domingo, 5 de agosto de 2012

não é por anda, é só para que conste

Durante 4 semanas, fui dona do meu tempo. 
Há muitos anos que não tinha férias tanto tempo seguido e temi que fosse difícil percorrer tantos dias só meus, de férias, à pobre, uma vez que sendo funcionária pública, parente pobre desta máquina do Estado fui privada de direitos tidos até aqui e que me proporcionaram ao longo dos anos, umas férias diferentes.
Estar de férias cá dentro parece limitado, quando cá dentro se traduz na mudança de casa quase e só. Torres Novas para Olival Basto e a partir daí, para os dias, os passeios, a praia, os amigos, os saldos, a leitura, reuniões de afectos, gastronomia, cinema, espetáculos de dança, esplanadas, descanso, televisão, facebook...
Tive até direito a sustos como súbita doença da Pitanga e uma tentativa frustrada de assalto na Avenida da liberdade.
E emagrecimento, coisa pouca, mas nas férias até os espelhos são kambas.
Hoje, esgotado o meu tempo de férias, feita uma reflexão sobre o que vivi e o que me foi dado, o que consegui e aquilo que desejei quando iniciei este processo de férias, adianto que caio na vulgaridade feliz de dizer alegremente que:
Férias são Férias!
Quer de costas quer de barriga, férias são obrigatórias, são imprescindíveis e dão-nos vida.
Por isso tudo, ao contrário de outros anos, não me sinto triste por estas terem terminado, sinto-me antes, renovada, pronta.
Com a certeza de que sou capaz de ser feliz, dentro da minha alegre casinha, sem subsídios a enfeitarem esses dias de liberdade e merecimento.
Eles, os tais que me governam o tempo e a conta bancária, podem tirar-me tudo mas a capacidade de ser feliz, por mais que se pintem de cor de burro quando foge, ainda não foram capazes de destruir.
Sou uma mulher de fé e acredito que Deus está comigo. Nada estará contra mim.
Fui ao longo de 4 semanas, dona do meu tempo.
E governei-o bem...
Vocês, amigos, família, amigos virtuais, grupos de poesia, grupos de Angola ajudaram a isso.
O meu bem haja a todos.
Beijos no vosso ♥ e um domingo muito feliz.

sábado, 4 de agosto de 2012

a caneta do bico d'ouro



Chegou o dia. De pontos, como no exame. Prova de redação, ditado, aritmética, desenho, tudo de manhã. Sem intervalo de recreio. Nem para comer. De tarde, leitura.
No colégio, todos ficam apavorados perante esta realidade. Dona Dina,” a fera “, inspira tanto respeito que a gente nem sabe mesmo o que é que é o quê, se medo, se o tal respeito, ou vergonha que afinal se bara
lham e dá uma dor de barriga só do olhar que a sô sôoooora nos olha que nem radiografia, para ver quem pode estar no copianço. Ela baralha também quando diz: Emídio, tens muito medo, mas vergonha é a do Nero, este é o cão da escola, que entra nas salas todas, como se fosse mais um aluno, com a vantagem que sai e entra quando quer e não faz ditados nem contas de multiplicar.
Não tenho medo de fazer os pontos, mas fico sempre gelada e com arrepios na barriga e na nuca. Mas tem uma coisa boa; é a hora de exibir a caneta do pai, de tinta permanente, parker, com bico e tampa d’ ouro. Ouro é esse metal amarelo que só podemos carregar para enfeitar na banga, nos dias de festas de batizados e casamentos porque se os mais velhos gostam, os bandidos que puxam os fios na rua até o pescoço ficar cortado e entram nas casas durante a noite para roubar que até às vezes ficam debaixo das camas, conheço bué estórias dessas, caté fico toda arrepiada, que diz que se eles ouvem barulho dos donos da casa, se escondem se enfiando debaixo das camas à espera que os donos adormeçam mas eles adormecem primeiro, ressonam e são apanhados, esses mesmos, também gostam de ouro. Não sei como era a vida antigamente mas devia ser boa. O pai e o avô dizem que antigamente, antes do terrorismo, a roupa ficava na corda toda a noite, ninguém roubava, a porta ficava aberta e ninguém entrava. O rádio tocava alto e ficava lá só, a tocar, a tocar e ninguém mexia. O portão ficava todo aberto e ninguém tinha medo. Custa a acreditar. D’onde é que saíram esses bandidos todos? Quando me vou deitar, às vezes é uma maka, tenho medo e a mãe fica no quarto até eu adormecer. De luz acesa mas com o lençol me tapando toda. Se os bandidos vierem não vejo, pode ser pensem que não estou lá. Levam o rádio de pilhas que o avô me deu e aí eu vou destapar a cara e vou reclamar se calhar até vou lutar com o bandido por causa do meu rádio, que o avô me trouxe do sul.
Já acabei os pontos todos. Falta só o desenho. Tenho sempre excelente ou muito bom , a caneta encarnada. Vou desenhar uma praia. Igual à praia Amélia. Com um dongo feito de tronco de coqueiro e um pescador com o remo, um pau comprido, a direito. Vai atravessar a água na direcção do Mussulo. Vou-me desenhar também. De pé; não sei desenhar gente sentada. Não faz mal. Fico de pé faz de conta estou a ver o dongo se afastando. A lápis de cor, da minha caixa de 12 lápis, pinto a toalha de encarnado. Um dia vou ter uma toalha de praia mesmo a sério, felpuda e fofinha, encarnada, cor de pitanga madura, igual às pitangas da pitangueira da casa do avô, onde nasci. Por trás de mim vou fazer uns montes, como se diz na metrópole. Aqui se chamam barrocas, como aquelas do Miramar de onde já fomos ver as corridas de carros e de motas também. Os mais velhos gostam. O pai então…eu também gosto de ouvir o barulho do escape, acelerando, acelerando, parece aqui na avenida, o mecânico, namorado da Quina, Leandro não sei das quantas, quando experimenta as motas na avenida e faz corridas com o outro empregado, que fica tudo a abanar a cabeça e a dizer xé, vão ver só, um dia vão se dar mal, um dia acontece uma desgraça que os desgraça…
Arrumei a caneta de bico e tampa de ouro na caixa que tem cetim por dentro parece os vestidos dos anjos, princesas e cinderelas que se passeiam na marginal de mão dada com os pais. No carnaval. Só me mascaram de negra, lá dos kimbos, atrás do sol posto que eu nem sei onde fica porque nunca fui lá. Com saia feita de vassoura desmanchada e um pano no peito, não que já tenha chuchinhas, mas porque uma menina tem de se tapar. A última vez, fui eu e a Fatinha, que até nos tiraram fotografia. Quem nos mascarou foi a Ana Maria e a Bina. Até nos pintaram os olhos com um lápis preto como as artistas das fotonovelas Grand Hotel, ou Sétimo Céu, que a mãe lê e compramos na papelaria da dona Milai na Senado da Câmara. Também já me mascarei de matrafona com roupas velhas do pai. 
À tarde os pontos terminam com a leitura duma lição. A sô sôoora escolhe uma bem difícil, para nos apanhar, mas eu leio bem. Sem gaguejar ou soletrar as sílabas. Mas fico encarnada como um jindungo maduro, de vergonha. Eu tenho mais vergonha que o Nero, é por isso que eu sei. Quando estou a fazer a prova de leitura.
Depois de almoçar volto para o colégio e me desafiam e me desencaminham, para ir aos maboques que as quitandeiras estão a vender lá nas árvores em frente à casa do Silva Camato, a casa das mulembeiras onde o mano Zé nasceu. E eu vou.Vou sempre. Kuio maboques. A mãe sempre diz: maria Clara, os maboques quentes fazem mal à barriga. Olha que estiveste à morte que até te caiu o cabelo e perdeste o andar. Lembras-te? Exibo isso como um troféu. Tive uma doença esquisita que mata. Febre tifóide. Dois médicos a tratarem de mim, a doutora Rosinda Guimarães que era do Sindicato que fica num prédio bonito da Baixa e o Dr. Costa e Silva, que tem aquele aparelho grande onde nos metemos e ele nos vê por dentro, parece somos esqueleto, mas vivo, que anda e tem medo daquelas máquinas todas. O melhor médico de Luanda, diz o pai, orgulhoso de ter feito tudo para eu não morrer. Pai é assim. Mas se orgulha de não olhar a meios para atingir os fins. Desse tempo só me lembro da minha madrinha Teresa, mulher do tio Aníbal, me visitar, com uma caixa bonita d’ amêndoas às cores . Ah, também me lembro do xarope branco que sabia mal e que eu chorava para o engolir. Tens de tomar para ficares boa e ires brincar para o quintal, dizia a mãe de colher na mão e eu a chorar, a chorar… 
O sol está forte e os maboques estão a ferver. No passeio da ourivesaria, atiro um ao chão para o abrir e comer logo ali. Gosto bué de maboques. Queria ter uma árvore só para mim lá no quintal. O pai planta couves, repolhos, e abóboras, tomate e alfaces mas árvore que dá maboques, não. Porquê? Faz mal à barriga, diz a mãe. 
Guardo os outros na pasta. Olho para ver se a minha caneta de tinta permanente está lá, não a entreguei ao pai porque me esqueci. E…nada. O coração, tum-tum-tum, tum-tum-tum, o sangue a subir às pressas na cabeça, o pescoço parece tem uma mão a apertar-lhe. Paro para ver melhor. Sento no chão do passeio da ourivesaria, o cão da Teresa Mulombosa ladra furioso e eu despejo tudo para o chão. Nada. Começo a chorar. A minha caneta, ai uêeeee minha caneta, perdi a minha caneta…
Voltei às quitandeiras. A Lourdes perguntou. Ninguém viu. Me disseram que: vai aparecer, deixa só, fica calma. Logo vais a casa buscar uma agulha de coser e atravessas a avenida. Espetas só a agulha no tronco da bananeira da colchoaria, e dizes uma reza que vou escrever. Acreditei. Ao fim da tarde escondida do pai e da mãe escapando dos carros e dos machimbombos que passam para a Terra Nova e Cazenga, espetei a agulha na bananeira e voltei. Fui dormir sem jantar. Não tenho fome mãe. Vês? Foi dos maboques quentes, diz-me ela tomada de razões. A miúda deve estar doente, não quer comer, diz ao pai.
Rezei para o Sagrado Coração de Jesus pendurado na minha cabeceira, faz favor meu jesus se me roubaram a caneta do pai faz o ladrão se arrepender, mas se a perdi, faz aparecer.
Não apareceu. Até hoje. O pai perguntou por ela e a mãe disse que eu não sabia responder. O pai não fez nada. A sô sooora entregou os pontos. Tive 200 a todos. O máximo. Excelente na minha praia desenhada e pintada a lápis de cor. Levei para casa para o pai assinar. 
Cheguei feliz mostrando. Sô Santos disse: Não posso assinar. Só assino quando a caneta aparecer.
E aí percebi que ia apanhar uma coça de cinto. Porque a caneta não apareceu. Pela primeira vez na vida o pai serviu a vingança fria e chegou-me a roupa ao pêlo quando eu julgava que estava tudo esquecido. Serviu-me de emenda. Nunca mais perdi ou deixei roubar qualquer outra caneta parker, de tinta permanente e bico e tampa de ouro. 

m.c.s.

desejo meu




Dá-me um sorriso e um beijo
Dá-me um gesto
Um olhar
Fortalece o meu desejo
De te abraçar

Dá-me tempo
Dá-me alento
Na manhã
Dá-me o sol do meio-dia
Não sejas esperança vã
De ser a tua alegria

Dá-me a rosa
E a acácia
Que me enfeita o horizonte
Traz-me os poemas e a prosa
Para atravessar a  ponte

Dá-me a lua e a estrela
Que o mar e o céu tem
Dá-me a noite de todas
A mais bela
Aquela
Que quero tua também

m.c.s.



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

as férias estão no fim...

foto tukayana.blogspot

Pitangando

foto tukayana.blogspot
A minha Pitanga, linda que eu sei lá, perfil soberbo, pose de rainha.
Completamente restabelecida.
Esta gatinha pregou-me um susto daqueles! Mas graças à vigilância e indicações da Joana Soares,  veterinária e amiga, tudo correu bem.
Fiquei a saber por exemplo,  que durante a noite, posso deslocar-me à urgência do Hospital da Faculdade de Medicina Veterinária, na Ajuda, Alameda da Universidade Técnica, em Lisboa e Dona Pitanga pode ser atendida. Durante o dia, há consultas, por ordem de chegada, com exames, caso seja necessário.
Obrigada Joaninha. Foste cinco estrelas.

fim de tarde

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tenho sonhado Luanda


cinco estrelas

foto tukayana.blogspot
Ando a portar-me tão bem que até eu desconfio...

No silêncio da noite



É no silêncio da noite
Que me falam as sombras 
E riem 
E desenham promessas
E destinos
Perseguem-me os sonhos
E os pintam de prazer
Mais do que simples desejo
De permanecer
Iluminam mistérios
Caminhos
Pedidos
Juras em cruz
E se entregam à paz
E à luz…
É no silêncio da noite
Eco de mim
Que a vontade floresce
A rosa se abre
Nesse jardim
E o amor acontece… 

m.c.s.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

gastronomia da américa do sul







a esplanada angolana do Martim Moniz






grito meu



Onda feroz
Em turbilhão
Voo sem norte
Preso albatroz
Ferido de morte
Sem rumo, sem sorte
Bate na rocha
Cantante e agreste
Grito meu
Coração em fúria

O vento d’ oeste
Enrola na areia
Mansamente
A minha tristeza
A minha amargura
E devolve-a ao mar
Que a recebe
Como o rio na foz
E me transforma
Acalma e ajuda

Onda veloz
Rio na voz
Corre
E desagua no mar
A marulhar
A minha tristeza
A  minha amargura

m.c.s.

unhas pintadas

Pr'ó que me havia de dar! Verniz azul...nunca digas que nunca desta água não beberás...

o meu almocinho

foto tukayana.blogspot

esplanadas do martim moniz

foto tukayana.blogspot

- Queres ir almoçar às esplanadas do Martim Moniz?
- Claro. 
Pus-me a caminho. É sempre o mesmo. A pé até ao metro. Linha amarela. Chego ao Campo Grande, mudo, e vou até ao Martim Moniz, precisamente. Entre gente que vai para a praia, desocupados, carteiristas e turistas, há de tudo, até aqueles que não consigo perceber o que estão a fazer no metro por não serem legíveis. Esta linha é manhosa. Passa e serve os Anjos e o Intendente.  E também por isso, há no metro, os que vão à procura do prazer e vivem do negócio dele, seja sexo, seja droga. Temos também os indianos e afins, sim porque a gente vê uma criatura morena, olhos bonitos e escuros, cabelo negro e escorrido, elegante e enigmático, tipo a minha cria, que já foi confundida com um qualquer natural da India,  logo à nascença, e basta que faça uns dias de praia e a pele escureça, zás, fica tal e qual,  e corremo-los a indianos quando podem ser de qualquer outro país. Paquistaneses por exemplo. 
Em tempos, quando ainda sonhava países de sonho vivido como experiência para a vida e enriquecimento espiritual, ambicionava ir à India. Ai que horror, diziam-me. Caem como tordos morrendo nas ruas. Que miséria! Eu não vou de férias p’ra ver pobreza. Acho, sem querer melindrar ninguém, até porque cada um vive como quer e pode, que conhecer a India não é ir às compras a Paris ou a Londres, estar num spa de hotel duma estância balnear, mas é, tem de ser, muito mais enriquecedor, e depois, fascinam-me culturas que adivinho dos livros e da observação à distância, e me são estranhas e superiores. E as fotografias? Só de pensar na possibilidade de fotografar a India já fico entusiasmada com a ideia de ter dinheiro que é o que me falta, pois que até sozinha ia. 
Enquanto faço o percurso até ao Campo Grande abro o livro que me tem acompanhado nos últimos dias – o Retorno. A escritora Dulce Maria Cardoso vale muito a pena. Escreve daquele jeito que a gente está a ler e diz – é mesmo isto. Ou – fantástico, inteligente, perspicaz….
Estou a poucas folhas do fim. E já estou cheia de pena que termine. Quando um livro me provoca isto, nunca mais o leio. Para não estragar as sensações que me provoca. Aliás, raramente repito a leitura. Mesmo quando não o percebo. Ponho-o de lado e penso sempre , ficas aqui a aguardar melhores dias, o defeito pode ser meu. Mas vai ficando, vai ficando, dá lugar a outros, porque livros por ler é o que não me faltam e esqueço. Um dia…e fica na lista do depois, um dia. Sinto raiva deste meu jeito de ser. É p'rámanhã… como a canção do Variações. Se fosse a cumprir, os meus amanhãs precisavam não de 24 horas cada dia, mas do dobro, triplo, eu sei lá…
As estações até ao Campo Grande passam depressa. São 3 ou 4. Quaisquer 10 a 13 minutos chegam. Saio e espero o metro que vai para Cais do Sodré. Chega logo. Sento-me e faço contas de cabeça com o euromilhões. 175 milhões de euros, ouvi dizer. Jesus Maria! Já dava para ir à India e às compras a Paris e a Londres, e…Aiuê, mamã uêee, Luanda me aguardandoêeeeeee!
Como os livros por ler, repetir leitura e compreender, a India e as compras em Paris e Londres, que estão no cais de embarque, para um dia, também o euromilhões está na calha…Um dia sai. Pareço idiota, mas não, quer dizer, digo eu que não. Eu acho, com toda a convicção, que um dia há um prémio chorudo que me está reservado. E por isso jogo. Não quero lembrar-me do meu pai que sempre acreditou que um dia…lá está, remetia p’ra depois, mas remetia, nunca perdendo a capacidade de acreditar. Afinal, nunca viajou p'ra destinos dos seus sonhos nem tão pouco ganhou a tal choruda lotaria ou totoloto. Somos ambos Caranguejo, somos do mesmo sangue, faz sentido. O que não faz sentido é não conseguir. Por isso, como a história não se repete, a caminho de Martim Moniz, faço contas a tanto dinheiro. Não sou capaz, dizem-me. Tanto dinheiro! Ou, o que é que eu fazia a tanto dinheiro? 
Olha, olha, não sou capaz! O que é que eu fazia! O qué qu'eu fazia? Olhem que eu sou pouco materialista e preguiçosa até p'ra pensar , mas, o que é que eu fazia?...
 Como é cedo para o meu encontro, saio no Rossio. Há um certo preconceito nesta zona da cidade, paredes meias com o coração da mesma. Julgo que por causa dos estrangeiros asiáticos e também dos africanos que têm o seu negócio que ocupa toda a Almirante Reis e desce até à Praça da Figueira. Muita venda de tudo. Calçado, relógios, óculos, roupa e coisas que não queria nem dadas. Muita gente coçando o rabo pelas paredes e bancos. Como antigamente no Rossio, no tempo em que os retornados faziam do lugar, sala de visitas para encontros de afetos e manhosos também. Muitos negócios de diamantes e liamba foram feitos nesse espaço da cidade! Enfim…ainda hoje os putos são aliciados por outros de origem duvidosa, a gente nunca sabe de onde são e quem são, à compra de coca; numa mão a dita noutra os óculos para venda, que já não enganam ninguém. Fico possessa quando vejo esta provocação, este incitamento, esta tentativa  de desviar adolescentes para caminhos que vão prejudicar os seus percursos. Apetece-me ir-me a eles à cachaporra, como se diz no Ribatejo. A polícia nada faz. Nunca os vejo na baixa. Nunca os vejo a pé, tentando afugentar vadios, tentando que haja respeito. E por falar nisso, sinto um arrepio e não está frio no metro, apesar de termos ar condicionado, graças a Deus que não acabaram também com isto. As escadas rolantes não funcionam mas ar fresco continua a ser ventilado. O arrepio vem da lembrança do sangue frio misturados com instinto de sobrevivência a que fui sujeita na noite de terça-feira. Quer dizer, já quarta, pois eram duas da manhã e acabara de sair da esplanada da TimeOut, uma das esplanadas novas, da avenida da Liberdade, a mais próxima da Loja do Cidadão e desse lado, precisamente. Combinara jantar com uma amiga, por ali. Eles têm uma tábua de queijos e enchidos muito agradável e umas broinhas de milho tão boas quanto o resto, vinho a copo, imperial e limonada feita com limas. E para além disso, é a esplanada da TimeOut e só por isso, é suficiente para que vá e goste de estar. Há sempre gente que conheço e música ao vivo. Nesse fim de tarde, houve música brasileira, da boa, cantada e tocada por brasileiros de primeiras águas.   Jantar puxa conversa, conversa puxa  noite, e a noite vai por aí fora. Quando demos por ela já o metro não funcionava. Do lado do Hard Rock Café há uma praça de taxis e por isso sentimo-nos seguras. Apenas atravessamos a avenida, ficamos na outra esplanada da frente e temos os taxis. Mas, há uns mânfios ( sei agora ) que mesmo nas barbas dos taxistas atacam quem solicita os serviços destes. Ora nós, fomos o alvo destas criaturas a cerca de metro e meio do primeiro táxi. Nestas coisas não sou distraída, sou até bem desconfiada e percebi de imediato o que o ladrãozinho de meia tigela queria de mim, sobretudo de mim, pois ignorou a minha amiga. E quando ela me diz: O que é que uma pessoa faz nesta situação?  Saltei o passeio para a rua e em segundos vi-me em frente ao taxista e apenas lhe disse – quero entrar no táxi. Entrei pelo lado dele e a minha amiga dirigiu-se rapidamente para o segundo táxi. O dito cujo larápio ficou a olhar e temi que entrasse no carro e me roubasse ali mesmo. As minhas frequentes conversas com taxistas permitem-me saber muita coisa que se passa e até desabafos destes e acabei sabendo que o indivíduo que não tinha ainda 30 anos pertence a uma raça que em Portugal existe a dar com o pau  e que é descriminada,( não por mim que até desconfio que parte da minha origem é por aí ), e quase todas as noites ronda a zona tentando tramar quem passa e até taxistas. De polícia... nada. Nem a sombra deles.
Cheguei ao Rossio e saí. Tinha tempo, apesar de já não ser cedo p’ra almoçar. Desde que as esplanadas ali estão ainda não me fizera presente, mas arrependi-me. Às vezes a gente não sabe onde jantar ou petiscar, e ali estão muitas esplanadas com pratos engraçados, gastronomia de vários países, cada esplanada com os seus pratos típicos, esplanadas de bebidas, de doces e gelados, enfim, muito bom. A minha cara. 
Claro que fui ter à de comida angolana. Tinha de ser. E acabei à espera da minha companhia, ao balcão, conversando com as meninas, a Fausta e a Cremilde e sabendo tudo quanto acontece ali, como funciona, e a  que horas vale a pena ir. O funge de amendoim ia sair dali a uma hora mas não dava para comermos porque a minha companhia trabalha ( Lisboa não está só de férias ) e fez um intervalo para almoçar comigo. Tenho o número do telefone p’ra encomendar quando quiser e recebi um elogio que me encantou. Marketing? Não. Muangolê não tem dessas coisas.
Se gosta diz, se não gosta, diz também. Quando a minha companhia chegou recebeu um elogio igual. Fazia sentido. Somos, dizem, cópia uma da outra.
Acabámos a comer na esplanada de comida típica da América do Sul. Pratos muito agradáveis, leves e saudáveis. Comme il faut. Creme frio de abacate, para entrada. E ceviches de pescada depois. E por fim causa peruana de polvo.Tudo a acompanhar com chá verde, com gengibre e lima, bem gelado. Tudo muito bom. Tenho dificuldade em perceber pessoas que dizem que não gostam da gastronomia internacional. Sem sequer provarem. Renegando tudo o que não é gastronomia portuguesa.  Tenho uma teoria acerca de quem vai por aí adiante gostando de experimentar novos sabores, novos costumes e fica até fã. É minha e vale o que vale. Mas encaixo-me nesse tipo de gente que quer mundo e gosta de ter mundo.
A praia foi o passo seguinte. O banho de mar também. Água fria, aquela do Tamariz, mas eu gosto mesmo assim. Participar não é a mesma coisa que assistir. Por isso estou de férias e atiro-me de cabeça nas pequenas coisas que estão na minha mão e à mão de semear. Dão frutos com certeza. Esterilidade é uma forma de estar que me deprime e isola e eu quero mais é ser mais eu. Prenhe de alegria e felicidade. À minha medida e sem atropelos.   

terça-feira, 31 de julho de 2012

domingo de cacimbo

foto tukayana.blogspot
É domingo.
O dia amanheceu cinzento. Há cacimba cobrindo o bairro. Será que só na Vila Alice tem estes borrifos, dizem, é molha-tolos? Aprendi isso mais tarde. Na Vila Alice sabem tudo e nunca que ouvi essa expressão. Parece que é quando chove mas não molha.  Aprendi mais tarde, diz que é, nim. A coisa boa que fica  desse nim, é o cheiro húmido da terra molhada.   Pensando bem, no cacimbo chove? Não. P’ra quê esses truques do tempo, parece finta estilosa a fingir manhã de chuva?
Gosto do cacimbo. À noite até que dá p’ra vestir o casaco de malha fininha que me ofereceram nos anos. Branco. Muito fino, quer dizer, chique, que até parece foi comprado numa dessas novas boutiques da Baixa.  Hoje vou calçar os sapatos picotados, encarnados e brancos que comprei na sapataria Lord, com o dinheiro que o avô Carvalho me mandou de prenda d’ anos. E vestir o vestido d’ alças, chão azul escuro coberto de malmequeres grandes e pequenos. Dona Fortunata é que fez, n’ amarra. Não desgrudei dela até ficar pronto. Está-se a usar. O pai trouxe dois cortes, do Quintas. Um p'ra mim, outro para a mãe. Padrões diferentes, não somos gémeas, ora essa! Tremo só de pensar que sô Santos é que escolhe o padrão. Não gosto dos cortes de tecido terylene que tem a mania de trazer, parece vestido de boda. A mãe tem um, verd' água. Mas é a mãe. Eu não. Prefiro  comprar popelina ou chita,  nos Bastos, Suba ou  Gajajeira. A Gajajeira tem rolos de tecido a metro,  bué da nice. Baratérrimos. Já fui lá com as minhas kambas.
O pai comprou o jornal; ao domingo traz o Bamby e eu leio desde kanuca.  E faço as sete diferenças. O engraxador dos domingos, já chegou. Entra para o quintal, a Bolinha cheira-o e não lhe ladra. Já é da casa. E é candengue. Cão que é cão não ladra nem morde nos mais novos. O pai lê o jornal enquanto engraxa os sapatos. O almoço vai ser caldeirada de cabrito. Ele que está a  fazer. Já cheira até no quintal. O kota gosta de cozinhar. A comida dele, kuia. Sô Santos é grande! E manda. A mãe acha que ele sabe mandar. E se manda bem que continue. Poupa-lhe trabalho e cansada anda ela de lavar roupa no tanque, engomar, ( ainda bem que já temos ferro elétrico ) e limpar. A Lucrécia está doente e deixou de vir. Mandou a  Ana, irmã dela, mas lhe morreu um filho que tinha com o André, o empregado do pai, caté lhe deu uns dias p’ra fazer o óbito lá no Rangel onde eles vivem,  depois o André voltou mas a Ana, não.  Agora não temos lavadeira. Está na hora do pai comprar máquina de lavar como gente fina tem. Alguns amigos compraram e até que nem são finos. .
A mesa hoje vai ter convidados. Vivem sozinhos e ao domingo vivem mais sozinhos. O pai  convida e adoça os domingos dos solitários. Eu gosto de ver a mesa cheia. O primo Fernando desde que se separou da Emília, mulher bonita é essa, sempre de cabelo, ripado, cheio de laca que nem um fio levanta com o vento, unhas grandes e encarnadas, blusa d’ alças dando lacinhos e calças de mousse justas ao corpo, presas no pé com uma tira, cheirando a  coló
nia Santa Clara, o primo Fernando, desde que saiu da casa dele e se mudou para uma pensão na avenida, vem almoçar aqui em casa aos domingos e o António Barbeiro, quer corte cabelos quer não, só falha se estiver doente. É o pai da Carminho, que está a ser criada pela D. Maria da Luz, ( parente deles e minha vizinha ), desde que a mãe morreu. Não a conheceu. Tenho pena dela, não sabe o que é ter uma dona Celeste, que nem eu. A D. Maria da Luz tem uma horta no quintal. E tem perus que me assustam, à minha passagem. E tem livros de cozinha fantásticos e às tardes, nas férias grandes, para orgulho da mãe, coitada da mãe que se orgulha com tão pouco, vou p’ra lá copiar  as receitas que me agradam. Manda-ma para cá, diz à mãe, está aí sem fazer nada. Eu vou sem a mãe mandar porque gosto. Acho, posso ser cozinheira nas horas livres de ser médica, que é mesmo o que eu quero. Encantam-me doces com natas. Só agora começaram a aparecer à venda. E não têm nada a ver com as natas do leite, brrrr que nojo. As natas p’ra bater, que conheço, vêm em  sacos como os sacos de leite, da Primor. Na baixa. Perto da Mutamba. Já as fiz para comer com morangos que vêm do sul, em caixinhas. Se o avô não vivesse em Moçâmedes, quer dizer, aprendi depois que é Namibe, tínhamos morangos plantados por ele no nosso quintal. Quando era candengue comia-os e comia também figos da Metrópole, que aprendi depois que é apenas e só, Portugal. Ele tinha uma figueira, que mais parecia um arbusto, mas dava  meia dúzia de figos e desses, o primeiro era para mim. Sabem aos figos das mulembeiras, só são um pouco, muito, para falar verdade, maiores. 
Tenho tantas saudades do avô! Só vem no Natal. Trocava o António Barbeiro e até o primo Fernando, esses dois juntos, pelo avô a comer connosco caldeirada de cabrito, neste domingo de cacimbo.
Ainda falta  aparecer o Sr. Rocha, a quem o pai chama, nas costas dele, o Rocha maneta, ele é maneta, mas chamar assim, de insulto? Não. Temos respeito. Já basta o que basta. Agora, rimos a bom rir porque ele é o tal  que não sabia que os supositórios não eram p’ra beber. Ó santa ignorância! Ó Rocha isso nem parece seu, homem! Disse o pai. E a contar aos amigos comuns -  Tem a mania que sabe tudo ( e sabe mais do que alguns que vão lá à loja ) e afinal não sabe que os supositórios são p’ ra meter no  traseiro. Sô Santos é transmontano e diz tudo com as letras todas. Traseiro! p’ra quê que estou aqui a armar?  Mataco, foi o que ele disse.
A mãe prepara a limonada com limas, muito gelo e açúcar. Na geleira tem mission e sprit mas eu prefiro limonada. O pai tira os copos de uísque da cristaleira e vai buscar a soda. Quando eles chegarem bebem um uísque para arrebitarem. Houve uma vez que provei, mas com soda não gosto. Com seven-up ou coca-cola, sim. A moda de pôr cola no uisque é uma modernice que o pai experimentou  numa festa, no  tio Augusto.  O meu uísque é de primeira, diz o pai. Não é nenhuma mistela. Ainda tentou beber Sbell, há inclusive cá em casa, mas voltou ao de malte.
Quando comemos cabrito, escolhe a cabeça, e divide os miolos comigo e com o mano Zé. A Paulinha é pequenina e ainda não gosta. O que eu gosto mais na caldeirada é mesmo dos miolos e do molho que ensopa o pão. Esmigalho as batatas, desfio um pouco de cabrito e pronto, estou almoçada. A seguir, vão jogar às cartas ou vão embora e o pai vai ouvir o relato. Tem dias  que vou com o primo Fernando até à Ilha. Fala-me das novas namoradas e deixa-me fumar. Também…já tenho 16 anos e pareço mulher. Quando visto as calças encarnadas boca de sino e a blusa branca sem costas, pinto os lábios de encarnado e encarapinho o cabelo com os rolos de esponja que descobri na drogaria dos Combatentes, os tropas que passam por mim nos unimogs dizem tantos disparates que só não faço asneiras com os dedos nem os mando para a p*** que os pariu porque eles são mais mal educados que eu e ouvia das boas. Nunca mais me esqueço d’um que me disse uma barbaridade de disparates depois de lhe ter mandado à tuge. Em português do Porto e em verso.
Quando saio com o primo Fernando, curto bué; tem música moderna nas cassetes, posso fumar e contar os meus segredos que não chegam aos ouvidos do pai,(  já à mãe conto tudo, ela só abana a cabeça e diz, ai maria clara se o teu pai sabe ) vamos beber coca-cola, eu,  um fino, ele, ou comer baleizão ao farol. Na ponta da Ilha. Mesmo ao pé do Barracuda, que está sempre cheia de gente fina. Parece com os rapazes e raparigas do Salvador Correia. Ou aqueles que  vivem no Alvalade, no Bairro do Café ou no Cruzeiro. Ou os filhos dos fazendeiros. Cheios de importância, pose e proa. Como se fosse verdade a estória do sangue azul. Mentira, temos todos sangue encarnado. Na Vila Alice não há fenómenos desses, ai deles…
Mas a propósito do Barracuda dizem que  há uns  que frequentam este espaço, quer dizer, e outros, aí por Luanda fora,(  há de tudo), que têm descapotáveis, tratam-se por você ( que ridículo ) e diz-se, as más línguas, ou línguas invejosas, sei lá, que fumam liamba nas festas nos apartamentos da baixa para o efeito; gostava de ser mosca para comprovar; às vezes oiço o sô Santos – se a minha filha fosse dessas, dava cabo dela, ela que se atreva, vai logo para a rua com a roupinha do corpo e com uma carga de porrada de cavalo marinho.
Até tremo só de pensar. Tenho a certeza que a carga de porrada levo mesmo, se mijar fora do penico. P’ra quê quero estar numa farra de snobs a fumar liamba e a despir a roupa, sim, porque o sô Santos não diz, mas há quem diga, lá está, dizem, se é o que eu vejo não é nada se é o que dizem é tudo, que tudo vale, menos tirar olhos;  são grandes orgias, bebida, música, liamba e sexo. Por falar em sexo, o Mário meu vizinho andava com uma revista pornográfica e eu apanhei-a e folheei, curiosa. Pela primeira vez com esta idade vi pornografia ali ao vivo ( salvo seja ) e a cores. Nunca mais gostei de porcos brancos, que aprendi depois, que existem no puto, pois aqui só vejo porcos pretos. Por falar em sexo…
Nas festas o que eu gosto é de conversar, comer croquetes e empadinhas, tartes d’ amêndoa e jinguba, fumar Baía e dançar. No limite, dançar agarradinho o je t’ aime moi non plus mas se se põem a arfar, faço força com os cotovelos no peito dos rapazes e piso-lhes os pés. Quê que é isso? Sou alguma miungueira ou quê? Estás-me a estranhar? Ou não me convidam mais, ou aceitam as regras, porque vale mais um pássaro na mão que dois a voar. Ouvi dizer isto muitas vezes. Nunca dancei com namorado nas festas, por isso não sei se espetava os cotovelos no peito dele.
O domingo passa rápido. Sente-se no fim da tarde que se anuncia nas traineiras saindo do porto para a pesca, seguidas pelas gaivotas. Na contra-costa , lá para as bandas do Mussulo, o sol avermelha-se, numa bola de fogo sobre as palmeiras, esgueirando-se para o mar mais por detrás, quem sabe aonde; se o avô Carvalho vivesse em Luanda em vez do Namibe, sabia a resposta. Sente-se nessa hora do sol a se despedir da tarde que causa uma nostalgia qualquer até a mim que tenho um passado tão curto e uma infância tão feliz, acho que saudade existe do não sei quê que ainda vamos viver e não sabemos o que é mas vai ser bom com certeza, só pode ser bom. Temos tudo para ser. Tenho tudo para ser. Idade. Família. Sonhos. Terra…
Aprendi depois que a saudade mais do que no futuro, mora no passado. A idade não pára de correr como o sol p’ra poente, a família vai ficando pequena e a terra, a gente não perde, mas não é dada como certa, apesar da vida me ensinar que a gente se quer,  conquista.  Deve haver mudança, é imperioso que haja mudança e  a minha terra, essa, continua linda e eu lhe toco e toco o céu cheio de estrelas, o céu mais estrelado do meu horizonte,  com a palma das minhas mãos quando estou em casa, como nos domingos d’ antigamente.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

é só um conselho


partida e chegada




Hoje foi o primeiro dia do resto da minha vida.
Pelas quatro menos vinte da manhã, com o coração destroçado, deixei a minha terra, há 37 anos. E cheguei aqui. A este lugar que me tem desde então.
Pode o tempo mudar, pode a memória apagar, pode até o mundo acabar, mas jamais esquecerei o dia em que virei costas ao meu futuro, naquele presente incerto e carregado de fantasmas.
Um dia, sim, um dia irei resgatar estas quase quatro décadas vividas longe do meu chão.
Um dia a minha alma deixará de vaguear entre sonhos e desejos, entre viagens fugazes e visitas temporárias, entre saudades e partidas. Encontros e desencontros.
Um dia sentirei o olhar de Deus sorrindo para mim e terei a certeza que chegou a hora de voltar para sempre para o meu lugar. E irei.

na piscina

foto tukayana.blogspot
·        Chego à piscina. Exterior. A piscina d’água quente, tem água fria. O jacuzzi idem. A luz está a falhar. Há um problema com o gerador. Na receção informaram-me. Quando lhes fui dizer que a televisão não funciona. A Sara ( a minha amiga da receção ) piscou-me o olho quando a chefe de sala, acho que é a chefe da sala das refeições pediu que se falasse mais baixo, pois estava ao telefone a tentar resolver a avaria. Esta mulher, ao jantar, ( às vezes janto no hotel ) circula de mesa em mesa perguntando se está tudo bem, distribui sorrisos de orelha a orelha mas não me convence. É a única criatura que ali trabalha que não joga na minha equipa nem que se pinte de encarnado. Chego à piscina exterior. É como chegar a casa. Sinto-me um peixe dentro d’água. É bom chegar e reconhecer o espaço. E chamá-lo meu.  Há sol. Não há vento. Está ameno e agradável. Procuro uma espreguiçadeira. Apenas três estão disponíveis. Bem me disse a Sara que o hotel estava lotado. Das três, só uma funciona. Acabo por sentar-me de costas para o sol. Os melhores lugares foram ocupados. Não faz mal. Há vários casais jovens com crianças pequenas. Há jovens raparigas e rapazes em grupo. Estes falam espanhol. Há um casal com sotaque forte de Angola, com duas kanucas, brincando ruidosa e alegremente dentro da piscina grande. Há um casal mais velho que eu, certamente. Ele, com certeza. Encontrei-os a fazer o chek in quando cheguei. Ela com ar  desportivo e moderno, loira, cara lavada,  magra, gira. Ele, cabelos brancos, pele morena, voz arrastada, ar pegajoso. Agarrando-a pela cintura, passando-lhe a mão pelo rabo e olhando p’ra mim por cima do ombro dela, com ar baboso. Detestável. Detestei. E continuo a não gostar. Ela está a ler uma revista e ele, quando me sento na espreguiçadeira, agarra nos óculos de sol e coloca-os. E pára de ler o jornal. Sacana de caça. Sacanas dos caçadores. Parece que estou a vê-los no Corte Inglês, passeando-se com as mulheres, companheiras, amigas ou amantes, quero lá eu bem saber, de braço dado e avançando para tudo o que mexe. Eu não devia levar tão a peito isto, cada um é como é, mas provocam-me asco, sobretudo quando babam pela minha cria. Pedófilos duma figa…hoje não é o caso pois que já sou bem crescidinha. Olho à minha volta. Uma mulher novinha muito escura do sol dá um iogurte ao filho. Fico daquela cor achocolatada ao fim de três dias consecutivos de sol, praia e piscina. Já me confundiram. Quem é essa mulata que está do teu lado? Perguntou a Nany à Mena, vendo fotos de aniversário desta última, comemorado no Ribatejo, ai jesus que se ma apaga a luz só de pensar no ribatejo, mas é que a Mena vive também nessa região. E esta respondeu: a mulata é a Clarinha e as pombas, ( como ela gosta de me tratar e como eu gosto de a ouvir  ).Ao lado da mulher escura, outra com o mesmo tom de pele. Enorme. Talvez tão alta como eu e mais pesada com certeza. O seu estômago e barriga, no dobro dos meus anexos. Acompanhada do namorado, marido, amigo ou amante ou seja lá o que for. Dirigem-se para a escada de acesso à água. Nas mãos dele, uma máquina fotográfica. Ensaia a foto. Ela diz: Assim? E finge que vai em voo. Agora, diz ele. Ela mergulha, atirando-se para a água sem desfazer o personagem. Dentro d’água grita: Ficou boa? Estou bem? Mostra, mostra…e ele, ai ele, olha-a sorridente, tão sorridente que eu sorrio também, ai ele…ai ela… ai o amor…ele sem desfazer o personagem, sorriso pepsodent, diz: estás linda! Pareces um golfinho.Olho os dois. E não desfaço o personagem, sorrio. Pareces um golfinho…O amor é lindo!

domingo, 29 de julho de 2012

hoje

foto tukayana.blogspot.