-te o passado
Sem sair do presente
Beijar-te a alma de perto
E tocar a tua pele
Com palavras de verdade
Deste querer acreditado
Que venceu a nossa idade
E no pôr do sol deste dia
Nas rugas da sua partida
Perceber quem somos nós
Dar um sentido à vida.

( por m.c.s. )

as diferenças

Não foram precisos mais do que dez minutos. Apenas dez minutos e criaturas ainda em fase de aprendizagem, disseram-se frases insultando-se e a outros, numa atitude de me deixarem com os cabelos em pé, de cólera.
Como se não fosse com elas e na forma de insulto, ouvi ao longo de apenas dez minutos de viagem frases como:
Dá cá isso seu paneleiro; Aquela preta da turma da Irina; Estás cego ou quê?; Cala-te loira burra; O kota hoje acordou com os pés de fora; O gajo é coxo...
Aposto que a continuarmos todos em viagem e ainda ouvia falar dos comunistas, dos testemunhas de Jeová, dos ciganos e com um pouquinho de sorte algum se lembraria de ter ouvido ao pai falar dos retornados.
Eu sou de apetites. E esquisita. E tenho dias. E hoje não estou no melhor dos meus dias.
Não estando para amar pensei que podia ser implicância minha. Mas não. O que se passa é que estou com ouvidos de tísica e tolerância zero.
E apeteceu-me distribuir bofetões. Não por eles. Não.
Numa coisa mais justa. De igual para igual que não somos iguais apesar de sermos da mesma geração.
Com os paizinhos e educadores destas criaturinhas. Onde é que andam? Que não ensinaram a esta nova geração algo fundamental. O respeito pela diferença.
E com o rei na barriga, distribuem insultos por tudo o que mexe e não é como eles. Afinal, somos couves?
Que pais estes...
Que geração a minha...
Que país este!
Decididamente hoje não estou para aqui virada.
Até porque ontem adormeci com a pior notícia que se pode dar a alguém e coloquei-me no papel desses alguéns, infelismente muito chegados a mim. E hoje acordei com as entranhas às voltas, a cama, o quarto, tudo a rodopiar. E ainda estou desse jeito.
Talvez por isso, porque hoje o ar pesa mais e custa a respirar e há quem não respire, é que a minha tolerância é zero.
E por isso me pergunte que anda esta gente a fazer, se não fazem um esforço para evoluirem e serem felizes. E ser feliz não é isto. Este ódio no coração.
Tanta gente que parte, que queria tanto viver, ensinar e receber os ensinamentos que a vida nos vai dando, ser feliz...

a nova, velha estação

A tarde já vai a tombar na noite. A primeira deste Outono. Na cidade. Do Almonda.
A parecer cacimbo. Só falta a chuva clara numa tarde de estréia. Para ser perfeito. Este novo tempo...

os meus diospiros

Aqui está uma fruta que eu adoro. E este ano ainda não lhe tinha posto a vista em cima, nem o dente...
Nos hipermercados vendem-nos todo o ano. Mas desenganem-se se acreditam que a fruta é toda igual. Mas é que não é mesmo.
Estes, ajudei eu a apanhar. Directamente da árvore. Do quintal da D. Laurinda.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Outono pintado de fresco

Eu - Que gaita, hoje começa o Outono.
Amiga - É bom!
Eu - É bom é!...
Amiga - Como é que a gente chega à Primavera, se não passar o Outono?
Eu - Ahahahahah! Já fui fintada. Mas também está bem...
Ao telefone com uma amiga de sempre, que sempre sai para a rua, olhando os caminhos sombrios com a mesma expectativa que olha os espaços verdes, da esperança e da alegria.
Uma amiga que escolhe sempre o copo meio cheio, para contrabalançar com o meu copo muitas vezes, meio vazio.
Graças a Deus, que existe o equilíbrio das coisas.
É o Outono pintado de fresco!...

No mínimo simpático

Hoje recebi um e-mail no mínimo, simpático.
Mas também, de profissional. De profissional leal e preocupado.
Escrevi acerca da minha saga com a Meo, aqui, e há pouco tempo.
Precisamente, saga Meo, o nome do post.
Hoje recebi um mail, de um funcionário da PT, dizendo que chegara ao blog e lera o post, saga Meo. Até aqui tudo normal.
Mas o que diz a seguir é que me fez rir a bom rir. Não que estivesse a troçar do senhor, longe de mim que já lá vai a idade em que tudo servia de troça numa superioridade (?) besta de me colocar num patamar acima dos comuns mortais e gozar o pagode. Sendo que eu e o pagode éramos a mesma coisa. Luanda, África é bem " culpada " desta conduta, pois ali gozamos até de nós próprios, e as situações, assim, ridularizadas tornam-se mais leves e desvalorizadas. Mas pronto, nem tenho a idade da inocência, nem estou em África, nem tenho as minhas amigas do continente amado por perto.
Então porque me ri? Porque acho sempre que o blog é tão caseirinho que ninguém o descobre. Santa parvoíce. Pois se escrevi, saga MEO, obviamente que MEO aparece associada ao meu blog.
E acho sempre também que o que escrevo tem pouca importância e não motiva pessoas que não sejam as minhas, ou as outras, as invejosas ( anónimas ) a escreverem, comentando.
No caso, não foi no blog, o que também percebo, mas foi ainda mais personalizado. Directamente para o e-mail. E não era conversa para inglês ver. Era oferecendo os préstimos.
Que bonito Sr. P.A.. Gostei que quisesse defender a sua dama, ajudando-me. Lealdade a quem nos paga, acima de tudo.
Ri-me, não de si, mas do que eu poderia ter escrito. Já não sabia bem se tinha sido, assim, meio inconveniente ( o que não é difícil ) ou se não teria batido muito no ceguinho.
Como boa angolana que sou, a seguir às gargalhadas saiu um Euêeeee! Mas isto é só uma interjeição nossa ( angolana ) a que não vale a pena ligar.
Obrigada pela atenção. Vou responder-lhe, sim, porque para além de ter essa obrigação, ainda não tenho o problema resolvido. Até já fiz o pedido para mudar a televisão para MEO satélite e afinal o senhor técnico ainda não me contactou para proceder às devidas alterações dentro da minha casa.
A saga continua, mas agora tenho alguém simpático e bom profissional, porque os há, que me vai ajudar. Benza-o Deus!

verdade, verdadinha

Hoje recebi um e-mail com um pensamento bonito que me fez vir aqui e publicá-lo. Quem mo mandou gosta de mim e sabe que eu preciso de receber palavras...bonitas e bem intencionadas de vez em quando, quer-se dizer, sempre.
Até porque na nova estação tudo parece estar para terminar, ou a vida é apenas feita de nadas que se viveram na estação anterior e por isso pouco. Muito pouco para quem tem a ambição de Viver e Amar...

Eis o pensamento :

" Viver...é chegar onde tudo começa...
Amar...é ir onde nada termina... "

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Weezer - Island In The Sun (Spike Jonze Version)

Para além da música, apreciem este vídeo deliciosamente ternurento. Queria ser eterna só para tocar pequenos céus com as pontas dos dedos assim...deste jeito.

sinto-te a falta

SINTO-TE A FALTA

SINTO-TE A FALTA
No que causou o breve instante
Estranho, Raro que o vazio não apagou,
De mim em ti perdida no tempo
Que passa e não passa pela tua ausência,
No que restou da tua presença

SINTO-TE A FALTA
No que me ficou do teu olhar...
No brilho travesso de quem vive a brincar
E no sorriso rasgado que nada promete
E convida a sonhar

SINTO-TE A FALTA
Na cor que recordo, minha terra quente
Tua tez morena, brisa pálida e amena do sol do poente,
No cheiro africano, do timbre sedoso
De ano após ano falando fogoso daquele lugar

SINTO-TE A FALTA
Na prosa... alegre e nervosa que já partilhámos
Idéias, passados, futuros
Que ambos buscámos
No beijo denso duma partida
Do silêncio intenso gritando por vida
SINTO-TE A FALTA
Na falta de sempre duma vida inteira
Desde a vez primeira até ao Presente.

( por m.c.s. )

Boyzone - Better

Recomeçar

Chegaste no cair da noite
Na hora do aconchego
E trouxeste os anos verdes de então
Das manhãs frias de cacimbo
Das tardias madrugadas
Chegaste com o poente
Com o mistério do sol vermelho
Com a lua cheia
Da cor do outro lado do tempo
Onde o mar é mais quente
E a vida corre devagar

Quisera
Em vez de parar o segundo
Respirar cada minuto
E no vazio escuro do futuro
Ser tudo de novo
Preencher cada lugar
Encontrar os dias e as noites
Que não soubemos sonhar
E voltar a amar...

( por m.c.s )

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

o perfume (im)perfeito

Sentei-me. Mesmo em frente à porta. Lembrei-me da Mimi. E do acidente. Acho que me vou lembrar para sempre, depois do relato que lhe ouvi.
Ainda não estava bem acomodada, quando atrás de mim, uma miúda da escola secundária Artur Gonçalves, disse:
Eh meu, este cheiro! Faz-me alergia. E a comprová-lo, dois espirros seguidinhos.
E depois: Ai o c......, senhor motorista, ande lá com esta m.....
Eu já fui desconfiada. Depois curei-me. Mas algo me disse que era o meu perfume a fazer bordoeja na menina da escola secundária.
Estou careca de saber que já provoquei alergia, com perfume ou sem ele, como se esfregasse repelente na pele, num pernas para que te quero, que não te quero, vou-me embora antes que se faça tarde, mas uma miúda desejar pôr-se a milhas por causa do meu perfume, só esta idéia a dizer-me que podia ser verdade, me arreliou e entristeceu.
O mete nojo da miúda enervou-me tanto que me forcei a pensar se não seria um aviso.
O meu perfume tem classe. É distinto e não sou única a usá-lo. Roubei o gosto de uma amiga e preveni-a. Vou usar este perfume, para mudar do meu para outro. É uma amiga de bom gosto e com classe e além do mais vemo-nos pouco, por isso menos grave este copiar perfume de amiga de infância, que usava marlene ou chanel avulso que comprávamos na drogaria do " Rabeca " alcunha posta por nós ao filho do dono da drograria, na Senado da Câmara, quando éramos pitas e já queriamos cheirar que nem crescidas. Porque em casa apenas havia Lavanda e Bien- être, e já gozávamos.
À tempos quis mudar, para algo que me deslumbrasse, que tivesse sido escolhido por mim e fosse como que, só para mim, numa exclusividade que toda a mulher gosta.
Entrei na Douglas. Entro, permaneço e até outro dia, sempre na Douglas porque é uma perfumaria simpática, mais barata ( não sei como fazem isso ) fazem uns embrulhos giríssimos e dão coisas. Amostras. E até já me presentearam com um baton de bolsa. Que mais quero? A Douglas, claro.
Entrei. Uma menina bonita e simpática perguntou-me que aromas já usara. Disse do Poême e do Narciso Rodriguez, que foram os últimos, exceptuando quando alguém oferece, como a Pipoca ou a caçula.
Resposta dela: Acabou com o Poême, fez muito bem. Não se arrependa.
Oh e eu não sei? Não, mas é que nunca mais uso Poême.
Quanto ao Narciso Rodriguez, esse, posso dizer-lhe que é diferente. Se lhe lembra coisas más é pena, porque é um perfume especial.
Oh e eu não continuo a saber? Nunca se sabe se um dia o usarei de novo. Pode ser que me dê uma branca, tipo apagão total e eu queira sentir de novo o aroma de um perfume especial.
Sobre o Midnigt, continuou ela, nunca diria que o escolheria. Não é a sua cara. É bom, mas lembra o frio, gelo, sabe o que quero dizer?
Ri-me. Pode ser que ela tenha razão. Não foi a minha praia, não. Talvez não seja a minha cara, mas que dificuldade em deixar de o sentir...nem mesmo os espirros da miúda do autocarro me convenceram, ainda. Foi uma época, que se prolonga em mim, inexplicavelmente.
Naquele dia, a menina da perfumaria apostava num perfume entre estes dois. Um cheiro fantástico, que não conhecia. Encheu um frasquinho de amostra e deu-mo. - Quando terminar o seu compre este, vai ver que vai gostar. Tem tudo a ver consigo.
E não é que eu acho que tem?
O que me impediu de o comprar?
O que me impediu de o usar?
Dificuldade em abandonar o outro. O dos espirros.
Porque pensei que era traição?
A menina não me disse como se chamava este que me assentava que nem luva.
E parece que é coisa dos céus ou dos infernos, coisa encomendada, porque cada vez que vou à Douglas, procuro a conselheira, e não só não a encontro como qualquer outra desconhece este cheiro.
Será que foi um sonho? Um sonho cheiroso?
Se foi não quero acordar. Porque esse cheiro que os sentidos têm a par com as emoções ainda conservo em mim e acho que vale a pena.
Hei-de mudar de perfume. Hei-de deixar de provocar espirros, melhor dizendo, alergias, num adeus ó vai-te embora. Até ao meu regresso. Vai esperando sentada ou então vai ser se estou na esquina.
Macacos me mordam se não hei-de mudar...

trevas

Vivo no Mundo.
Não habito aldeias nem vilas. Não sou citadina nem campónia.
Vôo nas asas das aves reais.
Subo aos céus, ignorando insectos e fintando aves de rapina. Diariamente...
Ao domingo à noite, habito as trevas.
Não tenho morada.
Esqueço o endereço e não moro sequer em mim.

domingo, 19 de setembro de 2010

Fomos Grandes!

BENFICA 2 - SPORTING 0
má nada!

confessando-me

Às vezes esqueço-me de mim.
Quando me lembro demais dos outros, esqueço-me de mim.
Às vezes preciso de me encontrar...
Às vezes fecho a porta, dou à chave e olho para dentro. Por dentro, para fora.
Hesito.
Desço escadas. Desço sempre escadas. Com a sensação que não vou completa.
Que há algo que ficou para trás.
Pode ser telemóvel, os brincos, o perfume, os óculos, o baton, o cartão de livre trânsito...pode ser paciência, tolerância, optimismo, ou vontade de cumprir o dia...
Às vezes esqueço-me de mim, mas não me faço falta porque tenho outros.
Estou desatenta de mim até que acontece algo que me faz dizer: maria clara, encontra o equilíbrio necessário para continuares. Não percebo isto até que chegam a mim os sinais que me dizem que se me esqueço de mim, esqueço o melhor dos outros e o pior também.
Se tenho de enfrentar dias difíceis e baixo os braços, e desanimo, pergunto-me sempre porque me deixei fechada, bati a porta e parti incompleta.
Preciso de mim inteira quando entro pela vida da minha irmã e lhe vejo o cansaço, o olhar triste, a resignação. E olho o meu cunhado que me olha com uma ternura, quase imoral ( porque eu tinha de estar sempre e não estou ).
Esqueço-me de mim, fechada para lá do que as pessoas podem ver. E faz-me falta Aceitar. Pactuar com eles, fingir que não é difícil, rir livremente, espalhando sorrisos cristalinos, como ri a Paula numa triste e doce demência, que me fere a alma.
Queria estar inteira e entrar nessa esquisofrenia e não serem dois, sermos muitos, Acreditando.
Ontem, saí de casa e não tranquei aporta. Esqueci-me e deixei espaços próprios para que a saudade do meu pai fosse uma lembrança do tamanho duma dor que não passa. Passaram tantos anos, mais um, e eu não esqueço que ele foi o melhor pai do mundo. Desejei ser pequenina e estar deitada ao seu lado, no quarto, e suplicar-lhe mais uma vez, a última vez, fazendo beicinho, que me contasse a história do cabritinho. Que tinha muitos filhinhos, que lhe saiam da barriga, que abotoava com botões. Uma história que percebi mais tarde que estava errada. Durante anos não soube que havia género. O meu pai chamava cabritinho à mãe, porque tornava mais bela e fácil a sua narrativa aos meus olhos e imaginação de criança.
Ontem não consegui tomar conta de ninguém. Nem da minha filha que precisava tanto mitigar as mágoas de se ver amiga duma menina de vinte e sete anos que está a braços com um AVC, internada há uns dias. Só ouvi, só fui dizendo que sim com a cabeça, não com o coração, como ela precisava.
Ontem não consegui sequer tomar conta de mim, porque me esqueci de mim, lá dentro, quando fechei a porta em Lisboa.
À noite, como todos os domingos, uma amiga ligou-me. Disse como sempre - Onde está, Coração?
É assim que me trata sempre que fala comigo ao telefone, ou quando chega junto de mim ou se despede. E eu sinto-me um Coração enorme, como aquele que a gente fazia na escola, com o nome dentro e uma seta na direcção de outro coração. Ela afaga-me a alma sempre que chego de Lisboa. Conquista-me todos os domingos um pouco mais e eu sou Gratidão a jorrar de todos os poros.
Que estava à minha espera, que tinha restos para jantarmos. Que o Rafael não queria dormir sem que " a tia clara " chegasse. O beijo e o abraço deste menino que ela adoptou e a quem eu dei o primeiro banho na sua casa e a primeira papa, e os restos que comemos todos os domingos e porque só eu como desses restos ali com eles, fazem da nossa intimidade algo muito fraternal e seguro. O ombro, a mão, a presença, a certeza...
Fui de encontro a esses afectos por estar esgotada de tanto me esquecer de mim. Precisava que ela me dissesse que eu não posso desistir, que eu sou forte, que eu consigo tudo se quiser. Precisava que me dissesse que ela nunca se esquece de mim e que mesmo que eu me esqueça, ela nunca se esquece de me lembrar que eu também tenho esse direito. De falhar, de ser igual a toda a gente...
Ontem, salvou-me a noite, a minha amiga e o meu filho. Este que me ligou perguntando se eu já tinha chegado a Torres Novas, porque não lhe tinha dito nada. Estava tomando conta de mim como faz todos os domingos, longe mas muito perto.
Às vezes esqueço-me de mim...
Quando me lembro demais dos outros, esqueço-me de mim...
Às vezes preciso de me encontrar...

Este texto foi escrito, não no blog porque ainda não existia, e teve endereço, o ano passado dois dias depois de fazer anos que o meu pai partira. Um ano depois, o meu filho voltou a Lisboa, a amiga da minha filha melhorou, a minha amiga não me telefona ao domingo à noite porque a vida dela mudou, porém em nada foi alterada a nossa amizade, o Rafael cresceu, e eu a cada domingo como o domingo que me provocou esta escrita, me sinto a fechar a porta, descer escadas, e a partir com a sensação que não vou completa...as minhas dúvidas, as minhas culpas, as minhas rotinas, os meus sentimentos mantêm-se iguais e passou quase um ano.
Hoje é domingo, mais um domingo que parto incompleta...

" Kurikuté " - Sara Chaves

Sabiam que vai haver metro em Luanda? Metro de superfície. A Linha será - Cacuaco/ Benfica.

dar

Hoje é uma data importante para mim.
Mas é segredo. Apesar de não me dar bem com segredos, este guardo-o a sete chaves e nem que me torturem eu o revelo. Coisas minhas. Uma questão de escolha.
Há-os que não vale a pena guardar. Nem fazem mossa. E a gente solta-os. Deixa-os livres. Que eu não gosto de correntes. Grossas. Estrangulantes. Comprometedoras e vinculativas.
Mas há-os, eles os segredos, que são mágicos, por não serem divulgáveis. Por não serem exigentes nem trazerem pedidos de confidencialidade.
E este eu quero-o assim, livre e mágico. Quase irreal. Assim como que, virtual.
Mas nem seria eu se não levantasse uma ponta do véu, para dizer que este segredo assenta em acordes musicais.
Oiço a melodia suave que me domina a emoção. E tenho de o comparar à canção.
" Aubrey ", é o som repetido, cantado, mil vezes trauteado, que me faz pensar que vale a pena guardar um segredo numa gaveta do meu coração. Como perfume. Como ilusão. Ou gratidão.
Há sentimentos nossos que nunca devem ser revelados.
Há dias assim. Histórias que começam assim:
Dia 19 de Setembro de um ano qualquer...
Que têm como: Ponto parágrafo, mudar de linha... um abraço maior do que o Universo.
;-))

sábado, 18 de setembro de 2010

Chofer de Praça by Luiz Visconde

a ervilha

" Que mais irá acontecer?!Só me falta chegar a Oriente, entrar no taxi e ser o taxista que me levou para o Olival dois dias seguidos. À terceira é de vez. Mas desta, troco-lhe as voltas porque não vou para o Olival. "

Estava eu ainda em viagem, Riachos/Oriente, quando escrevi o que acima inicia este escrito e foi o fim do post que descreve a minha viagem.Mas não. Não dei de caras com o motorista bisado a semana que passou. Cheguei e fui jantar ao Vasco da Gama. Ao Vitaminas, coisa rápida e ligeira. Em seguida fui comprar uns chocolates, bombons, etc, para levar a uma amiga doentinha, que está em recuperação lenta, mas a passo certo.

Depois fui apanhar um taxi.O taxista perguntou-me por onde queria ir, para Odivelas.Disse que tomasse o caminho para o senhor Roubado que a seguir estava por minha conta. Perguntou-me pelo nome do bairro. Esqueço-me sempre. Lembro-me sim que em 75, quando comprou a sua casa ali, íamos à noite, com uma lanterna rua acima por entre prédios em construção. A ruaainda não tinha candeeiros e nem nome tinha. Era a rua projectada a...E disse ao sr. taxista que o bairro tem mais de 35 anos. Construido quando os retornados chegaram de África. A partir daí a conversa fluiu. Quando dei por isso estava a dizer-me que era de Angola. E eu a ele. De Luanda. Mais novo que eu, uns 10 anos, disse-me que talvez conhecesse os primos. Da escola comercial. Não por isso, que eu estudei no Feminino, disse-lhe. Mas sou da avenida Brasil, Vila Alice e tal e coiso...como é que se chamam os seus primos? Numa de ser quase impossível. Como é que eu ia conhecer os primos da criatura? Luanda não é uma ervilha (?).Respondeu - H.P, C.P. e E.P.Oh!Oh!Oh! O E.P. é meu amigo do peito. Casado com uma kamba de infância. Ele estava estupefacto. Eu menos, mas muito hilariante. A mim, acontece-me de tudo. Até encontrar um primo dos meus amigos como irmãos, nestas circunstâncias. Mal dando por isso, já estava a dar-lhe palmadinhas no ombro e a falar da família toda que eu bem conheço.Quando cheguei ao meu destino, telefonei à minha kamba.Advinha quem foi o taxista que me trouxe? Primo do E....Primo? Taxista? Não sei.Chama-se Celso, vê se pode. Amiga, só a mim...O Celso, taxista? kiákiákiákiákiá...ela a rir que não parava e eu idem.Maria Clara, ganhaste!Foi uma diversão. Cinco mulheres a rir e o Celso que parecia azambuado com tudo isto. Graças a este episódio improvável,o Celso viu a minha amiga, a minha amiga do acidente de Marrocos, que eu ia visitar, a minha amiga irmã das outras duas, que está cá de férias, e outra amiga, a Linda que está sempre onde estão as outras. Parece uma coisa banal, primos encontrarem-se. Mas estamos a falar de angolanos. Só por isto, já é uma festa e depois, as famílias estão separadas. Uns em Angola, outros em Portugal e há quem esteja em Londres, em Paris, Brasil e outras paragens. Quando as pessoas se revêm é uma alegria.Afinal foi também para mim, um final de viagem, feliz.O mundo é mesmo uma ervilha e elas que acham piada a esta designação, repetem-na com convicção. Se eu cumprisse à risca o que as crias me dizem a propósito das conversas com os taxistas ( que eu dou e eles recomendam que não dê) não teria conhecido o primo do meu amigo, ele não se teria encontrado com esta família linda, nem teria visitado a minha amiga acidentada e em convalescença. A vida é um risco que nos traz coisas más e boas. Não viveremos as boas, se não arriscarmos.
Quando acabei o post da minha viagem, não imaginava que o improvável, pode acontecer, nem atentei nisso. Embora eu saiba pelas experiências que já tive, que sim, e é por essas e por outras que eu acho que um dia vou ser brindada com o euromilhões, um dia vou para Angola de vez, um dia ainda vou dar de frente com pessoas e situações " perdidas " que hoje me parecem improváveis ou mesmo impossíveis.
Desconfiando sempre, não há quem confie mais do que eu, asseguro-vos.

nova estação

Olho o caminho que os meus olhos vêm. Por cima do ombro.
O verão já lá vai. Não há razão para olhar para trás. Quero escrever fim com o punho firme. A caneta permanente. Sem saudosismo nem hesitação, ou sentimento duvidoso.
Agora há que esperar o tempo das chuvas, do vento e do frio, geada e neve. De vez em quando, o sol brilhará envergonhado, primeiro. Depois permanecerá num canto resguardado. Protegido. Para os dias piores. Aqueles em que vivo as saudades mais do que os sonhos. Aqueles em que os amanhãs já aconteceram e ontem foi há tanto tempo, que parece foi fruto de imaginação enferma.
Como sempre, vou olhar para a frente, não esqueçer o tempo que acabou e confiar nos astros.
No meu sol que me iluminará nesta estação outonal e inquietante.

a nata da nata

É a 2ª vez, esta semana, que vejo a Grande Reportagem, da SIC, sobre Discos Pedidos. Numa rádio de Mirandela. Trás-os-Montes.
Que grande reportagem! Que delícia de trabalho!
Eu conheço jornalistas. Eu conheço trabalhos de jornalistas.
Eu conheço os meandros das rádios locias. Muito de perto. Muito de dentro.
Eu conheço Trás-os-Montes. A terra, as vivências. Os sotaques. As suas gentes. Os seus anseios e dificuldades. As suas solidões. Os seus sentires.
E sei-me sensibilidade. E sei da riqueza das almas puras. Que me deixam " à beirinha " das lágrimas.
Este trabalho da SIC deixou-me numa santa paz.
Cheia de orgulho das minhas origens paternas.
Os jornalistas nem sempre são benvindos ou compreendidos.
Fazem trabalhos fantásticos. Este é um deles.
A SIC e a equipa que fez esta Grande Reportagem, está de parabéns.
A jornalista: Sofia Arrêde. Sob coordenação de Cândida Pinto.
Aconselho a que vejam.

casamento de amiga

A jornalista Ana Garcia Martins casa hoje.
Provavelmente hoje realizam-se muitos casamentos. Cerimónia. Festa, roupas bonitas, beijos e abraços, família e amigos. Fotógrafos. Pétalas de rosa e arroz. Votos de felicidade e de união para sempre.
Nada de anormal.
Mas esta não é uma Ana qualquer. Não é uma jornalista qualquer. Para mim.
Esta é amiga e colega da minha filha. Tanto que esta última vai ser uma das sete madrinhas de casamento.
E também uma menina de quem eu gosto e a quem eu estou muito grata.
Alimenta a minha vaidade e cuidados pessoais, surpreendendo-me com presentes. Perfumes, sacos, cremes disto e daquilo, batons, rímeis, eu sei lá, um sem número de produtos que lhe chegam às mãos e que ela manda para " a mamãe " como diz.
Mas a Ana é também " A Pipoca ". E é só a menina mais invejada de Portugal, um concurso feito pela SIC que lhe deu o título. E a ela pertence o blog que está entre os seis mais lidos. A Pipoca mais Doce.
E por isso hoje vai ser notícia.
A Pipoca Mais Doce casa hoje. Com o Ricardo. Que é jornalista também e uma boa pessoa.
A minha cria vai ser madrinha e aposto que este casamento vai ter muita, muita gente linda.
Quero apostar também na felicidade dos noivos.
Quero que seja um dia muito feliz.
Quero que eles sejam muito felizes.
Parabéns querida Ana e Ricardo.
Um abraço maior do que o Universo.
Façam de tudo para serem muito, muito felizes.

comemoração de casamento

Hoje, 18 de Setembro, faz 45 anos que se realizou este casamnto. Os meus tios, Augusto e Fernanda, uniram-se pelo matrimónio, numa união para sempre. Aqui estou eu e o mano Zé em pose.
Parabéns tios. Pelo amor que vos fez unirem-se e os manteve até hoje.
Parabéns também, porque para além da vossa vida comum tiveram dois filhos especiais. O Paulo e o João.
Tenham um bom dia de aniversário. Abraços e beijos, meus amores.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

tangente

De repente vi-me a telefonar para que me levassem à estação dos comboios. Por causa de um telefonema. Chegarei mais cedo a Lisboa. Vou ver pessoas. Amigas.
Foi à tangente com o comboio. Mas mais à tangente que eu, foi um homem que aguardava o comboio no sentido errado. Perguntou-me. Disse-lhe que para o Entroncamento era na outra linha. O meu comboio vinha lá e na outra linha vinha outro. Antes de resolver atravessar fez menção a um ramo de flores atado a um poste, mesmo aos nossos pés.
- Foram dois velhotes, irmãos, que morreram aqui. Foram colhidos - disse-lhe.
Mal acabo de falar e já ele está na linha para passar para o outro lado. Vi o comboio perto. Gritei-lhe. Ele não parava nem voltava para trás. Gritei de novo.
-Oh homem, você morre, saia daí...
Virou-se para mim. Hesitou. E voltou para trás. O comboio apitou e passou fazendo deslocação do ar. Era o Alfa.
Tinha conseguido passar - disse-me com um ar inexpressivo.
Não lhe respondi. Estava gelada e com vontade de vomitar.
O meu comboio chegou e apressei-me a entrar nele sem sequer olhar para trás.
Quando me sentei, vi-o. Na mesma posição.
Sentei-me e tirei a carteira.
Chegou o cobrador. Sorridente. É sexta-feira.
Ainda estava a fazer taquicardia.
Tirei 10€ e ele perguntou-me para onde ia.
Oriente, respondi.
Entrou na cidade de Riachos?
Fiz uma careta parecida com um sorriso.
Já tenho visto cidades mais pequenas - continuou ele.
Eu não. Mas vilas muito piores há aos montes. ( Riachos era aldeia, a maior de Portugal e passou a vila já há alguns anos )- respondi de, conversa fiada.
Entregou-me o bilhete.
- Deixe cá ver então o que é que eu quero mais da senhora...
Apressei-me a dizer-lhe: Nada. Que eu saiba.
Deu uma gargalhada. Já sei. Cinco cêntimos. Mas se tivesse 2,05€ era maravilhoso.
-Não seja por isso. E dei-lhos.
Ao longo da viagem, percebi que este profissional, para além das funções, gosta de inter agir com os utentes. E senta-se na carruagem ao pé de nós, fala com uns e outros e mete-se com os putos. Parece-me bem.
Que mais irá acontecer?!
Só me falta chegar a Oriente, entrar no taxi e ser o taxista que me levou para o Olival dois dias seguidos. À terceira é de vez. Mas desta, troco-lhe as voltas porque não vou para o Olival.

mito?!

Ao balcão, uma mulher morena de rosto marcado, e com um ar simpático. Sorriu, cumprimentou e disse que queria dois registos criminais. A Mena, preparou-se para a atender. Perguntou a finalidade. Visto em passaporte para um, emprego no estrangeiro, para outro. Ambos para entregar no Consulado. Disse-o sorrindo e olhando para mim. Acrescentando - para Angola.
Sabia que a conhecia de algum lado. É aquele tipo de pessoa que a gente não esquece.
- Eu conheço-a mas não sei de onde, disse-lhe.
Daqui. Tirou-me o registo criminal , e estivemos a conversar sobre Luanda. Nasceu lá não foi?
Fiquei com a idéia que foi há muito tempo que ela estivera ali.. Antes de ter voltado a Luanda em 2008.
Disse-lhe que ia voltar. Para sempre? perguntou.
Como se fosse simples. Como se fosse óbvio. Como se fosse o meu destino. Como se lhe tivesse dito que é o meu sonho maior.
Disse-me que veio em Junho. Volta para outra empresa. Desta feita, para Benguela.
Que gosta de África. Que gosta dos angolanos. Da terra. Do clima.
Que África tem um mistério qualquer que nos prende. E que nos deixa ir ficando...
Gostei de vê-la. E de ouvi-la. É uma mulher com cerca de 30 anos. Portuguesa. Desta leva. O que a fez ir para Angola foi o emprego e o espírito aventureiro. Só.
E foi conquistada. E está rendida.
Há pouco tempo atrás alguém me dizia que essa coisa do feitiço por Angola, que os angolanos, os portugueses que lá viveram e vivem, os tropas que estiveram na guerra colonial, todos apregoam, essa magia e esse encanto, era um mito.
Não concordo, evidentemente. É antes uma coisa grandiosa.
Angola já se entranhou nesta mulher do registo criminal e ela não tinha laços nenhuns a África.
Mito? Não. Chão, terra, cheiro, sentidos. Entranhas. Alma.
Um lugar divino, onde Deus habita.

Eu ia...

" Eu ia..." " Eu acho que não..."
Disse ele. O treinador maravilha.
Comentando o part-time neste pedaço de jardim relvado, à beira mar plantado.

integração

Espirrei. Um daqueles espirros que eu dou, que me mandam para o hospital com uma crise na coluna.
Atendia um utente a propósito de um R.C..Ucraniano.
Ouvi de imediato, sem ainda me ter recomposto do chinfrim que fiz.
- Santinha!

preconceito

Ouvi:
- Então, oh Vitória, o teu neto está a gostar da escola?
- Está. Nao estranhou. Perguntei-lhe assim:
- Então Daniel gostas da tua professora e ele respondeu:
Oh avó, ela é gorda, MAS eu gosto dela.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

a saga MEO

Por vezes penso que se em vez de ser o cão que me morde a mim, sou eu que mordo o cão. Porque a isso me fazem chegar. E pensar. E ficar baralhada. E não saber já se o mal é do cu ou das calças.
Nos últimos dias eu e a PT a PT e eu, eu e os técnicos eles e eu, foi uma " movida ". Aliás há um que se chama Leocádio que já me calhou em sorte, azar o dele, por várias vezes. Tem um sotaquezito qualquer que o identificou logo à segunda.
Depois de falharem três dias seguidos, FOI HOJE.
D. maria costa, fala-lhe da PT. Por causa da avaria. d. maria costa, poderá atender-me então?
( Arrrrrrrrrre para o d. maria costa, que fiz o homem alterar para clara santos ).
E eu, que sim, mas só a partir das 7 horas.
Chegou às 7,20horas. E começou mal. Colou a campainha ao tocar no rés de chão e parecia o dia do juízo final cá em casa. A Pitanga assustadíssima via inimigos por todo o lado e corria louca pela casa fora.
Fi-lo descer ao rés de chão para soltar o botão. Voltou. Educadamente, apertou-me a mão.
Vamos então saber o que é que se passa - disse-me.
Expliquei. Explicou. Que já tinha estado a partir do exterior a reparar a avaria. Mas então não é do ruter? perguntei eu. Não, disse ele. E mais meia dúzia de explicações. Falou com outro técnico que estava na central. Falou-me de armários e de cabos. Não percebo nada dos termos técnicos. Nem quero perceber. Só quero mesmo é o telefone, a televisão e a internet.
Esteve de volta do assunto cerca de 1 hora. A Pitanga que é uma desavergonhada deitou-se bem aos pés dele, de barriga para o ar, como fazem os cães, para receber festas. O homem não quis nem saber, claro. Pouco satisfeita com a indiferença, tentou trepar-lhe pelas pernas acima. E vi-me pela primeira vez na vida no papel que tenho assistido tanto outros fazerem e que às vezes me dava uma gana, de responder torto. " Ela não faz mal. Só quer festas. " e ele, coitado esticou o braço abriu a mão e fez-lhe uma festa na cabeça que a minha Pitanga até se consolou toda. Oferecida esta gata.
Claro que a tirei dali, porque a minha casa não é a casa da Joana, por isso quando não há decoro, vai recambiada num, ala moço, que se faz tarde.
O senhor técnico, quis ir ao quarto, verificar se a cama estava feita, mentira, estou a brincar, perceber porque no quarto a televisão não funcionava. Afinal, coisa simples. Bastava desligar a box e voltar a ligá-la. Ontem suspeitei disso. Andei a tentar perceber se havia algum interruptor. Não o encontrei. Mas não encontrava mesmo, porque eu, as minhas mãos e habilidade, somos um trio imperfeito. Que falta faz um técnico em casa! Só me apetece dizer : Meninas, quando juntarem trapinhos perguntem primeiro se:
Sabe mudar lâmpadas, arranjar estores, sincronizar canais de televisão e todos os afins para a telvisão e DVD, arranjar fusíveis, arranjar torneiras, desentupir canos, desmontar máquinas de lavar, arranjar ferros eléctricos, pintar paredes, arranjar cordas da roupa, pegar em pesos... e depois então se sabe mais alguma coisita que dê jeito, porque senão fiquem sozinhas.
Bem, mas vamos ao que me interessa. O senhor técnico entrou no meu quarto, ( coisa que me incomoda porque entrar no meu quarto, é entrar na minha intimidade ) fez o que tinha a fazer, que foi coisa pouca e voltou para a sala para os últimos trabalhos, que diga-se de passagem foram nenhuns. Quase nenhuns. Verificar se o telefone funcionava e se as luzes do ruter não se apagavam.
O senhor técnico, depois de tudo em ordem, partiu. Deixando um aviso. Se continuasse a falhar que ligasse para a assitência ao cliente.
Mais vai continuar a falhar? Perguntei eu, muito fina e cínica.
Só sei que desde as 8 da noite até agora já falhou que nem um motor de arranque. Vezes demais.
Por isso amanhã quando me telefonarem para confirmarem que o técnico me visitou e eu tiver que dizer que continuou a falhar depois da visita, vão pensar que sou doida varrida e eu vou ficar na dúvida. Será que é o cão que morde na gente ou é a gente que morde no cão? É que com isto tudo já, não sei. Eles dão comigo em doida. E pior, é que eu pago para endoidecer.

afinidades

Está aí está a chegar o tempo das romãs.
Adoro. Sentar-me no sofá e comer uma, duas, três romãs, bago a bago. Num ritual que me faz lembrar tardes frias. Castanhas e roupa de lã. Golas altas e cachecois.
Tenho alguém que amo muito que adora fazer-me companhia nesse ritual. Será que este ano se vai sentar ao meu lado nas tardes de domingo, a comer romãs?
Quem me dera! Recuperar coisas boas, porque não?
É mais o ciclo. As estações e com elas as pessoas. As afinidades.

toc toc toc toc

Saí apressada. Eram 8.07 horas. Que voltas dei, não sei, mas atrasei-me. Acho que hoje estou mais lenta do que nos outros dias.
Desci a ladeira, a Rua do Cabelo do Rato. Como é que pôem um nome destes a uma rua, ainda por cima com uma vista tão bonita, soberba mesmo, para o Vale do Alvorão e Serra de Aire...
Eu cá, cada vez que me perguntam pela rua, digo sem hesitações: Via Panorâmica. Recuso a idéia da rua ser cabelo de rato. Que asco! Que poucochinho!
Via Panorâmica era o seu nome, não percebo que gente tão pouco sensível foi essa que alterou o nome a rua tão bonita. Talvez algum iluminado que teve uma namorada que o mandou ir dar banho ao cão, e por vingança... ai é? Vais ver como elas te mordem...e pagam todos por uma história passional, os da rua do cabelo do rato, ou melhor Via Panorâmica. Que não é o caso.
Como dizia, descia eu a ladeira e subitamente uma criatura sai do prédio onde supostamente mora e inicia a sua marcha apressada, como que imitando a minha. Quando dei por ela, tinha um indivíduo do outro lado da rua, num toc, toc, toc, toc, igual, mas é que era mesmo igual ao meu. Ecoava pela rua abaixo. os meus passos e depois os dele. Uma coisa um pouco esquisofrénica. Como que em competição. Já ao fundo da rua, e porque parecia mais uma cena de filme, lembrei-me da cena da casa de banho, do filme, A Caminho de Santiago, que fui ver no fim de semana. Uma cena tipicamente, cinema espanhol, Almodovar puro, isto é, copiado. Uma criatura está a escovar os dentes, e a outra criatura entra e olha. E começa a escovar. E de repente parecem estar em competição. E a cena não pára e mais parece uma cena de sexo que um procedimento higiénico e diário. Que acaba como que num orgasmo. Os espanhois no seu melhor.
Eu não estava para ali virada. Nem faço filmes pela manhã, nem isto é Almodovar, os meus dentes já estavam lavadinhos e que eu saiba, os meus pés pisando o chão não podem inspirar-me ou a outros a um episódio de sexo. Mas o facto é que a criatura que não sabe que sou doida e penso coisas que nada têm a ver, não aguentou a pedalada e ficando para trás, abandonou a competição que tinha iniciado. A minha passada era bem acelerada e há que ter perna para dar o passo...
Não desisti e cheguei a tempo do senhor motorista me avistar ao longe e abrir a porta do autocarro para que eu entrasse.
Não vos falei do filme mas aconselho a que vejam. Está aí nas salas de cinema. Sem pressas e sentados. Ah, e outro, Entre Irmãos, pesado, pesado, mas, assim como assim, com a aproximação do Outono, tudo o que é soft tem tendência a ir com o sol e as andorinhas. Queremos mesmo é muitos dias assim, cinzentões, como o de hoje, para nos sentirmos bem infelizes, vítimas, até, e um filmezinho vem mesmo a calhar. Daqueles dramáticos que nos façam acreditar que há quem tenha vidas bem piores que a nossa.

passado

Há dias em que são mais as saudades, do que os sonhos.
Hoje é um desses dias. :-(

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Madredeus - Vem (Come to Me)

À memória de Francisco Ribeiro, violoncelista e fundador dos Madredeus.

Is This Love - Bossa & Marley

Tchim, tchim Julieta

Ofereço-te flores.
E beijos e abraços de parabéns.
E desejo muito que tenhas um dia bem passado. Que o comemores junto dos amigos e de alguma família que tens por perto.
Desejo-te tudo de bom como desejo para mim. Tu sabes.
Tinhamos o quê?! Catorze anos? Quando fomos da mesma turma do liceu?!...
Nunca mais me esqueci de te ver entrar na sala com uma bata branca diferente da nossa.
O logotipo duma cor um pouco mais esbatida e o branco menos branco. A textura também desigual. A nossa era de sarja. A tua parecia ser terylene. E abotoava atrás. Era uma bata muito ao lado da que exigiam.
Leram o regulamento interno do liceu, como o faziam todos os anos. Para ti era novo. Era o primeiro ano que frequentavas o liceu feminino. Não nos conhecias. Lembro-me de ti bem desconfiada.
Recordo-me da professora te chamar a atenção por causa da bata. Duma forma muito nazi. Simpatizei de imediato contigo. Não por ti. Por ela. Porque não gostava de ver alguém ser maltratado. Exposta perante uma turma inteira de alunas que já se conheciam de outras turmas e outros anos. Tinhas caído ali de pára-quedas e devias sentir-te muito diminuída. Eu sei bem como era aquela selva, naquele tempo. Ou lutavas por um lugar ao sol e eras chefe ou sub-chefe de turma e conquistavas um lugar de superioridade ou eras simpática, contavas anedotas ou fantasias que até inventavas,e tinhas também o tal lugar diferente e que te distinguia, ou eras barra, aluna de quadro de honra, ou então eras pisada, engolida.
Vivias na Vila Alice. Na rua da Churrasqueira, do " lugar " da Sãozinha, da loja do Adérito ( amigo do meu pai ) que eu conhecia muito bem. Que ia dar à loja pintada de cor de vinho, que vendia gelados de covetes, com um palito e sabor a groselha, na Senado da Câmara. Vivias com os teus imãos mais novos e junto dos irmãos mais velhos, cônjuges e sobrinhos de quem cuidavas, juntamente com os irmãos mais novos. Passamos a ir juntas umas por outras, liceu, casa, casa, liceu. Gostávamos dum canção que cantávamos e que nos fazia chorar " Angélita ", cantada em espanhol. Lembras-te?
Passava na tua rua e parava na tua porta para conversarmos, fora do período escolar. Quando deixamos de ser colegas, já éramos amigas. Do peito.
Foste estudar. Para a Escola de Enfermagem. Lembro-me que te acompanhei na primeira vez que ali foste. Depois ficaste interna. Encontrávamo-nos nas tuas folgas ou lá ou na avenida Brasil. Quando acabaste o curso e começaste a trabalhar no Hospital Maria Pia, na unidade de cuidados intensivos, quase não nos viamos. Depois separamo-nos. Mas o destino quis que viesses para minha casa. E procurássemos emprego para ti aqui. A primeira queda que dei neste país foi nas escadas da casa de Saúde, depois de ir pedir emprego para ti ao Dr. Carvalho e ao Dr. Bento, responsáveis e donos da referida Casa de Saúde. O Dr. Carvalho arranjou-te emprego. No Hospital do Entroncamento. Assim, sem sabermos ler nem, escrever, sem nunca nos ter visto. Como foram bons esses tempos. Estávamos sempre juntas. Mas o Entroncamento era pequeno para ti e partiste para Coimbra. Depois para o hospital de Sintra. Eu e a Milú visitamos-te em Sintra e foi a 1ª vez que fomos à Piriquita comer os tais pastéis tão afamados. Como vai longe esse tempo Julieta...
Mas não ficaste em Sintra. Passaste para S. José, em Lisboa. Também aí te visitei algumas vezes. De vez em quando vinhas a Torres Novas passar os fins de semana connosco.
Ainda não estavas em casa. Procuraste o caminho de casa toda a vida. E aventureira como és, partiste para a Suiça. Primeiro Lausanne e depois Genéve, onde estás.
A última vez que estivemos juntas foi em Genéve e tenho saudades. De ti. Sobretudo de ti.
Tu és especial. Um dia, nos meus anos, e não foi há muitos anos, acordaste-me às 5 da manhã para me dares os parabéns. E eu fiquei feliz. Parece estranho para quem saiba disto, para mim não, tu és assim. Quando fui ter contigo a Genéve, recomendei-te que chegasses a horas porque nem queria imaginar-me no aeroporto sozinha sem saber como chegar a ti. Ah sim, vou estar lá antes da hora. Pois o que é que aconteceu? Chegaste nas calmas, passados 20 minutos, seguramente.
Temos um episódio hilariante dos primeiros tempos de Portugal, quando vieste para t.novas para passares uns tempos connosco. Estávamos no quarto prontas para dormirmos. Várias. Para além de nós e da caçula, 3 primas filhas de um tio que viera de Moçambique. Para que não ouvissem as nossas conversas e porque estávamos às escuras, quiseste falar-me ao ouvido e sussurraste: Onde é que está a tua orelha? Eu pedi-te a tua mão para te orientares no escuro mas quis pregar-te uma partida e desviei-a. Foi tão patético, tão nojento, tão divertido que rimos à gargalhada perante a hipótese de me falares, em segredo, mas não ao ouvido. E as primas, as ricas primas furiosas pela nossa diversão, ameaçavam chamar os meus pais. Ainda hoje nos rimos deste episódio louco que nunca esquecemos e que é indicador da intimidade que nos une.
Dissete-me algo, que me emocionou muito, quando estive contigo em Genéve. E de que não me lembrava, mas tu, amiga, nunca mais esqueceste.
Que ao chegares a Lisboa vinda de Angola, em 1975 e me teres escrito, contando que estavas num hotel, pelo IARN e que não tinhas colocação, nem sabias o que fazer, eu te respondi: Vem para a minha casa. Falei com os meus pais e eles dizem que venhas. Vamos todos gostar que fiques connosco.
A amizade é isto, minha querida. Também(?) te devo umas e outras.
Hoje, gostava de te olhar nos olhos, bem de frente e dizer-te que sou feliz por seres minha amiga. Que te respeito muito. Que desejo que sejas feliz.
Gosto muito de ti Julieta e um dia, um dia vamos as duas tomar conta dos " teus " meninos, para Luanda. Esses meninos que a Fundação recolhe e cuida já. E outros e mais outros. Um dia o sonho de ver meninos de rua e desprotegidos crescerem com educação, instrução e amor tornar-se-á uma realidade bonita. Vais ver. Tu começaste, e se depender de mim eu vou fazer de tudo para te acompanhar.
Um bom dia de aniversário. Já tens 55 como eu, mas és uma menina formosa e bonita. Alegre e amiga. Parabéns e bebe uma taça de champanhe por mim.Tchim, tchim...

juventude

Olho os nossos jovens. Observo-os. Também fisicamente. São lindo os miúdos de hoje. Todos.
Ou são os meus olhos...e nós também o éramos aos olhos dos nossos pais, tios, avós, amigos?!
Os jovens hoje têm tudo para terem o Mundo nas mãos.
Há 40, 30 anos, era mais díficil ter só que fosse, metade do mundo sob o nosso olhar. Contudo eu achava que essa metade de mundo era minha.
Se eu tivesse a idade deles, hoje, tentava conquistar a outra metade.
Não é difícil ter o mundo nas mãos. Mais difícil é segurá-lo para que não nos escape.
Dificílimo é carregar o mundo nas costas.
Gosto dos jovens. E do mundo jovem, dos jovens.
Gosto deste tempo presente. Um pouco mais que do outro que vivi.
Gostava de crescer neste tempo.
Em suma, concluo que o que gostava mesmo era de ser jovem.
O resto tentava conquistar...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

as palavras

Inesperadamente recebi um correio.
Que gostava dos meus escritos, aqui do banco dos meus sonhos.
"" Que tara é essa, a dos bancos onde te sentas para " sonhares "? Os sonhos sonham-se melhor deitados" ".
E que sempre que lê os textos que têm como imagem um banco de pedra - " Parece que me chamas a mim para sonhar contigo. Sinto que podia ser comigo. Queria fazer essa viagem...
Sei que não é para mim, sei que não tem que ser para alguém, sei que afinal, são apenas palavras, que teimas em deixar escritas" ...
Eu poderia responder a este correio que me chegou inesperadamente. E dizer que não. Não é para ninguém. Não é para ele, pessoa que me mandou este correio.
Mas me apeteceu continuar, pegando nas palavras deste alguém que afinal não me inspira e sabe que não, e dizer que:
São palavras, que teimosamente quero desenhar. Eu que não sou artista. Palavras soletradas, copiadas, repetidas, deslocadas, intencionadas. Que quero largar como se largam papagaios às cores nos céus da esperança.
Fazê-las viajar nas asas do tempo. Numa viagem para o meu lugar de partida e de chegada.
Fazê-las chegar. A ti. Que sonhas também.
Tu, só tu as podes ler com a certeza de que são para te depositar no colo, quando te sentares no banco de pedra a sonhar. Comigo, ou sem mim. Numa liberdade que não combinàmos. Que está instituida.
São para ti, porque só tu conheces a cor dos meus sonhos se chamo pela mulemba. Ou se cheiro a acácia. Ou se olho a lua prateando a Baía. Ou se me arrepio no silêncio desértico da paisagem. Ou se remexo cinzas de um passado de memórias que vestem ramos de palmeira e sabem a coco e a maresia.
Só tu chegaste aqui e queres chegar além. Onde os animais se passeiam na savana, as hienas choram lamúrias de crianças, as lesmas procuram o caminho de casa, os peixes conversam no tanque, o sal das lágrimas se mistura com o das salinas, o poente é vermelho, o batuque se ouve dentro de nós, os galos cantam à meia noite, e as manhãs são brancas e perfumadas. Os cheiros são fortes, a luz é intensa, as nuvens carregadas, os cacimbos, bençãos.
Onde o sol é inspiração, o mar é uma canção e a terra um poema.
Só tu chegaste aqui e queres chegar além. Por isso são para ti as palavras que escrevo, quando quero sonhar no banco de pedra.

Ne Me Quitte Pas. Maria Gadu

gorda porque sim e porque não

Tive um lanche do mais alarve que existe, de comemoração de aniversário de uma colega que por acaso é minha xará. A 1ª vez na vida que me acontece, trabalhar ao lado de alguém com o meu nome, o que, vou dizer-vos, é um pouco inquietante. Clara, isto e aquilo. E eu olho e afinal não é comigo. Clara porque isto e porque aquilo e eu não olho e afinal é comigo. E quando pergunto, que foi? E me dizem: Não é contigo, é com a outra. Eh pá, caio em mim... afinal há outra. Sukuama, isso é que é tramado... não, e o pior é que já atendi por duas vezes alguém que me pediu para falar com a Clara Silva e eu com a maior cara de pau disse: Silva não, Santos, ou Silva não, Marques, ( este às vezes distraio-me e digo ) e a pessoa com toda a razão diz-me: Silva, minha senhora. Este minha senhora soa-me àquele Minha Senhora que os políticos disparam contas as jornalistas quando estão a ser entrevistados e não lhes agrada a insistência ou a suspeição. Oh minha senhora! E isto soa a Oh grandessíssima p...
Nunca deram por isso? Se calhar é porque não têm jornalistas assim a tratar por tu.
Bem, mas então, quando a pessoa está já a espumar de raiva, percebo tristemente que não sou a única. Existe outra. Que chegou há pouco tempo. Mas está. Como eu. E reduzo-me à minha insignificância, o que por vezes também não é mau.
Mas tudo isto para dizer que não se deviam comemorar aniversários com comida. Devia fazer-se, sei lá um passeio a pé, em grupo." Onde é que vão? Não vamos, estamos no aniversário da Clara Silva". Ou uma sessão fotográfica. Mostrávamos as fotos depois. " Onde foi? No aniversário da Clara Silva." Ou ainda uma ida ao cinema. " Que vão fazer? Vamos comemorar o aniversário da Clara Silva." E nada de patuscadas.
Porque, depois de comer várias espécies de queijo, presunto, paio, batatas fritas com sabor a presunto ( eu que não gosto de batatas crocantes ), e outros, não tendo escapado sequer o bolo brigadeiro, apre, xiça, penico, estou que nem posso. A caminho do autocarro gritei em silêncios ecoados por todo o cérebro que: A-C-A-B-O-U!
Macacos me mordam se não acabou.
Ontem, um colega, aquele que se péla por um bitoque, entra em delírio com espetada de lulas, ou tem pensamentos pecaminosos com uma tarte de alfarroba, depois de me perguntar o que é que tinha e eu lhe ter repondido que estava com azia, disse-me:
Há uma pastilhas que se chupam muito boas. Esta férias engordei uma mão cheia ( assim mesmo ) de quilos e era o que chupava. Não lhe estou a chamar gorda, bem entendido.
Muito bem entendido. Isto não li nas entrelinhas. Eram carris, as linhas de comboio com que me brindou. E só estava a chamar-me gorda sim senhora que eu de burra tenho pouco.
Ora eu...tenho lá necessidade disto? Vindo de alguém que cai de quatro por um bitoque?
Ou de andar na rua sem olhar para as montras espelhadas? Esconder-me debaixo de túnicas largas? E de vestes pretas?
Mas afinal, vamos cá a saber, porque como eu?
Como porque choro. A seguir, choro porque como.

Como de ansiedade. A ansiedade faz-me comer.
Como porque partem. Como porque chegam.
Como porque estou triste. Como porque comemoro.
Como porque estou sozinha. Como de companhia.
Como o que há. Como porque sim.
E porque não.
Porque como? Sim, porque como, eu?!
Nãnãnã. A partir de hoje, não é de amanhã, a partir de hoje, acabaram-se as comezainas.
E mais. Vou passar a fazer os meus seis quilómetros diários, dando a volta a torres novas a partir da minha casa, numa volta preparada para pedestres, que abandonei porque, ah e tal e coiso porque anda e porque deixa, que está sol e que faz chuva e não me querem acompanhar.
Quem quiser que se negue, eu vou mesmo. Passei a tarde toda a pensar nisso. Que tenho de recomeçar e tem de ser já, antes que se faça tarde.
Daqui por três meses, tiro uma fotografia e venho aqui deixá-la. Palavra de Maria Clara das Dores.

recomeço

" Eh pá, outra vez esta seca, as férias parece que foram ontem que começaram e já estamos aqui outra vez, porra..."
" Eh pá puto, apoiado, dá cá mais cinco, tuge "... foi o que me apeteceu dizer-lhe, numa solidariedade antiga, do tempo do colégio quando só arrastando-me é que me conseguiam sentar no banco da escola. Sempre lavada em lágrimas. E acomulando promessas disto e daquilo, que nem sempre cumpriam. Quando era o avô, sim. Em dobro.
Porém hoje sei que estas, as férias, terminaram não ontem, mas anteontem, e as próximas são pr'amanhã.
No intervalo temos de viver. Muito e bem. E estudar e trabalhar.
Por isso e com um saudosismo masoquista, sorri ao puto.
Eles são como bandos à solta por estas ruas fora. E esperando autocarros. De novo.
No meu autocarro houve novidades. O motorista do tempo de aulas regressou. Aquele que é meu amigo e me guardou a carteira que perdi. Fez-me um sorriso bem disposto e perguntou-me assim numa confiança que lhe dei: Como é que a senhora está? As férias? Lá temos que voltar ao sacrifício, não é?- Apeteceu-me dizer-lhe que não devia ser, não, mas que remédio. É para isso que nos pagam, como diz uma colega minha, que por acaso até está de férias.
Os putos que vão ser a minha alegria nesses 20 minutos, ( porque lhes acho piada e não por serem muito engraçados ) iam calmos e silenciosos. Alguns devem estar a dizer palavrões lá para os lados das faculdades a que concorreram porque não iam no autocarro. A menina da Escola Profissional também não. Minha vizinha que partilhava tarefas comigo, e sorria sempre quando eu me aproximava, apressando-se a tirar as suas coisas do banco para que me sentasse.
Vistas bem as coisas, não me esqueci destas pessoas. Apaguei-as temporariamente. Algumas não voltarei a ver. Viajarão por outras estradas. Aprenderão outros palavrões, ambicionarão outros sonhos...
Eu, quem sabe que viagens farei, com quem ou se as partilharei, que palavrões aprenderei ainda e que sonhos me faltará sonhar ...
Enquanto não, vou iniciar assim, o meu percurso de trabalhadora do estado, tentando desempenhá-lo o melhor que souber e puder e me deixarem. Porque isto da Justiça não está fácil e já ninguém acredita nela. É que, nem eu. Mas não comentem, porque não me fica bem à cara dizê-lo. E depois tenho sempre presente que um dia há muitos anos disse estas palavras " Juro por minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me foram confiadas ". A minha parte eu cumpro...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

novela mexicana

Já há umas horas que tenho estado como cão a roer ferro.
Eu tento ser boa pessoa. Juro que faço por isso. Mas é difícil.
Quando:
Há mais de um mês disse aos senhores da MEO que estava com problemas.
Tantos que estou sem telefone, televisão, e internet. Vê se pode?
Hoje, 2 ª feira, dia 13 de chegadas e partidas, a fazerem-me pensar na vida, e respirando assim numa de não me acostumar, e achar sempre que aquele avião é que cai, aquele que transporta o que é de meu, e para cúmulo dos cúmulos faço mais uma tentativa junto dos senhores, assim como quem quer mesmo a coisa e em bicos dos pés deixo em sentido quem está do outro lado da linha. Julgava eu, pobre inocente.
Marcámos as 7 da tarde. Para virem mudar o ruter e passar a poder utilizar os três serviços. É que isto arrasta-se e é indecente o que andam a fazer. Mas mais indecente é deixarem-me especada a ver se chove. Que é como quem diz, a ver se eu estou ali na esquina.
De criaturinhas dissimuladas e falsas nem nada. E não é preciso ser bruxo para advinhar o que vai acontecer amanhã quando estiver ao telefone com uma qualquer criatura que trabalhe para estes senhores. Vou passar-me.
Como é que se pode ser boa pessoa numa freguesia destas?!!!!!

de novo aqui

Inspirar...expirar...
Inspirar...expirar...
Ufa! Que me doi o ar que tenho inspirado.
Que não relaxei por o deitar fora...
Toda a tarde e noite fora desejei ser peixe.
Vermelho de preferência. E ter guelras. E cardume.
E não um pulmão apenas.
Inspirar, expirar, inspirar, expirar...
Já posso voltar a ser gente. Recuperei o outro pulmão.
Benvindo mais uma vez, meu amor!

Não há!

Hoje faz 35 anos que cheguei a Torres Novas, para viver. Era sábado...
Hoje faz 2 anos que saí de Luanda depois do meu regresso passados que foram 33 anos.
Ah! E era sábado.
E depois, querem que eu acredite em coincidências?????

Pensamento

" Não caminhes à minha frente, posso não te poder seguir.
Não venhas atrás de mim, posso não te saber guiar.
CAMINHA A MEU LADO, SÊ, SIMPLESMENTE MEU AMIGO ! "

O prometido é devido. O Pensamento chegou, como chega todos os dias.
E eu publico-o. Deste gostei.
Cauteloso e sábio.
Obrigada E.P.
Ah, e EP não é Estabelecimento Prisional, bem entendido.

sobre carris

O sol nascente no comboio das 6,53 horas, Lisboa/Tomar

Maria Gadú - Trem das onze

domingo, 12 de setembro de 2010

em negação

Não tenho querido sentar, no banco do sonho acordado.
Não tenho sabido dizer, o que a mente silencia.
Não tenho sentido a fé para a espera paciente.
Não tenho recebido sinal do farol que me ilumina.
Nem sei a fase da lua, nem marés na noite escura.
Não sinto o afago da onda, nem sou beijada pelo vento.
Não me deito na sombra da duna nem acordo com o sol.
Não vejo espírito de Luz protegendo a minha estrada...

Ainda assim, entrei na noite

Feita de nadas
E loucamente inventei
Uma lua cheia... encantada
Romântica e prateada
Menina dengosa e feliz,
Cantante, poeta, amante
Vestes brancas, lantejoulas,
Cabelos soltos ao vento
Nos lábios beijos de mel,
Nos olhos promessas de amor
Nas mãos o sonho brilhando
E no coração em chamas
A cor duma grande paixão...

Não tenho querido sentar, no banco do sonho acordado
Do frio daquela pedra
Oiço cansados monólogos
Participo nas viagens
Dos meus sonhos mais esforçados
Vejo nuvens cacimbando
Meus voos de asas curtas

Vejo o destino adiado
E suspiro nostalgias
Não tenho querido sentar, no banco do sonho acordado
Não por nada, mas por tudo
Até p'ra não perder a magia...
Os meu sonhos, fantasias...

Não estou com a macaca

Hoje é dia de " estar com a macaca ". Sei lá, ser assim solidária com a pobre da bichinha. E antever-me já atrás das grades que me separam da " vida mulata " que tenho levado.
Mas até eu estou decepcionada comigo. Tinha preparado um cacho de bananas, um saco de ginguba e outros acepipes para compensar a macaca e afinal, não. E abandonei a idéia do lenço para limpar as lágrimas. Macaca que é macaca, não chora.
Não me reconheço, essa é a verdade. Tranquila, como dizem os emigrantes em França. Nem parece que é domingo. Que é o fim das férias. E muito menos que estou com um pé cá e outro lá, naquele lugar onde me têm comido a carne mas nem por isso quero que me roam os ossos.
Depois de uma semana que nem sei dizer se correu bem ou mal, ou sei, correu, e o importante é que corra, despeço-me calmamente e sem fantasmas.
Há uma decisão que pesa. E muito. Sabem como os putos fazem à noite? Joãozinho, já para a cama. Oh Mami só mais um bocadinho, please! Ah pois é. Eu também adiei o meu regresso para amanhã. Please, please mano Zé, podes ir buscar-me ao comboio? E levares-me a casa p'ra deixar a Pitanga? E levares-me para a casa da Justiça? Logo ao raiar do dia? Que nem vou dormir nada, mas pronto? Este prazer de ficar ao domingo à noite no Olival, a fingir que vivo mesmo aqui? E que não preciso de ir embora?
E o mano Zé disse que sim. Eu tenho um mano Zé que vale uma fortuna.
Quero o domingo todo para mim. Este pedaço de dia que resta. Os programas de televisão que se iniciam hoje, pois então. O Idolos e outro que me falaram que é uma espécie de Big Brother . Eu não quero nada transcendente. Só me quero divertir. Rir, que tristezaas não pagam as ditas de que o país está cheio. E nós, consequentemente. Eu só quero ser feliz.
E daqui a pouco vou às Amoreiras. Procurar uma roupagem para um casamento. Ainda há quem se case. E seja feliz. E tenha muitos meninos...
As Amoreiras levam-me a pensar em vips e figuras públicas. Há quem vá às Amoreiras só para chegar perto destas figuras que por lá se passeiam, sobretudo aos domingos de manhã, e fazer assim figuras tristes. Eu vou porque lá há algumas lojas com modelitos de cerimónia.
Figuras, figuras fazem as mulheres ( as tias ) que frequentam o El Corte Inglês, outro lugar chiquérrimo, do tipo condomínio fechado. Onde eu e umas poucas entramos.
Elas, as tias, que assinaram contrato vitalício com o lugar, mas não com as pessoas com quem andam de tiracolo, têm olhos até à nuca. Já nós passámos e elas ainda nos seguem o rasto. Temos que fazer figas. Com os dedos das duas mãos. E se ficarmos com aquela dor de cabeça que provoca alguns enjoos e sono, não é gravidez, ( na minha idade só milagre e Deus tem mais que fazer ), certo e sabido que foi mau olhado dessas mal amadas. Está bem que se perguntem o que é que eu, ou outra como eu, muitas como eu, pindéricas, ali estamos a fazer. E eu, juro-vos, penso baixinho cada vez com menos paciência e um dia destes apanham-me com a macaca à séria e sai alto, assim alto de envergonhar quem estiver comigo: calma mulheres, conforme entrei assim vou sair, de mãos a abanar, não levo nada que não seja meu. E depois, o melhor, é comprarem uma trela ok?
Eu quase que não olho para os anexos destas criaturas, mas diabo, uma mulher não é de ferro, nem cega. E pode descansar as vistas uma vez por outra que andam muito cansadas de ver tanto sacana. E até vos digo, nem é o caso. Nem estou a falar por mim, porque muito sinceramente, cadê? cadê? Como diz uma amiga minha, já nem há, são todos de plástico. E eu até só vou ao Corte Inglês, imaginem, por causa das laranjas do supermercado, que são uma coisa boa que a gente come, essas sim, melhor, muito melhor que as amargas das tias e os bacilentos dos anexos, e por causa da padaria que é excelente, das oportunidades do piso -2, do piso dos perfumes e do cinema. As salas são óptimas. De vez em quando também gosto da sala do restaurante, lá em cima. Acho piada àquele ritual dos empregados a fazerem gestos uns aos outros, comunicando, que parece que mandam beijinhos, uma coisa até muito abichanada, que não é para homens de barba rija como aqueles e contaram-me que parece que é um procedimento muito antigo das casas de restauração da Lisboa de outros tempos, recuperado por este restaurante pretencioso.
Bem, como não estou com a macaca, vou apanhar o metro a caminho do consumismo. Mas não tenho intenções de me ferrar. Só que não seja ferrada, já eu fico bem. O que é preciso é escapar por entre os pingos da chuva.
Resto de bom domingo para todos. Que eu vou fazer-me à vida como se estivesse de férias.
É pouco bom, é!

Há uma Luz que nunca se apaga


Dia 10 de Setembro completou mais um ano, um ser que eu amo de paixão, desde que nasceu.
O Paulo é assim como que O Primo. Um ser pelo qual eu sinto muita admiração.
É um artista. É um ser inteligente e sensível e pinta a vida com as suas cores e traços muito próprios. Um ser singular e único.
Resolveu mandar-me este e-mail de resposta ao meu post no seu aniversário.
O que copiei para aqui não é senão o que queria dizer-me por isso o passei na íntegra.
A foto que me enviou é de Angola, claro, a sua terra, e onde esteve a trabalho por uns dias ao fim de 33 anos tal como eu e coincidentemente no mesmo mês. Setembro de 2008.
Não a consegui passar para o blog porque é um diapositivo e não deixa e também não o sei fazer.

Aqui está outra que podia ser a sua e que é também uma imagem das Pedras Negras de Pungo Andongo.
Bem hajas, meu primo.

Clara, agradeço a tua memória e aquela expressão. Visitei o teu blogue e tentei deixar lá este comentário mas não consigo dar-me com aqueles procedimentos todos e mandei tudo à vida. Venho dizer o mesmo neste correio.

Sabes que sempre fui um envergonhado e aquela tua memória põe-me muito pequenino. Não é comum fazeres uma viagem no tempo. No entanto, construíste esse mecanismo. O teu texto é equivalente a um salto no tempo, à velocidade da luz, fazendo-me viajar até um espaço conhecido, estranho só na data do tempo. É um tempo para mim desconhecido, evocado na bonita memória das palavras do meu Pai: “…é um menino”. É estranho visionares, porque se trata disso de um filme, uma narrativa já do teu tempo mas que tu não viveste, da qual não tenho memória, isto é: como foram os primeiros tempos neste planeta, o que se disse sobre nós, que estranhas esperanças nos reclamavam.

Venho reverenciar a tua doce memória do espaço que eu mais tarde tão bem conheci: “Estou no quintal, virada para a avenida…”. Lembras-te de como se estendia o espaço do vosso quintal até à Avenida Brasil? Lembras-te da Mangueira do quintal?

Lembro-me de algumas festas dos vossos anos na noite do vosso quintal; Lembro-me que a parede do vosso quintal não era paralela ao alinhamento da Avenida…Estas memórias, que agora vens enriquecer são-me muito caras, eu habito-as, e elas moram em mim. São uma explosão de felicidade interior inimaginável. Aliás, julgo que não sendo um optimista, esses primeiros tempos de felicidade, edificaram o abrigo onde me salvo de todas as contrariedades que por mim passaram.

Angola é um sítio divino, senão olha para a foto que anexo. É uma terra de Deus. Deus habita muitos lugares, mas julgo que por vezes escolhe, e quando me deparo com os não lugares desta terra, já que os lugares são espaços que foram posteriormente à obra da natureza edificados pelo homem, como este, das Pedras Negras de Pungo Andongo, fico imóvel e transido de um medo multidimensional perante tanta beleza, e sim, vejo que Deus gosta de morar por aqui, este não lugar é afinal um lugar, mas não do homem, de Deus.

Um bem hajas por fazeres vir ao de cima a tentativa de explicar. Eu não gosto, porque sinto que morar nestas memórias é muito melhor que as mil palavras que as cristalizam. Isto evoca-me o título de uma canção dos Smiths: “There is a light that never goes out

Um grande abraço Clara.

Paulo Gomes

comentando


Anónimo disse...
por tua causa mandaram pintar as fachadas dos prédios e até plantar palmeiras na antónio barroso e adjacentes ...xée tax podendo!

Maria Clara disse...
Uauê! Não acredito! Cumpriram mesmo, no prazo?Xeeeeeeé, vou ter de fiscalizar as obras quando chegar. Ouvi dizer que as antenas parabólicas deixaram de funcionar e a própria da Internet também. Coméquié?????? Ah, vai avisando que quero tapete vermelho, desde a Mutamba até à entrada do prédio do kamba Carvalho.Tou inzigir porque lhes conheço e vão-se fazer de esquecidos.
( Acabada a época balnear, o mês de Setembro quase a meio, planeando mais uma viagem a Luanda, brincar e sonhar é o melhor remédio para que estes meses passem depressa.
O gozo antecipado do que é observar e viver Luanda, os amigos e a sua, nossa, gente.
Luanda a dominar o meus pensamentos a partir da agora. Já me sinto em casa )