sábado, 17 de julho de 2010

Os Pinto Ferreira - Teledisco para o 1º Single - Violinos no Telhado

descoberta feliz

Não sabia que o Bruno era Pinto de apelido. Conheço-lhe o primeiro e último nome.
Conheço-o há alguns, muitos anos. Entrou na minha vida e da da minha família e ficou no meu coração para sempre.
Fizemos até uma canção, juntos. Eu com a letra e ele com a música. Para um festival. Cantada por uma criança.
Foram bons tempos.
Há tempos viu-o no Átrio Saldanha. Ficámos ambos felizes de nos vermos.
Depois foi a apresentação do CD na banda que formara, apesar do curso de sociologia. A paixão pela música é como a minha paixão por Luanda. Formou os Guys of the Caravan. Comprei o CD. Fez-me uma dedicatória que me comoveu muito. Que tinha saudades minhas...
De vez em quando pergunto por ele. Se sabem dizem e quando não sabem, ficam à espera que dê notícias, ou tentam saber o que anda a fazer e como está.
Há pouco tempo, a ouvir a Antena 3, ouvi uma música em português, que me soou bem ao ouvido. A voz, igual à do Bruno. As características da música fizeram-me pensar que podia ser ele. Disse até à minha colega Mena que parecia muito, muito o Bruno a cantar.
Cá para mim, ele ainda estava na dita banda que formara, em Lisboa. Esqueci.
Ouvi mais algumas vezes a música, sempre na Antena 3 e cada vez que ouvi me lembrei do Bruno.
Hoje disseram-me que o Bruno aparecera na televisão, dando uma entrevista. A propósito de um novo projecto. Lembrei-me e contei das minhas suspeitas. Fazia sentido. Depois lembrei-me da música como por arte de magia e comecei a cantar o refrão.
Consultado o youtube, surpresa das surpresas, sem ser surpresa. Era mesmo o Bruno. É mesmo o Bruno. Que é Pinto.
O grupo chama-se, Os Pinto Ferreira.
Fiquei tão feliz!
Vou gostar do Bruno para sempre. E gosto muito que esteja no caminho que há muito tempo acalentou percorrer. E que tenha sucesso e que se sinta feliz.

Maria Clementina - Vou ser alguém

fragmento

" Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento.
Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (...)
Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida ".

fragmento do Livro do desassossego,
de Fernando Pessoa

alegria versus inquietação

Boa Viagem, meus filhos.
Um que vem, outro que vai.
A vida em constante movimento.
Eu no meio, ficando, sentindo...
Lágrimas de ansiedade.
Lágrimas de alegria.
Lágrimas de saudade antecipada.
Inquietação...
Ser mãe é isto e eu não sabia até que chegaram e se instalaram na minha vida num sempre de, e para todo o sempre.
Ando sempre com o Credo na boca.
Deus vos proteja.

cuidado

Recomendação de cria mais velha, prestes a sair de férias:
" Vê lá se não vais para o Tamariz. Andam lá aos tiros e a assaltar. Vai para S. Pedro ou S. Julião. "
Recomendação de mãe galinha:
" Tenham cuidado. Vão devagar. Se der o sono, parem. Levas o casaco de algodão cinzento? E as águas? O que é que precisas da loja? Por amor de Deus telefona, para eu ficar descansada. "

E muito, muito mais...

a nossa gente

Saí a correr da casa grande. Parei junto ao tanque. Da roupa. Que a Lucrécia estreou. Brinquedo novo, dela. Embora não abandonasse as celhas. Para sabonária, de lençóis e toalhas.
Perto do alpendre do carvão, onde as galinhas soltas iam pôr ovos e cacarejarem histericamente, a esteira. Ao lado, brasas. Fogo a cheirar a lenha e carvão. A lata dos chouriços idos de Palmela, transformada em tacho. Cozia o feijão de óleo de palma.
Era a hora que eu gostava. A hora da esteira e do feijão.
A Lucrécia estendia roupa branca, na corda. No canto da boca um cigarro fumado às avessas. De vez em quando cuspia. Por entre os dentes num som de muitos xês. Fazendo mira nas cristas de galo viçosas do canteiro das flores da mãe.
Muito de vez em quando reparava em mim e dizia:
-Sai daqui menina Clarita. Vais-te molhar toda.
Eu continuava impávida, brincando de jogar à semalha, no pé cochinho. Enquanto esperava a Sebastiana que fora na loja do S. Miguel, ao pé da padaria, comprar sabão macaco, para a tia Lucrécia. Se lá não tivessem, ia demorar muito. Tinha de ir na loja encarnada, lá para as bandas da Senado da Câmara, em frente ao bairro indígena. A loja que vendia baleizões de gelo, com palito, com sabor a groselha. Tirado directamente das cuvetes e custava mil e quinhentos.
A Sebastiana andava devagar. Perdia-se em cada esquina para dobrar. Distraia-se com a brincadeira dos outros e nunca mais chegava.
Estava enganada. Ela às vezes surpreende-me. Ei-la. Chegando. Saltitona. Barulhenta. De carrapitos na cabeça, entrelaçados com linha de côr, descalça.
- Clarita vamos jogar à semalha.
De pé cochinho preparo-me para ganhar. Mas ela era barra. Tinha balanço para pular as casas que a macaca tinha.
O feijão continuava fumegante e cheiroso. Cozinhando lentamente como o tempo daquele tempo.
Até pegar, na velha lata feita tacho.
O mundo ali no fundo do quintal era mágico e sabia a proibido. Era um mundo onde eu estava sempre, com licença da Lucrécia, que corria atrás de mim, zangada com as minhas traquinices, praguejando, mas se me apanhava, os olhos lhe sorriam e gargalhava com as coisas que lhe dizia.
-Pxxxxxt, essa menina Clarita!...
O mundo ali da esteira, das celhas e do tanque, roupa branca na corda, secando, e feijão de óleo de palma rapado do tacho, eram uns olhos sorrindo sempre para mim. Como poucos sorriram assim, tão inocentes, depois.
Não sei porque me lembrei da Lucrécia, lavadeira da casa, antes de eu nascer e que ficou. Da casa e da Sebastiana...Talvez porque oiço Paulo Flores cantar que ...são coisas da terra, terra da gente... talvez...
São gente da terra, terra da gente, a nossa gente...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Quedas de Kalandula




Como já perceberam, são as Quedas de Duque de Bragança, ou melhor Quedas de Kalandula.
Em Malange.
Estas fotos foram tiradas cerca de uma semana atrás.
O meu amigo Edgar foi quem as tirou. Perspectivando um passeio até lá, em Dezembro.
Já estou a sorrir de alegria.
Bora lá kambas!

wagen alt

Não sou assim muito letrada. Nada de cursos superiores. Mas tive pena. Queria ter tido uma profissão que embora receba contestações constantes por parte de algumas pessoas a quem afirmo isto, para mim é a mais nobre que existe. E não há quem me convença que há outras mais nobres. Não há. Mesmo. Ainda fiz o liceu, depois do 5º ano na área de ciências, com aquelas disciplinas horrorosas como química e matemática, tendo em vista o meu sonho, mas um simples e louco amor me distraíu e acorrentou ( que desperdício ) e me virou do avesso e já não estudei nem pensei em cursos nobres. Acabei a dar aulas no Colégio Nossa Senhora de Fátima e depois, ainda achava que ia estudar à noite e dar aulas de dia, mas...não. Depois de começar a ganhar o belo e o bom, e a guerra se instalar já não pensei mais em cursos.
Podia ter feito outros. A minha amiga Manuela que para o ano se vai apanhar com o de sociologia nas mãos, insiste comigo. Já não tenho vida para aturar professores e putos espertalhucos e comprar uma briga com os meus superiores. E depois não tiraria o tal curso, por isso deixo-me ficar deste tamanho que já cresci que chegasse. Mas podia ter feito um daqueles cursos intensivos. De inglês, espanhol ( tão na moda ), ou alemão.
Ora, é aqui que eu quero chegar. Ao alemão.
Viajo num autocarro que parece ter andado na segunda guerra mundial. Raro é o dia que não chego a gritar pelo gregório, ao meu emprego. A sério. Ultimamente então, se não vou quieta e muda, a olhar em frente, é certo e sabido que chego mais para lá do que para cá. E eu não gosto disso. Obrigada a fingir-me de morta para não enjoar...onde já se viu?!
O curioso disto tudo é que o meu autocarro fala alemão, presumi eu quando li, porque não sou burra de todo e tirando uma pelas outras até que cheguei lá. Tocaram para a paragem onde eu saio. Calhou olhar para o retângulo que acende e que devia dizer SAÍDA. E o que é que dizia?
WAGEN ALT.
Sorri muito para mim. Boa! Os alemães a exportarem autocarros a cair de podres, da última guerra e nós conformados. Já não nos basta falar inglês com todos os estrangeiros que nos abordam, ao invés de esperar que eles soletrem um português mal amanhado, e também temos de levar com indicação de paragem numa língua que parece estar sempre de boca cheia de feijões, ou favas...
Assim que pude fui ver o que queria dizer WAGEN ALT. Não era saída de carro, fora do carro, mas, carro usado.
Fiquei intrigada. Nós tocamos para sair e ele diz-nos que é carro usado? Ou para usar? Ou já o usamos? Ou é mesmo - Ponham-se a mexer daqui para fora, ou tunda, yá ?!...

pitanga nos carris

Pssssssssst! Vou falar baixinho para ela não ouvir.
Ela nem sonha, mas eu não resisto e vou contar um segredo.
Ela vai viajar de novo. Comigo. No condomínio fechado. Nos carris durante hora e meia, mais coisa menos coisa.
Para aprender que para a frente é que é Lisboa.
E não sei, não, mas pode ser que fique por lá até meados de Agosto. Belas férias, que a minha Pitanga vai ter se assim fôr. E de mim também que infelismente ainda não tenho férias, mas tive uma benesse da chefe maior e deu-me dada, a segunda-feira, assim numa inexplicação que estou a perceber aos poucos. Acho que por causa do abraço e do beijo e da gargalhada e da conversa que sabe ia saber a pouco tempo se fosse só sábado e domingo.
Vai fazer bem à minha Pitanga esta mudança, outras pessoas, como o ar da praia faz aos putos.
Ela gosta daquela janela virada para o monte e para a rua, e para o rinque onde miúdos e graúdos, jogam todos os dias.
E as crias vão adorar. Já eu...bem, é para o bem dela, por isso, como é com as crias, que seja, em nome de seres felizes.

ordenha

A cabra que vai morrer de velha...
Ordenhando-a, a filha da dona, que está ausente, num sempre de eternidades.
Este leite é para fazer queijo fresco.
Comi-o feito pela mãe. Como-o feito pela filha que por acaso, numa coincidência que não existe nem acredito, é minha amiga.
Não sou chegada ao campo, mas gosto deste campo, desta gente. Desta família que cultiva os laços e o conceito de família que eu tenho e que me faz falta. Que encontro aqui.
Eu que sou bem esquisitinha, ai, que horror, brrrrrrrrr, que nojo, que até se me embrulha o estômago e já tenho o fígado aos saltos, um dia destes vejo-me a apertar a teta da cabra para esguichar leite como este. Já vi campónios começarem por menos...

nascimento

Nasceu há dois dias. No " quintal " da D. Laurinda.

amanhã...

A minha vida tem gente de vário tipo. De várias estações. De sentimentos vários.
De várias distâncias.
Tem gente que deixei de ver para sempre. Outras que passaram 30, 20 anos que não vejo.
Outras ainda, que não vejo há 3 anos. 2 anos, 1 ano de 365 dias.Às vezes menos, às vezes mais...
Também aquelas que vi há 1 mês, duas semanas, 1 dia. Há horas.
Tem gente que nunca mais vou ver. Tem gente que nunca vi. Tem gente que espero ver um dia.
Tem gente de todos os dias...
Tem gente que não vejo há meses.
Mas estou por pouco, para ver. Abraçar. Beijar. Falar.
Ah conversar! Foi do que tive mais saudade. E da gargalhada.
Há dias que têm mais de 24 horas. Há ansiedade que quase estoira no nosso peito e há amores para sempre, que na ausência, são sempre presentes. E crescem na estima, na admiração e no respeito.
Há amores que quem não tem não lhes sente a falta. Mas quem tem não pode passar sem eles, como pulmão para respirar.
Amanhã vou respirar tudo...

Maria Rita - Cria

faz de conta

Faz de conta que sentaste. Ao meu lado.
Agora é sonhar os meus sonhos. Se não quiseres, sonha então os teus. Basta sentir na sombra que fazes, a luz, que permite me sentir menos só sonhando mulembas com baloiços. E homens do saco e sereias do bairro índigena.
Hoje te sinto perto, mais perto que alguma vez estiveste. E gosto.

parabéns atrasados

Toca o meu telefone. Estava a chegar a T. Novas. De boleia com a Cila.
Era de Luanda. O indicativo denuncia o destino. Fico sempre alvoraçada.
O Mário. Meu amigo de há 40 anos. Sabia que não falhava. Só que pode não ser no próprio dia de aniversário que dá sinal de amizade.
- Clara, filha ( é assim que me trata, é mais novo que eu aí uns 3 anos ) queria ter-te dado parabéns antes, no dia 12 mas tive um problema. Mas não me esqueci. Tudo de bom, minha amiga.
Depois disse: Vou passar à mãe.
A minha querida Minda. Que me ensinou a fazer rissóis, pastéis de massa tenra, cachupa, bolo de aniversário. Que me fez aprender crioulo e gostar de mornas a coladeiras. Do Bana e Luís de Morais. Que me aturava as paranóias das doenças, que até um dia sismei que estava com o tétano porque me piquei num pico de rosa, das roseiras do meu avô, lá do quintal e a minha amiga Julieta que tinha uma tia enfermeira como ela hoje é, me disse, a caminho do liceu, que era tão perigoso que a tia dela enfermeira morrera de tétano com uma picada de roseira. Vejam só o que me aturava esta querida amiga, D. Arminda, eu que abria e fechava a boca para ver se os maxilares prendiam, que acho que era sintoma do tétano e ela que me dizia: Não faça isso Clara, vai ficar mesmo com a boca presa de tanto a abrir e fechar. A Julieta é maluca ou quê? Não sabe como a Clara é medrosa com as doenças? Como é que lhe vai dizer uma coisa dessas?
Como é que se esquece uma amiga assim? Que nos rodeia de carinho e nos atura as loucuras?
-Alô querida. como é que está? disse eu.
-Clara, é para lhe dar os parabéns atrasados. Mas eu não me esqueci no dia 12. Tudo, mas tudo de bom. Tenho aqui uma pessoa que lhe quer falar. Veja lá se reconhece a voz. Não se falam desde o tempo colonial.
Isso é que eu acho piada. Quando se referem ao tempo antes da Independência como o tempo colonial. Sinto-me parte da História e isso é bom.
Soube mesmo antes de lhe ouvir a voz. As duas vezes que fui a Luanda quis vê-la. Não consegui. A primeira vez o Mário estava de férias em Lisboa e não pude ir a casa dela. Em Dezembro não deu para ir à sua procura. Eu precisava de estar em Luanda muito mais do que 2 semanas para poder estar com todas as pessoas que queria estar.
Falei. Ela falou. Disse que era a Rosa. D. Rosa, minha vizinha. Que tinha mais 5 anos que eu, mas já era casada, mãe de filhos. Que tratava a minha mãe por tu, e a sogra dela, D. Júlia, por Júlia.
Achava o máximo. Uma nora tratar a sogra, não por mãe, ( jamais trataria a minha sogra por mãe, Deus que me livre ), mas pelo seu nome, sem o dona atrás. Por tu. Quanto mais não fosse, por isto, jamais a poderia esquecer. Era uma mulher bonita e sofrida. Muito sofrida. Eu e a minha mãe, ali ao muro que dividia a sua casa da minha, ficávamos ouvindo os lamentos de um casamento mal casado ( dura até hoje ).
Desde que vim para Portugal que me lembro ano após ano do dia de aniversário dela, 26 de Dezembro.
Fiquei contente. Muito contente de a ouvir, ao fim de 35 anos. Ela também.
Disse que em Dezembro, quando voltasse a Luanda, queria vê-la. Disse que sim, que iamos estar juntas.
Depois de desligar, rebobinei. Passaram à minha frente anos de vizinhança diária. Feliz. Quando, aos sábados, o marido, Henrique, e o irmão, Necas e mais uns quantos, partiam nos jipes para irem para a caça. Da pacaça, do veado. Lá para os lados do Ambriz. Ao domingo ao fim da tarde regressavam carregadíssimos. Estes dois irmãos conheciam a mata como ninguém.
Soube que actualmente têm um barco e sobem e descem o rio Kuanza em viagens de recreio. Estive perto do barco em 2008, na Barra do Kuanza, sem saber que os donos eram estes meus vizinhos de antigamente.
Desta vez, quando voltar, vou fazer de tudo para os procurar e revê-los. São pessoas que estão no meu coração desde o tempo colonial...
Hoje com este telefonema, ganhei o dia.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

rafeiro

Não tenho medo de cães. Mesmo quando me ladram.
A D. Branca é minha vizinha. Do prédio ao lado. Conheço-a há mais de 20 anos atrás de cães e gatos, com latas de comida. Dá-lhes nomes. Trata deles. Leva-os ao veterinário. Protege-os.
Diariamente a encontro sentada no pseudo-jardim em frente aos prédios do pseudo bairro. Na " calhandrice " com outra vizinha. Olhando o Vale de Alvorão, a Serra de Aire e a vida dos outros.
De junto dela, partiu que nem um tiro, direito a mim, um rafeiro seu protegido. Castanho, arruivado. E imaginem, com barbas. Feio que nem trovões. De dente afiado. Parou nas minhas calças de ganga, sorte a minha que as tinha. Ladrando que nem um condenado, a fera não se fez rogada e deitou-me o dente ao gémeo. Senti-lhe os dentes caninos. Sacudi-o, dando-lhe com a carteira. A D. Branca correndo de pau na mão, praguejava com o rafeiro, ameaçando-o com o pau.
- D. Clara ele não faz mal. Só quer brincar.
- Olhe que a brincadeira dele ia-me arrancando um naco.
- Que disparate D. Clara. Ele é tão meiguinho.
Apeteceu-me mordê-la rafeiramente e rosnar-lhe aos ouvidos. Em vez disso:
- Pronto, está bem. Mas meiguices destas dispenso bem.
Segui o meu caminho. Estava quase à porta do prédio.
Não me deu uma veneta, como algumas que já tive. Nem sequer fiquei a pensar no rafeiro e na d. branca, até hoje de manhã.
Saí depois das 8 horas. Má volta, tendo em conta que não há aulas e os autocarros andam certinhos. Desci as escadas apressadamente e ia tropeçando à saída, numa coisa castanha, enrolada, em cima do tapete da entrada.
Advinhem quem esperava por mim ( ? ) à minha porta? Quem?
O rafeiro. Pensei de mim para mim: Olá, estou mesmo feita ao bife com este rafeirão canino.
Mas não. Nem ladrou nem afiou os dentes.
E continuei dizendo para mim: Como é, companheiro? O que é que tu queres?
Como se me entendesse, seguiu-me.
Não o achei tão horroroso. De barbas, pronto, um cão de barbas é um cão desleixado, velho, maltrapilha, mas com uma cor de pêlo que tomara muitos.
Não podia estar com salamaleques porque precisava quase correr, mas ele acompanhou a passada.
Percebi. Percebi que voltara a mim para fazermos as pazes.
Deixei escapar um, vá lá lindo, deixa-me em paz que tenho de ir trabalhar. Abanou o rabo de contente.
Parei. Assim também já era demais. Pazes sim, amigos nem tanto.
-Vá lá amiguito, volta para trás. Vai...fiz sinal com a mão.
O rafeiro, parou, bocejou e deixou-se ficar sentado à beira da estrada.
Eu segui o meu caminho, apressada e intrigada.
Os animais surpreendem-nos, sempre. Ou não...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

esperando

Cheguei de mansinho. Quis sentar. Traçar a perna. E colocar o meu queixo entre as mãos.
Olhei à volta. Verde, muito verde. Cheirando a terra molhada e a musgo.
Olhei uma vez ainda. Para todo o lado. Deserto na hora e no lugar. Inspirei o ar da manhã. E depois sentei.
Segurei o olhar em frente. Me pareceu que vinhas lá. Perto. Tão perto que ouvi os passos pesando nas folhas secas dos caminhos. O teu rosto é que não consegui ver. Pode ser que a maresia que vem do sul, feita nevoeiro, tivesse tapado as feições.
Não te chamei, mas esperava que viesses. Alguém me disse que é uma questão de tempo. Não sei mesmo se foi o vento quando soprou na minha orelha.
Desdenhei. Bah! O que é que o tempo tem a ver com o teu querer?
O banco é bonito. Trabalhado. Preparado para nos receber. Como se fosse o banco da pérgola onde me pendurava, na Cidade Alta, esticando os sentidos para a Baía. Acho que naquele tempo, já eu gostava de me sentar nos bancos de pedra e te esperar. Olhando o mar na frente. E os barcos no porto...quem sabe vinhas num deles. Um dia, até me pareceu que tinhas asas e poisavas no farol da Ilha, como um anjo, e me acenavas, de longe.
Olha, já percebi que os sonhos sonhados neste banco desenhado e pintado por artes de magia e de talento, ficam mais coloridos, vais ver só. E verdadeiros. Me vais dar razão. E também é bom sonhar verde musgo, molhado de aroma da terra, castanha, vermelha, barrenta de além mar.
Não te disse ainda que já não gosto de sonhar sozinha meus sonhos futuros, passados presentes, vividos no sonho? Então?!
Já que não me ofereces o teu banco para irmos embora por esse destino fora, que eu acho que não é má vontade, se calhar tens banco pequeno, eu não vou desistir. O meu banco, tem dois lugares. O meu tamanho e outro. Que no caso, é o teu. Cansei de sonhar sozinha. Nos cinzentos desta vida. Te advinho arco-íris, enfeitando os meus sonhos.
Vou-te esperar sentada.

Jardim Zoológico






Presente de aniversário. Visitar o Jardim Zoológico. Pelas minhas contas há 12 anos que não ia lá. Adorei. Ao contrário do que possam pensar, não é um lugar apenas para avós e netos.
E é tão bonito...

Maria Rita - Encontros e despedidas

OCD que me ofereceram aqui representado nesta bonita canção, desta lindíssima e talentosa mulher. Trás com ela uma carga genética preciosa. O talento de sua mãe. Sem que isso seja impedimento para o sucesso, nem vantagem. Apenas constatação.