O Jeremias acabou de aparecer à janela. Não o vi, porque apareceu por de trás do cortinado castanho. Mas fez-se anunciar.
Não gosto de ver o Jeremias aparecer nem tão pouco de o saber por perto. A rondar a janela e a porta da varanda.
Mas afinal quem é o Jeremias? Até há duas semanas não sabia da sua existência.
O Jeremias é um gato. Melhor, um gatão. Não tanto por ser grande mas mais por ser lindo. Preto e branco.
Nunca antes soubera que se podiam partilhar gatos. Este tem sido partilhado. Entre uma casa e outra. Uma portinhola e outra. Uma varanda e outra.
Será que é por estarmos paredes meias com a Mouraria, uma quase aldeia, carregada de simbolismo, tradições e outras satisfações?
Não sei. O que sei é que o Jeremias vem à janela reclamar um espaço que julga ser dele. Que a nova moradora da casa aceitou que continuasse a ser.
Julgo que lhe deu o cheiro a Pitanga e apesar da portinhola de gato trancada, todos os dias volta e espera pacientemente.
A Pitanga reage. Mal, claro. Não está habituada a gatices. E depois, este gato desencadeou o cio da pobre bichinha.
Estou no meio do fogo cruzado entre um gato, que se apanha a minha gatinha chama-lhe um figo e a minha querida Pitanga que acho que em nome das leis da natureza se deixaria seduzir facilmente pelo gatão Jeremias.
E ando eu aqui de braço ao peito fazendo o papel da bruxa má, a empata neste flirt pegado e desejado. Tudo em nome da moral e dos bons costumes.
Ahahah, mentira! Deus me livre gatinhos. Se uma Pitanga já dá que fazer, uma Pitanga mais anexos seria um pesadelo tão grande como estar há uma semana de braço ao peito.
Não é humano tirar crias a uma mãe. Não é possível ter uma mãe fidalga e as suas crias num apartamento, sendo alimentadas a latinhas gourmet.
Parece-me assim que o romance entre o Jeremias e a Pitanga não passará de um namoro virtual, afinal como há muitos por aí entre gatos, ou não.
Que situação!...
Que situação!...