É preciso acertar o relógio. Ganhámos mais dia. Mais Sol. Sabendo ser cíclico, não perco por esperar dias maiores. Anseio-os. Este ano, o inverno passou depressa. Luanda foi a grande responsável.
Já cá está a primavera e o tempo não anda para trás.
Em kimbundo, a palavra tukayana quer dizer Venceremos.


Dou comigo a olhar para a sombra. Bem sei que tal como os processos no tribunal prescrevem, fica-me mal sentir-me uma moçoila olhando para a sombra, mas quando uma criatura sobe este viaduto a rezar tudo menos avé-marias, sentindo-se uma galinha poedeira a cada sopro de respiração ofegante, quando finalmente atinge o cume, é o céu. E a sombra, na noite, caminhando folgada à sua frente, a melhor amiga. Sim, porque a sombra à noite, anda mais que nós, ainda que nos sintamos a verdadeira Susana Feitor.
Vi o Pedro na televisão. É o segundo do lado esquerdo, de quem olha a fotografia. Reconheci o seu rosto e o jeito de falar. 
Já está. Não doeu muito. O viaduto ia-me matando, mas não matou. E o que não nos mata, torna-nos mais fortes. Chegado ao cimo do dito cujo como quem atinge, sei lá, ou sei, o êxtase, os cinco quilómetros que me faltavam eram nada. Até ali chegar tive de entrar no espírito da Feira de Março, que está na cidade, paredes meias com o viaduto; sentir o cheiro gorduroso das farturas da Pina, rssssss, eu que nunca gostei de farturas, e ver as luzes psicadélicas dos carrinhos de choque a fazerem lembrar-me outras corridas, outras viagens, quando a feira ainda era lá em cima, no Rossio de S. Sebastião e eu ia para lá, às tardes, na década de setenta, divertir-me com os amigos. Parei a meio porque deitava os bofes pela boca e só me apetecia dizer impropérios à minha gula e preguiça. Tive de fazer de mulher prestes a parir, naquele respirar que só as mulheres que já deram à luz sabem como é, e de repente dei comigo a falar com o próprio do viaduto como já o fiz milhentas vezes, num tempo em que o subia diariamente, mas tinha menos dez a dozes quilos e uma vontade incontrolável de insultar tudo o que mexesse e fazia parte do meu universo a época, que não se tinha portado bem comigo, e para cúmulo, enquanto eu o subia a pé, subiam-no de carro diariamente, como que dizendo-me, monangambé, eu vou de carro e tu vais a pé... Chegada ao cimo tive de me rir. De mim e para mim. Lá estavam os alecrins. E lá estava eu a passar a mão por eles e depois cheirar o aroma que fica nas mãos. Mas não foi só. Também o outdoor dizendo - faz tudo como se alguém te contemplasse, me fez impertigar, e esticar o nariz para cima. E pensar que a única que mudou fui eu. Que deixei de subir o viaduto. Mais adiante a minha companhia lá estava à espera. Depois mais uns quantos metros e mais duas, uma delas grávida, mas veloz. O grupo iniciou então a marcha.
Tocou o telemóvel. Tenho o som demasiado alto. A cada telefonema, toda a secretaria ouve o toque e pode cuscar. Este e outros telefonemas. 