terça-feira, 26 de julho de 2011

parabéns kambas do meu coração

Meus kambas
Neste dia de Sant'Ana quero felicitar-vos por mais um ano de aniversário de um casamento tão feliz.
Vocês são a certeza de que vale a pena investir numa relação a dois, pois não são só sobreviventes . São uns vencedores.
Desejo-vos o maior sucesso, sempre, no vosso projecto de amor, tolerância, respeito, amizade, paixão, cumplicidade e muito humor. Beijos no coração.

recuando às raízes de mim

Não sou avó. Dirão alguns que já vão sendo horas. Não penso nisso. E não sou o relógio das crias. Nem sei se terão esse apelo pela descendência. Para já. Se me perguntarem se queria ser avó, queria sim, queria muito. Nunca penso nisso. Mas hoje, dia dos avós, fico em êxtase perante a idéia de uma, duas criaturinhas, ou mais, muitas mais ( duvido ) entrando na minha vida. A precisarem de mim. A contar-lhes estórias da minha terra, das suas terras, das terras dos seus pais. A levá-los à escola. A fazer-lhes bolos e papas, tapioca, flocos e nestum. A levá-los ao cinema, ao teatro e aos espetáculos de dança. A ensiná-los a ler e a escrever. A desenhar. Levá-los a Luanda para sentirem o cheiro da terra, do mar e do amor. A aprender com eles...a ser avó. Fico em êxtase sim.
Tive avós. O avô Francisco, a avó Clara, a avó Rosalina das Dores e o avô Carvalho. Conheci-os todos. Não é verdade? É sim. O sô Santos se encarregou de falar tanto do pai dele que eu sabia que era mais baixo que a avó Clara,( esta, era alta ) que era duro que nem as rochas de Trás-os-Montes, que trabalhava de sol a sol, que foi caseiro de uma quinta no Sendim da Serra e que a avó Clara, os filhos e quem vivia ali na Gouveia e arredores que eram muitas léguas para lá do rio Sabor, até à raia de Espanha onde ia negociar gado, a cavalo em cavalos ou em burros, mulas ou machos, lhe tinha um respeito e admiração profundas. Porque era muito sério. Homem de palavra. E amigo do seu amigo e da família então, nem se fala. Conheci sim, o avô Francisco, que nem sei se algum dia chegou a descer até ao Porto. Talvez, porque sempre ouvi dizer que era um visionário. No dia que chegou a carta a Luanda, aquele envelope com uma fita preta a denunciar o luto da família, deitado na sua cama, agarrando na missiva que a avó mandara escrever a alguma neta, talvez à Leonor, que pela sua esperteza já se advinhava que ia ser professora primária, sô Santos chorou, soluçou, quieto no seu sofrimento mas não disse uma palavra. A mãe é que se apressou a dizer perante a minha estupefacção, que o avô tinha morrido. Eu tinha talvez 8 anos. Depois as camisas brancas do pai passaram a ter uma barra preta numa manga, não sei qual, a que se chamava, fumo. Se eu conheci o avô Francisco? O que é que acham? Conheci sim.
E a avó Rosalina das Dores? Quando a minha mãe entrou na loja do meu pai, seu vizinho, ali na avenida brasil, à época, rua do saber andar, e este com aquele jeito malandrão, bonitão, de olhos doces e sorriso branco e lindo se meteu com ela, a minha mãe agarrou numa batata da caixa, e atirou-lha acima. E a avó Rosalina praguejou. Mas praguejou feio para proteger a sua filha ainda menina de 16, 17 anos. Era uma mulher alta e magra. Vestia de escuro e usava o cabelo apanhado numa banana, muito na modao. Uma verdadeira senhora. Habituada que estava a viver e conviver com a sua madrinha, senhora de sangue azul, que vivia num palacete com brazão, na aldeia de Vilar lá para a serra do Caramulo, ela que era de canas de senhorim. O sô Santos logo nessa primeira abordagem escreveu nos céus, fazendo futurologia que ainda havia de ser seu genro, o que enfureceu até à medula a avó Rosalina e divertiu a mãe, que não passava de uma menina franzina, envergonhada e linda. A avó adoeceu depois. E sofreu muito. Um cancro na cabeça atirou-a para o hospital e morreu antes de vir a ser sogra do sô Santos. Conheço a avó Rosalina do pai falar dela com muito carinho e dor. Conheço a avó da mãe falar dela sempre de lágrima no olho. Do avô me levar ao cemitério todos os domingos e ver a sua fotografia na campa. De me achar parecida com ela. Até hoje. Conheço a avó e quando vou a Luanda vou visitá-la ao cemitério da estrada de catete, ao cemitério de sant'ana, nome da santa que por acaso hoje dia dos avós também é o dia dela ( da santa ). E sinto uma paz santa a cada vez que ali vou. Depois de 33 anos voltei ao lugar onde ela tem a última morada física, sem que alguém me orientasse. No dia 10 de Setembro. Um dia especial para mim. Por outros motivos e também este. Conheço a avó Rosalina? É claro que conheço.
E a avó Clara? Ouvi sempre falar dela. Uma espécie de rainha. Uma matriarca. Uma mulher alta, elegante, cabelos pretos num carrapito, olhos pequeninos cinzentos, nariz bonito, lábios finos e tez branquíssima. Trabalhava no campo e em casa. Na sua horta, que se chamava a horta das Fontainhas. Foi caseira da quinta juntamente com o avô Francisco. Teve 1o filhos. Dois deles morreram pequeninos e eram gémeos. Era a cozinheira de serviço nas festas da aldeia e era tratada por senhora Clara com a deferência de não lhe chegarem perto porque era uma mulher de forte personalidade, directa, altiva e decidida. Se a provocassem nunca mais se meteriam com ela. Era um mulher com pêlo na venta. Tinha filhos preferidos. Admirava muito o pai e a tia Margarida e contava muito com eles. Protegia o tio Fernando como uma galinha o faz. O tio Zé era o primeiro e por isso havia ali um afecto especial. O tio zé manel, acácio, celeste e augusto estavam ao mesmo nível no afecto. Eram todos filhos e ela gostava de os ter debaixo da sua asa. Tinha algumas amigas na aldeia. E uma em Lisboa onde ia de vez em quando. Um dia disseram-me que a avó ia para Luanda uma temporada. Adorei a idéia. E foi. E foi difícil. O meu temperamento e o dela chocaram-se. Diziam que éramos parecidas. Adoeceu e foi mais difícil. A caçula era bebé e adorava-a e eu adorava a caçula. A relação dela com a minha mãe foi muito boa e o meu pai andava feliz. Os tios também e eu habituei-me a dividir. Consegui que usasse um vestido azul escuro e pusesse de lado o preto e que tirasse as meias opacas. Consegui que ela se risse à gargalhada e hoje gostava que ela aqui estivesse para lhe sentir o colo. Quando eu tinha 15 anos voltou para Portugal porque tinha cá os seus outros filhos. Que eram apenas 3. A Margarida, a Celeste e o Zé. Os restantes estavam em Luanda e apenas o Zé Manel estava em Moçambique. No dia em que a fomos pôr ao Príncipe Perfeito, barco que a trouxe para Lisboa, a caçula chorou sofridamente ao colo dela e depois ao meu colo enquanto lhe diziamos adeus, já ela estava no barco acenando com o tradicional lenço branco. E eu chorei com a caçula. Vivi na sua casa, um mês em 1975, na aldeia de gouveia, em trás-os-montes. Esteve em torres novas na nossa casa aind auma vez. Estive com ela depois em 77, 78, porque fui visitá-la e foi a última vez que a vi. Foi uma grande mulher a minha avó Clara da Assunção.
O avô Carvalho...o avó Carvalho é o avô de todos os avós. Os outros que me perdoem. O avô carvalho é o avô que tenho como exemplo. Como eu gostaria de ser para os netos que possa vir a ter. Ele foi muitos. Ele foi tudo. Com ele não tinha falta de ninguém. Nem de mãe nem de pai. O avô Carvalho mora em todas as memórias da minha infância. Em todos os sábados. Em todos os momentos felizes e noutros menos felizes, também. Mora desde que me lembro de existir. No pão espanhol de sábado à tarde. Na manhã de domingo, na Chicala. E nos correios da Baixa. No cemitério regando as flores com o regador cinzento. No clube de caçadores. Nas ida às salinas, a caminho da barra do Kuanza. Nas manhãs que o ia chamar a casa gritando, até ficar rouca, o seu nome, antes que aparecessem os sipaios a quem eu temia. No balão de hélio comprado na feira popular onde íamos. Nas noites sentados no patim da " cubata " olhando a rua e as pessoas que passavam e emitando o jornaleiro " olhó diário " e ele dizia, diz: Olhó diabo, e eu repetia, olhó diaaaaabo. Na carrinha azul que rolava por Luanda fora. No dia de natal que fomos levar o almoço ao tio Augusto, que estava de serviço na fortaleza de São Pedro da Barra e vi pela primeira vez, homens negros, mortos, pelas bermas da estrada, estávamos em 1961 e começara o " terrorismo ". Na nota de 500 escudos para uns sapatos a estrear no meu aniversário. No rádio a pilhas vindo de Porto Alexandre. Na fotografia em cima da ponte do Locala. De outra, de capacete numa fábrica de peixe em Moçâmedes. Numa folha de welwisthia que levada do deserto para que eu a conhecesse, essa planta única, do deserto do Namibe que ele contava que atravessava num mini-jipe. No colo, quando o mano Zé nasceu. Nas cartas que me escrevia. Nos natais. Na atitude aparentemente fria ( a minha família é assim ) quando chegava e na mágoa com que ficava quando se despedia. Nos dias alegres e brincalhões, muito conversados e historiados desde que chegava até que partia. No internamento na casa de saúde de Luanda e no casaco que eu e o pai lhe fomos comprar porque não trouxera agasalho nenhum de Moçâmedes. Naquela vez que tememos que tivesse morrido por lermos no jornal o seu nome, sem fotografia, na página das participações de defuntos o que obrigou o pai a ir à mortuária que ficava a seguir ao hospital maria pia, para reconhecer o cadáver e a ansiedade que foi esperar pelo pai. A carta dizendo que não sairia de Porto Alexandre, apesar da independência do país estar a chegar. Depois outra a dizer que estava em Moçâmedes. E outra a dizer que estava no Algarve e que fizera a viagem mais louca da sua vida, numa traineira, de Moçâmedes para a África do Sul e daí para o Algarve. Depois, em Lisboa. E depois ainda em Vilar. E em Torres Novas, quando casei. E por fim em Tondela. E tenho muita dificuldade em falar do fim. E não quero.
O meu avô foi um herói. O meu herói. Homem bonito. A minha família tem gente bonita. Alto. Nariz fino e direito. Olhos malandrecos e sorridentes. Mãos bonitas e voz bonita. Sotaque do sul de Angola. Conhecia os dialetos quase todos. Até aquele dos estalinhos. Sem vícios. Não sabia fumar e quando o fazia não travava o fumo e parecia um sapo engasgando-se. Bebia cerveja preta e gostava de comer. Tinha um humor refinado, ao estilo inglês. Inteligente, perspicaz e corajoso. Era um autodidata que surpreendia e encantava com o seu saber acerca de tudo o que é importante saber e não só. Era imensamente respeitado e por alguns, até temido. Na avenida brasil e no largo camilo pessanha todos o admiravam. Tenho encontrado amigos de infância mais velhos que eu, que recordam o Sr. Carvalho com saudade e traçam pormenores da sua personlidade que os marcaram. Ele mora nas memórias de muita gente e isso enternece o meu coração.
Hoje é dia dos avós. E eu que não sou avó, mas tenho o nome das duas, sei o que é ter os melhores avós do mundo.
S
into que as minhas raízes são sãs e fortes e acredito que eles fizeram com que eu possa vir a ser a melhor avó do mundo.

Há coisas que nunca mudam

Terça-feira, dia de mercado semanal. Caminho apressadamente para o autocarro. Há coisas que nunca mudam. Nem mesmo as férias me alteram a sina. A minha pressa contrasta com a calmaria da cidade, que partiu para férias. O Agosto aproxima-se a passos gigantes e há terras que tal como a minha pressa, não surpreendem.
Sou do tempo que a vila, sim, porque era uma vila, os seus habitantes da periferia ou mesmo das aldeias, em dia de mercado como hoje, diziam, vou à vila, e os teimosos ainda hoje o dizem, mas dizia eu que a vila morria num êxodo histérico, a caminho da Nazaré. Para banhos. Os banhos dos rapazes dos 18 aos 30 eram outros. Sobretudo aqueles acabadinhos de chegar do ultramar. Iam à cata de francesas e suecas, não acredito que estou a escrever isto, mas se era verdade?!!!Quanto mais altas, melhor. E mais loiras. E mais lindas. E mais livres e mais prontas para viverem a vidinha, despacharem-se que era uma pressa...
E éramos nós a perguntarmos o que é que as suecas e as francesas tinham que a gente não tinha. E eram charros, a liamba que vinha das áfricas escondida nas malas, e era o álcool, as cervejas que se habituaram a beber no mato, na torreira do sol, e era o ócio, pois ainda não tinham nem queriam ter emprego, e era o sangue novo na guelra e o pânico de não " aproveitarem " a vida, porque esta ainda há pouco, valera um tostão furado no cano da metralhadora que empunharam e viram empunhar, pelo menos por dois longos e loucos anos.
E como tudo o que é bom acaba rápido, e o que não é também, que esta vida corre e corre connosco dos lugares onde fugimos de nós, eles, estes " borrachos " do tempo em que a cidade era uma pacata e alegre vila, voltavam ao pombal anilhados na dependência que tinham com as famílias, os amigos e alguma namorada. E era vê-los exibindo um umbigo do tamanho da terra, tirada que fora, a barriga de misérias. Se havia alguma ilusão de os vermos mais bonitos, o ar da praia, os benefícios do sol, que empresta cor à pele, e o descanso, desenganávamo-nos, assim que lhes púnhamos a vista em cima, pois estes rapazolas charmosos ( eram quase todos meus amigos, rssssss, como é que pode?! Pode ) que iriam ser os kotas empestados de charme, hoje, apareciam com a palidez com que partiam, olheiras até à boca, o corpo cheio de boa vida e a pretenção de conquistarem as moçoilas da terra que os aguardavam tolas e esperançosas, repetindo frases que não ousavam tornar-se audíveis, agora é que é, ele vai reparar em mim, as suecas e as francesas já lá vão, tenho um ano, um ano inteiro para mostrar o que valho.
Enquanto isso eles passeavam-se pela avenida junto ao rio, saltitavam da Abidis para a Império, pastelarias do jet-set, apareciam nas piscinas municipais, não para mostrarem o físico mas antes para catrapiscarem as morenas que mergulhavam e nadavam dengosas na água doce do gigante tanque aquecido e coberto, ou no outro ao ar livre, que fartos de loiras vinham eles. Uma amiga era como um homem, para estes conquistadores de meia tigela e por isso ouvia-lhes os disparates, estava a par das asneiras, sabia quando atacariam de novo, porque os homens deste tempo e com esta personalidade precisam de manter a amizade das criaturas que lhes dão tampas. Aliás estes homens, que ainda não tinham crescido e carregavam fardos pesados duma guerra inglória e já tinham conhecido o sofrimento, ainda eram uns meninos. Os carros topo de gama que os pais, abastados agricultores, comerciantes, empresários, lhes punham nas mãos como que em jeito de prémio por terem sido uns heróis e voltado pelos seus próprios pés, eram um brinquedo que usavam e abusavam e servia de isco para o engate. Às vezes, cruzo-me com alguns, desse tempo inconsequente,que até tinham uma voz bonita, um corpo perfeito, o cabelo comprido, mãos macias e calçavam irrepreensivelmente. Estão iguais?! Aparentemente. Até me esqueço que deveriam ser uns kotas charmosos. Envelhecidos 30 e tal anos. Cansados. Doentes alguns e outros já nem me cruzarei nunca mais com eles. Mas já não passeiam francesas nem suecas. Hoje vagabundeiam sozinhos. Carregando o desencanto, a tacanhez da cidade, e os quilos que engordaram( todos nós, eles também não escaparam ). E quando assim é, sinto-me também desencantada porque morreu uma energia qualquer, forte, entre mim e estas pessoas que o tempo conformou.
Mas dizia eu, lá muito no começo deste texto, que a cidade é uma pasmaceira, mesmo em dia de mercado. Pois é. Nem o pregão desesperado da cigana que vive na ladeira do ex-hospital militar move a conformação que baixou a esta terra bonita, porém triste, do ribatejo. " Directamente da Zara, mulheres, são só 5 aéreos... comprem, que está em saldos, mulhéeeeeeres. É aproveitar que é dado ". Ninguém se entusiasma. Não há entusiasmo. Eu vi em Peniche. Os restaurantes vazios. As ruas tristemente vazias. A praia vazia. Os bolsos vazios.
Até o autocarro, a caminho da terra do rapazinho que ganhou o prémio das olimpíadas de matemática, vai vazio também. As marretas no primeiro banco, a senhora que está sozinha porque o marido está na Escócia, o rapaz que desce na Videla, a rapariga ucraniana que se desfaz em mesuras comigo, e eu. Soube que já tinham dado pela minha falta, até pediram ao motorista que esperasse, na 2ª feira. Inutilmente, pois vim directamente de Lisboa, disse à Bélita, pois que a quis informada das últimas novidades. Eu sei que ela adora saber coisas. Quadrilheira que eu sei lá, fica feliz quando sabe qualquer coisita de mim. E eu abro o jogo. Muito calculado, evidentemente. Só para lhe poder ver o rosto de felicidade e cumplicidade (?). É assim uma espécie de ficar por conta das delicadezas que tem comigo. Não me custa nada e faço uma criatura feliz.O motorista que não é o sr. margarido, olha o meu cartão. Digo, para Alcanena. Digita o código e entrega-me o bilhete. Empresta-me a esferográfica. É motorista do TUT e aposto que ficou confuso. As minhas companheiras de viagem que saem na minha paragem estão de férias, se não fico à coca, vou parar à garagem e deixo o tribunal para trás. Por falar em tribunal, até nem me custou voltar ao emprego, trabalho, exercício da profissão, como queiram e achem melhor chamar. Estou por tudo, neste particular. E noutros, também. Que seja como quiserem, a ver se eu me ralo... Apesar de não estar para aqui virada, ( para o trabalho ) pior, pior é ser uma ilha, deserta. E é como me sinto. Uma ilha que não avista outras ilhotas mais pequeninas mas que lhe pertencem. Isso é que custa, mas o que é que eu quero?! É a minha sina. Na cidade pacata onde vivo, em Lisboa, ou noutro sítio qualquer, o meu destino é este. E não posso nem quero mexer no destino. Como uma colega diz, tenho que me aguentar à bronca até daqui a uns dias, até Setembro e depois voltar a respirar plenamente no ritmo certo para não ter taquicardia.
Há coisas que nunca mudam...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amor Electro - Bem Vindo ao Passado

não lhe chego...

Penso na vida. Em mim. Na crónica que acabei de ler. Ficou-me uma frase que o escritor não inventou. Somente usou. " Não lhe chego aos calcanhares ". Procuro alguém, para usar a frase batida. E encontro de imediato.Esteve comigo no fim de semana. Não lhe chego aos calcanhares. E não me importo. Não sou pessoa de me comparar. Nem para o bem nem para o mal. Não vivo a vida de ninguém, não queria estar no lugar de ninguém. Acarreta outras responsabilidades que não quero ter. Não invejo ninguém. Não dá jeito. É um desconforto, uma chatice, perda de energia.

Falei com ela sobre isso. Também não é invejosa. Se calhar está nos genes.

Mas, olhando a sua vida, não lhe queria estar na pele. Nunca serei uma heroína, e ...não lhe chego aos calcanhares.

respirar...fundo!

Boa Viagem, boa estadia, bom trabalho e boas férias.

Auf wiedersehen e hasta la vista.

Amo-vos.

domingo, 24 de julho de 2011

episódio

foto tukayana.blogspot" Vê lá se aproveitas. Olhos bem abertos para os gajos bons " disseram-me ao telefone. Uma brincalhona, é claro. - Aonde é que eles estão? Aonde?, foi a saída mais rápida que encontrei para o conselho. Como este, há sempre muitos por parte das meninas amigas, que gostam de brincar. As mulheres falam mais de gajas que de gajos, mas também calha de quando em quando. Depois de desligar, fiquei a olhar a água azul e fria da piscina e o deserto de gajos bons e maus que por ali havia. Fiquei com o sorriso suspenso, como se o frio da água me tivesse congelado o gesto e se acaso aparecesse um dos bons, fugiria dali a sete pés, qual centopeia, e já não seria bom, pois eram pés a mais e susto também.
Mas, afinal, o que é um " gajo bom "? Perguntem-me, vá, vá, que eu respondo. Não que eu tenha a fórmula, mas se quem me aconselha a arregalar os olhos soubesse o que eu acho dos gajos bons desta vida, ficaria desiludida comigo. Quer dizer, eu acho que desconfia mas não acredita que um gajo bom precisa de ter uma voz bonita. Com sotaque? Só se fôr o sotaque da banda, levezinho, não vamos exagerar né? Pele morena. Mãos perfeitas. Bem humorado. Respirando inteligência. Ah, e bem calçado. Nada de t-shirts de decote redondo junto ao pescoço, nem fios, pulseiras e anéis de ouro. Bigode, nem pensar. Barba pode ser, mas bigode sozinho a esconder as feições, senhores, é coisa do século passado e mesmo que a moda pegue de novo, acho que as mulheres não gostam. Mas será este o padrão? Eu oiço-as, mais do que me oiço a mim, e sei que um gajo bom deve ter mais de 1,80, deve ser bonito, grisalho, com alguma boa-vontade integram os carecas neste rol, olhar de el matador, o que não é difícil porque as criaturas que pertencem à década de 40 e cinquenta, (( quase todos ) são muito cheias de si, e bem vestidos e cheirosos. Há quem acrescente, olhos verdes. Eu diria, e o rabinho lavado com água de colónia, não???
Enfim! Estava eu a olhar para a piscina deserta de apolos e outros deuses, quando de repente surge um que poderia corresponder à minha descrição e à descrição das mulheres no geral. Este " gajo " bom, chegou à espreguiçadeira e poisou a toalha. Tirou o boné ( não sei bem se ganha ou perde qualidades ), descalçou os chinelose e não despiu mais nada porque ficaria como veio ao mundo. Encaminhou-se para o chuveiro. Parou, abriu a torneira, levantou a cabeça e bateu com os olhos nos meus que sorriam imaginando a minha amiga... e se imagino mais gozo me dá pois aqui está alguém com os requisitos necessários para ficar no rol dos gajos bons. É claro que não lhe ouvi a voz, não lhe vi as mãos, não me parecia bem humorado, nem estava bem calçado, quanto à inteligência...enfim, deixou muito a desejar quando se convenceu que era um verdadeiro dono do pedaço. Mas, tinha mais de 1,80, era moreno, grisalho, elegante; não lhe vi a cor dos olhos mas era indiferente com todos os outros itens. O deus apolo pôs um pezinho na água, na beirinha da piscina, e sem que eu afastasse os olhos da figura e ele farto de saber que estava a ser olhado, dá um mergulho daqueles, que para quem nunca mergulhou na vida ( eu ) só consegue achar maravilhoso e só não há palmas porque aquele não era o meu gajo bom, mas o gajo bom da minha amiga e eu apenas observava como se comporta um gajo bom das gajas com mais de 40. Com mais de quê? Das gajas de todas as idades, e mais aquelas que assim que começam a usar sutien, já estão a investir nos kotas, pois que estes espécimes gostam mesmo é de catorzinhas, brancas ou negras, a cheirarem a cueiros, a boca cheia de balões da pastilha elástica e piruetas no trapézio.
Com estava a dizer, o apolo universal inicia a sua exibição. A plateia é fraca. Eu e um casal de duas mulheres, uma negra e outra branca, que são namoradas pois já as vi aos beijos dentro de água e são muito queridas uma com a outra quando estão ao sol nas espreguiçadeiras. Há também um espanhol que tem uma perinha, uma barriga enjoativa e usa calções pelos joelhos, às flores, e se passeia pela piscina dos putos como se fosse vigilante. O Apolo dá umas braçadas até ao meio da piscina, e olha para mim, quietinha no meu canto, apenas alimentando a vaidade do gajo bom das minhas amigas mulheres, só por estar ali a olhar para a figura. Depressa chega ao topo. Volta para trás e faz outra piscina. Desisti. Já vira tudo o que havia para ver. Agarrei no livro de crónicas de Lobo Antunes. Isso sim um livro escrito por um...não, apesar de ter uma voz bonita, ser inteligente, ter sentido de humor, não sei se tem mãos perfeitas e se anda bem calçado, por isso fico-me por um escritor bom, para lá de bom, apenas e só, um dos meus escritores preferidos. Hei-de debruçar-me sobre este tema para perceber se os meus escritores preferidos são gajos bons. Desconfio que sei qual vai ser o resultado. Mas será um estudo para depois de férias. Voltando ao apolo versão kota, voltei a ele quando alguém deu uma gargalhada. Olhei à volta. De gajo bom nem vê-lo.
Conclusão a que cheguei, recordando outra amiga que me diz que já não há gajos bons. São todos de plástico. Ou irreais. Ou uma ilusão. Será? Ia jurar que vi alguém que era um gajo, se era bom, não o sei. Também sei que apanhei sol na moleirinha. A confusão que a minha amiga havia de me arranjar...

Valerie by lookalike (R.I.P. Amy Winehouse)

Uma Força da Natureza a quem a natureza não deu força.

sábado, 23 de julho de 2011

Amor Electro - A Máquina

o mar eleito

foto tukayana.blogspot

nem sempre significa tempestade

foto tukayana.blogspot

um pombal ecológico

estar em casa ao 2º dia

foto tukayana.blogspotGiro, giro, e vou dar sempre ao mesmo lugar. Às palmeiras e à terra. No presente dum passado recente, que tem uma vida de duas décadas e mais uns anos. Estas árvores rainhas abraçam-me os sonhos. Conhecem-me como os homens conhecem as redes que cosem na praia. Bordo bilros e vejo partir as traineiras, pesco estrelas do mar e falo com os cavalos marinhos, suspiro por um sorvete e agasalho-me num xaile branco enquanto a noite percorre a península pacata e rude.
As ruas, os becos, as pedras, os bancos e as muralhas respiram profundamente esse tempo que já vivi. Suspiram como que a dizerem que vão-se os maus tempos, venha a bonança. Feitas pazes aqui me reencontro no fundo de mim e me reconheço pessoa que se faz contente a cada minuto, hora e tempo de descanso, num somatório de dias que em breve terminarão. Como este prazer de nada que fazer e também o de parar o tempo e atirar fora o relógio, calçar os chinelos, vestir vestidos de malha, dos saldos de outros verões, andar de rabo de cavalo, óculos de sol, cara limpa de maquilhagem e tudo o mais que me escraviza longe daqui.
Ontem, hoje e amanhã o calendário não tem tempo. É precioso este intervalo que vou gozar com a alegria de escolher aqui ter voltado neste final de férias. Eu tinha que regressar ao mar mais lindo deste país para me reflectir na sua beleza e iniciar a semana com a certeza de que nada me faltou nestes dias que escolhi para ser feliz.
Voltar, é uma viagem que não tem princípio nem fim. É um estado de alma que guardo numa caixinha de música e que de vez em quando, preciso de abrir, para que se soltem acordes que me harmonizam e me fazem sorrir patetamente.
Estou rodeada de terra, de mar e de afecto. Como uma ilha de sonho. A todo o resto, sou praticamente indiferente.
No intervalo, sei notícias do mundo, de quem está de férias noutro mar igualmente lindo e isso, e isto, me provocam uma paz santa, neste dia quente.
Bom sábado para todos.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

uma viagem no 36




Qual o transporte que prefiro, para me deslocar em Lisboa? Metro, eléctrico ou autocarro? Sim porque não vou falar em motas. Acho que não conheço ninguém em Lisboa que tenha uma mota. Ah, por acaso conheço, mas vive na zona saloia e não dá muito jeito ir a Lisboa de propósito só para me transportar. E também não quero falar de automóveis de amigos. Uns estão a trabalhar e têm o carro parado à porta ou na estação de metro de Odivelas ou do Senhor Roubado, outros estão em Luanda, outros em S. Paulo, no Dubai ou em Madrid. Porque isto de ser angolana e ser amiga para sempre de algumas pessoas que não vivem em Portugal e que se movimentam pelo mundo nos aviões, ou simplesmente estão a dar apoio a familiares numa qualquer cidade da Europa que não Lisboa, tem os seus contras e uma criatura, de repente, está de férias em Lisboa, dá-lhe qualquer coisinha que tem que ir para o hospital e lá tem de chamar o 112 porque apesar de serem muito amigos dela, não estão e não se pode estar a incomodar os vizinhos que nem sabem o nosso nome. A Marta, da loja sabe, e levava-me a contra-gosto ( pelo motivo ) até ao hospital mais próximo, ou a Mónica, a cabeleireira, ah, ou o senhor do talho, e a senhora da churrasqueira. Já os donos da papelaria, esses eram capazes de atravessar a rua para me levarem à farmácia que fica ao dobrar da esquina. Ele é antipático!!!! E apesar dos esforços da mulher, uma loira bonita, sempre com o cabelo arranjado, decotes grandes, lábios muito pintados de rosa forte e unhas de gel, apesar da simpatia dela, ele com o seu mau humor e desapego pelos clientes e vizinhos, não a deixaria tomar uma atitude mais próxima que se traduziria em vários quilómetros até ao santa maria, por exemplo. Mas ninguém aqui está para ter um piripoque.
Afinal, que meio de locomoção prefiro para me deslocar em Lisboa? Sem dúvida, que é o autocarro. Isto salvaguardando a idéia de que só assim é, porque não trabalho na capital.
O 36 é o meu fiel amigo. Deixa-me perto de casa. A frequência é a possível. Nunca vi ninguém ser roubado. Viajam muitos velhotes, que descem no Lumiar e na Quinta das Conchas. E até já conheço alguns passageiros assíduos. São alguns anos a andar no 36.
Entro no 36. À cabeça, um euro e cinquenta. Quando voltar em fim de semana já será mais. quinze por cento mais. Eles, que nem carrascos do povo deixaram a notícia para os jornalistas no-la transmitirem. Não tenho passe. Só compensa ter o do metro. Claro que compensa porque circulo ao fim de semana. Olho à volta e páro num lugar da frente. Daqueles para os deficientes. Não sou e agradeço muito ao Criador, mas sento-me. À minha frente senta-se uma velhota de bengala. Sorri-me e eu sorrio-lhe. Do outro lado os lugares estão ocupados. Tiro o pacote de sumo de goji e a barra de cereais e gengibre acabadinhas de comprar no Celeiro, por falar nisso já tenho 90 pontos mas ainda estou longe dos 20o que me darão um bónus de alguns euros que eu acho fantástico e que me anima a comprar naquela loja. Apeteceu-me perguntar à velhota se era servida. Mas para quê? Ela ia dizer que não e verdade seja dita, não entregaria a palhinha do meu sumo para que bebesse do meu sumo e mo restituísse. Se ela quisesse, dar-lhe-ia o sumo de vez, mas não me apetecia muito ficar sem a minha bebida. Já a barra poderia parti-la ao meio, mas aposto que ela não gostaria do piquinho a gengibre. Tem cara de quem não gosta de picante. Mas que olha, olha, e isso incomoda-me. Já não tem idade para augar...
No Marquês, entra um homem enorme, possante mesmo. De óculos escuros e uma daquelas coisas que parece uma bengala mas não é e não sei como se chama. Que estica e encolhe. Para cegos. Conheço-o destas andanças. Senta-se de costas para o motorista, numa vaga que se deu na avenida da Liberdade. Acabei o meu lanche. A barra fez-me sede e não tinha água. Imaginei-me num tanque cheio dela. Fresquinha. Por vezes digo às pessoas o que as surpreende, se calhar pensam que sou avariada, que há dias de calor que se me apanhasse numa tanque cheinho de coca-cola era uma mulher feliz. Nunca atento no doce da mesma e aquele açúcar a colar-se à pele, rsrsrsrsrs, apenas penso nos piquinhos que a coca-cola faz na boca, no céu da boca, o prazer de sentir o gás, hei-de pagá-las todas e depois não tenho quem me leve de automóvel e lá terei de ir de ambulância apitando num tinoni angustiante, que eu já sei o que isso é de acompanhante que fui de uma criatura a quem lhe deu um fanico, daqueles que são mais as vozes que as nozes, mas preocupante, pois o que se fala mais por aí é em AVCs e a pobre de cristo não sentia o braço, nem a cara, que até a mim convenceu que já tinha a boca à banda. E a cor? Verde, não de raiva mas de susto. E lá fui eu dentro daquela coisa a apitar, a apitar, num desesperado e desnecessário apelo à compaixão pois que a A23 pouco movimento tinha e não se justificava tal aparato.
O autocarro voltou a parar. Em frente à praça de touros do Campo Pequeno. E entraram duas pessoas. Casal. Homem e mulher. Cegos. Há muito tempo que a não via. Por ser mulher mexe mais comigo. Conheço esta realidade. Da mulher cega. Nunca a vejo que não me lembre disso. Nascer cego não sei como é. E ficar cego também não, obviamente. Mas assistir ao processo da ceguez, sei. É mau. E caricato. Sim. Caricato. Hão-de estar a dizer: A mulher é parva ou quê?
Vê-se bem que não sabe o que isso é. Pois...sei. E doi muito estar junto de alguém que amamos e que começa a perder faculdades. Neste caso, a visão. E não é mais uma graduação nos óculos, menos uma lentezita, que atrapalha e não nos é esteticamente favorável. É cumprimentar alguém que casou e dar os pêsames porque não vê bem e confunde com aquele que perdeu o pai. Se a minha amiga Milú estivesse por perto na hora, diria: Ahahahah, a D. Celeste Ganhou!!
C
aricato não é? Afinal tenho razão.
O casal de cegos esperou que dois indivíduos perfeitamente normais se levantassem, o que fizeram sem pressas. Apressei-me eu a levantar-me, mas não foi preciso chamá-los porque se acomodaram nos dois lugares então desocupados.
Há perguntas que nunca farei. Há perguntas que nunca fiz à minha mãe. Porque me angustiava e porque preferi não saber, qual avestruz mergulhada na areia movediça que é a da cobardia, para aceitar. Hoje faria todas as perguntas que achasse necessárias para lhe aliviar a dor e o pesadelo que deve ser viver nas trevas. Sempre que vejo esta mulher cega que entra no campo pequeno e sai no lumiar apetece-me dizer-lhe que é uma mulher de coragem. Fico quieta no canto escuro a que me remeto, perante a luz que ela irradia. Avisou o homem que vinha com ela que era chegada a paragem e sairam. Ela tem aquilo tudo calculado e não falha. Sai sempre na mesma paragem. O outro, aquele que vai para Odivelas, mantinha-se quieto e calado. Lá atrás umas mulheres comentavam: Vejam bem, vejam vejam,( que ironia cruel ) que não se queriam levantar para dar lugar aos cegos. Sentadinhos no lugar deles, que lata, o sr. motorista devia pô-los na ordem.
Não soube se era comigo também. Não me interessava saber. Aliás já não me interessou mais nada. As lembranças umas vezes fazem bem outras não. As minhas lembranças hoje sentaram-se nos lugares do autocarro para invisuais e outras deficiências. Sentaram-se nas consciências e inconsciências de todos os passageiros do 36, que me transportou e viajaram comigo até casa.
E na minha consciência? Foram só as lembranças que se sentaram?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

aconteceu em lisboa

foto tukayana.blog.spotAi que sede! Ai que sede...
A temperatura não é exageradamente alta, mas, até no buço, na nuca, por baixo do relógio, o suor nasce, querendo dizer que estamos a mudar para os trópicos e ninguém nos avisou, e não tarda nada, ver-nos-emos em plena áfrica; só faltarão as árvores das patacas para uns quantos abanarem como quem abana uma pitangueira carregada de pitangas. E o apelo a áfrica lembra uma limonada. Duas limonadas.
Aqui não, apesar de ser uma esplanada bonita. Simpática sim. E recente. Isso é que foi bem feito. Devia haver mais. Bem na praça, com o tejo a saudar quem está, quem passa, quem fica e quem parte.
Aqui não? Porque não? Estou de férias. Porque não? Levam-nos couro e cabelo. Que se lixe. Se não experimentarmos nunca o saberemos. Está uma brisa amena, debaixo dos chapéus brancos, novos e limpos. Nas mesas, não em todas, um vaso de manjerico. Eu quero uma mesa com um manjerico, para lhe tocar e cheirar a seguir.
Ai os manjericos da minha mãe...do quintal da casa nº162. Não é a casa nº126. Essa é a casa que tinha as mangueiras, goiabeiras, pitangueiras, fruta-pinha ,um mamoeiro, o tanque dos peixes vermelhos e lesmas passeando-se nas manhãs de cacimbo. E à noite, morcegos de volta das mangas maduras que caiam para cima do telhado. Bem sei que parece a mesma, mas o número está trocado. Eu não. Na casa dos manjericos, o número de porta era o 162. E não tinha só manjericos. Tinha cristas de galo também. Um macaco, herança do Sr. Praça, antigo rendeiro, fazendeiro de café, no mato, e comerciante na cidade, que se mudou para o Bairro Operário, pertinho da igreja de s. paulo. No 162, havia também um pombal com pombos anilhados. E uma hortinha com abóboras tão grandes que eu não podia com elas. E tomates. Grandes e redondos. E salsa e hortelã. E couves. Daquelas que cresciam, cresciam e davam uma flores amarelas.
Porque raio me lembrei da horta se o que eu queria era cheirar o manjerico da mesa onde me sentei para beber uma limonada... Uma limonada? Mais de 2 quilos de limões, não, de limas, que são mais caras. E dois ou três pacotes de quilo de açúcar e mais de um garrafão de cinco litos de água do luso. Ah, mas tinha o manjerico na mesa. Para lhe tocar de mansinho e depois cheirar. Ah... e tinha uma mesa mesmo atrás de mim com meia dúzia de pessoas, género masculino e feminino que diziam palavrões daqueles que nunca imaginei que algum dia pudessem ser ditos assim, de graça, numa conversa, entre gargalhadas, confidências e curiosidades. Ninguém estava ali para se zangar. Eu julgava que nós diziamos asneiras cabeludas quando estávamos pelos cabelos com uma situação, uma pessoa ou contra o F.M.I. Mas não. Não posso concluir isso, apenas pelo que eu faço.
Os tempos mudaram. As limonadas voltaram a estar na moda. Os miúdos, ( qualquer um ), quando não bebem álcool, gostam de beber uma limonada. É recente esta moda. Quando dei por isso até eu voltei a sentir o velho apelo ao sabor das limonadas que o pai fazia, não com limões grandes e de casca amarela, mas com limas, verdes e redondinhas, cortadas às rodelas, muito gelo e açúcar. Aqui, na esplanada da praça, em frente ao rio, ( isto paga-se ), não bebemos uma limonada destas, pelo valor pedido, podiamos beber uma pipa de limonada do pai, feita com limas, que são mais caras. Mas de que me queixo eu, se me sentei numa mesa com um manjerico em frente ao rio numa praça tão só, mas tão nobre?
O vento na cara sabe bem, a limonada também e antes de sair hei-de ir ver como é, lá para dentro, no interior das arcadas. Há-de ser um luxo, Hei-de vê-lo, macacos me mordam que faz um calor tropical!
Até chegar às casas de banho atravesso a sala das refeições propriamente dita e gosto. Encantou-me o gosto da decoração. Com algum requinte e bastante beleza. Nada que iniba um ser como eu, que pôe nódoas na roupa enquanto come, deixa cair o talher ou que tomba o copo, num desses azares de sexta-feira treze. Pelo contrário. Senti vontade de ficar para jantar. Não faço contas à vida, até porque a minha vida não é esta. Mas que gostava de perceber se é bom jantar neste lugar, gostava. A tarde está no fim. A limonada desapareceu, fiquei com o cheiro gostoso do manjerico, apesar dos santos já lá irem e despeço-me rapidamente do lugar. Olho os jovens da mesa de trás. Um deles olha para mim. Absolutamente normais. Tinham mudado o rumo da conversa e falavam com desprezo de um festival de música na Damaia. Elas muito mais críticas que eles. Há-de ter uma qualidade esse festival!!! diz uma. Eles é que lá tinham ido ouvir heavy metal. A Damaia é uma zona fixe. Os arredores é que são fatelas, diz ele na esperança de ser compreendido. Provavelmente arrependido de ter feito essa inconfidência.
Atravessei a rua e segui pela rua Augusta abaixo. Ou acima...

inequivocamente

foto tukayana.blogspot Não é o que parece!

curiosidades

foto tukayana.blogspot

Há cães com sorte!

fotografando
















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beira-rio







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entre lisboa e cacilhas



















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