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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ontem recordando anteontem


Nesta vida que já vai longa mas que quero muito mais longa ainda, já vi de tudo. Ou quase tudo. Já senti de tudo ou quase tudo. Já falei de tudo, ou quase tudo...
Ontem, no meu sofá, no ribatejo, ao cair da tarde e por várias horas, falei. Para o microfone. A sério. Até porque não é hora de brincadeira e mesmo que fosse, não gosto de mentir porque sim.
Ontem falei muito. Narrei, recordei, chorei. Morri e ressuscitei. Respirei fundo, enrouqueci a voz, deixei o coração envolver-me as palavras e o espírito correr livremente ao encontro das perguntas. E percebi que perdoei. Perdoei-me e tenho o coração ao largo e disponível. Tudo por amor à minha terra. Tudo em nome da verdade. Da minha verdade. Da minha realidade. Só dessa posso falar com certezas.
Um telefonema. Um carro da RTP à minha porta. Uma jornalista. Uma das que andam próximas de mim. Das minhas pessoas. Curiosamente, filha de um angolano. Mais curioso ainda, que o seu pai fez parte do conjunto musical “ Os Jovens “. Quem não conheceu “ Os Jovens?! “
“ … Chamo-me Maria Clara Santos, tenho 57 anos, sou Angolana, nasci e vivi em Luanda, abandonei Angola com 20 anos, em 1975; à época era professora e hoje sou oficial de justiça…”
O resto não posso contar. Quando chegar a hora eu conto. Eu anuncio. Poderão, ver, ouvir…
Ontem dei comigo a perceber que 37 anos permitem distanciamento duma estória que fez história. Permitem que me coloque na terceira pessoa e que não seja ( já ) tão doloroso falar dos tempos passados. Dos fantasmas do passado. Dos tiros, das rajadas, dos rockets, das anti-aéreas. Das noites passadas em branco, deitada no chão na esperança de não ser atingida. Das preces ao meu deus, que era injusto morrer na flor da idade apanhada por uma bala traiçoeira e enganada. Do recolher obrigatório. Do silêncio, prenúncio de algo terrível para acontecer. Das filas do pão. Dos dias e dias sem sair de casa comendo arroz de atum, feijão com atum, atum com atum…
Trinta e sete anos permitem que não chore ao falar das camionetas carregadas de mortos para as valas comuns, de mortos nas ruas, dias a fio, daquela mãe transportando nos braços o seu filho morto. Do êxodo das populações, atravessando a cidade com a trouxa à cabeça. Permitem que descreva o dia em que fugi de casa e nunca mais lá entrei. Da noite em que  a saquearam e perdi tudo. Até as recordações materializadas em fotografias. Imensas fotografias de todos os tempos de vida, minha e das minhas pessoas. E também as peças de ouro de criança. Canetas com bico e tampa de ouro do pai. Os meus poemas, coleções, cartas, muitas cartas de amigos e namorados. Revistas, livros.  Enxoval. Dinheiro, roupa. Tudo.
Da fuga, apenas salvaguardando um diário e três fotografias, onde eu não estava. Da fuga num jipe, com os meus vizinhos, caçadores de pacaças.  Da fuga e das balas assobiando por cima das nossas cabeças. Da estadia em casa da minha madrinha Regina Garnacho.
Trinta e sete anos permitem que fale do dia da fila no IASA, para a inscrição na ponte aérea. Ali no Palácio de Ferro. Do caixote que o pai construiu para nele colocar a máquina de costura Oliva, da mãe, o esquentador que o primo Fernando nos ofereceu, umas louças, duas malas, alguns livros meus. E pouco mais. Os nossos magros haveres depois de despojados a 4 de Junho. Permitem que fale daquele rapaz que foi preso e levado porque no BI dizia que nascera em Catete. D’outro que diante dos meus olhos foi morto pelo mesmo motivo. Da mulher grávida que levou uma coronhada. Do desespero da minha querida Arminda quando levaram o seu filho Mário, um adolescente de 15 anos, para a sede da FNLA, porque uma miúda o foi denunciar.  Dos dias iguais. Das noites iguais. Em pânico. Do desespero do pai. Da resignação da mãe. Dos hospitais S.Paulo e Universitário sendo evacuados para o Maria Pia. Em coluna militar. Debaixo dum silêncio, angústia e dor imensos. Das amigas, Manuela Barbosa, Hortênsia Rocha, Ana Maria Rocha, Fátima Matias, Julieta Tonet, Arminda Correia, Carolina Soares oferecendo-me roupa, calçado, carteiras. Carinho e muita amizade.
Da chegada do dia da partida. Do anúncio na rádio. A lista. O nome. O nosso nome. Das despedidas. Daqui por cinco anos voltamos.
Trinta e sete anos não permitem que me lembre e fale da viagem de casa, outra casa onde vivi um mês, na avenida brasil também, com passagem pela minha casa, pela última vez, sem que chore. Não permitem que lembre e fale do meu bairro, a Vila Alice, e da minha última vez à rua Alda Lara, para me despedir da minha kamba de toda a vida, Carolina Soares, para mim, Milú  e de toda a família dela, sem que chore.
Trinta e sete anos, são uma vida. Para esquecer. Para engolir lágrimas e olhar em frente. Passar pelos dias maus de chegada a Portugal e a tentativa de fazer parte desta sociedade fechada e cinzenta de então. Para acreditar que um dia inevitavelmente voltaria a Luanda. Para iniciar um processo de perdão, saudade e oração. Pela paz. Pelos angolanos. Por mim  e pelo meu regresso.
Aquele era o meu país. Sempre foi o meu país mesmo quando era Portugal. Angola era o meu mundo.
Ontem lembrei de novo a palavra – retornada - . Se doeu? Pelos pais. Que o eram. Pela conotação negativa. Pela agressão a cada vez que era pronunciada.
Trinta e sete anos estão passados e vividos por mim.
Ontem tive a certeza, ( pois confrontei-me com o passado ),  que sou livre. Não tenho culpas nem desculpas. Não tenho ódios nem zangas. Nem de Angola nem de Portugal. O passado passou.
O tempo mau que mudou a minha vida, também. Tinha de passar por isso? Se calhar,tinha.
Sou angolana e amo a minha terra. Amo o meu povo. Respeito as minhas raízes. Que pertencem aqui.
Gostei de falar ao micro. ( esta é só para desanuviar ) Gostei de ver o carro da RTP parado à minha porta. ( outra para sorrir um pouco ). Gostei de abrir a minha casa e as minhas memórias à Inês. ( gostei mesmo muito ). Gostei de saber que posso contribuir para um trabalho que será sério e transparente. Gostei de sentir a libertação de não ter ódios, nem dor, no coração. Apenas lembranças. Apenas constatação. Apenas a melancolia desses dias longos que estão arrumados no passado.
Apetece-me dizer: Viva Portugal! Viva Angola! Viva eu! 

terça-feira, 31 de julho de 2012

domingo de cacimbo

foto tukayana.blogspot
É domingo.
O dia amanheceu cinzento. Há cacimba cobrindo o bairro. Será que só na Vila Alice tem estes borrifos, dizem, é molha-tolos? Aprendi isso mais tarde. Na Vila Alice sabem tudo e nunca que ouvi essa expressão. Parece que é quando chove mas não molha.  Aprendi mais tarde, diz que é, nim. A coisa boa que fica  desse nim, é o cheiro húmido da terra molhada.   Pensando bem, no cacimbo chove? Não. P’ra quê esses truques do tempo, parece finta estilosa a fingir manhã de chuva?
Gosto do cacimbo. À noite até que dá p’ra vestir o casaco de malha fininha que me ofereceram nos anos. Branco. Muito fino, quer dizer, chique, que até parece foi comprado numa dessas novas boutiques da Baixa.  Hoje vou calçar os sapatos picotados, encarnados e brancos que comprei na sapataria Lord, com o dinheiro que o avô Carvalho me mandou de prenda d’ anos. E vestir o vestido d’ alças, chão azul escuro coberto de malmequeres grandes e pequenos. Dona Fortunata é que fez, n’ amarra. Não desgrudei dela até ficar pronto. Está-se a usar. O pai trouxe dois cortes, do Quintas. Um p'ra mim, outro para a mãe. Padrões diferentes, não somos gémeas, ora essa! Tremo só de pensar que sô Santos é que escolhe o padrão. Não gosto dos cortes de tecido terylene que tem a mania de trazer, parece vestido de boda. A mãe tem um, verd' água. Mas é a mãe. Eu não. Prefiro  comprar popelina ou chita,  nos Bastos, Suba ou  Gajajeira. A Gajajeira tem rolos de tecido a metro,  bué da nice. Baratérrimos. Já fui lá com as minhas kambas.
O pai comprou o jornal; ao domingo traz o Bamby e eu leio desde kanuca.  E faço as sete diferenças. O engraxador dos domingos, já chegou. Entra para o quintal, a Bolinha cheira-o e não lhe ladra. Já é da casa. E é candengue. Cão que é cão não ladra nem morde nos mais novos. O pai lê o jornal enquanto engraxa os sapatos. O almoço vai ser caldeirada de cabrito. Ele que está a  fazer. Já cheira até no quintal. O kota gosta de cozinhar. A comida dele, kuia. Sô Santos é grande! E manda. A mãe acha que ele sabe mandar. E se manda bem que continue. Poupa-lhe trabalho e cansada anda ela de lavar roupa no tanque, engomar, ( ainda bem que já temos ferro elétrico ) e limpar. A Lucrécia está doente e deixou de vir. Mandou a  Ana, irmã dela, mas lhe morreu um filho que tinha com o André, o empregado do pai, caté lhe deu uns dias p’ra fazer o óbito lá no Rangel onde eles vivem,  depois o André voltou mas a Ana, não.  Agora não temos lavadeira. Está na hora do pai comprar máquina de lavar como gente fina tem. Alguns amigos compraram e até que nem são finos. .
A mesa hoje vai ter convidados. Vivem sozinhos e ao domingo vivem mais sozinhos. O pai  convida e adoça os domingos dos solitários. Eu gosto de ver a mesa cheia. O primo Fernando desde que se separou da Emília, mulher bonita é essa, sempre de cabelo, ripado, cheio de laca que nem um fio levanta com o vento, unhas grandes e encarnadas, blusa d’ alças dando lacinhos e calças de mousse justas ao corpo, presas no pé com uma tira, cheirando a  coló
nia Santa Clara, o primo Fernando, desde que saiu da casa dele e se mudou para uma pensão na avenida, vem almoçar aqui em casa aos domingos e o António Barbeiro, quer corte cabelos quer não, só falha se estiver doente. É o pai da Carminho, que está a ser criada pela D. Maria da Luz, ( parente deles e minha vizinha ), desde que a mãe morreu. Não a conheceu. Tenho pena dela, não sabe o que é ter uma dona Celeste, que nem eu. A D. Maria da Luz tem uma horta no quintal. E tem perus que me assustam, à minha passagem. E tem livros de cozinha fantásticos e às tardes, nas férias grandes, para orgulho da mãe, coitada da mãe que se orgulha com tão pouco, vou p’ra lá copiar  as receitas que me agradam. Manda-ma para cá, diz à mãe, está aí sem fazer nada. Eu vou sem a mãe mandar porque gosto. Acho, posso ser cozinheira nas horas livres de ser médica, que é mesmo o que eu quero. Encantam-me doces com natas. Só agora começaram a aparecer à venda. E não têm nada a ver com as natas do leite, brrrr que nojo. As natas p’ra bater, que conheço, vêm em  sacos como os sacos de leite, da Primor. Na baixa. Perto da Mutamba. Já as fiz para comer com morangos que vêm do sul, em caixinhas. Se o avô não vivesse em Moçâmedes, quer dizer, aprendi depois que é Namibe, tínhamos morangos plantados por ele no nosso quintal. Quando era candengue comia-os e comia também figos da Metrópole, que aprendi depois que é apenas e só, Portugal. Ele tinha uma figueira, que mais parecia um arbusto, mas dava  meia dúzia de figos e desses, o primeiro era para mim. Sabem aos figos das mulembeiras, só são um pouco, muito, para falar verdade, maiores. 
Tenho tantas saudades do avô! Só vem no Natal. Trocava o António Barbeiro e até o primo Fernando, esses dois juntos, pelo avô a comer connosco caldeirada de cabrito, neste domingo de cacimbo.
Ainda falta  aparecer o Sr. Rocha, a quem o pai chama, nas costas dele, o Rocha maneta, ele é maneta, mas chamar assim, de insulto? Não. Temos respeito. Já basta o que basta. Agora, rimos a bom rir porque ele é o tal  que não sabia que os supositórios não eram p’ra beber. Ó santa ignorância! Ó Rocha isso nem parece seu, homem! Disse o pai. E a contar aos amigos comuns -  Tem a mania que sabe tudo ( e sabe mais do que alguns que vão lá à loja ) e afinal não sabe que os supositórios são p’ ra meter no  traseiro. Sô Santos é transmontano e diz tudo com as letras todas. Traseiro! p’ra quê que estou aqui a armar?  Mataco, foi o que ele disse.
A mãe prepara a limonada com limas, muito gelo e açúcar. Na geleira tem mission e sprit mas eu prefiro limonada. O pai tira os copos de uísque da cristaleira e vai buscar a soda. Quando eles chegarem bebem um uísque para arrebitarem. Houve uma vez que provei, mas com soda não gosto. Com seven-up ou coca-cola, sim. A moda de pôr cola no uisque é uma modernice que o pai experimentou  numa festa, no  tio Augusto.  O meu uísque é de primeira, diz o pai. Não é nenhuma mistela. Ainda tentou beber Sbell, há inclusive cá em casa, mas voltou ao de malte.
Quando comemos cabrito, escolhe a cabeça, e divide os miolos comigo e com o mano Zé. A Paulinha é pequenina e ainda não gosta. O que eu gosto mais na caldeirada é mesmo dos miolos e do molho que ensopa o pão. Esmigalho as batatas, desfio um pouco de cabrito e pronto, estou almoçada. A seguir, vão jogar às cartas ou vão embora e o pai vai ouvir o relato. Tem dias  que vou com o primo Fernando até à Ilha. Fala-me das novas namoradas e deixa-me fumar. Também…já tenho 16 anos e pareço mulher. Quando visto as calças encarnadas boca de sino e a blusa branca sem costas, pinto os lábios de encarnado e encarapinho o cabelo com os rolos de esponja que descobri na drogaria dos Combatentes, os tropas que passam por mim nos unimogs dizem tantos disparates que só não faço asneiras com os dedos nem os mando para a p*** que os pariu porque eles são mais mal educados que eu e ouvia das boas. Nunca mais me esqueço d’um que me disse uma barbaridade de disparates depois de lhe ter mandado à tuge. Em português do Porto e em verso.
Quando saio com o primo Fernando, curto bué; tem música moderna nas cassetes, posso fumar e contar os meus segredos que não chegam aos ouvidos do pai,(  já à mãe conto tudo, ela só abana a cabeça e diz, ai maria clara se o teu pai sabe ) vamos beber coca-cola, eu,  um fino, ele, ou comer baleizão ao farol. Na ponta da Ilha. Mesmo ao pé do Barracuda, que está sempre cheia de gente fina. Parece com os rapazes e raparigas do Salvador Correia. Ou aqueles que  vivem no Alvalade, no Bairro do Café ou no Cruzeiro. Ou os filhos dos fazendeiros. Cheios de importância, pose e proa. Como se fosse verdade a estória do sangue azul. Mentira, temos todos sangue encarnado. Na Vila Alice não há fenómenos desses, ai deles…
Mas a propósito do Barracuda dizem que  há uns  que frequentam este espaço, quer dizer, e outros, aí por Luanda fora,(  há de tudo), que têm descapotáveis, tratam-se por você ( que ridículo ) e diz-se, as más línguas, ou línguas invejosas, sei lá, que fumam liamba nas festas nos apartamentos da baixa para o efeito; gostava de ser mosca para comprovar; às vezes oiço o sô Santos – se a minha filha fosse dessas, dava cabo dela, ela que se atreva, vai logo para a rua com a roupinha do corpo e com uma carga de porrada de cavalo marinho.
Até tremo só de pensar. Tenho a certeza que a carga de porrada levo mesmo, se mijar fora do penico. P’ra quê quero estar numa farra de snobs a fumar liamba e a despir a roupa, sim, porque o sô Santos não diz, mas há quem diga, lá está, dizem, se é o que eu vejo não é nada se é o que dizem é tudo, que tudo vale, menos tirar olhos;  são grandes orgias, bebida, música, liamba e sexo. Por falar em sexo, o Mário meu vizinho andava com uma revista pornográfica e eu apanhei-a e folheei, curiosa. Pela primeira vez com esta idade vi pornografia ali ao vivo ( salvo seja ) e a cores. Nunca mais gostei de porcos brancos, que aprendi depois, que existem no puto, pois aqui só vejo porcos pretos. Por falar em sexo…
Nas festas o que eu gosto é de conversar, comer croquetes e empadinhas, tartes d’ amêndoa e jinguba, fumar Baía e dançar. No limite, dançar agarradinho o je t’ aime moi non plus mas se se põem a arfar, faço força com os cotovelos no peito dos rapazes e piso-lhes os pés. Quê que é isso? Sou alguma miungueira ou quê? Estás-me a estranhar? Ou não me convidam mais, ou aceitam as regras, porque vale mais um pássaro na mão que dois a voar. Ouvi dizer isto muitas vezes. Nunca dancei com namorado nas festas, por isso não sei se espetava os cotovelos no peito dele.
O domingo passa rápido. Sente-se no fim da tarde que se anuncia nas traineiras saindo do porto para a pesca, seguidas pelas gaivotas. Na contra-costa , lá para as bandas do Mussulo, o sol avermelha-se, numa bola de fogo sobre as palmeiras, esgueirando-se para o mar mais por detrás, quem sabe aonde; se o avô Carvalho vivesse em Luanda em vez do Namibe, sabia a resposta. Sente-se nessa hora do sol a se despedir da tarde que causa uma nostalgia qualquer até a mim que tenho um passado tão curto e uma infância tão feliz, acho que saudade existe do não sei quê que ainda vamos viver e não sabemos o que é mas vai ser bom com certeza, só pode ser bom. Temos tudo para ser. Tenho tudo para ser. Idade. Família. Sonhos. Terra…
Aprendi depois que a saudade mais do que no futuro, mora no passado. A idade não pára de correr como o sol p’ra poente, a família vai ficando pequena e a terra, a gente não perde, mas não é dada como certa, apesar da vida me ensinar que a gente se quer,  conquista.  Deve haver mudança, é imperioso que haja mudança e  a minha terra, essa, continua linda e eu lhe toco e toco o céu cheio de estrelas, o céu mais estrelado do meu horizonte,  com a palma das minhas mãos quando estou em casa, como nos domingos d’ antigamente.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

da minha, das infâncias de todos nós


Que linda falua
Que lá vem lá vem
É uma falua
Que vem de Belém
Eu peço ao senhor barqueiro
Que me deixe passar
Tenho filhos pequeninos
Não os posso sustentar
Passará, não passará
Algum deles ficará
Senão for a mãe à frente
É o filho lá de trás

domingo, 8 de julho de 2012

encontro de afectos


Os quatro móços da esquerda fazem parte do meu passado mais longínquo.
Os três da esquerda adoram dizer que andaram comigo ao colo. Não sei se é verdade.
Sei sim que quando estou com eles, ( hoje foi dia ), mesmo se falo ao telefone apenas me pegam ao colo, me mimam, me cuidam. 
O 4º elemento de camisa branca, esse brinquei com ele bem candengue. Não nos víamos há para aí...muitas décadas. Desde o século passado. 
Os pais de todos eles eram amigos do peito dos meus kotas. 
Amigos de infância são família. Que a gente não escolhe também. Mas ainda bem que permanecem nas nossas vidas. 
Sinto-me uma privilegiada por poder dizer que nasci com eles, brinquei com eles, cresci com eles. Fazem parte da minha vida, da minha terra, do meu bairro, Vila Alice. Do largo Camilo Pessanha.
Obrigada, Luis da Silva, Américo Silva, Armindo SantosNene Poças Silva
Obrigada Maria João, Sr. Belmiro e D. Arrelésia.
Hoje sinto-me mais feliz e na paz dos anjos porque o nosso encontro foi um verdadeiro encontro de afectos que alimentam a alma e tornam-me melhor pessoa.
O tema foi o passado, com os ausentes e os presentes. A terra, o bairro, a nossa sanzala...
E não há nada mais lindo e prazeroso que angolanos que se gostam juntos numa viagem ao passado.
Kandandus a todos. Adoro-vos.♥♥♥♥♥♥♥

sábado, 10 de março de 2012

eu não acredito em coincidências


Carven ma griffe é um perfume. Caríssimo. Que eu usei. Apenas um frasquinho pequenino, oferecido pela minha amiga Manuela Barbosa, posteriormente, minha madrinha de casamento.
Decorria o ano de 1974. Estávamos no mês de Dezembro.
Apesar de ser um aroma perfeito, casando com a minha pele, com o meu jeito, com as cores que usava, não voltei a usá-lo. A memória de um perfume de sonho, usado em dias de pesadelo afastou-me da ideia de passar a ser o " meu " perfume. Hoje, recordei-o.
Estava no facebook. Quando vi alguém online que pertencia ao meu passado. Uma mulher que conheci pequenina. E a quem pedi amizade há uns tempos na presunção de que pudesse ser a M.T. Na sua fotografia descobri traços forte da minha professora da 4ª classe de quem fui vizinha desde pequena. Fiquei contente quando aceitou mas não falei com ela. Foi num dia complicado e precisava de uma certa paz para me dar a conhecer. Hoje acabei com essa coisa do chove e não molha porque não sou nada assim e decidi finalmente falar-lhe no chat.
A sua família foi importante no meu crescimento. As suas tias, uma referência de peso que me marcou a existência favoravelmente. Eram três irmãs. Maravilhosas. A mais nova, menos formal, mais moderna, elegante, bonita. Giríssima na forma de vestir, estar e falar. De uma educação exemplar. As três. E as pessoas que gravitavam à sua volta, como maridos, filhos e outros. Quando as conheci tinha cinco anos. Mudara-me para junto do colégio e nesse ano fui fazer a primeira cabunga como se chamava à pré-primária.  Mudara-me no dia dos meus anos. 12 de Julho. E iniciara o ano escolar a 10 de Setembro, chorando que nem uma condenada, pela mão da Fatinha Rocha, minha vizinha, que já frequentava a primeira classe à séria. Pouca idade, muito mimo e medo da professora, menina Piedade, uma mulata magra e alta, sisuda e com pêlo na venta, que mais tarde se revelou uma mulher extraordinária, também ela um exemplo a seguir.
 A mãe dessas 3 mulheres, irmãs,  que me influenciaram comportamentos, era uma velha senhora com uma classe que nunca mais encontrei em ninguém. Fumava loucamente e bebia ao lanche uma chávena de café de cafeteira a que acrescentava leite moça ( condensado ) em bruto. Chamava-me à sala onde eu estava a dar aulas para lhe fazer companhia.
- Clarinha! Clarinha! - Na sua voz grossa e segura - Vamos beber o nosso café? 
E eu ia num ritual gostoso. E apesar da minha pouca idade, 19 anos, ouvia-a com muita atenção,  devoção mesmo, contar estórias do mato, de um interior de uma Angola desconhecida para mim, mas tão sedutora e misteriosa quanto fascinante e bela,  do início do século 20. Batalhas. Êxodos. Provações. Poderes e conquistas. A história de Angola do século XIX e início do século XX contada por quem vivera parte da história e ouvira contar aos seus pais o que não vivera. Por quem andara no interior do país com o seu marido, um transmontano bom e íntegro que era o exemplo das suas filhas e dela, D. Laura e que morrera por causa de uma injecção, precocemente, quando eu tinha 8 anos e andava na terceira classe. Ela, a viúva, sofria de hipertensão e fora a primeira pessoa que conheci e com quem convivi que passava mal por via disso, mas sempre rija que nem um pêro. De vez em quando almoçava com ela. Quando o cheiro a feijão de óleo de palma invadia a sala de aula do primeiro andar onde eu ensinava os meus alunos, era certo que nesse dia eu não ia para o 126 da avenida do brasil e ficava ali mesmo fazendo-lhe companhia à mesa.  Mas em dia de caldo de peixe também. E de funge de peixe ou moamba, idem. Ouvia-a  - Clarinha! Clarinha... 
Cliquei no nome da filha da Vera. A caçula da D. Laura. A mulher que me fazia querer crescer e imitiar. Tal e qual. A mulher elegante, finíssima, bonita, educada e feliz que se mostrava ao mundo. A mulher que vi finar-se muito mais precocemente que o pai, o transmontano íntegro de quem sempre ouvi falar com orgulho e amor. A mulher que eu admirava e a quem tinha um profundo respeito. Aquela a quem eu velei na noite de 19 de Dezembro do ano de 74, vestida de azul escuro, na única lacoste que tive na minha vida, calças azuis escuras e cheirando a Carven ma griffe. Hoje, recordei o aroma forte daquela noite, na mortuária da igreja do Carmo.
Saudei  a Mité. E perguntei-lhe se sabia quem eu era.
- Clarinha! Chamando-me assim só podes ser tu...
Clarinha...tal como a avó Laura, a tia Zita, a tia Dina, a mãe Vera, me chamavam.
Hoje toquei de leve num passado longínquo e mergulhei de cabeça nos sentimentos que me fazem ser quem sou e reconhecer-me num nome chamado com carinho e apreço ao fim de três décadas. 
Hoje dei a mão ao passado do meu crescimento junto de gente muito próxima, que me educou e ensinou a tabuada, a leitura, os problemas e as canções, num lazer gostoso de côro escolar. Num, " caranguejo não é peixe, caranguejo peixié, caranguejo só é peixe quando entra na maré "! 
Num passado de família, apadrinhando a minha caçula na igreja de S. Paulo. Num passado de amizade e constante convívio com os filhos destas mulheres, com estas mulheres e com as suas famílias. Num tempo bom que ficou impregnado na minha pele, nas minhas vísceras como  Carven ma griffe e aquela noite triste do velório da Vera, mãe da Mité que hoje ao fim de 37 anos tocou a minha alma quando me chamou - Clarinha...
A vida tem encontros e desencontros. No que depende de mim, tento sempre que os desencontros se possam transformar em reencontros felizes. Entre viagens e constantes partidas e chegadas, há dias em que retornarem a nós pode ser mão do destino, do universo ou apenas uma coincidência.
Será? Eu não acredito em coincidências.
Um dia destes, vou à procura do Carven ma griffe numa qualquer prateleira duma qualquer perfumaria. Juro que vou.
..

segunda-feira, 5 de março de 2012

pela manhã, segunda-feira



Desço a rua do antigo centro de saúde que foi  isla e a seguir salas da secundária maria lamas e hoje é atl. Como sempre, andando rápido. Nas minhas sabrinas mais novas que parece que são como redbull dando-me asas para voar mais rápido até ao viaduto. 
Uma mulher com a minha idade tem de se calçar confortavelmente. Já não deve embarcar em saltos, modas, montras apelativas e amigas que se exibem no alto das suas andas como se deslizassem de patins porque não palmilham ruas, becos e esquinas como eu, nem devem ter uma coluna como a minha, que ainda hoje achei que em vez de 56 anos tenho para aí oitenta  e ia a descer a rua do atl e a pensar para com os meus botões - maria clara isto não se põe melhor, e se um dia queres andar e não consegues? E quem te mandou quereres viver no topo dos prédios, sem vizinhos por cima? E quem é que te vai valer? E...
Avistei o João S. ao fundo da rua. Mudou o sobretudo escuro para uma gabardine beje. Quem lhe disse que ia chover? E calças bejes também. Como se o João precisasse de chuva para se exibir.   ou de verão para calças brancas. Com a sua velha pasta na mão como se de um executivo se tratasse, sempre gostou de parecer mais do que é, o seu andar de passos curtos e um sorriso sempre igual, aproxima-se de mim. Hoje páro. Assim como assim nem vou atrasada. E é segunda-feira. Já basta o que basta e o João tem sempre uma qualquer saída que me faz sorrir. Previsível e bem disposto ainda que o mundo esteja para acabar mais logo. 
- Sempre que te vejo lembro-me de há 30 anos atrás. Ou mais...
- Ai é? - Curiosamente eu também me lembro dos tempos passados. Desse tempo divertido e inconsequente, na década de 70. Éramos, a bem dizer, uns miúdos. Ele acabado de chegar de Nambuangongo, assustado e cacimbado de todo, e eu, triste, terrivelmente triste,  de Luanda. E nos juntávamos na Império, da Bia, a dona da pastelaria, do sr. Alves, empregado com quem os rapazes gozavam pelo seu jeito feminino, que exagerava para os ouvir, no Viela, do Sr. Mário, na Abidis do  Manel, homem ressabiado, racista e politicamente infeliz, que acabou por acabar com a vida deixando filhas bebés ao deus dará que tiveram que crescer sem pai. E nos juntávamos na praça 5 de Outubro e tirávamos fotografias no castelo e passávamos horas na esplanada da avenida que na época era dos pais do João jogador de hoquei, briguento e...comunista, o que não abonava nada, mesmo nada a seu favor, hoje convertido num respeitável solicitador, professor, pai de família. Um senhor.
- Ai é? Ecoou na minha cabeça. 
- A sério. Lembro-me daqueles tempos. Era porreiro não era? Não era como hoje. Quais computadores qual carapuça. A gente vinha para a rua curtir. Com pouco dinheiro. Nenhum. Tesos, ó Clara, tesos mas novos e felizes. Os cachopos d'agora não sabem viver - E riu-se.
- Pois. Tens razão. Nesse tempo fumavas à borliu um maço por dia, chulando uns e outros. Ainda fumas?
- E ainda cravo. Voltou a dar uma gargalhada. Bons tempos Clara, bons tempos. Olha, vou-me embora até ao estádio. Às nove e meia  tenho uma reunião com o presidente da câmara. O espeta-figos. E riu-se de novo. 
O alcaide, como diz uma amiga. O alcaide e o João S. reunidos por causa do desporto da cidade. Do  concelho. Olha que dois! A alcunha de espeta-figos diz quem estudou com o alcaide que lhe vem dos bancos da escola. Por ser alto. E magro, à época.Dissemos adeus como sempre, num chau e até outro dia. Ele seguiu para o estádio e eu em sentido contrário, para o viaduto. Mais uma vez sorrindo do João e para o passado comum. 
Desse tempo ficaram algumas pessoas que raramente encontro. O Tó e a Luísa são os que vou vendo por aí. Nas ruas da cidade, esta última. O outro, nas festas da cidade ou na feira medieval, e pouco mais. O Bispo, partiu para sempre, numa viagem de comboio que acabou tragicamente, em Santarém. Foi há tantos anos quantos a minha cria mais velha tem de vida. Foi no ano em que nevou em Torres Novas. Como o tempo passa, Jesus Maria! Como o tempo passa... Subo o viaduto com o sabor doce da nostalgia. Do tempo em que a feira de março se fazia no Rossio, ao cimo do viaduto. E eu, o Tó, o João, o Bispo, a Luísa, e outros, em procissão, subíamos a ladeira de Santiago a caminho da feira, das farturas da Pina, dos tirinhos, dos jogos de matraquilhos, dos carrinhos de choque e do algodão doce. Da diversão barata e possível.
Quantos anos tinha, mesmo? Poucos. Muito poucos. Vinte. Pouco mais. 
Hoje, segunda-feira, o João foi assim como uma fada, que com a sua varinha mágica tocou nos dias vividos em que eu era feliz, livre, jovem, e não desconfiava o que era ser feliz,  só porque sim. Tocou e fez-me recordar com saudade esse tempo. 
Hoje, o viaduto não me pareceu nem tão longo nem tão íngreme, nem tão cansativo.  

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

em memória do rui

Na minha terra há mulheres que são santas. E há algumas que têm esse nome posto na hora da água benta na cabeça, do sinal da cruz na testa e do choro do candengue assustado com desnecessária violência .
Eu conheci mais do que uma Santa de nome. Na Vila Alice. Não sei porquê que é nome de africana. Será que é mesmo por isso? A religiosidade sempre na vida dos angolanos.
Era menina quando dos fundos da casa das mulembeiras, fugia para o largo. O famoso largo da vila alice das minhas memórias.  Passava a fronteira e ficava ali aonde eu era mais eu. Conhecia todos. Como numa pequena sanzala. A Susete, a Lili, o Armindo, o Américo, o Luís, a Maria João, o Kaquito, a Laura, a Lisete...ai a Lisete, irmã do Kaquito e da Laura, filha da Dona Rosa e do sr. Eurico e  minha amiga mais antiga, desde que nasci, que vive agora no Barreiro, os filhos do sr. Ulisses, a Ana Maria, o Quinito, a Fernanda, a Nela, a Lena, a Fátima, a Céu, a Ana, Aurora, Delfina, os Cunhas...
Os Cunhas eram filhos da Dona Santa, uma mulata cambuta e roliça que andava sempre com a empregada e afilhada atrás e  me disse um dia que eu estava verde e me deixou tão assustada que fui no consultório daquele médico mestiço que ficava na avenida brasil e me dei de caras com uma patologia grave porque me convenci que era hipocondríaca desde aí. Se eu não era lagarto, nem rã, nem louva-deus, nem  nada, como é que estava verde? Era doença, só podia e muito má.
Dona Santa, andava sempre na banga. Era do tempo do lenço na cabeça, a apertar no queixo, das unhas grandes e vermelhas e do gingar da anca a andar...
Os Cunhas eram um conjunto, como se dizia naquele tempo. Um conjunto musical. Todos irmãos. Uma vontade enorme de serem diferentes. De sucesso. Tocavam nas farras. Nos casamentos e outros eventos.
Ensaiavam no cair do sol e todo o largo os ouvia. Quase indiferente.  Eram da nossa rua. Do nosso largo. Do nosso bairro. Nossos. Um orgulho para todos encarado como dado adquirido. Estavam lá e faziam parte da nossa vida, dia após dia.
Recebi a notícia. O Rui partiu. Uma amiga desse tempo é que me deu. No facebook. Este facebook que nos dá alegrias e tristezas. Surpresas e contrariedades. Indiferenças e novidades. Notícias...
Fiquei a olhar no canto da minha memória fotográfica, a casa de rés de chão e primeiro andar mesmo por trás da minha casa da avenida brasil. Fiquei a olhar a alegria daqueles rostos todos parecidos, filhos da dona Santa.
Fiquei a ouvir os acordes das guitarras e as vozes repetindo letras de músicas ensaiadas noite após noite.
Fiquei a olhar o passado da minha lembrança de nascida e crescida na vila Alice entre a avenida e o Largo Camilo Pessanha. Fiquei a ver o tempo a passar. E me faltou a esperança. Tudo o que tive já não existe, mesmo que ainda não tenha terminado no tempo.
Era preciso repovoar o largo, a minha rua, a Vila Alice, Luanda, com as minhas memórias e a de todas as pessoas desse tempo e dessas vivências, como num filme, para acreditar que o passado não fica lá atrás nas pautas, claves de sol e dós arrancados a uma vocação qualquer, a uma alma qualquer, a uma terra qualquer...
Nesse tempo lá para trás, numa noite de sábado, chovendo tropicalmente, num palco dum cinema ao ar livre ouvi-os a tocar o " Silêncio " e retive esse momento para sempre na minha memória afectiva. Eram os Cunhas. Os filhos da dona Santa. Meus vizinhos.

Hoje, respeitosamente, faço um momento de silêncio em memória do Rui. Dos Cunhas...