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sexta-feira, 13 de abril de 2012

mais uma viagem


Mais uma viagem. Mais uma voltinha.
E aqui estou eu paredes meias com Lisboa e espreitando Odivelas.
Tive um convite pela manhã.
- Clara, quer vir para Lisboa? 
- Quero.
E vim.  Assim fácil, fácil. Não foi a primeira vez. Não será a última, espero. 
Aceitar uma viagem de automóvel, num super automóvel, numa super companhia, é aceitar viajar calma e comodamente. É fazer auto-estrada em 50 minutos, uma vez que chove e é sexta-feira. É conversar fora de portas, fora do emprego, fora de olhares que espreitam, ouvidos alheios que ouvem e querem saber mais do que devem. É respirar o fim de semana duma forma tranquila.
Não há dúvida que a minha correria diária entre boleias e autocarros, metros e comboios, quilómetros a pé e horas no sofá cansam, stressam e adoentam-me.
E perguntei-me pela manhã como iria sobreviver a uma viagem de autocarro ou comboio, a caminho da capital, isto se o mano Zé me pudesse levar à estação. 
Esta boleia, hoje, caiu que nem ginjas porque todo o dia passei mal.
Não sei o que tenho. Não sei o que me doi. Não sei se me doi, se tenho, ou se quero alguma coisa.  
Este tempo está de estalo e há dias que eu sinto que não vou para nova. Mesmo...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

oferta



Subi o viaduto. Cedo demais. Saí de casa antes da hora. No alto, esperei pela boleia que me levaria ao trabalho. Enquanto esperava ia observando o que se passava ao meu redor. Há muito tempo que pela manhã não andava por aquelas bandas, a pé.
Um automóvel preto parou uns metros à minha frente. A porta do pendura abriu-se e uma mulher sorriu para mim: Vai para Alcanena? Venha.
- Não obrigada. Estou à espera de boleia.
Ela voltou a entrar no automóvel e brindando-me com um sorriso e um aceno de mão lá se foi.
Quem era esta pessoa simpática que me cativou desde que me cumprimentou a primeira vez? Que se despede de mim diariamente e à sexta-feira se despede com um bom fim de semana, no Natal com os votos que todos conhecemos e que me desejou bom ano? Num português mal amanhado desvalorizado pelo sorriso e o brilho nos olhos azuis lindíssimos? Não é senão uma passageira do autocarro do sr. margarido, que todos os dias viaja connosco. É ucraniana e trabalha na vila. Desce uma paragem antes de mim e com o sorriso, a educação e simpatia que possui, quebra o gelo, o cheiro a mofo que por vezes vai naquele autocarro.
Fiquei sensibilizada com a sua atitude e da pessoa que a levava e que não sei quem é. Embora ache que assim é que tem de ser, não tivesse eu vindo da terra onde as pessoas são francas, simpáticas e prestáveis, embora ache mesmo isso, sei que não é assim. E quando alguém tem uma atitude que já vi terem mas que nunca estou à espera que tenham, rejubilo feliz, que foi o que aconteceu hoje logo pela manhã. Desta mulher só sei o que me é dado saber. Não sei sequer o seu nome nem ela o meu. Mas hoje percebi que o nome nem sempre é importante para não sermos números.
São atitudes destas e d'outras que me incentivam a acreditar nuns e noutros e assim seguir em frente com a doce sensação de que há sempre alguém que faz algo desinteressado por nós.