sábado, 31 de março de 2012

no primeiro dia de férias


Desde as 17 de ontem que se quisesse, ia para a China. Como se diz em Torres Novas, férias são férias e nem que vá ali aos Pintainhos ( uma aldeia do concelho ) já é muito bom. Não sei se sou eu a mentalizar-me se é mesmo assim. Acho que na fase da vida, idade e situação financeira, em que me encontro, tudo é bom. Cada minuto, cada encontro, cada viagem, cada dia de férias que posso gozar. 
D. Pitanga foi apanhada à má fila e colocada na gateira em rápidos e  dolorosos segundos, que isso sempre me deixou nervosa  e angustiada e a ela furiosa e inconformada. O mano Zé parou à minha porta e em 10 minutos estava na estação de comboios. 
Família é família. Quando ia p'ra contar as novidades da minha gente colada a mim, porque não há segredos entre nós, já a caçula tinha contado. As boas novas, não interessa quem as conta, o que basta é que todos as partilhemos. Havia uma novidade boa, boa que ainda não sabia e deu-me o prazer de primeira mão, contar-lha. 
O comboio depressa chegou e logo à entrada, não fosse o revisor e espalhava-me ao comprido em  modo de  1,73 metros o que é um espalhanço longo e volumoso e vá lá, a dar para o humilhante.
Felismente equilibrei-me, afinal para que me serve tantos anos a virar frangos? Domino autocarros, metros e comboios. O que queria mesmo era dominar aviões e estar a caminho de um país paradisíaco. Ou dos meus afectos. Na falta, vou para Lisboa e vou muito bem. Volta o conformismo do que tem de ser e  por isso tem muita força, e o que não tem remédio, remediado está. Apesar do conselho de alguns para pescar uma criatura velha, sem filhos e rico ( aonde é que eles estão? ) não me apetece pescar, não tenho paciência, não sei ficar em silêncio para que o peixe venha e acho horrível estar de cana na mão à espera que morda o isco. Já basta o que basta. Há quem ache que vale mais ir para o inferno a jacto do que não passar da cepa torta. Se calhar também daria esse conselho a quem o quisesse, p'ra mim não serve, pois que a liberdade é tão boa que me permite decidir apanhar o comboio logo pela matina, ir a ouvir música, navegar na net, olhar a minha Pitanguinha que vai aninhada no fundo da gateira e ainda olhar  a lezíria, sempre bela e sempre diferente, ora com cavalos, ora com bois ou ovelhas, garças e cegomhas. Ora com milho, oliveiras, ora com azinheiras, árvores de fruto, ora com o rio tejo na minha esquerda ora com os campos de tomate e arroz, na direita. 
Hoje é um dia que foi por mim comemorado ao longo de vários anos. Não consigo passar a folha do calendário indiferente. Esquece, dizem alguns. Aqueles que deixam passar aniversários, Natal, Carnaval, Páscoa, datas de casamentos, batizados, primeiro beijo, primeiro romance, primeiro qualquer coisa. P´ra mim que reservei a prateleira maior da minha vasta memória para essas e outras datas que ninguém imagina, juntando-lhe sensações, perfumes, músicas, roupas, sorrisos, hoje é um sábado, como o foi há cinco anos, do qual não guardo boas memórias, mas hoje, um sábado bem diferente. Já não comemoro e se querem saber nem tenho pena, eu que fico sempre com uma saudade danada do que já tive e perdi. Mas apesar disso, o dia existe e basta ligar o computador para saber que é dia 31 de março. Desejo para mim que este dia me corra melhor do que o outro há cinco anos. Meu Deus! Cinco anos...o tempo às vezes passa rápido, outras parece que nem existiu e outras ainda parece que foi há tanto tempo...
Não sei porque, mas o comboio faz-me sempre reflectir. Não sei se porque tenho de atravessar o ribatejo. Passei Santarém há pouco. Será disso? Não gosto de Santarém. Apesar de ser capital de distrito. Apesar de ser uma terra bonitinha. Nunca gostei. Gosto mais do Cartaxo, que é logo a seguir ou de Tomar, que ficou para trás. Não tenho qualquer simpatia pelos scalabitanos e isso acho que é injusto da minha parte, mas...não sou perfeita. É uma terras que gosta de armar ao pingarelho e que se refugia por de trás das cortinas, num preconceito e autismo que não é particularidade, é defeito. Tem a feira da agricultura e a da gastronomia, bem como a praça de touros para o desfile das vaidades, As Portas de Sol para os namorados e amantes e também os miúdos da escola meterem para a veia, tinha quartel e teve Salgueiro Maia, até tem estátua do dito, que tardou mas lá arrecadou, tem o Tejo a banhar-lhe os limites, tem fataça na telha, tem muito do que o resto do país se queixa de lhe faltar e até tem gente de muito mau carácter e reputação duvidosa, mas isso são outros quinhentos e não pode pagar o justo pelo pecador, mas não gosto de Santarém, e pronto. E ponto. Final. Apesar do meu lugar de oficial de justiça passar pela possibilidade de lá ir parar quando o meu tribunal fechar. Dizem que não falta muito. Dizem que até lá me reformo. Dizem muita coisa e também que nos vão colocar em Santarém. Há destinos. Há azares por que temos de passar. Karmas que temos de cumprir. Estou por tudo. Mas nada me fará gostar de Santarém.
Hoje é o primeiro dia das minhas pequenas férias. Quero esticá-las numa liberdade que me faz tranquila, numa preguiça que me faz feliz, numa paz que me aquieta.
Ao meu lado, vai uma mulher de casaco camel aveludado. Lembra-me um que tive e que a dona Lena, minha costureira, há-de lá ter ainda para apertar. Há mais de 5 anos. A dona Lena é especial. É preciso muito jogo de cintura para não se desistir dela. Acho que não é isso que me mantêm  presa aos seus serviços mas porque ela parece retirada duma qualquer estória, duma qualquer peça. É a típica personagem que não queremos para nós mas gostamos de ver representar. - Ah minha senhora! Acha? Não minha senhora...diz ela numa dicção perfeita e invejável, sem mover um músculo do rosto, sem pestanejar e sem qualquer remorso, porque é uma mulher prática, calma, fria, muito racional e educada.
- Dona Lena, mas as minhas calças têm uma perna mais estreita que a outra.
- Oh senhora dona Clara, provavelmente a senhora é que tem uma perna mais grossa que a outra.
E a gente fica com cara de tacho porque ou pomos as mãos na cintura e rodamos a baiana, o que não temos coragem perante a educação da criatura, ou desistimos dela e dos seus  préstimos e empobrecemos porque uma pessoa como a dona Lena nas nossas vidas é uma mais valia. E por isso é que vão-se os casacos e as calças e fique a dona Lena. Essa mulher que teve um marido negro, da Guiné e diz que não gosta de " pretos ", tem um filho mestiço e diz que não gosta "dessa gente ", - a senhora tenha a santa paciência, sei que veio da terra deles, eu não tenho nada contra os senhores de raça negra mas não sei como fui casar com um que de senhor tinha muito pouco. 

Tenho saudades da dona Lena. Um dia destes passo lá no atelier, um cubículo húmido e desarrumado, cheio de máquinas das fábricas de malhas de Minde e Mira d'Aire que faliram e fecharam. Carros de linhas de todas as cores, gigantescos, uma mesa retangular maior do que alguns quartos, com tesouras medonhas e revistas fora de moda com os modelitos que ela faz sabe-se lá a que duras penas. Com direito a protesto e devolução se aperta demais na cintura ou se deixa as bainhas compridas ou curtas,  ou as pernas desiguais. Ou pior, um decote tão grande que acaba no umbigo como já me aconteceu.
Chegámos a Vila Franca. Entra um grupo enorme, mais de 10, de brasileiros, jovens e crianças. Homens e mulheres. Falando alto, rindo e ocupando as últimas filas da minha carruagem. Brasileiro é brasileiro. Não há volta a dar. Basta observar e copiar essa boa disposição que a vida corre bem légal. Uns acordes de viola e vozes cantando músicas invocando cristo e logo percebi que são de alguma igreja destas que apareceram há pouco tempo por cá e  não da velha e castradora igreja católica.
A Pitanga que tem ido sossegadita, ao ouvir as vozes em coro olha-me como quem não percebe porque uma hora de viagem é tão silenciosa e subitamente se torna tão alvoraçada. 
Finalmente chegamos a Oriente. Carregada como estou, estou sempre, tenho de me apressar a apanhar um taxi que me leve ao Olival Basto. Depois...é a vidinha de sempre. Mas, de férias.

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