Me convidei, me convidaram, nos convidamos para jantar. Ali ao pé do castelo. Até sair de casa tudo estava calmo. Até eu própria...Depois percebi que fora má idéia. Não tinha fome. Não tinham fome. E o temporal devia ter impedido a saída do aconchego do lar onde ficou a Pitanga, olhando a televisão e abrindo as gavetas da cómoda do corredor no velho fetiche de espalhar os meus pijamas de verão, talvez na esperança de um desfile de moda...decadente como são os meus pijamas. O Alfredo ia estragando a nossa noite com a sua má disposição quando aparecemos a bater as nove, tendo o sr. Vítor com a sua fantástica simpatia e paciência de patrão, salvo o meu jantar das quartas-feiras. Torres Novas não tem mar, mas rio. As ondas de dez metros não chegarão cá, o vento esse parece querer partir-me os estores, entrar-me pela casa dentro e destruir o que sobrou desta casa grande demais para duas gatas pingadas. Já pouca coisa me comove. Por isso e apesar do tempo se queixar tanto e se vingar furiosamente na minha rica casinha, vou dormir. Espero não sonhar que me tiraram um parafuso de um dente, parafuso que não existe realmente, e que os meus óculos se partiram em mil bocados, como sonhei a noite passada. Espero sonhar com gente boa, se acaso tiver de sonhar num sonho de sono de justos. Quando era miúda e estava a trovejar, aquelas trovoadas africanas que me faziam tapar a cabeça com os lençóis e rezar para santa bárbara como sô santos ensinou, eu só queria dormir para não ter mais medo. Boa noite para vocês também.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
o que tu fizeste hoje...

Cila, o que tu fizeste hoje, não se faz. Quarenta anos...
Já ninguém tem quarenta anos...
E mais, também não se faz prevenires-me que fazias anos hoje e por isso quando anunciei que a minha dieta radical se iniciaria 2ª feira passada, do alto da tua secretária rires com um sorrisinho malandro, que ah e tal e coiso só a partir de 5ª feira...
E ainda mais. Não se faz, pôres uma mesa na sala do costume, que não é senão a sala dos exageros e da engorda, logo pela manhã, cheinha de pecados, sabendo que todos nós queremos pecar e anunciares que estava aberta a sessão da engorda.
Um dia inteiro a comer, Cila! Isso é grave. E tu a responsável.
Tudo porque fazes quarenta anos!
O que tu fizeste hoje, desejo que o faças por muitos e muitos anos. Mesmo que eu já esteja na reforma. Comigo na reforma. Sem mim. O importante é que somes e somes anos sempre do mesmo jeito. Alegremente. Com prazer de viver. E saúde. E muitas viagens. E amigos. E com a Mariana sempre.
Um resto de dia feliz.
E um abraço do tamanho do Mundo.
Parabéns!
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
hoje...
Hoje fui comer um hamburguer, batatas fritas, beber coca-cola e comer um gelado. Onde? Ahn? Ahn? Pois então, ao Mc Donald's.
A cidade também tem MC. E depois do emprego eu e mais duas resolvemos bater-nos com um menu.
Gosto. Gosto mesmo. Não vale a pena as tretas da comida de plástico, as calorias e outas coisas que tais. Quando me apetece eu vou e nada nem ninguém mo impede. E de companhia então...
E depois, recebi um telefonema que me animou. Há boas notícias que me deixam numa alegria infindável. Foi o caso.
Ultimamente as notícias não têm sido boas. Direi mais. Têm sido péssimas.
Mas esta de hoje me deixou de lágrima no canto do olho.
Deus me pega ao colo. E me dá oportunidade de chorar de alegria .
Eu sabia que as lágrimas que engoli de manhã agora ia chorá-las.
Mas comendo um hamburguer do MC todas as notícias têm outro sabor. E esta teve sabor a paz, agradecimento a Deus e uma imensa alegria.
N'Ganazambi sakidila Yá?
não sei o que se passa
Ali, a uns escassos passos do sr. margarido e do seu veículo onde acontece de tudo, desde cheirar a pastéis de bacalhau, aos palavrões mais cabeludos ditos por boquinhas que deviam ser abençoadas, às marretas que quase atropelam quem tenta entrar à frente delas só para ocuparem o lugar da frente, ao cheiro a verniz que já tenho deixado por lá quando retoco uma ou outra unha porque é bom que se diga que odeio ser atendida por uma criatura com verniz até meio da unha, ufa, que desleixo minha senhora, quer um algodãozinho com acetona ou é mesmo desleixada a dar para o porquito? E por essas e mais outras é que lá calha uma pincelada na própria da minha unha também ela descascada e desleixada porque odiaria imaginar que alguém pensaria que eu estou pelas ruas da amargura e já não me cuido nem me deixo cuidar quando estendo a mão para receber um requerimento ou entrego um r.c. a outro alguém...bem, ali mesmo a chegar, por uma unha negra de alçar a perna eis que uma miúda me diz:
- O seu saco está roto...estão cair-lhe coisas.
Bolas! Que dia! Olhei e ia-me caindo o resto. Ele era o iogurte de meio quilo do Celeiro, sabor a limão, ele era um maço de lenços, agarrei no ar a caixa de Adalgur para as cruzes e praguejei muito baixinho, tão furiosamente calada que nem eu própria me fiz ouvir. O meu saquinho azul celeste, bonitinho, da Douglas que já transportou um belo e bem cheiroso aroma, agora transportando umas coisitas que me fariam falta para o dia a desfazer-se qual coração arrasado. Malvada chuva. Malfadada sorte a minha. Se não fosse a maria clara das dores, que sente vergonha e que se julga crescida muitas vezes, vezes demais, e teria batido os pés com força, no chão, arrepelado os cabelos, esticado a beiça, e chorado ruidosa e birrentamente. Em vez disso, olhei a miúda. Olhei o saco e olhei o chão. Olhei o sr. margarido que me acenou com a mão num gesto e meio sorriso de complacência. E já não tive olhos para mais. Apanhei o que tinha a apanhar e entrei no autocarro. Uma das marretas, a mais baixa ofereceu-me um saco plástico enorme com desenhos de lacinhos azuis. Fiz o transbordo. E posto isto que já foi demais, sorrateiramente assinei o bilhete e fui para o lugar do costume. O puto que estava ao meu lado olhou-me quando suspirei ruidosamente.
Não sei o que se passa mas dei comigo a pensar que ser pobre é pobre. E nesta idade não é pobre, é paupérrimo.
Não sei o que se passa mas falta-me a paciência para as coisas pequenas. E para as diferenças.
Não sei o que se passa mas ando cansada.
Se ao menos deixasse de chover...
- O seu saco está roto...estão cair-lhe coisas.
Bolas! Que dia! Olhei e ia-me caindo o resto. Ele era o iogurte de meio quilo do Celeiro, sabor a limão, ele era um maço de lenços, agarrei no ar a caixa de Adalgur para as cruzes e praguejei muito baixinho, tão furiosamente calada que nem eu própria me fiz ouvir. O meu saquinho azul celeste, bonitinho, da Douglas que já transportou um belo e bem cheiroso aroma, agora transportando umas coisitas que me fariam falta para o dia a desfazer-se qual coração arrasado. Malvada chuva. Malfadada sorte a minha. Se não fosse a maria clara das dores, que sente vergonha e que se julga crescida muitas vezes, vezes demais, e teria batido os pés com força, no chão, arrepelado os cabelos, esticado a beiça, e chorado ruidosa e birrentamente. Em vez disso, olhei a miúda. Olhei o saco e olhei o chão. Olhei o sr. margarido que me acenou com a mão num gesto e meio sorriso de complacência. E já não tive olhos para mais. Apanhei o que tinha a apanhar e entrei no autocarro. Uma das marretas, a mais baixa ofereceu-me um saco plástico enorme com desenhos de lacinhos azuis. Fiz o transbordo. E posto isto que já foi demais, sorrateiramente assinei o bilhete e fui para o lugar do costume. O puto que estava ao meu lado olhou-me quando suspirei ruidosamente.
Não sei o que se passa mas dei comigo a pensar que ser pobre é pobre. E nesta idade não é pobre, é paupérrimo.
Não sei o que se passa mas falta-me a paciência para as coisas pequenas. E para as diferenças.
Não sei o que se passa mas ando cansada.
Se ao menos deixasse de chover...
mais um dia entediante
Ia eu no monólogo aborrecido e costumeiro, na indecisão de apanhar TUT, aquela coisa nim que me agonia mas que tenho de vez em quando, mais do que era suposto para não me atrofiar, não vou, vou, é melhor não, ah porque está a chover, e depois? medo da chuva, desde quando? e não tens chapéu? E botas que não humedeçam os pés?...
Não, não tenho. Pelo menos hoje. É que eu nego-me a dar 1oo ou mais, euros por um par de sapatos, botas ou outros. Não dou. Mais depressa os gasto num jantar, numa ida à praia com direito a almoço, numa viagem, mas nuns sapatos, não. E faço mal, porque os sapatos ficam ( que cínica que me estou a parecer, e também não gosto disto ) e as praias, os jantares e almoços, vão-se embora que é uma pressa.
Na verdade, os saldos resolvem e os vendedores ambulantes, ah não, se não resolvem, quando uma colega me chega esticando a perninha de bota nova e eu pergunto pelo preço e em seguida encomendo aos dois pares e ao gosto dela que em matéria de vaidade bate-me aos pontos por isso estou garantida e não me vai deixar mal. E ela não se importa de lá voltar e comprar-mos. Só que o que é barato sai caro. Neste caso pode atirar comigo para uma farmácia ou para uma sapataria para comprar daquelas botas que tenho lá por casa que até irritam de tão boas que são que nunca mais as gasto e já nem posso olhar para elas.
O que não tem remédio remediado está e o TUT a passar fez-me parar. A chuva intensificou-se nos pingos engrossando tanto que já não deu para fugir por entre eles escapando da antipatia pelo " piqueno " autocarro, das inconveniências das miúdas que o frequentam nem dos " bafos " que ficam aos saltinhos na ponta da minha língua e que me estragam a beleza que se quer para o dia inteiro.
E deixei de resistir que dia não são dias. Já estava na paragem a menina de sempre, quando passo ou páro. Fechei o chapéu e ela disse-me: Olhe que está a molhar-se toda com o chapéu.
Olhei por mim abaixo. Há dias que não se pode sair de casa e hoje é dia.
Chove que Deus a dá.
Estou farta de chuva. Estou farta de ser pobre.
Mas só que deixasse de chover...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
eterno namorado, me contaram
-É a mim que faz.
Contaram-me que foi assim que uma paixão nasceu. Entre uma bafurada e dois dedos de conversa fiada.
Depois...ela deixou de fumar. Mas essa paixão fez-lhe mais mal que o cigarro.
No entanto, contaram-me que se lhe perguntarem, a ela, quem é ele, a resposta é invariavelmente a mesma.
O Eterno Namorado!
amorosamente desconversando
- Sabes que dia é hoje?
A primeira ausência de resposta...
A primeira ausência de resposta...
- Sabes o que são namorados?
De novo o silêncio.
- Hoje é o dia.
- Alguém te perguntou alguma coisa? disse ele enfastiado.
- Também não estou a responder. Estou a comunicar-te.
Entra na conversa o terceiro elemento, do género feminino.
- Não tens namorada?
- Nãaaaaao!
- Porquê?
Outro intervalo feito silêncio.
- Não tens porquê? insistiu ela, a segunda miúda.
- Porque gostas mais de namorados?! disparou a primeira.
- É isso!...Mas então...o dia serve para todos.
- Ó minha, vai para o c......
tudo de bom, ontem, hoje e sempre
Eu sei que é mentira. Não é hoje. Foi ontem. Mas não consegui estar num computador para te dar os parabéns assim com esta imagem ou outra.
Já o ano passado, estava em França no teu dia. Chegara lá e foi difícil escrever umas palavrinhas. Falta de net. Cansaço da viagem.
Hoje...baldei-me do computador e de torres novas e só cheguei agora. Mas foi por uma boa causa.
Desejo-te tudo de bom. As tuas melhoras.
Já falámos. És o meu afilhado preferido e tens uma bonita idade.
Vive-a bem, como mereces. Yá?
Vive-a bem, como mereces. Yá?
Abraço grande de parabéns...atrasados.
Eu bem que deixei um lembrete lá atrás.
Beijinhos. E tudo de bom. Ontem, hoje e sempre.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
tá???
Vou ali e já venho.
Almoçar a Lisboa.
Ah! meu sobrinho, um bom dia de aniversário, tá?
Beijinhos.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
escolhas
Se não vejamos. Acordei cedíssimo. O ddespertador que não desactivei por esquecimento, tocou às 7,00horas. A Pitanga teve o mote para me azocrinar a cabeça e moer o corpo. Se me apanha de lado aloja-se entre o peito, que me tem doído e o pescoço, vejam se pode lá ser!...enroladinha, quietinha, mas o som de ronronar nunca mais permite que volte a adormecer. Lambe-me a cara com a língua a cheirar a peixe, rssssss, que nojo, pois que durante a noite deve ir comer do gourmet que agora exige, pescado do mar com salsa e espinafres. Se não está bem instalada, salta num salto ao eixo como se eu fosse uma coisa e o meu ombro que sofre horrores, o trampolim. Faz equilibrismo no mesmo o que me revolve as entranhas porque acho que não pode ser, uma gata poisada no meu ombro enquanto eu tento dormir.
Mas por essas e por outras como a claridade que me entra pelo quarto dentro porque não puxei os estores até ao fim, o despertador que toca de dez em dez minutos e está ali mesmo à mão de semear e não desligo, mas a preguiça e a inconsciência de uma mente mal acordada me impede de o fazer e outras situações que me abstenho de comentar, nunca insónia, fazem-me acordar aos poucos e tomar consciência de que estou em torres novas. E por cá me vou deixar ficar. Penso eu. Por pouco tempo.
Mas por essas e por outras como a claridade que me entra pelo quarto dentro porque não puxei os estores até ao fim, o despertador que toca de dez em dez minutos e está ali mesmo à mão de semear e não desligo, mas a preguiça e a inconsciência de uma mente mal acordada me impede de o fazer e outras situações que me abstenho de comentar, nunca insónia, fazem-me acordar aos poucos e tomar consciência de que estou em torres novas. E por cá me vou deixar ficar. Penso eu. Por pouco tempo.
Parto ao meio, uma papaia daquelas pequenas, do Brasil e como-a. Bebo um iogurte magro ( só para rir, porque para emagrecer, nem um grama, pode ser que rir faça perder calorias ) e volto para a cama.
Devem achar que sou uma calona. Sou mesmo. Já trabalhei demais. Para os outros. Agora faço o que me dá na real gana.
Ligo o computador que fica na mesinha de cabeceira. Aquela do ausente. Se é que me entendem. A contrária à que nós usamos como nossa se dormimos sozinhos numa parte de cama. Não sei se é revelar muito mas não me importo que saibam que durmo sozinha. Ah! Com a Pitanga, meu Deus! Mas não conta para a estatística. E sempre do lado direito da cama. Em qualquer cama, mesmo que acompanhada. Não dou hipótese. Escolho. Exijo.
Abro o computador e vou direita ao hotmail, depois gmail, depois este blog, depois blogs que gosto de ler. Dois que nunca falho, mesmo que esteja com falta de tempo. E por fim facebook.
Deixei de estar sozinha quando olhei a Pitanga. Depois quando liguei a televisão. E mais acompanhada fiquei quando me instalei no facebook.
E num sábado aparentemente calmo e solitário, numa terra de província, chegam-me convites. Que não são manhosos nem interesseiros.
Primeiro um para tomar o pequeno almoço, mas não estou em Lisboa. Recusei, portanto.
Depois o segundo, para ir daqui por uma hora a Leiria. E jantar por lá. Aceitei, claro.
E por fim o terceiro. A kamba diami que foi almoçar ao Mulemba, que se vê da minha casa, no Olival. Logo hoje que não estou no Olival...perdi a companhia, as companhias, que não era apenas ela, e não comi cacusso com feijão de óleo de palma.
Ganhei um passeio a Leiria.
Enquanto escrevia a minha amiga Manuela ligou-me, querendo saber onde estava. Se queria ir dar uma volta. Não vou, porque vou a Leiria. Mais logo à noite passo na sua casa no Bom Amor para os ver e dar um abraço ao pequeno Rafael.
Há sábados assim, que se lembram de nós, quando nós não estamos à mão de semear, o que é bem mais importante do que quando nos metemos pelos olhos dentro das pessoas e elas não nos vêem.
Agora vou pôr-me bonita, não sei se consigo, mas vou tentar.
E de seguida vou ver mundo...pequenino mas bonito, que Leiria é uma terra bem fixe.
é sábado no meu coração
Ah, me esqueci que está na hora do almoço.
Hoje que é sábado bem que deve haver muito fogão a cozer o feijão, ou será que é de lata?, p'ra fazer feijão de óleo de palma. E estão já na preparação das brasas, ou será que é do grelhador eléctrico?, p'ra grelhar cacusso e peixe galo. Ou será que é carapau?, e fazerem uma almoçarada bem cuiosa, do nosso jeito de angolanos que vivem fora da nguimbi, aqui na tuga, então...
A kamba diami Mena Lima que também está na tuga, pior, no Ribatejo verdadeiro de touros e touradas, me mandou este mamão por e-mail p'ra me fazer inveja, mas eu que abro o olho que aqui ainda é Luanda, só passou um mês que lhe deixei e desconsegui ainda de me sentir europeia, não é que comi meio mamão no matabicho?
Uooooooô kamba, não fiquei a babar. Lhe comi então mamão daquele de super mercado.
Vamos fazer como então se não tem mamoeiro nesta terra para lhe irmos com pau com lata de leite Nido pregada na ponta do pau, lhe arrancar, p'ra lhe pancarmos naquela hora, bem regado com sumo de limão?
Quem não tem m'bora cão, vai caçar como então? Cum gato...
Rimei. Quem rima sem querer, diz o povo, que é amado sem saber.
Por quem? Por quê? pxzxzxzxzxzxzxzx...
É sábado, me muximando.
naturalmente
Aqui não sou estrangeira nem lamento o passado.
Aqui sou uma alma livre que não espera, não exige nem cobra.
Sou feliz. Porque a felicidade está em mim, naturalmente.
uma cidade, um percurso, uma vida
Quinta-feira fui ao cinema com amigas. A uma das salas do shopping que existe em torres novas. Ver o Cisne Negro. Não foi a primeira vez, mas foi a segunda. Este espaço existe há cerca de quatro anos talvez. Não sou frequentadora do centro comercial local. Mas de vez em quando alguém me leva lá. Vai haver uma terceira, concerteza. Mas...Pois é. Tenho muitas saudades de Torres Novas que conheci e vivi. E do cine-teatro Virgínia.
Do tempo em que todos os domingos à noite ia ao cinema. A sala de 1000 lugares à época, enchia. Eu tinha 20 e tal anos e toda a gente naquele tempo tinha vinte anos. Os homens eram uns rapazitos acabados de vir da guerra do ultramar, bonitos, elegantes e charmosos. Nós mulheres, éramos umas meninas, bonitas, elegantes e cheias de ilusões. Todos solteiros. Todos com os mesmos gostos e os mesmos anseios.
As vivências seriam diferentes. Havia quem já tivesse visto mar mais azul, terra mais vermelha, sol mais escaldante e gente mais genuína. Vivido amores mais intensos e ambicionado mundos mais alargados. Mas, tínhamos vinte anos. Uma cidade pequena e bonita que ficava mais longe da capital que hoje. Não havia auto-estradas, nem para norte nem para sul ou para Oeste, e todos nós vivíamos a cidade e as outras próximas de uma forma mais saudável e honesta. Se queríamos ir às piscinas, estavam ali à nossa espera na Avenida junto ao rio. Se queríamos uns trapitos, o comércio local e os mercados de rua vendiam. Se queríamos ler, a Biblioteca cobrava muito pouco pelos livros que lá íamos buscar. E se fosse para dançar, havia as festas com as bandas locais, e as discotecas. O Bob's, do meu amigo Serra, o Fame, do saudoso Fausto, ambos bem no centro da vila de então, o D. Papagaio em Mira de Aire, do Bardanisca, e depois outras, em Ourém, à entrada de Alcobaça, na Batalha junto ao mosteiro e mais tarde até no Entroncamento, Leiria, Rio Maior e Caldas da Rainha. Para irmos à praia, tínhamos a Nazaré, S. Pedro de Moel, Pedrogão ou S. Martinho do Porto a umas horitas de autocarro ou boleia dos amigos com carro, e senão, a barragem de Castelo de Bode, ou o Tejo, no Almourol servia as necessidades de quem era mais teso e enjoava nas viagens e curvas de Porto de Mós. A Abidis e a Império eram as pastelarias frequentadas por todos os que tinham 20 anos e não só. Pela fina flor. Por vezes a fina flor do entulho, mas cada um de nós sabia quem era quem. Os babás e os duchesses da Abidis eram deliciosos, tal como os pampilhos, os arrepiados e as celestes que vinham directamente da pastelaria mãe, de Santarém, que o sr. Manel, empregado baixinho, aprumado no seu papel de empregado de balcão, arrumava na vitrina com uma perícia de chefe de sala e com um rigor e uma austeridade próprias da sua cor política de então.
Tínhamos as tertúlias, fadistas cantando, poetas declamando a sua poesia, pintores locais e não só expondo os seus quadros, concursos de vestidos de chita, de Jovem primavera, festivais de canções e cantores, espectáculos de dança contemporanea, peças de teatro, festas do 25 de abril e do 1º de Maio, desfiles de Carnaval, passagem de ano no cine-teatro Virgínia...
Lá volto eu à sala antiga do Virgínia. Da qual tenho muitas saudades. Onde pisei palco imensas vezes por motivos vários e felizes. Onde vi as minhas crias e não só, brilharem na luz do sucesso. Onde fui feliz.
A cidade mudou. O bulício das noites de primavera e verão desapareceu.
As pessoas dos meus vinte anos, quase todas, partiram. Algumas para a capital, outras para sempre. As que ficaram como eu, estão e não estão. Não se encontram nem se revêm na cidade que ficou. Mais só, mais triste. Mais moderna e sofisticada. Aberta à cultura e à arte como nunca. À saúde. Ao ensino. Aos serviços. Entrando e saindo nas auto-estradas que rasgaram as serras de Aire e Candeeeiros, a lezíria e o Alentejo e Beiras. Remodelando o cine-teatro Virgínia, que já não é o que era. Erguendo um centro comercial à entrada da auto-estrada. Trazendo vários hipermercados para o centro do Ribatejo. Construindo viadutos e pontes. Que servem mais para sair do que para entrar...
Na quinta-feira fui ao cinema em torres novas. No centro comercial que serve a cidade e arredores. Acho até que, mais os arredores. Já não conheço ninguém que vai ao cinema. Na fila de trás um grupo de formandos da escola prática de polícia que existe nesta cidade, nas antigas instalações do Quartel quando havia tropa na vila. Gente de outras terras. De todo o Portugal. São eles que animam as ruas nocturnas durante a semana. Andam aos magotes e riem e falam alto, procurando poiso para passarem umas horas até ao recolher.
Entraram na sala, num pequeníssimo estúdio, quando as luzes baixaram. Falando muito alto e rindo despudoradamente. Nos seus vinte anos...de hoje.
Quando o filme começou continuavam a conversar. Alto. Em cenas de masturbação da personagem, riram ordinariamente. Arrotaram escandalosamente.
Éramos três mulheres que ali estavam à frente deste atraso social.
A sala não estava lotada mas estava composta. Ninguém reclamou. Ninguém se incomodou. Ninguém se indignou.
Uma de nós disse: Se não sabem vir ao cinema, fiquem em casa. Por acaso não fui eu que falei, mas podia ter sido e num tom mais duro.
Entristeci. Pelo povo de vinte anos que existe ainda por todo o portugal. Pela cidade que nunca chamo de minha mas, que afinal, gosto. Pelo êxodo...
Hoje fiquei na cidade mais uma vez. Por opção. Por teimosia...
Quero sentir-me bem nesta terra. Nesta casa onde as minhas crias cresceram, estudaram, brincaram e foram felizes. Quero sentir-me feliz na cidade que tive, na que hoje me é oferecida...
Mas é preciso fazer o exercício. O que me vale é que compro cadernos atrás de cadernos, para numa escrita ordenada, por vezes repetitiva e cansada, insistir num b-a-bá que a vida me tem ensinado, que a felicidade está dentro de nós.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
deus nos acuda
Sempre ouvi dizer que quem não tem nada que fazer, faz colheres.
Nunca me detive em considerações acerca do ditado. Não tenho cá o avô Carvalho para me trocar por miúdos tão antiga frase.
Mas é um facto que como a minha vida anda desinteressante, escrevo sobre motoristas da rodoviária, de expressos ou de transportes urbanos. E hoje o Bruno, o rapazinho que costuma conduzir o TUT e que me olhou como se eu fosse do além, um destes dias, que foi ao meu local de trabalho, porque deve ser daqueles, há-os e muitos nos tempos que correm, que diz que " não gosto nada de entrar nestas casas ", que hei-de dizer eu que diariamente, salvo raríssimas excepções lá me mantenho à trinta e tal anos, bem, o Bruno viu-me e parou o autocarro.
Sorriu e disse: Entre. O meu colega disse-me que costuma apanhar a senhora aqui e recomendou-me que não passasse sem parar.
Eu já previra que um dia destes o motorista podia mudar, porque eu sou muito prevista e pouca coisa me escapa, e ficaria no mato sem cachorro, fazendo contas de somar nos favores quase " inzigidos " que peço ao mano Zé. Sim, porque quando fico a ver navios ligo de seguida e pergunto: Zé estás em torres novas? Ou , Zé estás aonde? E o Zé percebe logo e ri-se. Conheço-lhe o sorriso sonoro de quem já sabe que vai ter de fazer 30 quilómetros porque eu, perco a camioneta. Um dia vou recompensar o mano Zé, não sei quando, mas sei que vou.
Bem, mas cheguei a uma conclusão brilhante; afinal o sr. margarido não parece só boa pessoa. Ele é mesmo boa pessoa. E o Bruno também. E eu serei? Se calhar eles acham que sou.
Ahn?! Anh?!
Quem é que tem uma sorte dos diabos? Ou será que é dos céus, mares e terras?
É isso. E há quem não acredite que quem está comigo, está com Deus...num deus nos acuda!
estado de alma
Não sei o que tenho, ou sei? Que dou comigo a chorar só por ouvir algumas músicas...
Será aborrecimento?
Depressão? Saudades?!
Ou sou eu a armar?!...
Mas e se sinto um calorzinho no peito e uma nostalgia inexplicável de algo que não sei se já vivi, se ficou por viver ou se ainda falta viver...É o quê???
Serei eu a inventar?
Aquele sentir entre o doloroso e o bom, que não escolhe hora nem lugar nem gente mas que se sente e que se quer eterno porque nos coloca no lugar da paz...
A caminho de um dia de trabalho intenso, pareço ir na estrada da felicidade.
E isto o que será? Serei eu a endoidar?
A vida é contraditória e bela.
E ninguém me oferece momentos tão íntimos e intensos se não a própria vida.
Olho-me nos olhos e afinal não faço perguntas. Nem preciso de respostas.
Estou feliz porque acordei.
sem erros
Eu que nunca teclo na função que permite verificar se o texto tem erros ortográficos, teclei. Ontem. Num texto pequenino.
E qual foi o meu espanto!
" Não existem erros ortográficos neste texto ".
Uaaaaau! Boa!...
questionando
não conhecimento
há dias assim
Esta manhã fintei o TUT. Ando com ganas de me vingar. Pois que me tem feito vista grossa e eu não sou de vinganças mas quem mas faz, paga-mas.
Quanto menos feliz me sinto, mais mesquinhos são os meus desejos. E o TUT é um pedregulho nas minhas botifarras, pois já voltei a elas. Sempre são rasteirinhas, que este ano não embandeirei em arco. Não calcei nem uma vezinha que fosse, botas de salto alto, mas em contrapartida tive o atrevimento de seguir as tendências da moda e há que comprar botas até aos joelhos e... como diz uma colega minha, ovelhas não são p'ra mato. Atrofiam-me. Incomodam-me os movimentos dos joelhos e verdade seja dita, são tudo menos elegantes. Fico muito atarracada nelas e mais insuflada o que é algo pouco bonito de se ver quanto mais de se sentir.
Mas já me desviei do assunto e isto faz-me lembrar o meu jantar de ontem, a três. Pois que ontem não fomos duas não senhora. Acho que pus as criaturas quase a dormir tal foi o quase monólogo que estabeleci ali. A tristeza nem sempre me dá para me fechar e se me dá para falar ninguém tem direito a nada, sendo que se instala um clima de verdadeira seca. O que valeu para as outras vezes em que preciso de umas talas para manter os olhos abertos tal a avalanche de palavras que a caçula dispara.
Mas seca estou eu também agora a ser, eu sei bem, que até para mim não há pachorra.
Bem sei que falar do TUT não é interessante. Até porque uma carripana branca a cheirar a naftalina com menos lugares do que o desejável sem um lugarzinho para mim, não será um tema interessante senão para quem nele se desloca diariamente, porque a verdade seja dita, é o meio de transporte que faltava na cidade e que veio acrescentar qualidade de vida aos nossos idosos, aos miúdos da escola e às criaturas como eu que desdenhando, por vezes abençoam a sua paragem a tempo e horas.
Mas hoje fintei-o. Como acordei cedo, ainda não eram oito horas e já eu estava na rua. Devagar devagarinho fui a caminho da boleia do sr. margarido. O tornozelo melhorou mas não podia facilitar, por isso fui rua abaixo, pensando nisto tudo e naquilo de que não falo aqui também, quando vi o TUT ao longe já eu estava na paragem. Ainda ziguezagueou junto a mim mas eu, indiferente, não estive nem ali que nem um músculo mexi, nem os olhos pestanejaram nem um aceno a minha mão fez. E quando avistei o autocarro de Leiria senti se calhar a única satisfação do dia, que hoje foi para lá de mau, que foi perceber que para além de fintar o TUT tinha chegado antes do sr. margarido.
Há dias que não deviam acordar-nos tão cedo. Que não deviam entristecer-nos e que não nos deviam permitir ser pessoas mesquinhas.
Há dias que a semelhança com as lesmas é tal que não fosse odiar babar e rastejar, e não sabia quem é quem...
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
pesar
A ti, a quem respeito, admiro e por quem tenho uma grande estima, o meu abraço maior.
Hoje entristeci contigo. E quero que saibas que estou aqui sempre, para o que der e vier. Não hesites. E muita coragem.
Beijos, muitos. Todos.
Gosto muito de ti.
reflectindo
Sobre o Amor disse Nuno Lobo Antunes
" Para mim a única coisa que não tem limite é o amor.
Dignifica-nos, torna-nos bons.
É a nossa medalha.
Somos nós para além de nós ".
Se calhar por isso, quando viajo para Luanda e me vejo nessa terra abençoada me sinto a melhor pessoa do mundo. A mais rica, tolerante, bonita, privilegiada, generosa, amiga, grata, abençoada, tocada por Deus.
sucumbir? Não senhora.
Estão criadas todas ou quase todas as condições para ter um dia daqueles...
Acordei de madrugada, vai-se lá saber porquê. Gosto nada de rebolar na cama sem sono com uma gata querendo instalar-se no meu ombro, na barriga ou mesmo no pescoço.
Abri a janela e chovia, numa chuva molha tolos que me faz nervoso miudinho.
Nunca mais acerto com a hora da boleia do sr. margarido; hoje ainda não passara e já eu ia doida por essas ruas fora julgando-me muito atrasada.
O som de três ambulâncias a caminho da A23 perturbaram-me profundamente. Vem-me à memória coisas que quero esquecer.
O sol está a dar uma nega. O dia mantêm-se cinzento.
A minha dor no peito aliviou mas bastou correr um pouco mais depressa para de novo de instalar.
Levei a noite a sonhar com gente de um tempo em que era miúda.
Enfim, vim trabalhar como cão a roer ferro...
Hoje é daqueles dias de estalo.
Vou dizer não à tristeza que me sinto percorrer o coração.
Este dia não me há-de vencer.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
dor
Acho que me doi o esterno.
Ou será que me doi o coração?
Não sei, mas gostava de saber, nesta recaída que tenho algumas vezes de hipocondríaca a caminho da cura.
Inicialmente sentia uma dor inesperada, feita de espasmos, no peito.
Depois foi ficando e ganhando espaço.
Não me doi o braço esquerdo. Nem estou enjoada.
Mas...não há-de ser nada. Até porque me parece que um enfarte dá e pronto. Não é como o perú que quina de véspera.
Pelo sim pelo não já tomei um adalgur. E como devo tomar três por dia,e não vou a tempo do segundo, passarei ao terceiro antes de me deitar. Mal não fará. Bem?! Se calhar também não.
Há uma coisa que sei. Já não entro em pânico com as minhas mazelas.
E não sei e se faço bem.
qual cinderela?!
Eu nem uma nem outra.
O meu número de sapato está longe de ser o da cinderela. Também não sou daquelas que podem dormir de pé em cima de plataformas. Então, este pezinho de cinderela que Deus e os genes não me deram nem sempre aceita um sapatinho de fugir à polícia, sobretudo se estou para aí virada, num fogo no sim senhor a caminho da boleia do sr. margarido. E inicio a época. Não balnear, mas tenho pena. A tal em que me espalho ao comprido e me magôo. O ano passado foi o ano dos espalhanços. Consegui estragar duas sandálias compradas com muito carinho e bom dinheirinho, que este ano já não posso repetir a proeza, porque a cachorra da crise tudo nos tira. Mas caio na mesma. Nos sapatinhos de salto alto que insisti em calçar como se fosse muito primaveril este tempo que hoje me enganou, o que não é preciso muito, e me passou a perna, fazendo-me uma rasteira. Levei a mão ao chão, torci o pé e vi o sr. margarido desaparecer no ângulo de visão que não lhe permitia a ele advinhar-me por perto, mas a mim ficar a ver navios, quer dizer autocarros.
Ergui-me, sacudi-me, empinei o nariz e segui devagar para o pretendido e a passo certo. Sentia o pé a latejar, a cabeça a mais de mil e os minutos a passarem. Sabia que o sr. margarido esperaria por mim. Não é por nada mas tinha de esperar pelas 8,20.
E finalmente cheguei à garagem. Ao autocarro.
- Atão, atrasou-se para a boleia?
Já cá faltava. Eu sabia. Eu sabia que a conta chegava para que eu a saldasse. Ninguém dá nada a ninguém. Porque sim.
Sacana de feitio que eu tenho que acredito desconfiando sempre...
- Para a boleia talvez...
Ele, o sr. margarido olhou-me como se dissesse - temos pena.
Eu tenho. Pena de ter perdido a boleia. De nunca conseguir pagar o favor. De ter torçido o pé.
E terei muita pena se o senhor margarido deixar de parecer boa pessoa e não me der a dita boleia até à garagem para ali se iniciar a minha viagem.
É que por este andar ou desisto de sapatos com salto, ou acordo mais cedo e me despacho a tempo e horas ou...me reformo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
a importância da palavra
Há quem diga que a timidez é inimiga das palavras e por isso o tímido quase não as pronuncia. Não as enfrenta nem as domina. Há quem diga que o simpático fala pelos cotovelos. Comunica socialmente de uma forma intensa e avassaladora.
Há quem diga que o político adora usar a palavra. Manipulando através da oratória.
Há quem queira articular palavras, mesmo que pequenas e tenha uma dificuldade tão grande que desista e passe aos gestos.
Há quem tenha respondido ao meu desejo de boa semana com uma única palavra saída do seu raciocínio perfeito, das suas cordas vocais mais ou menos doentes, do seu desejo de retribuir, da sua vontade de evoluir e do seu esforço para comunicar. Uma palavra que me surpreendeu, pelo som, pela clareza, pela rapidez. Pela disponibilidade e pela escolha: IIIIIGUALMEEENTE...
Há quem diga o que lhe apetece. Eu digo que valeu por uma conversa cheia de sons e de palavras, frases, textos, livros.
Valeu. Pela conquista que diariamente o meu herói faz. E a minha caçula apoia, incentiva e aplaude.
Adoro-vos meus queridos.
Adorei o dia de ontem. E a nossa conversa,a três. Rica em gestos, sons, risos, gargalhadas. Gozo...Como nos velhos tempos.
A esperança é a última a morrer. E eu nunca perdi a esperança de te ouvir responderes deste jeito.
Boa! ;-))))
domingo, 6 de fevereiro de 2011
entrevistado
gatices
Vou falar baixinho para que ela não oiça.
A Pitanga, acho, está apaixonada.
A sério.
Sei como isso é. E é.
Com gente, com gatos, é tudo a mesma coisa.
Estive o fim de semana em casa. E a Pitanga pouco interessada em me seguir pela casa como sempre faz. E de se deitar ao meu lado quer no sofá quer na cama.
Brincar com os seus brinquedos, nem pensar. E comer, que o coma eu.
Estes sintomas próprios de uma perturbaçãozita qualquer não me fizeram desconfiar porque eu às vezes sou bem lerda e nem mesmo passando-me com a mão à frente do nariz num daaaaaaaah ridículo, eu lá vou; apenas me sinto estúpida, mas nem sei porquê.
Eu bem a vi à minha janela do quarto entre o vidro e o cortinado. Chamei e tornei a chamar. Utilizei todos os tons possíveis de a convencer a vir a mim e nada. Nem tugiu nem mugiu nem miou. E não foi uma nem duas vezes. Desde 6ª feira que a notei muito distante.
Sou mesmo tantam. Até uma gata me engana.
Eu bem a vi à janela numa insistência, que achava eu, era por causa do sol. Mas vi depois uma criatura que na mesma direcção dela mas numa janela da frente a olhava do mesmo jeito.
Não sei se é gato se é gata. Nem me interessa. Aqui somos todos descomplexados e despreconceituosos. O que interessa é que a Pitanga está rendida à outra criatura também siamesa. Bonita. E mais livre, pois passeia-se pela janela que se mantêm aberta. Segura e bela. E pelo andar da carruagem correspondendo à gatice da minha princesa Pitanga.
Temos romance. Como nos velhos tempos. Muito anteriores aos meus. Namorando à janela.
No fundo no fundo ainda hoje acontece. Não direi à janela, mas quantos namoros não existem pela net?
Ora pois então, a minha Pitanga sempre pode bater as pestanas, piscar o olho, miar num olá estás fixe? e perceber de imediato se agrada à criatura que tem à sua frente.
A ver vamos como isto irá correr. Se fosse eu diria que gato escaldado de água quente tem medo mas a Pitanguinha é tão inocente e tão mocinha que não sei se pode com um gato, ou gata, pelo rabo...mas que tem direito a amar tem.
Por isso mesmo se quiser até nem me ralo e não intervenho. Nem quero. Cada macaco no seu galho.
E quanto a este flirt, por enquanto, cada gato à sua janela.
E já gozam...
o que tive, o que sou
É domingo. Estou em torres novas. Vou almoçar a casa da caçula. Espero o mano Zé que vem com o seu olho clínico, perceber o que aconteceu à minha máquina de lavar que está a deitar água. A Pitanga está feliz porque não deixei de lhe fazer companhia desde sexta-feira à noite. Decididamente não fui feita para estar mergulhada no lar um fim de semana inteirinho. Fico triste. Fico burra. Fico só. São quatro paredes, vezes não sei quantas quatro. Nem um tanquezinho com peixinhos, nem uma goiabeira para regar, nem uma rosa para colher. Nem folhas para varrer.
Pensamentos mais de um milhão. O passado a atormentar. O presente a questionar e o futuro lá longe.
Há uma coisa boa. Dieta. Muito ananás, anonas, iogurte, pão integral, batido, água, limonada sem açúcar, morangos, sim, morangos, desdenhados por uns porque ainda sabem muito a água, e então?, não deixam de ser morangos.
Asneiras? Nenhumas. Nem da minha boca para fora. Muito menos em pensamento.
Uma entrevista de José Luís Peixoto, o escritor, fez-me chorar de saudade do meu pai. Outra entrevista a Nuno Lobo Antunes fez-me sorrir e lembrar a caçula e eu própria. O senhor conta que uma vez teve uma paciente a quem a vida foi madrasta, desgraças atrás de desgraças, mas que mantinha um sorriso e olhar fantásticos e perguntara-lhe porquê. E a resposta dela foi apenas e só:
Tive uma infância feliz.
Hoje, domingo, de um dia de Fevereiro, com o carnaval aí à porta, o sol a bater na vidraça, prestes a sair para ir comer uma massa qualquer que a caçula está a preparar para nós, eu sorrio olhando para lá da vidraça e confirmo que:
Tive uma infância feliz!
sábado, 5 de fevereiro de 2011
orfã de ti

Há dias, muitos, que me sinto orfã. De pai.
Olho para mim, bala fazendo ricochete. E tenho-te dor.
Vejo-te pai. Em mim.
No meu olhar para além dos montes que fazem a linha que separa o sonho, da terra fecunda e do mar amado.
Nas pernas cruzadas, baloiçando, criança distraída e embalada no seu mundo.
No canto triste e saudoso de vidas que ficam por viver.
Nas mãos entrelaçando vontades e desejos que não se concretizarão.
Nas verdades que juro as tuas minhas juras.
E na desilusão dos ombros caídos.
Há dias pai, que eu tenho o teu rosto, a tua voz e o teu sorriso.
O teu choro.
A tua humildade. O teu amor.
A tua identidade.
Um pedaço grande da tua eternidade.
fim feliz
(foto tirada do google )A paragem do TUT estava ali e eram 8,10 horas. Facilitei.
Porque não poupar mais 1,30€? Já gastei o outro que poupei e até este, num lanche no Limão Verde. Dois chás e torradas que partilhei com a minha colega Ana. Acabadas de chegar do emprego, numa tarde bonita que merecia de nós o desfrute. E assim como assim, na esplanada antiga e tão nossa frequentada, sempre revemos ex-colegas de torres novas, hoje reformados, que é um prazer voltarmos à fala e lembrar tempos de um tribunal antigo e de uma justiça mais justa e transparente.
Até já me passou pela cabeça renunciar ao café da manhã, diário, no sr. Virgílio, lá em Alcanena. Feitas contas, pouparei 240 euros por ano, o equivalente a uma viagem aos Açores, 3 noites, 4 dias, até abril, aproveitando uma promoção. Bem sei que isto não é bem, poupar. É mais escolher e substituir umas coisas por outras, mas eu é isto que sei fazer. Hoje pareço mesquinha, direi até um pouco cínica, mas isto está do pior e é urgente rever a minha matemática calculista, substuindo as minhas contas feitas pelo coração, por estas, mais exactas.
Na verdade, eu fico como cão a roer ferro se tenho de apanhar o TUT.
Não gosto. Vou quase sempre em pé. O trajecto não é justificativo do dinheiro que pago. Cheira a naftalina e há umas miúdas malcriadas que tentam perturbar a viagem aos adultos. Eu fervo em pouca água e mesmo quando não é comigo tenho a incapacidade de me calar. É um defeito meu...
Por essas e mais outras é que mais uma vez disse que não, apesar da hora.
Em frente à escola Superior de Polícia atravessei a rua olhando o horizonte da mesma, na esperança de não ver, ainda, a minha camioneta. Mas ela lá vinha. Corri para a outra rua. Em frente à passadeira, parei, mesmo a tempo do sr. margarido fazer a curva e parar em frente a mim. Aquela bizarma branca, o sorriso do homem e o seu gesto para que passasse quase me fez corar. Pior do que as chamadas que fazia num átrio cheio de intervenientes nos julgamentos, com mil olhos pregados em mim e nos meus movimentos, num tempo em que fazia diligências, em torres novas.
Passei. E continuei apressadamente. Não que sentisse correr riscos de ficar em terra. O sr. margarido não me faria tal desfeita. Também sabia por contas feitas que chegaria às 8,20 mais ela menos ela. Hora de partir da garagem.
Entrei. E rejubilei.
E apeteceu-me agarrar no rosto do sr. margarido e espetar-lhe dois beijos repenicados nas suas bochechas gordas.
- Passa sempre em frente ao hospital?
- Passo.
- Então se quiser, espere lá que eu trago-a. Escusa de vir a pé até aqui.
- Como é que eu vou saber que ainda não passou?
- Nunca passo antes das oito e um quarto.
- Muito obrigada. Vou aproveitar.
Isto aconteceu 5ª feira. Ontem cheguei a tempo de esperar dois minutos até entrar na paragem que não pertence à minha viagem mas que me facilita a vida de uma forma que nem passa pela cabeça do sr. margarido. Facilita-me a mim e à minha hérnia.
Tinha feito uma contas de cabeça e bastavam 300 segundos a menos para eu sair de casa nas calmas e apanhar o autocarro onde bem me apetecesse.
Estamos em maré de poupança e acho que me vou pôr bem nisso. Se fôr capaz.
Do que sou capaz mesmo é de agradecer ao sr. margarido.
Ainda há gente boa. E eu conheço-os.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
boca santa
Pois, nem toda a gente gosta.
E quem não gosta, odeia.
Eu gosto. Muito. A minha mãe matava as galinhas para as cozinhar de cabidela, pois então.
Foi o meu jantar. Arroz de cabidela.
Fui comê-lo à Tasca. Com a caçula. Essa comeu uma coisa que também é odiosa para muitos. Língua estufada, com arroz de grelos e batata frita.
Pelo andar da carruagem podem perceber que connosco é do tipo, o que vier morre. Só não gostamos de porrada, porque no que respeita à nossa boquinha, temos mesmo uma boca santa...
os pastéis
Hoje fui ao Lidl. Na minha hora de almoço. E descobri que tem uma secção nova. E que secção! Charcutaria. Ah pois é! O Lidl já tem um forno para o pão, de todas as farinhas e mais algumas e folhados doces e salgados, que até se metem pelos nossos olhos dentro.E tinha uma mesa de prova dos ditos artigos. Que eu provei. Não costumo fazê-lo. Não sei mas não me sinto à vontade para tirar um pedaço disto e outro daquilo e enfardar de borla nas barbas dos funcionários. Mas hoje, não tive o menor pudor porque queria perceber se o pão com chouriço não sabia a ranço, a empada de galinha não era seca e o pastel de nata era estaladiço. E não é que era?
E decidi levar para o emprego, para o lanche, num total de doze, os pastéis de nata estaladiços que se estavam a fazer a mim descaradamente.
Porquê doze? Porque cada caixa tem quatro, e nós somos doze, os funcionários que ali trabalhamos.
Anunciei a chegada dos pastéis. Uma hora depois alguém me veio " picar " dizendo que outro alguém lhe teria perguntado:
- A Clara meteu os papéis para a reforma, saiu-lhe o euromilhões ou faz anos?
Juro, saltou-me a tampa, mesmo percebendo que queriam meter-se comigo.
Então não querem lá ver?
Quando faço anos ofereço almoço. Cada vez que viajo trago chocolates, bolos e outros.
Vim de Angola e trouxe paracuca e doces de coco e de ginguba. Pulseiras e corta papéis de artesanato. Na Páscoa compro amêndoas. Se tiver bolachas ofereço. Já levei doces, queijo e eu sei lá que mais.
E uns míseros pastéis de nata serviram para a piadola?
Mas estava a pessoa nesse picanço quando aparece a outra criatura, a da pergunta, por trás denunciando a queixinhas. Que esta lhe respondera:
Anos não faz porque senão já nos tinham vindo pedir dinheiro.
Eu esclareço. Quando cada um de nós faz anos é costume comprarmos uma prenda ao aniversariante. E é feito o peditório de imediato.
Bem, só sei que os pastéis de nata comeram-se e bem. São óptimos e parece que todos os Lidl vão ter esta secção que me parece será um sucesso, pela amostra.
Eu sou fã deste hipermercado e cliente desde a primeira hora.
Agora fiquei apaixonada pelos seus pães e derivados.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
comes e bebes...bem
( foto retirada do google )Ninguém me pediu, ou pagou. Mas eu como gosto, aconselho. Quando vierem à Golegã, uma vila bonita do Ribatejo onde se realiza a feira do cavalo, de nome Feira de S. Martinho e sem parecer ressabiada, que não sou, até acho piada, se fazem os verdadeiros desfiles de uma feira de vaidades ( que é quase e só aparência ), bem, parem, porque aqui há um restaurante bem fixe, que se chama Barrigas.
Esta é uma das salas, a dos fumadores mas também a mais acolhedora devido à lareira. Os empregados são super profissionais, discretos e atentos. A comida é boa. A mesa das entradas é assim uma coisa de babarmos, e as sobremesas que podem ser apreciadas num prato feito pijama, ou seja, de vários doces e frutos, é demais. Muito, muito bom. O caril de gambas é fabuloso. E o preço, meus amigos, uma surpresa adorável. Uma refeição pode ficar por 12,50 € ou menos. Depende do que se beber, claro.
Eu gosto. Muito. Tem apenas um inconveniente para mim. Não vou sozinha nem a pé, por isso para lá ir tenho de ser transportada. Isto não é nenhum convite, mas se quiserem que vos apresente fisicamente o restaurante passem por torres novas que eu não me importo nada, mas nada mesmo de vos acompanhar.
Vão por mim que eu não vos engano e juro que ninguém me pediu que fizesse publicidade, eu é que sinto pena que vocês não conheçam, por isso esta achegazita.
caranguejo
" Prezada Clara Marques este é o seu horóscopo do dia Quinta Feira, 3 de Fevereiro:
Câncer:
Você será benquisto e cheio de atenções e isso estimulará a sua forma de agir levando a ser ativo e ordenado a administrar as suas tarefas. O período mostra-se muito fecundo e uma cegonha poderia entrar na sua casa, então se vive uma relação a dois terá de usar cautela de não quiser ter um filho.
Vemo-nos amanhã. "
Agora? Tarde piaste...
Câncer:
Você será benquisto e cheio de atenções e isso estimulará a sua forma de agir levando a ser ativo e ordenado a administrar as suas tarefas. O período mostra-se muito fecundo e uma cegonha poderia entrar na sua casa, então se vive uma relação a dois terá de usar cautela de não quiser ter um filho.
Vemo-nos amanhã. "
Toma e vai buscar...
Somos GRANDES!
2 a 0 na pá.
Isto é para aprenderem que o tal de porto não é uma nação.
Toma! Vai buscar...
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
pela manhã...
Não posso sair de casa às 8,05 horas. Mas saio. E se isso acontece, e já se tornou curriqueiro, tenho uma converseta de ao pé de orelha com a minha hérnia. Prometo-lhe mundos e fundos se me deixar chegar ao TUT, num pelo amor da santa, que depois tenho juízo. Num, só desta vez herniazinha da minha alma...
E lá vou eu. Olho a paragem do TUT. Passo por ela num desprezo arrogante, a fazer contas de cabeça, que se não passou que passasse, que vou poupar 1,30€. Não há-de ser nada e hei-de chegar a horas. E voo. Como uma pata-choca, mas voo.
Olho o relógio. 8,10 horas. Boa média. Bem sei que é a descer mas nem sempre faço esta proeza dos cinco minutos até à paragem. À outra, que nem sempre me alicia a parar. E continuo a marcha escandalosamente apressada, para quem anda mal das cruzes. Eis senão quando, passa o TUT. Obscenamente apressado. Indiferente e altivo. Parece que até fiquei a ouvir sarcasticamente gozando num gozo que a minha ascendência não aguenta, um Uooooooooooooô monangambê, eu vou de carro e tu vais a pé...deixo escapar num kimbundo sotacadíssimo que só ecoa na minha mente a asneira mais cabeluda que lhe conheço do dialeto da lavadeira Lucrécia, quando dava berrida nos ladrões de mangas do meu quintal que passavam para a Escola 83 da Vila Alice.
A hérnia queixa-se, reclamando o incumprimento da promessa. Diz-me que quem se trama sou eu, não estando para me aturar.
Avisto o meu autocarro ao longe, parado numa paragem por onde já passei. Deixo de ser malcriada e sossego o espírito inquieto desta manhã, segunda, de Fevereiro, este mês simpático que costuma ser de carnaval mas este ano não é. O sr. margarido vê-me quando atravesso a rua. É o motorista da minha camioneta.
Relaxei que parece que até ouvi a hérnia suspirar aliviada.
Fico com a certeza de que hoje vou apanhar o autocarro na boa. E nem preciso de incomodar ninguém, como o mano Zé ou a Mena.
Que início da manhã...Aka!
hoje está demais
voando
fé
Um dia ainda vou ter um banco de pedra como este, para mim e vou cansar de estar sentada, de estar calada e de olhar uma coisa querendo outra. Um dia, ainda...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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