sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Obrigada muito, tudo...


Há gente que eu amo. Muito. Tudo...

As crias. Sangue do meu sangue. Cordão umbilical. Laços. Âncoras. Um amor tão grande, tão grande, que até doi...Nada se lhe compara.
Há gente que amo muito.
A caçula, o mano Zé. Gente que lhe corre nas veias um sangue da junção do pai e mãe. Uma alma parecida. Como gémeas. O sorriso. A teimosia. A determinação. A lucidez. Os cabelos. A altura. O gosto. As lembranças. O mesmo ventre que a mãe carregou e onde estivemos. A primeira morada comum. Meus irmãos para sempre.
Há gente que eu amo eternamente. A lembrança do avô Carvalho. Avó Clara. Zita Fernandes. Tio Fernando, tio Acácio. Faty. Bety. Tui.
Há gente que amo muito. Bruno e Leandro. Na possibilidade de ser chamada de tia. Na possibilidade de ter jovens nos laços familiares que não são as minhas crias mas são o que de mais importante o mano Zé tem. A continuação do nome. Perpetuando o Sô Santos e a D. Celeste. O exemplo de que os jovens, os jovens do meu sangue são gente grande.
Há gente que amo muito. Como pai e mãe. O tio Augusto e a tia Fernanda. Estar com eles é estar em casa. Não é preciso falar nem olhar nem rir nem chorar. Basta estar...para ser feliz. E ouvir...clarita... como quem me beija a alma e me abraça o corpo me dando colo. E me leva para recantos da memória onde mora a minha infância de alegria e traquinice. E a adolescência inquieta e curiosa. E me devolve a mim. Gente que toda a gente devia ter como tios.
Há gente que amo muito.
Paulo e João. A consciência de haver mais família para além destes todos. Meus primos. A descoberta de que o coração ama muita gente. Minha dedicação de adolescência. Candengues lindos. Homens inteligentes, justos. O meu orgulho ontem e hoje. Sempre.
Quando penso em gente boa e capaz de endireitar o mundo, é neles que penso.
Mais gente que amo muito. ..Há o herói. Ai, o herói eu não amo só. Admiro de paixão. De exemplo e orgulho. E há a Lurdes, companheira de todas as horas do mano Zé.
E a tia Olívia. A Leonor. A Tila. A madrinha Regina.
Ha gente, muita gente que amo muito. E aqui cabem todos os meus amigos.
Minha Kamba Milú. Aka, amiga do peito esta. De tantas horas, dias e anos que até já lhes perdi a conta. Me aguarda amiga. Amanhã...estou a voar nas asas do pássaro livre para aterrar na passadeira vermelha que estendes sempre que vou, numas honras que nem sei se mereço.
Há a Susete, outra que tal.
Há a Julieta, Nela, Mena Lima, Arlete. Arminda. Fatinha.
Há a Manuela. Minha amiga como irmã de horas tão desesperadas mas também tão divertidas, outras e filosóficas ainda as restantes...
Há a Ana. Cristina, Pedro, Vitinho. Chico. Edgar. Zé Manuel, Célia, Isabel, Eduarda.
E ainda há lugar para Ana Rita, Joana, João, Mimi, Zezé, São, Linda, Mário, Hortênsia, Ana Maria, Rafael, Zé, Gil.
Leninha, Constância, Clara Lima, Celeste, Elisabeth.
J. R., Paula, GAFM, P.L.
Há gente que amo muito. Eu sei lá... por exemplo, Sónias, Pipoca, Filipe, Patrícia, Bruno, Lena, Mena,Susi...
Há gente com nome aqui que eu amo e também gente que aqui não tem nome, mas que está no meu coração. Tu...
São a minha gente. As minhas pessoas.
A todos, hoje, agradeço muito fazerem parte da minha vida. Permitirem, como dizia uma amiga muito querida, que eu respeito tudo o que há para respeitar, que eu seja rebelde mas Amor...
Bem hajam, minhas pessoas.
Festas felizes. Para os que acreditam que é possível sermos Paz e Amor, um Santo Natal. Para os outros, todos, uma quadra à maneira.
Muitos presentes no sapatinho.
Vou contar-vos um segredo, aqui que ninguém nos ouve porque estão todos distraídos com esta coisa dos preparativos para uma noite exageradamente gordurosa e melosa, dos doces e dos fritos, bbbbbrrrrrrr, A MINHA ÁRVORE DE NATAL, está pejadinha de sacos com presentes.
Bué fixe! Adoro presentes e detesto segredos, por isso já contei. Há lá alguns que são para mim. Até há de mim para mim, porque sou filha de Deus e gosto bué de me presentear. Não vá o diabo tecê-las e ficar a ver navios, ou...aviões.
Por falar nisso, amanhã é o grande dia em que vou poder dizer: É HOJE, É HOJE! Sukuama, estou que nem posso de excitação...
Minhas pessoas, passem uma noite e um dia de Natal como melhor souberem e quiserem, que é o mais importante, mesmo que queiram estar sozinhos e até na cama. Pouco bom, um natal na horizontal!
Kandandu para todos e mais para o Mundo em geral...

bela e vagarosamente

Ó pessoa sonhadora!...
Vou levar-te comigo, como não canção.
Viagem dos afectos. E de sonho, sonhado dia após dia, ano de trezentos e sessenta e cinco dias, mais todos os que ficaram para trás no calendário que envelheceu...
Quando chegar, vou poder sonhar-te um presente de futuros guardados na esperança que teimosamente manténs como chama ardendo na tua alma inquieta.
Quando chegar...serei eu, tu.
Serei muitos.
Todos os sonhadores felizes, resgatando a alma e bebendo do néctar da vida que ali corre bela e vagarosamente.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ser feliz porque sim

Ser feliz é ser ante-véspera de Natal. Último dia de trabalho do ano. Ter alguém que de propósito se desvia do seu percurso, vários quilómetros para me trazer a casa.
Ser feliz é não tirar as chaves da carteira. Tocar a campainha do 3º direito, num toque conhecido há tantos anos que já são mais do que vinte seguramente e de imediato abrirem-me a porta. Chegar ao andar e ter já a porta de casa, entreaberta. Entrar na sala e ver luzinhas catrapiscando numa surpresa de natal, na velha árvore, que já me conformara de não fazer.
Ser feliz é ser mãe. E ter as crias perto. Na casa onde cresceram. Aquecendo-a e tornando-a um lar.
Ser feliz é receber um telefonema da caçula para o nosso jantar das 4ªs feiras que pode ser quinta. E sermos mais que apenas nós. Sermos uma família.
Ser feliz é estar em paz e receber a luz que os afectos me dão para alumiar-me a vida.
Ser feliz é saber que nem sempre sou e estou sozinha.

Lady Antebellum - Need You Now (HQ) [Lyrics]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Está a chegar a hora

Ei, pssssssssssst...
É contigo. Sim, sim. Não olhes para o lado.
Não disfarces por entre gorros, cachecóis e luvas de lã. Óculos de sol. Sobretudos e capas alentejanas. Botins.
Nem finjas que não sabes que é contigo e não estás nem aí...
De humilde (?) que és, não te passa sequer pela cabeça que eu chame a tua atenção. Que tu chames a minha atenção.
Está na hora. Na minha hora de despir os disfarces e ficar assim como nasci. De alma pura e nua.
Não daquele jeito que a gente se desnuda para as criaturas que olham pela nossa saúde.
Chegou a hora de voltar a tocar o céu com a ponta dos dedos. Com a palma das mãos. Com os lábios em beijos de mel, das mangas que amadureceram nos mangais. Com a alma; aquela que se soltou do imbondeiro que a prendeu e conservou.
Chegou a hora de voltar, como o poeta deixou lei dizendo, ele sabia, que, havemos de voltar...
À terra e ao mar. À savana e ao planalto. Ao deserto...
Ao sotaque, ao cheiro e à cor. À luz da aurora e à sombra da mulemba. Ao pregão. Ao perfume do frangipani. Ao feitiço. Às kiandas. À mata e ao muceque. À minha rua...
Chegou a hora de voltar a casa, por isso eu vou.
Não levo o banco de pedra.
Levo-te, poeta de versos rimados na memória de passados que se esquivaram nas berridas de candengue para futuros que não foram sonhados.
Levo-te pessoa no sonho de te ver sentado no banco em frente ao mar, olhando a linha horizontal que desenha lágrimas salgadas da tua saudade.
Chegou a hora e eu vou.
Te prometo que vou sentar no chão quente da baía na hora do sol se pôr na contra-costa e advinhar-te os sonhos um por um. E ler todos os seus contornos, nas entrelinhas do horizonte.
Te prometo que te vou esperar todas as tardes. No mesmo lugar. Em frente ao mar.
Em casa...
( De Mia Couto - Quem saiu do seu lugar nunca a si mesmo regressa - )

pressão

Ou eu, ou esta panela de pressão!...
Já não tenho parança.
O dia 22 já está a meio. Faltam 23 e 24. E depois...estou no ir.
Que espera! Aka!...

de mim para mim

Sentar-me. A meditar.
Ver chegar o Inverno. Num frio de rachar e numa chuva de ensopar os ossos.
A alma, essa está exaltante e não há Outono deprimente dizendo adeus, ou chuva e frio que me mudem a alma. Até porque no Inverno já eu vejo uma luz nos caminhos apertados e escuros e guio-me por ela até Março primaveril. Tudo uma questão de tempo...
E de segundo em segundo, o dia mais pequeno do ano já lá vai. Agora é só a crescer. Brevemente se fará noite mais tarde e veremos as flores do campo, florirem.
Sentada, me inquieto. Como se tivesse bichos carpinteiros. Estou eu para aqui a falar duma primavera que há-de florir, quando as mangueiras estão carregadinhos de mangas doces e maduras. Prontas.
As férias judiciais chegaram. Ficará tudo a meio gaz. O almoço de Natal já se fez e foi agradável. É sempre, se depender das pessoas que ficam ao nosso lado. Deu direito a presente e tudo. Já me despedi de algumas colegas até ao ano que vem.
Faltam dois dias para a véspera de Natal e da reunião familiar. E três para viajar.
Sentada, procuro fechar os olhos e percorrer aos apalpões, os caminhos que me levarão para casa. Desconsigo. Como se, se negassem a fechar. É o sonho a negar-se a esforços desnecessários.
Luanda está já ali. Ao dobrar a esquina do mapa. A 7,45 horas.
Mas uma coisa é desconseguir sonhar na realidade próxima outra coisa é acalmar este coração que bate forte e parece uma panela de pressão cheia de vapor de água, pronta para rebentar, de ansiedade.
Por aqui vou descansando neste bonito banco de inverno onde já avisto a luz do verão no fundo dos dias que hão-de chegar.

colo

Para pessoas especiais presentes também especiais.
Surgiu um convite para ir a Leiria. E eu fui. A propósito, já estou melhor das cruzes. O Voltaren ajudou e de que maneira.
No domingo desesperei atrás da caçula como cão de guarda. Coxo.
As últimas duas prendas ficaram por comprar.
Hoje fui escolher com calma. Com ajuda da empregada. E com paciência minha e dela também.
O sotaque da senhora simpática, a páginas tantas, já éramos quase manas, que não é díficil, fez-me perguntar se era brasileira, porque me parecia uma brasileira há muitos anos em Portugal.
Ela sorriu iluminada.
- Por acaso não sou. Sou de Angola.
Foi a minha vez de me iluminar como se tivesse batido de frente com a minha alma gémea.
- Ai é? Eu também sou. E vou para lá esta semana.
Foi uma festa. A senhora que se chama Susana e tem 40 anos veio para Portugal com 4 anos e de seguida, foi para o Brasil com os seus pais. Tendo regressado a Portugal uns anos depois, já mulher. Estava ela a confessar-se quando se aproximou uma menina nova, colega da Susana. Que também é angolana.
E eu pergunto-me: Será que cada cavadela dá um angolano? Ou caem-me todos na sopa?
Esta última também muito simpática disse-me algo que me entristeceu. Que esteve em Angola há 4 anos e não ficou. Porque não se adaptaria. Na capital. Já do Huambo, gostou bastante.
O pai é médico em Luanda. E recomendou-mo bem como à clínica, em Benfica, perto da feira do artesanato. Só para o caso de ter paludismo. Deu-me o nome do senhor bem como da clínica.
Espero não precisar de conhecer o doutor. Pelo menos nessas circunstâncias.
Ambas me desejaram bons mergulhos, boas caipirinhas, e a mais velha pediu aquilo que as minhas amigas todas me pedem. Que ao dar um mergulho me lembre dela.
Não sei porque me dizem isso. Até porque eu não mergulho. Pelo menos naquela pose estilosa de me esticar toda como se fosse perfilar-me numa parada militar, pronta para a continência e depois ganhar balanço, entesar os ombros e ao mesmo tempo impulsionar os braços para a frente, ao nível da cabeça e cabeçear a água como se fosse marcar golo. Não. Não faço esse show assim do pé para a mão. Não gosto de beber pirolitos nem fazer figuras tristes. E as minhas hérnias não gostam de aventuras marinhas.
Mas percebo que queiram que as lembre lá na nguimbi, nos realmentes. Como se levasse um recado à mãe-terra." Eu vim mas as meninas ficaram lá a desejarem estar no meu lugar". Como eu as percebo...foram anos e anos roendo unhas, fumando cigarros, fazendo poemas, chorando passados, ansiando futuros próximos, de chegar de madrugada, como o Duo Ouro Negro, e beijar aquele chão, como os Papas fazem, não que quisesse ser que nem Papa, mas porque o meu solo é sagrado. Para pessoas especiais, presentes especiais.
Foi o que fui fazer a Leiria. Escolher duas lembranças com carinho. E muita gratidão. E fui atendida por duas patrícias da minha terra.
Deus pegando-me ao colo...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

carta ao pai natal

Vou mandar uma carta ao Pai Natal.
Porque acredito nele.
Coisa simples. Que não exige esforço nem caminhadas pelas lojas.
Apenas renovação de votos. De casamento com a vida.
Um recasamento portanto.
Pai Natal pôe-me no sapatinho o mesmo que puseste o ano passado.
Amores que mantive. Amizades que cultivei. Viagens que fiz. Obstáculos que saltei. Saúde sem sustos. Trabalho que tive. Sonhos que sonhei.
E é tudo. Coisa pouca não?
Ah e só mais uma coisinha sem grande importância.
Ordenados que ganhei...

prendas

Adoro presentes.
O prazer de receber.
O embrulho bonitinho. Com o laço dourado. Ou um sininho. Ou uma estrela.
Há uns dias e directamente de Jerusalém chegou-me um terço em madeira escura. Lindo.
E lama do Mar Negro para massagem. E um azulejo pintado à mão.
Hoje recebi um presente embrulhado com muita arte. Não o abri. Vai para a árvore de Natal.
Há muitos, muitos anos, em vésperas de Natal a minha curiosidade era tanta que queria descobrir o que o tal pai natal caseiro me tinha reservado. Segui os passos da mãe, tentei ler nas entrelinhas da prosa do pai e cheguei à mala pesadona que estava no quarto dos pais.
Cheguei à fala com a mesma. E descobri dois tecidos para mandar fazer vestidos. O pai ia aos armazéns do Minho ou ao Quintas e Irmão e comprava os tais cortes para a modista fazer vestidos.
E não consegui descobrir mais nada. Nesse ano, no sapatinho que ficava em cima do fogão, na cozinha, tive de presente os dois cortes de tecido, uma boneca e um fogão de brincar, em alumínio. A velha mania preconceituosa de acharem que de pequenino é que se torce o pepino e por isso dando-me idéias àcerca da cozinha, no intuito de me transformarem numa doméstica convicta, ou numa cozinheira de sucesso.
Não sei porque raio me lembrei disto agora...
Talvez porque tenha saudades de ser uma das pessoas mais novas da mesa de Natal. Mais novo que eu, só o mano Zé.
Este ano serei a pessoa mais velha da mesa. E não acho a menor graça a esse facto. Mas continuo a adorar as prendas que se abrem à meia-noite em casa do mano Zé. Na minha casa é só na manhã de vinte cinco. Como antigamente. Para manter a tradição. Embora eu saiba que a tradição já não é o que era. Hoje, pai natal algum oferece cortes de tecido. Já nem há modistas. E os vestidos oferecem-se já confecionados. E ainda bem...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

a minha gatinha

À Pitanga só lhe falta falar.
Jesus maria! Paga-se muito pela língua, isso já eu aprendi. Há bués. Quando comecei a pagar sem poder dar o troco. Por falta de razão.
Mas juro, nunca pensei dizer que a D. Pitanga qualquer dia me brinda com um - como é minha? ou - adeus ó vai-te embora.
É que a bichinha é tão esperta e sensível que com muita aprendizagem, se calhar chegava a vias de facto no bê a bá.
Desconfio que ela pressente que me vou embora e que ela fica. Não ao deus dará porque vai ficar muito bem entregue, mas não é a mesma coisa. O meu colinho quando estou no computador. As minhas festinhas quando olha para mim com o olhão azul celeste, lindo de morrer. O meu ralhete se me atropela ou faz maldades e a minha companhia, porque caseira como sou durante a semana ela tem companhia garantida. Já para a semana, não sei não.
Ela anda tão melada, mas tão melada que só pode andar desconfiada.
Porque esta gata é rebelde, mal comportada como uma criança birrenta, teimosa, arisca e voluntariosa. Tudo pormenores de personalidade que conheço bem. Aonde é que ela terá ido buscar isto? Puxou a quem?
Não sei. Só sei que cada vez tenho mais pena de a deixar ao fim de semana. Como é que vou passar sem ela, duas semanas?
Vou, claro. Mas ela fica-me atravessada.
A D. Pitanga caçou-me bem caçada, de mansinho sem quase eu dar por nada.
E agora como é que fica? Canário!

à espera

Sinto-me assim. Prestes a estoirar de ansiedade.

degala, do cambua

o sol envergonhado



Amanhecendo hoje, na cidade do Almonda

o perfume

Encontrei a Maria à porta da Douglas. Do Colombo.
E toda eu me iluminei. Rejubilando.
Finalmente...
Não era a Virgem. Porém, no caso, a minha salvadora.
Procuro a Maria há algum tempo. Ela, só ela, tinha a chave do mistério, que nenhuma colega sua foi capaz de desvendar. Consegui saber o seu nome pela descrição feita por mim às colegas.
Simples descrição. Novinha, bonita, olhos grandes e mestiça. Talvez indiana.
Ah, já sei. É a Maria. Está de folga. Mas acho que vai ser difícil p'ra ela saber passado tanto tempo o que pretende. Vêm aqui tantas senhoras...Disse-me uma colega. E outra. E outra. Várias. Frustradas que eram as tentativas para descobrirem o perfume que eu tinha num vidrinho que a Maria encheu para amostra, achando que era " a minha cara ". Esquecera de perguntar o nome. Apenas sabia qual o escaparate.
- Ah isso!...estamos sempre a mudar os escaparates. Dizia a última a quem pedira ajuda de frasquinho na mão.
- Precisa de ajuda? perguntou-me aquela menina bonita e de olhar doce, que dá pelo nome de Maria e que eu tanto procurava encontrar.
- Oh que bom. É mesmo você, a Maria, que eu queria.
Olhou-me como se eu fosse perturbada, franzindo a testa, sem desfazer o sorriso.
Expliquei como eu faço. Tim-tim por tim-tim, com os pormenores todos. E ela percebeu tudinho com a clareza que faltou a cada uma das outras empregadas da perfumaria, quando as abordei em dias diferentes há vários meses.
Eu sabia que ela saberia. Aconselhou-mo depois de lhe ter dado os meus gostos nessa matéria, com nomes de marcas. E dissera-me na altura que aquele, o tão desejado, o tão falado, estaria entre um e outro, dos que eu usava e que era de facto o adequado.
Cheira maravilhosamente. Assenta-me que nem uma luva e a Maria tem olho clínico para a coisa.
Sorri vitoriosa quando a vi encaminhar-se para o escaparate de sempre, depois de me ter dito que sabia qual era.
Pediu-me as costas da mão esquerda e pulverizou. E eu fiquei em êxtase.
Na batatinha, Ganda Maria!
Finalmente. Quem espera, pode desesperar mas também alcança se tiver paciência. É uma questão de tempo e paciência. Como tudo na vida.
Encontrado o perfume, não olhei para trás. Será o meu perfume, a intervalos com outros igualmente bons que sei que vou receber. Para Angola seguirá este. Um perfume com uma história feliz e sem passado nem lembranças. Criança como eu, quando entro no avião e ele abandona Lisboa a caminho de casa, para o ventre materno.

domingo, 19 de dezembro de 2010

especialmente para mim

Diz que 2011, no horóscopo chinês para a Cabra, é assim:

Amor
Em Abril são possíveis os momentos verdadeiramente difíceis para a relação de casal: brigas, mal humor ou contrastes poderiam estragar o clima idílico que tanto aspiras.
Trata de manter a calma, de ser paciente e de usar tua inteligência e bom sentido comum. O verão, em mudança, te presenteará emoções muito doces e a possibilidade de encontrar tua alma gémea. Será um cordial búfalo?
Trabalho
Ano de preparação mais do que de novas empresas, ainda que se as mudanças que estão por chegar devem aceitar-se sem demasiadas dúvidas: podem provocar, efectivamente, novas vantagens. Em Outubro se prevêem saídas superiores às ordinárias, quiçá por causa de gastos necessários para a casa. Em Novembro presta atenção aos roubos.
Saúde
Janeiro te verá vadio e cansado. Deverás tratar de relaxar-te praticando algum desporto não muito intenso. O resto do ano se perfila óptimo para iniciar alguma terapia alternativa.

E eu só acredito se quero.

até sarna

Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.
E quem acorda torto?
Acho que só com anti-inflamatórios.
A cinco dias de embarcar para fazer 7,45 horas, sentada, é de mestre o que me aconteceu.
Se não fosse patético diria que parece que me rogaram alguma praga. A sério.
Estou tortíssima e desesperada com dores na minha coluna. E tive de andar às compras. E o Colombo parecia estar no dia do juízo final. E de regresso a casa apenas posso dizer que estava mortinha pela minha cama.
Como sou a tal do copo meio vazio, morro de medo de estar deste jeito no sábado que vem.
De costas ou de barriga eu vou, eu vou para perto de quem eu sou, por isso a mala está quase feita. Os biquinis, azul, verde, e o das flores estão arrumados. Os corsários, os vestidos, as túnicas e t-shirts, as chinelas e sandálias também. E por aí adiante.
Agora, fazendo figas, xó melga, desinfecta a zona, pensamento positivo, espero amanhã poder ter as pernas do mesmo tamanho para que não fique num coxear de " se te apanho se te agarro " que acontece sempre que os músculos se retraem, sabe-se lá porquê, mas que o frio ajuda, desajudou sim...
A idade é do caraças e tudo nos chega. Pelo menos a mim é. Até sarna para me coçar...

coincidência ou não

- Amiga quando é que vais para a praia?
- Domingo que vem.
- Preciso da tua ajuda.
- Ok. Diz.
E disse que a mãe, que está lá e sempre esteve e é aquela querida que o ano passado ainda se lembrava que eu era sonâmbula quando era pequena, e até contou um episódio surreal que todos que me conhecem desse tempo sabem, precisa de momendol. Se eu lhe levava duas caixas, perguntou ela.
Claro não é? Nem se pergunta. Que óptimo pretexto para ir à Vila Alice, à Fernando Pessoa e à Eugénio de Castro; a rua do Macambira, do cinema Império e escola Industrial.
De manhã fui à farmácia. A farmacêutica, uma menina simpática que nunca ali vira questionou-me sobre o cartão Farmácias Portuguesas e com pena minha disse não ter. Mas que gostava de o fazer. E logo ali a menina simpática se disponibilzou e até preencheu o papel. Pediu-me a morada. Dei a de torres novas.
-Que engraçado. É de torres novas. A minha melhor amiga vive lá. E tem uma farmácia.
- Conheço concerteza.
E disse. E conheço-a desde pequenina. E cresceu ali na rua onde fica o tribunal de torres novas. Onde trabalhei muitos anos. A vê-la todos os dias no supermercado, ao lado da farmácia, onde diariamente os funcionários iam beber café. Indo para a escola também na mesma rua, a única primária da cidade.
O mundo é de facto uma ervilha. E hoje isto veio comprovar a minha teoria. A farmacêutica do Olival, não é do olival, é de Proença-a-Nova, estudou com a farmacêutica da farmácia mais perto da minha casa e do que foi o meu local de trabalho. E a mãe da minha amiga que está em Luanda descansadinha da vida e nada tem a ver com estas pessoas vai tomar os seus comprimidos comprados no Olival que de comum com torres novas só as amigas farmacêuticas...e eu. Faz sentido. Cada vez mais achar que isto é mesmo uma ervilha

Votos

Faltam poucos dias para o Natal.
Não podia deixar de vir aqui, desejar a todos, um Natal como idealizaram. Sempre na paz e na alegria que a época propicia.
Que cada um tenha o que mais deseja e que pelo menos nestes dias consiga ser feliz...
Bom Natal a todos. E muitos presentes no sapatinho.

Coldplay - Christmas Lights

por terras do Filho de Deus

Directamente de terras por onde Jesus Cristo andou, chegou-me feito oferta, este banco que convida a sentar e a pensar. A orar solenemente.
Há uma paz imensa se nos oferecem um passaporte para o sonho. Através de uma imagem de luz.
Este banco é um lugar de sonho especial. Por ter vindo do berço do Filho de Deus. É um lugar de sonho, mas mais do que isso, de Luz.
Escolhi-o para sentar hoje, domingo, dia santo e de descanso, com uma intenção também ela especial. De parar e pesar as realidades sonhadas, aquelas que nem a dormir as sonharia, as que não realizei. As que quero viver e sonhar ainda que eternamente.
Hoje é um bom dia para olhar com olhos de ver e coração de sentir. Na liberdade de olhar dentro de mim enquanto contemplo o mar. Quem sabe também este mar se cruza com aquele da outra margem. E juntos me possam trazer o sonho feito presente de Natal.
A felicidade de estar feliz aqui, ali ou acolá. Dentro de mim.
Foi só uma imagem de luz que me chegou. Contudo chegou-me a necessidade de me introspectar e perceber quantos degraus vou subir ainda, para alcançar o lugar, sentada ou não, da tranquilidade de aceitar, perdoar, esquecer.
De ser feliz para além do sonho...
Hoje até te convidava a sentares. Este banco é especial. Como tu. E veio da terra de Jesus Cristo.
Sonhar assim é uma responsabilidade que só um sonhador nato e crente, aceita.
Fica o convite. Se vieres, tomas assento. Assim como assim, os nossos sonhos têm um denominador comum. A busca da felicidade, nem que seja numa fracção de segundo que dure o tempo do sonho a perder de vista.

natalizando

Em Luanda o Natal é comemorado duma forma religiosa mas também muito pagã.
As casas são embelezadas. As ruas também.
Os zungueiros vendem árvores de natal já enfeitadas, bastando apenas pagá-las, transportá-las e colocá-las num canto da sala, ligá-las à corrente e eis que temos luzinhas catrapiscando lindas e cintilantes.
Nas variadas artérias da cidade, nos jardins e praças existem árvores gigantes.
Aqui é o Hotel Continental. Perto do Baleizão e do prédio do treme-treme. Um famoso e antigo hotel da cidade. E esta é a árvore de natal com que presenteam os clientes e todos de uma forma geral pois que para quem passa é um regalo ver mais um sinal desta época natalícia tão festejada também aqui, nesta cidade de um país africano onde os portugueses passaram e deixaram tradições. Como sendo o bacalhau com batatas, as filhós, as rabanadas, o arroz doce, e outros.
O pinheiro enfeitado, como este da foto.

sábado, 18 de dezembro de 2010

a dieta

Durante uma semana fiz uma dieta rigorosa. Não fiquei quezilenta, histérica, triste ou carente.Moveu-me um desejo forte de me sentir:
1º- Mais magra. Ou melhor, menos insuflada.
2º- Mais ágil. Ou melhor, menos pé de chumbo.
3º- Mais saudável. Ou melhor, menos hipocondríaca.
4º- Mais tcharam. Ou melhor, menos nem carne nem peixe.
E por aí adiante, que honestamente não me faltariam motivos e incentivos para emagrecer.
Eu sei que os gordos são mais divertidos, mas eu gosto mais de me divertir do que divertir.
Também sei que dão nas vistas, devido ao espaço que ocupam. Mas eu gosto mais de dar nas vistas por outras razões.
E sei ainda que os gordos podem comer de tudo. Apesar de eu ter uma boca santa e portanto não ser biqueira, gosto mais de outras coisas que não são compatíveis com gordura, como por exemplo, pensavam o quê? De andar, correr, saltar, dançar, olhar para mim e gostar. Coisa que já gostei mais, a bem da verdade.
Mas...ao fim desta semana que correu de uma forma tranquila e sem babar por um chocolate, uma coca-cola, uma empada de galinha, um pãozinho com manteiga, uma fatia de queijo ou mesmo uma sopa de feijão, um bife, ou uns jaquinzinhos com arroz de tomate, estou que nem posso.
Não passei fome. Nem tão pouco pensei por um segundo desistir. E nem com aquelas vozes malignas tentando-me, a minha gula deu sinal de vida.
Hibernando sem hora para acordar permitiu assim que um certo volume fosse diminuindo, que até eu, céptica, acreditei que não era o espelho a passar-me a mão pelo pêlo, traiçoeiro.
Fiz dieta mas não me pesei. Nem usei a fita métrica à volta dos meus volumes. Não tinha que provar nada a criatura alguma. Nem a qualquer nutricionista.
A roupa estava lá de lado. À espera de melhores dias. E eles chegaram. Ainda à pouco organizando os trapinhos de verão que tenho de pôr na mala para levar para o verão da minha terra, experimentei três corsários que não vesti este verão porque parecia uma lontra dentro deles e...eis senão quando, até os olhos me sorriram ao espelho. Na muche!
E para acabar com o resto, as crias disseram-me uma coisa que me deixou a babar, embora não concorde muito com isso.
Que estou bem assim e não preciso de emagrecer mais.
Eu acho que são olhos benevolentes que gostam desta mãe, assim, menos espaçosa e roliça.É que estou a milhas de ser uma top-model. Bem que gostava, mas isso, já lá vai se é que algum dia foi.
Portanto, dei-me bem nesta semana e quando dei por finda a dieta a que me propus tive pena de terminar com o bem-estar em que andei se calhar porque pouco mais que beberiquei que até o meu fígado ou vesícula ou ambos se esqueceram de mim e não escoucinharam nem uma vez. Porém, continuo bebendo os meus batidos, comendo maçãs verdes e ananás, queijo fresco, sopas e saladas e mais não digo pois se alguém quiser fazer o que eu fiz que me pergunte por contas que eu lhe conto um conto. Como me conheço, vamos a ver até quando caminharei devagar e a passo certo. Arrisco um palpite.
Quer dizer, uma intuição muito muito forte de que não direi não a:
Quitaba, paracuca, doce de côco, quitetas, coca-cola nacional, cocopina, caipirinhas, castanha de cajú, cocada, mangas, maçãs da índia, sape-sape, maboques, mufete, moamba, canjica, banana assada, marisco, mandioca, mousse de maracujá, escondidinho, cachupa...
Afinal, vou deitar tudo a perder daqui a uma semana? Não. Sei por experiência própria que o meu pequeno almoço em Luanda é sempre um batido dos meus, que levo na bagagem. Depois venha o diabo e escolha o que posso comer, mas nunca pançadas de comida. Vou provando de tudo, aqui e acolá.
Há muita casa para visitar e não tenho feitio para me negar mas este ano vou segurar-me, palavra de maria clara das dores. Depois vos direi.

Luanda VI

No cemitério de Sant'Ana, da Estrada de Catete. Na raiz. Na placenta. Rosalina das Dores Pais. Minha avó. Mãe da minha mãe. Da qual herdei o nome. No reencontro...

Luanda V

No crepúsculo. No lusco-fusco duma cidade viva. Nervosa, trabalhadeira, amante, divertida, amiga.
Duma cidade que me tem presa por laços de amor profundo. No cheiro, na cor, no som, no paladar. Na contemplação. No coração.

Luanda IV

O mar... Aiuê o Mar com que sonhei o ano inteiro. Sentada no banco de pedra, deitada no sono da noite, no pé coxinho, saltando de mar em mar, banhando-me no mar frio desta margem, enrolando-me na onda gigante, planando nas nuvens do outono gélido, de costas ou de barriga, na tábua de salvação...
O Mar minha morada, meu porto seguro. Meu princípio, meu recomeço...

Zango - Camama

No Zango - Camama. Paredes meias com Viana, a antiga cidade satélite de Luanda.
Hoje, aqui, construiram-se cerca de cinquenta prédios modernos e quem pode desloca-se para cá, à procura duma vida mais calma, longe do bulício da capital. Eu diria mais, da confusão, da sarna que é andar no trânsito.

Luanda III

Nas ruas, onde se adquire o que não passa sequer pela imaginação mais fértil, pela mão dos zungueiros que paciente e animadamente se colocam em pontos estratégicos. Luanda no seu melhor.

Vila Alice II

Uma das ruas da Vila Alice que termina na avenida Brasil. Junto à minha casa.

Vila Alice I

As casas do meu Bairro

Vila Alice

Percorrer as ruas da Vila Alice.

Luanda hoje

Olhar o Palácio do Comércio, na Baixa.

Luanda hoje

Andar na avenida Brasil, parar na alameda D. João II e avistar o prédio do Zé Pirão, o 2º do lado direito a caminho da Baixa.

luanda hoje

Voltar a descer as Amarelas até à Igreja da Nazaré.

decrescente

Já só falta uma semana

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

gesto

O silêncio às vezes é de ouro.
E o gesto, dizem, diz tudo...
E nele, o gesto, estão abraços do tamanho do Mundo.

sobrevoando

Acordei nas asas do pássaro livre. Qual albatroz dos mares do sul.
Esse sul mais a Sul que os mares do Sul.
Ouvi " Aubrey " e voei, em vôos rasantes e bailados no meu mar...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

estupefacção

Falta pouco mais de uma semana para viajar para Luanda.
Algumas pessoas sabiam que eu iria de férias. E perguntam-me quando vou. E eu digo:
- Dia 25.
- Dia 25??????????
Acompanhando a pergunta de um rosto incrédulo e engelhado de tanta surpresa.
Mas como é que eu vou viajar no dia 25? Logo no dia de Natal?
Como não sou pura, não digo a hora do dia propositadamente. Agora. Depois da primeira reacção. Para testar as pessoas. E de facto quase todas reagem da mesma forma. Incrédulas. Quase que escandalizadas. Como se todas estivessem para passar o Natal comigo e eu lhes fizesse a grande e indecente desfeita de ir para a minha terra e as deixar a comer o perú sozinhas.
Então, perante um rosto rugoso de tamanha estupefacção, a cada pessoa que o faz, respondo :
-À noitinha. Bem de noite.
Aliviam. Descomprimem.
-Ahhhhhhh! Não vais passar lá o Natal...
Que gozo que me dá isto...

os filhos da guerra


Quando descobriram que na Miguel Bombarda existia um homem que viera de Angola, foram chegando à loja, os retornados do burgo. Gente de Luanda e de outras paragens duma Angola em guerra. O ponto de encontro passou a ser à terça-feira, dia de mercado semanal na então vila. E a cada semana iam chegando cada vez mais. Uns na carreira, outros no velho automóvel que conseguiram fazer embarcar no porto de Luanda dias antes da independência e outros que eram da vila e se deslocavam a pé.
A mercearia do sô Santos passou a ser ponto de encontro e do petisco. Nas traseiras da loja assavam-se sardinhas, carapaus, entremeadas, febras, chouriços e farinheiras. Comia-se queijo e bebia-se vinho. Matavam-se as saudades da África que ficara para trás, recordando velhos tempos. Exorcizavam-nas.
Neste convívio não faltava o sr. João, um homem que conhecera o meu avô Carvalho em Moçâmedes e que vivia agora numa aldeia a caminho de Fátima.
De vez em quando trazia consigo o filho, uma criança mestiça, que eu nunca gostei da palavra mulato. Ouvira-a muitas vezes e sempre em tom depreciativo.
Como tudo na vida também os retornados das terças-feiras foram dispersando. Alguns foram para outras paragens, outros morreram e outros simplesmente deixaram de ter disponibilidade.
A minha mãe adoeceu. O pai trespassou a loja. E ficou cada vez mais sozinho.
Anos mais tarde, num tempo em que os oficiais de justiça trabalhavam por sua conta e risco aos sábados e domingos, fazendo notificações pelas aldeias da comarca aos " crónicos " ( aqueles que eram conhecidos de gingeira por serem reincidentes ), fui à aldeia do sr. João, retornado das 3ªs feiras. À procura de alguém a contas com a justiça. E dei-me com ele. E vi o senhor João chorar porque era uma vergonha eu estar ali à procura do filho. E ralhou com ele à minha frente como se ele fosse um cachopo.
Mais tarde, o rapaz meteu-se numa asneira maior e foi julgado. E condenado a pena de prisão substituída por multa que o sr. João pagou. Para que o seu filho não fosse preso.
Mais tarde ainda o sr. João morreu e o rapaz ficou sozinho. A mãe regressara a Angola.
Um dia foi preso. Praticara um furto. Era reincidente.
Foi julgado e condenado. Eu fui a funcionária de serviço à sala. Ele olhava-me como se eu fosse a sua tábua de salvação. Se calhar porque conhecera o seu pai. Se calhar porque era da sua terra. E era a única pessoa que ele conhecia naquele espaço de desconforto, agressivo mesmo . Havia pânico no seu olhar e uma profunda solidão. Era um homem. Novo. Pouco mais que um rapazinho. Que a guerra em Angola lhe mudara o destino, através dos seus pais.
Foi cumprir pena para o estabelecimento prisional da cidade.
Nunca mais o vi.
O ano passado, nesta época natalícia, passando junto a uma das pontes do rio Almonda ouvi uma voz conhecida, do alto de uma escada.
Pendurado numa árvore, montando as luzinhas de Natal, na rua, junto da Avenida do rio, estava o filho do sr João. O Zé.
- D. Clara, tá boa?
Fiquei contente de o ver.Tinha passado muito tempo desde aquela vez no tribunal. Disse-me que trabalhava para uma empresa contratada pela Câmara. Desejei-lhe boa sorte e Festas Felizes.
Hoje, a caminho do autocarro vi-o de novo. Muito perto do local do ano passado.
Trazia um gorro enfiado pela cabeça abaixo, luvas grossas e cachecol a tapar-lhe parte da cara.
Encaminhava-se para um automóvel, onde o aguardavam quatro indivíduos vestidos da mesma forma. Por deformação profissional, pensei que tinham todos aspecto de criaturas prontas para um assalto. Mas quem sou eu para julgar o aspecto de alguém?
- Tá boa D. Clara? disse-me, visivelmente satisfeito de me ver.
-Tou e tu, tudo bem?
-Sim, vou pegar ao trabalho.
-Então vai lá. Boas festas e Bom Ano.
-Para a senhora também.
Seguiu o seu destino. Aquele que traçou e o outro, o que traçaram por ele, quando os seus pais deixaram Angola " fugindo " da guerra. O Zé faz parte daqueles meninos que nasceram na guerra, na terra longe e viveram em luta permanente num terra que dizem, de paz.
Hoje entristeci pelos zés do mundo angolano a quem a vida não sorriu.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tito Paris - Danca ma mi Crioula

uma buzinadela


Ia eu por aí fora, como sempre, veloz, no alto da minha altivez, me desculpem se não sei bem o significado, mas acho que não estou enganada, sei lá, quererei dizer apenas que ia muito apressada de nariz empinado ( sem pensamentos ou sonhos que me fazem olhar ao acaso, e também para o chão ), dizia então que ia apressadíssima como sempre aliás, não adianta dizer que não ando atrasada muitas vezes, porque ando sim, qual Susana Feitor, numa marcha invejável, mal comparando evidentemente, sob pena de parecer presunçosa, quando ouvi uma senhora buzinadela. Tão sonora que até me assustou.
Olhei. Eu olho sempre. Não sou como aquelas pessoas, mulheres, muito senhoras do seu nariz, que dizem que não, que ninguém as chama por uma buzina, eu cá, só que não me chamem Mãe eu olho, vamos que é algo importante, eu perco se fingir ser uma senhora a quem só podem bater com uma flor.
Olhei. E era demais importante, oportuno, sensato, generoso.
Toca-me a generosidade. Mesmo que não seja comigo. Mas quando me toca a mim, fico mesmo muito tocada.
Bem, mas não vou continuar a encanar a perna à rã.
O que era afinal? O " meu " motorista, se é que o posso tratar com tanta posse. O " meu " autocarro, meu, entre aspas, porque quase nada tenho de meu, convenhamos.
O sr. motorista da carreira que parou o autocarro a mais de 500 metros da garagem para eu entrasse.
E eu fui.
-Bom dia. Evita ir a pé.
E eu agradeci-lhe. Muito. Por palavras o normal, do coração, muito.
Há gente boa, felismente.
Rejubilei perante a idéia de chegar à garagem, dentro do autocarro.
E foi uma festa, para as " minhas " pessoas e para mim.
A Vitória olhou-me como se visse um fantasma. - Já cá está? Os outros riram-se. - Hoje foi a primeira - Nem sempre nem nunca, respondi.
E fiquei no meu lugar preferido, na parte detrás do autocarro, onde tudo acontece.
Quando o dia começa assim é uma benção.
A benção de estar rodeada de gente sã. E generosa...
Obrigada senhor motorista das 8,20 horas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

MARIA BETHANIA " SONHO IMPOSSÍVEL "

hoje entristeci

Chegou até mim, uma mulher vestida de negro. Apenas um cachecol cinzento com uns fios prateados tentava iluminar-lhe o rosto rugoso, esguio e triste.
Ao balcão encontrava-se uma mulher de nacinalidade russa. Loira, olhos azuis, bonita. Dois anos mais velha que eu.
Olhei as duas mulheres. Tão diferentes e tão iguais.
A russa esperava que eu tratasse do seu assunto. Enquanto introduzia os dados no computador perguntava-me porque uma mulher de 57 anos deixa a Rússia para viver em Portugal tão precariamente, tendo como documento um título de residência temporária.
Há vidas assim. Recomeçando no outono da vida.
Há destinos que se procuram ou não há como se lhes fugir.
A mulher de negro disse-me que tinha muita pressa.
Chegara depois. Teria de esperar pela sua vez. Soube porém o que queria e que dali iria para um hospital próximo. Não sabia se ficaria internada.
Expliquei-lhe que podia pedir a alguém que fosse ali.
- Quem, menina? Sou sozinha. O meu marido é que me valia. Morreu...
A mulher russa olhou para ela e eu que estava de frente olhei-a também, nos olhos. Acho que só nesse momento a vi realmente.
Não sei se foi por a olharmos, se porque trazia as lágriams penduradas, talvez desde a morte do marido, que sei eu, sei que se soltaram grossas, deslizando pelo carreiro de rugas do seu rosto, num pranto sentido e infeliz.
Ao balcão do local onde ganho a vida, senti-me tão próxima das duas mulheres que atendi quase que em simultâneo, que pude chorar as lágrimas de uma e as angústias de outra.
A solidão do inverno da vida há-de ser muito difícil.
Tal como começar de novo. E isso, eu sei como é.
Hoje entristeci...

não me escangalhei

Chama-se escangalhada. Ao bolo-rei das Beiras.
Hoje passou pelo meu nariz apurado, o cheiro de duas escangalhadas, quentinhas e todinhas polvilhadas de açúcar em pó ( este ainda não esgotou, pelos vistos ).
Alguém as comprou e trouxe-as para todos as comermos, emolido do espírito natalício.
Todos, menos eu, claro. Antes quebrar que torcer.
Para me testarem ( ? ) trouxeram-me uma fatiazinha, perfumada, cheirando a gila, nozes e outros, mas a tentação do pecado não é mais forte que eu. Gula que é gula não se tenta com uma insignificante fatia de bolo, ainda por cima escangalhada. Aguarda por outros pitéus.
Eu sou lá mulher de me escangalhar por tão pouco?
Sou uma pessoa ou uma lesma? Então e o meu querido espelho? Que tem conversado comigo tão paciente e amiguinho? Que me fala ao ouvido segredos que já estou a gostar de ouvir?
Não respondam por favor ( ? ) porque posso não gostar da resposta e perco o pio. É que sempre que me chega a pimenta ao nariz fico sem graves.
E esganiçada lamento, mas não fico no meu melhor. E uma mulher tem de estar sempre como Deus quer. Perfeita.
Porém, digo-vos muito séria e humildemente, antes esganiçada do que escangalhada. Ou invertebrada...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

HISTÓRIA DO NATAL DIGITAL

TAAG_06.12.2010_Emergency.landing.avi

Apenas com um motor os pilotos da TAAG provaram que manutenção do material não é pilotagem. Pilotagem é muito mais. A tripulação deste vôo está de parabéns.

vento em popa

Vai de vento em popa a minha dieta. Líquida. Rígida. No 4º dia. Há quem tenha dado conta.
Pra quem não acreditou que eu fosse capaz, ora bem, vai buscar...
Hoje tive de me rir com uma colega de longa data que me dizia " Agora já só comes em Luanda"
Amanhã é o último dia. Mas acho que vou continuar. Sinto-me bem. Leve que nem uma pluma (?)...
O espelho começa a ser meu amigo. E o engraçado é que nem penso em comezainas. Nem tão pouco estou nervosinha de roer unhas.
O segredo está na massa...encefálica.

as couves do Natal

As couves estão a rir-se para nós mas não tarda nada estarão no tacho. Com o bacalhau e as batatas. Nada demais, não fossem estas, as couves da horta do mano Zé.

cozinha ambulante

Entrei no autocarro. O motorista, pessoa que nunca vi, nem para mim olhou. Mas tinha de olhar. Quer quisesse quer não. Para verificar se a fotografia do meu cartão de livre trânsito corresponde.
Foi na falta de atitude desse senhor que eu percebi que o meu motorista do costume é um querido. Isto é sempre assim. Só quando falta, damos valor. Encaminhei-me para o " camarote ", junto dos putos, só porque eles saem logo e eu fico sozinha na parte de trás do autocarro. P'ra escrever, ouvir música e até pintar as unhas. Mais do que uma vez. Bem, confesso que também gosto de lhes ouvir as conversas e perceber assim como vai o mundo adolescente. E no fundo, apesar dos pesares até acho que vai bem, muito bem.
Hoje o autocarro estava diferente. Tinha cheiro. Um pivete a pastéis de bacalhau. É verdade. E era tão agressivo que parecia estar numa fritadeira. Quem se teria atrevido a levar pastéis de bacalhau para o almoço?
Eu não sou muito fã. Nem de os fazer nem de os comer. Só no Natal.
Para os fazer não havia como a D. Celeste. À moda antiga. Desfazendo a batata com o garfo. Moendo e desfiando o bacalhau dentro de um pano da loiça. E batendo os ovos inteiros, um por um, para não falar da salsa, da cebola picada e da pimenta.
Lembrei-me mais uma vez do Natal. Dos bolinhos de bacalhau sendo moldados de uma colher para outra. Foi de Trás-os-Montes a tradição do polvo frito e dos pastéis de bacalhau, para a nossa casa, até hoje. O mano Zé mantêm a tradição. E os pastéis lá de casa comidos nesta época são de comer e chorar por mais. Mas hoje, no autocarro, era escusado esse cheiro a comida. Primeiro porque odeio cheiros. Depois porque era de manhã. E por último porque não me interessa viajar numa cozinha ambulante.

hoje o sol nasceu assim

O Sol quando nasce, dizem, é para todos. Mas nem todos são para o nascimento do sol.
Eu sou. Às 8 horas da manhã o sol no Ribatejo nasceu deste jeito, rompendo o intenso nevoeiro que servia de tecto a Torres Novas.

domingo, 12 de dezembro de 2010

no centro comercial

A árvore de Natal no centro comercial

o que me aconteceu hoje

Há dias assim. Que nos corre bem o dia. Porque sim.
Apanhei um taxi para o Olival e à saída do Colombo. Parecia o Pai Natal, cheia de sacos. Só me faltou o gorro vermelho com pêlo branco e o pompom que lhe dá um ar ternurento. Mas lá chegarei. Senão vejam para a semana aqui, porque prometo que vou aparecer de gorro do pai natal. Eu curto aquele carapuço. Não sei, mas dá-me a ilusão que posso ser eu própria a criatura que nos natais aparece para distribuir presentes pelas pessoas. E a cada Natal sonho também que me apareça um pai natal com um saco cheinho de presentes, como as crianças anseiam.
Entrei no taxi, disse para onde e por onde queria ir. Pela segunda circular há mais semáforos, demora-se o dobro e paga-se mais. O taxista riu-se com a minha preferência. A meio do percurso resolveu falar. Olhando pelo espelho retrovisor: Está frio não está? Não tenho, respondi. - Então não é friorenta. Não, suporto melhor o frio que o calor. - Não é de África, pois não? - Sou, sou...Ah! Bem me parecia, quando entrou no taxi pensei que tinha mesmo ar de boa pessoa.
Dei uma gargalhada. Eu sei que não tenho cara de boa pessoa. Mas não tenho mesmo. E reconheço boas pessoas à légua. E gosto de pessoas que têm cara de boas pessoas. E até sinto um certo ressabiamento por não ter nascido com uma cara dessas. Bonacheirona.
O taxista passou a explicar. E foi básica a sua explicação. Depois de me dizer que nascera em Angola, N'Dalatando e viera pequenino para Lisboa, aquando da independência.
Ora então segundo ele, os africanos, sobretudo os angolanos, são todos boas pessoas. Ri-me de novo. E como já não embandeiro em arco, fui dizendo que há de tudo. Ah... mas porque NÓS os angolanos somos diferentes....
Gostei desta criatura que me contou a sua vida como se me conhecesse desde que nasceu.

Ao fim da tarde pedi um taxi mas desta feita, a Odivelas. Era o 35. O Sr. Frederico. Um rapaz um pouco mais velho que Ricardo, da semana passada, mas ainda com idade para ser meu filho. Alegrou-se de me ver. Porque tal e coiso, que a D. Clara nunca mais me chamou ao fim de semana, que até pensava que estava zangada comigo...
Eu sei que uma corrida para Lisboa é considerada um bom trabalho e que eles se animam por isso, mas esta criatura sabe o meu nome e por isso tem o meu apreço.
Quando estava quase no Parque das Nações, o taxista diz: Hoje a senhora está triste. Nos outros dias fala muito, ri...
Ele é que fala pelos cotovelos o tempo todo. Porém fiquei a pensar no que observara. Será que estou triste?!
Estou cansada. Respondi-lhe. E não entrei em detalhes. Nem sei se havia detalhes. Mas este homem que me transporta de vez em quando e que até me telefona uns minutos antes de chegar viu o que eu não vira ao longo do dia.
De facto há uma certa tristeza nos domingos à noite, em dias de chuva e em época de Natal.
Deu-me de novo o contacto. O seu telefone fora trocado por avaria e por esse motivo nunca mais me transportara.

Trabalha no dia de Natal. Levar-me-á ao aeroporto.
Até a levava a Luanda se fosse possível, disse-me divertido.
Há dias assim que os passamos entre corridas de taxi e centros comerciais.
Mas ainda assim, somos bem tratados e o balanço é positivo.

domingo como outros (?)


Espero o metro no Senhor Roubado. Choveu à pouco. As ruas ainda estão ensopadas.
Enquanto espero, ando num vai e vem que até a mim enerva, mas pior seria se estivesse sentada. Há dias assim. Muitos...
Tenho mil coisas para comprar e tratar e sei que a memória já não é como antigamente. E estou enervada porque este é o penúltimo fim de semana para este efeito. Ainda não é meio-dia mas não tenho o dia todo por conta de prendas de Natal. Na estação do senhor roubado há pouca gente à espera. Ao fim de semana o serviço é mais espaçado e as pessoas muito menos. O metro anda quase vazio.
Uma rapariga chega perto de mim. De gorro rosa forte, jeans e ténis. Gabardine. Um livro de capa castanha na mão. Negra, num castanho que parece a cor dos malanginos.
A miúda canta algo semelhante a gospel. Gosto de gospel. Prestei-lhe atenção. Não é difícil,porque não se passa nada ali. Sentou-se e abriu o pequeno livro de capa castanha. Uma bíblia. Parou de cantar e iniciou a leitura. Indiferente ao exterior.
Observei-a e também à bíblia. Não era nova e tinha folhas marcadas com post-its rosa forte como o seu gorro.
Veio-me à memória a Julieta. Minha amiga, antiga colega do liceu. Da Vila Alice. Enfermeira na Suiça. Falei com ela a semana passada.
Tenho duas bíblias. Uma de capa castanha e que está permanentemente na minha mesinha de cabeceira. A outra de capa preta e maiorzinha, guardada numa gaveta, no meu quarto. Ambas oferecidas pela Julieta.
A Julieta é muito crente, muito religiosa, embora a sua crença não seja igual à minha. Outra Igreja, o mesmo Deus, o mesmo Pai, o mesmo Filho.
Quando estive com ela a última vez, em Genéve, quis que eu conhecesse a sua igreja. O lugar de culto onde se reune com portugueses ali residentes, como ela. E eu fui. Foi interessante conhecer o espaço, as pessoas e a religiosidade de todos os presentes. A forma como o manifestam. Fiz a vontada à minha amiga. Depois em Lausanne, no domingo de Páscoa disse-lhe que não ia. Ali não era o meu lugar. E ela aceitou. Fui conhecer a cidade melhor. Para a beira do Lago. Falei com brasileiras que passeavam e me pediram que tirasse uma fotografia. E com um oriental, para o mesmo efeito. Comprei um gelado e souvenirs.
As montanhas cheias de neve e a cidade coberta da luz do sol duma primavera quente, da alegria das diversas raças passeando-se junto ao lago imenso, deram-me a certeza , independentemente da religião, que Deus existe. No crescente de harmonia, paz, e felicidade que se atinge quando estamos tranquilos, apesar de estarmos a muitos quilómetros de casa.
Não sei porque sempre associo coisas que acontecem; objectos, frases, olhares, perfumes, músicas, dias, roupas, terras, a acontecimentos do passado. A pessoas do passado. Ao meu passado.
Aos meus afectos, amores e desamores, saudades, prazeres, medos, ódios e angústias.
Por falar nisso, não gosto de andar de metro ao domingo. Associo a solidão, indigência, minorias, e a mim. Quando punha os óculos de sol não importava se era dia ou noite, para que não me vissem chorar lágrimas de revolta, medo, desespero e profunda solidão.
Olho tudo como se isso fosse à muito tempo atrás. Mas não foi. Há três natais atrás odiava o metro ao domingo, o autocarro, torres novas, pessoas, a vida e a mim por tanto ódio ter no coração, e nem bíblias, nem religiões faziam o milagre de me salvar de mim. Só o tempo...os amigos, a Julieta, também.
Distancio-me da menina do Gospel e da bíblia, da minha amiga Julieta e dos meus ódios de estimação, para sair no Marquês. Tenho de ir para a linha da Amadora, para o Colombo.
Vou fazer as minhas compras de Natal. Sozinha. Em minha casa dorme-se. O meu pequenino Mundo ficou no Olival. Serenamente me entrego ao prazer de escolher os presentes para as minhas pessoas. Segundo o que gostam. E o que posso dar. Bem sei que é um consumismo doido este da época natalícia. Uma tradição. E eu gosto. Quase não dei por ela este ano.
Sou gente normal. De gostos normais. Igual a tantos outros. É domingo e estou viva.
A Bíblia mexeu comigo, com as minhas recordações sempre vivas, apenas guardadas numa gaveta da minha memória, algumas, outras na do coração. Hoje não vou andar mais de metro. Tão pouco de autocarro, ou comboio. Hoje irei para o tarrafal de boleia. Oferecida. Lembraram-se de mim. Telefonaram. " Clara estás em Lisboa? Queres ir connosco? Às seis no Oriente " Comoveram-me com a lembrança. Agradeço do fundo do coração. Mais uma para o rol dos gestos a que fico eternamente grata. São tantas que ainda que fosse rica, a pagar-lhes em dinheiro, não chegava a minha riqueza para tantos gestos de amizade e carinho.
Quando chegar a casa, mais logo, irei desfolhar a Bíblia que tenho no meu quarto. Como a caçula faz. Todas as noites, lê um pouco da sua bíblia, oferecida também pela Julieta.
Se calhar por isso, a minha caçula é tão resistente à adversidade. E tão tranquila e corajosa.
Vou sair na estação Colégio Militar. Para uma peregrinação às lojas. Acho que vou sobreviver...

sábado, 11 de dezembro de 2010

libertando-me

É num sábado como o de hoje que vou a caminho de casa. Percorrer estas ruas, respirar deste ar, ouvir o sotaque. Andar no nevoeiro. Receber o afago do sol. Sentir o cheiro do mar. Olhar o brilho da lua. Banhar-me nas águas da praia. Perfumar-me do aroma das acácias. Colher os frutos da terra. Calar-me no crepúsculo dos dias. Enfeitiçar-me de contos e estórias. Escrever momentos felizes. Gargalhar do exagero. Sorrir prosas da terra. Chorar na emoção. Abraçar amigos e sonhos.
Tudo tão simples! Como o é, a vida.
É num sábado de natal, que parto.
Hoje, olho o ontem que vivi nesta terra que chamo minha e ainda trago na memória o amor que eu lhe sinto. E armanezo a cada regresso.
Olho-a e penso que tanta coisa mudou...desde então.
Ou talvez não.
Passou um ano.
Chegaram pessoas. Partiram outras. Ficaram algumas.
Eu estou sempre no mesmo lugar. O de tentar ser feliz.
Como ontem, hoje espero amanhãs. Aqui neste lugar de paz interior e felicidade adiada a cada vez que parto.
Como o ano que passou já me estou a libertar do que me prende aqui.
Quero-me inteira. Quero-me livre.
Luanda me aguarda. Simples, bonita. Provocante e garrida. Hospedeira e cativante. Nervosa e trabalhadeira.
Mulher. Amiga.
Eternamente Mãe...

exaltação

Amanhece, sábado cheirando a rosas e a mar.
Olho pela vidraça da sala. A paisagem.
Para além deste nascente...
O sol avança na montanha e poisa à minha janela.
Sinto-me banhada dessa luz. Inundada. A transbordar.
E num mãos largas que a acção chama a reacção, ofereço-o a ti.
Pergunto-me se não te chegou já. Se não se anunciou.
Se não te tocou o rosto num afago inocente.
Se não te sorriu amigo em vénias de consideração.
Se não piscou o olho num gesto de cumplicidade.
Se não te beijou ousado, de timidez que a desmente.
Se não te proclamou vaidoso, a minha dedicação.
Se não te escreveu no mar, poema a navegar
nas ondas da espuma quente.
Se não te levou recados, pássaro, príncipe, dos céus.
Se não te aqueceu calor, surpresa, partilha, presente.
Se não te convidou ao sonho, delírio, insolação.
Se ainda não te disse, que estás no meu coração...

matemática (? )

1+2 = 3 = mãe + crias = família + lar = Felicidade

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

The xx - Crystalised

no sonho

Mar de domingo - Portugal

fim de tarde


Dezembro 2009 - Angola

parabéns, Lurdes

Bem sei que tu és mais cães, mas eu sou no momento, mais gatos...Ah pois é! ...
Apesar de nunca te ter perguntado se aceitavas, quando falo de ti e do mano Zé à Pitanga digo, o tio Zé, a tia Lurdes, por isso e porque faz sentido, aqui está este gato Lindão com um bolo ( não é para comer porque estamos a portar-nos com bué de tarilhos, bem vi ontem, só uma fatiazita de bolo, na caçula ). Mas tens uma vela para que inspires com toda a tua força e sopres ao mesmo tempo que pedes um desejo. Como dizia a caçula, um desejo por cada ano...ainda terás muitos e muito desejos para pedires e veres realizados. São os meus votos hoje, Lurdes da minha alma.
Para hoje e porque tu mereces, podias não merecer e eu estar aqui a fazer o frete, mas não, mereces mesmo muitos presentes e um dia alegre e bem disposto acompanhada da família que é o teu orgulho.
Que pena que hoje iniciei a tal da dieta muito líquida, só líquida, senão estavas feita, não te escapavas de um jantar daqueles...mas não perdes pela demora. Espera só quando chegar de Luanda, porque o Natal não vale, né?
Minha querida, parabéns e faz o favor de aproveitares tudo o que a vida te dá de bom. Vive-a o melhor que puderes e souberes. E inventa se for preciso, que é para isso que cá estamos. Para sermos felizes.
Parece que te estou a ver a abanares a cabeça e a achares que sou doida...tá bom, vou bazar...
Beijinhos e um bom dia de aniversário.

é um supônhamos

Diz o tomate para a tomata: Tu matas-me...

Yuri Da Cunha- Muxima

altar

Chegando no sol da tarde ao altar angolano. Muxima.