sábado, 13 de abril de 2013

nos dias que são meus


Tem dias que são de tempestade, tem dias que são de acalmia. 
Tem dias que me revelo má pessoa, tem dias que quero crescer na responsabilidade de ser 
adulta. Melhor...
Tem dias que não sei quem sou. Tem dias que sou apenas eu, ser, mais ou menos pensante, 
mais ou menos feliz, mais ou menos sofrido, mais ou menos vivo.
Todos os dias sei que preciso dos outros. 
Todos os dias sei que pouco ou nada sei. 
Todos os dias faço exames de consciência. 
Todos os dias me perco e me acho. 
Todos os dias sei que posso ser pior...
Todos os dias sei que posso ser melhor.
Afinal, hoje posso afirmar que mais que ambicionar para além do possível em mim, quero ser 
simplesmente pessoa. Com capacidade para errar, cair e levantar, sentir e amar.
Para me encontrar.
Hoje ando à procura das palavras certas para me definir. 

eu


Acordei de bem comigo. 
Nem sempre isso acontece. Provavelmente, quando me deito com uma preocupação, zangada ou triste.
Deitei-me ontem com a certeza do dever cumprido. Com a certeza de que se no mundo tivermos um amigo do peito, um que seja, que nos apoia, ajuda e vai para a guerra connosco, faz o descanso do guerreiro ao nosso lado e no dia seguinte está lá para nos dar os bons dias, o mundo no seu pior enfrenta-se com coragem e no seu melhor, é um mundo mais honesto, divertido e fácil de ser encarado.
Acordei de bem comigo. Repousei até mais horas do que o habitual. E sem pressas fiz-me à manhã.
Quem me espera? Ninguém. Ou melhor, eu. Eu espero por mim. Espero de mim...
Espero um dia tranquilo. De sol. Ameno e alegre. 
Sou capaz. A calma que sinto, o sol que me brilha e a certeza de ter amigos bastam e combatem a tempestade que poderá ameaçar-me. 
Sempre aparecem nuvens saturadas. Carregadas. Cinzentas, querendo desabar sobre a nossa cabeça.
Espero passear-me pelas ruas da manhã em busca de inspiração para florescer nas horas que o dia tem e espalhar generosamente o seu pólen pelas estradas das vidas que me acompanham e que se fazem presentes quando preciso, quando não preciso, só porque sim, porque me respeitam e gostam de mim. 
Acordei de bem comigo. Porque todos os dias faço as contas. Ajusto-as. Com a outra parte de mim. De contas feitas, o mundo inspira-se, inspira-me o tempo a viver. 
Acordei e olhei o espelho. Devolveu-me a imagem de sempre. Viva.
Sorri e olhando nos olhos de mim percebi que se eu não gostar de mim, ninguém gostará. 
Olhei de novo e me declarei. Não de papel selado, carimbo, selo branco, chancela. Ou lacre. 
Apenas na confirmação que o espírito sabe. 
Na certeza que mesmo não sendo papel legal, declaração oral, olhos nos olhos basta, para fazer fé e ser real. E lhe ser dado cumprimento. Num, até que a morte nos separe, corpo do espírito.
Me declarei para a alma transparente, de mim. Porque amor a gente tem de regar diariamente para conservar. Porque amor a gente cuida com carinho, dedicação e verdade. 
- Quem é, quem é que te ama mais do que eu? 
E dos lábios sorridentes, na alma rejubilante, resposta surgiu naturalmente: Eu!
Por isso, acordei de bem comigo. 

o Sol



Há dias de sol. 
Não precisei chamar por ele. Surgiu, sorrindo poderosamente. 
Reinando. Brilhando no céu. E também nos pequenos céus, que, as almas em busca de crescimento e de paz, tocam com as pontas dos dedos.
Viver é sentir o sol entrando pela janela, natural, simples e amigo. Agarrá-lo.
Hoje esteve presente e me fez lembrar, kanuca feliz, sentada no muro da casa, pés chapinhando no tanque de peixinhos vermelhos, perfume espalhado no jardim, das rosas brancas e chá, que o avô cuidava com desvelo e olhar de amor. E papagaio encarnado e amarelo, feito de canas cruzadas e cauda de pano de riscado, às cores, puxado no fio, voando, voando tão alto, nos sonhos de candengue, meu irmão de sangue, fazendo a nossa tarde ser maior. 
Amar é gostar de desenhar o sol e pintá-lo das cores que a memória conhece. 
E reinventá-lo nas tardes de primavera. 
É tão simplesmente fechar os olhos e sentir o beijo longo, sabor a carinho que vem poisar na pele ansiosa de calor. 
Há dias de sol! Em mim...


sexta-feira, 12 de abril de 2013

onde estás?



Que foi feito da vontade, de escreveres numa dor d' alma, tratados de amor e saudade?
Na exaltação dos momentos. Nas memórias do passado... 
Poemas proseados, de uma beleza singular? 
Da verdade que emociona? Cala fundo, arrepia...
Por onde andas? 
Em que caminhos te encontras? Te perdes? 
Em que becos e esquinas da vida? 
Que pontes te recusas a passar e em que sombras te refugias?
Onde está o teu horizonte? 
E o mar e o pôr de sol? 
E o planalto e o deserto, que desconsigo te ver por lá?
Onde está o desabafo que não lhe escuto o marulhar lá na praia do teu sul?
E a pedra onde te sentas procurando a palavra, que casa com a tua saudade e com a minha emoção?
Nem as rosas...nem as rosas perfumando dias de chuva e frio... 
Nem o tempo, que desperta os sentidos.
Nem apelos, pedidos, anseios...
Nem sorrisos.
Como que escutando a voz da alma, apenasmente silêncio.
Por onde andas que não te encontro, nas páginas por aprender?
Nas fontes onde vou beber, inspiração?!
Que é feito de ti, simplicidade, talento e coração?


m.c.s.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

saltei o muro


Disseram-me assim:
- Estás bem não estás? Pareces mais nova...
Sorrio perante frases que acredito que não são apenas construídas sob o alicerce duma reforma que me deu já uma semana de vida livre e por isso desabafos, palavras feitas e prontas para serem utilizadas só porque sim. 
Acredito que vejam no meu rosto, na minha atitude, uma luz nova, um relaxar de rugas de expressão carregada pelos dias e dias de pressão, pelas noites e noites mal dormidas ou dormidas a correr na pressa de acordar e voltar ao lugar comum de tantos anos. Trinta e quatro. 
Acredito que tenha deixado de ser um robô e isso seja notório. 
Acredito no meu sorriso e na minha serenidade. No meu vigor que ocupou o lugar do costumeiro cansaço.
Acredito até nas pessoas que se me dirigiram ansiosas de recuperarem para elas aquilo que encontraram no meu semblante. 
Não tenho como não acreditar pois que o rosto, dizem, é o espelho da alma e esta há muito tempo não se sentia tão leve.
Foi agradável voltar ao lugar onde já não pertenço e olhar de fora o espaço e as pessoas na rotina que foi minha também e não sentir o peso do dia. 
Nem resignação ou indiferença. Tão pouco animosidade.
Saltei o muro. 
Já pertenço a outro espaço. E todos sabemos disso.
Tudo está bem quando acaba bem. 
O caminho? Paciência e inteligência emocional. 

diário de uma reformada - 3


O sábado acompanhado de um raio de sol entra-me pela nesga da janela mal fechada e insiste em despertar-me. Teimosamente me viro para o outro lado num braço de ferro com o tempo que hoje se vai fazer exigente e eu sei disso. Doi-me o braço e o ombro e procuro posição para me defender da dor. Isso lembra-me queda, trabalho, Ribatejo. Fractura e imobilidade. Muito de vez em quando sinto esta sensação de desconforto a raiar a dor, percebendo assim que a idade não ajuda à saúde e passado que foi, meio ano, ainda ando às voltas com uma quase incapacidade que me deixou mais sensível, lúcida e passiva. 
Porque nestas constatações, o que não tem remédio, remediado está, salto da cama. Em silêncio, pois está cá uma menina a dormir por uns dias, pessoa amiga duma das crias e precisa de descansar mais que eu. 
Enfrento com alguma coragem este sábado, que vai ser trabalhoso. Do caraças, direi mesmo.
Se vi um sorrisinho irónico por aí, esqueçam-no pois que tenho a dizer que ainda não me sentei descansadamente a ver as horas passar, desde que passei para a classe dos aposentados. Eu desconfiava que iria ser assim. Eu queria que fosse assim. Ontem foi assim. Hoje vai ser assim...porque preciso e quero que assim seja.
Olho o espelho e quase não me vejo. Não porque tenha emagrecido, lá chegarei, pois este também é um propósito meu que já tem pernas para andar; ocorrem-me os 7 kms diários e mais umas mudanças na minha alimentação que ajudarão ao desafio a que me proponho, mas olhando o espelho não me vejo claramente vista porque tenho os olhos inchados e pegando. 
Ontem, quando saí de Torres Novas sentia-me febril e sonolenta. Andei uns kms à chuva e talvez esteja agora a pagar por isso. 
Não gosto de me sentir doente. Assusto-me. Percebo o limite da minha existência. Percebo-me solitária e só. Percebo-me dependente. Mas e de quem? Os que poderiam gravitar à minha volta têm vida. E essa não se compadece do que se passa com terceiros, ainda que eu seja, mãe, irmã, cunhada, tia ou amiga. Não me assusta estar só. Pode parecer treta, mas pelo contrário, agrada-me. O que me apavora é a possível incapacidade. Ninguém tem de levar com ela. Ninguém pode levar com ela...
Mas, o dia de ontem está passado. A noite também, apesar de ter saído da cozinha às duas da manhã onde estive entre massas, recheios, pão ralado e rolo da massa. Onde estive cumprindo um compromisso assumido e ao qual não poderia falhar. Para onde volto logo que saia daqui onde vim para relaxar um pouco.
Quando me sinto cansada e mais vulnerável à doença lembro-me da minha mãe. Deve acontecer com todos. Será? Será que às minhas crias acontece o mesmo ou isto é só coisa de filha que perdeu fisicamente a pessoa mais importante da sua vida? Não o sei. Sei que num acto irreflectido, olhando o espelho que me devolve uns olhos inchados, com as mãos em concha e cheias de água fria, atirando esta para o rosto, me senti a própria dona Celeste lavando a cara. Ela fazia-o sempre do mesmo jeito. Tinha uma pele belíssima que iluminava a sua beleza. A minha mãe era linda...
Olho o dia através da janela da sala. Aqui junto a Lisboa. O monte a separa deste lugar. Enquanto oiço os cortes feitos, as apreciações dos jornalistas aos resultados do Tribunal Constitucional, enquanto vejo os homens do processo Casa Pia regressando aos calaboiços para cumprimento de penas, penso que já é tarde. Para mim que tenho ainda uma maratona para cumprir, na cozinha. Sim, hoje não estou para apreciações a nível do país, da política, ou do social. Das justiças ou da falta delas.
Esperam-me umas horas de trabalho. Espera-me uma festa logo mais à noite onde não sou propriamente a dona da dita nem a que vai divertir-se na dita, mas antes a que vai trabalhar.
Quem diz que aposentada fica com tempo a mais e não sabe o que fazer com ele? Na maior preguiça e arrependendo-se de ter deixado a secretária e o computador de tantos anos?
Eu não. E quero ver se nunca o direi. 
Era isto que esperava para os meus dias. Continuar olhando o relógio. Calculando o tempo que me separa dos meus compromissos e stressando com isto e aquilo. 
Motivos para me sentir viva, produzindo. 
Afinal já que não me sai o euromilhões para produzir sorrisos à toa, ao menos que o sorriso de me sentir feliz , o mantenha na alma, que ri desde que me sinto livre para escolher o que quero para a minha vida. 
Bom sábado para todos, aposentados ou não.

sete de Abril - parabéns



Há namorados e namorados. 
Há aqueles esquecidos. E ignorados. Varridos. 
Pouco ou nada falados. 
Há também aqueles que a gente quer esquecer. Em vão.
E há aqueles que a gente não faz esforço para apagar porque a chama que existiu iluminou a nossa existência por muito tempo.
São os que são lembrados. Fazem-se presentes e nos fazem parar nas esquinas da vida, olhando para trás, reabrindo uma janelinha da vida que já passou e sorrirmos na saudade d'um tempo, d'um momento, d' um sorriso, d' um beijo, de mil abraços, ou d' um sentimento que foi quase, amor para sempre, quase, paixão para sempre, quase, namorado para sempre.
E a solução é recordar. E gosta. 
Na minha vida há pessoas para sempre. Mesmo ausentes. 
Só eu sei ( e mais meia dúzia ) porque hoje coloco aqui este post.
E ainda dou os parabéns àquele que será sempre o " eterno namorado "
Parabéns G.F.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

logo se vê...


Sento-me no sonho de viajar nas asas de um albatroz.  
Sento-me porque não há forma de o fazer de outro jeito. Senão esperar sentada que o sonho se faça presente. Bênção de Deus...
Fecho os olhos e vejo-te. Ali num beco sem saída da minha vontade de imaginar-te pronto também para o sonho. Para o voo. Sem saída, só porque é giro para o sonho e não porque te veja algemado, ou te acorrente sadicamente ao sonho num lugar de memória por onde não possas escapar. 
Mesmo no sonho de voar-te e sonhar-te, te deixo livre e até te dou o privilégio da escolha. Pode ser uma andorinha do mar, pode ser uma gaivota, sabiá ou siripipi. Pode ser um albatroz...
Há um aviso que paira no ar. Que é limpo porque o sol se fez aparecer, brilhando na sua luz e atirando para as sombras dos sonhos que viram pesadelos, a tempestade e as energias mais negativas que nos atrasam a vida e nos castram os sonhos. E nos fazem desencontro.
Ah, o aviso, que paira no ar ...tens razão. Disperso-me e deixo pela metade, propósitos, páginas em branco, lugares que se tornam vazios. Indecifráveis. Não é por mal. É só uma incapacidade muito minha. Embora não seja declarada incapaz, tenho a minha dose, que é que queres?
Só de sonhar-te, sentada e recebendo a luz do astro rei, já me sinto perfeitamente a alucinar, a pairar, na lua, cheia de luz...
O aviso? Tem a ver com o albatroz e aquela velha saga. Sonho antigo. Pássaro exemplar. O tal que acasala uma vez na vida porque é fiel, leal, porque é um pássaro de corpo inteiro e asas gigantes, como os sonhos. Um pássaro para a gente lembrar. Conquistar. 
Com garantia. Forever!
Na verdade é que qualquer banco de pedra, qualquer pedra pequenina que seja, qualquer chãozinho, na beira do meu caminho, sorri para a minha apetência para o sonho de te sentir aí. E por isso é que eu insisto. Persistência nunca fez mal a ninguém. Se queres chama-lhe teimosia. Paranóia. Loucura. Vontade de apanhar. É o que tu quiseres. Estou por tudo. Há uma coisa que eu consigo perceber. Enquanto te sonhar és aquilo que eu quiser. Quando acordar, logo se vê...

The Script "Hall of Fame" - KOKOWÄÄH 2

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Diário de uma reformada - 2


Acordar às 8,30 horas diz-me que estou já a relaxar. Como se fosse sábado.
Dona Pitanga deve estar intrigada com a súbita presença pela casa e na sua vida.
Ganhou um colo mais demorado e quentinho aproveitando os momentos em que estou a tomar o pequeno almoço.
Ah vida boa de quem pode sentar-se para fazer as refeições demoradamente, enquanto olha a televisão e escuta as últimas das cheias que desvastaram o Ribatejo. O distrito de Santarém, mais precisamente. Aqui a poucos kms de mim. 
Imaginem que até o Almonda fez das suas, alagando terras lá para os lados da Zibreira, freguesia da minha amiga Idalina que passou por estas bandas há pouco, a caminho duma Europa mais para norte. Mas também o Zêzere e o Tejo deram largas à sua corrente e vai daí alagaram terras como Constância, Tancos, Barquinha, Golegã, enfim, está tudo a verter águas. As ruas passaram a ser navegáveis e as populações, algumas, isoladas. Bem sei que estas gentes estão habituadas a isto e encaram as inundações como coisa natural e até como espetáculo. Vem a televisão, filma, vêm os bombeiros e levam-nos às compras, andam de barco e ainda dão entrevistas. Uma movida ribatejana que acontece de quando em quando e à força 
de tanto se repetir, permitiu que as populações se precavessem. 
Sabiam que há gente aqui da cidade, e de outras perto, como Tomar, Entroncamento, Abrantes, que sai de casa de propósito para ir ver as cheias? Estou a falar, mas se tivesse com quem ( estão todos a trabalhar, que ironia! as minhas pessoas são mais novas que eu e não pertencem ao regime especial, digo eu ) pois, dizia, que se tivesse com quem, também palmilhava estas terras mais próximas, aquelas que fotografei há 3 semanas e que são ribeirinhas, para ver o efeito das águas, da barragem de Castelo de Bode, enfim, para perceber o que a Natureza é capaz de fazer se o quiser e estiver para aí virada. 
Virada estou eu para mais um dia de kunanguice. Não tenho culpa de estar a chover. Tão pouco de levar isto como se de férias se tratasse. E muito menos de desfrutar desta calma. 
Os passarinhos cantando, um quase silêncio somente interrompido pelos gritos dos miúdos da escola. É a minha sina viver junto de escolas; um dia ainda hei-de perceber o porquê de ser destino; por algum motivo o é, porque sou pessoa de não acreditar em coincidências. 
Habituadas que estamos a falar ao telemóvel quase nos esquecemos do fixo, quem o tem evidentemente e eu tenho-o. Nem sei bem porque o mantenho mas se calhar é uma herança de gente a dar para o conservador, sou-o em algumas coisas. E quando toca, uma criatura fica a olhar espantada para ele e a pensar: Quem será? É gente com certeza, pois não são muitos os que o têm e não consta da lista telefónica, mas ainda assim já tive chamadas anónimas duma doida, por sinal angolana, ( por isso, gente, também as há doidas varridas ), que me telefonava esquizofrenicamente e também me acordava às quatro da manhã para me ouvir. Nunca saberei porquê. 
Tinha sido minha colega do colégio e encontrou-me num site que se chamava sanzalangola e quis ver-me ao fim de quarenta e tal anos, mais precisamente, desde os meus nove anos de idade, idade com que saí do colégio para o liceu. Depois de ter recuperado alguma memória da dita cuja colega, anuí e encontramos-nos. E esta estúpida aqui, que tem a mania de confiar, desconfiando, facilitou. E vai daí, dei-lhe os números de telefone, mails, etc, etc. Pistas, várias pistas para ser lixada, que é mesmo o termo. E fui. Mas já lá vai.
Hoje pela manhã o meu fixo tocou várias vezes. Sabem que estou reformada. E em casa. E ligam. E eu gosto que me liguem. Não deixo aqui o meu número porque corro o risco de não receber nenhuma chamada vossa e poderei (?) eventualmente ficar infeliz. E infeliz é o que não me sinto nem estou a fim, neste momento, gozando os meus dias numa boa. Por enquanto sem pressas nem trabalhos. Apenas, deixando-me levar.
Qualquer pratinho de sopa é fantástico para almoço, quaisquer ovos mexidos, uma fatia de queijo, uma salada, acompanhada de chá verde ou de uma limonada com gengibre ralado e folhas de hortelã, qualquer alimento que escolho a meu bel-prazer é um manjar dos deuses. 
Qual marmita qual carapuça!
Quem disse que dentro de casa o mundo não é interessante? Nem sequer temos mundo? Vocês o disseram? Não sei. Eu. Eu disse-o algumas vezes, que estar em casa era um sufoco. Uma prisão. Uma castração. 
Retiro o que disse. É bom estar em casa. Sair para visitar amigos, andar os quilómetros que me apetecer, ontem foram pelo menos dez quilómetros, antes de ontem até subi ao castelo e percorri as suas muralhas, espiando a cidade e o rio almonda que vai enfurecido a caminho das cachoeiras e da foz. Sair para fazer compras, ir ao cinema, jantar com a minha gente e regressar a casa. 
Que sensação boa é voltar para o meu aconchego sem pressa de dormir, sem pressa de acordar, sem pressa de viver tudo num ápice como se não houvesse amanhã.
Disse-me uma amiga do peito, ( hoje já falei com duas que são daquelas para sempre ), que o importante é viver um dia de cada vez. 
Estou a aprender a fazer isso e a sair-me mesmo, mesmo, bem.
O caminho certo? Acho que finalmente achei. E já não é segredo. Lucidez e tranquilidade. 
Não é a reforma que nos dá isso, mas que ajuda, ajuda...

terça-feira, 2 de abril de 2013

diário de uma reformada



Hoje, são 2 de Abril de 2013 - Terça-feira -Torres Novas ( aaaaaaaah, ainda por aí? perguntam-me espantados e eu respondo - porque não? Não há nada como estarmos de contas feitas e trocos nos bolsos )
Ontem, enquanto andava os 7 kms diários, a horas que se estivesse a trabalhar nunca andaria, telefonou-me uma colega que conheço há 27 anos e com a qual desenvolvi uma relação não só profissional mas de amizade, perguntando-me com alguma, muita, ironia, se tinha saudades do trabalho. Uma colega que foi muito próxima e que geograficamente não o é já. Também ela meteu os papéis para a reforma numa data posterior à minha, estando à espera do dia em que também passará a técnica superior de lazer. 
Perguntou e eu tive que lhe responder com toda a verdade. 
Há como que uma libertação que transborda se sou questionada. Um alívio. Uma pressão a desaparecer. Uma esperança de vida melhor a surgir.
Uma certeza a construir-se. Foi a melhor escolha. Não tenho dúvidas disso. 
Não há como ter saudades. Numa franqueza que tenho sempre quando me olham nos olhos, afirmo que não as tenho. Nenhumas. Já não as tinha nos fins de semana e nas férias, períodos em que batia com a porta e nunca mais voltava a pensar naquele mundo que tantas vezes era desfavorável, injusto, pesado, cobrador e feio. Que tantas vezes foi o pior mundo do mundo. Aquele de que eu queria fugir a sete pés e nunca mais voltar. Aquele que exigia tudo e pouco dava. 
Estou em casa há 2 dias. Como é bom estar em casa por tempo indeterminado...
É o sonho tornado realidade. Um sonho sonhado anos a fio. Que podia realizar-se se um euromilhões o resolvesse. Um sonho que nunca se cumpriu desse modo. 
Nos últimos dias de trabalho, estando nós em férias judiciais e a redução de funcionários sendo uma realidade, o ambiente prestou-se a mais desabafos, tendo chegado um colega ao cúmulo do ridiculamente impossível mas que traduz a saturação, a pressão a que somos sujeitos diariamente. Dizia ele que queria estar no meu lugar e pagava para trocarmos de lugar.
Dei comigo na mesma loucura que ele, respondendo-lhe que não me sentaria no seu lugar por dinheiro algum. Que jamais trocaria...
E na verdade não disse senão a verdade. 
Como posso eu ter saudades?
Estou no segundo dia de boa vida e sinto-me viva, livre, satisfeita e relaxada.
Vislumbram-se no horizonte algumas possibilidades que me deixam tranquila. 
Não quero fazer contas de cabeça mas o saldo é positivo.
Faria se tivesse os bolsos cheios de dinheiro para gastar à la garder!...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

desejos


Semeio estrelas no céu
Com a minha vara de condão
P´ra dar brilho à noite breu
Que escurece o teu coração

Não feches a janela à luz
Que aos poucos te vai chegar
No brilho que a conduz
A esperança te quer abraçar

m.c.s.


domingo, 31 de março de 2013

ser um albatroz...


Alguém muito especial, me ensinou tudo o que sei sobre o albatroz.
Alguém que amava os albatrozes. E de barco, com os binóculos apontados na direcção destas aves de grande porte que fazem dois metros de abertura de asas, assistia horas perdidas ou encontradas, ao voo rasante que faziam felizes, acompanhando os barcos que navegavam ao sabor das ondas e no marulhar do mar, para sul. O sul mais a sul que este sul...
Alguém que nos sucessivos e ansiados encontros com os albatrozes os tratava por amigos e os sentia amigos, numa elevação espiritual singular.
Alguém que me transmitiu que o albatroz é uma ave que gosta de viver livremente mas que uma vez no ano vai para terra para acasalar. E constituir assim família com a sua parceira de quem é fiel a vida toda. 
O albatroz reconhece a sua parceira no meio de uma grande povoação de aves. A que conquista de novo ou mesmo aquela que é antiga. Como o faz? Dançando.
Nos movimentos se entendem e se reconhecem...a dança como instrumento de linguagem para a sedução. Para o entendimento...
Alguém muito especial que amava tanto o albatroz que dizia que se um dia voltasse de novo queria voltar albatroz.
Alguém tão especial que é dono desta frase que eu tive a felicidade de receber de presente, num passado, passado já há algum tempo, o suficiente para muitas vezes duvidar se existiu ou foi fruto da minha imaginação, mas que ficará para a eternidade:
- Gosto tanto, tanto, tanto de ti, que acho que te amo. 
E hoje, só porque é sábado de aleluia, o pequeno aparelho de televisão transmite um programa sobre o albatroz, gosto de dança, de fidelidade, de sedução, paixões, convicções, espiritualidade, de declarações de afectos e aprendi a amar o albatroz, afirmo que:
Eu queria ser um albatroz...

Na sexta-feira santa


Não conduzo. O carro, esse deixei-o ir quando o levaram. Como deixo ir quem de mim se quer afastar. Se vai é porque não me pertence. Se pertencer, de certo volta. Já dizia alguém que inventa pensamentos, ditados e outros ditos e quem sabe mexericos.
Mas voltando à vaca fria, como não conduzo, eis-me aqui deixando-me ser conduzida. 
Viagens atrás de viagens, ele é de autocarro, ele é de comboio, sempre carregada que nem uma burra, p' ra não dizer, como se diz por estas bandas, que nem uma mula, porque fica feio, nunca achei piada à palavra até porque quando algum branco ou negro chamava de mulata a quem nem era branca nem negra a resposta invariavelmente era: Não sou filha de mula, acompanhada de mil palavrões que não a tornavam, à dita, melhor pessoa. E confesso que fiquei traumatizada com essa ofensa e por isso mula é animal que não tem a minha simpatia. 
Burra está de bom tamanho porque é isso que sou, foi isso que fui. Mil vezes burra de acreditar que quem tem uma vez motorista, para sempre motorista.
Hoje em dia e embora me custe admitir olhos nos olhos da minha inércia,, o acomodar baila-me no pensamento e também uma frase batida: Agora já vais tarde, maria clara. Agora tarde piaste, que é mesmo assim. Até porque burro velho não toma ensino e deixá-los aos que gostam e sabem, conduzir e conduzir-se que eu que não conduzo, aposto com o maior entusiasmo na possibilidade de ser conduzida. Porque é a tal coisa, quem não tem cão caça com gato. E dessa espécie percebo eu...
Não há automóvel, há autocarro.
E eis-me aqui apreciando as paisagens verdejantes da lezíria. Alagados os campos com a chuva que é mais que muita, o povo ribatejano habituado que está, não lastima a sua sorte.
Onde não há água há giestas amarelas embelezando os caminhos. Já não há retorno, e pode chover até os cães a beberem de pé, pode chover a potes, pás e picaretas ou a cântaros que a primavera se instalou na natureza e até o calendário nos diz que não tarda nada e a hora muda.
E eis-me aqui a pensar que se acaso conduzisse não poderia apreciar a beleza da natureza. Não sei se sou eu a mentalizar-me, se sou só eu arranjando desculpas para os fantasmas criados e que impediram fortemente essa prática corrente e que só não o foi para mim porque nunca peguei o touro pelos cornos porque lá está, existia um motorista que gostava muito de o ser e nunca me incentivou a sê-lo também.
E eis-me aqui, convertida em viajante nesta sexta-feira santa, dizem que sexta-feira da Paixão de Cristo, e quem o diz é da terra que à época, na igreja, tapava os seus santos com panos roxos até que Jesus ressuscitasse. 
Foram tempos, foram crenças, foi outra terra, outro lugar...
Enfim, dou comigo aqui, pensando que afinal aconteceu-me fechar-se uma porta e abrir-se uma janela do tamanho do mundo para nela me empoleirar e daí poder viajar...ate ao fim do dito mundo que me sorri mais desde que a porta se fechou. Desde que dispensei, a pedido, o motorista que me conduzia e não me incentivava a fazê-lo. 
Na verdade, há males que vêem por bem e me dizem que é um facto não conduzir mas sou conduzida pelas mãos de Deus o que é uma benção e o meu mundo não parou de crescer.
E eis-me aqui, reflectindo porque hoje é sexta-feira santa e estou em viagem...

reflectindo

A intransigência é uma falsa questão. Engana e enfurece o próprio.
Castra-o.
Digo eu, que não gosto de beber do meu próprio veneno.

o último dia, a última vez




Acordei cedo. É o meu último dia de oficial de justiça. Em Alcanena. 
Sempre me considerei funcionária do tribunal de Torres Novas, numa posse conferida pelo estágio e pelos anos de funcionária que ali trabalhei, mais de 20, porém foi em Alcanena que passei a última década e mais uns trocados e onde recuperei alguma tranquilidade no desempenho das funções. 
Nunca pensei que o processo de soltar amarras a obrigações que duraram 34 anos, fosse tão pacífico. Sei quem é responsável por isso mas adiante, sempre em frente que atrás vem gente e isso já não interessa nada se estamos na rampa final. Não há como voltar atrás, não quero voltar atrás. 
Houve no meu acordar sobressaltado ao longo da noite e no meu madrugar um sinal de que nada se faz num estalar de dedos nem tão pouco se fecham portas sem olhar para trás. Eu não o faço. Porquê? Porque eu sou passado. Construí-me e reconstruí-me nele até chegar aqui. Não me persegue...muito, mas isso são contas de outro rosário.
Às 7,30 estava pronta e não evito censurar-me por não ter sido assim ao longo dos tempos. Andei a fazer tangentes ao sono, ao banho, ao pequeno almoço e aos autocarros e boleias, às horas, num rés vés campo d'ourique stressado e muitas vezes escorregado e acabado no chão em quedas aparatosas e sofridas. 
Liguei à minha boleia. Não respondeu. Adiantei-me para o computador. A fim de ver as últimas. Alguém d'um grupo a que pertenço se passou da marmita comigo ( educada e polidamente ). Não sei se estou a envelhecer, até porque hoje é último dia no activo, se não me reconheço a deixar a falar quem comigo se quer pegar ou não concorda, não sei se porque não estou para aí virada, merdices, cansam-me. Nego-me a fazer parte delas. Não me apetece, acho enfadonho, pequenino e pouco inteligente. Cansei do diz que disse. As redes sociais têm esse perigo. A bílis das vesículas que têm pouca saúde, castigadas que são pelas coisas gordurosas, a carência de chá, só que tomassem o de caxinde e o ócio a deixarem falar o espírito um pouco doente também dá por vezes momentos de alguma crispação que não faz bem a ninguém e nada se aprende senão por vezes engolir sapos que são de difícil digestão, convenhamos. 
As redes sociais já sabemos têm de tudo e tem também gente que acha fantástico o facebook mas o propósito maior é o de cotucarem quem por lá anda calma e serenamente e a passo certo. Será que não nos acompanham na passada e ficando para trás se vitimizam disparando em todas as direcções? Não o sei. Isto sou eu a reflectir sobre pequenas divergências, pequenos incidentes. Braços de ferro numa força que comigo ficam a ganhar porque eu nem na língua a tenho, temos pena. 
Acabei desligando o computador porque tenho mais vida para além disso e hoje é o meu último dia no tribunal. 
Isso sim, parecia que não mas está a mexer comigo. Depois do livro de ponto assinado não mais colocarei a minha assinatura nos dias. Não terei mais faltas nem férias. Não me sentarei mais na secretária nem entrarei com a minha password no computador de trabalho. Não conversarei com a estrangeira que vem tirar o registo criminal para obter residência em Portugal nem contarei mais nenhuma certidão. Ao telefone não voltarei a dizer: Estou sim, Tribunal de Alcanena, boa tarde...
Isso sim, está a dizer-me que é a última vez. Que foram muitos anos. Que se acaba aqui a minha carreira. 
Que serei reformada, aposentada, livre ou lá o que fôr.
Já estou na rua, a caminho do autocarro. Esta será a minha última viagem com o Rosa, com o Júlio, com as múmias paralíticas do banco da frente, sempre prontas para afiarem as unhas a quem chega, aquelas a quem sempre chamei velhos do Restelo, com a senhora ucraniana que já me tem oferecido boleia que nunca precisei, com a outra que vem do Entroncamento e com todos os ocasionais. 
Na rua o ambiente é o de sempre, de quem trabalha e tem de se deslocar. O TUT passa apressado como que a dizer-me que são 8 e 10. Apresso mais o passo. 
- Querem ver que até hoje perco o autocarro?
Mesmo no último dia, na última vez, há coisas que nunca mudam...


aleluia...


Toca o sino da igreja
Aleluia, aleluia 
É sábado e o sol brilha
E ensaia uns passos de dança
Ressuscitando a minha esperança
No homem...
Na idéia d' um ser tão justo
Tão sábio e tão humilde
Espalhando a fé, a doutrina
No mar, no monte e na mina. 
Há gaivotas esvoaçando
Há vozes ao longe chamando
Há até no madrugar
A Páscoa a fazer-se notar
Aleluia, aleluia...
E o mundo está tão diferente
Tão injusto e descontente
Sem vontade de orar...
É sábado e acordei
Renovando votos de paz
Perdidos, mas que encontrei
Nos dias que já vivi
Nas penas que já sofri
Nos sonhos que quero sem fim
Para o povo, que o merece
E também p'ra mim
Aleluia, aleluia
A esperança é última morrer
Já dizia o pensador
Que acredita na palavra,
Na força da intenção
Cristo em nós vai viver
P'ra sempre permanecer
Se o aceitarmos no Amor...
Já me diz o coração. 

m.c.s.

sábado, 30 de março de 2013

boa Páscoa...


Boa Páscoa...

Uma criatura chega a uma idade que já viu quase tudo. Já passou por quase tudo, já ouviu quase tudo. O quase que falta é o que nos mantêm interessados na vida. E ainda nos vai surpreender.
Esta noite recebi um convite para jantar num restaurante todo XPTO, na baixa, mais precisamente na Praça da Figueira, a escassos metros do local onde vou dormir. E aceitei de olhos fechados. Na hora. A companhia, a melhor do mundo.
Meu pulmão, meu coração, meu aconchego.
E fui. E fomos. E o restaurante é óptimo. A comida muito boa, os empregados muito simpáticos e a relações públicas cinco estrelas. Chama-se Honra e pertence ao Olivier. 
Até aqui, tudo normal, foi mais um jantar. Gostei bastante e amei estar de companhia da minha cria mais velha que hoje particularmente estava linda, faladora e bem disposta. Mas foi mais um jantar. 
De regresso a casa, um grupo de pessoas jovens estava parado à boca da passagem para a travessa. Dois dos jovens sentados nas escadas de acesso à travessa bebiam cerveja como o fazem no Bairro Alto ou no Cais do Sodré . À nossa passagem quase que em uníssono os dois jovens disseram um boa noite sonante que me contagiou respondendo-lhes no mesmo tom.
Mas não ficou por aí. Ao chegarmos à travessa, como que tivessem andado a semear jovens idênticos pelas ruas da baixa, outro encostado a uma parede, mijava. Perdoem-me a palavra mas dizer que estava a urinar, ou a fazer xixi, é pouco. A criatura mijava mesmo para a parede. Contra a parede. À socapa. Na calada da noite. No escuro. 
Mas esta forma de verter águas, como se diz aqui na tuga, fazer menores, como se diz na minha terra nada tem de surpreendente. Os homens têm a maior facilidade em desapertar a braguilha e aí vai disto que é democrático. E a culpa foi das mãezinhas deles que quando começaram a andar e pediam para fazer pipi, as próprias agarravam neles, coitadinhos dos meninos, os seus ai jesus, escolhiam um sítio recatado perto de uma parede e zás. Se o pimpolho não conseguisse, ainda faziam o típico xxxxxxxxxxxxx, para que fosse embalado e desatasse a fazer os ditos menores. Todos sabemos que temos culpa.
Por isso nem articulei um som que fosse, passando ao lado e com o olhar longe daquele espetáculo deprimente.
O que me surpreendeu foi que enquanto a criatura desenvergonhada vertia águas agarrado à minhoca, dizia: Boa Páscoa! 
E eu que cheguei a esta idade e já ouvi quase tudo e mais um par de botas nunca tinha ouvido votos de boa Páscoa, enquanto alguém mijava. Mas, porque a idade não deixa que me desconcerte, retribui ecoando na travessa: Boa Páscoa para si também.
Acontece-me cada uma!...

quinta-feira, 28 de março de 2013

ponto final

E pronto...ponto final numa carreira de 34 anos.
Zás! Bati com a porta.
Não quero olhar para trás, mas não sou pessoa de virar costas só porque sim...
E isso custa...
Acho que vou chorar...longe dos olhares indiscretos.

Se fosse lamechas dizia agora que: Quero o colo da minha mãe.
Eu sou lamechas...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Joe Bonamassa & Beth Hart - I'll Take Care Of You

Viva...


Há dias que a felicidade me acorda para a vida e eu percebo que acordar é o início d'um dia 
singular. Digo eu, que sem motivo especial estou de bem com a vida. Viva...

m.c.s.

constatando


Quanto mais velha, mais lúcida. Quanto mais lúcida mais indiferente aos mal intencionados. 
Digo eu, que faço vista grossa, hoje mais que nunca. 
Será dos óculos?
Não me parece, pois ainda hoje foram bem limpos, é mais de...ah deixem p'ra lá, pois estou 
nessa de - vozes de burro não chegam ao céu.

m.c.s.

terça-feira, 26 de março de 2013

a minha manhã


Nove e qualquer coisa. Saio de casa. Há pouco chovia por isso é urgente o chapéu.
Na rua não está frio nem chove. Olho adiante enquanto penso que devia morar mais perto do metro. Que canseira! 
Quando já avisto a passagem aérea que vai do Sr. Roubado a Odivelas, passa o metro.
- Merda! Pouca sorte. E eu cheia de pressa...
Quando vier de vez para cá tenho de voltar ao passe. É muito mais prático e económico, penso enquanto tiro o cartão verde que fiz no domingo com algumas viagens. 
O metro chega entretanto, que, apesar de eu estar de férias, a vida continua, o país não pára e é terça-feira. Vai cheio que nem um ovo. Nem um lugar disponível. Agarro-me ao varão enquanto aperto a minha carteira de encontro ao peito não vá o diabo tecê-las e umas mãozinhas  astutas me roubem. O computador na pasta de traçar e nas mãos, dois sacos e o chapéu de chuva. 
Dê lá as voltas que der ando sempre com a casa às costas. É quando assim é que me lembro da minha ex-vizinha, mãe dos índios e mulher daquela criatura mansa  que eu sei lá, tão mansa que quando ela se pôs ao fresco, a criatura não desmanchou o sorriso pateta que exibia, chovesse ou fizesse sol. Quando me avistava ao fim da rua ou se cruzava comigo dizia: Olá vizinha, sempre carregada de sacos. Não sei se era uma cassete que disparava ou  se tinha razão. 
O homem barrigudo de camisola encarnada toca-me na mão que agarra o varão. Áspera e calejosa arranha-me os dedos. Grunhe, que é o termo, uma desculpa e olha para o lado.  A rapariga negra de cabeleira postiça e rosto bonita, assiste e apesar de estar ao telefone, olha-me nos olhos, ergue as sobranceiras e sorri. Saio no Campo Grande abandonando a linha amarela e corro para o metro da linha verde. Corro sempre. Deviam estar mais sincronizados nos horários. Entro na última carruagem. 
De novo me agarro ao varão. Ocorre-me a dança. Pisco o olho ao meu eu mais divertido. Havia de ser bonito se eu endoidecesse e desatasse a despir-me para iniciar a dança do varão. Han, maria clara? Estás mesmo boa ou piraste de vez? 
Apesar da hora ser de ponta, das caras carrancudas, dos jovens ouvindo música através dos fones, alheios ao que se passa à sua volta, apesar das pressas, não estou nem contrariada nem mal humorada. P'ra quê? Começa o corre corre dos pedintes que com latas, garrafas d´agua cortadas ao meio e vazias, vão passando e numa cantilena demais conhecida vão chamando a nossa atenção.  
Na estação dos Anjos entra alguém que quase me leva pelos ares. Senta-se de seguida como que por milagre. Uma mulher ainda jovem levantara-se para que se sentasse. Balançando-se para a frente e para trás, o jovem é olhado por todos os que vão à sua frente. Os movimentos assemelham-se ao que os autistas fazem. Atrás dele entrou um cego que já conheço há dez anos nestas andanças. Pedindo e batendo com a bengala na caixa de madeira, chamando a atenção, é mais isso. O jovem levanta-se e tira umas moedas do bolso das calças. Tenta falar com o cego, mas apenas sai o som não articulando palavras. Todos olham de novo para o jovem. Sai a pessoa que ia ao seu lado. Ele oferece o lugar à mulher que ia no seu. Ela recusa. Eu sento-me. 
Ele olha p'ra mim. à frente dele uma mulher toda empiriquitada olha-o.  Ele mexe-se nervoso. Na estação seguinte levanta-se e muda de lugar. Inicia o baloiçar. Mais uma vez todos os que vão à sua frente o olham. 
Saio na estação do Rossio. Na saída da Praça da Figueira. Junto às escadas o homem de sempre. Alto moreno de barbas. Umas vezes tocando outras quieto. Os cães junto dele. Do outro lado os cobertores e os sacos. No domingo, este homem que agora está calmo como sempre que aqui passo o vejo,  falava inglês  como se não houvesse amanhã. Repetia esquizofrenicamente, funk you, funk you e eu que não costumo estar nem aí apeteceu-me dizer-lhe funk you p'ra ti também, meu. Hás-de cá vir pedir-me uma moeda que te conto um conto, mas ia acompanhada e calei-me.
Não chove em Lisboa. Saio para a rua. À boca do metro uma loja que vende camisas e camisolas, casacos e outras peças. D'um mau gosto que até arrepia. Do interior, música aos berros. Um homem de camisa aos quadrados numa extensão do mau gosto da sua loja, lê o jornal. Indiferente à música e a quem passa.
Escuto a música e sorrio. Africana. Faz sentido o sentido de oportunidade. O mundo é dos espertos. Os africanos passeiam-se entre as praças do Rossio, esta e a da estação dos comboios.  Deve ser um chamariz. Olho de novo. Não bate a bota com a perdigota. Ninguém ali é africano. A música não é conhecida. O que me surpreende. Porque se fosse, Irmãos Verdade, Bonga, Paulo Flores, Tito Paris, fazia sentido. Os portugueses gostam. Mas esta música é daquelas que só quem bebe água do Bengo, senta na esteira com a lavadeira da casa a comer feijão d'óleo de palma, compra doces de jinguba na rua, ou gosta de múcua, cola, gimboa, insulta em kimbundo, é que gosta.. Sente-a porque a tem nas entranhas, nas origens, nas raízes que nascem e crescem dentro e fora de si. Dentro de nós...
Avanço pela praça atravessando-a. As pombas indiferentes à minha passagem correm sem levantarem voo  As gaivotas misturam-se em busca dos pedaços de pão e restos de comida que sempre ali existe. A cor do dia assemelha-se ao cacimbo de Luanda. Inspiro com força. Como se o ar da minha terra atravessasse o Atlântico e chegasse até mim para me desejar bom dia.  Sinto um arrepio na pele. Não, não estou em Luanda...ainda. Isto é Lisboa, numa manhã de primavera. Estou de férias e tenho que ir ali mas volto já...   

conversetas com o eu que há em mim...


Chove no Olival Basto. E eu que preciso de ir para a Baixa de Lisboa, já já daqui a meia hora...
Estou um pouco farta deste tempo húmido, pegajoso, melancólico e feio. 
- Como é que é Primavera? Impõe-te minha! 
Ou estás na tua e nós que nos tramemos?
Andas a pedi-las...
Vê-se mesmo que és mulher ( cai-me o carmo e a trindade ). A fazeres-te de díficil e cara. 
Olha, se eu te prometer uma atençãozita, assim em modo de poema, mudas isto?
É que não sou só eu que reclamo e olha que eu não sou de grandes queixas. Todo o mundo neste retângulo de terra aqui no sul duma Europa castigadora que tem uma mulher horrorosa a lixar-nos a mona, os bolsos e a vidinha, todo o mundo mesmo, diz que se ao menos os dias fossem de sol...
Esperança, Primavera, esperança. Tu sabes do que falo. Perfume das flores, sol, dias maiores, encontro com o mar, sonhos coloridos. Preparação para a praia. Fins de semana alegres. Calor. Gelados e sobremesas. Saladas e cerejas. Cerejas, Primavera... ai quem mas dera já cá.
Noites estreladas, luas cheias espelhando a sua luz nas águas do Tejo, grilos, pirilampos...
Olha, queres música mas eu não estou p'ra dá-la. Basta por agora até porque estou cheia de pressa. 
Bem, tenho de procurar um chapéu de chuva e fazer-me à vida, à capital, ao dia que me espera mas não muito. Quanto baste....
Assim como assim, acordei. A minha gente está bem e hoje é terça-feira. Quem sabe me sai o euromilhões?
Isso é que era! Passava já por cima da primavera, olha, temos pena, mas era mesmo assim, e instalava-me no verão do meu sonho desta noite. Sem olhar para trás...
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

viagem


Mãe é Mãe...e não há nada a saber. A dizer. A fazer. 
Quer dizer, mãe mesmo ignorante e silenciosa, faz tudo pelas suas crias. Tudo quer dizer tudo...
...deita-se às duas e meia e acorda às seis. Perdida de cansaço e sono. Pálpebras pesadas, securas, dor de cabeça. Preocupação e aperto no peito.
Olha a sua cria nos movimentos de preparação para mais uma saída, de lágrima no olho. 
Não quer chorar. Mas o lábio e o queixo já estão a tremer...e o coração, ai o coração, apertadinho. Mil tenazes sem dó. Magoando, magoando...
O estômago parece que cai na fraqueza mas não há fome. 
A saudade começa ainda na presença. 
Um telefonema para a praça de taxis diz que está na hora. 
Lá fora chove um chuvisco teimoso, cadenciado e frio. No lusco fusco da manhã se iniciando, o coração de mãe se acinzenta. 
Sacode a cabeça, olha o vôo dos pombos por cima do rinque em frente da casa. Olha os verdes sem fim da primavera que pinta de esperança o monte que a separa da cidade grande. E eleva os olhos aos céus.
- Meu Deus, protege o meu filho.
O abraço chega quando o taxi estaciona em frente da casa. O abraço parte...
Fica o calor, a voz, o aconchego. O amor. 
Fica a vontade de o ver feliz. A sua cria...sangue do seu sangue...
- Estás tão bonito, meu filho! recorda. 
Fica o sorriso complacente de filho que dá o desconto, ao amor de mãe cego e surdo.
Fica o cheiro, a pele, o beijo. O amor. 
- Meu Deus, protege o meu príncipe...

família

foto tukayana.blogspot

renascer


Nasce a flor no meu jardim
Neste sábado de primavera
Espalha-se o perfume de jasmim
E o sol vem até mim
Num doce e morno abraçar
Embrulhado de quimeras
E canções de embalar
Nasce a esperança
Numa ambição redobrada
Na nova estação.
Brota-me a emoção
Tatuada na minha pele
E no verso que me faltava,
Ao poema por inventar
Nasce a vontade de amar...
Tocam sinos dentro de mim
Preparam-se foguetes p'rá festa 
Chamo a fanfarra e o kimbanda
Ofereço a mão para a sina
E nas linhas vejo caminhos
E pontes
Que me levam p'rá outra banda
Onde quero ficar
Bebendo nas velhas fontes 
Para voltar a sonhar...
Ofereço-me às noites estreladas
À lua que enfeita o céu
E também às madrugadas
Ao chão barrento me ofereço
Ao crepúsculo feiticeiro
E ao albatroz do sul
Que a voar é primeiro
Ofereço-me às tempestades
À onda e ao seu marulhar
Ofereço-me feliz
Qual alegre petiz 
Ao desejo de recomeçar.

m.c.s.

explanação



Dizem que as mulheres são invejosas, ciumentas, más com as outras, suas semelhantes.
Trabalhar com mulheres? Deus que me livre. Todos dizem. Até mulher. 
Fala barato, estão aí. E intriguistas.  Linguarudas, inconvenientes, maldizentes. Mesquinhas, sarcásticas, snobes e outros " atributos " menos nobres. 
O homem diz que ela é um bicho raro, complicado, medroso,  moído e muito chato. Que cabeça de mulher ninguém entende, nem ela.  Que chora com razão e sem ela. 
Quer tudo o que não tem e tem tudo o que não precisa. Se ofende à toa, ri do que não tem graça e nem sempre tem graça quando ri.  Diz que é obstinada, mandona, regateira. Quer ter sempre razão. Que muda de humor como de cueca, quer estar sempre onde não está e se acha muito. A rainha do sabá. 
Diz ainda que mulher é burra e inventou até a loira para dar " pancada ". 
Diz também que fala demais...
Não é?
Eu que sou mulher sei que é assim. Homem descomplica mas foi atirando farpas e a mulher caíu que nem patinho e acho até que para agradar ao homem, concordou, mesmo se não é loira. Claro... A descrição é perfeita parece que estou a ouvi-la num falso e íntimo momento de intimidade. Depois, enfiou a carapuça e vestiu a camisola desse " bicho " raro, desse ser que ninguém entende nem ela. E muito depois arrependeu-se e revoltou-se, sendo que podia dizer-se que já foi tarde, mas não, ainda foi a tempo. Digo eu e todo o mundo que tem olhos na cara para ver...
Os tempos estão aí a dizê-lo.
Mas enquanto isso, mulher foi parindo e dando seres; mulheres e homens. E criando umas e outros de forma diferente. Para não serem semelhantes. Deu nisto. Chegamos aqui neste ponto da vida. 
O caminho foi árduo para a mulher, favorável para o homem. 
- Ah porque ele saiu de casa para ir pescar e caçar enquanto ela ficou na caverna passivamente esperando alimento, dizem. 
Ah pois é. Ainda hoje, de lazer, de vaidade, de precisão de instintos duvidosos, o homem sai de casa para caçar e pescar e muitas vezes aves raras e nem um dedinho apontando. Que mulher pode até disparar,  ferir, mas não mata.  No mais das vezes...
Enfim, mulher é isso tudo aí na pior das hipóteses e dependendo do ponto de vista. Até por ser espontânea e  genuína sabe olhar-se ao espelho e vislumbrar um ser com todos os supostos defeitos e qualidades. 
Sabe ficar quieta e se interrogar, embora o mundo ache que está calada porque está triste, amuada, inventando sarna para se coçar, ou congeminando alguma para se vingar, se evidenciar, ou mesmo só para se envaidecer. Só para o seu melhor viver. O tal bem-bom que dizem que mulher gosta. E...? Bem-bom todo o mundo inteligente devia gostar.
Ah e não batam mais no ceguinho, martelando na tecla que mulher quando não quer sexo inventa dor de cabeça. A cabeça de mulher pode ser inventora mas se calhar por isso mesmo de vez em quando doi ( até de ouvir tanta baboseira )  e quando doi não há passagem de mão pelo pêlo que alivie e convença que é remédio. Mulher sabe o que quer e quando não quer não há nada a fazer. Como sempre devia ser...
Sou mulher. Conheço esse mundo feminino porque sou observadora e não cusca. Porque sou curiosa e não quadrilheira. Porque a minha inteligência tem que jogar a meu favor e não porque sou burra, teimosa, abelhuda ou oportunista. 
Conheço a mulher porque me conheço um pouco nesse limite que quer queiramos quer não, existe, e ainda bem e posso dizer que mulher é complicada porque o mundo a complicou. Num oportunismo feroz. Num salve-se quem puder e quem vai poder vai ser o homem. Mas também porque mulher gosta de ser muitas coisas. Do desafio. Do risco. De se pôr à prova e de se ultrapassar. 
Gosta de desfazer nós. De fazer da sua vida, palavras cruzadas. 
Gosta de estar na sanita, falando ao telefone e lendo a última página do seu livro preferido ao mesmo tempo que se olha no espelho e descobre mais uma ruga, enquanto ralha com o cão que está a roer o seu chinelo e acabou de fazer um buraco na sua collant acabadinha de estrear e que lhe custou os olhos da cara... 
Sou mulher. E gosto. Nem me imagino não o sendo. Ou imagino? Pois. Se não o fosse, queria ser assim como sou. Seria um problema porque homem recusa ser curioso, sensível, sonhador, ter medo, dúvidas, angústias. Homem que se diz homem quer ser durão, caçador, machão. E os outros, os que não o são, não são...
Se eu fosse homem seria com certeza dos outros, porque defendo que homem e mulher é tudo a mesma coisa. Ser, criatura, pessoa sem sexo nem distinção. Apenas mente e coração.
O resto, é opinião. Pormenor. Detalhe. Nunca condição.
Gosto da minha existência. Porquê? perguntarão.
Porque sim, responde a mulher. Porque...enfim, paro aqui ficando para uma próxima a explicação pormenorizada da questão,  porque por ser mulher é também isto. Um defender acérrimo da nossa posição, uma longa explanação acerca do assunto.
Uma seca, dirão os machos. Uma seca porque não falo de sexo, de gajas, de engates. E a elas parece que as estou a ouvir: Que seca! Apre! Estou eu aqui a perder tempo! A cansar a minha beleza...Porque não falo de fazer o amor, de gajos e de flirts. 
Afinal, não somos todos humanos? Bruxo! A massa é a mesma. É que o segredo não está na massa mas no que lá se põe...
O segredo? Chama-se conteúdo.

Já sou Titivó

Bem vindo Isaac!

Kaluandas minhas kambas

As Kalus em Luanda num almoço de fraternização onde eu não estive fisicamente mas de alma e coração acompanhei esse sábado feliz.

quarta-feira, 20 de março de 2013

PilotCAM View into Luanda, ANGOLA

day after


- " O meu pai é o melhor pai do mundo " disse uma menina de 6 anos, talvez...
- Porquê? Perguntaram-lhe. 
- Porque me protege. Disse a menina.
Pai é para isso mesmo. Para proteger as suas crias. 
Pai é para Amar. Até ao infinito. 
Para lá de todos os céus, do Universo, da Eternidade.
O meu pai amou-me até à exaustão. 
Para lá dos seus limites. Para lá do possível. 
E sim, como a menina disse, protegeu-me sempre. Protege-me...
Sim, o meu pai foi o melhor pai do mundo.
Sim, o meu pai está presente na minha vida. Em cada atitude, em cada decisão, em cada olhar, em cada pensamento, em cada expectativa...
Amo-te pai.

em jeito de retrospectiva



Uma criatura começa a trabalhar cedinho. Vinte e poucos anos. Desconta para a reforma anos a fio vendo essa mesma dita reforma lá longe. Como algo que pode nem acontecer de tão distante que está. Até se aborrece de ver os descontos na folha de vencimento. Quando lhe contam o tempo de serviço faz contas e ainda falta tanto...
O tempo passa. Anos mais anos e nós nem damos por isso. 
Chega um dia que temos cabelos brancos e vamos a correr pintá-los. Os filhos já não são crianças nem adolescentes. Vão para a faculdade. 
Há uma frase recorrente sobretudo quando estamos fartos de tribunais, magistrados, colegas, advogados, presos, autópsias, julgamentos, processos, público, mas na qual nem nós acreditamos: Quando me reformar...como remédio para todos os nossos aborrecimentos, para as nossas prisões e deveres.
E a reforma ainda nos parece distante. 
De repente alguém nos diz que deviamos ir a Lisboa. À Direcção Geral. Que temos mais a ganhar que a perder. E a gente até acredita. E sem pensar muito vai. E sem pensar muito porque se o fizer desiste, até faz o requerimento e entrega-o.
E pensa depois: Será que fiz bem? E algo diz dentro de nós, que sim. Algo forte. 
Foi assim comigo. Como que a mão de Deus a tocar-me e a acenar-me. Como que Sô Santos e Dona Celeste, avô Carvalho, todos os meus entes já noutra dimensão, o Universo a gritar-me que fiz bem. 
Nunca soube explicar muito bem porque fui tão fácil de convencer mas na verdade nunca me arrependi de a 28 de Dezembro de 2011 apanhar o autocarro para Lisboa e chegar ao Campos da Justiça determinada a deixar lá o meu pedido para a reforma. 
Esqueci depois. Nos meses seguintes tudo aconteceu e se passou com normalidade. 
Quando parti o ombro e fiquei em casa dois meses pude perceber muita coisa. Adquiri aí nesse tempo de imobilidade e incapacidade, paciência, a paciência que não tinha. Que me permitiu voltar ao trabalho e esperar pacientemente por este dia. O dia da minha carta de alforria como costumo dizer por brincadeira. 
Chegou. Hoje. Há quem não acredite no que está para além de...
Há quem ache que o destino é uma fantochada. Mas na verdade hoje estava com uma pessoa que gosto muito e que já não via há muito tempo por força das alterações nas nossas vidas, quando abri a caixa do correio. E foi essa pessoa, minha amiga do peito, a primeira a dar-me os parabéns. E eu não acredito em coincidências. Mas fez sentido que ela estivesse comigo nesse momento já que esteve presente quase sempre nestes últimos 6 anos. Em momentos muitos difíceis. Em momentos muito bons também. Mão de Deus, pensei eu.
Serei desvinculada do serviço a 31 de Março. Também faz sentido. E sobre esta data não darei qualquer explicação mas se a desse vocês sorririam e abanariam a cabeça afirmativamente. Na verdade há mudanças grandes que a gente tem de viver. E há fins que dão lugar a reinícios. Renascimento. De facto não acredito em coincidências...
Tenho a certeza de que vou ser feliz. Não é arrogância não. Tal como me surpreendo da forma serena, bem tranquila como recebi essa carta, também serenamente sinto que vou ficar bem. 
A fé por vezes é apenas acreditarmos em nós e no universo. O resto...o resto acontece.

( 18 de Março de 2013 )

terça-feira, 19 de março de 2013

hoje e sempre

Sempre no meu coração, Pai.

chegou!


segunda-feira, 18 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

luanda junto à velha igreja da nazaré


não tão de repente assim...


De repente surgiu uma saudade. De ti... 
Vá lá, não tão de repente assim, porque ela mora no meu coração permanentemente. Ocupou-me as águas furtadas, todas as assoalhadas, há quase quatro décadas e permanece. Até quando? Até sempre... num direito de usocapião.
Talvez seja mais acertivo dizer que, uma saudade avassaladora. Com palpitações e aperto no peito. 
Paixão. Daquelas que não pensamos, não comemos, não dormimos , não discernimos. Não interessa mais nada, focados, cativos que estamos no motivo de tão dominador sentimento. 
Com imagens formadas nas cores do arco-íris, os cheiros fortes, os sons intensos, os movimentos selvagens, o sorriso pateta que sempre se me desenha no rosto e na mente se te penso e sinto para lá do horizonte, a lágrima brincando de toca e foge e um desejo incontrolável de fazer as malas e partir...
De repente sonhei sotaqueado, belo e gargalhado. Sonhei coloridamente. E quis chegar. 
E quis entrar no ritmo da cidade, apenas entrar...
Apenas filha, amiga, parente. Apenas mulher, alma livre e primária. 
Solta, leve e inconsequente. Apenas kaluanda. Apenas angolana.
Apenas eu...ao encontro de mim.
De repente, tão de repente, que acordei neste sábado simpático da europa e mais uma a somar a tantas vezes, percebi, que mesmo quando mergulho no inconsciente que o repouso me dá, tenho áfrica acordada, em mim. Queimando de tanta paixão. Alimentando-me de tanto amor.
De repente, não tão de repente assim afinal, surgiu uma saudade feroz. De ti...

sexta-feira, 15 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

foz do rio Kuanza - Angola


esperando o Papa


Tenho estado a pensar que tenho uma paciência invejável. De Jó.  
De corno. Deve ser da experiência... 
Ai! Perdão, mil vezes perdão, pelo palavrão. 
Não percebo isto mas saem-me uns palavrões enquanto aguardo. 
É que paciência tem limites e bem sei que de esperas se faz a esperança mas não estamos em época de bons prenúncios por isso estou mais para o ditado que diz que quem espera desespera. 
O cortinado mexe. O povo vibra. É desta que vamos saber quem é o novo Papa. 
" Habemus Papam" diz o decano.
Já vai sendo horas digo eu para com os meus botões, meu Deus!
Será Francisco. Gosto do nome, chará do meu mano Zé. 
Jorge Bergoglio arcebispo de Buenos Aires, de 76 anos. 
Pronto já temos Papa. Com nome. 
Com rosto. 
Com bom ar. Voz poderosa. Expressivo. Gosto.
Gosto. De um Papa cuja origem é de um país colonizado. 
Que Deus o ajude. E a nós também. Que o Mundo melhore.

terça-feira, 12 de março de 2013

reflectindo

Costumo contar os passos que dou para saber o terreno que piso.
Digo eu, que gosto de saber a quantas ando.


m.c.s.