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terça-feira, 30 de outubro de 2012

o passado em fotografia




Partilhei esta foto do grupo do Liceu D. Guiomar de Lencastre com autorização de quem a publicou. 
Fiquei super emocionada pois as pessoas da fotografia que eu já não vejo há quase 4 décadas foram-me muito próximas. A mais velha é a querida professora de francês e português, Irene Guerra Marques e a aluna foi minha colega do 1º ano do curso complementar e chama-se Zuleide. 
Desta nunca mais soube nada, já da professora sei de fonte próxima e segura que dá aulas na faculdade em Luanda, julgo que, faculdade de letras. 
Em Agosto de 1975 estive com ela e com as suas filhas em Alfândega da Fé, Trás-os-Montes e depois nunca mais a vi. Sei que é mãe de Ana Clara Guerra Marques, que profissionalmente está ligada à dança contemporânea, em Luanda.
Adorei esta foto. Mexeu com as minhas memórias de aluna do liceu, da adolescência e dessa época áurea, do sonho, da aventura e das incongruências. Enfim, tempo bom e inconsequente. Perfeito! 
Que bom que é o nosso passado materializar-se a fim de nos dizer que não somos apenas números ...

sábado, 13 de outubro de 2012

baloiçando-me na vida


O telefone tocou. Um número fixo começando por 21. Não está gravado e só atendendo sei quem é. São tão poucos os fixos que me ligam!
Por falar em fixo estive toda a manhã no Olival Basto para que o fixo fosse montado mais a net e mais a televisão, naquele pacote que agrada a todos numa troca com outra operadora que me levava os olhos da cara e couro e cabelo, enfim, que me deixava completamente transfigurada quando a conta surgia.
- Qual é o seu nome? perguntou-me o funcionário da PT num português sotaqueado a lembrar a minha querida Arminda, cachupa, cretcheu, mornas, coladeiras e funaná.
- Maria Clara, respondi.
- Roberto Carlos ao seu dispôr, disse sorrindo, mostrando os dentes alvos e certinhos.
- O seu nome é em honra ao cantor? não evitei perguntar.
- É, seguido de gargalhada. Em Cabo Verde gostavam muito de Roberto Carlos e a mãe e a madrinha também.
E mesmo depois do Roberto Carlos ter saído, sem que antes me tivesse contado que tem uma filha adolescente " na Angola " porque a ex é angolana e fugiu levando a filha, que tem casa própria na Amadora e está a pensar ir trabalhar para Angola, deixei-me estar saboreando a minha casa onde já não ia há muito tempo; desde as férias de Setembro.
Aguardava então um pouco para fazer o caminho de volta para Lisboa e enquanto aguardava passeava-me pelo facebook quando o telefone tocou.
- Como é, Maria Clara?
Amiga de infância, daquelas que brincaram connosco de jogar à macaca, minha mãe dá licença, jardim da celeste, atirar farpas feitas de papelinhos e lançadas de elástico do cabelo para os rabos dos que esperavam o machimbombo da Terra Nova ou do Cazenga, mesmo em frente à nossa porta, amiga de cantar as músicas do Roberto Carlos, num que tudo mais vá para o inferno ou o calhambeque, de se mascarar connosco no carnaval, de rezar as orações dos santinhos, de assistir junto à missa das seis nos domingos, em São Paulo, de me levar pela mão para o colégio no meu primeiro dia de aulas, de costurar vestidos de bonecas, de andarmos de baloiço voando alto no alpendre da sua casa debaixo do assanhamento do cão Boby, amiga de fumarmos negritas avulsos na casa de banho do quintal, de enganarmos os baleizeiros com moedas de portugal, de partilhar segredos, de apanhar boleia para irmos para a praia juntas, de inventar batom com nívea e lápis dos olhos, de irmos à drogaria comprar Marlene, perfume avulso, de irmos à matiné do Miramar, amiga de sempre, essa amiga com número de telefone fixo começado por 21 que diz:
- Como é, Maria Clara?
E eu conto como foi e como é.
- Eu já parti este braço.
- Eu lembro-me. Foi no muro. Empoleiraste-te no muro e rodaste agarrada ao ramo da mandioqueira.
- Não, isso foi quando parti a perna. Caí para cima da jante de camião que estava no teu quintal.
- Quando partiste o pé, emenda ela. 
- O braço foi num domingo à tarde. Estava a brincar...e ela interrompe, lembro-me, estávamos a brincar e caíste do muro abaixo para a lata...
- Lembras-te duma torneira que ficava ao pé do muro, que tinha um contador e um caixote por cima? Eu subia por aí e andava em pé em cima do muro...
- Pois, e depois caíste em cima da lata...nós aprontávamos, amiga.
Recuando no tempo até aonde as memórias valem ouro e diamantes, recuando aos meus seis tenros, felizes e saudosos anos, vejo-me empoleirada no muro da frente da casa, não no outro que separava a minha, da casa da minha amiga, não no outro onde à noitinha saída da casa dela amuada, me empoleirei também e ao chamamento da irmã rodei agarrada a um frágil ramo de mandioqueira e caí p'ra cima da jante, ganhando dores, uma ida ao hospital de S. Paulo, ao fundo da avenida e uma bota branca de gesso. Até que era bangosa a bota branca e depois todo o mundo perguntava, o que foi desta vez, Clarita?  
Vejo-me nesse tempo, de traquinices, de maria-rapaz como me chamavam, quase correndo em cima do muro, fazendo equilíbrio, qual ginasta do circo Universal ou Mariano, sorrindo feliz no desafio ao medo. 
Vejo-me desafiando o mundo desde a ponta da loja até à ponta onde começava o passeio da Casa Bastos, junto do portão da minha vizinha. Quaisquer dez metros de glória e de risco que me fortaleciam e faziam livre e feliz. Juntamente com a minha amiga Fatinha. 
No Olival Basto, em dia de montagem do Meo, recuando 52 anos percebo que é uma fortuna o que possuo. As memórias partilhadas com alguém do passado, no presente. A riqueza de uma vida plena de acontecimentos e sentimentos. A cumplicidade da amizade.
Uma fractura no úmero? O que é isso comparado com a herança que trago comigo?
Sorrio feliz e grata...


( homenagem à minha amiga de infância Fátima Matias )



domingo, 1 de maio de 2011

na memória, hoje

" O meu pai Itálicoformou-se em agronomia. Naquele tempo, acabou o curso com 23 anos. Era muito esperto. Não quis ficar cá. Foi para África. Gostava muito do campo, das plantações e dos animais. Lá ficou. Casou mais tarde com a minha mãe, por procuração. Veja lá que a minha mãe viveu 30 anos em Portugal, foi para Angola e viveu mais 30. Voltaram em 1975. E ninguém diria, mas ainda viveu outros 30, de novo aqui. Foram muito felizes, os dois. Um com o outro e em África..." Estas palavras ouvi-as ainda agora, aqui a um metro de mim, a um homem muito bem falante, com uma dicção perfeita, uma maciez na voz, deslumbrante, e uma segurança de quem conta histórias verdadeiras há muitos anos, sem que seja interrompido. Tem um anel de curso. Pedra vermelha. Não sei o que quer dizer. Qual a sua formação académica. Nunca ligo para cachuchos denunciadores de aprendizagem com sucesso nas faculdades. E denunciadores de vaidade também. De imposição aos outros de uma ridícula forma de estar na vida. Muitos dos anéis que vimos por aí são exibidos por gente que depois de adulta foi estudar e conseguiu, não digo que não, com mérito e sacrifício o seu canudo, mas porque diabo havemos de exibir isso como um troféu? Já me estou a ver a andar de balança em punho só porque é o símbolo da justiça e a mandarem-me ter juízo porque não sou juiz, e não cursei...Estou a caminho de um dia de mãe com a filha, pois ao filho vou vê-lo por um canudo, que está longe. E no autocarro que vem de Castelo Branco e se dirige a Lisboa com paragem em Torres Novas, é que tenho estado a ouvir a conversa desta pessoa bem falante e educada que recorda o pai e a mãe, neste dia especial de afectos. É um homem de mais de setenta anos, e cabelos todos brancos, porte elegante, que viaja sozinho e conversa com o indivíduo que vai no banco de trás, um engravatado com ar de boa pessoa que se inclina para a frente de forma a ouvir com clareza o que o narrador de histórias verdadeiras vai dizendo a quem o narrador chama doutor. Não sei porquê mas lembra-me o meu avô. Pai da minha mãe. O avô Carvalho. Como este senhor, também ele contava histórias fascinantes, de uma Angola profunda, pelas estradas e lugares por onde passou e foi ficando, e outras mais antigas, da sua terra e do tempo da tropa no Ribatejo. " O meu pai vivia nas plantações de bananas. Chegou a ter sete espécies diferentes de bananas. E de tabaco também. E criticava os colegas agrónomos que passavam os dias a despachar no gabinete, no meio dos papéis, não pondo em prática a sua formação. A minha mãe trabalhava no laboratório. Reformou-se em 1975. Ficou com uma reforma 3 vezes menor que a do meu pai. Mas chegava. Ela foi feliz. Amava muito o meu pai. E ele a ela. E ele a ela...viajavam muito. Gostavam do campo. Iam muito para a Suiça. E para a Dinamarca. " fez uma pausa. O outro aproveitou para falar um pouco do que ia fazer a Lisboa. Falaram de ruas, restaurantes, jardins e pracetas que ambos conheciam. O contador de estórias viveu em Benfica. Falou do acontecimeno mais recente. A queda do granizo. E do Colombo. " não gosto muito de centros comerciais. Talvez por ter sido nascido e criado no campo. De vez em quando vou comer um hamburguer com batatas fritas ao Mc Donalds. Ahahahah! aquilo não fará muito bem mas eu gosto, muito de vez em quando. " Uma delícia ouvir este senhor que me faz lembrar o avô Carvalho. Aposto que o avô também seria capaz de se sentar comigo no Mc para um menu à maneira. E a mãe também. Há viagens assim, tão boas, tão deliciosas, que nem sequer liguei o MP4. Quero ouvir tudo o que esta pessoa sábia tem para dizer. Simples no discurso. Calmo no timbre. Sábio. Saudoso no falar das raízes. Dos pais. Da mãe. Hoje dia da mãe. Estou quase chegar a Lisboa. Passàmos há pouco o Campera. Viajaria aqui no meu canto, ouvindo esta voz macia, até ao Algarve, até Sagres. Até aonde não houvesse mais terra para viajar. É nestas alturas que me é dado perceber com mais lucidez que um avô faz muita falta. E uma mãe também. Toda a falta do mundo.