terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nascimento

Que era enorme...morena, tão morena que quiseram saber da sua origem- Disse que não. Que eu soubesse éramos todos brancos.Mas lá estava a história da minha família a ganhar forma de novo.A raça cigana ( ? ).
O peso fez espantar todos os técnicos de saúde que passaram naquela unidade. Já não se faz nascer uma criança tão gorda.
Eu tive um bebé que já era crecido, o peso dos três meses, talvez.
O cabelo negro, e a expressão grosseira, faziam do meu bebé, um bebé feio.
Eu olhava-o, olhava a minha menina e pensava que um dia iria ser linda.
Vesti-lhe uma roupa rosa e azul bébé que a tornava tão fofinha...
Era a minha novidade.Era a minha alegria. Era a minha preocupação. Cedo, ainda na maternidade,e já antecipava a ansiedade a dias de incapacidade de cuidar dela. Não. Eu não seria capaz. Acreditava pouco em mim. Estava assustada e só. Ninguém me dissera como o faria. Confiavam no amor, provavelmente.
O primeiro susto, foi quando foi ao pediatra, o Dr.Sousa e Faro, um homem velhinho,indiano. Este sim, era indiano como podia ser, a minha menina. Podia ser mas não era.
O Doutor nunca se enganava. Leu na letra, na letra de médico, o que estava escrito no livrinho dela. Uma designação - Criança macrossómica. Ela chorava muito e quando chorava ficava roxinha e ele, o pediatra ditou-lhe a sina, ajudado pela palavra que não era explícita. Provavelmente, uma doença congénita, do coração.
Quase enlouqueci. No dia seguinte tudo se esclareceu com o médico do hospital. A frase queria dizer - Criança Grande.
A minha criança nasceu Grande e manteve-se assim ao longo dos anos.Eu tive um grande bébé, uma grande criança, uma adolescente enorme e uma adulta que não cabe nos lugares comuns.
A minha criança, porque sou mãe, nunca mais deixou de me preocupar, mas não parou de me surpreender, de me mimar, de me orgulhar.
Quando os bebés nascem feios, serão concerteza pessoas bonitas no futuro.
Hoje a minha criança é uma adulta Linda. E inteligente. E íntegra, e amiga.
Não pára de me surpreender na capacidade que tem de nunca ser igual.
E nesta coisa maravilhosa de se ser mãe nunca imaginei uma filha diferente.
A sorte é dos que têm coragem ou dos que a constroem. Eu quero ter sorte a vida toda e agradecer ao universo pela dádiva que é ser mãe de uma menina assim. Quase perfeita...

S.Martinho

Hoje é véspera de S.Martinho.
Ali na Golegã, a festa é em grande.
A festa das vaidades, dos burgueses decadentes.
Eu há muito que não vou ao S.Martinho.
É uma decepção para o simples mortal.
Não sou agrobeta.Não tenho cabelos longos, castanhos, com madeixas loiras.
Não uso calças de bombazine verde garrafa, por dentro das botas de montar.
Não pinto os lábios de rosa claro e brilhante. Não vou ao solário.
Não ando de charrete nem a cavalo.
Não tenho amigos latifundiários, com quintas abertas a outros betinhos.
Não domino aquele espaço nem a sua linguagem.
Só sou " tia " dos meus sobrinhos.
E se acaso vou à feira de S.Martinho, compro castanhas e casacos encebados. Chapéus de chuva e artesanato.
Olho os cavalos.
E trago comigo, de volta, a vontade de não voltar.
A Feira de S.Martinho, terá os seus encantos, mas eu nunca nela me encantei.
Não sou agrobeta nem latifundiária...

Cromo

Ao balcão da Repartição Pública

- O B.I?
- Só tenho cartão do cidadão.
- É a mesma coisa.
-Tenho uma fotografia que pareço um árabe.Estou assustador.
-Porquê? É o senhor.
-Estou horrível.
Da minha secretária, olhei para ele.Pensei - Mais? será difícil.Ele olhava para mim com um meio sorriso.
Continuou - E obrigam-nos a tirar os óculos. Por causa da menina dos olhos.Pareço mesmo árabe.
-Então não quer ser parecido com um árabe?
-Deus me livre.
Finalmente, entrega o documento à minha colega.
Quando ela se vira para mim para tirar o carimbo da minha secretária sussurra:
- Está muito melhor, árabe, que ao vivo.
Despede-se orgulhoso com o discurso.
Olho-o. Ele não desfaz o sorriso patético.
E eu digo de mim para mim, que Alá o proteja e lhe dê lucidez.

Parabéns

Parabéns, meu amor.
Beijos para todos os dias dos anos que vais viver com muita alegria, com muito, muito saber.
Beijos a salpicarem-te a vida e sorrisos de esperança.
Quero abraçar-te hoje no maior abraço que exista e poder dizer-te que te amo.
Quero agradecer-te por seres quem és e por fazeres de mim uma pessoa de sorte.
Obrigada minha querida.Tu és o meu presente maior.
Tu és o melhor que a vida me deu.
Até logo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mãe

Esta noite sonhei que uma borboleta viera poisar-me na mão esquerda. A da força,do trabalho, do carinho, da destreza, do aceno. do chamamento, da negação. A minha mão " direita ".
Era uma borboleta linda. Tinha uns olhos iguais aos olhos da Pitanga, que olhavam para mim, colorindo-me a manhã.
Não sei como são os olhos das borboletas. A minha tinha olhos azul Celeste.
Da cor do nome da minha mãe.

domingo, 8 de novembro de 2009

Melancolia

Ela hoje tem estado muito silenciosa.
Não é normal.
Mesmo quando está zangada, pragueja, discute, contraria, mas não se cala.
Não gosto de a ver assim. Acho-a melancólica.
Pode ser que seja da chuva. Ela não gosta do Outono, da humidade do tempo.
Perguntei-lhe pelas palavras que não diz.
Olhou-me, encolheu os ombros e continuou em silêncio.
Não sei o que pensa, nem sei se está presente.Quando fica assim, prefiro afastar-me.
Mas antes,voltei a insistir para que me dissesse palavras. As palavras que são idéias, que constroem beleza e poesia e que ela gosta tanto de oferecer.
Dá-me ao menos o prazer de te ouvir três palavras. Que te ocorram. Sem intenção. Escolhe-as - disse.
Ela também não gosta de se sentir melancólica. Por vezes sozinha, tem dificuldade em expulsar alguns fantasmas que todos vamos tendo e que também ela recebe de vez em quando.Eu estou sempre atenta. Como agora,dou-lhe a mão.E quase sempre, ela aceita-a, por isso a minha insistência, hoje.
Sorriu-me finalmente.
E disse-me: Só tenho açucenas, estrelas do mar e beijos de mel.
E estás triste? Tens uma fortuna.
De que me serve? Perguntou. Só estamos as duas.
Mas podes oferecer-me um poema, com elas.
Será? As palavras não são presentes.
Não se fazem poemas assim. As açucenas foram colhidas à pouco. Ainda estão viçosas e perfumadas. Quem as receber, sentirá a sua suave frescura.
Pela atitude dela, percebi que as estrelas do mar esperavam-na, ali nas rochas, na praia do velho farol. Só não percebi se ela iria.Deixou um clima de suspeição no ar.
Faltavam os beijos de mel.
Então disse-lhe: E os teus beijos de mel? Não servem para que o teu poema tome forma?
Os beijos de mel pertencem-me. Não os ofereço hoje. Preciso deles.
E voltou a olhar o vazio e a silenciar.
Que quererá ela fazer com os beijos de mel?
Eles são a razão pela qual ela está tão melancólica.
Acho ainda que ela não sabe o que fazer com os beijos de mel e por isso não quer falar.
Há dias que não insisto muito. Amanhã saberei o que lhes fez. A quem os deu. Quem os mereceu.
Amanhã, logo se vê. Não estou muito preocupada. Ela também tem dias.

Dar é receber

Tenho uma amiga há quarenta e cinco anos.
Ainda não escrevi sobre ela, nem vou escrever hoje.
Ela é tão Especial, que preciso de muitos cuidados. Preciso encomendar as flores, as orquestras, estender a passadeira e recebê-la com fogo de artifício.
Que os Anjos se organizem e cantem cânticos celestiais.
Quero que ela se sinta uma Princesa. Uma Rainha Angolana, Africana, Universal.
Quando tudo estiver preparado, chamá-la-ei.
Ela virá. Atende-me sempre os pedidos, as faltas, as necessidades.
Ainda que esteja na China ela atenderá o meu chamamento, tenho a certeza.
E vamos juntas fazer a Festa. Da Amizade. Do amor que nunca morre.

O Amor às vezes...

Às vezes o amor não cumpre.
E o que se faz?
Perdoa-se?!...

Parente?!

Há uns tempos atrás, tendo jantado com o meu irmão e cunhada ( eu ando sempre nisto, jantando em casa de uns e de outros, não ando aos caídos, mas dito assim, parece ), bem,resolvemos beber café numa esplanada da Avenida, junto ao rio. Um sítio agradável e com um jardim recentemente arranjado, com nome de flores.O proprietário da esplanada, conversando com o meu irmão, mostrou-lhe algo do seu telemóvel sofisticadíssimo a que não prestei atenção. O meu irmão tinha também assim um telemóvel, tipo, topo de gama, seja lá o que isso for, que eu só quero um para telefonar, mandar e receber mensagens, e para me despertar diariamente.Troca de galhardetes para aqui e para acolá, apenas prestei atenção quando o meu irmão disse, ao som de uma música: é meu primo. Eu olhei para ele e para me vincular ao parentesco, disse: É nosso primo. Percebi que entrara na conversa. Perguntei quem era também meu primo. E eis senão quando o meu irmão diz com a maior lata do mundo - O João Pedro Pais. Dei uma sonora gargalhada, daquelas que se ouve no fundo da avenida, junto ao viaduto.O quê? Estás doido?. O outro, o da esplanada ria quase tanto quanto eu. E o meu irmão dizia que era verdade. Então tu não sabes? Não te contaram a história? - Que o meu irmão às vezes gosta de ser tangas, pronto,vou dando um desconto, agora isto? O que é que passa pela cabeça de um homem de quase cinquenta anos e quase dois metros de altura para querer gozar com a minha cara e mais a do outro?O da esplanada...
Porque ele insistia nesse laço de sangue perguntei-lhe se era da parte da nossa mãe pois a nossa avó era de apelido, Pais. Mas não. O mais assustador é que ele negou. Era da parte do nosso pai. Daquela gente de Espanha e tal e coiso.
O apelido Pais, era só uma coincidência.
Então resolveu contar a história contada em Trás-os-Montes e em que ele acreditara. Supostamente todos queriam o João Pedro Pais como parente, porque aceitaram-no como primo, de imediato. Talvez porque é chique (?) ter um primo que canta na televisão, que vende discos, que aparece e é figura pública. Será?E... o seu trabalho? Será bom? E ele enquanto pessoa? Bem, mas a história com contornos estranhos e a fazer duvidar da veracidade das afirmações da família, foi então contada. Não a vou repetir. Não interessa muito. Nem sei se é verdadeira. O que sei é que toda a família, pelos vistos, acha que o rapaz que canta baladas, faz uma músicas e umas letras, começou no programa de televisão a emitar o Miguel Ângelo, dos Delfins ( que agora até vão acabar, terá sido o puto o causador? )foi casado com a Cláudia Teixeira, uma modelo que nasceu na cidade onde vivo e que por acaso frequentou a Escola Secundária ao mesmo tempo que a minha filha,tem o mesmo sangue nas veias que eu e que todos os outros que vivem lá por cima, onde para lá do Marão mandam os que lá estão.
Se eu quiser acreditar e me puser a pensar...de facto, há características curiosas na nossa família.A bisavó ( cigana ? ) era dançarina e provavelmente também cantaria.
A minha avó, o meu pai e uma irmã dele cantavam maravilhosamente, para além do meu pai, na aldeia onde nasceu, participar nas peças de teatro que por lá se faziam e fazer versos muito bem, declamando-os. Os meus tios, irmãos do meu pai, quase todos tocavam guitarra.Depois ao nível da minha geração, eu só escrevo e...mal.Tenho um primo que tirou arquitectura e que desde que começou a pegar no lápis, começou a desenhar e a pintar. Tem quadros lindíssimos, toca guitarra e canta também. O irmão, só não pinta. Mas desenha, canta e toca. Das habilidades ( ? ) de outros primos não sei porque como vivi em Angola e não fiquei em Trás-os-Montes quando cheguei, os contactos e os interesses só poucos.Mas na geração dos meus filhos e filhos dos meus primos, ah pois é, existe potencial sim. A minha filha que tem o 5º ano de música, do Conservatório e o 4º ano de guitarra clássica, para além da escrita em prosa e que prosa, que faz disso profissão. O meu filho que, pois, a sua profissão passa pelo movimento e que se licenciou nisso mesmo. Para além do teatro, da canção,da poesia. O meu sobrinho que toca guitarra sem ter formação musical, de ouvido, de tacto, de jeito, apetência para a coisa,para além de ter dançado até há pouco tempo num grupo folclórico, e um filha de uma prima que tirou o curso de animadora cultural e que fazia parte de um grupo de dança. Uma família de artistas. Não me admirava se o João Pedro Pais pertencesse a esta família, portanto.
Estou em crer que não. Nem vou tentar saber.Tenho primos que não conheço. Seria mais um. Mas que é curioso lá isso é. E hoje, quando oiço o rapaz cantar numa qualquer estação de rádio, sorrio sempre para a tanga ( ? ) do meu irmão. Pode ser que não seja nosso primo mas que deixou de passar despercebido, lá isso deixou.

Domingo

Aqui em Lisboa, quer dizer, nos arredores, o comércio local fecha aos domingos e as médias superfícies ficam da minha casa,uma distância de, uma ponte e centenas de metros.Como sempre, vou às compras ao domingo de manhã se não saio ao sábado. Foi o que aconteceu hoje. Sexta-feira à noite, fiz asneira, o que não é difícil, e em vez de pedir uma saladita, uma garrafa de água, e pronto, ficar por isso mesmo, não. Olhei a lista, de frente para trás e trás para a frente e os olhos e a gula esbarraram numa " francesinha ".Não, nas que os portugueses que estão em França esbarram, nessas não,uma mesmo à séria como as que tão bem fazem na cidade invicta.E pedi. Pedi, com tudo a que tinha direito.E não contente, ainda acrescentei uma dose de batatas fritas.As batatas naquele molho laranja e bem condimentado, sabe-se lá como, mas isso não interessa nada, são uma coisa, de chorar por mais.Podia fazer mal, espernear depois de dores no estômago ou enjôos, que eu tenho maus fígados, que ninguém me fazia desistir deste belo repasto. Para disfarçar, pedi uma cola zero com limão.A pressa com que estávamos, de bilhetes de cinema no bolso, não permitiu o golpe final. A cereja no cimo do bolo. Isso, faltou a sobremesa.Tínhamos carpido já as misérias... como a balança é ingrata, má mesmo, e o espelho inimigo, patati, patatá...E que amanhã é que é. E que temos que emagrecer, e que a culpa é de tanto almoço fora, e gelados, e sushi e chocolate e...
Escapàmo-nos à pressa para a sala de cinema sem visitarmos as pipocas e a coca-cola. Pensei que finalmente tomáramos juízo.
Passadas duas horas, cheias de sono e divertidas com o filme, saímos. Só que eu olhei para as gomas. Como os cachopos. Só me faltou agarrar no braço dela e pedir-lhe gomas, ainda perguntei se queria, disse que não, mas não me desencorajou. Sabia que vinha para o computador. Sabia que ia escrever, ler e permanecer acordada algum tempo mais. Nunca fui de me sentar à frente da televisão com castanha de cajú, tremoços, frutos secos ou outros que tais. Só se for chocolate ou romãs.Não engordo à televisão. Mas na sexta-feira faltava-me um doce. Dizem que são carências afectivas. Carências ou não, o facto é que quando cheguei a casa já levava um terço do saco limpo. O resto foi como disse, no computador.Antes de me deitar jurei a mim própria que no sábado só entrariam pela minha garganta, líquidos. Por isso e porque me levei a sério, ontem, não só não saí de casa, como não dei ao dente, apenas bebi.Batidos, iogurtes, água, chá.Uma animação.
Eis o motivo porque tive de fazer compras hoje. Não tenho salsichas frescas assim como se a minha casa fosse uma salsicharia e como também não é uma horta, claro que fui tratar dos ingredientes para o meu almoço. Salsichas enroladas em couve lombarda.
Até aqui tudo perfeito. Eu gosto de ir aos supermercados e andar por ali, a ver dos frescos. Sempre me deu prazer isso. Acho que me vem do tempo em que ia ao mercado de S.Paulo e também ao Quinaxixe, com o meu pai.
Quando já estava à porta para sair, percebi que estava a chover e aí é que tudo se complicou. Chamar um taxi era a solução, só que eles, os motoristas, ficam piurços quando são chamados a corridas curtas e a minha seria.A outra solução e porque estou sozinha no mundo,isto é, aqui nos arredores de Lisboa, sem apelar aos desígnios de Deus, Ele lá sabe porque é que hoje eu teria que sentir a chuva na moleirinha, decidi que não era mais do que outros que corajosamente já tinham iniciado a caminhada.
Cheguei a casa toda molhada. Parecia um pinto, quer dizer, uma galinha. Mas não foi isso que me custou, o que me custou mesmo, foi não ter reagidos às businadelas que levei, em cima da ponte, por levar as mãos ocupadas...
E tudo por causa de uma " francesinha ".Se ao menos ficasse a falar francês...

O gesto

Recebi uma mensagem que dizia - Só para dizer que estou na Avenida Brasil.
Fiz aquela cara feia e espantada que faço muitas vezes e fui ao fim. Ver o nome.
Relaxei, sorri, saboreando o prazer da surpresa boa, o cuidado, o gesto. Sei que disse alto- ohoooooooo, que amoroso.Olharam para mim. Não entenderiam nunca. Não sabem o que é isto.
O lábio tremeu, os olhos brilharam, eu sei, e apressei-me a responder qualquer coisa como- " estou cheia de inveja "...
Recebi uma chamada a seguir e estive a falar de Luanda com a minha surpresa. Que estava em Angola, que deixara o Algarve para viajar com a mulher, a Paula,que nem é angolana, nem nunca lá viveu, mas que adora lá ir. Que estava na casa dos amigos de que já me falara, na avenida Brasil,ali ao fundo, ao pé da minha casa, da loja do meu pai, junto da Cidadela. Que se lembrara de mim e de me fazer essa surpresa...
E eu rejubilei de felicidade. Por ele, por ter voltado a Luanda, e porque sou mesmo bafejada pela sorte, por ter pessoas a cruzarem o meu caminho tão generosas, tão altruístas.
Gestos como estes, fazem das pessoas de África, Escolhidas, por um Deus que acredito que é muito africano, muito angolano. Que bebeu connosco água do Bengo e se sentou na esteira, comendo funge com as mãos, correu como nós, atrás do carro da tifa, roubou maçãs da índia do quintal da vizinha, e foi aos pássaros com a fisga.
Este Deus que viajou connosco na ponte aérea em 1975 e que passou as nossas dificuldades mas que nos disse sempre que não adianta chorar, o que adianta muito é Acreditar.
Bem hajas, João, pelo dia diferente que me fizeste viver.

Promessa

Hoje, ela veio acordar-me. Disse-lhe: É domingo, deixa-me dormir, dorme tu também.
Ela não precisa de dormir. Percebi isso há algum tempo.
Respondeu-me: Temos muito que fazer.
Eu, também? Perguntei admirada. Pois se é domingo e está tudo feito...
Sim, mas há promessas para cumprir...

Forma Verbal

O Presente é uma benção, o Futuro, um caminho...

Saudade

Disseste - Tomem conta uma da outra.
Foi há um mês.
E eu renasci a partir daí.
E senti-me feliz. E tinha que te merecer.
E tenho que te merecer sempre.
E tu és tão especial...
Passou um mês e eu continuo ouvindo a tua voz tocando-nos,afagando-nos a alma e lamentando a despedida dessa condição que não tinhas, mas tinhas.
Não preciso que estejas. Não preciso do calor do teu abraço. Não preciso do teu beijo.
Não preciso das nossas conversas. Mais do que tudo isso, preciso muito, preciso tudo, que tomes conta de ti.

sábado, 7 de novembro de 2009

Inveja

É um sentimento feio. É o mal do mundo, eu sei.
Eu nem sou invejosa. Nunca quis ter o que é dos outros.Ou tanto quanto os outros têm. Ou especificamente o que eles têm.Para me colocar nesse lugar, teria que assumir ter o bom e o mau.E com o meu menos bom, posso eu bem e quando não posso, arreio.
Mas...do escritor angolano José Eduardo Agualusa, eu tenho inveja.
Tenho sim e não sinto vergonha de o confessar.
É que li algures, que este homem, vive só, entre Luanda e Lisboa. E que quando está em Luanda, escreve em frente ao mar. Numa casa,na baía.
Sou fã dele, porque gosto do que escreve. Tenho várias obras suas.
Gosto do Mia Couto mas nunca pensei que seria fantástico viver em Moçambique.
Não sinto inveja por ser escritor, mas, por viver entre Luanda e Lisboa e ainda por cima poder escrever, olhando o mar da minha cidade.
Há muito tempo que eu sonho a realidade de José Eduardo Agualusa.
Seria sublime, seria perfeito.

Hoje é Sábado

Quem me conhece sabe que eu gosto de sábados.
Mais do que de qualquer outro dia.
Sentava-me no patim da casa, eu e o avô,ali na avenida brasil.Víamos regressar do trabalho, o povo, que vinha da Baixa.Direitos ao muceque. Marçal, era o mais próximo, ficava nas costas da avenida.
Muitos conheciam o " patrão " Carvalho e saudavam-no respeitosamente. Das obras em que ele era o mestre, dali mesmo, da casa, que tinha estacionada à porta, a velha carrinha azul. Da loja do meu pai...
A luz do sábado era mais brilhante e o sol mais quente.
O cheiro de sábado era mais forte, mais perfumado.
Uma mistura de essências que me extasiavam e comprometiam os sentidos.
Em frente da nossa casa, as quitandeiras assavam mandioca, bombô, batata doce, ginguba e castanha de cajú. Vendiam kissângua a quem passava e era comum ver trocar o passo logo no início da tarde, aos mais viciados.Da padaria, mais ali, ao dobrar a esquina, chegava o cheiro a pão quente. Acabado de sair do forno. A velha chaminé cor de tijolo expulsava o fumo sem parar.O avô, depois de tanta súplica, choro, bater de pé e embirração, decidia comprar-me o pão dos sábados. Um pão especial, de farinha mais especial ainda, que só faziam nestes dias bons de fim de semana.Era redondo, mais branco que os outros pães e rematava em bicos, por cima.Chamavam-lhe o pão espanhol. Era mais caro e nem todos o podiam comer.
Na loja do Sr. Miguel os negros sentavam-se à porta, comendo peixe espada frito, no pão.Ficavam por ali, comendo e bebendo muito, ouvindo música em altos berros, das telefonias fanhosas e velhas.
No areal em frente à casa os cães de todos nós, brincavam com os miúdos e sentado no muro da ourivesaria, no prédio do Sr. Frende, um garoto solitário lançava um papagaio às cores. Podia ser o meu irmão se já tivesse nascido.
Por todos nós, meninos daquele tempo, e daquele lugar passaram papagaios às cores, carros de rolamentos, arcos de aduelas.Carrinhos de lata.Bonecas de " Las Palmas " que falavam, diziam mamã e até davam uns passos.
Por todos nós, nos sábados felizes passaram as brincadeiras daquele tempo.Corridas no areal, de pés descalços.Concursos de carros. A cor dos carros. Que escolhíamos. Eu tinha quatro anos. Mas sabia as cores. O avô fazia batota e miúdo que jogasse comigo, perdia sempre.
Os céus, ali, o nosso céu da avenida brasil, estava colorido como um arco íris.Os papagaios de papel competiam com os bandos de pássaros e com os pombos correios do pai da Lisete,a mais antiga amiga que tenho. Desde que me conheço. Desde que nasci.A par com a Berta que morava a seguir à ourivesaria e vinha cada sábado, sentar-se ao pé de nós, de mim e do meu avô.
Em frente à casa, havia várias mulembeiras, carregadinhas de fios, tão fortes como cordas, que serviam de baloiços e eu e a Berta escapávamos da segurança e do olhar do velho Carvalho e subíamos às árvores e andavámos de baloiço até cairmos e nos sujarmos de terra barrenta e vermelha da minha terra.
Os sábados da minha infância determinaram esses outros, da adolescência, da praia, dos namorados, das " mornas" e " coladeras " das escapadelas à Baixa. Das conversas com as amigas.Eram tempos bons aqueles, em que o sábado cheirava a sábado e nós, eu e o avô deixávamos correr o tempo numa preguiça perfumada,que nos perturbava os sentidos.
Determinando este dia como o dia melhor da semana.Ainda hoje...

Sorte

Li,que a sorte é dos corajosos.
Eu quero ter sorte.Merecê-la, mas tê-la.
Não precisar bater na madeira.
Nem temer a sexta-feira.
Nem dias treze. Nem o cheiro da terra molhada.
E quando temer viver o presente, lembrar que a sorte conquista-se e
sente-se.
No prazer das coisas pequenas.

Anseio

Um dia, quando morrer, quero partir, assim, abraçada a um amor que nunca morre.
Para ter a certeza da minha eternidade.
Num abraço que não caiba em todas as eternidades que possam existir.

Ri Palhaço...Ri

Ri Palhaço...Ri
Faz-me parar de pensar
Que sou velha em sofrimento
E na idade acreditar
E no riso descobrir
Que rindo estou a amar
Ri Palhaço...Ri
Que eu quero a tua expressão
Para esquecer-me dos males
Toma o meu coração
Prova-me o que tu vales
Ri Palhaço...Ri
Transmite-me a Alegria
Dá-me um só pedaço
Da tua ingénua folia
Que faz rir a criança
Acordar o ancião
Faz comigo, uma aliança
Eu dou-te o meu desejo
E tu dás-me Inspiração

O Luto

Disseram-lhe que seria assim.
Não acreditou. Não aceitou. Não se conformou.
Insistiram que não podia saltar essa parte.
O luto...ter que fazer o luto.
Roupas negras, olhar negro, gestos negros.
Pensamentos negros. Sentimentos negros.
Ela que gostava de vermelho...
E sem música, sem canções, sem poemas, sem gargalhadas.
Só persianas fechadas, ausências, medos e solidão.
Perguntou-se se o luto já chegara.Se era isso que estava a viver.
E os fazedores de sonhos olhavam-na mestres e diziam que " queria tempo passado ".
Repetiam que depois da tempestade vem a bonança.
Tangas, pensava ela. Na pele dos outros até nos metemos num caldeirão a ferver.
Pela primeira vez duvidava dos seus fazedores de sonhos.
Um dia destes, vestiu-se de vermelho, subiu as persianas, escreveu poemas e ouviu canções.
Dançou à chuva, cantou ao luar e sonhou com os Anjos.
Olhou para o céu e viu o sorriso de Deus.
O Tempo passara no seu tempo...
E acreditou de novo, nos seus fazedores de sonhos.