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quinta-feira, 17 de maio de 2012

vamos matabichar, avô?

foto tukayana.blogspot
É feriado. Ou domingo. Não sei bem. P'ra mim os dias são todos santos. A avenida é de terra batida. Os cipaios me metem medo. Deve ser de virem em bando, fardados de igual. Como as gaivotas e outros bichos d' asas que passam no céu, parece casamento. Deve ser do  passo ritmado. Parece  estão a marchar lá no quartel. Deve ser d'eu ser tão candengue ali na porta, parece que é no fim do mundo mas afinal até és meu vizinho. Deve ser de estar te chamando e eles não terem conhecimento que sou tua neta querida A única que tens. Vai vir mais mas nem eu nem tu sabemos.
- Avôooooooooo! Avôooooooooo! A mãe mandou-te chamar p'ra vires matabichar. Chamo, com a voz sumida de medo dos cipaios. Mas quem disse eu sou de desistir? A Clarita do sô Santos e dona Celeste?  Essa miúda que sobe na mulembeira através dos seus fios resistentes? Mentira! Essa miúda, não. Não desiste mesmo, quando mete umas coisas na cabeça.
- Avôoooooooo! Avôooooooooooo! continuo a chamar e os cipaios a se aproximarem, me olhando.  Cada vez mais. Já estou a ouvir - toc toc, toc toc, dos pés, parece estão no quartel. Muito direitos, parece engoliram pau da cana doce. Chapéu na cabeça que não sei como é que é o nome dele. Tem dois bicos, um para a frente e outro para trás. Lhe dão ar de comando. Um bando deles. Feito pássaro que voa no céu. Vai ver vão-me agarrar. Fico arrepiada. Até hoje, me arrepio quando tenho medo.
Vai ser o que Deus quiser. E eles também. Tou mesmo ali sozinha, sete horas da manhã, a mãe tá fazer café de cafeteira e leite nido, lá em casa, a cubata, como lhe oiço tratar, só porque não é de tijolo. Será que me vão prender? Não fiz nada de mal. Eu sei o que é xutarem no calaboiço, bandido. Quando apanham ladrão a roubar, depois duma tareia de ficar a deitar sangue, de poça no chão junto da cabeça, lhe atiram água no corpo, na cabeça principalmente, lata grande daquela de ir no chafariz, que vem do puto com chouriços e lhe levam na esquadra. Eu sei porque tenho a mania de escutar as conversas dos mais velhos. Do sô Santos, do avô Carvalho, tio Augusto, primo Fernando e dos outros avilos que vão jogar xinquilho e cartas lá em casa. Até as conversas que a Lucrécia tem quando estamos só na esteira, a comer feijão de óleo de palma, escondida da mãe e ela  diz com o dedo esticado na frente do meu nariz: menina clarita, tua mãe vai-te bater e vai-me ralhar, vais ver só. Não podes comer feijão, olha só quando tiveste tifo e ficaste na cama naquela hora, távamos-te a chorar ias morrer, caté a Diana não ladrava mais e ficava no pé da tua cama te olhando?
É dia santo sim. É dia de irmos passear na carrinha azul. Se calhar vamos buscar a Lisete,  p'ra vir passear também, minha kamba desde que nasci, que mora no largo e é filha da dona Rosa e do maior amigo de todos os verdadeiros, do sô Santos,  sr. Eurico, apaixonado de pombos correio, caté põe aquela anilha bonita, parece gargantilha, no pescoço deles. A Lisete é irmã da Laura e do Kaquito, mais velhos, que conheço bué porque quando vou buscar os ovos na dona Ester, lá no largo e faço buraco no dito e bebo ( que nojo! ) a mãe da minha kamba que apesar de me kuiar bués, me passa raspanete e os seus mais velhos também. 
- Euêeeeee, a dona Celeste vai-te bater, espera só, reforçando no sinal, com a mão aberta. Outras vezes, quando vou  na casa da minha kamba, eles estão todos lá. Ela cozinha caldo, como sempre, ele passa brilhantina nos cabelos, se olha no espelho, ouvem música no rádio velho do sr. Eurico que tem costume  de ouvir essas emissoras que são estrangeiras e não podem ser escutadas, parece é proibido. Diz que lhes levam no xelindró. Só mesmo o pai da minha kamba, meu pai, sô Santos e o avô é que eu sei que escutam toda a hora essas palavras que saiem do rádio que eu ainda não percebi quem é que fala lá dentro. Como é essa coisa que não estou a lhe ver o homem e só estou a escutar as palavras dele?
O avô não ouve. Obrigada. A minha voz não sai da garganta feita voz de gente. Até hoje, fico fraca de voz quando me sobe os calundus na cabeça. Vai ver, é por isso que eu gosto da voz dos outros. Esse medo todo mas escapei de ficar gaga. Deus que me livre, eu gosto tanto de falar, olha só ter de repetir, tomar balanço na idéia p'ra dizer as asneiras que xingo quando me olham a me querer gozar. E quando me chamam daqueles nomes que eu não gosto. Branca de segunda, branca cafusa, pepsi-cola, eu amo pepsi-cola feito vício mesmo. Até hoje gosto de coca-cola, nossa, como gosto, nessa hora ainda não havia. Gostam de me provocar. Gostam de me ver bravar. Até hoje.  Mando cada muxoxo e cada olhar!
E porque o avô não escuta a  minha chamada, espio o quintal, enquanto o grupo de cipaios vai passando nas minhas costas. Retenho a respiração. Parece vou rebentar. Menino Jesus me protege só. E protege.
Olho as mangueiras carregadinhas de mangas. Umas são redondas, cheias de fios. Outras compridas, bem gostosas. Olho a goiabeira. E a pitangueira. Olho o tanque dos peixinhos vermelhos. E os canteiros. Cheios de roseiras que o avô gosta tanto. Tem roseiras aí que são mais velhas que eu. As rosas brancas estão no botão por desabrochar. Das rosas, só não gosto dos picos. Do quintal só não gostei daquele dia, da  moeda de cinco tostões, que engoli perto da figueira e me deram tanta surra nas costas que teve que sair mesmo. Nesse dia queria ir embora do quintal. O avô parece virou cipaio e me gritou e gritou com a moeda e com a mãe e com o pai. A culpa é toda vossa...
Já estou quase para desistir de gritar quando finalmente o avô aparece na varanda. Sorri e vem no portão.
Eu fico parece estou a ver Deus. Como eu gosto deste avô! Até hoje...
-  Vamos matabichar, avô?

domingo, 15 de janeiro de 2012

sapateando

foto tukayana.blogspotSão fofos não são?
Estou numa idade em que acomulo muito disparate. Muita coisa boa. E menos boa. Muita coisa gira. Surpreendente. Ridícula. Horrível. Vergonhosa. Vulgar. Inoportuna. Muita coisa desnecessária. Mal intencionada. Sim, também. Surpéflua. Emocionante. Humilhante. Lúdica. Generosa. Obrigatória. Espiritual. Estúpida. Familiar. Egoísta. Atrevida.
Enfim, estou velha...
Há coisas que num passeio no interior de mim percebo que nunca fiz. Que não me atreverei a fazer. Há outras que não fiz e não queria passar para o outro lado da vida sem fazer, e outras há que só não as fiz porque não calhou, mas cabem em mim com naturalidade.
Já ouvi muitas histórias. Gosto de gente com histórias para contar. São pessoas com memória, criativas e ricas. A vida é feita de pequenas histórias que alinhavadas num alinhamento progressivo dá a história da nossa vida. Quisera eu ter oportunidade e desprendimento para tal e ainda tenho nas mãos e na memória muitas histórias p'ra contar que são a coluna vertebral que sustenta a minha alma e fazem de mim o que eu sou. Um dia, talvez, se não for eu, alguém contará...
Pronto, já estou a ficar envolvida no argumento da história da minha vida e a ficar demasiado séria e o caso não é p'ra isso. Esta história é breve, menor que a introdução e nem por isso interessante. A possível. Só a destaco porque já ouvi muitas histórias destas e nunca me acontecera. O sentido prático que nem sempre tenho para as coisas.
Cheguei do Ribatejo ainda de manhã. Nos pés, uns sapatos castanhos. Com salto. Má volta vir p'ra Lisboa de saltos, mas dado que me ia passear por determinada zona da cidade, fazia todo o sentido. Lisboa dá-me saudades. Há 3 semanas que não lhe punha a vista em cima. Esta é mesmo a minha segunda cidade. A primeira já toda a gente sabe qual é.
Saí de Sete Rios e encaminhei-me rapidamente para o metro. Sem olhar para coisa alguma pois o peditório ao fundo das escadas que vai dar aos taxis, é feroz, e eu deixo-me manipular, já sei como é. Dizem-me que têm fome e dão-me um soco no estômago e um vazio na carteira que não precisa de ar. Precisa é de notas para levar com tranquilidade a minha vidinha que quero com qualidade para ser resignada mas não triste.
Passei a sapataria que fica antes da passagem para o metro. As montras apelativas fizeram-me sorrir ironicamente. A 6,90 e a 9,90 todo o calçado da loja. Pensei p'ra com os meus botões e sapatinhos de salto castanhos : Ganda merda devem ser. Mais baratos que nos chineses, ciganos e afins...
Carreguei o cartão e entrei. Ao descer as escadas ouvi um toc toc mais fininho que se fosse voz era de cana rachada. E parecido com aquele som que arrepia, de esferovite, unhas raspando, passos em cima de azulejos. Dentes rangendo. E fiquei toda arrepiadinha. Sentei-me e vi que perdera as capas dos meus ricos sapatinhos. E não pensei duas vezes. Meia volta volver. Saí como entrei, apressadamente, e entrei na loja. A empregada ( catanhó ) falava crioulo com o segurança do espaço comum. Olhei à volta e não vi nada que me agradasse. Pedi ajuda. Por favor, preciso duns sapatos acastanhados, com salto.
- E botas não? - Não. Era o que me faltava. Tenho botas a dar com o pau. As últimas estão por estrear e foram oferta da caçula. Continuam a secar da lavagem que lhes dei depois do banho de licor de ameixa que sofreram no Natal.
-Não. Quero sapatos. Mas podem ser abotinados.
Ela olhou para mim e disse: Chegaram uns que ainda não estão na montra que são a cara da senhora.
E eu entreguei nas mãos de Deus.
Devo dizer que não se pode dizer que desta água não beberei.
Os sapatos? Pois claro, são estes. E são muito fofinhos. Não escolheria melhor. E sim. Também são a minha cara. Eu e as gentes caboverdianas temos qualquer coisa que não sei explicar. Ou sei?
E até aqui nada de anormal, não fosse arrumar os velhos sapatos castanhos de salto, num saco e ficar logo ali de pezinhos novinhos em folha. Por 9,90. Quanto tempo vão durar? Sei lá. Almoçar no restaurante do Corte Inglês foi mais caro e já lá vai. E uma desilusão, pois os empregados já não mandam beijinhos uns aos outros para comunicarem e já não somos tratados com simpatia e delicadeza como senpre o faziam. Na raiva que senti, disse à minha comnpanhia: Nunca mais cá venho - Se calhar vou. Quando me passar.
Ora bem, saí da sapataria, de sapatos novos nos pés o que me deu um gozo de primeira vez que sempre quis ter.
Já não posso dizer que desta água não beberei e que não farei como os bimbalhões que entram, calçam, pagam e vão embora na banga, olhando os seus sapatos novos, inchados que nem pavões.
O que é que sou eu afinal, senão um comum mortal que passa por tudo o que a vida oferece e por vezes pára, experimenta e gosta?
Depois, esta experiência considero-a exicitante na medida em que daqui para a frente não me poderei dar ao luxo de comprar uns sapatos só porque fiquei sem capas e tenho essas frescuras de ficar arrepiada com o som do prego a raspar no chão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

pastéis de nata

foto tukayana.blogspotVou muito a Belém. Gosto. Tipo, passeio dos tristes.
E gosto de pastéis de nata. Dos de Belém. Da casa dos pastéis.
Claro que há pastéis de nata para além de Belém. Os da Quarteira, por exemplo. Da pastelaria Beira-mar, junto à praia. Quentinhos, cheios de canela. Avé Maria! Acho que ia de propósito ao Algarve só para comer pastéis de nata. Já fiz viagens maiores por muito menos.
Mas, ontem, desloquei-me ali ao virar da esquina que o sul não me foi acessível. E depois do almoço fui para a fila dos pastéis de nata. Coisa rápida que até estranhei. Enquanto esperava, mázinha que eu sei lá, rejubilei maldosamente com uma estória que aconteceu ali, numa das muitas mesas das várias salas daquele lugar. Bonitas salas, diga-se de passagem.
Então é assim: Todos nós sabemos o que são tias, daquelas que há já muitas cópias mas que se iniciaram em Cascais, em novo, fotocópias de tiazorras que lá chegarão, é só dar-lhes gás. Taaaaaaá a veeeer?
Então a minha estória tem a ver com uma criaturinha assim, loira e tudo, olhos verdes, roupa toda betinha, mala a condizer, com a marca em grande não vá sermos miopes, casaco de pele castanho, bota a condizer e lenço camel ao pescoço. Ah, não tenho nada contra, verdade seja dita. Até gostava da criaturinha, à época. Depois curei-me mas isso são outros quinhentos. Noutro departamento.
A nossa tia entra na casa dos pastéis de Belém, com o seu maridão a condizer ( este muito mais a fingir que ela ). É que apesar de viverem na província, Lisboa fica a um passo e o casal gosta, acho que ainda deve gostar de arejamento na capital e sobretudo visitar as lojas, lá está, de marca, para o estilo, na sua santa terrinha, onde quem tem um olho é rei ( da cocada, mas pronto ). Escolhem uma mesa, sentam-se e são atendidos. Ele, o maridão diz querer pastéis de nata. Ela, a tia cheia de proa, diz: Não, eu não quero pastéis de nata, quero pastéis de Belém.
E como até para se ser tio tem de se ter estaleca, foi a vergonha total.
Juro que foi verdade. Não estava lá para assistir, mas o maridão da emproada tia contou à frente dela e ela não desmentiu.
Não há vez nenhuma que esteja a comer pastéis de belém que não me lembre desta santa ignorância que nem a faculdade atenua. O convívio. Os livros. Sei lá, cultura geral, não? Estou a falar de gente nova. Hoje andarão nos trinta e alguns.
Que barrigada de riso eu apanho em cima da barrigada de pastéis de nata de Belém!

sábado, 25 de junho de 2011

refresh

foto tukayana.blogspotParece um conto de fadas com carroça e tudo. Mas não é. Que já não há fadas. Só numas certas anedotas do menino joãozinho em que mistura principuscos com principuscas, com cavalhicos e com cavilhar nos cavalhicos. Mas isso são outras estórias...que apesar da hora tardia, deus que me livre de aqui contar a anedota desta figurinha, que tanto me fez rir a semana passada aquando da minha viagem para lisboa com a caçula. Não sei como ela fixa anedotas. Eu não sou capaz, mas esta ainda a tenho presente nos lábios que riem em gargalhadas. Mas não havendo nem fadas nem principuscos ( princípes ) recorremos às bruxas que é o que há mais por aí. Será que hoje as bruxas sairam à rua?
Não vi ninguém pendurado em vassouras. Só muita gente em trajes menores que é como quem diz, em biquini, cuequinha, calção. Andam por aí biquinis azul turquesa e de outras cores. Se são bruxas não o sei, algumas serão sereias. Vale mais acreditar nisso, para continuar no espírito da coisa. Para a estória e para refrescar as memórias fantasiosas de quem gosta de contos de fadas. Ou simplesmente para reinventar a história...

domingo, 26 de dezembro de 2010

together

Xé, tamos together, black !

Dois angolanos entram e aproximam-se de outros dois que já estavam nos seus lugares. E um deles diz isto para os outros.
No avião, mas não para mim que estava sozinha e comodamente instalada.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

colo

Para pessoas especiais presentes também especiais.
Surgiu um convite para ir a Leiria. E eu fui. A propósito, já estou melhor das cruzes. O Voltaren ajudou e de que maneira.
No domingo desesperei atrás da caçula como cão de guarda. Coxo.
As últimas duas prendas ficaram por comprar.
Hoje fui escolher com calma. Com ajuda da empregada. E com paciência minha e dela também.
O sotaque da senhora simpática, a páginas tantas, já éramos quase manas, que não é díficil, fez-me perguntar se era brasileira, porque me parecia uma brasileira há muitos anos em Portugal.
Ela sorriu iluminada.
- Por acaso não sou. Sou de Angola.
Foi a minha vez de me iluminar como se tivesse batido de frente com a minha alma gémea.
- Ai é? Eu também sou. E vou para lá esta semana.
Foi uma festa. A senhora que se chama Susana e tem 40 anos veio para Portugal com 4 anos e de seguida, foi para o Brasil com os seus pais. Tendo regressado a Portugal uns anos depois, já mulher. Estava ela a confessar-se quando se aproximou uma menina nova, colega da Susana. Que também é angolana.
E eu pergunto-me: Será que cada cavadela dá um angolano? Ou caem-me todos na sopa?
Esta última também muito simpática disse-me algo que me entristeceu. Que esteve em Angola há 4 anos e não ficou. Porque não se adaptaria. Na capital. Já do Huambo, gostou bastante.
O pai é médico em Luanda. E recomendou-mo bem como à clínica, em Benfica, perto da feira do artesanato. Só para o caso de ter paludismo. Deu-me o nome do senhor bem como da clínica.
Espero não precisar de conhecer o doutor. Pelo menos nessas circunstâncias.
Ambas me desejaram bons mergulhos, boas caipirinhas, e a mais velha pediu aquilo que as minhas amigas todas me pedem. Que ao dar um mergulho me lembre dela.
Não sei porque me dizem isso. Até porque eu não mergulho. Pelo menos naquela pose estilosa de me esticar toda como se fosse perfilar-me numa parada militar, pronta para a continência e depois ganhar balanço, entesar os ombros e ao mesmo tempo impulsionar os braços para a frente, ao nível da cabeça e cabeçear a água como se fosse marcar golo. Não. Não faço esse show assim do pé para a mão. Não gosto de beber pirolitos nem fazer figuras tristes. E as minhas hérnias não gostam de aventuras marinhas.
Mas percebo que queiram que as lembre lá na nguimbi, nos realmentes. Como se levasse um recado à mãe-terra." Eu vim mas as meninas ficaram lá a desejarem estar no meu lugar". Como eu as percebo...foram anos e anos roendo unhas, fumando cigarros, fazendo poemas, chorando passados, ansiando futuros próximos, de chegar de madrugada, como o Duo Ouro Negro, e beijar aquele chão, como os Papas fazem, não que quisesse ser que nem Papa, mas porque o meu solo é sagrado. Para pessoas especiais, presentes especiais.
Foi o que fui fazer a Leiria. Escolher duas lembranças com carinho. E muita gratidão. E fui atendida por duas patrícias da minha terra.
Deus pegando-me ao colo...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

o perfume

Encontrei a Maria à porta da Douglas. Do Colombo.
E toda eu me iluminei. Rejubilando.
Finalmente...
Não era a Virgem. Porém, no caso, a minha salvadora.
Procuro a Maria há algum tempo. Ela, só ela, tinha a chave do mistério, que nenhuma colega sua foi capaz de desvendar. Consegui saber o seu nome pela descrição feita por mim às colegas.
Simples descrição. Novinha, bonita, olhos grandes e mestiça. Talvez indiana.
Ah, já sei. É a Maria. Está de folga. Mas acho que vai ser difícil p'ra ela saber passado tanto tempo o que pretende. Vêm aqui tantas senhoras...Disse-me uma colega. E outra. E outra. Várias. Frustradas que eram as tentativas para descobrirem o perfume que eu tinha num vidrinho que a Maria encheu para amostra, achando que era " a minha cara ". Esquecera de perguntar o nome. Apenas sabia qual o escaparate.
- Ah isso!...estamos sempre a mudar os escaparates. Dizia a última a quem pedira ajuda de frasquinho na mão.
- Precisa de ajuda? perguntou-me aquela menina bonita e de olhar doce, que dá pelo nome de Maria e que eu tanto procurava encontrar.
- Oh que bom. É mesmo você, a Maria, que eu queria.
Olhou-me como se eu fosse perturbada, franzindo a testa, sem desfazer o sorriso.
Expliquei como eu faço. Tim-tim por tim-tim, com os pormenores todos. E ela percebeu tudinho com a clareza que faltou a cada uma das outras empregadas da perfumaria, quando as abordei em dias diferentes há vários meses.
Eu sabia que ela saberia. Aconselhou-mo depois de lhe ter dado os meus gostos nessa matéria, com nomes de marcas. E dissera-me na altura que aquele, o tão desejado, o tão falado, estaria entre um e outro, dos que eu usava e que era de facto o adequado.
Cheira maravilhosamente. Assenta-me que nem uma luva e a Maria tem olho clínico para a coisa.
Sorri vitoriosa quando a vi encaminhar-se para o escaparate de sempre, depois de me ter dito que sabia qual era.
Pediu-me as costas da mão esquerda e pulverizou. E eu fiquei em êxtase.
Na batatinha, Ganda Maria!
Finalmente. Quem espera, pode desesperar mas também alcança se tiver paciência. É uma questão de tempo e paciência. Como tudo na vida.
Encontrado o perfume, não olhei para trás. Será o meu perfume, a intervalos com outros igualmente bons que sei que vou receber. Para Angola seguirá este. Um perfume com uma história feliz e sem passado nem lembranças. Criança como eu, quando entro no avião e ele abandona Lisboa a caminho de casa, para o ventre materno.

domingo, 19 de dezembro de 2010

coincidência ou não

- Amiga quando é que vais para a praia?
- Domingo que vem.
- Preciso da tua ajuda.
- Ok. Diz.
E disse que a mãe, que está lá e sempre esteve e é aquela querida que o ano passado ainda se lembrava que eu era sonâmbula quando era pequena, e até contou um episódio surreal que todos que me conhecem desse tempo sabem, precisa de momendol. Se eu lhe levava duas caixas, perguntou ela.
Claro não é? Nem se pergunta. Que óptimo pretexto para ir à Vila Alice, à Fernando Pessoa e à Eugénio de Castro; a rua do Macambira, do cinema Império e escola Industrial.
De manhã fui à farmácia. A farmacêutica, uma menina simpática que nunca ali vira questionou-me sobre o cartão Farmácias Portuguesas e com pena minha disse não ter. Mas que gostava de o fazer. E logo ali a menina simpática se disponibilzou e até preencheu o papel. Pediu-me a morada. Dei a de torres novas.
-Que engraçado. É de torres novas. A minha melhor amiga vive lá. E tem uma farmácia.
- Conheço concerteza.
E disse. E conheço-a desde pequenina. E cresceu ali na rua onde fica o tribunal de torres novas. Onde trabalhei muitos anos. A vê-la todos os dias no supermercado, ao lado da farmácia, onde diariamente os funcionários iam beber café. Indo para a escola também na mesma rua, a única primária da cidade.
O mundo é de facto uma ervilha. E hoje isto veio comprovar a minha teoria. A farmacêutica do Olival, não é do olival, é de Proença-a-Nova, estudou com a farmacêutica da farmácia mais perto da minha casa e do que foi o meu local de trabalho. E a mãe da minha amiga que está em Luanda descansadinha da vida e nada tem a ver com estas pessoas vai tomar os seus comprimidos comprados no Olival que de comum com torres novas só as amigas farmacêuticas...e eu. Faz sentido. Cada vez mais achar que isto é mesmo uma ervilha

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

os filhos da guerra


Quando descobriram que na Miguel Bombarda existia um homem que viera de Angola, foram chegando à loja, os retornados do burgo. Gente de Luanda e de outras paragens duma Angola em guerra. O ponto de encontro passou a ser à terça-feira, dia de mercado semanal na então vila. E a cada semana iam chegando cada vez mais. Uns na carreira, outros no velho automóvel que conseguiram fazer embarcar no porto de Luanda dias antes da independência e outros que eram da vila e se deslocavam a pé.
A mercearia do sô Santos passou a ser ponto de encontro e do petisco. Nas traseiras da loja assavam-se sardinhas, carapaus, entremeadas, febras, chouriços e farinheiras. Comia-se queijo e bebia-se vinho. Matavam-se as saudades da África que ficara para trás, recordando velhos tempos. Exorcizavam-nas.
Neste convívio não faltava o sr. João, um homem que conhecera o meu avô Carvalho em Moçâmedes e que vivia agora numa aldeia a caminho de Fátima.
De vez em quando trazia consigo o filho, uma criança mestiça, que eu nunca gostei da palavra mulato. Ouvira-a muitas vezes e sempre em tom depreciativo.
Como tudo na vida também os retornados das terças-feiras foram dispersando. Alguns foram para outras paragens, outros morreram e outros simplesmente deixaram de ter disponibilidade.
A minha mãe adoeceu. O pai trespassou a loja. E ficou cada vez mais sozinho.
Anos mais tarde, num tempo em que os oficiais de justiça trabalhavam por sua conta e risco aos sábados e domingos, fazendo notificações pelas aldeias da comarca aos " crónicos " ( aqueles que eram conhecidos de gingeira por serem reincidentes ), fui à aldeia do sr. João, retornado das 3ªs feiras. À procura de alguém a contas com a justiça. E dei-me com ele. E vi o senhor João chorar porque era uma vergonha eu estar ali à procura do filho. E ralhou com ele à minha frente como se ele fosse um cachopo.
Mais tarde, o rapaz meteu-se numa asneira maior e foi julgado. E condenado a pena de prisão substituída por multa que o sr. João pagou. Para que o seu filho não fosse preso.
Mais tarde ainda o sr. João morreu e o rapaz ficou sozinho. A mãe regressara a Angola.
Um dia foi preso. Praticara um furto. Era reincidente.
Foi julgado e condenado. Eu fui a funcionária de serviço à sala. Ele olhava-me como se eu fosse a sua tábua de salvação. Se calhar porque conhecera o seu pai. Se calhar porque era da sua terra. E era a única pessoa que ele conhecia naquele espaço de desconforto, agressivo mesmo . Havia pânico no seu olhar e uma profunda solidão. Era um homem. Novo. Pouco mais que um rapazinho. Que a guerra em Angola lhe mudara o destino, através dos seus pais.
Foi cumprir pena para o estabelecimento prisional da cidade.
Nunca mais o vi.
O ano passado, nesta época natalícia, passando junto a uma das pontes do rio Almonda ouvi uma voz conhecida, do alto de uma escada.
Pendurado numa árvore, montando as luzinhas de Natal, na rua, junto da Avenida do rio, estava o filho do sr João. O Zé.
- D. Clara, tá boa?
Fiquei contente de o ver.Tinha passado muito tempo desde aquela vez no tribunal. Disse-me que trabalhava para uma empresa contratada pela Câmara. Desejei-lhe boa sorte e Festas Felizes.
Hoje, a caminho do autocarro vi-o de novo. Muito perto do local do ano passado.
Trazia um gorro enfiado pela cabeça abaixo, luvas grossas e cachecol a tapar-lhe parte da cara.
Encaminhava-se para um automóvel, onde o aguardavam quatro indivíduos vestidos da mesma forma. Por deformação profissional, pensei que tinham todos aspecto de criaturas prontas para um assalto. Mas quem sou eu para julgar o aspecto de alguém?
- Tá boa D. Clara? disse-me, visivelmente satisfeito de me ver.
-Tou e tu, tudo bem?
-Sim, vou pegar ao trabalho.
-Então vai lá. Boas festas e Bom Ano.
-Para a senhora também.
Seguiu o seu destino. Aquele que traçou e o outro, o que traçaram por ele, quando os seus pais deixaram Angola " fugindo " da guerra. O Zé faz parte daqueles meninos que nasceram na guerra, na terra longe e viveram em luta permanente num terra que dizem, de paz.
Hoje entristeci pelos zés do mundo angolano a quem a vida não sorriu.