quarta-feira, 18 de agosto de 2010

o trabalho é culpado

" Ovelhas não são para mato " já dizia uma colega e amiga, a Lena, que por acaso está a trabalhar comigo neste grupo de apenas seis, num Agosto de férias judiciais, que nós, funcionários, não temos. Apenas temos as de direito.
Quais turnos, qual carapuça. Para quem a servir. Que não cabe na nossa classe. De oficiais de justiça. Por que somos cabeçudos? Ou antes, porque na hierarquia estabelecida, somos meros peões dum jogo do sistema? Será? Será.
Mas, é um facto que se sou cabeçuda, ainda sou mais patuda...
Ou pezuda. Com a idade chegam também as aderências. Os pés crescem e atrapalham. Eu calçava 37 e agora só o 38 me serve e vai lá, vai...
Hoje e porque estou a trabalhar, tentei voltar aos saltos. Para fazer pandã com a farpela de trabalho, que é um pouco mais cuidada que a roupa de férias e a havaiana no pé. Com grande desgosto, deparo-me com uma dificuldade que me permite pensar que já não sou uma cinderela. Não queria ser gata borralheira vendo o coche ser transformado em abóboras e os sapatinhos lindos numa coisa andrajosa, nuns pés tipo barca, mas calha-me. E porque o peso da idade e das bolas de berlim da praia, e gelados e tostas de isto e de aquilo e mais coca-cola sem limite, enfim, um sem número de pesos pesados, a pesar os meus pés delicados, é demais, vi-me nas amarelas para fazer o meu percurso até ao autocarro, demorando mais 10 minutos que o habitual e escapando por entre as pedras, não as que transformo em banquinhos acolhedores e sonhadores, calçada portuguesa mesmo, dos calceteiros e não dos sonhadores, a tal calçada que é o inimigo número dois das mulheres,que usam saltos, porque o número um já todas as mulheres sabem qual é, mas pronto, e ainda assim, a escapar, por várias vezes pensei ir beijar as pedras da calçada. Após umas chamadas de atenção de mim para uma " maria clara, maria clara... ", como a d. celeste chamava quando se aborrecia, decidi que estas sandálias traiçoeiras irão direitinhas para os pés de alguma corajosa,um presente envenendo porém com aviso prévio, no salto. Elas estão novas. São do ano passado mas calcei-as uma única vez o ano passado e hoje foi uma estreia para esquecer.
Ora eu! Que estava tão bem de férias! Sonhando a cores e com os pés nus,em frente ao mar...

Maria Bethânia - Oração ao Tempo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

suave e alegremente para sul

Sobrevivi ao pior dia do ano. Agora é sempre a subir...descendo no mapa.
Escapei por entre os pingos da chuva, do que parecia ser um temporal. Raios e coriscos.
No fundo sabia que ia ser assim. São muitos anos. De chapéu de chuva, impermeável e botins.
E depois, bem, depois, o arco-íris feito cor e sol afugenta as nuvens e o mau tempo e a brisa da manhã diz-me, que daqui, o caminho é em frente. Suave e alegremente para sul...
E aquieto-me num tempo que preciso viver.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Florence And The Machine - Dog Days Are Over (OFFICIAL VIDEO 2010)

dia de aniversário


Queria poder dar-te a alegria que precisas para sorrir.
Queria poder dar-te a esperança que precisas para continuar.
Queria poder dar-te uma janela para olhares o presente com coragem. E o futuro com serenidade.
Queria poder dar-te ar para respirares.
Apenas posso fazer votos de dias passados o melhor que conseguires.
E a certeza da minha amizade.
E um abraço maior do que o Universo.
Parabéns Lena.

espargata


Para não passar mal, no Ribatejo, tenho de ser bailarina sem palco nem graciosidade. Sem leveza e sem encanto.
Mas tal como os bailarinos, à custa de muita disciplina e exercício.
E fazer a espargata. Um pé aqui e outro longe. Que pode ser Lisboa, Peniche, Trás-os-Montes, a Europa, Luanda...que pode ser no banco de pedra onde me apoio para viver sonhos, longe do pesadelo de morar fora dos lugares onde mora o meu coração.
Hoje, particularmente hoje, tenho os meus pés afastados um do outro na maior espargata que consigo fazer nesta imaginação infantil e recorrente. Foi o movimento que encontrei para não me sentir no circo, fazendo o número do palhaço pobre e triste, abraçada duma solidão igual aos abraços que dou, quando gosto de dizer às pessoas que gosto delas. Maior que o Universo.
Como me dizia uma amiga que me telefonou há pouco e que é A AMIGA:
Hoje é o pior dia do ano.

privilégios

As pessoas com mais de 40 anos são muito previsíveis. E sarcásticas.
Assim que pûs um pé no autocarro, cairam-me em cima, ( salvo seja ) que nem abutres.
- Então, já se acabou?
Grandes p....! E o sorriso de orelha a orelha?
A felicidade invejosa transbordando numa partilha pobre e deprimente?
- Acabou. Por agora. ( Acrescentei num tonzinho detrás da orelha ).
- Por agora? Então ainda tem mais férias? Ah, pois já me esquecia que no tribunal têm férias 2 meses.
- É. Nós somos assim. Umas privilegiadas. A mim calharam-me 29 dias.
Riram-se e não entenderam. Largaram-me da mão. Graças a Deus. Para elas...

domingo, 15 de agosto de 2010

véspera do castigo


Eu vou, eu vou, para o tarrafal, eu vou...
Amanhã se verá como é que lá me dou...
Neste entretanto, estou tão trite!
Sei que tenho pena, mas não vou chorar que a Pitanga não me pode ver piegas que me tenta lamber a cara e morder-me o nariz e o queixo e eu vou a chegar das férias, e tenho de estar no meu melhor. Mesmo a chorar por dentro. A esgatanhar-me toda de não continuar no bem bom que é a rica vidinha de não ter horários nem receber ordens nem levar desaforos para casa, nem utentes dizendo-nos que nos pagam o ordenado e por isso são nossos patrões e por aí adiante...
Juro, se fosse rica não trabalhava. Só fazia o que me desse na real gana.
Assim, bem isto eu sei que é só até entrar às nove. O que vale é que eu sei o que a casa gasta. E como sou melodramática faço um drama maior do que ele na realidade é.
E depois... tenho uma viagem de poucos dias para preparar e gozar e para não ficar tão díficil a rentrée até já estou a tratar do assunto.
Mulheres!!! Aposto que os homens não têm destas frescuras. Nunca ouvi nenhum queixar-se de que tem de voltar ao trabalho e tal e coiso e só lhe apetece é comer ameixas verdes... se calhar não se queixam mas também só lhes apetece é chorar...
Por mim, digo-vos, só me ocorre que vou para o quarto escuro. Porque será?

Roberto Carlos - Tô Chutando Lata 1988 Especial


Não é?! Roberto Carlos! Coisa cafona, mesmo. Pois é. Mas eu gosto e deve ser o cantor que mais canções tem que eu sei as letras de cor e salteado. Tinha 9 anos quando o ouvi pela primeira vez, no célebre sucesso E que tudo mais vá para o inferno. Era muita dor de corno, cantada. Era muito choradinho, mas nós os daquele tempo, gostávamos bués. E para dançar então? Alto aproveitanço dos rapazes da época e elas ( nós ) hipocritamente consentindo mas fazendo-se ( nos ) de rogadas. Que tempo pouco justo, desigual e preconceituoso!... mas foi o nosso. É o nosso.
Hoje, estou feita devota do computador. Há mails que não apago nunca. Ficam, como as fotografias ficam para a vida. Tenho estado a ler alguns e nem me parece ser possível que tenham sido escritos, assim daquele jeito que não vou explicar, mas que agora parece que já não fazem sentido, parece que nunca fizeram sentido. Que me fazem falar alto e dizer - Porquê? Nunca o saberei, mas tenho pena. Sim, estou a falar, estou a escrever para ti- Tu que foste gentil e me mandaste esta música do Roberto Carlos, que eu ( tinhas razão ) não conhecia.
Não te esqueço. E a prova disso é que ultimamente tenho-te mencionado.
Um abraço daqueles. Do tamanho do Mundo. Maior do que o Universo...

luanda - duo ouro negro.wmv


Não é saudosismo. É apenas História e eu faço parte dela. Desde o seu começo. Ontem, como hoje. Luanda sempre.

Dia de S. Paulo de Assunção de Loanda


Hoje, dia 15 de Agosto, foi durante séculos, o dia da cidade. Da cidade de S. Paulo da Assunção de Loanda.
Era feriado. Festejava-se a data de aniversário. E faziam-se concursos de montras. Era noite de saída em família. Rumo à Baixa. Para apreciarmos as montras. E cada um de nós palpitar sobre a que considerávamos a mais bonita. Para premiar estavam as entidades competentes. Cada montra tinha uma moldura com Américo Tomás e António Salazar, que mais tarde foi substituído pela moldura com Marcelo Caetano. Havia quem acrescentasse à prole o cardeal Cerejeira. Fazia todo o sentido. Era um dia festivo para a Igreja Católica.
Eu gostava de chegar de Porto Quipiri, tomar banho, aperaltar-me porque nesse tempo ( tempo dos 14 até aos 18 ) era tão vaidosa e petulante que até metia raiva, e ir com os restantes para a noite maravilhosa do concurso de montras, na Baixa. Os meus olhos iam para as outras montras. Para os perfumes da Romy, ou os óculos de sol e os biquinis da Saratoga. Os sapatos das sapatarias todas da Baixa.
Os meus olhos iam para os borrachos que passavam nos carros descapotáveis botando charme para tudo o que mexia, lindos de morrer, aliás, só de conduzirem um automóvel descapotável, vermelho de preferência e cantando as músicas altíssimas que saíam dos seus rádios, já eram monumentos à cidade, ao mundo, hinos à juventude e ao amor. Queria lá eu bem saber das montras...
Hoje continua a ser dia de Nossa Senhora da Assunção, aqui, em Luanda e no mundo católico.
É um dia para não esquecer. Porque gosto de lembrar...
Para quem não sabe, S. Paulo de Assunção de Loanda foi fundada pelo governador português Paulo Dias de Novais em 25 de Janeiro ( dia da cidade actualmente ) de 1576, comemorando por isso este ano o 434º aniversário da sua fundação.
Hoje a capital da República de Angola dá pelo nome de Luanda.
Incondicionalmente, a minha terra adorada.

a festa em Porto Quipiri


Esta é a igreja de Porto Quipiri.
E Porto Quipiri é um lugar situado entre Luanda e Caxito. A cerca de 50 kms da capital.
Hoje, dia 15 de Agosto é o dia da Assunção de Nossa Senhora ao céu.
E porque era dia de Nossa Senhora da Assunção, era feriado e rumava-se a Porto Quipiri em peregrinação, onde a Nossa Senhora era a Santa Padroeira.
A grande peregrinação era sobretudo feita por transmontanos. E lá iamos nós todos os anos. Tenho a dizer que achava tudo aquilo uma " seca ". Sobretudo na minha adolescência. O farnel, o pic-nic, no meio de um espaço do tipo parque das merendas, no meio de palmeiras, e com macacos saltando de palmeira em palmeira ( disso gostava ), e o rio Bengo passando junto ao dito espaço que se não me engano pertencia à fábrica da Tentativa, fábrica desactivada, mas que durante anos e anos funcionou e que se dedicava à produção de açúcar directamente saído da cana de açúcar, plantada para o efeito por aquelas terras todas, mesmo até à Barragem das Mabubas. Depois do velho almoço, onde não faltava o arroz de frango ( brrrrr )lá iamos nós até às Mabubas. E desse passeio até à barragem também gostava. Em suma, do que eu não gostava mesmo era do arraial. Daquelas músicas muito tradicionais portuguesas a fazer lembrar tempos que eu não vivera por nem sequer conhecer Portugal. Das danças, levantando poeira e das bebedeiras que os homens apanhavam.
A última vez que fui a Porto Quipiri a esta celebração da igreja católica, foi em 1973. O primo Fernando foi connosco e a minha amiga Julieta também. E nesse ano foi muito curtido. Estava na minha praia, com gente com a minha cabeça e divertimo-nos bastante. Até das danças e cantares e das bebedeiras...passei por Porto Quipiri 35 anos mais tarde e conheci cada bocado de terra, a igreja e a paisagem bonita e verde, onde as palmeiras, bananeiras e a cana do açúcar, eram rainhas. Hoje, as lavras de mandioca abundam por estas paragens, e continua a ser uma região amistosa. À beira da estrada existem muitas vendas de produtos hortícolas. E pequenas esplanadas com cadeiras e mesas de " espera condição ", para o petisco. Cacussos e feijão, batata doce e mandioca, banana assada. Estamos na zona do Panguila...

nº 115


Conheço uma jornalista, assim, como é que hei-de dizer, assim de me ter provocado dores, daquelas que os homens nunca sentiram. Escusam de dizer que uma dor de dentes, ou uma dor nos rins provocada por pedra é pior. Venham cá com comparações que eu lhes respondo. Eu que já tive dessas dores todas. E outras. Eu que até sou Dores de nome...estas são tão fortes como o amor que se sente pelo ser que nos provoca essas dores. E são dores especiais porque parece que nos tiram mas dão-nos o melhor que há no Mundo. Os filhos.
A " minha " jornalista para além de o ser num jornal da nossa praça, é editora convidada da Time Out Lisboa ( revista semanal sobre Lisboa e o que a cidade oferece ) editando a Grande Alface, secção dessa revista.
Hoje, publico aqui uma rubrica da secção assinada por ela. E que se chama Amamos & Odiamos.

Amamos
Condutores de autocarro que se cumprimentam na estrada


Nós vamos na nossa vidinha. O resto do autocarro também. Ao nosso lado há um miúdo ranhoso que não pára de dizer " ó mãããeee, ó mãããeee " sem que se adivinhe que vá algum dia completar a frase. Atrás, um rapaz e uma rapariga que namoram há dois dias e prometem mundos e fundos ao ouvido um do outro - e ao nosso. À frente duas mulheres desfazem uma colega lá do trabalho em três tempos ( e nós cheios de vontade de lhes dizer que são parvas e a outra é que tem razão ). No fundo, é só mais um dia entediante no 35, no 7, no 45. A Carris que nos perdoe, mas há dias em que andar de autocarro é a pior coisa que nos podia acontecer. Mas depois há momentos em que tudo passa. E esses momentos acontecem quando dois autocarros se cruzam. E os condutores abrem a janelinha e cumprimentam os colegas. Mas é que não é um cumprimento qualquer. É um cumprimento com carinho. É o equivalente às palmadas no rabo que os jogadores de futebol dão quando marcam golos. E nós sentimos que estamos em casa. Que aquele condutor que acelera um bocadinho nas rectas até é de confiança. Às vezes, mais raramente, o cumprimento estende-se numa pequena conversa. E nós, que até àquele dia nunca tinhamos visto os dois condutores mais gordos, ficamos a saber que aquela é a última viagem do nosso, que termina às 20.00, e que o outro ainda conta ver a segunda parte do Benfica em casa com os putos. O encontro não dura mais de trinta segundos, mas é intenso, intenso.
Ângela Marques

& Odiamos
Provadores de roupa sem cabides

Não vamos aqui dizer nomes de lojas nem de centros comercias espanhóis. Mas vamos dizer que odiamos provadores sem cabides nem bancos nem qualquer tipo de apoio para a roupa. Vejamos: uma das coisas que mais nos agrada na idéia de comprar roupa é o quê? É o facto de ela estar limpa. Ora, se o provador onde nos temos de despir para a experimentar não tem sequer um cabide para a pendurarmos, o que é que acontece? Ou fazemos malabarismo com as peças que acabámos de despir e as que queremos vestir ou optamos pela solução drástica, que é empilhar a roupa que queremos experimentar num cantinho do provador. O que é que acontece nessa altura? A roupa outrora limpa passa a ficar suja. Porque sejamos honestos, um provador não pode ser um lugar muito higiénico ( perdoem-nos os leitores que nunca mais conseguirão entrar num provador sem pensar na quantidade de lixo e ácaros que ele pode ter dentro )não é da sua natureza. Então: num provador sem cabides, somos obrigados a escolher entre pôr à prova os nossos dotes de aluno do Chapitô ou fazer um montinho de roupa a um canto? Não. Ainda há outra opção: pendurar a roupa na porta. Mas isso obriga-nos a mostrar a meio mundo que roupa tinhamos e que roupa estamos a experimentar. Já se sabe que sempre que experimentamos umas calças de ganga, por exemplo, aquelas que trazemos vestidas parecem, ao lado das outras, um bocado de tecido prontinho para ir para o lixo. Mas toda a gente tem de ver as nossas calças do avesso? Ou as nossas meias? O sutiã? Não queremos, está bem?
Ângela Marques

Ambos os artigos, retirados da revista semanal Time Out Lisboa.

Simply Red ft Sly and Robbie - Night Nurse

sábado, 14 de agosto de 2010

:-*)

sábado em Lisboa


Lisboa numa tarde de sábado.
No seu mellhor. Arte na rua, sob a forma de estátuas de cera, nos Restauradores.
Animação de rua, com música ao acaso, lá para os lados das portas de Santo Antão, perto do restaurante italiano " Valentino ", onde ontem à noite, ali quase ao meu lado jantava o Eusébio. Sim, o célebre Eusébio do glorioso, claro está.
No Chiado uma fila gigantesca para o " Santini " que já abriu, graças a Deus e deixou assim de ser preciso ir a Cascais de propósito por causa de um geladito. E o que é que eu quero mesmo dizer? E digo. É que ontem depois de uma massa carbonara,lá fui eu para a fila, para comer a sobremesa, ou seja, um gelado com três bolas, manga, coco e maracujá.
Muitos turistas na baixa. De máquina fotográfica a tiracolo. Sobretudo espanhóis.
No Saldanha, o " Osaka ". E eu fui almoçar uma sushizada para comemorar a rentrée. Ai que nem quero lembrar-me disso.
Como, quase sempre, o belo do molho de soja entendeu por bem burrifar a minha túnica clarinha, quase branca.
Depois fui para a "Starbucks" de companhia. Têm lá uns sofás maravilhosos. E sentei-me.
A cria ia fazer um trabalho. E foi. E eu deixei-me ficar. Lamentei não ter um livro para ler. Seria perfeito. No ar condicionado, adormecia sem ser abanada...o livro surgiu das mãos da cria. " Memória das minhas putas tristes ", de Gabriel Garcia Marquez. Daquele tamanhinho agradável, que se lê num abrir e fechar de olhos. E foi o que aconteceu. Fiquei sozinha, com mais uns quantos claro, espalhados pelos sofás e cadeiras da sala. Estava-se mesmo bem. A cria sugerira que fosse até Cascais. Não fui. Esteve bastante calor hoje. E estava-se tão bem ali. A ouvir um som muito agradável. Música jamaicana. E relembrei uma música que tem talvez uns 12 anos, pela qual me apaixonei quando a conheci e que depois, como quase todas as paixões, eclipsou-se e portanto deixou de passar na RFM, estação que ouvia à época e esquecera-a completamente. Como as paixões. Chama-se Night Nurse.
Depois de num ápice ler o livro, fui espreitar os saldos da Nature e...comprei. Pouca coisa. Muito pouca, mas nem vou entrar em pormenores. E de seguida, apanhei o 36 para casa. O meu 36. Desde as vuvuzelas e o Quim Barreiros, ou será que foi a Mónica Sintra? Não, não. Já me lembro, foi o Tony Carreira, que nunca mais andei no 36. Acho, não tenho a certeza.
Chegada ao Olival, deparei-me com um fogo pertíssimo. No monte entre Frielas e o Olival Basto. Com os bombeiros e as sirenes e velocidade pela minha rua fora...
E foi assim o último sábado das minhas férias.
Parece que estive a trabalhar por conta de marcas de restaurantes e para a Câmara de Lisboa, mas não estive. É só simpatia e consumismo, mais nada.
Ainda convidei a cria para ir à Igreja dos Mártires, que já lá não vou há bastante tempo. Mas ela cortou-se. E mandou-me ir a mim...

entardecendo


No Norte há crepúsculos assim. Maravilhosos. Que nos roubam as palavras.
Que nos tocam os sentidos até nos chegarem à alma.

coração transbordante


Quando vou ao Norte, este norte poderoso, não aprecio só a paisagem. Vou ter com os afectos. E pude desta vez, ver várias pessoas que noutras vezes por motivos vários não vi. Uma prima do meu pai, apaixonada perdidamente por ele e que terá, segundo as más línguas, casado com outro, tendo sido o grande desgosto da sua vida não ter casado com ele. E acrescenta a tia Fernanda, falando,( ainda hoje se fala disso ),do assunto:
- Bô,carai ( interjeição muito transmontana )o teu pai, era o homem mais bonito dos irmãos e a Emília gostava muito dele. Foi por causa dela que ele foi para Angola.
Jesus Maria, que tenho de agradecer o desgosto da prima Emília. Não fosse ele desviar-se do assunto e teria casado com ela e eu já não tinha nascido...aka! Abençoada separação.
Pois é, o desgosto de uns é a feliciadade de outros, isso eu sei que é assim, mas pronto...calha a todos, ou não. Eu tenho a minha dose.
Na aldeia vizinha, Sendim da Serra, estavam uns primos, filhos do meu tio mais velho. A prima Clara, ( como a avó era Clara há duas netas com este nome, que falta de imaginação, como sou mais velha que esta, isto podia ter sido evitado, digo eu, e ela chamar-se Maria, ou Josefa, por exemplo )estavam também dois irmãos dela, um primo nosso, o Delfim, e o pai do Delfim. Confesso que nem sabia que ele ainda era vivo. Era marido duma tia que faleceu há algum tempo. Foi uma animação. E muitos convites para comer. Para ficar e passar uns dias. Convite inevitável, que não aceitámos.
Depois rumamos até ao Cadaval, terra do concelho de Murça onde o tio Augusto e a tia Fernanda vivem. Estes, bem estes, são o meu abrigo. O meu chão. As minhas âncoras.
Desde que nasci. O tio Augusto é a mais velha paixão, viva, da minha vida.
Gosto tanto, tanto deles...e custa-me cada vez mais quando tenho que agarrar nas malas e voltar costas a este laço forte que nos une...há três anos que não nos víamos, embora falemos amiúde ao telefone.
Ainda há pouco, conversando com a cria mais velha, esta dizia a propósito de uma noite que passou no Algarve com familiares de amigos:
" Ter estado com eles, fez-me lembrar estar lá em cima em casa dos tios, aquela coisa íntima de família, que se sente lá. "
É isto tudo. Estar no Cadaval com eles é fazer silêncios que não são constrangedores.
Estar no Cadaval com eles é sentir que as nossas raízes estão ali, que os meus pais são imortais, que Angola existe, e que a família também.
Estar no Cadaval com eles é ter a certeza de que o meu coração tem amor, amor muito antigo e indestrutível.
Mais do que adorar, amei ir a Trás-os-Montes. Tinha uma grande necessidade de parar, sentar, falar e rir em gargalhadas. Beijar, abraçar e ouvir. Ouvir o tio Augusto chamar-me filha como sempre fez, toda a vida. Sentir a mão da tia Fernanda na minha, o calor do afecto espalhar-se no meu espírito, amorná-lo e fazê-lo sentir tocando a paz.
Quando deixei Trás-os-Montes havia um misto de sentires. Sempre a velha pena, a revolta, da vida nos ter pregado a partida e nos ter afastado fisicamente. A velha revolta que não existe só em relação a eles. Mas ao mesmo tempo, o meu coração estava tão transbordante que por algumas horas, as da viagem, na companhia do meu irmão, senti-me boa pessoa. Estivera na companhia de boas pessoas.
Para além de tudo, recordámos a personalidade e vivências dos meus pais. E porque os meus pais eram pessoas boas e as minhas pessoas sabem-no, isso vale ouro, vale tudo.
Mano Zé, não teria ido sentir, se não me levasses lá. Obrigada.

reencontro


Em terras de Trás-os-Montes a surpresa acontece. Não avisei ninguém que ia. E de repente, estou de frente de uma prima que conheci em 75, com quem privei nesse período e depois os nossos destinos não foram nem paralelos nem perpendiculares.
Hoje, apesar de viver na cidade, cá em baixo, vai de férias lá para cima. E eu sabia que ela estava lá. " Caí-lhe na sopa " e ela ficou muito comovida com a surpresa.
Gostei tanto, mas tanto de ver a Lucília...e gostei tanto do que disse sobre a minha mãe. Nem que viva muitos anos me vou esquecer das palavras bonitas para definir a personalidade da mulher que me deu a vida.
Depois de a ouvir, fiquei com as contas feitas com aquele tempo.
" A tia era a mulher mais fantástica que conheci. Tinha uma paz,uma bondade, uma força interior, uma luz que a tornava tão bonita, como nunca vi igual ".
Quanto mais não fosse, mas foi porque adorei vê-la e abraçá-la, só pelas suas palavras valeu, muito, tudo, ter batido à sua porta para este reencontro que me deixou tão grata. Eu sei que a minha mãe foi um grande ser humano, mas não sabia que havia pelo menos uma pessoa na Gouveia que ainda hoje homenageia o seu carácter.
Obrigada querida Lucília.

premonições


O rio Sabor era a praia dos miúdos pobres dos tempos idos. O pai, descia a serra, dizia para o irmão mais novo que um dia a estrada ainda havia de passar ali, contornando a serra, e poderiam ir até ao rio, feito a praia deles, para se banharem. Em muito menos tempo e com maior segurança.
Fui encontrar a estrada que o meu pai advinhou, feita verdade e por ela passei, sendo que é de facto muito mais fácil e rápido.
Aliás, Trás-os-Montes deixou de ser o bicho papão. E é já ali...