sábado, 26 de maio de 2012

nossa senhora...


Nossa Senhora da Conceição, faça sol chuva não.
Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...
Parece é uma música de embalar. Parece mais que prece, é uma lenga-lenga do povo mais inocente e candengue também. Desse que numa hora a mãe acabou de dar à luz e deixou a fralda pouco tempo atrás, noutra hora já está solto no mundo, pé descalço, por conta própria, brincando de saltar à corda, de jogar às escondidas, de andar de xica,  ou de descansar da brincadeira e ir pankar jinguba com pão quente no patim da casa da vizinha enquanto a mais velha, mãe de todos, minha madrinha, conta estórias da nossa terra e das terras distantes que lhes vimos na aprendizagem das linhas férreas e dos rios, dos montes e serras e nas caixas e latas  que atravessam o mar, para virem na loja do sô Santos, naqueles barcos grandes, que vamos esperar no porto quando vem do puto mais um familiar. Sempre há alguém que chega no Príncipe Perfeito, ou no Niassa que abraça o avô, o pai, a mãe. E traz chouriço, presunto, salpicão, queijo, tudo caseiro.  Às vezes traz também chocolate dos grandes que compra a bordo.
Essa aprendizagem que lhe meti à força na memória como música de tabuada, ensinada pela  menina Piedade, que parece é sargento e nos põe a bater a pala, numa continência que ninguém questiona mais; como é que vão questionar a mais velha? Eu muito menos, apesar de estar sempre a falar e a perguntar coisas. Eu? Não,  que sei das conversas chegadas dela com o meu pai e a minha mãe. Essa aprendizagem que nos faz dizer de cor e salteado, esses rios, essas serras, essas estações de comboio, pouca terra, pouca terra, numa passada que parece é morna de cabo verde... 
Não sei para quê a gente aprende isso tudo. Acho nunca vou andar de comboio mesmo, nem vou conhecer essas serras, esses rios, essas terras. O pai diz que não vamos morar lá nunca. Aqui é a terra dele.  Ainda bem. Não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos. As cores garridas das quitandeiras e  os cheiros. Aiuê o  cheiro da terra molhada, do pão da padaria e de maboque aberto na beira da estrada. Da castanha de caju e bombô a assar. O cheiro da gajaja, da gajajaeira em frente. 
O céu da minha rua é mais azul. As estrelas da minha rua são mais brilhantes. As casas da minha rua parecem a minha casa. Todas elas. As pessoas da minha rua, são o meu povo. Aiuê, aiuê, não quero sair nunca da minha rua. Lhe conheço os cantos todos.
E lhe gosto bué.
Me lembrei que há meninas que eu conheço e sou kamba, que andam de comboio. A Susete todo o dia vem da Boavista até ao porto, na estação do Bungo, pouca terra, pouca terra, curicutelêeeeee.  Depois, apanha o maximbombo para a escola. Esse é outro como o comboio, que não lhe ando. Apesar que eles param mesmo em frente na minha casa ali  ao lado dos Bastos. Tem uma paragem  lá. Em frente da cubata da velha Mariquinhas, que lhe temos medo mas não lhe temos vergonha e lhe chamamos de velha mariquinhas deste lado da rua, e preparamos a fuga se ela corre atrás, e lhe tentamos cegar de lhe pôr a cabeça com calundu, com os espelhos, caté  deve ficar de boca para nuca que nunca viu mesmo essas coisas. Essa velha Mariquinhas parece que não, mas sabe bué, dizem mesmo que foi escrava. Ela se gaba, lá na loja do sô Santos quando vai comprar petróleo para a candeeiro, na hora que fica tudo escuro na cubata, caté se ouvem os grilos a cantar, que mete medo no escuro. Todos os mais velhos lhe respeitam e não desdizem a ideia dela. Menos os meninos que correm a sua atrás lhe gritando de velha Mariquinhas até que ela dá berrida neles. Eu não, porque ela me vai entregar no sô Santos e vou ver o cavalo marinho passar de detrás da porta onde está pendurado para as mãos dele. 
Na paragem do maximbas que fica em frente da casa da Velha Mariquinhas fica toda a hora, mas mais na hora da saída da escola dos miúdos e do trabalho dos mais velhos um mundo de gente  esperando o 16 para esse bairro novo que lhe chamam Terra Nova. E tem também outro mais longe que lhe chamam Cazenga. Nunca que fui lá. Nem de maximbombo, nem a pé, nem de carro. É nos confins da avenida. Nunca que passei do hospital. Nunca que passei dos eucaliptos  que eu avisto daqui, e ficam em frente do hospital de São Paulo onde costumo ir quando espeto prego no pé ou caco de vidro. Ali fica também a casa do cajueiro, onde dizem de boca pequena que  está lá o Simão Toco e se juntam muitos africanos a fazer não sei o quê que eu não percebo nada dessas conversas que falam.  Tenho medo dessas estórias que me contam de simão toco. Dá um frio na espinha porque parece é segredo que nunca que vamos poder contar nos outros e eu não gosto nada de segredos que ficam a me encher a memória e a saltar na ponta da língua mas não posso falar porque juro sangue de cristo que vou morrer com ele, o segredo. 
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não...
Chuva quando cai, até magoa os sonhos dos nenés que brincam na rua em frente da casa. Nos passeios das lojas, no recreio da escola ou no átrio da igreja. Já me apanhou na brincadeira de, minha mãe dá licença quantos passos, a jogar à semalha, ao berlinde, esse então, não acaba com o sonho, destroi sem dó nem piedade os buracos onde caem  as bilhas, aquelas esferas dos rolamentos dos irmãos mais velhos que ficam a inventar corridas de trotinetes para fazerem estilo, nos passeios das lojas, nas descidas, p' ra depois gritarem para as meninas que são campeões e para virarem os mais bangosos lá do bairro.
Chuva quando cai até que é gostosa. Mas depois... olha a surra que sabemos que vão-nos dar...
Primeiro saltamos  de alegria porque é banho de roupa molhada a colar no corpo, e cabelo escorrido. Chapinhar na água, com os pés nus. Depois a terra fica barrenta  parece é de propósito para sujar nossa roupa. Nos molhamos até no tutano. Quando chegamos em casa não vale a pena entrar no pé ante pé que mãe que é mãe já chamou, já procurou, até já xingou e ficou parece é caçadora de animal selvagem, nos esperando. Só o susto quando ela diz: maria claaaaaaaara!
Nossa Senhora da Conceição, faça sol, chuva não! O sol vem mais amarelo depois. Brilhante parece é lua cheia. Seca as poças que nos vão molhar quando carro passa. Mas se for na cacimba, aiuê, a cacimba fica bonita quando chove, parece é mar a chegar na minha rua, até dá vontade de mergulhar nela. Mas eu,  não. Levava uma surra daquelas, se é que sobrevivia. Eu não sei nadar. E dizem que lá tem sereia que canta de madrugada. E fica só a espreitar os que vão de abuso nas águas que lhe pertencem. Ainda me apanhava e me arrastava pelos cabelos naquelas casas todas iguais que lhe chamam de bairro indígena e me punha rabo de peixe. Nossa Senhora da Conceição...
Enquanto salto à corda, com uma menina de cada lado segurando as pontas e estou a ouvir as outras dizerem 56, 57, 58...sinto as gotas da chuva a ferir a pele escura do sol e da praia de domingo lá no Morro dos Veados e me distraio. Não quero perder. Não gosto de sair para baloiçar a corda para a outra saltar. Quero chegar nos 100, 101, 102...Está quase a ser duas horas. O sol está a pique. De vez em quando cai umas gotas d' água parece quer estragar a nossa  brincadeira.  A menina Piedade vai chegar e vamos entrar na sala para aprender mais um rio, uma serra, uma estação. Se cair uma chuvada com trovões e tudo, pode ser vamos embora mais cedo para casa. É só atravessar a rua. No meu quintal, tem um alpendre de zinco. Vou poder brincar e ouvir a chuva cair, lá de baixo. Xéeeeee, eu gosto do barulho da chuva a cair no zinco, parece é música. Vou ficar lá até a dona Celeste me chamar p'ra lanchar pão com doce de mamão que ela mesmo fez e fechou nos frascos vazios, de energetic. Ou ovo estrelado, das galinhas que fingimos, eu e a Fatinha, de nossas alunas, quando estamos a brincar de professora.  Ou pode ser ela assa um chouriço de sangue e me pergunta se quero também. Já estou a sonhar com o lanche.
Nossa Senhora da Conceição,  faça sol, chuva não. Nossa Senhora da Conceição, faça chuva, sol não...

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