terça-feira, 4 de janeiro de 2011
chove
Dizem que é porque vim mais cansada que nos outros anos, ( talvez ) ou da idade ( não aceito isso ) ou simplesmente porque estou relaxada ( já me parece bem ).
Estar em casa descontrai e permite a entrega do corpo e da alma ao descanso e ao prazer da preguiça.
Hoje chove. O programa já foi para o brejo. E era aliciante.
Chove agora como na Europa. Noites a fio. Manhãs a fio. Como não me lembrava. Numa chuva molha-tolos, muito malaika. Ontem ainda vi cair uma chuva forte durante cerca de uma hora, depois ficou aquela coisa aborrecida de inverno de mentira tipo parece mas não existe.
É caso para dizer que mandei-a vir agora tenho de a gramar.
A temperatura está amena e apetece estar na cama tapada com os lençóis. Quer dizer, sem desligar o ar condicionnado, mas na madorna. Se tivesse aqui a Pitanga, aiuê minha Pitanguinha que tenho tantas saudades dela, até ouvi dizer que está numa boa, obedecendo nos pedidos de beijos nas crias, gato é assim, falso!!! Mas se ela estivesse aqui já estava com a patinha arranhando o ededron para entrar na cama e ficar quietinha e enroladinha num novelo parece lã cor de café com leite claro. Mas ainda bem que não está, porque segundo ouvi dizer, os chineses fazem pincho de cão, gato, rato, tudo o que mexe...ai que nojo, que horror, pobres dos bichinhos, que até fico com as tripas às voltas e estou em jejum.
Entra um ar fresco pela janela do quarto. Gostoso e matinal. Menos poluído. Quase não há trânsito na Rua da Missão. É feriado, tipo parece tolerância de ponto. Me disseram para o ano já não vai haver, uôooooooô, bem feitos, ainda agora tiveram esses feriados todos de Natal e Fim de Ano e já estão a se esticar de novo...é por isso que este país ...
Aquelas coisas que todos os países, quer dizer, se calhar todo o povo de países que falam português diz que é mais ou menos assim - É por isso que este país não vai para a frente.
Eu não quero saber se está parado ou não. Eu estou de férias.
Mas eu que não sou cega vejo que a cidade anda que se desunha. Numa berrida que parece viu alma penada em noite de sexta-feira treze. É só ver o trânsito ( está um pouco melhor ), as obras, os prédios novos, a ponte aérea para a Ilha, a variante que vai parar na Samba, o lixo que já quase não existe mais, os carros aspiradores limpando as ruas pela noite dentro, o carro do fumo, os hotéis sendo inaugurados, os jardins, os restaurantes novos, os centros comerciais que quando eu voltar já estarão a bombar em pleno, o aeroporto que está totalmente novo e os parques de estacionamento e acessos também, a Ilha com alguns metros, talvez um quilómetro toda novinha podendo já praticar desporto nesse espaço com lugares próprios para o efeito e iluminação na areia, o embarcadouro para o Mussulo, os acessos para as províncias, o acesso à faculdade, jovens cursando à noite e trrabalhando de dia, cá dentro, e outros, os que vão estudar para fora, regressando e ocupando os quadros superiores que eram de portugueses e outros, as reformas sendo pagas e os descontos sendo feitos, a saúde tendo cada vez mais hipóteses de vencer o medo de morrer por falta de assistência, cara, mas já existente, os valores morais sendo repostos, o conceito de família que vence...
Podem dizer que o país não vai para a frente mas são bocas da reacção. Este país está a mudar. E até nas mentalidades.
Deixou de chover. Pode ser que tenha sorte e o programa aliciante ainda se cumpra.
Quem nada tem, nada tem a perder e tudo o que vier é ganho. Eu estou a ganhar desde que nasci nesta terra morena e linda de África.
De costas ou de barriga eu ganho sempre que volto e quer faça chuva quer faça sol estou feliz...ainda.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
carga d'água
o fato às riscas
O Baba resolveu dar um ar da sua banga e voltou a " inzigir " a sua prenda que há-de chegar de Lisboa.
Ele não quer aceitar que os aviões da companhia onde ele trabalha estão parados por falta de motores que já não se fabricam mais e por isso não vêm de Lisboa, nem o seu fato que a Farnanda ( Mimi ) está para lhe mandar de presente de Natal.
Abordou-nos à saída do parqueamento do prédio e continua a achar que se a TAAG não vem, vem a TAP. Manda pela TAP, então!...
Como não há prendas à vista fez-se a umas notas em kuanzas. E os corações moles aqui, lá lhe depositaram uns kuanzas. Visivelmente satisfeito agradeceu - Obrigado tia. Essa tia sou eu, que de repente tenho sobrinho negro. Ele fica atrapalhado comigo e nem olha direito para mim. Vê-me de máquina na mão e sente-se o verdadeiro artista.
Não, o Baba Ganhou!
Farnanda, manda lá então o fato pela TAP, botas diz que não quer. Bota pra quê? Estou a trabalhar. Bota é para jogar à bola...
Caxam, caxam!
o tempo
caipirinhas e etc...
Vida boa esta!
Não quero nem saber se tem consequências.
Quinze dias a pão e água era pobre demais. E no fim das contas o resultado ia ser igual. E eu não sou sonsa. A única bebida alcoolica que não gosto é vinho tinto. Podem-me chamar o que vos apetecer, mas não gosto. Aliás, nunca bebi. Nem sei se gosto, mas não quero gostar e ainda sou eu que mando nos meus quereres.
Uma caipirinha foi á única bebida alcoolica que hoje me dei ao luxo de beber. O resto foi, água, leite e chá.
Porto-me bem, ou quê?
Quê né?!
Chicala guest house
esta terra...
Esta terra que me chama é o lugar onde me perco e encontro.
E brinco de faz de conta que o tempo não passa mais e ainda permaneço na minha infância livre de culpas.
A esta terra que me chama eu respondo sempre.
a madó
A Madó chegou.
-Bom dia d. clara.
-Bom dia Madó. Bom Ano.
- Para a senhora também.
-Passaram bem? A menina melhorou?
- Não senhora, d. clara. Foi parar no hospital. Levou injecção e está tomar medicamento para melhorar, mas ficou sem voz.
- Ficou em casa com quem?
- Com a babá. Ela tem babá... e a família da d. clara, passaram bem?
- Sim, os meus filhos já chegaram do Algarve ontem. Estão em Lisboa.
- Ah, assim tá bem. Sim senhora. A d. Milú?
- Está a dormir.
- E a Ana já disse alguma coisa? Chegou bem?
- Sim, acho que sim. Chegava de manhã.
Esta é a Madó, empregada da minha kamba. Veio trabalhar. Conheço-a desde 2008, quando estava cá em casa com a Nica. Apenas engomava e tratava da roupa.
A preocupação dela com as pessoas desta casa é verdadeira, A educação também.
Tem um rosto bonito e doce.
Entra pela casa dentro que até assusta quem não está à espera. Já me habituei a ela. Logo pela manhã chega e começa a trabalhar. Já lhe conheço os rituais.
É uma querida, mesmo.
anos de vida
Então lembra leite em pó com açúcar e água. Aquela pasta às colheres...saudades aiuéeeeeeé!
Farinha de pau com açúcar e água ou leite, xé, querim-mi matari!
Eu lembro flocos de aveia, que só como aqui, desde os tempos do ualálá, cozinhados no fogo, com leite, casca de limão e açúcar.
E fomos para a cozinha, na hora dos galos cantarem e a cidade estar mais quieta e se saboriamo mesmo ueeeeeê, um prato de flocos de aveia que soube pela vidêeeee.
Isto é estar em Luanda. E dá-me anos de vida.
Brigada Milú!
apesar dos pesares
Os voos atrasaram e tive tempo para esperar...sentada. E observar tudo.
O aeroporto está novo. Moderno e mais amplo. Não fosse o gerador não estar a aguentar o sistema e nem dariamos por nada.
Pude sentir um friozinho só de pensar que esta semana lá vou eu fazer o mesmo que a kanuca. Sabe-se lá até quando...
Lá de dentro recebi um telefonema isto ao fim de quase uma hora de espera, da minha kamba que queri mi matari, dizendo: Isto é para veres o que te espera a semana que vem.
Eu que queria não ter de sofrer por antecipação já estava ali para ver in loco a realidade que constantemente eles todos me querem mostrar e que eu desvalorizo sempre. Eles é que sabem. Eles é que vivem cá.
Mas apesar dos pesares, que a minha cidade kuia, kuia e isso é indiscutível.
gandas férias
Falta aqui o biquini azul ou verde mas tem andado quase sempre vestido. Não dá para tirar e o meu corpo de feiaaaaaa pareci sereia não ouso colocar aqui.
Euê, querem-mi matari com tanta comida.
Bem, não sei se perceberam mas estas últimas frases sairam de duas músicas neste momento na berra aqui na banda. No fim de ano foi o que se quis; ouvir, cantar e dançar.
Querem-mi matariiiiiiiiii...
Você é feiaaa, pareci sereiaaaaaaa...
domingo, 2 de janeiro de 2011
piscinando
Estas criaturas são na maior parte francesas e chamadas de expatriadas. Vivem e trabalham em Angola, na empresa Total, que foi a junção da Elf, Fina e Total. São pessoas muito novas e que ocupam quadros superiores, ganhando muitissimo bem mais que os angolanos que ali trabalham.
De qualquer forma, esta piscina recebe os expatriados e os angolanos que pertencem aos quadros superiores. Faz parte de um Hotel que existe à entrada da Ilha, virado para a contra-costa, e que é pertença da Total.
Eu passei ali o dia com as minhas kambas, uma delas pertencendo aos ditos quadros superiores.
É bom fazer vida de dondoca. Férias são férias.
Obrigada São.
fujão
Hoje assisti a uma cena que meteu Meeeeeeeeedo.
O albarroamento de um condutor de um jipe, por outro. Civil, acompanhado de um polícia.
De uma violência extrema. Ali defronte dos meus olhos a fazer lembrar-me as cenas dos militares da FNLA para com civis, brancos, mestiços e negros apenas porque vinham da Vila Alice, onde o MPLA tinha a sede, isto em 1975.
Percebemos que o condutor, que no caso era branco, mas que não é a cor que dita a violência e sim o acto praticado pelo fujão, que deu para todos os que assitiamos percebessemos, tinha atropelado alguém. E não interessa se teve culpa ou não. O que interessa é que fugiu.
Ninguém pára. É tão perigoso parar como fugir e ser apanhado. As populações tornam-se violentas e apenas querem fazer justiça (?) pelas suas mãos.
Foi na Ilha. Logo à entrada. De dia. À noite dizem, é pior.
a saúde...
Numa clínica privada, dos arredores da cidade.
O enfermeiro da urgência.
-É para apanhar pica?
Depois de lhe terem dito que sim, era para apanhar uma injecção, perguntou:
-Onde é que compraram essa seringa?
- Na clínica em Luanda.
-Essa agulha é de criança, fica sujeita de partir.
Depois resolveu falar dele.
- De início fui estudar só para dar picas, mas como papá já tinha gastado, estudei as outras coisas também.
Dar uma injecção na clínica dos aredores da cidade, custa 960 quanzas. Quer dizer, aquela custou. Numa clínica da cidade, pertença de médicos peruanos custou menos três vezes. O que se depreende que " através " do luxo, fica mais caro mesmo.
entrevista
vendendo cana
Quitandeira de cana-doce dos velhos tempos. De saia de panos e chinelo de meter no dedo, descendo a avenida até à Baixa.
Quero abraçar-te
Na natureza do simples gesto.
Dar-te os braços e enlaçar-te
Na pureza que vem da alma
No calor que faz em África..
Mais do que tocar tua pele morena
Tocar-te os sonhos
De frente. Olhos nos olhos desta gente
Que são da cor da paz
E sabem a maresia
E falam ternura e afago
E crepúsculo feiticeiro
Quero abraçar-te assim
União da terra e céu
E sol e mar
Saudade de amar,
Prazer de ser
De te ter...
Quero abraçar-te assim
E ficar-te em mim...
transição
As pessoas com quem me cruzei diziam que este ano não estavam para gastar tanto e a alternativa era uma reunião em casa ou uma festa mais ou menos de família em algum quintal.
À semelhança dos outros anos, houve fogo de artifício na Baía, que eu não vi.
Também houve quem viajasse para as províncias, aproveitando a ponte pois que terça-feira será feriado.
Eu, nós aqui, comemoràmos o fim do ano de 2010 e o início deste novo ano numa festa no Nova Vida entre pessoas de família, dos 0 anos até aos 80 e tal. A música muito boa, a bebida de primeira qualidade, as comezainas mais que exageradas e tudo óptimo. Mais de 50 pessoas.
Os abraços de vestes brancas.
Ai os abraços que recebi...de um tamanho sem tamanho...
Os afectos à flor da pele, respirando amor e alegria.
A festa que foi interrompida às oito da manhã, recomeçou às duas da tarde com banho na piscina, sol, e música do tempo em que ouviamos - Receba as flores que lhe dou, em cada flor um beijo meu...e terminou à noite com Paulo Flores, em chuva chuviscada numa benção dos céus, tocando-me a pele e aquecendo-me a alma até ao choro.
Foi um fim e início de ano diferente. Que eu não vou esquecer nunca mais.
Amanhecer em Luanda vendo o dia do novo ano clarear era tudo o que eu queria. E foi mais do que isso, muito mais.
Sakidila a todos. Moram no meu coração que queria bem maior para receber tudo o que me dão.
Às vezes tenho medo que ele não aguente tanta emoção...
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