segunda-feira, 9 de abril de 2012

segunda-feira

Hoje estou mais ou menos assim.
Com a macaca...
Segunda-feira, custa!!!

sábado, 7 de abril de 2012

Parabéns a ti


O que é que a gente faz se um outro alguém sorri numa página deste progresso que nunca que pensei nos dias da minha vida passada, desse tempo em que apenas existias tu e tu e sempre só tu e tudo o que tu dizias, cantavas, rias, sentias, sonhavas? O que é que a gente faz se sem te chamar, procurar, me apareces no canto direito que nunca pensei ver-te numa máquina à distância de um clique quatro décadas depois como se fosse hoje me dizendo: Olá, sabe que o cigarro faz mal? E eu atrevida te respondendo no alto dos meus 18 anos ingénuos e sonhadores, acabados de fazer mas te conhecendo de outras estórias de bairro, de amigos de infância te citando, te gargalhando das piadas que contavas, do partidas que aprontavas?O que é que a gente faz se estás ali me olhando e me sorrindo como que a dizeres-me: clara, branca das neves,  parece ainda estou a ouvir a canção, eu vou rifar meu coração, vou fazer leilão, vou dá-lo a quem der mais...O que é que a gente faz se te sonhou  um dia namorado, príncipe encantado e para sempre guardado na memória sem idade que um dia te hei-de perder, perder-me de mim, mas sempre o eterno namorado que acreditei um  dia se apaixonou por mim?O que é que a gente faz se ainda há pouco te sonhei de novo, que nestas coisas dos sonhos sempre estiveste presente, nesse ausente de toda a vida e um dia até te chamei  e vieste que parecia makumba de kimbanda, juro por sangue de cristo?Não fui lançar os búzios, não te vi nas cartas de cartomante, nem tão pouco no mapa astral, vi-te mesmo de verdade que nem queria acreditar que te chamei no sonho e vieste que ficou uma estória do além para contar aos amigos que te conhecem demais?O que é que a gente faz se parece estás ali não só a rir mas parece estás a dizer: Córaaaaaaaaage...
Não adianta fingir  que não te vi. Não adianta esquecer que te amei. Não adianta querer deixar o dia passar. Não adianta clicar e apagar...
Se me perguntasses de novo o que és para mim, de novo te diria, eterno namorado, que não sinto doutro jeito neste jeito romântico de te ver no passado...
Parece de novo te vejo sorrir, encabular, olha tu encabulando, que até me apetece escrever lolololol que essa tem mesmo graça,  e dizer: clara, branca das neves, córaaaaage...
Por isso hoje que te sonhei e te vi  depois, aqui alegrando com o teu sorriso de sempre a minha página deste progresso que há quatro décadas nunca que sonhámos que ia acontecer,  me mostrando que estás vivo no teu coração batendo, no meu coração ecoando, me fazes ter a coragem que apelavas brincando, para como documento que tem o valor que tem, te deixar meus votos de dia feliz neste sábado...aleluia!
Te dou os Parabéns.
E um abraço maior do que o universo, na saudade. Num tamanho maior do que a distância que vai daqui até ao sul, muito mais a sul que o nosso sul. Lá onde os dias se deitam alegremente nas noites mágicas e nos embalam os sonhos que se fazem eternos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

povo, muxima e fé


Se sorrio
Ao sol da tarde
E converso ao luar
Se chamo 
Amizade
Às gentes da minha rua
Se sou amante do mar
E me entrego
E me rendo
E sou sua
Se canto
A chuva e a terra
As kiandas 
E calemas
As acácias 
E o não à guerra
Então 
Eu sou angolana
Povo, muxima e fé
E alimento a paz na raiz
E faço crescer na savana
No planalto-
Na mata e no deserto,

E tenho como certo,
Um belo e grande país


m.c.s.

ainda um olhar sobre Alfama












fotos tukayana,blogspot

pitanga, pitanguinha...

foto tukayana.blogspot

sexta-feira

foto tukayana.blogspot
Ela olha a rua com atenção.
E desce para o sofá. E enrola-se num novelo.  
Se ouve um ruído, assusta-se. E foge. Bate com a cabeça na cómoda da entrada. Tenho a mania das cómodas. Dão arrumação. É por isso. Esta não tem abertura fácil e por muito que se pintasse de encarnado, porque me ocorre o encarnado? Por muito que se pintasse de verde, azul ou às bolinhas, ela conseguiria abrir as suas gavetas.
Ela conhece os cantos à casa mas age como convidada. Abusada. Vem cá uma vez por outra. Esta não é a casa dela...
Cheia de truques corre  as divisões à procura de um lugar a que chame seu, com propriedade. Numa posse de gata siamesa. O único quarto que a seduz está fechado. No trinco. D'outras vezes faz travessuras que complicam a logística. Sobe para o guarda-vestidos. É preciso apelar à imaginação, armar em bombeiro para a socorrer. Mete-se dentro do guarda-vestidos. E sobe à cómoda. A decisão mais acertada sem dúvida que é selar o quarto. Não é p'ra mim nem p'ra ela. Não é p'ra ninguém. Impedida que fica de o tomar de assalto, anda ao acaso pela casa, cheirando tudo o que encontra. Foi ter comigo à cozinha. Estava a estrelar ovos caseiros; hoje não se come carne. Subiu à bancada e pôs-se ao meu lado. Acabados de os colocar no prato, lampeira foi cheirar. 
-Tu queimas-te Pitanga. Dou comigo a falar-lhe como se acreditasse que teria a ousadia e a estupidez de lhes tocar quando ainda ferviam. Dou comigo a falar-lhe como se fosse gente. Pequena. Como se fosse mãe...
Fiz limonada que adocei com mel. Poisei a jarra. Veio cheirar. Mas não tocou. Ri-me p'ra ela e ela olhou para mim inexpressivamente no seu olhar azul maravilhoso de um azul celeste puro que me deslumbra. Dou com ela a olhar p'ra mim inúmeras vezes. Mais do que os humanos. Na verdade para que quero eu que olhem p'ra mim? Poucos são os que sustentam o olhar. Fossem como a Pitanga e se calhar era eu que de vez em quando desviava o olhar. Não é todos os dias que nos enfrentam...ocorre-me  o Prenda. Um cão esguio e bonito que foi assim batizado porque chegou-nos vindo do bairro Prenda. Não só nos olhava como ria mostrando a dentuça até às gengivas. 
Começa a chover. Parecem morteiros, parece que o prédio vai ruir de um momento para o outro. Cai granizo como chuva. Em catadupa as bolas de granizo fazem-se ouvir na clarabóia. Ela, enlouquecida corre para a porta. Bate na cómoda. Porque tenho eu a mania das cómodas? Volta para trás e foge para o meu quarto. Aposto que se meteu debaixo da cama completamente transfigurada. Não é p'ra menos. Tivesse eu alguém aqui comigo e tinha-lhe saltado para o colo, tapava a cabeça e esperava, rezando a Santa Bárbara, que no céu estás inscrita e na terra assinalada, onde vais bárbara? Vou espalhar esta trovoada...parece estou na banda em dia de temporal.  E oiço o sô Santos dizer: Calem-se! Porque eu e o mano Zé não respeitávamos Jesus a ralhar. Era o que a mãe dizia: Olha Jesus a ralhar e se ela dizia eu acreditava mas ele não vinha empunhando o cavalo marinho e enquanto vinha e não vinha, o medo fazia rir, gritar e implicar um com o outro.
É sexta-feira santa. Da Paixão de Cristo, como se dizia nesse tempo, quando ia à igreja de s. Paulo com a madrinha e as filhas, Fatinha, Ana Maria e Hortênsia e todas  rezávamo e sofriamos  como condenadas como se fôssemos culpadas de toda traição que os amigos de Jesus lhe fizeram. Não gostava de ver os santos tapados com panos roxos na semana santa. Deprimia-me e achava uma violência os pobrezinhos não poderem observar os vizinhos e os devotos que iam em peregrinação rezar aos seus altares. Não gostava da imposição do peixe na refeição. Era pecado comer carne neste dia. Nessa altura os gatos tinham sorte. Comiam as cabeças e as espinhas dos peixes e tinham um banquete dos diabos. Em dia de sexta-feira santa...
Não pára de chover. Nem de trovejar. Nem de cair granizo na clarabóia. 
- Pitanga, pitangaaaaaaaa, anda cá. Faço voz de mimo a ver se ela cai. E se sente menos sozinha no pânico do temporal que caiu sobre o Olival. - Pitangaaaaa, anda cá. E a Pitanga vem. Bati no sofá a dizer-lhe para subir, como faço sempre que a olho e não está no meu sofá. E ela sobe. E vem aninhar-se no meu colo. Meia volta. Volta e meia e lá se acomoda. Mentalmnete oro. Santa Bárbara bendita que no céu estás inscrita e na terra assinalada...
Já não chove no Olival. O temporal passou. Vejo através da janela as nuvens rasantes ao monte que me separa do Lumiar. Elas vêm da banda. Quem sabe?! Vêm do mar, passam o Tejo, a Expo e vêm por aí numa velocidade parece que levaram berrida do dono das maçãs da índia do quintal da Dona Leonor. A Nona, como carinhosamente o sr. Alfeu, o homem da berrida, pai do Caty e do Edgar a tratava. Olho-as seguindo o seu destino. Na banda está sol. Calor de rachar, são as notícias que me chegam. 
A Pitanga voltou para o sofá junto à janela. Depois de espreitar a rua, enrolou-se num novelo. Tem vida de gato. Santa.Comer, beber e dormir. Esqueço-me. Ainda bem que me esqueço.  ´
É sexta-feira. Como na canção. Não é uma sexta-feira qualquer. É Santa. Na banda, aqui e em qualquer lugar cristão. Tenho p'ra mim que comer carne não é pecado. O único pecado mortal é não amar. Se não houver próximo, amemo-nos e sejamos felizes. Domingo é dia de Páscoa...

por Alfama...








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quinta-feira, 5 de abril de 2012

diário de férias



Saio de casa decidida a atravessar a ponte que me levará se eu quiser, para a Póvoa de Stº Adrião à direita e para Odivelas à esquerda. No fundo da ponte, uma travagem é o aviso para estar atenta mesmo se atravesso na passadeira. Olho para o Senhor Roubado e os seus 3 ou 4 prédios, não mais,  foi suficiente para fazer do lugar uma estação de metro. A penúltima da linha amarela. Agora que o custo é o mesmo com certeza a ponte que une as duas estações, em hora de ponta, não congestionará, nem os automóveis no parque se aglomerarão do mesmo jeito. Haverá quem possa sair de casa a pé para o metropolitano na estação de Odivelas. Meço com o olhar métrico que sei ser bastante assertivo, e sei  porque em tempos, quando trabalhava na sala de audiências, nos julgamentos de processos de terras e extremas e marcos e passagens era comum uma testemunha  falar em metros  tomando como comparação o comprimento da sala de audiências e estar completamente fora e eu fazendo o mesmo raciocínio no meu olhar métrico, falhava por pouco. 
Olho a estação de Odivelas e meço as distâncias. Não há dúvida. Está ela por ela, mas gosto bem mais deste percurso. Sempre a direito. Faço a ponte e zás. É um ver se te avias a caminho da estação. Rua larga, movimentada,  passeios largos, sem casas, muito arejamento. Outras pessoas. À noite, menos inseguro.  Ainda não o fiz sozinha mas já o fiz acompanhada. E não estou enganada. 
À porta, um africano com a sua venda de artesanato estendida no chão. Um vendedor ambulante do lado esquerdo vende cintos e malas. Bolsas de mão. O indiano " quê frô " oferece-me uma rosa vermelha que rejeito. A menina do quiosque à coca do que se passa, espreita a rua através das revistas e jornais. Olho-a e ela disfarça. Ou não. Pode ter sido coincidência.
Tiro o bilhete e subo. Que sorte. De novo o metro parado à espera do seu tempo para iniciar a viagem. Linha amarela. Que vai para o Rato. E me há-de deixar no Marquês. Quem gosta de desdenhar os subúrbios diz que a linha amarela é ralé. Como os suburbanos. Eu não acho. Mas eu sou suspeita. Sento-me. O único ocupante de um espaço de dois bancos, virados um para o outro, descruza as pernas quando me sento mas cruza-as de novo quando percebe que não vou sentar-me de frente p'ra ele. Olha-me de alto a baixo. Olho-o no rosto. Desvia o olhar e tranca a expressão. É pessoa de 30 a 35 anos. Coloco os fones e ligo o MP4. Aos poucos vão chegando outras pessoas. Cruzo as pernas para voltar a descruzar de seguida. Uma mulher senta-se em frente a mim. Cabelo encaracolado preto, com as raízes brancas. Só as raízes. Com um ar lavadinho. Tranca a expressão. O metro começa a andar. Depressa vejo o Olival e o Senhor Roubado. Quase dá p'ra ver a minha rua. O prédio azul do Mulemba'Xangola lá está. A Mizé e a tia Helena também lá estarão na sua faina, certamente. Grande piroseira, o único condomínio fechado dessa terra, pintado de azul mar e  céu. Quem teria sido o iluminado? De facto, olhando de longe e d'alto dou razão a umas alminhas que dizem que o Olival não é nada. Quer dizer, nada, nada é exagero, pois é freguesia, mas por pouco tempo mais. Vai na leva como vão as outras. E deve pouco à beleza. Um amontoado de prédios dos anos 60 e 70, perfilados e entre eles ruas paralelas e perpendiculares. Nos passeios, palmeiras, laranjeiras e ameixoeiras, uma igreja, um rinque para desporto e  lojas. Duas agências bancárias. Uma delas foi assaltada e virou notícia porque fez reféns. E tem escola. Nem cemitério tem. Ah pois é. A igreja tem casa mortuária. Eu que o diga que quando assentei arraiais por lá, muito me custava chegar à janela e ver à porta criaturas vestidas de preto, carpindo o seu desgosto ao longo da noite. Mas pior que isso era ver a porta aberta e quase perceber o morto deitado no caixão ali à distância de...quase nada. Agora isso não acontece porque para além de terem sido feitas obras, os vivos não querem velar os seus mortos noite fora e fecham-nos e levam a chave para voltarem depois d'um belo sono.
Estou com os meus pensamentos quando percebo que o homem da frente fala com a parceira do lado. Ela não me parece querer alimentar conversa. Olha-me como que a pedir socorro. Socorro pedia eu se tivesse lata para isso, abalroada que fui por uma mulher gordíssima que abriu asas e poisou o braço direito na minha cintura com alguma predisposição para me expulsar do lugar que paguei e com a sua coxa a tocar a minha num despudor gordurento que me revolve as vísceras. Ainda não chegamos ao Campo Grande e esta mulher é criatura para tomar posse dos dois bancos até ao Marquês sem sequer pestanejar tendo tido em mente que ao carregar o seu cartão não comprara um lugar mas um metropolitano inteiro.
O casal da frente, sim, porque enquanto eu mentalmente tecia estas considerações acerca da gorda do lado, o casal da frente teve tempo para iniciar o que pode ser um franco e alegre flirt a avaliar pela cara dele sorrindo descontraidamente e o derretimento dela. Deixei de lhes prestar atenção, quando no Marquês me levantei ao mesmo tempo que o homem que sem pestanejar abandonou o lugar sem sequer se despedir da rapariga nem tão pouco olhar para trás. Como é que pode? Já esfregava as mãos de contente por estar a assisitir ao início de um romance e eis que subitamente ele estragou tudo. É assim. Quase sempre eles estragam tudo.  Acho que ela pensou a mesma coisa a avaliar pelo rosto de desilusão com que ficou. Deixei-a e saí direita ao elevador. Já não me apetece fazer as escadas e se por enquanto o elevador funciona, porque não? Prático, e rápido depressa me pûs no andar de cima. Ia para o Terreiro do Paço, logo teria que apanhar a linha azul. A passadeira que faz par com outra de sentido contrário está avariada há muitos meses. Acho que vai ficar assim para sempre. As escadas rolantes que descem ao metro, também. 
Imagino um idoso ou  pessoa com deficiência a descer as escadas e indigno-me. Mas tenho de parar com as indignações pois já basta o que basta e que me toca pela porta.
O metro demora a chegar cerca de 2 minutos. Sento-me num lugar completamente vago. À minha frente senta-se um homem cigano, mais velho que eu, pois tem muitas mais manchas na pele do rosto  e muitas mais rugas. Veste a preceito, fato com gravata e exibe um troley. Não tira os olhos de mim e isso aborrece-me. Porque não fixa um ponto no fundo do metro, fingindo estar a observar algo alheio a mim? Assim que a gravação anuncia Terreiro do Paço, levanto-me e encosto-me à entrada, de costas para a criatura. O resto da carruagem vai vazia não fosse uma mulher muito bem vestida, cabelo comprido impecável, lábios pintados de castanho, bonitos, que me olha. Olho os seus olhos e reconheço-a. Clara Pinto Correia. Minha xará. A  professora, bióloga e escritora que também cresceu por terras de Angola, irmã da outra, a Margarida,  que por sua vez é casada com o Luís Represas, que bem, há quem não diga maravilhas da sua, dele, personalidade, mas eu é ver para crer, como São Tomé. Esta mulher de metro, na linha azul a caminho de Santa Apolónia...muito bem. Calha a quase todas. Mas nem todas têm a sua classe. Um pouco mais velha que eu, está giríssima e bem cuidada e se eu fosse um homem baboso diria que ainda rompendo meias solas, ou melhor, as solas todas. De facto a mulher está com tudo.
Se não fosse cá por coisas tinha umas coisitas para lhe dizer. Pois que esta senhora desiludiu-me e muito. Tinha-lhe simpatia e admiração. Comprara até os seus livros e eis senão quando uma escandalosa notícia denunciando  plágio a dois textos da revista New Yorker me deixou incrédula e furiosa. Porque me fizeste tu isso Clarinha? Era praticamente o mesmo que descobrir que Mia Couto não era autor das suas frases, de trechos dos seus belos livros. Menina feia,  como foste capaz de desiludir uma tua fã? Tinha-a ali mesmo à frente do meu nariz  e apeteceu-me deitar-lhe a língua de fora, fazer-lhe asneiras com os dedos num na-na-na-na-nã, toma toma, de vingança, por em tempos ter ficado tão amargurada por sua causa. Ao invés disso, saí direita à Praça do Comércio. Às 2,30 anda por ali muita gente. Muitos turistas. E atravessam para o Cais das Colunas e tiram fotografias e sentam-se nos bancos de pedra...
Olhei para lá. Vi uma mão dizendo adeus. Não há nada a fazer. A nossa gente, é a nossa gente. Estejam onde estiverem damos com eles mesmo que seja como agulha no palheiro. Abri os braços, brincando, como se há muito tempo não nos víssemos. Ainda não tinham passado 24 horas da última vez. Sorri. Diz-me que eu sempre que a vejo sorrio. Faço jus ao mexerico. E acaba aqui a minha viagem. 

A fila !

alfamando-me

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Na verdade, quando se está de férias a hora a que a gente se levanta pode ser qualquer uma. Mas, parece que algo dentro de nós, nos diz que está na hora de levantar, falando-nos ao ouvido num sussurro de hábito, exigência antiga, sendo ajudada por uma gata sempre de férias num vício de dormir de noite e de dia e que nos faz acordar, dar voltas e mais voltas, espumar de raiva porque esta é que é a hora de aproveitar este bem de Deus e do nosso patrão, ministério. E não  aproveitamos porquê? Se calhar porque dormir não é interessante. É que nem tudo o que é imprescindível a gente gosta.
Às vezes viver é de uma complexidade que vale mais atirar as questões para trás das costas, erguê-las, às costas, e fazermo-nos à vidinha de olhos bem abertos mas numa preguiça danada de boa, num encolher de ombros que tanto faz que corra para a frente como para trás, para a direita ou para a esquerda, para norte ou para sul. Em suma, num sonambulismo que é urgente sentir antes que se acabe tudo e voltemos à rotina do despertador e tudo o que isso traz.
De novo me vesti de acordo com o programa para o dia. Calças de ganga, t-shirt e casaco,  porque o tempo está inseguro, como o país, sabrinas e mala traçada pois que há por aí muitos malandrecos danados para a brincadeira e eu estou farta de ser roubada por chicos espertos, com ar de grandes e honestos senhores.
Plano para o dia - Visita a Alfama. A pessoa vai a Alfama de noite. E acha aquilo giríssimo. Típico. Até se entusiasma e lhe parece divertido, não só divertir-se na noite mas ter ali uma casita e beneficiar da convivência de bairro. Tudo muito à vontadinha, muito faduxo, gente simples, gente nova, muita língua italiana, espanhola, francesa. Muita esplanada repleta. Muita ginjinha e cerveja. Pertinho de tudo. Da Sé. Da Baixa. Da Graça. Do Castelo. E até do rio e de Santa Apolónia que os mais velhos põem na lista das prioridades como principal porque transporte é algo fundamental.
A pessoa vai a Alfama de noite e quer voltar. E mais. Quer voltar de dia para fazer o reconhecimento. E volta. A cada rua, viela e beco. Escadinhas, pátios e largos. Igrejas, casas, janelas e varandas. Mercearias de bairro, casas de fado, bares, lojas de indianos, chineses, tascas e associações. Esplanadas, restaurantes típicos. Flores, árvores, vasos. Miradouros com vista para o Tejo. Brincadeiras de crianças. Silêncios nas esquinas. Tempo que parece parou por entre as encruzilhadas deste bairro antigo que nos acena e seduz numa conquista mútua e interesseira mas consentida.
Perigoso? Não me pareceu. Andei por entre todo o bairro com a máquina fotográfica nas mãos. E tudo correu com a normalidade a que já estou habituada nos locais pacíficos de Lisboa.
Caro? Também não. Tirando aquele pormenor de quererem que pagasse azeitonas sem lhe ter visto a cor, tudo normal. Não fôssemos conferir a conta e já estávamos a ser roubadas como o são os turistas estrangeiros, mas a gente anda cá para ter os olhinhos bem abertos. Um café, 1 euro, mas vamos fazer o quê, mesmo? pagar e não bufar, pois então.
Entradas: manteiga, patés e pão. Peixe grelhado, salada, batata cozida. Água e cola. Café. Total, 21,30 euros. Não me parece mal. Pratos de 6,50 cada. E como o pai dum amigo da cria diz, dobra-se o preço do prato e dá 13 euros a cada um. Como não houve sobremesa, porque essa foi saboreada, comodamente sentadas no Santini do Chiado, a conta não correspondeu à estatística do tal pai do tal amigo mas andou ali rés-vés Campo d'Ourique, quer dizer, Alfama, Tejo.
Resumindo e concluindo, Alfama faz, como se diz em Angola. E aconselho vivamente uma visitinha a esse bairro pitoresco e sedutor que Lisboa tem nos postais e nos roteiros turísticos.
Eu fui e adorei. É claro que não vou mudar-me de armas e bagagens para lá, até porque os acessos são difíceis, os bombeiros, ambulâncias, táxis, autocarros não se movimentam com muita normalidade e há outro pormenorzito de alguma importância. Senhoras, saltos altos naquele bairro, esqueçam. Ténis e sapatos rasos de preferência aderentes pois a calçada polida manda convosco para o chão. Uma perna partida na nossa idade, pode dar pano para mangas.  Safei-me dessa porque óoooo, pensei nisso antes de sair de casa.
Por isso, Alfama-te sempre que possível. Eu tenho-me Alfamado, quer de noite quer de dia e tenho gostado bastante. Qualquer coisita, perguntem, se eu souber, respondo. Tenho os meus contactos, yá?

olhar sobre Cascais














povo, muxima e fé



Se sorrio
Ao sol da tarde
E converso ao luar
Se chamo 
Amizade
Às gentes da minha rua
Se sou amante do mar
E me entrego
E me rendo
E sou sua
Se canto
A chuva e a terra
As kiandas 
E calemas
As acácias 
E o não à guerra
Então 
Eu sou angolana
Povo, muxima e fé
E alimento a paz na raiz
E faço crescer na savana
No planalto-
Na mata e no deserto,

E tenho como certo,
Um belo e grande país


m.c.s.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

2002/2012 - Paz em Angola


Filipe Mukenga - Angola no Coracao.avi

o metropolitano

foto tukayana.blogspot
Tenho de dizer aqui. O metro é deprimente. Basta ser um rastejante que se infiltra e refugia nos buracos húmidos e sem luz da terra, para não dar saúde nenhuma a ninguém, e ainda provocar em nós este instinto ruim e dissimulado de toupeira que surpreendentemente ora está aqui, para logo a seguir estar acolá, e ainda nos intervalos, ser visitado por um instinto predador que nada abona para a elevação espiritual. 
Às 11 da manhã de um dia de semana, o metro começa em Odivelas já meio completo. 
Não é confortável, o metro não pretende ser confortável, isto sou eu a alucinar, dizia que não é confortável haver bancos virados uns para os outros, pois que não havendo paisagem para distrair e disfarçar o tédio, jornal para ler, tudo é custo e a vida não está para gastos, ou companhia para conversar, temos de olhar uns para os outros a menos que fixemos um ponto e não nos afastemos dessa visão distante e ausente, ainda assim, correndo  o risco de estar um engraçadinho lá no final da nossa projecção do olhar que sorri obscenamente convencido que já estamos de quatro.
Para onde vão todas estas pessoas em dia de trabalho numa hora morta como é esta que antecede o almoço? Parece estúpido questionar-me se faço parte dessa gente que consegue sentar-se na estação inicial e que aos poucos vai entrando, no Senhor Roubado, na Quinta das Conchas ou no Lumiar e tomando lugar em pé e quando chega ao Campo Grande já está como sardinha enlatada. Se quero ir para o Cais do Sodré, mudo e conforme o momento, espero ou corro para a linha verde, a terrível linha verde que transporta todo o tipo de gente e mais aquela a que chamo de três ao prato, dado que é longa e vai parar na Alameda, Arroios,  Anjos, Intendente, Martim Moniz e ... enfim, não é o preconceito a falar, é a triste e escandalosa realidade que retrata nos rostos e nas vestes a vida que têm ou não têm e a que sou alheia dado que apesar de ser uma peça do jogo nada faço para que estas pessoas estejam sempre a perder, a cair, a sobreviver, mal,  desonesta e humilhantemente. Agonizantemente...
Olho à volta. É tudo cinzento e triste. Bem sei que esta semana parece que se uniu tudo, os elementos, quero dizer, para me tramar. Se assim foi, não me afecta porque não preciso do sol  do verão, para dar umas voltas, ver o mar, comer sushi, sentar na esplanada, beber uma frise de limão, saborear frutos vermelhos comprados no supermercado, apreciar pão de queijo e gozar a liberdade dos dias servidos de bandeja e que aproveito como criança devorando gelado.
Esta palidez da vida que encontro na velha linha verde, que podia ser a vermelha,  nos rostos fechados e baços, assusta-me e penso na reforma. Não! Mil vezes me nego. Ainda tenho forças para lutar contra essa impotência ou resignação que observo. À minha frente uma mulher feia e apática olha o vizinho do lado que acabou de se sentar. Olho-o também. Parece mais um dos que dorme por cima e por baixo de papelões e da desgraça, doença e indiferença, nas ruas chiques de Lisboa. Desmanchando a personagem, a mulher faz uma careta de enjoo quando o homem coça a cabeça com as unhas; este arranca sabe-se lá o quê do couro cabeludo e parece catar e matar piolhos de seguida. O meu estômago revolve-se. O batido acabado de beber chocalha nas minhas entranhas. Não me basta o velhote a roçar a minha perna com a sua, o cheiro a guardado que exala, a verruga nojenta de grande, e peluda, no nariz, eu que tenho a mania que sou esquisita e abomino estes encostos que não desejo e tenho de levar com a criatura vestida de amarelo que mais parece a Dona Pitanga, ela que me perdoe a comparação, fazendo a sua higiene diária, pois que depressa passa às orelhas, ao nariz e às unhas sem o menor constrangimento e ainda tenho mesmo em frente de mim a feia e baça mulher que no limite vai vomitar-me p'ra cima. 
Apelo à minha boa disposição. Ao encontro que terei dali a uns minutos com o mar e com a minha cria.  Ao dia que escolhemos passar num lugar que ambas amamos. Apelo ao MP4 que me devolve " don't panic " seguido de " save-me "  E estes truques devolvem-me o distanciamento necessário para olhar a mulher que me contempla cúmplice e ter um esgar que pretende ser um meio sorriso, um pálido, descomprometido e insignificante sorriso. Ela não entende. Agarra-se ao meu gesto e encolhendo os ombros, olha de esguelha o parceiro do lado, franze o nariz e tenta sorrir-me mas os seus lábios fazem a careta própria de mulheres que precocemente envelheceram e transformam um gesto espontâneo e simpático numa curva que acaba no queixo e  é desajudada pelo buço que mais parece um código de barras. Sem querer toco os meus lábios com os dedos da mão esquerda. Não. Ainda não estou nessa fase. Não aguentaria ver um código de barras na minha cara nem os meus lábios numa careta involuntária.
A velhice é uma cabra. E burra. E dá coices que nos deprimem. Como o metro.
Felismente, pára no Cais do Sodré. Os meus vizinhos saem. Eu espero calmamente.
Para onde vão todas estas pessoas em dia de trabalho, antes da hora que antecede o almoço?
Lisboa está de férias, tem muitos reformados, muitos desocupados, desempregados e até afortunados. E sobreviventes. Que nem eu.
Carrego o cartão e sigo para Cascais de comboio. Mais uma viagem, mais uma voltinha...

terça-feira, 3 de abril de 2012

parabéns Leandro



De repente, muito de repente que me pareceu levar um soco no estômago fiz as contas.
Trinta anos. Muito tempo. Muitas noites e muitos dias. De mim a envelhecer. De ti a crescer.E a tornares-te adulto. E a surpreenderes. Mudas o teu destino quando decides recomeçar a estudar e fazeres a faculdade em Coimbra. Vais perseguir o teu sonho. O teu dom. A tua forma de estares na  vida. E traças uma linha e mostras-me que és homem já. Com personalidade, com ambição, inteligência  e e determinação. Com coragem. Por isso hoje não estás aqui, mas do outro lado do mundo. Porém o longe se faz perto e por isso já falámos. Quer dizer, já teclámos. Foi como se estivéssemos a olhar nos olhos um do outro.
Disse-te: - Parabéns - e tu respondeste: Vou ter saudades. E eu continuei ... a você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida e tu escreveste - Já estou com saudades - e eu vacilei e o queixo tremeu - Hoje é dia de festa cantam as nossas almas, para o menino Leandro, uma salva de palmas...
E posso dizer-te que eu é que senti o segundo soco no estômago. Comoveste-me. 
Estás longe, mas o longe se faz perto quando gostamos uns dos outros.
És o meu sobrinho há 30 anos. Hoje comemoras mais um aniversário. É indiferente se estás perto ou estás longe. Moras no meu coração. E desejo-te todo o bem do mundo. Hoje e sempre.
Só que hoje acho que to devo dizer.
Meu querido, muitos Parabéns por seres quem és e por mais um aniversário que completas.

Gosto muito de ti. Tem uma vida boa e longa. E sê feliz nas tuas escolhas. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

constatando

Ser idiota é mais divertido do que ser inteligente.
Mas ser divertido nada tem de idiota, e tudo de inteligente, digo eu.


eterna



Eterna queria ser
Nesta vontade de sonhar
Nesta ânsia de te amar
Neste medo de te perder


E orar ao universo
Num apelo visceral

Num desejo imortal
Possuir-te em cada verso


Promessa de intenção
Rima no meu poema
O maior de qualquer tema
A minha melhor canção



Eterna queria ser
E livre de toda a dor
Morrer  no teu amor
Para voltar a nascer

m.c.s.


Duo | Caetano Veloso & Maria Gadu - Leãozinho

domingo, 1 de abril de 2012

a pose da gatona




A Pitanga ainda não se sente em casa, dado que desde Setembro que não vinha para cá. Mas já começa a ocupar espaço. No fundo, no fundo, ela depressa se sente dona e senhora de tudo o que se vê e não vê, numa posse atrevida e folgada que gato que é gato tem e quando é siamês pior. 

ramos do domingo de ramos

fotos tukayana.blogspot
De manhã é que se começa. Vendendo ramos em dia de Domingo de Ramos. 
O custo de cada um? Um euro. Bem vendido, sim senhora.

Dia das Mentiras


É Hoje!!!
Já pregou alguma mentira?
Eu não. Mas eu abomino a mentira. Já partidas, acho piada. É preciso arte e manha para pregar uma peta a alguém daquelas que se cai que nem patinho...
Não invente que ouviu ao nosso (?) primeiro que os funcionários públicos vão receber subsídio de natal porque já ninguém acredita numa palavra da criatura, quanto mais  que algum dia virá a receber qualquer subsídio.

diário de domingo de Ramos

foto tukayana.blogspot
É assim há alguns anos. Cá em casa. Desde que se viaja. Chamo o taxi. Desce-se as malas. Pelo túnel do grilo ou pela calçada de carriche, em dez minutos chegamos às partidas.
Gosto. Muito. Da movida dos aeroportos. Gosto de ir para a fila do check in, gosto de ver as meninas trabalhando. Quase todas bonitas. Gosto de ir beber um descafeinado ou mesmo tomar o pequeno almoço. Sento-me quase sempre no mesmo lugar. Gosto de os ver passar. Aos membros das tripulações. Há-as que conheço, uma grande parte. E pergunto-me porque não fiz eu como a Milú, Susete, Carolina, Salú, Mena?  Talvez saiba a resposta. Para além de não ter ficado em Angola como elas, tinha medo dos aviões. Achava que o avião onde fosse cairia na certa. Nunca deixei de viajar por o medo me dominar. Mas a última vez que tive medo, viajava a 25 de Abril e no início do mês deixara de dormir tendo dado como certo que seria a última vez, numa paranóia que não percebo como fui capaz de desenvolver tal pânico e ainda assim viajar de corda no pescoço conformada com a minha triste sorte e acalentando uma esperança mínima de poder safar-me do que dava como certo. Era preciso uma saúde dos diabos para tamanha auto-perseguição. Depois dessa viagem e com o meu regresso a Luanda após 33 anos, perdi todo e qualquer medo e foi aí que me arrependi de não ter sido assistente de bordo. Afinal, todas as miúdas de 15 anos quiseram ser hospedeiras, como dizíamos na época. Em suma, o que nós queríamos era ser giras, elegantes,ganhar bom dinheiro e viajar muito.
Cheguei então ao aeroporto e a movida a que assisti fez-me pensar que a crise é só mesmo para alguns e eu sou um desses alguns. Sim porque nem todos ali viajavam a trabalho. Famílias inteiras, com menores, férias da Páscoa está-se mesmo a ver.
Depois de um descafeinado, uma meia dúzia de palavras, uma ida à casa de banho,  chegou a hora do abraço. Aquele que é maior do que o universo e que não cabe no mundo nem em qualquer eternidade que possa existir. A lágrima chegou. E num vai com Deus, dei meia volta e saí que prolongar a dificuldade a que não me habituo é sofrer a dobrar. A última vez que fui àquele lugar fui alegremente abraçar a mesma pessoa e até brincamos, eu e a minha companhia,  escrevendo numa folha A4 - Filho pródigo - ali ao lado dos que têm as folhas com os nomes das criaturas que vão buscar, são sempre homens vestidos de fato preto e camisa branca, vai-se lá saber porquê e que nos olhavam intrigados. Gosto mais de chegadas. Só gosto de partidas quando sou eu a voar nas asas do pássaro máquina.
Desço as escadas rolantes para as chegadas. E saio para a rua. Opto por apanhar o 44. Uma achega que me foi dada antes de nos separarmos. Entrei e perguntei: Passa no Oriente? . Não minha senhora, é do outro lado que tem de apanhar o do Oriente. Este vai para o Marquês. - Serve na mesma, disse eu decidindo que ia até à baixa em vez de ir ver o rio pelo Oriente. O homem fez uma expressão que queria dizer - Idiota - com todas as letras. Como é que Oriente e Marquês podem servir igualmente? Deixei-o pensar o que quisesse. Não tenho que me explicar. Ter entrado naquele autocarro permitiu-me perceber que posso ir para casa de autocarro acabadinha de chegar de avião, à Portela.   Basta apanhar o 44 e sair em Entrecampos. Depois fazer o restante de metro. Fica bem mais barato. Mas, até dizem que em Junho já teremos metro à boca da manga...
Liguei o MP4. Coincidência das coincidências, Cults - you know what I mean...senti um soco no estômago. E chorei. Chorei sim. Na maior solidão. De mãe. Ser mãe é a melhor coisa do mundo mas a mais sofredora também. Ergo os olhos p'ra cima e peço a Deus tudo de bom...
Saio no Marquês. Decido fazer a avenida a pé. À minha frente um sem abrigo que de 20 em 20 metros pára em frente ao latão do lixo fixo na parede e vasculha o que por lá há. Agonia-me esse gesto. Como é possível haver gente que recorre ao lixo em busca de algo p'ra comer ou beber?! Estamos na Europa.
O Rossio àquela hora não tem ninguém e há quem durma em cima de papelões junto ao teatro Dona Maria. O Café Gelo já está aberto e a montra piscou-me o olho traquina e vistosa. Pães com chouriço, cangurus, bolas de carne, folares da páscoa, pães de queijo, e pão simples, desde o caseiro ao de sementes, passando pelas videirinhas e pães d'água. Lembrei-me da miúda a quem dei 10 euros no natal. A grávida. Se andasse por ali reconhecia-a. Subi a rua do Carmo. Os Armazéns do Chiado e o Santini ainda não estavam abertos. Estava no Chiado e queria ir à igreja. À Basílica dos Mártires. Uma mulher jovem, falando italiano e perdida de bêbada grita por outra que está lá em cima, junto da loja da Pipoca, a caminho do Largo do Carmo. A Brasileira abriu mas a esplanada está vazia, apenas o Fernando Pessoa a fazer-lhe companhia. Vou espiar a loja de produtos de cosmética dos holandeses ali mesmo ao lado da Haagen- Dazs. Tudo fechado.
Faço umas fotografias por ali. Não me apetece descer até ao rio. Na verdade o que me apetece é sentar-me na igreja. E depois voltar para casa. No 36. À porta da igreja três vendedores de ramos, porque hoje é Dia de Ramos, comemoração da chegada de Cristo a Israel.  Comprei um. Caro. Achei eu. Um euro. Entrei na Igreja...