quarta-feira, 31 de outubro de 2012

poupança sim, miséria não!




No poupar é que está o ganho, diz o povo há séculos. De tal forma que passou a ditado. 
E passou a ditado, tenho para mim que, porque o povo tinha mesmo que acreditar nisso. 
Não é fácil uma mãe dividir em três, uma sardinha. Vamos que todos gostam da cabeça? A pobreza de braço dado com a poupança,pode ser igual a uma guerra familiar, desilusões e muitas interjeições. Violações e reclamações.
Também passou a ditado, digo eu, porque o povo era pobre mas digno. E transformou a poupança numa coisa boa para justificar a sua pobreza digna. O pior era aquele que escondia o dinheiro no colchão e nem comia nem dava a comer para ter o prazer de contar as notas da sua poupança. Avarento era o que ele era, mascarado de poupado.
Há também aquele que não come fora de casa, não vai ao cinema, não faz férias na praia, não viaja, não dá presentes a ninguém, não responde ao apelo de um mendigo,não liga o aquecedor ou a ventoinha, quanto a ar condicionado nem pensar, não toma banho com a água quente a correr,não compra livros nem jornais, enfim, um verdadeiro poupado. Conheço uma palavra que rima com poupado que é, castrado.
E aí, vejo-me hoje castradíssima na minha condição de cidadã da classe média baixa, deste país. 
Pensar eu que em 1975 quando aqui cheguei e descobri que a maior parte das cozinhas portuguesas tinham caixas de fósforos com os mesmos dentro, mas já utilizados e não percebi porquê, reagindo naquele jeito único de quem é novo e não pensa, que, esta gente é maluca, nunca tal vi na minha curta e confortável vida de gente nascida e criada numa terra onde era quase tudo à grande e à francesa,e perante a explicação ficava-me a engolir em seco e a confundir miséria com pobreza, poupança com ganância. Depois dei comigo a ver a minha querida mãe acendendo também ela a boca de um bico do fogão com um fósforo já ardido e que reacendia noutra boca onde cozia o feijão, as couves ou o arroz e a aceitar essa poupança como a única saída para escapar à dita miséria.E entendi na perfeição...
Acho bem que se poupe. Um dia destes, quer dizer aí há uns quatro anos, quando uma das minhas crias fez anos, fomos jantar num lugar muito agradável de Alfama, lugar conhecido dos artistas, jornalistas e gente de outras listas da sociedade lisboeta. Até aqui tudo bem. Surpreendente foi comer cascas de batata, fritas e temperadas com ervas.Como entrada. E gostar. Ora toma lá uma passa maria clara que é para aprenderes! Não é que é óptimo? Afinal, não gostamos nós de batatas a murro? Então? E não é que quando descasco batatas ponho as cascas de lado para esse petisco? Só que já ninguém vai em fritos cá em casa e desisto. Como não tenho porcos nem galinhas, as cascas vão para o lixo. Mal feito. Desperdício. Era mais uma refeiçãaoozita.
Hoje, em dia Mundial da poupança, dei comigo a cozer peixe. A retirá-lo da panela da cozedura. Até aqui tudo jóia. Sei que há quem não goste de peixe cozido mas pronto, isso são apenas gostos, sabores, apetites ou desvalorizações. O curioso é que tanto nos martelam o cérebro com a necessidade de poupar, ele é tantas medidas de austeridade, tanta crise, tanto bolso cheio de ar que de repente dei comigo a sentir-me culpada de despejar no ralo, a água onde cozeu o dito peixe que por acaso é pescada e aqui que ninguém nos ouve, detesto. Só vai se for fingida, ou com puré de batata e maionese no forno. A água de cozer pescada, abomino. Hoje chegou-me a culpa de desperdiçar algo que daria um caldo quem sabe saboroso, se acrescentasse uma cenoura,uma cebola, tomate cortado em cubos e até uma massinha e polvilhasse com salsa. Amanhã quem sabe estou já a fazer a dita sopa e a sorvê-la com toda a alegria de ter entrado no espírito da coisa que é - no poupar é que está o ganho. 
Mas sinceramente, olho para a minha vidinha e não vejo onde posso mais poupar. Não vou à esteticista como quase todas as mulheres. Nem ao cabeleireiro senão para cortar o cabelo. Não fui de férias. Ando nos transportes públicos, não compro roupa nem calçado nem acessórios há mais de 300 anos, o meu rico perfume está de restos, se o Natal não me resolver esse problema é um problema que fico com ele mesmo, não dou festas,não bebo álcool, não fumo, não, não, não...tanta negação ao consumismo e ainda assim é o que se vê. Eh pá, apetece-me dizer com alguma rudeza que uma gaja não é de ferro. Caraca! 
Hoje, em dia mundial da poupança, medito e chego à conclusão que já os meus antepassados chegaram há muito tempo, noutro século. Desperdiçar é um acto indigno e criminoso. Acrescento que,dado o contexto actual, punido com uma pena pesadíssima.
Por isso apetece-me ser livre, enquanto posso e tenho voz, de dizer que não é por mim que o barco vai ao fundo mas que me sinto a naufragar, sinto, e isso é também um crime que não cometi e injusto por isso pagá-lo tão pesadamente.
Viva o dia de hoje transformado em todos os dias que virão, mas com um aviso, em jeito de slogan;
Poupança sim, miséria não!


terça-feira, 30 de outubro de 2012

o passado em fotografia




Partilhei esta foto do grupo do Liceu D. Guiomar de Lencastre com autorização de quem a publicou. 
Fiquei super emocionada pois as pessoas da fotografia que eu já não vejo há quase 4 décadas foram-me muito próximas. A mais velha é a querida professora de francês e português, Irene Guerra Marques e a aluna foi minha colega do 1º ano do curso complementar e chama-se Zuleide. 
Desta nunca mais soube nada, já da professora sei de fonte próxima e segura que dá aulas na faculdade em Luanda, julgo que, faculdade de letras. 
Em Agosto de 1975 estive com ela e com as suas filhas em Alfândega da Fé, Trás-os-Montes e depois nunca mais a vi. Sei que é mãe de Ana Clara Guerra Marques, que profissionalmente está ligada à dança contemporânea, em Luanda.
Adorei esta foto. Mexeu com as minhas memórias de aluna do liceu, da adolescência e dessa época áurea, do sonho, da aventura e das incongruências. Enfim, tempo bom e inconsequente. Perfeito! 
Que bom que é o nosso passado materializar-se a fim de nos dizer que não somos apenas números ...

viajar para casa




Mesmo imóvel, caminho ao encontro de mim, 
no sonho que me dá pernas para andar.
E voo na emoção desse sonho, que me dá asas para voar.
Há dias que me vejo para lá do horizonte, da estória e de mim. 
Tocando pequenos céus com a ponta dos dedos.
Despertei do sono há pouco e iniciei já essa caminhada. 
Quero que hoje seja dia. Todos os dias mais um dia...
No poder que o querer me dá, não interessa quando chego mas importa como o faço.
Sempre com paixão, esperança e amor. 
Com os pés bem assentes no chão, sobrevoando a minha alegria de chegar,
um dia, sim um dia, no dia de todos os dias, 
aquele que será o primeiro de todos ainda por viver, eu chego.
E apenas direi, cheguei! 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lembrando



Sou uma criança sem passado nem lembranças quando entro no avião e ele abandona Lisboa a caminho de casa, para o ventre materno.
Há quanto tempo não me sinto criança...

m.c.s.

domingo, 28 de outubro de 2012

Cavaleiro Monge

Parabéns




Gosto de ti
Gosto de gostar assim de ti 
Hoje, gosto mais que sempre 
Porque tocam os sinos 
O mensageiro traz a notícia
E se renovam os votos 
E o destino 
E a esperança
Gosto do nascimento e do renascimento
E do filho de sua mãe
Gosto de ti porque sim, mas porque também...

m.c.s.

Chove nesta rua que não é minha




A minha rua é o melhor destino do mundo.
É o lugar onde Deus me devolve à terra, 
me empresta o sol, 
me enfeita de estrelas, 
me oferece a lua 
e me ilumina o caminho a que chama felicidade.
Chove, nesta rua que não é minha...
Tenho tantas saudades da minha rua!

m.c.s.

sábado, 27 de outubro de 2012

fotografando

foto tukayana.blogspot

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vivam as massas


O mundo é pródigo em ideias. Invenções. Aliciantes. Curiosidades e até ridicularias.
Não sei onde cabe o dia mundial das massas. Mas eles lá sabem. Saberão?
Sei que cabe à minha mesa e na minha bolsa. Na boca e no palato. No prazer e nas caixas registadoras. Em qualquer " ristoranti ". Na mesa dos portugueses,tanto como na dos italianos. Mas não nas contas. Vai escasseando e privando-nos assim de escolhermos uma qualquer pizaria para nos regalarmos com um belo e saboroso prato di pasta. Lá está, pasta. Pressupõe, bem abonada de massa. Nos tempos que correm, direi que, tarde piaste. Está tudo de tanga e não tarda nada a população ficará que nem um esparguete escorrido e al alho que é para nos irmos alimentando que não somos mais que os italianos que adoram esse pitéu.
Mas afinal que dia é hoje?! Diz que é o dia mundial da massa. Ocorre-me coisas boas como massada de marisco, embora haja pouca massa para um prato de custo tão elevado. Depois, penso em todos os restaurantes de pasta onde se come massas de todo o tipo; quentes e frias. Em saladas.No forno; Macarrão, penne, fusilli, tagliatelli. E tantas outras. Há até a aletria que os nortenhos adoram, sobretudo no natal e na páscoa. Eu também, que tenho lá as minhas origens e isso está na massa do sangue. Há também a massapão mas isso são contas de outro rosário e tem a ver com o sul e os doces bem algarvios. E por fim há também uma forma de fazer pão que é amassando a massa, ou rebocando paredes que é fazendo argamassa. 
Da outra massa há muita variedade evidentemente,só que não se passeia pelas nossas contas com a mesma variedade de quem está bem instalado na vida e com os bolsos a deitar fora de tanta massa que conseguem, sabe-se lá como, ou sabe-se lá porquê. 
Ocorre-me  a canção de intervenção tão actual: eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada. Nem sequer uma bolonhesa para nos aconchegar o estômago e a alma.
Enfim, com todo este relambório esqueci-me de dizer que hoje o meu almoço é uma massa negra com salmão fumado. É para celebrar o dia, que eu gosto de celebrações. Quem encostou a barriguinha ao balcão assim como que a dizer que aqui quem é a pessoa da massa, quem é ?! A minha cria que por acaso adora massas. 
Ah, a propósito, levou-me ao Campo Pequeno no domingo, à pizaria Delci. Eu escolhi pasta à Delci. Maravilhosa. Ela, pasta ao pesto. Maravilhosa também. Quanto à massa despendida, enfim, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Pode dizer-se que já comi muito mais caro em Lisboa e não tão bem. O atendimento óptimo e o lugar um must. As pessoas que lá estavam, não se pode dizer que pertencessem às massas, porém tudo gente com alguma massa e querendo comer massa. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

lavando a alma

Nasci e cresci aqui. Este é o meu lugar. O meu chão, o meu céu. Chegaram-me hoje as fotos e eu lavei a alma.

lavando a alma

Avenida Brasil.

lavando a alma

A minha avenida. O meu chão. Vinte anos neste lugar sem querer mudar. Sem que alguma vez imaginasse que um dia sairia daqui para ... quase sempre.

lavando a alma

Aqui está a Padaria Independente e o prédio da pastelaria Gentil. A um minuto do meu kimbo. Ao longe o prédio maior da avenida brasil. Há dois anos estava em construção.

lavando a alma

Aqui neste prédio da esquina, o sô Santos teve a loja. Antes do prédio vivemos aqui dez anos. Neste lugar.

lavando a alma

Esta manhã, em Luanda. Colégio Nossa Senhora de Fátima. Avenida Brasil.
Aqui aprendi o a e i o u. E ensinei também. Que saudades!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

meditando


É quando me sinto só, no meio da multidão, que percebo que não vivo sozinha.
Vivo comigo mesma.
Digo eu...

domingo, 21 de outubro de 2012

não me toques


Não me toques... que me desafinas!
Não, não sou nenhuma viola. Tão pouco um piano.
Na verdade, apesar de gostar e dar música de vez em quando, não sou nenhum instrumento musical, como é óbvio. Nem sequer no aspecto, bem entendido.
Para ser uma viola, precisava ter cordas. Minhas, só da roupa. Ou vocais. E estas nem sempre estão no seu melhor. Há dias em que estão, lá está, desafinadas. Perco os graves e falo fininho que até parece que engoli hélio. O que para além de ridículo é inquietante.Diz que é dos nervos, vai-se lá saber se é verdade...Precisava também ter as curvas da viola. Não, decididamente não sou uma viola, uma guitarra ou qualquer outro instrumento que se assemelhe. Nem sequer sou um instrumento, embora haja quem tenha o atrevimento de achar que pode pôr o pé em ramo verde e tratar-me como uma coisa. 

Por exemplo, um saco de pancada. Se bem que neste caso dou e levo, o que não serei então o verdadeiro saco...de pancada, para não dizer porrada como o povo diz. Lá estou eu a pôr na boca do povo palavras que eu própria digo, mas afinal, não deixo de ter razão pois eu sou povo, faço parte daquele imenso grupo que paga e não bufa, que se movimenta nos lugares comuns e que tem sempre culpa de tudo e de nada, por isso pode pagar e não bufar mas quando dá corda aos atacadores, solta a franga e não há quem o pare , daí chamar as coisas pelos nomes, preto no branco, pegar o touro pelos cornos e dizer saco de porrada em vez de pancada como eu muito educadamente (?) quero aqui deixar escrito porque a bem dizer tenho mil e tal amigos no facebook que não posso ofender, fora aqueles que vêm ler e que são amigos do amigo, embora também saiba que só me lêem aí uns trinta e três, que foi a conta que Deus fez, mas vamos que deixamos de ser uma rede social democrática e somos todos obrigados a ler o que todos os amigos escrevem? Era muito xunga eu insinuar que falta de democracia pode querer dizer porrada. Enfim, isto tinha pano para mangas mas são outros quinhentos que nada tem a ver com instrumentos como a viola. É mais aquela música de serrote.Na verdade, estou toda desafinada, tentando pôr-me a jeito de não ser tocada por ninguém. Nem sequer beliscada mas é preciso jogo de cintura...de vespa, e saber andar por entre os pingos da chuva. 

Será que um bom chapéu resolve? O povo, o tal a que eu também pertenço, que paga e não bufa, ou bufa? Já vi faltar mais,  dir-me-ia agora se me estivesse a ler que chapéus há muitos, sua palerma!

Sei que me faço de lorpa, e muitas vezes sou mesmo uma pateta, tentando sempre aquela vulgaridade giríssima de ser a pateta alegre mas está difícil. Como este país está decadente, os políticos para além de outras coisas feias, estão doentes e o povo está sonâmbulo não há muita margem de manobra para palhaçadas. E depois, também eu estou desasada e chata. E muito repetitiva. Perguntar-me-ão em quê. E eu respondo que a frase que mais uso neste momento é: Não me toques!
Será que estou a retroceder aos anos sessenta ? Quando era uma miúda e ouvia a uma sociedade completamente machista o que achava que era um piropo à mulher, mas no fundo no fundo não era senão um desdenhado insulto às mulheres bonitas que bambaleavam as ancas numa vaidade de parecer sempre pisarem a passerelle mesmo que se passeassem pelos musseques de Luanda: Ai, não me toques, que me desafinas.
Não. Não estou a voltar atrás. Estamos no novo século. Eu é que estou agora na fase do não me toques, por conta deste ombro doente que me desafina toda mesmo quando não me tocam.     

sábado, 20 de outubro de 2012

diário em tempos difíceis


Acordei com a sensação de não ter dormido. Cedo... 
A manhã ainda não visitou a varanda. 
Lá fora, à semelhança de todos os outros dias, nada bule. 
O Jeremias veio à frontaria da casa durante a noite. Acordei ao som de uma gataria desenfreada que me endoidece. Um dia destes acordo a miar. Será por isso que sinto que o sono se escapou sem cumprir a sua função? 
Perguntas e mais perguntas. Algumas respostas. Poucas.
Acordo sem dores. Depois, lentamente elas retornam e mantêm-se por todo o dia enquanto estou acordada. As minhas dores são amigas. Adormecem quando adormeço e deixam-me dormir um pouco. Acordam quando acordo. Se não fosse cá por coisas pensaria que são imaginadas. Mas não. Eu sinto-as fisicamente a cada movimento mais. 
Dou-me conta que todas as noites sonho. Muito. E sonho com pessoas de quem gosto muito. Sonhos que já não tinha há muito tempo.  Nunca com o braço imobilizado. Vêm-me à lembrança depoimentos trágicos de pessoas amputadas. As dores que sentem num membro que já não têm. As dores reflexas. Será?
Tenho sorte. É! Consigo traçar um cenário menos trágico que aquele que me deixaria em estado mais grave. Para ganhar a coragem que vai faltando. E não venham com paninhos quentes. Quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro. E mais, quem quer peixe tem de entrar no mar. Querem ajudar... E eu não sei? Também sei que as palavras têm o peso que têm. As acções pesam muito mais. E eu estou quase parada. E diz que circular é viver. E há quem diga muita coisa. Sem saber. Apenas porque desconfia ou quer agarrar-se a algo mais que esta pasmaceira de vida que a gente vive. Mesmo quando não há doenças nem acidentes interrompendo ciclos. 
Para se perceber o que estou para aqui a dizer, há quem diga que o universo é poderoso e pelos vistos eu sou importante pois que me fez parar. Que provavelmente eu precisava parar; não parei a bem, parei a mal. Uma teoria interessante. Que me faz questionar e perder ou ganhar tempo acreditando que viemos de qualquer lado e temos um percurso a fazer para chegarmos ao nosso destino. Outro alguém me diz que pode ser um teste. A quê? Às minhas capacidades de suportar o sofrimento, a solidão e a dependência? Porque testes, testes, já os fiz quase todos e um ser não vem a este mundo para estar sempre à prova, tem de viver um pouquinho sem que se dê por isso, sem que daí venha mal ao mundo, sem que tenha de provar algo, sem que tenha que pagar para, digo eu que vejo tanta gente viver a sua vidinha normalmente e por vezes, muitas vezes, nem sequer é inteligente, bom cidadão, boa pessoa, generosa, honesta, sensível, trabalhadora e por aí adiante. Teste? À capacidade para a paciência? Para a conformação? Para me colocar no lugar do outro? Pois...sou mestra, melhor, doutorada. Cheguei lá há muito tempo. Aos lugares onde muita gente boa nunca há-de chegar, felizmente para essa gente, que viver uma vida linear nem sempre é mau. Sobretudo quando se passou os 50.  
Curiosamente enquanto escrevo, a manhã vai chegando à janela. O despertador do telemóvel toca. Oito horas. Tão cedo!
Entretanto fiz um intervalo para comer. Sonho com um crunch há muito tempo. Servida pela posta do meio, como diz uma amiga minha. Que coisa chique esta que inventaram e que eu ainda não tive o prazer de fazer. O tal dois em um cheio de estilo onde as pessoas vão para serem vistas, provavelmente mais do que para comer. Eu sou das que adora pequenos almoços de hotéis e por isso sei que vou estar como peixe dentro d'água. E depois, quero ir, mas para saber como é, in loco. Gente minha há-de levar-me um dia destes quando eu estiver capaz. Com os sentidos todos no lugar. Deixei o convite em aberto pois neste momento não me parece chique ir a um crunch de braço ao peito e cheia de pena de mim própria.
Já de almoçar uma pasta num italiano do Campo Pequeno não me neguei e hoje é dia. Enrolar massa com um garfo na mão direita não há-de ser pior que comer sushi com os pauzinhos e no domingo passado consegui-o com um iupiiiiiii de alegria se bem que com a ajuda da primogénita e da caçula,  coitadinhas delas, que tiveram de me servir sempre que quis. 
Hoje já tomei o pequeno almoço. Enquanto comia um croissant simples, daqueles do Pingo Doce e bebia um iogurte líquido de morango, tudo a que posso chegar sem custo e incómodo para terceiros, pensava que é assim que se engorda. Enganar o tempo com o que a gente gosta nem sempre é benéfico se o que a gente gosta entre outras coisas, é comer. Conclusão a que chego, uma fractura nunca é benéfica pois que o Universo não nos quer a enfardar que nem loucos, nem tão pouco a fazer testes aos nossos propósitos de dieta, digo eu, que sou uma pequenina peça deste imenso e intrigante universo.
Olho a televisão que está na SIC mulher. Quando a liguei estava num programa que falava sobre lojas onde nunca entrarei, de Nova Iorque e também de Londres. Confesso que de mim para mim reagi um pouco ressabiada ao que vi e ouvi. Tanto luxo, não é que me ofende? Andamos nós aqui a encanar a perna à rã, diariamente, hoje como carne, amanhã uma sopinha e depois quem sabe um peixe; hoje como uma maçã, amanhã uma pêra e depois quem sabe compro umas uvas; hoje fico em casa, amanhã tenho de comprar um casaco e depois quem sabe, lá terá de ser, um guarda-chuva que pode desatar a chover e a gente em frente ao pequeno ecran ouve contar que por esses países fora há lojas de adereços para animais na base das pérolas, do ouro e diamantes. Eh pá, estão mesmo a pedi-las!!! 
Imagino a Pitanga com um colar de diamantes e nem a reconheço. Deus me livre e guarde, só se já tivesse endoidado de vez. Nem imagino o meu pescoço a diamantes, quanto mais...  
O que vale é que a seguir chega-nos o Dr. Oz, tão simples e comunicativo, no seu sempre bem-vindo programa onde a gente pode não seguir, mas aprende como viver melhor, mais saudável e menos espaçoso, sem que gaste muito dinheiro, que, já se sabe, não tem.
Enfim, o sábado está aí. O sol parece querer dar um ar da sua graça.
Saio do sofá para o banho. Antes olho mais uma vez para a televisão. Diz que a cor da estação para sapatos é beringela. Aka, xiça, penico! Tenho de andar com sapatos que não me façam estatelar no chão de novo. Beringela? Só se for na massa que hei-de almoçar hoje lá para as bandas do convite que me foi feito que eu, claro, aceitei de imediato que farta de casa estou eu. Tanta parança está a dar-me nos nervos e comigo em doida. Não me apetece ler, dormir, ver televisão, pensar, falar, sorrir ou chorar. Quando parar de escrever porque também não me apetece, bati no fundo. Tudo por causa de uma fractura. Homessa!!!
Desistir é tão difícil como resistir mas tem momentos que oscilo entre uma e outra.
Há uma cadeira de rodas onde o meu herói se movimenta e a força da mulher, minha heroína, que a empurra, onde a minha vergonha assenta, quando vejo aquela imagem do burro que empanca, pára num lugar qualquer, e dali ninguém o faz andar mais.
Bom, está na hora de me pôr a mexer daqui para fora senão atraso-me para mais um sábado. 
Um bom dia para todos.